segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Turista
(The Tourist, 2010)
Ação/Thriller - 103 min.

Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck, Christopher McQuarrie e Julian Fellowes

Com: Johnny Depp, Angelina Jolie, Paul Bettany e Timothy Dalton



No último ano ficou claro a proposta hollywoodiana de faturar alto com blockbusters que misturam gêneros e agrupam grandes estrelas cinematográficas . James Mangold optou por um produto de entretenimento de fácil aceitação pelo público e nada ofensivo á critica - um retorno louvável de Tom Cruise, num roteiro simples, mas bem amarrado e desenvolvido, sendo muito bem capturado pela câmera contemplativa do diretor, que deixou seus astros bem á vontade para realizar um bom filme. Na contramão da honestidade bem executada de Encontro Explosivo, também foi cometido o deslize máximo de Robert Luketic, o pastiche enjoativo e cheio de erros Par Perfeito, que tentava - veja bem, tentava - usar uma química inexistente entre Ashton Kutcher e Katherine Heigl, para faturar alto mesclando comédia romântica com um filme de espionagem.


É o trabalho de Hollywood, afinal, tentar juntar gêneros para atrair o máximo de público possível. Nesse quesito, O Turista - remake do filme francês chamado Anthony Zimmer - já começa com larga vantagem. Juntar Johnny Depp, o queridinho de Hollywood, cotado para 11 entre 10 projetos da casa, e a musa Angelina Jolie, é a segurança mínima para pagar os 100 milhões do orçamento. Ambientado em 90 por cento de sua duração na bela cidade de Veneza, poderíamos apostar nossas fichas que o diretor do filme vencedor do Oscar - A Vida dos Outros - Florian Henckel Von Donnersmarck faria uma bela homenagem ao gênero de espionagem ao melhor estilo europeu. Contudo, essa afirmativa fica apenas nas intenções. O Turista é uma armadilha não só para o personagem de Depp - mas para todo o público.




 A trama começa com a esposa de um fugitivo da Interpol (Angelina Jolie) que é vigiada pela polícia 24 horas por dia onde quer que vá. Para tentar despistar o paradeiro do marido, ela recebe a missão de encontrar um outro homem, que se faça passar pelo parceiro (que passou por uma cirurgia plástica) e o escolhido é o pacato professor de matemática Frank Dupello (Johnny Depp). Claro que nada sai da forma planejada, e os dois acabam entrando em perigo nas paisagens venezianas.


Logo de cara, o roteiro de O Turista já começa com alguns leves deslizes. Toda a vigília em cima da personagem de Jolie é deveras expositiva, e mesmo que ela já soubesse que estava sendo vigiada - o que de fato sabia - não deixa o filme de apresentar, além destes momentos, o conceito de "espionagem" um tanto escancarado, para um thriller do gênero. Esse, entretanto, é um dos erros mais ínfimos do longa de Von Donnesmarck . O script do filme tem muito mais defeitos - tanto de falta de respeito com o espectador, quanto de simples desleixo, e falta de aprimoramento ou acabamento. Note, ora, como a narrativa é extremamente vazia. Não há diferenciais explícitos, e muito menos implícitos, em O Turista. Perseguições comuns - e filmadas com pouco caso - não empolgam e dão à impressão enfadonha de alguém caminhando numa esteira: anda, anda, e não sai do lugar. Pode até sair do lugar, mudando de cenários, mas na mente de quem assiste, o filme parece continuar sem graça, e passa quase despercebido pela tela.



Uma solução para isso seria tentar preencher de conteúdo nos locais que davam - e construção de personagens seria uma saída adequada. E, mesmo com uma atuação competente, porém inibida de Johnny Depp - de Jolie só dá pra falar que ela se esforça como pode, principalmente pra imitar o sotaque inglês - não há nada que recheie suas personas com uma vitalidade. Von Donnesmarck sangra os closes o máximo tolerável, e mesmo assim, a densidade dos personagens é diminuta, rasa como um pires. Não há vilões - aliás, o vilão do filme é bem esdrúxulo - ou coadjuvantes que possam fazer diferença e contrabalançar a palidez da construção dos dois protagonistas. O Turista molda seus personagens de maneira apática.


E se havia alguma maneira do longa não ser uma inutilidade completa , era necessário explorar os outros gêneros que permeiam o filme - como a comédia romântica, por exemplo . Neste ponto, esbarramos inevitavelmente na falta de aptidão do diretor com o tema. As cenas de ação, que no papel já não deviam estar lá essas coisas, transportadas paras as telas, perdem qualquer ponto positivo. Von Donnesmarck é um tanto quanto quadrado - engessado e sem a vivacidade necessária para embalar o filme de uma maneira interessante. E é verdade que a película tem alguns ápices cômicos, e se eles fazem rir, é mérito exclusivo do roteiro e da interpretação dos atores. Se Von Donnesmarck faz alguma coisa, é tornar qualquer momento mais opaco. E não é uma implicância sem motivo. O cineasta tem até bons momentos - como nos closes máximos nos protagonistas, que são esteticamente interessantes, e em um ou dois zooms ágeis bem eficientes - mas comete erros desnecessários - os closes no vilão são tão imperfeitos que beiram o amadorismo - e não consegue mudar seu estilo gelado um milímetro para favorecer o resultado final.




Ao acender das luzes, fica a sensação indigesta de uma metalinguagem sarcástica: O desfecho do longa é tão ridiculamente inconcebível , que passa a impressão de que uma persona do filme brincou e pregou uma verdadeira pegadinha em todo o resto dos personagens , do mesmo modo como O Turista prega uma peça maldita no público que pagou para assistir um produto lastimável . Poderia me estender ainda para falar nos inúmeros buracos de roteiro que saltam aos olhos numa avaliação final, mas é melhor parar por aqui. O Turista é, afinal, como Salt: Um produto descartável que não merecia nem existir.


domingo, 30 de janeiro de 2011

Tá Chovendo Hambúrguer
(Cloudy with a Chance of Meatballs, 2009)
Comédia - 90 min.

Direção: Phil Lord e Chris Miller
Roteiro: Phil Lord e Chris Miller

Com as vozes de: Bill Hader, Anna Farris, James Caan, Andy Samberg e Mr. T



Diversão. É disso que trata a hiperativa comédia de animação dos estúdios Sony. Uma idéia absurda no papel que não pode ser levada a sério como sabiamente seus diretores Lord e Miller demonstram ao inserir dezenas de gags quase anárquicas em seu filme. Tá Chovendo Hambúrguer é uma comédia non sense, com bom elenco de vozes e ótimas gags visuais, numa tentativa de misturar Tex Avery com Dreamworks.


Essa comédia perturbada fala sobre esse cientista que nunca conseguiu acertar uma, Flint, que tenta essa última invenção : uma maquina que transforma água em comida. Ao mesmo tempo, uma estagiária atrapalhada é enviada ate a falida cidade do cientista para cobrir a previsão do tempo na cidade mais chata dos Estados Unidos.


A invenção acaba dando certo, mas de uma maneira totalmente inesperada. Num acidente violento a máquina acaba indo parar na estratosfera fazendo com que a cidade onde Flint vive seja assolada por uma inesperada chuva de comida.



Flint, antes um paria, torna-se um cidadão respeitado e adorado, usando sua invenção para realizar os desejos gastronômicos da população de sua cidade.


O filme tem um tom anárquico e nunca se leva a serio, apesar das óbvias ações telegrafadas, que fazem o filme perder terreno e não chegar a cumprir o que prometia.


Uma comédia non sense, mas que não usa a óbvia crítica ao desespero consumista pela comida de maneira mais ácida, como séries de TV consagradas como Family Guy ou South Park geralmente fazem. Destaque para a chuva de bifes enormes no restaurante e a casa de gelatina, exemplos muito criativos da imaginação do pessoal envolvido na história.


Ao optar por aliviar o discurso virulento da sátira o filme não sabe como encerrar seu filme, que inicia de maneira muito interessante, mas que sede terreno as convenções das animações para "toda a família".



Flint é um personagem fraco e mesmo quando faz graça, é dos coadjuvantes que sentimos falta em cena. O pai do personagem (dublado por James Caan) rouba a cena com seu visual de sheep dog roubado dos desenhos da Warner. Outro que se destaca é o policial perturbado Earl Deveraux (dublado pelo mitológico Mr. T) e do abobado Baby Brent que tem as piadas mais engraçadas, em especial na parte final do filme.


Porém, o que realmente esperamos quando vamos ver um filme como Tá Chovendo Hambúrguer?


Diversão e escapismo. E só.



E nisso o filme cumpre exatamente o que pretende. Tem algumas poucas (boas) piadas e uma historinha inventiva no uso dos alimentos como objetos de cena, mas é só. Não lembramos de nenhum personagem em especial e apesar do bom elenco de dubladores (na versão original é claro) é muito pouco em um filme que fica no meio do caminho entre as bobagens inofensivas e para "toda a família" da Dreamworks e a acidez das animações adultas.


sábado, 29 de janeiro de 2011

Lenda dos Guardiões
(Legend of the Guardians: The Owls of Ga'Hoole, 2010)
Aventura/Fantasia - 97 min.

Direção: Zack Snyder
Roteiro: John Orloff e Emil Stern

Com as vozes de: Jim Sturgees, Ryan Kwanten, Joel Edgerton, Abbie Cornish, Anthony LaPaglia, Helen Mirren, Sam Neill, Richard Roxburgh, Geoffrey Rush, Hugo Weaving e David Wenham



Não fez barulho e talvez nem o faça em dvd, esse filme extremamente bonito e de historia simples e compreensível a todos do amante numero um do slow motion, Zack Snyder.


Competente como poucos para criar paisagens cinematográficas deliciosas de se ver, Zack sempre pecou - e aqui não é diferente - por problemas com seus exageros. Embora em Lenda dos Guardiões (seu primeiro filme "para toda a família") ele consiga um resultado melhor e menos exagerado, em especial por estarmos falando de uma animação em 3d.


Sim, Snyder - assim como Brad Bird, de Os Incríveis e do subestimado Gigante de Ferro fará ao dirigir o novo Missão Impossível - passou a comandar uma animação, onde não existem limites físicos para suas "viagens".


Porém, além de facilitar a parte criativa do diretor, essa escolha é óbvia quando percebemos sobre o que fala Lenda dos Guardiões. É um filme sobre corujas. Corujas guerreiras que lutam entre si numa batalha digna dos demais filmes do diretor. Acompanhamos a intrépida coruja Soren, que vive as voltas com as histórias fantásticas dos Guardiões de Ga'Hoole, notáveis e corajosas corujas que lutam pela paz. Um dia, Soren e seu irmão Kludd caem de sua árvore e são seqüestrados por um grupo de corujas que prega uma - digamos - limpeza étnica no reino das aves. Cabe ao pequeno Soren ir em busca dos lendários guerreiros para enfrentar essa batalha.


Clichê não? Já viu essa história outras vezes não?


Então porque funciona?


Por que são historias recheadas de arquétipos que tem a capacidade de nos tocar de forma mais primitiva. Essa fórmula usada em dez de dez épicos ou aventuras com fundo moral é tão antiga quanto à humanidade e geralmente consegue alcançar resultados interessantes.



Lenda dos Guardiões se não é um primor de roteiro (com cara de início de franquia muito óbvio, o que prejudica o reconhecimento das dezenas de corujas em tela) é um prazer aos olhos como poucos filmes de 2010 conseguiram fazer.


Perfeito em cada pequeno detalhe visual, o filme de Zack Snyder alcança níveis elevadíssimos entre os que usam do visual dito 3d para criar seu mundo. O nível de detalhamento que o diretor conseguiu ao retratar as corujas de maneira realista é verdadeiramente impressionante. A iluminação das cenas de ação ajudam a criar a fantasia de que não estamos vendo apenas uma animação, mas um filme live-action com corujas - por mais bizarro que isso possa parecer.



O roteiro por outro lado tem certos problemas além da confusão de corujas na tela. Ele tem sua estrutura prejudicada já que o filme é apresentado como o início de uma série (talvez uma trilogia). Com isso a narrativa surge truncada, cheia de nomes, datas e eventos que confundem o espectador. Diversas "participações especiais" fazem parte do filme, o que dificulta a compreensão do contexto de onde aqueles personagens são importantes. Como o filme não fez dinheiro suficiente, acho bastante difícil que tenhamos a continuação das aventuras dos Guardiões e por consequencia uma maior atenção ao desenvolvimento desses personagens.


O mesmo problema que ocorreu em Bússola de Ouro é repetido aqui. Contou-se com o "ovo antes da galinha" e o público a quem foi vendido o filme (crianças) não comprou a idéia. Os motivos podem ser alguns: a falta de emoção com que a história é conduzida (o que impede com que os menores se identifiquem com os personagens), o foco na ação que difere do que o trailer apresentava (lembrava um conto de fadas), a forma confusa com que o filme termina mostrando diversos personagens que deveriam ter maior importância nos possíveis capítulos seguintes e a falta de crença em um filme estrelado por corujas (mesmo que sejam em animação).


Talvez com o tempo vire um cult entre os mais jovens. Potencial, apesar dos problemas existe. Uma pena que a história das valorosas corujas dificilmente terá uma seqüência.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Karate Kid

(The Karate Kid, 2010)
Drama/Ação - 140 min.

Direção: Harald Zwart
Roteiro: Christopher Murphey

Com: Jaden Smith e Jackie ChanVaca sagrada. Para os que conhecem essa expressão - comum no cinema - sabem como é difícil lidar com um remake, em especial quando ele trata de um filme muito conceituado pela crítica, ou amado pelo público. Karate Kid, o original de 1984, é um "clássico" de uma geração. Impossível alguém que tenha entre vinte e poucos e trinta e cinco anos e não conheça Sr. Myiagi, Daniel San, o exercício de encerar o carro, o reyki que cura tudo, Cobra Kai, e o golpe da garça.


São símbolos de uma geração. São ícones que identificam um grupo de pessoas e que fazem os mesmos se identificarem perante a um objeto em comum. Por isso, "mexer" nessa casa de marimbondo resulta em uma quase certa ferroada violenta, seja da crítica - boa parte dela formada pelos primeiros fãs do original - ou do público - seja o saudoso do original - ou o atual - que pode não engolir a história "pura" e quase virginal do original.


Outra característica do original que poderia complicar esse remake é a natureza delicada do seu herói, o franzino e meio boboca Daniel Larusso. Trazer um "novo" Larusso seria um erro monstruoso, numa era de heróis "mothafucka" e de GTA’S da vida.



Por outro lado como encontrar alguém mais carismático que Pat Morita? Senhor Myiagi é um mito do cinema pop. Morita, um veterano, ficou marcado para toda a vida como o velho mestre do karate que ensina ao garoto bobalhão os mistérios da arte marcial.


Muitas considerações e muitas reticências para um filme inocente e que ganhou status com o tempo e hoje é um cult.


A produção foi inteligente ao manter elementos interessantes e abdicar de outros. Ficou o mestre, o clã inimigo que não respeita a arte marcial, um garoto perseguido, um ritual de preparação que envolve um objeto que aparentemente não tem nenhuma relação com a arte marcial e um golpe "especial" estranho e ligado a um animal.


De novidade temos a arte marcial (e é apenas por razões comerciais que o filme mantém-se como Karate Kid) e a postura mothafucka bad-ass do protagonista, que também ficou mais novo, apesar de parecer emocionalmente mais maduro do que o virginal Daniel Larusso.



No lugar do Sr. Myiagi surge o Sr.Ham, interpretado pelo mito Jackie Chan, um mestre - literalmente - na arte que ensina ao pequeno e carismático Dre (Jaden Smith, parecido com seu pai). O filme segue basicamente a mesma história do filme original, com algumas pequenas variações. Mudou o tom, mais acelerado mais ainda estão lá as cenas de preparação para o confronto, o inimigo raso como um pires e o golpe final impossível (nesse caso, com uso do CG o que deixou filme vergonhoso).


O que faz esse filme que tem tudo para ser uma bomba ser divertido e na opinião desse crítico ser mais interessante do que sua versão original? Carisma.


Se Sr. Myiagi era um mestre Yoda com outro nome, o personagem de Jackie Chan é mais "real". Tem problemas, é um elo de ligação mais próximo de nossa realidade assim como o herói vivido por Jaden Smith.


Caíram por terra a "pureza" e inocência das tardes na frente da TV vendo Daniel Sam. Isso não funciona mais hoje. A molecada é mais madura do que éramos quando tínhamos sua idade. São mais ágeis e pegam as coisas mais rápido. Um remake referencial em excesso afundaria o filme, e a sorte de Harald Zwart foi essa.


O público alvo comprou a história e ela fez sucesso. Quanto aos críticos, esses odiados seres rastejantes que detestam tudo o que vêm, pergunta o leitor. Esse ser rastejante, se divertiu com as bobagens do filme.



Sim, bobagens. Não se deve levar a sério um filme como esse, assim como nunca poderiam ter levado a sério o primeiro Karate Kid, ou Esqueceram de Mim, ou outros filmes com intenção pura e simples de divertir.


Isso não significa que sejam filmes ruins, apesar de Karate Kid - o original - ter envelhecido muito mal, em especial em sua forma carola de ver o mundo e em seu protagonista fraco. Karate Kid, cumpre o papel que apresentou: divertir a molecada.


Isso é bom? Sim, se o público alvo for esse e saiba que o filme é uma diversão escapista e nada mais. Problema acontece quando vemos adultos vibrando com o pequeno e magrelo Dre, imaginando nele um proto Bruce Lee negro. Ai sim temos problemas. Ou quando muita gente vê "profundidade" na interpretação de Jackie Chan, que não está mal é verdade, mas que não é um ator de grandes dotes interpretativos, sejamos francos.



Quando as pessoas começam a levar esse tipo de produção muito a sério, não entendendo seu lugar na pirâmide do cinema americano, devemos ficar preocupados. É vergonhoso imaginar que Karate Kid e afins sirvam de modelo para o entretenimento de um público adulto. Longe de fazer uma crítica direta ao filme mas sim as conseqüências dele, quando um filme infantil - assumidamente infanto-juvenil - faz sucesso entre os adultos é um momento bom para os "formadores de opinião sérios" (existem ainda alguém de grande mídia sem o rabo preso?) perceberem que tipo de produto chega nas mãos das pessoas.


Longe de ser uma censura, ou mesmo um demérito - afirmei aqui várias vezes, que o filme cumpre seu papel com grande competência - num mundo perfeito e não tão infantilizado e carola adultos teriam espaço para entretenimento adulto. Nos cinemas? Esquece. Produções de grande potencial são eclipsadas pelos grandes lançamentos cheios de cores e rasos como um pires furado. Ninguém quer pensar. Quanto mais gente tem acesso aos cinemas e cultura parece que menos se tem a oferecer a esse público.



É uma mentira, eu sei. Todo ano, grandes filmes são produzidos, mas boa parte deles nunca verá o seu público a não ser em parcos lançamentos em DVD (Deixe Ela Entrar, um dos grandes filmes da década ainda não saiu em DVD por aqui) ou via download. Em compensação, esse público emburrecido e embrutecido vibra com cada nova comédia romântica de Jennifer Aniston, ou o novo filme de terror fajuto ou mesmo a nova animação sem graça da Dreamworks.


A pergunta que fica, e que deveria gerar uma discussão é: porque esse tipo de coisa acontece?


Por que o público não quer pensar?


Não existem respostas claras, embora eu aqui tenha algumas teorias. O certo é que enquanto o público não quiser procurar além do que seu nariz consegue cheirar Karate Kid será um hit e será levado a sério como bom cinema. Uma pena, pois a historinha boba do garoto kung fu não ofende ninguém, mas não merecia tantas salas e tanto dinheiro.



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


The Killer Inside Me
(The Killer Inside Me, 2010)
Drama/Thriller - 109 min.

Direção: Michael Winterbottom
Roteiro: John Curran

Com: Casey Affleck, Kate Hudson, Jessica Alba, Ned Beatty, Elias Koteas, Tom Bower e Simon Baker



Michael Winterbottom é um dos meus diretores favoritos. Por isso cada uma de suas novas incursões na sétima arte são aguardadas por mim com grande interesse. Seu filme anterior Genova, criticado aqui foi uma grande decepção e quando o primeiro trailer desse thriller de suspense com a marca da perturbação do diretor inglês saiu a expectativa só aumentou.


O livro de Jim Thompson (autor dos livros que deu origem a Os Imorais e autor do roteiro de Glória Feita de Sangue) já teve uma adaptação anterior em 1976, estrelada por Stacy Keach que infelizmente não vi, mas o que circulou antes da estréia do filme, foi que essa é uma daquelas obras ditas "inadaptáveis", complicadas de reproduzir como um filme.


Winterbottom topou a tarefa e auxiliado pelo roteiro de John Curran e por um elenco afinado conseguiu se não uma obra prima, um filme deverás interessante e impactante sobre a insanidade e a constatação de que os traços da loucura e das perversões estão em todos os lares.



Sem entrar no mérito do "um tapinha não dói", o que Winterbottom discute aqui não é o hábito do sadomasoquismo ou do sexo selvagem, mas da psicopatia que pode surgir a partir de uma "dieta" de violência, repressão e abusos sexuais.


O personagem de Casey Affleck , o xerife Lou Ford, é dos mais perturbados da recente safra do cinema. Affleck, que é melhor ator que o irmão mais famoso, consegue mais um desempenho poderoso como o psicopata boa praça que esconde sua indiferença para com o mundo ao seu redor com uma fachada de bom moço.


Sem medo de expor seus atores aos castigos físicos (com direito a uma violentíssima cena com Jessica Alba, que abusa da sensualidade em seu desempenho) e a expor seus atores a dificuldades óbvias da construção de seus personagens.



Winterbottom não facilita a compreensão do espectador, não expondo a linha narrativa de forma clara. Os primeiros trinta minutos que estabelecem a história do xerife Ford que vai atrás da garota de programa Joyce (Alba) e acaba entrando numa relação sexual doentia e violenta é mostrada de forma direta e sem rodeios. Winterbottom mostra sem muitos pudores para os padrões americanos esse relacionamento. Curioso notar como os cortes de "censura" foram feitos no sexo mas na violência estúpida contra a personagem de Alba nada foi cortado. Tudo aparece com uma crueza até desnecessária a princípio, mas que reforça o caráter doentio do personagem de Affleck.


Os coadjuvantes são todos muito bons. Desde a estrela de TV Simon Baker (da série The Mentalist) vivendo um investigador, passando pelo excelente Elias Koteas (de Crash, Anjos Rebeldes e da série Law & Order: Special Victims Unit), os veteranos Ned Beatty (Rede de Intrigas, Amargo Pesadelo) e Tom Bower e a bela Kate Hudson, que assim como Alba sai da zona de conforto e apresentando um trabalho bastante consistente.



Mas nada seria tão interessante, caso a história contada fosse frágil. E isso não acontece. Winterbottom brinca com nossas expectativas, fazendo o espectador se sentir incomodado por apresentar simpatia pelo personagem doentio vivido por Affleck a principio. Quando vemos o resultado de suas ações e sua posterior tentativa de encobrir suas falhas de caráter, o diretor mostra seu personagem não como um monstro, mas como um homem "comum" cheio de falhas.


O problema que o filme apresenta, o que motiva a nota não ser maior, é que na metade final essa dubiedade moral termina, e a loucura pura e simples toma conta do personagem o que enfraquece a sensação de incomodo que era o charme do filme, que não é nada mais do que uma versão mais sexy de Henry- Desejos de um Assassino, com a mão de Winterbottom.


Interessante como outros filmes do diretor mas ainda espero ver o mesmo diretor de Código 46 e principalmente de Festa Nunca Termina, (um dos maiores filmes da década) de volta. Ou será que depois do seu projeto pornográfico 9 Canções, Michael desaprendeu? Espero que não.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


Martin Scorsese

Se Martin Scorsese tivesse se tornado padre como queria e era interesse de seus pais, será que teria sido um grande clérigo? Dúvidas à parte, a grande verdade é que sua cinematografia nunca deixou de render homenagens (ou críticas) ao modelo religioso que conheceu quando criança lá pelos idos da década de 50. O menino que conviveu num bairro onde criminosos, punguistas e prostitutas eram parte do cartão-postal do lugar e que estudou na Escola de Cinema de Nova York, aprendeu realmente a fazer filmes quando realizou a película Boxcar Bertha - lançado no Brasil como Sexy e Marginal - trabalho em que decifrou os segredos de se filmar rápido e gastando muito pouco. E verdade seja dita esse aprendizado aliado a paixão pelo Neo-Realismo italiano e a amizade com Brian de Palma (que lhe apresentou o ator Robert de Niro, ator-assinatura definitivo de seus principais filmes) marcaram definitivamente sua carreira.



Seu início se dá com Quem bate à minha porta?, em 1968, mas a glória e o reconhecimento só começariam a despontar realmente cinco anos depois com Caminhos Perigosos, onde começa sua parceria com De Niro, e com o antológico Taxi Driver, que trazia uma pequenina Jodie Foster começando a carreira ainda na pele de uma prostituta. Em 1977 o primeiro fracasso: o musical New York, New York, que quase foi a tampa no caixão de uma carreira até então bem sucedida. O resultado do filme foi tão abaixo das expectativas que Scorsese entrou numa depressão nervosa e teve de se afastar dos sets por três anos. Contudo, sua volta foi gloriosa com Touro Indomável, onde retrata a saga do pugilista irracional Jake La Motta. Uma produção até hoje considerada injustiçada, na opinião de vários críticos de renome, por não ter levado o Oscar de Melhor Filme na época.



Entre 1983 e 1985 Scorsese envereda pelo humor (de viés negro, é bem verdade!) e faz dois de seus melhores filmes menores: o anárquico O Rei da Comédia (com participação do humorista Jerry Lewis) e Depois de Horas (uma pequena obra-prima urbana até hoje subestimada pela crítica). Passada essa fase realiza duas produções que poderiam ter rendido melhores comentários e bilheterias, mas que acabaram compondo dentro da filmografia de Scorsese sem muito brilho: A Cor do Dinheiro (que contou com a dupla de astros Paul Newman e Tom Cruise) e a adaptação do polêmico romance bíblico de Nikos Kazantzakis A Última Tentação de Cristo (com Willem Dafoe como protagonista). Chegam aos anos 90 e o diretor volta aos dramas de máfia com Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995), ambos baseados em romances de Nicholas Pillegi, além de fazer sua primeira incursão no suspense com Cabo do Medo, outra produção que sofreu críticas severas no período em que foi lançada.



Depois dos inexpressivos Kundun (que contava a história do Dalai Lama) e Vivendo no Limite (com Nicolas Cage na pele de um motorista de ambulância que ouve e vê os pacientes mortos que compõem a sua rotina diária), o diretor se volta para seu projeto mais ambicioso: o épico Gangues de Nova York, em gestação por mais de duas décadas, e apresenta a Hollywood o seu novo pupilo, o jovem e talentoso Leonardo Dicaprio (que lhe foi apresentado por De Niro, que trabalhou com o rapaz no filme O Despertar de um Homem). Com ele também realiza O Aviador, baseado na vida do milionário Howard Hughes, Os Infiltrados e o recente suspense penitenciário Ilha do Medo, adaptação do romance Paciente 67 do escritor Dennis Lehane.



Atualmente o cineasta divide sua atenção entre inúmeras tarefas: a pós-produção de seu mais novo longa, dessa vez estreando no gênero infantil, A Invenção de Hugo Cabret (com presença de Jude Law e Ben Kingsley no elenco), a finalização de seu mais novo documentário sobre a vida do Beatle George Harrison, administrando sua Film Foundation, uma organização não lucrativa criada por ele e dedicada á preservação de filmes mudos e ainda arranja tempo para produzir para o canal a cabo HBO a série televisiva Boardwalk Empire, sobre o período da Lei Seca, sucesso de crítica e audiência. Entre seus próximos projetos constam uma cinebiografia do cantor Frank Sinatra e um projeto que tem tudo para ser o grande filme do século XXI: The Irishman, filme de gângster que reunirá o trio Al Pacino, Robert de Niro e Joe Pesci.



O que mais a mente sórdida, analítica e perfeccionista de Scorsese aprontará para o público sedento por suas tramas cheias de corrupção e malícia? O que poderemos esperar desse menino que quase virou católico fervoroso? O tempo dirá. Mas que deixará a plateia de boca aberta, disso não há a menor dúvida.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Oscar 2011: Apostas

Amanhã a Academia de Artes e Ciências de Hollywood indica seus escolhidos para o prêmio mais importante do cinema americano. Abaixo vão as minhas apostas para o prêmio nas categorias mais importantes .

MELHOR FILME

Alexandre
 Rede Social
A Origem
O Discurso do Rei
Cisne Negro
O Vencedor
127 Horas
Atração Perigosa
Minhas Mães e Meu Pai
Toy Story 3
Bravura Indômita

Gabriel
A Origem
Discurso do Rei
Toy Story 3
Bravura Indômita
127 Horas
Cisne Negro
O Vencedor
Rede Social
Minhas Mães e Meu Pai
Atração Perigosa

Joaquim
A Origem
Discurso do Rei
Toy Story 3
Bravura Indômita
127 Horas
Cisne Negro
O Vencedor
Rede Social
Minhas Mães e Meu Pai
Atração Perigosa

MELHOR DIRETOR

Alexandre
David Fincher (Rede Social)
Tom Hooper (Discurso do Rei)
Darren Aronofsky (Cisne Negro),
David O. Russell (O Vencedor)
Christopher Nolan (Origem)

Gabriel
Darren Aronofsky – Cisne Negro
Christopher Nolan – A Origem
David Fincher – Rede Social
Tom Hooper – Discurso do Rei
David O. Russel – O Vencedor

Darren Aronofsky – Cisne Negro

Joaquim
Christopher Nolan – A Origem
David Fincher – Rede Social
Tom Hooper – Discurso do Rei
David O. Russel – O Vencedor

MELHOR ATOR

Alexandre
Colin Firth (Discurso do Rei)
Jesse Eisenberg (Rede Social)
James Franco (127 Horas)
Jeff Bridges (Bravura Indômita)
Robert Duvall (Get Low)

Gabriel
Jesse Einsenberg - Rede Social
James Franco – 127 Horas
Jeff Bridges – Bravura Indômita
Colin Firth – Discurso do Rei
Mark Wahlberg – O Vencedor

Joaquim
Jesse Einsenberg - Rede Social
James Franco – 127 Horas
Jeff Bridges – Bravura Indômita
Colin Firth – Discurso do Rei
Ryan Gosling – Blue Valentine

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Alexandre
Christian Bale (Vencedor)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
Geoffrey Rush (Discurso do Rei)
Andrew Garfield (Rede Social)
John Hawkes (Winter's Bone)

Gabriel
Christian Bale – O VencedorJoaquim
Jeremy Renner – Atração Perigosa
Geofrey Rush – Discurso do Rei
Mark Ruffalo – Minhas Mães e Meu Pai
Michael Douglas – Wall Street 2

Joaquim
Christian Bale – O Vencedor
Jeremy Renner – Atração Perigos
Geofrey Rush – Discurso do Rei
Andrew Garfield – Rede Social
Michael Douglas – Wall Street 2

MELHOR ATRIZ

Alexandre
Natalie Portman (Cisne Negro)
Anette Bening (Minhas Mães e Meus Pais)
Jennifer Lawrence (Winter's Bone)
Michelle Williams (Blue Valentine)
Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)

Gabriel
Natalie Portman – Cisne Negro
Anette Bening – Minhas Maes e Meu Pai.
Michelle Williams – Blue Valentine
Nicole Kidman – Rabbit Hole
Jennifer Lawrence – Winter ‘s Bone

Joaquim
Natalie Portman – Cisne Negro
Anette Bening – Minhas Maes e Meu Pai.
Michelle Williams – Blue Valentine
Nicole Kidman – Rabbit Hole
Jennifer Lawrence – Winter ‘s Bone

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Alexandre
Helena Bonham Carter (Discurso do Rei),
Mila Kunis (Cisne Negro)
Melissa Leo (O Vencedor)
Jacki Weaver (Animal Kingdom)
Juliane Moore (Minhas Mães e Meus Pais)

Gabriel
Mila Kunis – Cisne Negro
Helena Boham Carter – Discurso do Rei
Melissa Leo – O Vencedor
Jacki Weaver – Animal Kingdom
Amy Adams – O Vencedor

Joaquim
Mila Kunis – Cisne Negro
Helena Boham Carter – Discurso do Rei
Melissa Leo – O Vencedor
Jacki Weaver – Animal Kingdom
Amy Adams – O Vencedor

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL


Alexandre
A Origem
Discurso do Rei
Cisne Negro
O Vencedor
Minhas Mães e Meu Pai

Gabriel
A Origem
Cisne Negro

Discurso do Rei
Minhas Maes e Meu Pai
O Vencedor

Joaquim
A Origem
Cisne Negro
Discurso do Rei

Minhas Maes e Meu Pai
O Vencedor
 
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Alexandre
Rede Social
127 Horas
Winter's Bone
Atração Perigosa
Bravura Indômita

Gabriel
Rede Social
Bravura Indômita
127 Horas
Atração Perigosa
Rabbit Hole

Joaquim
Rede Social
Bravura Indômita
127 Horas
Atração Perigosa
Rabbit Hole
 
MELHOR FILME EM LINGUA NÃO INGLESA

Alexandre
Biutiful (Mexico)
Incendies (Canadá)
Em um Mundo Melhor (Dinamarca)
Confessions (Japão)
Fora da Lei (Argélia)

Gabriel
Biutiful (Mexico)
Fora da Lei (Argélia)
Em um mundo Melhor (Dinamarca)
Dente Canino (Grécia)
Incendies (Canadá)

Joaquim
Even the Rain (Espanha)
Fora da Lei (Argélia)
Em um mundo melhor (Dinamarca)
Dente Canino (Grécia)
Biutiful (México)

MELHOR MONTAGEM

Alexandre
‎127 Horas
Rede Social
Cisne Negro
A Origem
Bravura Indômita

Gabriel
A Origem
Rede Social
127 Horas
Cisne Negro
Discurso do Rei

Joaquim
A Origem
Rede Social
127 Horas
Cisne Negro
Discurso do Rei

MELHOR FOTOGRAFIA

Alexandre
Cisne Negro
127 Horas
Bravura Indômita
Rede Social
A Origem

Gabriel
A Origem
Bravura Indômita
Cisne Negro
Discurso do Rei
Rede Social

Joaquim
A Origem
Bravura Indômita
Cisne Negro
Discurso do Rei
Rede Social

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre
Hans Zimmer (Origem)
Trent Reznor e Atticus Ross (Rede Social)
Alexandre Desplat (Discurso do Rei)
AR Rahman (127 Horas)
Alexandre Desplat (Escritor Fantasma)

Gabriel
Hans Zimmer (A Origem)
Trent Reznor e Atticus Ross (Rede Social)
Alexandre Desplat (O Discurso do Rei)
AR Rahman (127 Horas)

Michael Brook (O Vencedor)

Joaquim
Hans Zimmer (A Origem)
Trent Reznor e Atticus Ross (Rede Social)
Alexandre Desplat (Discurso do Rei)
AR Rahman (127 Horas)
Randy Newman (Toy Story 3)






domingo, 23 de janeiro de 2011

The Escapist
(The Escapist, 2008)
Drama/Thriller - 102 min.

Direção: Rupert Wyatt
Roteiro: Daniel Hardy e Rupert Wyatt

Com: Brian Cox, Joseph Fiennes, Liam Cunningham, Dominic Cooper e Seu Jorge



Surpresas no cinema são comuns e cada vez que me deparo com uma pequena produção que pouca gente comenta, que não quer ser mais nada do que uma experiência divertida e tenta - no melhor dos sentidos - ser algo mais, sem forçar a barra, fico realmente feliz.


Não só por poder ter o prazer de ver, mas principalmente por saber que filmes assim ainda são feitos nessa era polarizada entre os "conteudistas" e os "pipoqueiros". Filmes como The Escapist são um pequeno prazer cada vez mais proibido nessa era em que os dois grupos polarizam-se entre prêmios e bilheteria. Escapist é uma simples história de assalto com aquele algo a mais que era comum em filmes americanos até uns dez anos atrás. A exceção dos - raros - independentes sem pretensão de mudar a terra, esse tipo de produção foi limado dos estúdios americanos.



Restam encontrar filmes assim em outras bandas, nesse caso na terra da rainha. The Escapist apresenta-se como um thriller de fuga de prisão, que por meio de uma edição inteligente e que cria tensão constante mesmo onde ela não poderia - em teoria - existir, faz da narrativa uma espiral de acontecimentos interessantes que são mostrados com extrema competência.


Apesar de - caso tenha visto o filme, compreenderá - brincar com o espectador e com suas óbvias expectativas sobre aquele grupo de prisioneiros que tenta uma fuga da cadeia. Apesar do filme não ficar explorando cada uma das histórias pessoais para apresentar aquela gente, é muito feliz em contextualizar cada personagem identificando com características próprias e que fazem o espectador torcer por fulano ou sicrano na esperança de vê-lo se salvar na fuga que é magistralmente entrecortada com a narrativa dita "atual" que mostra os preparativos para o evento.


Essa opção do diretor Rupert Wyatt (responsável pelo temido Rise of the Apes, uma espécie de continuação de Planeta dos Macacos) em misturar as duas linhas narrativas, apesar de não ser inovadora é facilmente compreensível e acrescenta uma tensão a mais na história, que talvez não fosse possível sem esse recurso.



Joe Walker é o responsável pela edição inteligente, que faz de The Escapist um membro do clube dos filmes de pós-produção. Sem esse recurso o filme não seria tão interessante quanto foi para mim. Ao mesmo que isso faz dele uma produção acima da média, nos faz pensar nas possibilidades criativas da produção. Será que Wyatt tinha pensado nessa postura antes da fotografia principal ser iniciada? Foi parte do processo? Ou resultou de uma análise do material bruto, onde chegou à conclusão de que: precisamos salvar esse negócio?


Seja como for, o resultado - e é isso que precisamos checar aqui - é muito consistente. Brian Cox, que vive o personagem principal Frank Perry é muito exigido. Um dos bons papéis desse ator, que vem se tornando figura fácil em produções mainstream e que tem, hoje, o rosto facilmente identificável pelo público. Seu personagem é um homem amargurado e em busca de salvação diante de seus pecados (nunca esclarecidos pelo filme). A ela juntam-se Joseph Fiennes, que vive o violento Lenny Drake, um ladrão que usa sua raiva como meio para sobreviver na prisão, Dominic Cooper, como o ingênuo e recém-chegado Lacey, Liam Cunningham como Brodie, um veterano que cumpre prisão perpétua e que planejava a fuga a mais de uma década e Seu Jorge, como Viv Batista, um químico que "vicia" os prisioneiros em uma droga sintética produzida com os recursos que tem a mão na cadeia.



Esse grupo de pessoas heterogêneas tem desempenho bastante consistente como o grupo de bandidos em fuga, com destaque especial para Cox e para a naturalidade com que Seu Jorge desempenha seu papel - de poucas falas é verdade - num bom inglês, o que abre portas ao ator/cantor, que vem conseguindo alguns papéis fora do país.


Talvez alguns se incomodem com o "plot twist" que revela a natureza poética (lembram daquela frase do início da crítica: "aquele algo a mais") da história. Discordo de eventuais críticas pois acho que durante a história Wyatt (também co-autor do roteiro) foi soltando faíscas que podem ligar a revelação final. Sem soltar spoilers, caso o espectador se sinta "traído", assista novamente, e tente perceber os detalhes sutis da história.


The Escapist é uma bela surpresa. Desconhecido, pequeno, divertido, intrigante e ainda apresentando boas idéias é um filme que merece uma chance de ser conhecido.