segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Oscar 2011 ou
Como Perder a chance de ser realmente relevante no mundo moderno

Serei mais um a fazer coro sobre a incrível chance desperdiçada pelos integrantes da Academia em premiar, se não o melhor filme do ano mas sem dúvida o mais relevante, mais importante e mais comentado.


Pelo segundo ano seguido a tentativa patética de "tornar jovem e atual" o prêmio esbarrou na própria pequenez dos votantes da Academia. Com a absurda idéia de dez filmes integrarem uma suposta lista de melhores, imaginou-se que erros grosseiros ou absurdos seriam menos frequentes, ou impossíveis de acontecerem.


2011, teve uma série deles: a começar pela esnobada no melhor filme de Roman Polanski em muitos anos, assim como o melhor Scorsese do novo século, passando pela ausência de Scott Pilgrim (em uma lista com o insosso Minhas Mães e meu Pai, mereceria seu lugar) e Blue Valentine, do roteiro de Enterrado Vivo culminando na celebração do correto (mas sem brilho) O Discurso do Rei.




A Festa

Ok, a idéia era trazer o público "jovem", tirar o ranço de velharia e etc. Anne Hathaway até se esforçou e foi simpática, engraçada e até cantou. Mas deu pena do pobre James Franco e piadas do nível "não estou feliz com os titulos dos filmes esse ano: Winter's Bone (referência a boner, uma gíria para ereção em inglês), Rabbit Hole (numa tradução sacana: o buraco do coelho) e How to Train your Dragon, nojento". Pois é.

Pelo menos não apelaram para um número musical de início e mantiveram a festa num bom ritmo. Destaque para a idéia bem sucedida do cenário virtual, com inserções dos filmes aparecendo fazendo referência a diferentes categorias. Pena que não vimos mais disso.

Ainda sobre a festa, dois grandes destaques: Billy Crystal de volta ao Oscar e a homenagem a Bob Hope, com a tecnologia "zumbi" de fazer um homem morto conversar com os vivos.

Pode ter sido impressão minha, mas achei a festa desse ano mais curta ou se não foi mais curta, pareceu mais enxuta.

O destaque negativo continua sendo o mesmo e continuará sendo ano após ano até que essa idéia absurda seja revista: os prêmios especiais, talvez os grandes momentos históricos do prêmio, sendo inseridos numa festa a parte (sem transmissão de tv) e sendo mostrada num minúsculo compacto terminando com a entrada dos homenageados no palco, para serem expostos como carne de segunda (seu tempo já era vovô, quem manda agora é Justin Bieber).

E não podemos esquecer a entregada no clipe que mostrava os filmes indicados na categoria principal com destaque ao discurso do rei que deu o tom da montagem, servindo de trilha sonoroa para o vídeo. Desnecessário.

Prêmios e discursos

Começando pelas coisas realmente boas: Trent Reznor surpreender e em parceria a Atticus Ross levar pra casa o prêmio de melhor trilha sonora. O óbvio reconhecimento a Christian Bale, o discurso de arrepiar de Aron Sorkin (citando Paddy Cheyefesky, mito), Natalie Portman emocionada de verdade e reconhecida no papel de sua vida/carreira e algumas surpresas na parte técnica, como o ignorar em Discurso do Rei em algumas categorias barbada, como figurino e direção de arte, que é quase uma tradição de vitórias dos colaboradores de Tim Burton, quando seus filmes são indicados. A Academia gosta mesmo de seu trabalho.

Fora a questão Discurso como filme (que era meio óbvio, devido aos prêmios) havia ainda a certeza que Colin Firth venceria, o que se confirmou Seu discurso foi nervoso, e bastante emocionado (realmente em alguns casos você nota como as pessoas, apesar dos pesares, valorizam o careca de ouro) .

E as bobagens: Melissa Leo e seu discurso asqueroso foram o pior momento da primeira parte da cerimônia. Antes dela receber o prêmio, vimos um Kirk Douglas - apesar de todos os problemas de saude - bastante divertido e brincando muito com o prêmio. Leo subiu ao palco e parecia não ter saido de seu personagem protagonizando um festival de vergonha alheia, exagerado, nada crível e patético.

E obviamente o prêmio que vai fazer bufar ainda por muitos dias/meses os cinéfilos: melhor diretor. O lobby Weinstein conseguiu fazer seu insipido diretor (o mediocre Tom Hooper) levar pra casa o careca, tirando das mãos de quatro cineastas de carreiras mais interessantes e de trabalhos melhores. Somente o lobby explica que Hooper tenha vencido Fincher, que tinha um trabalho infinitamente melhor e mais complexo do que o diretor inglês.

Conclusões ou hora de dar tchau

2011 marcou um passo atrás da Academia. O discurso de Spielberg sobre os grandes (e justos vencedores) e o perdedores (injustiçados mas absolvidos pela história) é sintomático, e parece apontar o óbvio: a Academia precisa mudar. Ano passado as reclamações foram de que o filme mais amado e "revolucionário" não vencera e esse ano o tema do momento - vivemos na bolha nas redes sociais, sabe-se lá quando ela vai estourar - não foi premiado, perdendo-se a chance de usar a festa para sedimentar um momento histórico.

Pessoalmente - se o Oscar fosse meu - ambos não levariam o prêmio e outros sequer seriam indicados, mas é de se reconhecer a importância cultural que um filme como Rede Social tem. Muitos o compararam a Cidadão Kane, e a BRILHANTE Ana Maria Bahiana, comentava via twitter que a festa vinha sendo vista como a repetição do embate entre Como Era Verde o Meu Vale e Cidadão Kane. O que guardadas as devidas proporções para o bem e para o mal, faz todo sentido.

Nas duas vezes, o emocional venceu a frieza de seus realizadores e a história depois os consagrou. Rede Social, assim como Cisne Negro deverão entrar pra lista de filmes que a história julgará como merecedores de um lugar no panteão das grande sproduções cinematográficas. Ao Rei resta aproveitar os últimos momentos em que seu microfone está ligado e que estamos prestando atenção em seu modorrento discurso.

PS: divertido o video mixando os diálogos para criar música (não faço idéia do nome desse treco). Um dos únicos reais momentos de humor do prêmio. Ah sim, James Franco e seu "Parabéns, nerds!" tirando a piada da minha boca e de 99% da platéia e da audiência, foi genial.

PS 2: O In Memoriam sempre "esquece" alguém. Esse ano dentre os nomes mais famosos foi a vez de: Staoshi Kon, Maria Schneider e Corey Haim

domingo, 27 de fevereiro de 2011


É hoje!!! Daqui a algumas poucas horas o mundo vai conhecer os vencedores do Oscar. Quem é cinéfilo já conhece de cor os indicados e pesquisou sobre cada um dos indicados.

Agora é a vez do Fotograma apresentar suas apostas e sua choradeira sobre quem deveria vencer (alguns nem indicados foram, heresia)...



Alexandre

Quem leva: O Discurso do Rei
Quem deveria: Cisne Negro
Merecia indicação: Escritor Fantasma, Ilha do Medo

Joaquim

Quem leva: O Discurso do Rei
Quem deveria: Toy Story 3

Gabriel

Quem leva: O Discurso do Rei
Quem deveria: Cisne Negro
Quem merecia também: A Rede Social



Alexandre

Quem leva: Colin Firth (O Discurso do Rei)
Quem deveria: James Franco (127 Horas)
Merecia indicação: Ryan Reynolds (Enterrado Vivo)

Joaquim

Quem leva: Colin Firth (O Discurso do Rei)
Quem deveria: Jeff Bridges (Bravura Indômita)

Gabriel

Quem leva: Colin Firth (O Discurso do Rei)
Quem deveria: Jeff Bridges (Bravura Indômita) ou Colin Firth (O Discurso do Rei)

Alexandre

Quem leva: Natalie Portman (Cisne Negro)
Quem deveria: Natalie Portman (Cisne Negro)

Joaquim

Quem leva: Natalie Portman (Cisne Negro)
Quem deveria: Natalie Portman (Cisne Negro)

Gabriel

Quem leva: Natalie Portman (Cisne Negro)
Quem deveria: Natalie Portman (Cisne Negro)



Alexandre

Quem leva: Christian Bale (O Vencedor)
Quem deveria: John Hawkes (Inverno da Alma)
Merecia indicação: Pierce Brosnan (Escritor Fantasma)

Joaquim

Quem leva: Christian Bale (O Vencedor)
Quem deveria: Christian Bale (O Vencedor)

Gabriel

Quem leva: Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)
Quem deveria: Christian Bale (O Vencedor)



Alexandre

Quem leva: Hailee Stenfeld (Bravura Indômita)
Quem deveria: Hailee Stenfeld (Bravura Indômita)
Merecia indicação: Julianne Moore (Minhas Mães e Meu Pai)

Joaquim

Quem leva: Melissa Leo (O Vencedor)
Quem deveria: Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)

Gabriel

Quem leva: Melissa Leo (O Vencedor)
Quem deveria: Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)


Alexandre

Quem leva: O Discurso do Rei
Quem deveria: Enterrado Vivo

Joaquim

Quem leva: A Origem 
Quem deveria: A Origem

Gabriel

Quem leva: O Discurso do Rei
Quem deveria: A Origem
 

Alexandre

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: Inverno da Alma/Toy Story 3/127 Horas
Merecia indicação: Escritor Fantasma

Joaquim

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: Rede Social

Gabriel

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: Rede Social



Alexandre

Quem leva: David Fincher (Rede Social)
Quem deveria: Darren Aronofsky (Cisne Negro) ou Roman Polanski (Escritor Fantasma)
Merecia indicação: Martin Scorsese (Ilha do Medo)

Joaquim

Quem leva: David Fincher (Rede Social)
Quem deveria: Darren Aronofsky (Cisne Negro)

Gabriel

Quem leva: David Fincher (Rede Social)
Quem deveria: Darren Aronofsky (Cisne Negro)
Quem não merece em hipótese alguma: Tom Hooper (O Discurso do Rei)


Alexandre

Quem leva: Bravura Indômita
Quem deveria: Cisne Negro
Merecia indicação: Ilha do Medo

Joaquim

Quem leva: Bravura Indômita
Quem deveria: Cisne Negro

Gabriel

Quem leva: Bravura Indômita
Quem deveria: Cisne Negro



Alexandre

Quem leva: Rede Social/ O Discurso do Rei
Quem deveria: 127 Horas
Merecia indicação: Escritor Fantasma

Joaquim

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: Rede Social

Gabriel

Quem leva: Rede Social, o melhor indicado
Quem deveria: A Origem, inexplicavelmente fora dos indicados.



Alexandre

Quem leva: Toy Story 3
Quem deveria: Toy Story 3

Joaquim

Quem leva: Toy Story 3
Quem deveria: Toy Story 3

Gabriel

Quem Leva: Toy Story 3
Quem deveria: Toy Story 3



Alexandre

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: 127 Horas
Merecia indicação: Escritor Fantasma, Cisne Negro

Joaquim

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: A Origem

Gabriel

Quem leva: Rede Social
Quem deveria: Rede Social
O melhor, mas que a Academia esqueceu: Clint Mansell, Cisne Negro.
Seria legal se ganhasse: Hans Zimmer, Inception

Alexandre

Quem leva: We Belong Together (Toy Story 3)
Quem deveria: Ramona (Scott Pilgrim contra o Mundo)

Joaquim

Quem leva: We Belong Together (Toy Story 3)
Quem deveria: We Belong Together (Toy Story 3)

Gabriel

Quem leva: I See the Light, por ser do ótimo Alan Menken (Enrolados)
Quem deveria: We Belong Together (Toy Story 3)


Alexandre

Quem leva: Exit Through the Gift Shop
Quem deveria: Waiting for Superman

Joaquim

Quem leva: Exit Through the Gift Shop
Quem deveria: Lixo Extraordinário

Gabriel

Quem leva: Trabalho Interno
Quem deveria: Exit Through the Gift Shop


Alexandre

Quem leva: Biutiful
Quem deveria: Mother
Merecia indicação: Vincere

Joaquim

Quem leva: Em um Mundo Melhor
Quem deveria: Incendies

Gabriel

Quem leva: Em um Mundo Melhor
Quem deveria: Incendies 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Não Me Abandone Jamais
(Never Let Me Go, 2010)
Sci Fi/Romance/Drama - 103 min.

Direção: Mark Romanek
Roteiro: Alex Garland

Com: Carey Mulligan, Keira Knightley, Andrew Garfield, Charlotte Rampling, Sally Hawkins, Izzy Meikle-Small, Charlie Rowe e Ella Purnell


Essa pequena surpresa dirigida por Mark Romanek é um misto de ficção científica, romance e melodrama e é daqueles filmes que quanto menos "preparado" o espectador estiver mais aproveita. O grande precidado do filme e responsável por causar ótima impressão é o roteiro de Alex Garland, baseado em mais um livro melancólico e emocionante de Kazuo Ishiguro (que também escreveu o livro que deu origem ao filme Vestígios do Dia).


A melancolia e a sensação de passividade que o espectador tem ao acompanhar a ruína predeterminada de seus protagonistas é um desafio para os mais sensíveis, já que o filme reforça essa sensação a cada nova cena.


Romanek tem um belo roteiro em mãos e não faz concessões a obviedade para explicar diretamente o que seus personagens sofrem ou irão sofrer no decorrer da história. Ele joga seu filme em uma bruma de mistério que aos poucos o público vai decifrando. Observem a cena em que o mercado local trás uma série de produtos de segunda mão. Após o término do filme, reveja essa cena e perceberá a mesma ação com outro olhar, agora já ciente do desenrolar da história. É um exemplo dessa idéia de apresentar o filme quase como uma obra literária, em que para descobrir os significados da história, é necessário ler a próxima página, (incomum de ser nas telas hoje em dia) em uma época em que tudo vem muito mastigado e entregue ao espectador. Never Let me Go não é indecifrável como possam ter sugerido minhas palavras, pelo contrário, a história é bastante simples, mas a forma homeopática de revelar cada novo fato é incomum no cinema moderno, em especial no gênero ficção científica (que convenhamos é o que Never Let Me Go é). O único momento em que o diretor faz uma concessão a compreensão mais óbvia do público é o letreiro inicial, que situa os elementos e os personagens.



O resto é apresentado organicamente e a cada passo, sem atropelos, ou personagens débeis que perguntam a cada dois minutos, ou mesmo frases de efeito óbvias.


Mortalidade e amor são temas universais, e o roteiro de Garland toca fundo nessas questões. O que é o amor? O que fazemos quando não somos correspondidos? E como lidamos com a finitude da existência? Tudo isso acrescido de uma dose extra de depressão e daquela sensação de que o espectador sabe exatamente como aquela história vai terminar, e por mais que ela seja trágica em essência não conseguimos deixar de apreciar cada segundo e cada boa idéia depositada por seu diretor na tela.


Romanek foi muito feliz em sua seleção de atores - tanto os protagonistas, quanto os mais novos que são parecidíssimos aos mais velhos - que aliam fragilidade com grandes interpretações. Carey Mulligan começa a se especializar nos papéis de meninas frágeis e melancólicas. Sua Kathy é uma irmã gêmea perdida de Jenny de Educação, papel que a "revelou" ao mundo do cinema. Curiosamente, por esse papel, Carey não foi nem lembrada em nenhuma das premiações "grandes". A atriz aqui, consegue ir melhor do que no referido filme anterior e mereceria mais glórias, por sua sutileza na forma com que lida com as dificuldades do papel. Keira Knightley (que interpreta Ruth) - que é muito melhor do que o grande público imagina, baseando-se apenas em suas participações na série Piratas do Caribe - é o nêmesis de Carey, porém um nêmesis arrependido e fragilizado por suas condições. Quando surge em tela, sua personagem é um vulcão hormonal cheia de vida, alegrias e satisfação apesar de internamente saber que tudo o que vive não passa de uma gigantesca cortina de fumaça com data e hora para acabar.



E chegamos a Andrew Garfield, hoje famoso por Rede Social e que ao final do ano será muito mais famoso, por interpretar Peter Parker no recomeço da franquia do escalador de paredes da Marvel. Se muitos viam alguns defeitos - eu inclusive - em sua abordagem de Eduardo Saverin em Rede Social, quando ele foi eclipsado por todos os personagens em que dividia a tela, aqui a situação é oposta. Muito a vontade como Tommy e sempre se tornando o centro das atenções em cada frame em que se vê envolvido, sempre contido, igualmente melancólico e em um profundo estado de negação das condições que tem de enfrentar, seu personagem é visceral, mesmo não demonstrando as emoções de forma direta, até quase o final da projeção, quando explode numa sequência dolorida e muito realista. Um trabalho bastante interessante e que apresenta - de verdade - o talento desse jovem ator.


Never Let Me Go tem em seus atores calibrados um ponto fundamental para que o roteiro - já elogiado - funcione bem. Não só o trio de protagonistas vai bem, mas seus coadjuvantes estão excelentes: Charlotte Rampling, como a gélida Miss Emily e Sally Hawkins (injustamente estigmatizada em Happy Go Lucky) como a sempre envergonhada e tensa Miss Lucy são outros destaques, além do trio de jovens atores Izzy Meikle-Small (talentosa e muito parecida com Mulligan), Ella Purnell (que vive a jovem Ruth) e Charlie Rowe (como o jovem Tommy).



Essa sensível obra guarda paralelos em sua abordagem realista com uma série de distopias que foram as telas como o recente Filho da Esperança, o cult - e recentemente lançado no país - The Quiet Earth entre outros que vocês podem citar ai nos comentários.


Ao mesmo tempo em que é profundamente romântica - chegando ao melodrama - e como toda grande obra que aborda o amor é trágica e fadada a tristeza profunda da perda. Never Let Me Go é um jóia muito delicada e que brilha profundamente nas interpretações de seus atores e na condução segura de Mark Romanek.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Abutres
(Carancho, 2010)
Drama - 107 min.

Direção: Pablo Trapero
Roteiro: Pablo Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre

Com: Ricardo Darin e Martina Gusman

(obs: essa crítica foi divida em duas partes. É a primeira e talvez única vez que isso ocorrerá no Fotograma, mas achei válido apresentar alguns pensamentos meus sobre a eterna briga Brasil/Argentina no cinema, antes de falar diretamente de Abutres. Espero que gostem).



Por que os hermanos tem um cinema tão plural e tão acessível?

Quando escrevi sobre O Segredo de seus Olhos lembro que disse que o cinema brasileiro poderia aprender com os hermanos a contar boas histórias. Simples assim. O que difere a volúpia do cinema argentino tem para o tupiniquim, é que, apesar de nossa produção ser gigantesca - em termos de números perto da argentina - nossos filmes (aqueles que conseguem vagas nas salas de cinema) são esquemáticos e renderam-se a fórmula: novela na tela grande - filmes de "Deus".

Antes que alguém vocifere - "mas isso é um absurdo, você não pode generalizar" - faço o mea culpa. É claro que essa não é a verdade absoluta, nem a realidade geral de toda a produção do país. Mas é claro, que é nesses conceitos que a grande - não, a imensa - maioria dos filmes nacionais que chegam aos cinemas são produzidos.


"E qual a diferença para os Estados Unidos, onde 95% do que é produzido é uma porcaria?"


A diferença é que lá, existem muito mais salas de cinema, e se o espectador quiser MESMO encontrar aquele filme indie, ele vai conseguir. Claro, que falamos de uma cidade grande com cinemas que apostam no que é diferente. As pequenas cidades americanas apostam no que as nossas redes de cinema apostam. No que funciona, e dá dinheiro.


Isso não é negativo. Pelo contrário, são os milhões de produções grandes que bancam parte dos "estúdios de arte" dentro das majors nos Estados Unidos.

O problema é que fora as duas megalópoles brasileiras (leia-se São Paulo e Rio) o espectador brasileiro não consegue, por exemplo, ver Scott Pilgrim, que nem é um filme de arte/cult/ “estrangeiro", pois não existem salas de cinema fora os grandes complexos de shoppings, que por sua vez (e com razão) visam aquilo que funciona e que dá lucro e arriscam muito pouco.


"E onde entra Abutres nisso tudo?"


Abutres é um exemplo de como o cinema argentino consegue exportar qualidade e ser prestigiado em seu país e fora dele. O Brasil também consegue, mas para cada Tropa de Elite, Cidade de Deus, Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Cinema, Aspirinas e Urubus, Amarelo Manga e etc (coloque outros aqui leitor) o brasileiro encara - e gosta, já que ele está vendo na tela grande o que ele já conhece - Se eu Fosse Você, Divã, comédias "engraçadas" mil, e Xuxa e Renato Aragão.


A questão é que o dinheiro de Xuxa não é revertido em um estúdio menor onde além de gerar lucro, você pode apostar no diferente, no prestígio que uma obra interessante vai lhe render. Não, a conta de um novo filme da Xuxa, gera... outro filme da Xuxa, e apenas legítimos heróis conseguem passar pela doentia burocracia para obtenção de capital de patrocínio e lançar seu filme... em duas salas, por uma semana, na pior semana do ano. Essa é a regra.


Existem alguns produtores que tentam fugir desse estereótipo buscando recursos e apresentando resultados e lucro, mas também apostando no cinema "underground".


Os hermanos não têm a burocratização como entrave e tem a consciência de que não é apenas de milhões que é feita uma cinematografia e que o público precisa ter acesso e ser informado sobre mais do que a "TV na tela grande".


O Filme

Abutres é um thriller quase noir sobre um homem perdido em seu emprego detestável que se envolve com uma mulher que simboliza sua fuga e salvação de uma realidade dura e desgraçada. Ricardo Darin é o interprete desse homem amargurado e entorpecido pela condição de seu trabalho. Ele é Sosa, um "Abutre", um advogado que procura vítimas de acidentes de transito para aproveitar de sua dor e tentar transformá-los em clientes e com isso garantir boas indenizações, que acabam liquefazendo bons rendimentos para ele. A mulher com que ele se envolve é Luján (Martina Gusman) uma jovem médica que divide sua perturbadora rotina entre plantões na unidade de resgate e horas agoniantes no hospital.


Sosa se apaixona por Luján quando um de seus "esquemas" acaba dando muito errado e precisa salvar sua pele e a da jovem médica que acaba se envolvendo com ele.


O diretor Pablo Trapero aposta na crueza de sua história e abusa da câmera na mão, nos improvisos dos diálogos e na ambigüidade moral presente em quase todos os personagens para apontar ao espectador que tudo pode acontecer a qualquer momento. Apenas Luján é poupada e ela é tratada como a inocência que Sosa não tem mais e que tenta reconstruir a partir de seu relacionamento com a médica.


A história acontece numa Buenos Aires escurecida e apodrecida pela gente que nela vive. Não existe luz do sol em boa parte do filme, e quando ela surge é apenas para reforçar que a escuridão é parte integral daqueles personagens.


Escuridão que é reforçada pelo monumental e acidentalmente cômico final onde tudo que é possível acontecer, acontece e como em todo grande filme noir (que Abutres flerta sem piedade) de maneira trágica e dolorosa.


O grande destaque são os dois atores, em especial Martina, que exala credibilidade em suas ações e desaba de maneira doce e realista quando suas emoções (que a personagem tanto tem de camuflar) são vertidas em lágrimas doloridas. E Darin, é um ator de extrema competência, capaz de se transformar em diferentes tipos, diferentes homens em cada um de seus filmes. Se em Segredo de seus Olhos víamos a inocência e o olhar resignado e toda a dificuldade para se expor, sempre pisando em muitos ovos, em Abutres vemos o desespero, vemos o fracassado e a cada minuto este fracasso torna-se mais latente e inevitável. Sosa é antes de tudo um homem de ação, por mais que suas palavras façam dele um Abutre, são seus atos que reforçam e sacramentam essa condição. A cada novo passo dado, Sosa transforma-se no pássaro comedor de carniça, tentando sair da lama, mas fadado a terminar sua existência se alimentando dos restos dos demais.



Abutres funciona muito bem, porque consegue apresentar uma fauna de personagens rica, e tridimensional, gente que podemos ter cruzado em diferentes momentos de nossa vida, que no filme são Abutres... ou carniça.


O público ávido pela virulência e pelas gotas de sangue de um confronto e capturado pela intensidade de cada nova ação, inicia a projeção como Abutres sedentos pela carniça, e ao fechar a íris do último frame do filme, toma noção de que durante pouco mais de uma hora e meia foi sendo digerido pelos Abutres de verdade: a humanidade e sua capacidade inerente de destruir-se pela ganância e transformar cada um de seus dias em ofensas ao destino.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amor e Outras Drogas
(Love and Other Drugs, 2010)
Comédia/Romance - 112 min.

Direção: Edward Zwick
Roteiro: Charles Randolph, Edward Zwick e Marshall Herkovitz

Com: Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Oliver Platt e Hank Azaria

Comédias românticas em geral têm fases na indústria cinematográfica. Há épocas em que as mocinhas são as encalhadas, épocas nas quais casais interagem em filmes de ação. Talvez a fase da safra atual seja a do sexo sem compromisso. O filme No Strings Attached - traduzido no Brasil justamente como '' Sexo Sem Compromisso'' - ainda não estreou, mas já possui na sua sinopse essa temática de um casal que só quer se relacionar pelo sexo, não estando dispostos a ter um relacionamento propriamente dito, e se livrar das amarras e frustrações que um namoro de verdade pode ocasionar. Invariavelmente, os dois se apaixonam, e precisam lidar com isso.



Amor e Outras Drogas é um exemplo desse tipo de filme . Mas não se foca nessa temática, como o filme de Natalie Portman e Ashton Kutcher deve vir a fazer. Existe a exploração, vista já no seu título, da indústria farmacêutica em geral, de uma perspectiva cômica, e também como um drama relacionado a uma doença - no caso, o mal de Parkinson. Essas temáticas múltiplas, que acabam tendo até uma unidade, ao final, não são problemas algum, ao contrário. O problema do novo filme de Edward Zwick é o seu script esquemático, previsível em cada detalhe, e que, devido a isso, não consegue fugir do clichê.



A história do filme começa do ponto de vista do vendedor de eletro-eletrônicos Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) que se empregou na loja para contrariar o pai, que queria que ele seguisse a carreira de médico . Devido ao seu estilo mulherengo, ele acaba sendo despedido, e na busca por um novo emprego, adentra nas fileiras dos representantes da indústria farmacêutica, mais exatamente na gigante Pfizer. Um dia, acompanhando um médico, ele conhece uma paciente, chamada Maggie Montgomery (Anne Hathaway). Depois de chamá-la para sair, eles constroem um acordo de apenas se encontrar para transar, sem nenhum compromisso. Lógico que eles acabam se envolvendo mais que isso, e têm que lidar com o amor e também com o mal de Parkinson de Maggie, que já tem a doença degenerativa com apenas 26 anos.


A introdução do filme é bem construída para mostrar alguns pormenores que o público não conhece das gigantes empresas farmacêuticas . Os métodos pouco ortodoxos que os vendedores bolam para passar as amostras do seu produto e não as amostras do concorrente, a chatice que os representantes proporcionam perseguindo os médicos, etc. Claro que isso é tudo alegoria e serve apenas de tempero para a história do casal protagonista. Mas são alegorias até interessantes e que produzem bons momentos - a descoberta do Viagra e a verdadeira revolução que o produto gerou é um ponto alto, afinal, o personagem de Gyllenhaal é uma verdadeira pílula azul ambulante, e combina como vendedor bonachão.



O núcleo da história que interessa - o romance entre Jamie e Maggie - era previsível desde o trailer , mas até aí , não temos um erro . O clichê por si só não é um deslize imperdoável, e alguns filmes simplesmente não conseguem fugir dele, mas, por possuírem uma execução bem fundamentada, conseguem agradar. O problema começa quando vemos na nossa frente à esquematização do roteiro. Uma coisa é você ter noção de qual vai ser o final de um filme, mas ter prazer em ver informações novas até lá, a outra é você saber exatamente qual arco está sendo apresentado no momento, e ter já conhecimento das curvas que a trama vai fazer até os créditos finais. Exemplos disso: Tron Legacy e Avatar, respectivamente. E fica complicado não comentar da esquematização escancarada de Amor e Outras Drogas , quando , em um momento, temos quase um vilão -imbecil - no filme. Fora isso, os quatro arcos clássicos dos filmes românticos são respeitados â risca , e temos, vejam só , uma quase ''cena de aeroporto '' . Aí fica difícil.


De inovador, porém ,podemos indicar a o arco da doença de Maggie - que é pelo menos ''incomum'' em filmes do gênero em geral - e a própria temática farmacêutica em si . Essas ''alegorias '' acabam por fazer sentido juntas, numa unidade, afinal. Mas o que mais pode se aproveitar em Amor e Outras Drogas são as atuações de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway. Os personagens são acima da média - principalmente a personagem de Hathaway - e as interpretações dos protagonistas são definitivamente superiores ás que podemos encontrar em filmes similares. E o melhor é que eles combinam, existe uma química interessante que deixam as cenas da dupla mais orgânicas, e talvez isso seja mérito também do diretor Edward Zwick. Apesar de aqui ele não mostrar muitos arroubos no manuseio das câmeras - faz o feijão com arroz com qualidade mínima necessária - ele tem competência suficiente para deixar os dois atores muito à vontade e extrair deles atuações muito eficientes.


O que é duro de engolir mesmo é a esquematização extrema do roteiro . Isso passa com dificuldade pela garganta, mas a performance de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway são a bebida que ajuda a descer. O desfecho piegas dá uma sensação desgostosa, assim como todo o chavão presente do filme também faz. Mas, sendo um produto inofensivo, não é preciso fazer nenhuma propaganda contra - mas também não farei a favor.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Tetro
(Tetro, 2009)
Drama - 129 min.

Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola

Com: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Rodrigo de la Serna, Klaus Maria Brandauer e Carmem Maura


Tenho uma sensação dúbia ao perceber a repercussão nos ciclos cinéfilos e da dita, imprensa especializada (o uso incorreto desse termo mereceria uma postagem toda especial) do último - e finalmente lançado no Brasil - filme do quase mítico Francis Ford Coppola.

Desnecessário para os leitores do blog, explicar a importância para a história da sétima arte que o diretor e roteirista americano têm. Suas obras falam por si só e seu trabalho - em especial o inicial - é digno de muitas análises, prêmios e profundo respeito.


Pois bem, Tetro gerou m burburinho muito maior do que imaginei que geraria no país, ajudado pelo momento do lançamento do filme (sem nenhuma outra estréia de impacto para dividir o foco) e pela meteórica passagem do diretor no país, culminando em uma concorridíssima palestra numa universidade de São Paulo e uma desastrosa entrevista ao programa do Jô.



Tetro - pelo menos entre os "especialistas" - vem recebendo muitos elogios e alguns até ousaram inserir o filme numa lista de melhores do ano passado. Ao ler/ver tais constatações chego a duvidar - seriamente - da minha sanidade, ou mesmo do meu olhar para com o cinema.


Será possível, que a grande maioria dos "entendidos" não tenha se exaurido na primeira meia hora do filme? Não tenha percebido o acúmulo de trejeitos exagerados, do uso infeliz do p& b e principalmente da falta de tom da história? Não creio que não possam ter notado como Coppola é enfadonho em sua produção, como é desleixado com seu roteiro e como quer transformar uma história - no máximo - mediana, em um grande épico familiar.


Mais, depois de refletir sobre o filme, percebo que essa não é uma novidade em se tratando do diretor, que há anos não realiza nada digno de nota. Seus filmes pós Apocalypse Now são de qualidade (não todos evidentemente) até superior ao épico de guerra. O Selvagem da Motocicleta, Vidas sem Rumo, Peggy Sue e até mesmo Cotton Club em alguns momentos mostravam o diretor em grande forma. Isso se tornou muito raro nos anos noventa (que produziu apenas Drácula e Tucker de relevante) e inexistente nos 2000.



Coppola, adepto da vinicultura, parece ter esquecido do básico ao contar uma história: que não importa a forma com que é contada, ela tem que de alguma maneira, manter o interesse do espectador naqueles fatos e naqueles personagens.


Tetro é vazio, pois a história do proto-marinheiro Bennie, em busca do passado e do irmão é, além de vista em dezenas de outras produções melhores, melodramática no pior dos sentidos. Tudo é uma epopéia e uma coleção de sentimentalismo barato e clichê.


Apresentando personagens caricatos (como as personagens de Josefina e a vergonhosa aparição da lendária Carmem Maura como Alone), outros simplesmente ruins (outra lenda Karl Maria Brandauer como Carlo) e alguns que ficam no meio termo (José, vivido por Rodrigo de la Serna), que assim como o filme não decide o que é, nem o que quer dizer.



É um thriller? Que investiga os motivos do sumiço de Tetro? Um road movie introspectivo? Quer mostrar a "viagem" interna de Benny e Tetro até a compreensão total de seus papéis no mundo? É um melodrama familiar? Quer contar os dissabores de uma família seriamente abalada pela inveja e cobiça? É um filme de arte "cabeçudo"? Não se importa com os "quês" e "porquês" e como todo filme de arte ruim, divaga sobre o vazio de uma narrativa fajuta e cheia de minúcias desnecessárias?


É tudo isso, o que resulta em duas horas desperdiçadas ancoradas em Vincet Gallo, um ator extremamente inteligente, que conduz até onde consegue o barco furado de Coppola. Estão nele os únicos momentos verdadeiramente positivos do filme. Sempre soturno e desajeitado ao lidar com qualquer outro ser humano, Tetro é uma criatura perdida na terra.



Perdido assim como Coppola, que realiza aqui um dos piores filmes de sua carreira. Pretensioso, tentando criar poesia onde não existe nem prosa.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Demônio
(Devil, 2010)
Terror - 80 min.

Direção: John Erick Dowdle
Roteiro: Brian Nelson e M. Night Shyamalan

Com: Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O'Hara, Bojana Novakovic, Bokeem Woodbine e Geoffrey Arend



E lá vamos nós, para mais um filme de "assombração", onde todos os elementos de cena convergem para explorar a realidade fantasmagórica ou no caso dessa produção, demoníaca.

Demônio é o quinto filme de John Erick Dowdle, o mesmo diretor de Quarentena, o remake medíocre de REC, terror espanhol de grande sucesso de crítica. Na verdade, esse é o filme "autoral" de M. Night Shyamalan em um ano em que o diretor/escritor/ególatra pariu o medíocre Último Mestre do Ar e Dowdle foi o diretor escolhido para assinar o filme, e receber as latadas mais pesadas da crítica.


O filme fala de um grupo de pessoas que fica preso em um elevador e acabam tendo de conviver nesse ambiente claustrofóbico enquanto aguardam resgate, ao mesmo tempo em que o espectador fica sabendo (através de uma narração em off dispensável e que faz o filme quase se situado no espectro da paródia ou da fantasia) que o Diabo (sim, ele mesmo) vai julgar aquelas pessoas dentro do elevador e muito possivelmente matar a todos. São todos "pecadores" gente sem fé, ladrões, escroques, salafrários etc.



Por ai, já podemos dizer que Demônio é um filme moralista, já que julga seus personagens e suas falhas pelos olhos de uma entidade onipresente. Além disso, o filme não se furta a dizer que somente a fé é solução para os problemas da humanidade, sendo ela capaz inclusive de vencer o Diabo. Sim, é isso que qualquer ramificação do cristianismo diz e Shyamalan parece não ter esquecido suas lições de catecismo. No livrinho de M. Night fez burrada o Diabo te caçara e te matará sem piedade.


O problema - o maior deles - é que não conseguimos levar a sério o pastiche de tensão que o diretor Dowdle tenta criar. A escolha do elenco é um dos motivos. Nenhum dos atores tem nada de real relevância no currículo, apesar de alguns terem aparecido em pontas em filmes/séries de sucesso. É um elenco de caras conhecidas (pela infinidade de papéis), mas que não tem identidade. E essa carga é levada para seus personagens, que são mostrados quase como arquétipos (temos o grandalhão forte e esquentado, o calado e silencioso, a velhinha, a mulher que usa o corpo para progredir e o falastrão chato que todos odiamos, além do policial traumatizado, do segurança cético e do crente), impulsionados ainda mais pela atuação desastrosa de quase todo o elenco.


Shyamalan continua com sua mania de ligar todos os personagens e narrativas, e de fazer todas as histórias convergirem para o mesmo ponto. O diretor (e aqui roteirista/produtor e chefe) insiste em querer que tudo "faça sentido", numa tentativa falsa de criar no espectador aquela sensação de: "nossa, ele pensou em tudo, que brilhante".



Foi essa a reação de muitos ao final de Sexto Sentido e Corpo Fechado (esse em menor escala), mas muitos começaram a torcer o nariz para o "final surpreendente" a partir de Sinais e declarou guerra aos filmes de M. Night em A Vila. Dai o diretor vive uma sucessão de fracassos retumbantes e erros perturbadores.


Dessa vez optou por não dirigir, mas fica nítido que Dowdle é um aprendiz sanguessuga. Estão presentes em Demônio todos os defeitos de M. Night, porém esqueceu-se de copiar as qualidades do diretor.


Se por um lado sobram frases de efeito fajutas, a já citada "ligação" entre todos os personagens e em especial o final "surpresa", faltam a qualidade inegável de construir bons planos, de saber lidar com a tensão e principalmente de envolver por aquela uma hora e meia o espectador numa outra realidade.



É verdade que Demônio se passa quase todo em um único ambiente, mas no mesmo ano tivemos o excelente Enterrado Vivo para provar como é possível (e como muito menos recursos que Demônio) criar tensão em um só cenário.


Quando tenta criar tensão e alguma atmosfera esbarra no óbvio (o fusível desencapado que o segurança vai verificar, a súbita queda do elevador, o demônio surgindo de onde "menos se espera") e mostra que Dowdle ainda não sabe - ou nesse filme pelo menos - o que quer fazer com sua câmera. O que ele pretendia contar? Uma simples história de horror? Se for isso, faltou horror. Já sei, criar tensão com elementos sobrenaturais? Até tentou, mas os elementos sobrenaturais não podem camuflar a falta de capacidade artística do condutor da história. Então, será que ele não quis falar sobre segundas chances? Talvez, mas ai caímos no terreno do elenco frágil e que não convence ninguém daquela situação.


Os últimos minutos chegam a ser tristes tamanha a falta de noção do diretor (e do "seo" M. Night) em inserir - telegrafado - a repentina "surpresa", que além de ser mal conduzida não faz o espectador esboçar nenhuma reação.


M. Night não é o mesmo. 2010 foi o ano em que o diretor começou a jogar a terra por cima de seu caixão. Mestre do Ar foi uma piada de péssimo gosto e Demônio um arremedo de filme de terror b. Dowdle por sua vez, parece estar ajudando a jogar a terra, e a fazer a produtora de M.Night pagar o pato.