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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eu Vi - Blue Jasmine

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos(e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.



Blue Jasmine
(Blue Jasmine, 2013)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
com: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins

Eu gosto de Woody Allen. Não de tudo, nem de todos os filmes, mas gosto de boa parte das coisas que o diretor produziu até aqui. Em Blue Jasmine, ele volta aos filmes mais dramáticos e mais realistas, que vinha abandonando em seus filmes mais recentes. Na trama, vemos a dona de casa Jasmine (Cate Blanchett) que acaba de se separar do marido, preso por corrupção. Despojada de sua vida fácil e de dondoca, ela precisa voltar ao mundo real e deixa sua mansão para morar e recomeçar a vida com sua irmã do outro lado do país.

O grande destaque da trama é Cate Blanchett, em uma atuação que certamente lhe renderá prêmios e uma dezena de indicações. Sua Jasmine, é uma mulher complexa que vive em um mundo de sonhos, que bloqueia a realidade e que prefere acreditar ser uma pessoa especial e destinada a grandiosidade. Allen é amargo em seu retrato, e coloca lado a lado a personagem de Blanchett e a de sua irmã (interpretada por Sally Hawkins) que é seu completo oposto. Esse choque de modos diferentes de ver a vida é interessante e divertido, mesmo em momentos em que temos apenas dó pela ingênua Jasmine. Mesmo com alguns problemas de ritmo (o filme tem uma barriga em sua parte central que poderia ser evitada), o filme acerta ao misturar a analise sobre o bloqueio da realidade da personagem de Blanchett com uma serie de flashbacks que são intrigantes e que nos deixam curiosos para descobrir as motivações daquela personagem tão estranha. Não é uma obra-prima, mas Blanchett eleva o filme a ser um trabalho interessante e digno da filmografia tanto da atriz quanto de seu diretor.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Hanna
(Hanna, 2011)
Ação - 111 min.

Direção: Joe Wright
Roteiro: Seth Lochhead e David Farr

Com: Saorsie Ronan, Eric Bana e Cate Blanchett



Hanna é a história de uma garota treinada desde que nasceu pelo pai, para um conflito que ela não sabe quando vai acontecer. Criada em um ambiente profundamente hostil (algum lugar do Ártico possivelmente) a garota é uma mistura de A Noiva com Nikita em embalagem loira, inocente e juvenil. Hanna é uma criança ingênua que não conhece o mundo ao seu redor. Cercada de neve, frio e tendo de caçar para sobreviver, seu único contato com o resto do planeta vem da leitura de uma enciclopédia e das aulas de línguas que seu pai Erik ministra como preparação para sua missão.


Quando se sente preparada, Hanna decide enfrentar seu "destino" indo atrás da misteriosa Marissa, uma mulher que tem seu passado intimamente ligado ao de seu pai Erik. Ao mesmo tempo, Erik foge com a promessa de reencontrar a garota da cidade de Berlim.


Dirigido com profundo capricho e elegância por Joe Wright (Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação), Hanna é um desbunde estético e sonoro, com um trabalho de fotografia, enquadramentos, iluminação e trilha sonora de enorme qualidade.



A fotografia (Alwin H. Kuchler de trabalhos como Sunshine, Código 46 e Uma Manhã Gloriosa) é muito inteligente, apesar de não querer inventar a roda. No começo do filme, quando vemos a imensidão branca temos a mesma sensação de vazio e desesperança que é encontrada quando mais a frente o filme apresenta um desolado cenário desértico, abandonado e cercado de pedras e do sol escaldante. A fotografia faz seu papel em criar um ambiente naturalista e que amplia o escopo dessa percepção.


A direção de arte (a equipe liderada por Niall Moroney, de Desejo e Reparação e Sherlock Holmes) faz do filme uma mistura de ambientes kitsch e oitentistas com cinzentos espaços assépticos e mortos. A montagem (Paul Tothill de Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) é seca e combinada de maneira orgânica com a trilha sonora impressionante dos Chemical Brothers, que transformam cada sequencia em um desbunde visual e sonoro. A sequencia de fuga da instalação militar é montada de forma sincopada e abusa dos cortes secos e dos movimentos robóticos que casam de forma instigante com a trilha sonora. É uma das grandes cenas do ano de 2011 até aqui.

Mais nada disso seria de grande valia se as interpretações do filme não fossem boas ou que a história (embora seja rasa e simples demais) não funcionasse. Saorsie Ronan comprova o talento demonstrado em Caminho da Liberdade, Desejo e Reparação e até no fraco Um Lugar no Paraíso. Interpretando a garota Hanna como uma máquina adormecida, capaz de momentos de profunda ternura e amizade (em especial quando conhece uma família em viagem) e de transformar-se em uma matadora fria e calculista.



Eric Bana tem pouco tempo para desenvolver seu personagem, aparecendo como um pai zeloso é verdade, mas profundamente interessado em treinar a garota. Bana é um ator limitado mas que sabe usar seu talento nos papéis ideais para sua persona.


O grande destaque entre os atores é a monumental Cate Blanchett, mais uma vez criando um personagem interessante e único em sua filmografia. Marissa é uma mulher etérea, masculinizada mais sem deixar de ser sensualmente perversa. Uma entidade cinzenta com cabelos de fogo e um sotaque forçosamente americano, algo como uma rancheira texana. Uma grande vilã, notável em sua obsessão e perspicaz em seus modos e na forma com que maneja seus adversários para obter deles respostas.


Hanna é um amalgama visual interessantíssimo, com roteiro simples (e que derruba um pouco o filme, já que deixa o ritmo da produção um pouco inconstante), boas atuações e um trabalho inspirado de seu diretor Joe Wright que mostra que também pode dirigir uma produção de ação com esmero e cuidado.

domingo, 23 de maio de 2010

Robin Hood
(Robin Hood, 2010)
Ação/Drama - 140 min.

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Brian Helgeland

Com: Russell Crowe, Cate Blanchett, Max Von Sidow, William Hurt, Danny Huston, Mark Strong

Robin Hood é um herói conhecido e bem clássico, em todos os sentidos. Ele tem todos os grandes atributos que um grande herói deve ter: é durão, corajoso, não tem medo de dizer o que pensa e é ainda um grande líder, um verdadeiro exemplo.

Logo, era uma questão de tempo para esse clássico ícone do folclore inglês fosse adaptado á era da Hollywood de grandes orçamentos. Adaptada 12 vezes para o cinema, a história já foi de filmes mudos da década de 20 e um longa malaio até uma paródia de Mel Brooks, passando pela adaptação com Kevin Costner em 1991. O exemplar com Costner é um frequentador da Sessão da Tarde, com seus atos heróicos, trilha metida a épica e um roteiro pouco atraente, mas entupido de diversão trash. Agora, o inglês chega ás telas pelas mãos de outro inglês, Ridley Scott.

O conceituado diretor começou a carreira com primores como Alien e Blade Runner, mas amoleceu com o tempo e agora alterna filmes ambiciosos mas com roteiros fracos como Cruzada e filmes menores e com qualidade satisfatória, como O Gângster. Após os primeiros trailer e as fotos, o novo Robin Hood empolgava. Russell Crowe parecia perfeito no papel e o elenco coadjuvante ia da competente Cate Blanchett até o legendário Max Van Sydow. Fora a impressão de que Scott queria algo novo e inovador, violento e sombrio. E agora Robin Hood chega ás telas.


A trama, julga a maioria do público, é conhecida. Robin é um ladrão que ajuda o povo de Nottingham roubando dos ricos e dando aos pobres. E é aí que a produção de Ridley Scott merece já ser vista: Não é essa a trama. A do filme conta a jornada de Robin Hood, um cavaleiro de Ricardo Coração de Leão (Danny Huston, sub-aproveitado), Rei da Inglaterra, que está nas batalhas pelo seu país quando é preso junto com 3 arqueiros após insultar uma ordem do rei. Logo, quando o rei é morto, Robin e os arqueiros fogem e levam a coroa até o ambicioso John (Oscar Isaac), que será proclamado o novo rei. Depois, Robin vai para Nottingham e conhece Lady Marion (Cate Blanchett) e Sir Walter Loxley (Max Von Sydow). Este último pede para que Robin se finja de seu filho para comandar a cidade, agora que ela está feliz com a volta do "filho pródigo". Mas quando Sir Godfrey (Mark Strong, excelente) começa a saquear várias cidades ao mando do rei, Robin tem que proteger Nottingham.

A trama não é fraca nem arquetípica. Ela poderia até criar uma excelente história de origem, que mostrasse um lado diferente de Robin Hood e, com o filme nas mãos de Scott, teríamos algo sujo, violento e, principalmente, inovador. Mas, com o roteirista Brian Helgeland, o buraco sempre é mais embaixo. Ele, responsável por trabalhos irregulares como Zona Verde, O Sequestro do Metro e Chamas da Vingança, faz desse potente candidato a clássico num típico e comum blockbuster hollywoodiano. Algumas frases de efeito e alívios cômicos não precisam participar do mix de Robin Hood. Se a proposta original (a linda forma com que o trailer foi montado) era reinventar o herói de forma artística, ela foi perdida. Temos aqui apenas um Begins, um reboot comum, como Sherlock Holmes  (apesar do filme do detetive inglês ainda ser melhor, pecando apenas por problemas triviais).


É a tal fórmula atual de recriar filmes com ação cativante recheadas com humor. Helgeland até constrói personagens com destreza e tem calma em desenvolver(note como ele cria um roteiro inteiro antes de mostrar o Robin que conhecemos), mas peca por criar situações comuns e diálogos completamente deslocados, tentando dar um tom épico em horas que simplesmente não precisava.

Outro exemplo é a suspensão de crença. De milhões de hectares na Inglaterra inteira, Robin foi parar justo onde o cavalo do rei passava na hora com a Coroa. E o pior: o único guerreiro vivo de uma emboscada é o homem que motiva Robin a encontrar seu passado, salvar Nottingham e tudo mais. Resumo: O filme inteiro é motivado por uma simples coincidência!

Estranho pensar que no início, quando Ricardo é morto, a flecha disparada seja por um mero zé-ninguém. Aqui, o fora do comum prevaleceu, mostrando um ponto forte do roteiro. Porém, no final Robin precisa lutar com todo mundo, até mesmo contra o vilão principal, tomando a responsabilidade de tudo. Talvez o roteiro tenha tentado fazer de Robin Hood um ser maior, tendo que o colocar em todos os grandes acontecimentos. Exagero.


Uma falha enorme. Mas o roteiro tem seus trunfos. Cria personagens legais, situações aceitáveis, se avaliadas de forma descompromissada e um filme divertido, com 140 minutos que passam sem incomodar. Pra quem exige pouco, o filme pode servir bastante. Para o público ávido por blockbusters, o filme será um espetáculo. Para quem esperava algo verdadeiramente artístico de Ridley Scott, fica pra próxima.

É interessante notar que Scott poderia ter feito algo pra melhorar isso. Ele poderia simplesmente pegar a trama e pedir pra refazerem o roteiro, com o intuito de deixá-lo mais interessante e estimulante mentalmente. Mas o comodismo que tornou parte de sua persona desde A Lenda aflorou aqui. Definitivamente, as bolas do diretor ficaram com aquele unicórnio de papel na mão de Harrison Ford no longíquo 1982.

Apesar de ter amolecido como narrador, Ridley Scott continua um diretor competente. Poderia ser gênio, mas ficou preguiçoso. Filma batalhas com arrojo e com uma câmera panorâmica que faz parecer que um Michael Bay da vida nem merecia ter uma cadeira no set. Nas cenas dramáticas, sem movimentos bruscos, a direção fica acima da média, ajudando a fluência das cenas. Interessante notar também como Scott não se deixa levar pela máxima atual de colocar efeitos especiais em excesso na tela. Aqui, o legal é ver que cada fotograma do filme é uma beleza e os cenários, riquíssimos.


Um verdadeiro deleite visual, com imagens bonitas a cada frame. Um filme visualmente perfeito. Ajuda também a paisagem matadora que contempla os olhos. Um grande exemplo do perfeito equilíbrio da direção de Scott com o cenário é a batalha final, pontuada com uma sequência curtíssima, porém impactante do filme: Robin, disparando sua flecha em slow-motion, de vários ângulos. Um primor. A fotografia de John Mathieson também auxilia a construir fotogramas extremamente lindos e registrando as batalhas (e os cenários) com a mesma grandiosidade. A trilha de Marc Streitenfeld é épica, mas não cai no lugar comum de um James Horner, por exemplo. Bonita e vale a pena.

As atuações também são boas. Russell Crowe faz um bom trabalho, apesar de ter mais talento que isso. Cate Blanchett faz seu padrão, o que é ótimo, mas não se sobressai mais por ter um personagem tão raso. Max von Sydow prova ser um leão da atuação, fazendo um papel poderoso e William Hurt faz pouco com seu pouco espaço de tela. Já Mark Strong é um ator extremamente competente e é profílico, podendo ter feições diferentes a cada momento. Uma atuação hipnotizante e camaleônica, de forma que não é possível saber quais as ambições de Godfrey pela aura fechada que Strong cria.

Num panorama geral, Robin Hood é um bom divertimento semanal e vale o ingresso, ainda mais pra quem gosta dos filmes de sandálias e espadas. Apesar da constante semelhança com outros exemplares do gênero, como Gladiador (até incomoda a semelhança de algumas cenas), o filme pode se sair interessante pra quem procura um novo herói antigo nas telas, recriado com os clichês atuais. Mas, ainda serve pelo visual dos fotogramas perfeitos que Scott filmou.


Fica agora a torcida por Ridley Scott. Que ele vá até sua sala, pegue um exemplar de Blade Runner e o assista e analise cada momento de sua preciosidade oitentista. E, principalmente, que ele se lembre que já foi um cineasta ousado, que ia contra as fórmulas de maneira inconsequente, arriscando tudo.

Era legal na época em que a ficção-científica se tornava um gênero infantil e completamente familiar (Star Wars e E.T virando bilheterias enormes) e Ridley nos apresentava uma filosófica ficção com influências Noir que era inteligentíssima e com roteiro impecável. E olha que ele tinha inovado 5 anos antes também, com Alien. Onde foi parar esse cara? Definitivamente, o Ridley Scott visionário, que ia contra as fórmulas, sucumbiu a elas.