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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Aposta Máxima

Aposta Máxima
(Runner, Runner, 2013)
Thriller - 91 min.

Direção: Brad Furman
Roteiro: Brian Koppelman e David Levien

com: Justin Timberlake, Ben Affleck, Gemma Arterton, Anthony Mackie

Em viagem para seu show no Rock in Rio desse ano, Justin Timberlake cedeu entrevista coletiva para promover esse Aposta Máxima e o fez com razão, já que esse é um daqueles "filmes-veículo" criados para determinados atores, na intenção de promover sua competência nas telas. Recentemente Taylor Lautner teve o seu momento no thriller de ação genérico Sem Saída, Jennifer Aniston estrelou algumas comédias com esse viés, assim como Vince Vaughn e Owen Wilson, Will Smith, Tom Cruise (com alguma frequência) entre tantos outros atores que vez ou outra deixam de lado algum projeto mais sério ou engajado para se dedicar a um exercício do "ego massageado" em produções que giram em terno de suas personas consagradas na tela grande. É o caso de Timberlake, que vinha se mostrando um ator competente - especialmente em Rede Social - e que esteve em dois "veículos" seguidos: In Time e nesse Aposta Máxima.

A trama gira em torno de Richie Furst (Justin Timberlake) um sujeito que cursa mestrado na prestigiada universidade de Princeton e paga suas mensalidade servindo como uma espécie de consultor para conseguir novos usuários em um site de pôquer online. Descoberto pelo reitor, sua permanência na universidade é ameaçada caso continue mantendo esse tipo de atividade dentro da instituição. Desesperado, resolve apostar todas as suas economias no tal site que participava com a intenção de conseguir a maior quantidade de dinheiro possível. O sujeito começa a ganhar, daí se empolga e tudo que acumulara se esvai em misteriosas rodadas de jogatina virtual. Depois de uma ajuda de um dos colegas, descobre que fora trapaceado e decide viajar até Costa Rica (local onde fica a sede do site) para reclamar, pedir esclarecimentos e ter seu dinheiro de volta.

Que bagunça não? A trama é confusa - e não complexa - já que não tem muita noção do que de fato é. As explicações para a trapaça e a maluca ideia do sujeito - em vez de simplesmente largar esse emprego e arrumar outra forma de ganhar dinheiro, afinal ele estava fazendo mestrado - é absurda. Enfim, uma vez lá acaba sendo convencido pelo dono da empresa (vivido por Ben Affleck) a trabalhar na mesma.



Aposta Máxima é um veiculo para demonstrar talento em Timberlake, um sujeito que é bom cantor (mesmo não do som que gosto de ouvir), melhor ainda como dançarino e vem demonstrando aptidão para a interpretação, mas nesse Aposta Máxima está completamente no automático, vivendo o sujeito de "bom coração" que se envolve em alguma coisa ilegal e precisa encontrar uma forma de se safar.

Ben Affleck interpreta aqui seu primeiro vilão de verdade desde Dogma, e vejo um retrocesso em relação aos seus últimos personagens. Ivan Block é o vilão sedutor, daqueles que encontra o ponto fraco do adversário e o adula para mantê-lo próximo e facilmente manipulável. Muito diferente do sujeito que precisava se provar em Argo ou do assaltante apaixonado de Atração Perigosa. Se alguém precisar de mais um motivo para reclamar da escolha do ator para ser o novo Batman, esse filme pode ajudar, já que o ator está em "modo canastrão" durante quase toda a projeção.

O filme é um thriller óbvio sem grandes destaques. Temos a femme fatale (Gemma Arterton, bronzeada e forçando seu sotaque britânico), o policial que torce as leis e que é tão cruel quanto o bandido que persegue (Anthony Mackie em interpretação exagerada), traumas do passado do protagonista, planos mirabolantes e aquele final onde o herói do filme consegue ser brilhante depois de parecer imbecil durante toda a projeção.



Mais um daqueles filmes (estou parecendo disco riscado) que parece datado de saída. A possível "crítica velada" ao jogo online soa infantil, o desenvolvimento dos personagens é raso e nem mesmo os belos cenários da Costa Rica (ou melhor Porto Rico que "dubla" o país centro americano) nos fazem nos interessar por essa trama, que peca até mesmo em explicar com correção o funcionamento da tal estrutura tão perigosa liderada por Affleck.

Como disse no começo do texto, Aposta Máxima é um veículo para Timberlake. Melhor teria sido para o cantor/dançarino/ator ter usado como cartão de visitas seu show no Rock in Rio.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Argo


Argo
(Argo, 2012)
Drama/Thriller - 120 min.

Direção: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio

com: Ben Affleck, John Goodman, Alan Arkin, Bryan Cranston, Victor Garber


Ben Affleck se redescobriu na função de diretor. Ainda que consagrado comercialmente como ator (após seus sucessos em blockbusters como Armageddon, Pearl Harbor e Demolidor), fora em 2007 que sua volta aos holofotes da crítica ocorreu. Retornando ao posto de roteirista que o colocou no mapa de Hollywood no premiado Gênio Indomável (escrito em parceria com seu amigo Matt Damon), Affleck recebeu vastos elogios por sua estreia na direção em Medo da Verdade. Em 2010, se estabeleceu como promissor realizador de policiais expressivos ao dirigir o aclamado (e seguro) Atração Perigosa. Mas se parecia que o reinventado Affleck, ávido por uma segunda chance da indústria, rumava para uma carreira semelhante à de Michael Mann, acabou se mostrando estreito. Em sua nova obra, Argo, o californiano expande suas ambições e cria uma politizada visão sobre uma época e ainda se afirma um interessante criador de tensão.

Ambientado no final dos anos 70, o filme conta a história da Crise dos Reféns em Teerã, quando houve a tentativa de resgate pela CIA através da falsa equipe de filmagens de um longa que seria ambientado no Oriente Médio. Para uma trama com características tão singulares em sua mescla de absurdo com uma crescente tensão, o roteiro de Chris Terrio constrói uma estrutura muito hábil e que se prova satisfatória em conjunto com a forte montagem. Na busca por uma unidade na distinta narrativa, Terrio consegue um mote para cada elemento da narrativa: enquanto o nervosismo toma conta da tela no tratamento dado ao sequestro dos diplomatas, o absurdo na consistência da missão planejada pela CIA se mostra coerente na sátira realizada a toda Hollywood. Entre esses dois espectros, o protagonista Tony Mendez tenta organizar sua missão.

Mas primeiro, o absurdo da sátira. Sátira essa que é representada brilhantemente pelo executivo Lester, vivido por Alan Arkin, e pelo maquiador John Chambers, interpretado por John Goodman. Logo que entra em contato com os dois representantes da indústria, Mendez é recebido com ácidos comentários dos velhos jogadores da Terra da Mentira. Enfileram-se as marcantes passagens, tanto sobre as excentricidades do local quanto sobre os simplismos dos que o povoam. Quando o protagonista fala do perigo que o Aiatolá representa, Lester compara o segundo ao Sindicato dos Roteiristas; ao falar de cavalos, alguém compara o filme fajuto a um faroeste porque “se tem cavalos, só pode ser faroeste”. Não cabe me estender ao revelá-las, já que uma das surpresas de Argo é justamente esse comentário cínico que a Warner faz a si mesma, algo sem a visão quase surrealista de Trovão Tropical e que possui um conteúdo tão forte e engraçado quanto.


Se a primeira vista a ideia de mesclar o ridículo da missão (“É nossa melhor pior ideia”, diz o agente vivido por Bryan Cranston) com uma crise violenta é arriscada por talvez tirar a gravidade da situação, Affleck e Terrio (junto com William Goldenberg, montador do também ritmado Medo da Verdade) surpreendem ao saberem criar um ritmo que freie a sátira quando o filme parece que vai ficar muito descompromissado – e que sabe ser engraçado quando a situação fica insustentável de tão grave. Para as imagens de impacto, Affleck é bastante feliz ao conceber tensão através de pequenas ações. Repare como a impressão das passagens é bem desconfortável, sem que isso se torne muito forçado ou inverossímil. Tanto as imagens de arquivo, como as dos protestos no Irã, quanto às recriadas pelo diretor (a montagem com a cena da tortura é espetacular) são fantásticas na função dramática. E apesar da cena com os fiscais, no clímax, ter alguns empecilhos em horas convenientes demais, a tensão é tão bem construída por Affleck que a cena se torna totalmente satisfatória, compensando esse pequeno erro.

Indo além da narrativa, Argo ainda se demonstra poderoso retrato da época. Visualmente, o diretor cria com o fotógrafo colombiano Rodrigo Prieto uma excepcional atmosfera setentista divididas nas duas camadas do filme. Em Hollywood, há certa tendência solar ao clima, sempre otimista e dotado de leve glamourização (o que reforça o amor cinéfilo de Argo, que falarei a seguir). Já no Irã, na desesperadora situação da guerra, a granulação domina quase todas as cenas e a calculadamente nervosa câmera registra cenas chocantes (como as citadas cenas do galpão da tortura e da à multidão com raiva). Até mesmo no mercado de especiarias, a tensão domina com a granulação, mesmo que a câmera fique um pouco mais estática. Somando isso aos precisos figurinos e maquiagem (Affleck parece oriundo dos 70 por completo) e ao excelente uso de músicas da época, com as breves utilizações de When the Levee Breaks e Sultans of Swing, e temos uma atmosfera muito bem definida e instalada para abrigar uma história com temas complexos como esta.

Temas complexos, esses, que conseguem até mesmo criar uma (ótima) cena toda baseada em ideologias. Os problemas contra estrangeiros são mostrados na já citada cena do mercado. Quando Affleck passa com sua equipe no meio de tantos orientais, uma briga começa do nada. Então, a intolerância xenofóbica é demonstrada verbalmente e quase fisicamente, dando um mal-estar marcante à situação. Além disso, ao final, discute-se muito sobre o papel que os Estados Unidos pode fazer no mundo em termos de intervenção militar (“por que não fazemos ações como essa?”, diz alguém, injustamente, no final), mas de uma maneira que é otimista sem soar ufanista. Nesses temas, Affleck se aproxima bastante do cinema de George Clooney (não por acaso, produtor do longa), que realiza crônicas fortes baseadas em tópicos políticos, mas não soa propagandista. Como registro narrativo, porém, o californiano Affleck é mais feliz que Clooney, já que é o que melhor concilia sua história com seus temas de subtexto sem que isso intervenha tão ativamente na trama.


Mas se a ficcionalização de alguns fatos é inevitável, esta serve mais ainda para falar do amor cinéfilo do filme. A câmera de Affleck e Prieto anda pelos cantos de Hollywood com um misto de nostalgia e admiração por aquele cinismo todo. O letreiro da cidade é mostrado em seu estado incerto da época, enquanto a coletiva de imprensa falsa passa aos olhos do espectador com várias luzes e em uma câmera lenta que parece eternizar os fatos; action-figures são vistas nos créditos finais, uma leve representação da própria Hollywood; e mesmo quando conversas banais ocorrem na cidade, algo interessante parece estar ocorrendo. Quando Lester e John conversam sobre Tony, perto do final, eles acabam passando por uma gravação. A prova definitiva desse amor soberano, porém, vem naquele que é o melhor diálogo do filme; ao citarem uma passagem de Marx para Lester, o personagem de Arkin rapidamente questiona: “Groucho disse isso?”

Surpreendendo ainda como ator, Affleck supera novamente o desafio de protagonizar o próprio trabalho. E repare como as expressões do ator, sempre levemente sisudas, parecem calculadamente entre a bondade e a observação, o que nos assegura tanto da competência quanto da honestidade de Mendez. Além do mais, o americano prepara o elenco secundário com destreza, já que os diplomatas sempre convencem em suas funções (e seus rostos pouco conhecidos do público dão mais gravidade à situação). E John Goodman e Alan Arkin formam uma das mais divertidas presenças cômicas no ano, com uma afinação incrível e comentários tão esclarecedores quanto ácidos e divertidos. Digno de prêmios coadjuvantes, até.

Embasado político sem perder a maturidade (sempre se reconhece que a missão, por mais benéfica, fora baseada em diversas farsas), mesmo sem esconder sua devoção pela cinefilia, Argo tem tudo para acumular estatuetas. E o melhor: com todos os merecidos aplausos possíveis. E um especial a Ben Affleck, se revelando um diretor muito interessante (repare o imponente zoom na comemoração do final) e que dá um passo a frente em sua carreira ao discutir com relevância ímpar sobre temas relevantes e contemporâneos, além de se revelar um excepcional narrador.



sábado, 5 de março de 2011

The Company Men
(The Company Men, 2010)
Drama - 104 min.

Direção: John Wells
Roteiro: John Wells

Com: Ben Affleck, Tommy Lee Jones, Chris Cooper, Maria Bello, Kevin Costner e Craig T. Nelson



A primeira coisa que procurei fazer ao terminar de ver The Company Men, foi tentar descobrir a idade do diretor e roteirista John Wells, para identificar exatamente qual era o viés de sua agridoce critica ao "american way of life”.


Caso fosse jovens - menos de 40 anos - parecia ser uma critica a sociedade que trocou sua vida pessoal pelos bem materiais e pelo conforto do dinheiro, e mais profunda ainda, uma critica a forma com que boa parte da população encara seus respectivos empregos. Como extensão direta da vida, ou única razão para estarem andando na terra.


Caso fosse de meia idade, um mea culpa admitindo que a sociedade destruiu seu próprio sistema e que o que resta agora é juntar os cacos e tentar recomeçar, tentando mudar os paradigmas passados de geração em geração.



Caso fosse mais velhos, da terceira idade, um ataque aos "mais novos" que desvirtuaram o sentido do american way of life, e que transformaram o lema de Schwarzenneger "se você se esforçar e jogar pelas regras vai ser bem sucedido" em uma piada de mau gosto em que na verdade para ser bem sucedido basta saber em que pisar e com que força.


John Wells tem 53 anos, o que o enquadra na meia idade, a mesma de dois de seus protagonistas em seu filme de estréia. Isso explica o melodrama implícito em suas histórias, que se não são as principais (essa fica a cargo do mediano Ben Affleck) são as mais interessantes e cheias de vida.


Wells tem experiência extensa como produtor de séries de TV, ditas adultas e dramáticas como E.R., Southland, West Wing, Third Watch e alguns filmes interessantes como Retratos de uma Obsessão, Longe do Paraíso, Deixe-me Viver e Não Estou Lá. Também foi roteirista de parte das séries que produzia, porém dirigiu apenas alguns episódios de E.R. e um episódio documental sobre o FBI, antes de rodar Company Men.



Seu dedo televisivo fica claro em boa parte do filme, que se abdicarmos dos planos "grandiosos" de cargueiros abandonados e afins representando o descaso com que são tratados as fundações do país, poderia muito bem se passar por algum episódio de uma série de tv. O que não é um demérito, pois - e muita gente concorda com isso - os trabalhos mais ousados e intrigantes nos Estados Unidos (pelo menos aquele que pode vir a chegar ao público em geral) são apresentados nas telas de tv.


The Company Men segue três homens que não enxergam suas vidas sem seus trabalhos. Porém, se vêem engessados em uma estrutura burocratizada e anacrônica que aos poucos foi se implodindo. Gene McClary (Tommy Lee Jones) foi o primeiro empregado da empresa e hoje tem um alto cargo e administra uma série de funcionários entre eles Phil Woodward (Chris Cooper) e Bobby Walker (Ben Affleck).


Phil é o inquieto homem de meia idade que se segura num emprego que exige cada vez mais e lhe retorna cada vez menos. Bobby é um arrogante vendedor saído dos anos oitenta com todos os defeitos que os chamados Yuppies insistiam em apresentar. Entre eles, a capacidade inacreditável de acreditar que as aparências são mais importantes do que a realidade. Esbanjam-se jogos de golfe, carros caríssimos enquanto a companhia vai se afundando e Bobby na proa é um dos que com ela afunda.



O filme já começa com Bobby recebendo a noticia que estava demitido e sua derrocada e eventuais lições de humildade vão se sucedendo.


Existe um problema em abordar essa situação por esse prisma. Tudo o que se segue visa grifar que Bobby era um homem entorpecido pelos dólares e que não existia fora de sua mesa de trabalho, seus ternos caros e carros importados.


Contrabalanceando isso, o filme apresenta Jack (Kevin Costner), cunhado e o nêmesis de Bobby. Jack é carpinteiro e acha que o trabalho de Bobby além de inútil e exageradamente burocratizado, na verdade só o mata por dentro.


A significância que podemos enxergar é que para Wells o homem não pode se ver preso a seu emprego, como um escravo de seus hábitos e estar sempre pronto para os ventos da mudança. Nada diferente do que 10 entre 10 avalistas e consultores de RH diriam em nossa atual realidade econômica.


Por outro lado, um saudosismo quase ofensivo toma conta do filme, como se Wells também quisesse dizer "essa sociedade de hoje acabou com as boas e decentes empresas americanas". A sociedade mudou e é impossível crer que as mesmas gigantes de outrora manter-se-iam como baluartes da indústrias nos dias de hoje. Soma-se a isso a má gestão de diversas delas e o resultado é um só: desespero.


Wells aborda isso com uma faca na mão apontada a todos e isso prejudica seu filme, que surge como panfletário e mais interessado em atear fogo do que em defender posições.


The Company Men perde pontos por isso, faz uma tentativa de acidez, mas contenta-se em ser agridoce e na metade final em apresentar melodrama como solução para os problemas de seus personagens. Alguns trágicos, outros que "aprendem suas lições" e outros que mudam de vida. Parece retirado de um livro de auto-ajuda escrito por um executivo falido. Uma pena, já que o filme começa interessantíssimo, mas perde terreno ao apresentar soluções tão maniqueístas e que fogem das discussões propostas pelo filme.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Atração Perigosa
(The Town, 2010)
Thriller - 125 min.

Direção: Ben Affleck
Roteiro: Peter Craig, Ben Affleck e Aaron Stockard

Com: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively, Slaine e Owen Burke

Em 1997, Matt Damon e seu amigo Ben Affleck escreveram um filme, Gênio Indomável, dirigido por Gus Van Sant. Depois de ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original, ninguém mais parou os dois amigos de Massachussets. Enquanto Matt Damon parece ter seguido a linha de George Clooney, escolhendo seus projetos a dedo e obtendo êxito crítico (e ás vezes, de público), Ben Affleck não o seguiu.

Depois de uma década de erros como Demolidor, Contato de Risco, O Pagamento (que é bom, mas tem uma péssima atuação de Affleck), Ben decidiu comprovar todo o seu talento demonstrado lá em 97: dirigiu Medo da Verdade, baseado no livro elogiado de Dennis Lehane. O filme foi tão bem recebido pela crítica que facilitou bastante o financiamento do novo filme do diretor, que ganhou até créditos de "do aclamado diretor de Medo da Verdade" no trailer. Agora, estréia nos cinemas brasileiros Atração Perigosa, que chega fazendo barulho pelas críticas imensamente positivas que vem recebendo nos Estados Unidos. Os 95% que ganhou no Rotten Tomatoes, aliado a críticas muito positivas de críticos do gabarito de Roger Ebert, fizeram o filme gerar muita expectativa.

Após ver Atração Perigosa, se entende as muitas críticas positivas, mas o filme não é uma obra-prima e nem merece ser indicado ao Oscar, como os americanos pintavam. É uma prova viva de que Ben Affleck é mesmo um excelente diretor e é um escritor muito competente também, porém o filme não é um produto inovador ou uma releitura genial de sua trama anteriormente testada. A estrutura que se vê no filme todo segue o ritmo dessa mesma trama, sem ousar em relação a outros filmes de roubo. O que diferencia e torna Atração Perigosa uma experiência positiva é justamente o fato de Affleck fazer um filme sem erros, cauteloso, em terreno seguro, sem ousar em momento algum.

A trama segue Doug MacRay (Ben Affleck), um ladrão de bancos de Boston que, junto com sua gangue composta por James "Jem" Coughlin (Jeremy Renner), Gloansky (Slaine) e Dez (Owen Burke), está realizando assaltos mais freqüentemente pra poder se retirar por um tempo desse ramo. Em um desses assaltos, o bando acaba levando Claire (Rebecca Hall) como refém e Jem, com medo dela ter visto algum deles, pensa em matá-la. Avesso a assassinatos, Doug propõe antes vigiá-la para saber se ela reconheceu ou não seus seqüestradores. Mas seus problemas começam quando Doug descobre que Claire é uma pessoa muito boa e se apaixona por ela. Além disso, o agente federal Adam Frawley (Jon Hamm) está no encalço de sua gangue e vai longe quando tenta usar Krista Coughlin (Blake Lively), prostituta ex-namorada de Doug e irmã de Jem.

O roteiro escrito por Affleck, Aaron Stockard e Peter Craig é muito preciso em vários aspectos. Apesar de um início que tem defeitos - como a cena em que Doug e Jem estão falando com o bando - o filme flui de forma concisa, com passagens interessantes e situações amarradas.

A construção de personagens é muito boa também, com 125 minutos sendo suficientes para montar o caráter e os sentimentos de todos os personagens importantes em tela. Contudo, a construção tem falhas. O defeito no início vem justamente daí, com uma previsibilidade grande demais, montando Doug como bonzinho e Jem como malvao com um diálogo bem manjado. Fora que faltaram umas pequenas passagens pra pontuar melhor a relação de irmãos de Krista e James. Apesar desses defeitos, tudo é para ser considerado bem trivial mesmo, já que o filme nada perde com isso.

As situações são bem amarradas, competentes e nenhuma desnecessária. Ainda que tiques do gênero de roubo sejam vistos (o grande roubo final para o clímax, a atração amorosa proibida, o ladrão bonzinho que quer se redimir), todos eles fazem parte do contexto que Affleck quer apresentar, formando assim um filme de roubo legítimo. Aliás, por escolher seguir essa estrutura, Affleck impede o filme de ganhar mais pontos, explicando aqui a tal falta de ousadia.

Outro ponto do roteiro que merece citação é a escolha de Affleck por contar sua história principal com um pano de fundo. Toda a mitologia criada em torno dos criminosos de Charlestown, a tal cidade do título original, é rica e sensacional, lembrando a ótica apaixonada que Martin Scorsese executou em Taxi Driver e Caminhos Perigosos. Esse bairro, em que o ofício de ladrão de banco é passado de pai pra filho, se torna interessante quando registrado pela ótica entusiasmada de Affleck.

A ambientação é esmerada e apresenta um pouco de ousadia à trama conhecida. Talvez essa falta de ousadia fosse um motivo para implodir o filme, mas como o gênero roubo é pouco retratado como ele realmente é (e como Affleck desde o princípio queria mesmo é fazer um roteiro seguro), Atração Perigosa apresenta um bom retrato da lei, na linha do "épico do crime" mesmo. E é tão preciso e competente o jeito com que Affleck conta a história que temos como resultado um charmoso e violento Heist Movie. E algumas vezes isso basta. Percebendo isso, entende-se o rótulo de obra-prima que os americanos viram no filme. Eles não esperavam nenhuma ousadia e amaram justamente a falta de... Ousadia.

Affleck cria sua trama criminosa com tanto empenho que ele realiza seu Fogo contra Fogo. Porém, se no épico de Michael Mann a rivalidade de DeNiro e Pacino era impressionante e o foco principal, colocando a caótica trama e a cidade de Los Angeles como pano de fundo, o foco principal de Affleck é sua trama de roubo, com Doug sendo o homem a se redimir nisso.


Como no filme de Mann, Affleck cria um intrincado panorama dramático e de assalto, construindo assim um filme similar. Mas, Affleck ainda não tem a competência e sensibilidade de Mann, que construiu em 170 minutos um filme invejável em 1995, com arcos dramáticos poderosíssimos e uma trama de crime espetacular. Se Mann tinha a ousadia, Affleck tem a segurança. Ao inovar, Mann criou um dos melhores filmes da década e justamente isso faltou a Affleck.

Seu épico é de cartas marcadas, sendo amarrado mas anteriormente visto. Ao optar por testar o campo do Heist Movie, Affleck cria um produto satisfatório em roteiro, mas ignorando a inovação, criando um "sub-épico" do crime, um retrocesso em relação ao filme de Mann. Cabe a Affleck inovar num eventual segundo filme de crime, para se consolidar como o grande contador de histórias que é.

A qualidade técnica que Atração Perigosa tem - ainda mais considerando a ninharia com que o filme foi feito (37 Milhões) - auxilia mais ainda a idéia de filme visualmente bonito. A direção segura de Affleck, com mão talentosa para a ação, ainda manda bem nas partes dramáticas, com closes quando necessários e planos se movendo lentamente.


Além disso, os cortes saem de forma sucinta, auxiliados pela espetacular edição de Dylan Tichenor. Nas cenas de ação, a edição e a direção entram em conjunto de forma deslumbrante, com um tiroteio bem coordenado. Affleck surpreende a audiência colocando bastante ação no meio de sua cadência e demonstra maturidade suficiente, mesmo no seu segundo filme, para conduzir a ação de forma competente.

A fotografia de Robert Elswit ainda deixa o filme mais belo, com uma atmosfera azulada no meio da gélida Boston. Combinando esse azul com planos na maioria cinzentos, temos imagens belíssimas e que funcionam dentro do contexto do filme, sem soar deslocadas. E ainda temos uma grande sacada de Elswit: deixando o filme inteiramente cinza e azul, no momento de redenção do personagem, surge um flare com o Sol batendo na tela, num contra-ataque de toda a violência do crime no filme, um momento singelo de pureza da alma. Espetacular.

A trilha sonora de Harry Gregson-Williams e David Buckley segue a linha do filme de assalto, com notas tensas e alongadas. Em algumas partes mais paradas do filme, é fácil reconhecer a contribuição de Gregson-Williams no filme, com notas bastante familiares em outros filmes com sua trilha. Esse ritmo que os compositores impõem na narrativa só ajuda a percepção que estamos diante de um filme de roubo seguro.

As atuações do filme cumprem as expectativas. Ben Affleck entra com veracidade no personagem, até mesmo criando um tipo de falar novo para ele. A fala calma, arrastada e meio melancólica até, ajuda na criação do personagem. Jeremy Renner está perfeito num papel que foi escrito de forma simples. Mesmo sendo típico de vários filmes, o ladrão mal ganha uma leitura respeitável pela visão de Renner. Seu talento, que já estava explícito em sua hipnótica atuação em Guerra ao Terror, fica ainda maior dada à transformação em relação a seu papel anterior. Blake Lively tem pouco espaço em tela, mas não compromete. Já Rebecca Hall faz um trabalho muito bom, sendo uma atriz invejável. Seu personagem, apesar de arquetípico, tem nuances dramáticas muito bem demonstradas pela atriz. E se Chris Cooper e Pete Postlethwaite fazem muito bem seus curtos espaços, Jon Hamm ganha espaço de sobra e arrebenta. Mesmo sendo o policial durão conhecido da audiência, Hamm é um monstro de atuação e mostra o porquê dele ser sinônimo de macho durão hoje em dia. Uma grande atuação. Elenco bom o de Atração Perigosa, afinal Ben Affleck escolheu profissionais que, mesmo com papéis que não apresentavam nenhuma novidade, fizeram um trabalho decente.

Num contexto geral, Atração Perigosa agrada. Apesar de situações comuns no gênero e falta de ousadia, é difícil errar quando uma história é bem executada desse jeito. Um filme recomendável, pra ver sem compromisso, esperando um thriller tenso com passagens excelentes e uma ação esplêndida. E agora fica a espera pelo próximo filme do redimido Ben Affleck. Após fazer o aclamado Medo da Verdade e esse interessante Atração Perigosa, Affleck já entrou pro hall dos diretores mais promissores da nossa geração.


É engraçadíssimo pensar que um sujeito competente desses fez "maravilhas" como Contato de Risco, um dos piores filmes da década. Legal constatar que o talentoso Affleck voltou às origens talentosas que colocaram ele e seu bem-sucedido amigo Matt Damon no estrelato da indústria cinematográfica. A grande prova viva das segundas chances que Hollywood dá. Que venha o próximo trabalho dele!