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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Eu Vi - Trapaça

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Trapaça
(American Hustle, 2013)
Direção: David O. Russell
Roteiro: Eric Warren Singer e David O. Russell
com: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner

Queria saber qual o feitiço que David O. Russell usou. Quais são as palavras mágicas que ele calmamente aprendeu para conseguir seguidamente o apreço de boa parte da crítica e dos votantes que elevaram seus três últimos filmes a indicações ao Oscar. E mais, levou o próprio diretor a sua terceira indicação seguida também. Isso sem contar, que no caso de American Hustle conseguiu cravar a indicação dos seus quatro protagonistas, com chances reais de uma delas (Jennifer Lawrence) ser premiada.

E por que começo o texto desse jeito? Por que esse "Trapaça", está longe de ser uma porcaria, mas está mais longe ainda de ser essa fantástica produção que vem sendo vendida. A trama é reciclada de outros filmes de assaltos/golpes e os protagonistas apesar de visualmente serem muito bem caracterizados sofrem com a história já citada, embora Russell tenha o jeito para dirigir atores. Ele realmente consegue fazer seus interpretes acertarem. A tal "Trapaça" que dá título em português ao filme, é a tentativa de um ganancioso agente do FBI (Bradley Cooper) em pegar figurões do governo em tramóias corruptas. Para isso, ele conta com a ajuda do malandro personagem vivido por Christian Bale e de sua comparsa e amante interpretada por Amy Adams. Uma vez que o agente acaba os prendendo, lhes dá uma saída: ou ajudam ou acabam presos. Junta-se ao entourage, a mulher de Irving (Bale), Rosalyn (Jennifer Lawrence), uma alcoólatra surtada que serve mais como problema do que como auxílio. 

Apesar do quarteto estar realmente bem, me passa a sensação de estar vendo mais um filme "bacana, mas que será facilmente esquecível, o mesmo problema que muitos colegas e espectadores notaram no igualmente laureado "O Lado Bom da Vida". Se ali, eu consegui enxergar uma química interessante entre Lawrence e Cooper e uma trama de fundo bastante convincente, o que me fez relevar os excessos fabulescos da história, aqui essa sensação inexiste. Temos uma história divertida é verdade (as participações especiais são ótimas, especialmente a de Louis C.K.) mas que não tem um grande momento, uma grande frase ou mesmo algo que realmente tenha conseguido me emocionar. Salva-se - com muitos méritos - os figurinos, cabelos e design de produção que retratam perfeitamente uma época e a excelente seleção musical. Me parece muito pouco pra tanta comoção.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Homem de Aço

O Homem de Aço
(The Man of Steel, 2013)
Ação/Aventura - 143 min.

Direção: Zack Snyder
Roteiro: David S. Goyer

com: Henry Cavill, Michael Shannon, Amy Adams, Russel Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne

Esse não é um filme do Superman. Esse é um filme sobre um "Deus em treinamento". Um sujeito absolutamente perdido sobre suas origens, seu papel na sociedade e como lidar com seu inesgotável poder. É sim, uma interpretação ousada e até radical para o personagem. É sim, alvo fácil para críticas. É sim, muito questionável. Mas, para mim, uma visão diferente daquela que Richard Donner - por exemplo - criou em 1978 (que cristalizou uma imagem "clássica" do personagem nos cinemas) é válida. Se convivemos com as ideias de Tim Burton e Christopher Nolan para o Batman (e sim, menos ousadas mais completamente diferentes em estilo, abordagem do personagem e ambientes que o cercam), acho que a ideia de Snyder e Nolan (olha ele aí de novo) merece sim ser analisada por esse viés: uma nova interpretação para o herói.

Vindo de um fracasso - e que curiosamente era bastante fiel ao classicismo de Donner no Superman original - com Superman Returns, o mote da produção pareceu ser: "um herói mais agressivo, para um mundo mais cínico" ou algo assim. De fato, o Superman de Snyder é muito menos escoteiro do que qualquer outra encarnação do personagem até aqui. De fato, existe esse sentimento de rompimento com o que foi estabelecido no cinema, incluindo aí uma nova história de origem e a retirada de elementos importantes da franquia, como o tema de John Williams, o cachinho símbolo do Superman de Reeves e a alteração no uniforme que segue o padrão dos quadrinhos atuais do personagem.

Isso faz do filme ruim? Não, mas é uma interpretação radical do material fonte e como todo radicalismo sobram espinhos, farpas e alguns problemas que poderiam ter sido corrigidos, mas que são compensados com um espetáculo visual que consegue dar escopo e "realismo" a uma batalha de Deuses. É primeira vez que uma produção do Superman consegue dar impacto visual a magnitude do poder do personagem. Em seus confrontos, o que vemos é um embate grosseiro, onde nada (nem ninguém) consegue se manter intacto diante da força bruta destes combatentes. Vemos o Super rasgar o solo com suas quedas, formando crateras, o solo tremer ao alçar voo, vemos o personagem quebrar a barreira do som com enorme facilidade e o impacto da destruição causada por Deuses entre homens.



A produção não é nada sutil com essas referências divinas, colocando-o Super como uma espécie de Messias, que vem do espaço (céu?), para guiar os homens a um estado de excelência. Em uma determinada cena, vemos o personagem em uma igreja confessando-se a um padre com a imagem de Cristo ao fundo. Em outra sequência, descobrimos sua idade quando os eventos cataclismos em Metropolis começam a acontecer. São elementos que chancelam a ideia de que não estamos vendo um filme de super-herói, mas de uma divindade.

E tudo começa na Krypton apresentada pelo filme. Uma gigantesca metrópole que mistura elementos tecnológicos e biológicos, com amplos cenários escavados em cavernas. Jor-El e sua esposa Faora estão infringindo a lei ao terem um filho de forma natural em vez de seguirem a tradição da clonagem, que geneticamente escolhe a casta a que cada novo kryptoniano deve pertencer. Ao mesmo tempo, o cientista sofre com a desconfiança de seus superiores, já que prevê o fim do planeta. Em Krypton, Jor-El é mais do que apenas um homem da ciência e isso fica claro em seu confronto com Zod, que aqui é um sujeito do sistema, que ao mesmo tempo em que defende as castas é inflexível com os governantes do planeta. Minha impressão é que estamos acompanhando apenas o climax de uma discussão que existia há muitos anos e por isso as informações ficam pouco claras nesse início. O que é o codex? Por que Zod odeia tanto os líderes de seu planeta? Qual sua relação com Jor-El? O incessante sol vermelho e poente de Krypton é muito bonito e funciona como exemplo (nada sutil) da aurora de uma civilização e as muitas bestas voadoras me lembraram demais John Carter e Avatar.

Jor-El é também um homem de ação. É o bastião moral e que durante a trama (das formas mais variadas) serve como conselheiro de Kal/Clark sobre suas origens e suas "obrigações" para com o mundo que o abriga. Russel Crowe não compromete, mas também não consegue ir muito além. Quem rouba a cena é o pai "humano", Jonathan Kent, que tem Kevin Costner como interprete. Em pouco tempo de tela, Costner consegue criar um sujeito crível e responsável por dar as bases emocionais ao garoto que sofre com a dificuldade para compreender sua força e seu lugar no mundo.



Michael Shannon como Zod é daqueles vilões que ganham credibilidade e peso no decorrer da trama. Se so surgir parece mais um déspota de quadrinhos banal, vai ganhando tridimensionalidade quando conhecemos suas origens e sua falta de perspectiva quanto a um futuro diferente daquele que ele luta para atingir. Shannon é um ator muito intenso e essa intensidade ajuda a criar o paralelo entre o bom kryptoniano e kryptoniano ruim, já que Cavill interpreta Clark como um homem absolutamente perdido quanto a quem é e ao que fazer. Não fica muito claro quando sua peregrinação pelo mundo começou, mas durante a projeção acompanhamos muitas das paradas de um homem em busca de um sentido para sua vida.

Cavill faz de seu Clark/Kal esse poço de dúvidas, inexperiente e sem muita noção do tamanho de seu poder e de sua responsabilidade. Como disse no início do texto, o Superman de Zack Snyder é muito mais um Deus do que um super-herói, e as referências claras e (novamente) nada sutis a sua similaridade com a figura de Cristo acumulam-se. De discursos tanto de Jor-El quanto de Jonathan Kent, passando por sua idade, sua peregrinação e o fato de em determinado momento da trama ele chegar a pedir conselhos a um padre, diz muito sobre como a produção enxergou seu protagonista.

Isso também avaliza e legitima o terceiro ato (tão criticado por ai). Não estamos falando de uma divindade plenamente consciente de sua força, mas levada a um confronto tão extremo que suas travas morais - que já havia sido demonstrada em diversos outros momentos - acabam em segundo plano diante da força que aquelas duas figuras demonstram ao se encontrarem. Claro, que o rastro de destruição visto durante toda a trama é obsceno. Claro, que essa representação é extrema. Mas, Clark - apesar de sua idade - é um sujeito imaturo e despreparado para a consequência de seus atos.



Outra correção de rota muito interessante acontece com Lois Lane, sempre apresentada como uma repórter extremamente competente mas que nunca percebia coisas que estavam na sua frente. O filme aqui dá a personagem um reflexo visual que faz jus a toda a fama de excepcional repórter, corrigindo um erro crasso na origem da personagem (quase dei um spoiler). A mãe de Kent, Martha, vivida aqui por Diane Lane, também está bem. Diane, musa de uma geração, envelheceu muito bem e dá um ar de seriedade e calor humano que faz dela uma mãe perfeita para o personagem, um alienígena em busca de seu lugar. Percebe-se que diferente do que acontecia com o pai, em Martha, Clark encontra segurança emocional.

Zack Snyder aqui parece estar mais equilibrado. A estética de seus filmes sempre foi seu forte. Gostando-se ou não de Sucker Punch (eu não gosto), é possível enxergar um cuidado visual ali. Mesmo com exageros, problemas de roteiro, Snyder sempre teve assinatura e características muito marcantes em seu trabalho. Que pese o uso excessivo de slow motion transformado em piada pela quantidade industrial encontrada em seus trabalhos, Snyder sempre foi competente na hora de criar seus mundos. Excetuando-se Madrugada dos Mortos, em 300, Watchmen, Sucker Punch e até mesmo a animação Lenda dos Guardiões, tem momentos visuais impecáveis. 300 e seu cuidado em imitar com riqueza de detalhes os traços dos quadrinhos de Frank Miller, Watchmen e sua abertura (uma das melhores da historia recente do cinema), Sucker Punch e a criatividade dos mundos concebidos pelo diretor e toda a direção de arte e o design das corujas na animação, são exemplos dessa competência. Porém, Madrugada dos Mortos continua sendo seu melhor filme. Por quê? Pois, aliado a sua qualidade estética, existe uma boa historia por trás e que jamais se rende ao visual. O cuidado estético de Snyder está a serviço da historia a ser contada e não o contrário. Sim, em 300 Snyder estiliza-se ao máximo para conseguir chegar próximo do que os quadrinhos apresentavam, mas peca por esses excessos, criando sequências que apesar de visualmente serem impecáveis, não contribuem para o andamento da historia.

Homem de Aço é Snyder achando um equilíbrio. Continuamos a ver seu olhar na tela, com as grandiloquentes sequências, o impacto visual e sonoro da presença de deuses entre nós, mas com novidades e novas influencias. Em todos os flashbacks de Clark, impera a simplicidade, nos mostrando uma infância e um crescimento do personagem de maneira quase bucólica, como os trailers já nos haviam preparado. Snyder continua sim com seus cacoetes visuais e embora tenha lido muita gente reclamando da forma como suas batalhas vão sendo mostradas e comparando-o com Michael Bay, noto uma diferença brutal na forma de conduzir as situações. Snyder está preso ao tema do filme, e por isso me parece bastante natural que a intensidade e a forma como tais sequências sejam vistas na produção. Exageradas, ruidosas, praticamente invisíveis a olho nu e com um rastro de destruição enorme. Embora, reconheça que a grandiosidade pague o preço do excesso, já que a destruição depois de alguns minutos começa a cair na redundância. Mas isso seria tirar de Snyder suas pernas. Grandiosidade sempre foi marcante em todas as suas obras, sejam elas positivas ou negativas.



A dobradinha David Goyer e Christopher Nolan (responsáveis pelos novos filmes do Batman) se faz presente na tentativa de transformar tudo em "pé no chão" e de amarrar tudo, o que me causou problemas, especialmente na importância com que a simples repórter Lois Lane ganha no decorrer da trama e na utilização do tal Codex que vemos em Krypton. Essa "nolanização" de muita coisa no cinema (especialmente em filmes de heróis e ficção cientifica), onde tudo precisa ser "forensicamente" correto, com tratados de perfeição tende ao fracasso, já que o material fonte e os personagens em geral nunca se preocuparam com tais questões. A própria abordagem dada aqui ao Superman comprova isso. Existem diversas questões propostas pelo filme, mas que basicamente podem ser aglutinadas em: como um alienígenas se comportaria diante de um planeta que lhe dá capacidades físicas e mentais muito mais altas do que a dos residentes? Ele seria bom? Ele seria mal? Ou ele tentaria de toda forma se esconder?

A opção mais racional, me parece ser a última, já que nos mundos de Nolan o bem e o mal - apesar de serem bem diferenciados - estão recobertos de cinzas e precisam de tempo para ser identificados claramente. Ao optar por sua jornada de auto-conhecimento Clark/Kal está apenas adiando o inevitável e sendo muito humano e "realista". Seria ingênuo demais pensar que ele facilmente assumiria seu fardo como essa manifestação de deidade na Terra. Isso é influencia de Nolan, e para o bem ou para o mal vem sendo utilizada com maior frequência em diversos trabalhos no campo "nerd". Acho apenas (e isso é um achismo puro e simples) que muitas vezes esse tipo de abordagem atrapalha o material. Aqui, miraculosamente, e apesar de estar lidando com uma força da natureza e não com um vigilante mascarado a coisa não descambou, embora os problemas existam, especialmente na resolução de alguns pontos referentes à trama e o excesso de tempo com que a última sequência se estende.

Hans Zimmer não cria uma trilha épica para o filme, mas parece ter tido a mesma leitura que tive. Um tema glorioso, de bravura e de elegia as virtudes, não caberia em um personagem tão perdido em relação a saber seu papel no mundo. Por isso, a marcialidade e a percussão indicam uma batalha sem fim. Um clima de guerra que faz com que dela, surja um herói e um líder.




Homem de Aço não é perfeito e também não é um filme do Superman. É a representação (com colant azul e capa) do nascimento de um Deus nos dias de hoje. Tal como os gregos, um Deus que disfarçado de homem procura entender aqueles que deve proteger e que muitas vezes não o compreenderão. Um Deus aprendendo a como lidar com seu poder e sua capacidade de influenciar o mundo em que vive. Um Deus que erra e que exagera e que assim como o sujeito que resolveu "biografá-lo" (espero) talvez esteja perto da perfeição em sua nova aparição. Cada vez mais alto e cada vez mais avante!


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Mestre


O Mestre
(The Master, 2012)
Drama - 144 min.

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson

com: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams

Começo essa análise com uma confissão: precisei assistir duas vezes a O Mestre para poder escrever sobre o filme. Não que a trama seja complexa, daquelas que é preciso rever para entendê-la, mas porque ao final da primeira exibição sai completamente dividido sobre o que tinha visto. De certeza, apenas a de que acabara de ver um conjunto de atores em momentos muito especiais. Joaquin Phoenix neurótico e furioso, Seymour Hoffman sedutor e inteligente em sua racionalidade de mentira e Amy Adams mantendo-se como uma fortaleza de mistérios.

Não sabia, no entanto, se tudo aquilo mostrado por Paul Thomas Anderson era de fato uma épica historia sobre dois homens torpes que se encontram ou se não passava de uma enrolação crônica, cheia de momentos que beiram o pedantismo.

Pois bem, na segunda visita ao mundo de O Mestre, o filme me pareceu claro (finalmente). Paul Thomas Anderson construiu uma verdadeira epopéia sobre um homem destruído e suas muitas tentativas para encontrar-se, para viver sem rédeas controlando seu destino, sua fúria pela vida, sua vontade de agarrar com ferocidade tudo a sua volta. Quando O Mestre nos foi vendido, tudo indicava que veríamos a história da formação de um culto (no caso a Cientologia, famosa por ter entre seus devotos, Tom Cruise, John Travolta entre outros), e embora O Mestre aborde essa situação (disfarçada como O Culto), não é sobre isso exatamente que o filme de Paul Thomas Anderson quer falar. Seu foco é na relação conturbada entre um aprendiz e um mestre, um sujeito irascível e doentio, sedento por sexo e criador de uma bebida tão forte que pode ser tratada como veneno e outro que se apresenta de forma messiânica, condutor de verdades sobre o sentido da vida, mas na verdade não passa de um homem igualmente perturbado e que inventa verdades para manter sua aura de sábio. Trocando em miúdos: não quer perder seu domínio e sua posição de autoridade sobre seu rebanho.


Assim como em Sangue Negro, Anderson nos apresenta uma história sórdida sem heróis, onde cada homem (e mulher) tem sua quantidade de pecados atados ao corpo. Freddie Quell (Phoenix) é a fúria que ao se envolver com Lancaster Dodd (Hoffman), vê em sua figura (exemplarmente ilustrado na sequência em que o marinheiro de Phoenix é entrevistado de forma brilhante pelo personagem de Hoffman) um pai que não teve, uma figura a que poderia prestar alguma espécie de respeito e que talvez o ajude a encontrar forças para descobrir quem ele é, a busca fundamental do filme. Em uma jornada de descoberta, espera-se (e é até comum notar) um ar de certo moralismo, com virtudes pipocando pela tela. Não é bem esse o caso de O Mestre, onde a jornada de descobrimento acontece, mas os resultados não são aqueles que o espectador talvez espere.

Ancorado em dois homens moralmente bastante condenáveis, Anderson não espera que o espectador se identifique ou torça por um dos personagens, mas que acompanhe suas jornadas. Um para se encontrar e outro para encontrar fregueses para sua fórmula mágica de sucesso e iluminação.

O Mestre é um filme incomodo, pois parece por muitos momentos não saber exatamente o que quer contar, embora isso seja proposital. Explico: em uma trama que oferece ao público a oportunidade de acompanhar um homem completamente perdido, me parece natural que em alguns momentos, o real e o imaginário, a confusão e a insanidade (é o que me parece à cena em que vemos um grupo de mulheres completamente nuas em meio a uma festa) deixem a narrativa um tanto difícil de ser "curtida" (usando uma palavra da moda). Mas Anderson, não parece querer que o espectador de ajeite na cadeira, mas sim realmente incomodar o espectador, sem fazer concessões a pré-conceitos ou ideias prontas.


Não existe caminho fácil, nem solução milagrosa por aqui. Quell é um bruto de postura arcada, com dicção anasalada e Dodd um mentiroso contumaz, cheio de sí, e Paul Thomas Anderson é humilde ao ponto de não entender que poderia mudar dois homens tão certos em suas convicções sobre o que são em duas horas e pouco de filme. Ele apresenta sua historia de redenção torta, de um homem em busca de liberdade completa, de conseguir encontrar seu lugar no mundo (mesmo que este pareça ser apenas um descanso trôpego em uma praia desconhecida ao lado de uma mulher de areia). O sucesso de O Mestre se deve a essa capacidade de não optar pelo caminho fácil e de analisar os motivos que fazem um charlatão sedutor e um homem de neandertal manterem uma amizade doentia. Por que afinal o discípulo segue o Mestre? Essa é a pergunta que Anderson faz.

Mesmo discursando contra a dependência de um bastião moral, Quell precisa de um guia e Dodd tem nele seu maior seguidor, um que verdadeiramente usa dos punhos para defender "a causa", o sonho de qualquer líder de culto. E nessa história de homens perdidos tentando encontrar seu lugar no mundo é que temos a chance de experimentar as mesmas sensações temáticas vistas em Sangue Negro. Soma-se a isso, a verborragia em que os dois amigos disputam o controle sobre todas as discussões, um procurando manter-se fiel a noção de liberdade e o outro implorando por ser amado com um legítimo líder.

Paul Thomas Anderson é ousado, constrói suas narrativas as desconstruindo (por mais absurdo que isso possa parecer), apresentando problemas e não os solucionando de forma óbvia. Talvez não seja tão intenso quanto Sangue Negro, mas é visualmente impecável (a fotografia de Mihai Malamaire Jr. é ensolarada e deslumbrante) e conta com uma dupla de atores especiais.



Há quase seis anos atrás, o cineasta Paul Thomas Anderson realizava Sangue Negro. Adotando sua técnica apurada a uma trama que abandonava a estrutura panorâmica de seus longas anteriores (em Magnólia e Boogie Nights), o diretor criou uma jornada emblemática, um longa que remetia aos grandes clássicos hollywoodianos ao contar a historia do marcante Daniel Plainview, seu anti-herói capitalista exacerbado. Nessa primeira incursão em grandes temas a serviço de uma narrativa focada, PTA concebeu um dos melhores filmes do século XXI. Era com grande espera, portando, que seu novo filme, O Mestre, fora aguardado. E realizar um projeto após uma consagração, porém, é um tópico complicado. Escapar da armadilha do terreno seguro é para poucos.

Com seu novo filme, o diretor sai de sua zona de conforto e se aventura por uma narrativa experimental. Complexo, arrojado e muito mais arriscado que o normal, O Mestre conta a densa historia das origens de um culto aos olhos do fiel, de uma forma que se recusa a facilitar as conclusões.

Para estabelecer o estado desconfortável que irá se fazer presente por toda a projeção, PTA procura pequenas situações triviais para logo distorce-las. Logo, o comportamento do protagonista Freddie Quell é problemático por não se enquadrar nessas trivialidades. Ao achar uma comunidade asiática, Freddie demonstra sua instabilidade ao apresentar um caráter destrutivo; quando sai com uma mulher, dorme no encontro; em um serviço como fotógrafo, não tarda para o homem arrumar uma confusão por motivo algum. É claramente um sujeito perturbado mentalmente - e a postura de Joaquin Phoenix no papel é curvada, pesada, como se o desconforto se estendesse para o corpo. É uma discussão à Cronenberg, onde a mente doente encontra um paralelo com um corpo em transformação, mas não se aborda além da sutileza da composição do ator - o que abre o roteiro a investigar a alienação de uma maneira mais retórica. 


Retórica essa, aliás, que remete novamente a Sangue Negro. Anderson desenvolveu uma visível predileção por duelos verbais. E se no seu filme anterior o duelo era pontual e catártico, aqui se faz mais presente. As discussões ideológicas, ora como formação de pensamento, ora como debate intelectual, rendem pelo menos três cenas memoráveis. O tema religioso ganha proporções maiores ao longo da projeção, com o desenvolvimento d'A Causa, mas é através dessas discussões que a narrativa parece caminhar. É uma estrutura visivelmente diferenciada, que foge da precisão obsessiva dos atos definidos de Sangue Negro, e investe em uma arriscada desorganização com o intuito de discorrer melhor sobre o tema.

Após o início, onde a perversão sexual de Freddie é estabelecida em conjunto com sua instabilidade comportamental, o roteiro de Anderson abandona a pretensão de criar atos definidos e se concentra na entrada e desenvolvimento do protagonista na religião. Como um sujeito problemático, que tem um vício em bebida e parece se portar como um adolescente (a imaturidade de Freddie é composta de maneira sutil, como em seus sorrisos tolos), o homem é perfeito para ser "salvo" por alguma entidade superior. É quando surge A Causa e Lancaster Dodd. Sua pregação desafia qualquer convenção científica e se coloca em uma posição superior irredutível (note como Dodd chama Freddie de animal como se fosse seu dono). E ao ser confrontado, sua fúria é explosiva, captada com precisão pela transformada performance de Phillip Seymour Hoffman, o que geralmente indica a falta de segurança nos argumentos do homem. Em certa passagem, Dodd discute com um homem que o questiona. Enquanto o homem fala com segurança e se cala, Dodd grita, xinga, se mostra hostil. Isso se repete ao menos duas vezes, o que denuncia uma fratura em uma persona que parecia indubitavelmente confiável em seus devaneios. Seus monólogos, como o do dragão obediente, parecem sempre dizer algo a mais sobre a natureza da religião.

Ao desenvolver Dodd, Anderson constrói sua temática além da esfera da Cientologia. Por mais que tenha suas discussões sobre vidas passadas e galáxias distantes, o Mestre não é muito diferente de um pastor ou um padre. 




Freddie, porém, é errante, e questiona sua devoção sem ter argumentos formados sobre. É um homem de instinto, de raiva, imaturo e perturbado, perfeito contraponto para Dodd e sua empreitada. Na cena da prisão, PTA é perfeito ao compor o quadro com Freddie em estado de fúria, e Dodd equilibrado. Ao querer ser salvo, o protagonista investe na Causa quase inconsciente. Através dos métodos da religião, como no exercício de confronto verbal e no de porta e janela, Freddie tenta encontrar uma unidade para sua vida, mas acaba constantemente alienado. A impressionante trilha de Jonny Greenwood auxilia, movendo as ações como um fluxo de consciência, dissonante e caótica, elevando a jornada de Freddie a uma condição entre o desconforto e o puro terror (os agressivos violinos do início se fundem a calma imagem do mar). 

A visão de Dodd, e surpreendentemente de sua opressiva esposa, encara as emoções como um recurso ruim do ser humano. A racionalidade excessiva da família Dodd é manifestada no filho mais velho, que denuncia sua falta de crença no pai e é oprimido em toda a projeção. Até mesmo o marido da filha d'O Mestre é levado a o chamar de "pai", o que só reforça essa figura patriarcal inabalável e insubstituível que Dodd representa. O prazer sexual, inclusive, serve como termômetro: enquanto o viciado Freddie sacia suas vontades com diversas mulheres, Dodd tem um contato sexual extremamente reprimido com sua esposa (que encara o orgasmo de maneira assustadoramente fria).

O complexo de deus de Dodd, representante da moral e da ordem que exige vassalos, toma grandes proporções e é visto com olhos confusos por Freddie. A confusão mental do protagonista, o narrador, acaba criando momentos sublimes de puro domínio de linguagem cinematográfica. Quando Freddie acredita nas ideias de Dodd, a música e os enquadramentos são edificantes (como no lançamento do Livro dois). Já quando a lógica do Mestre apresenta falhas, ao deixar explícito que ele "imagina" e não "relembra" suas vidas passadas, a câmera é dura, dissonante como à trilha. Nisso, o protagonista termina com uma escolha que só dá mais tridimensionalidade para o mesmo. 


Impecável em seu olho para detalhes (como o uso de headfones na pregação no navio), Anderson utiliza de sua apurada direção em Sangue Negro e vai além, ao sair do realismo clássico e filmar uma iniciativa mais onírica, desconcertante visualmente. Diferente da sobriedade da fotografia de Robert Elswit no filme de 2007, PTA se alia ao fotógrafo Milai Milahmare Jr. para investir numa estética mais opressiva, com profundidade de campo bem reduzida e uma dissonante atmosfera solar. Como narrador Anderson vai além ao trabalhar uma historia que se preocupa em estabelecer tanto texto quanto subtexto: a conversa-duelo de Freddie com Dodd mostra tanto à tendência a submissão do primeiro quanto o seu passado amoroso.

"Você não quer ter um mestre? Será o primeiro do mundo a não ter um". No contexto, a frase funciona mais ainda. E em um duelo ideológico sobre a alienação, Freddie tem a difícil decisão de escolher entre a repressão coordenada ou a desordem completa, o caos incalculável de sua mente. A busca por liberdade (o mar aparece constantemente, o último ato ser apresentado por ele, à aparição da moto no deserto) é tema central - e os debates de Phoenix e Hoffman ganham uma urgência notável. O filme surpreende, portanto, por se mover através de suas discussões, e não através de atos. 

Rico em significados e poderoso nas questões que aborda, O Mestre é o mais expressivo dos filmes do diretor - e o mais arriscado. Um trabalho complexo, que investe na desordem e no onírico para contar uma difícil historia. Como qualquer filme do diretor, O Mestre impressiona pela identidade visual e pelo roteiro admirável. Mas é o que mais demonstra a capacidade que Paul Thomas Anderson tem de nos desafiar.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Curvas da Vida


Curvas da Vida
(Trouble with the Curve, 2012)
Drama - 111 min.

Direção: Robert Lorenz
Roteiro: Randy Brown

com: Clint Eastwood, Amy Adams, Justin Timberlake, John Goodman, Matthew Lillard


Clint Eastwood sabe como poucos usar a sua idade a seu favor. Octogenário, é dos poucos atores americanos que não teve o menor pudor em envelhecer diante do público. Talvez, pelo fato de ter se consolidado por trás das câmeras, Clint nota que não precisa esconder as (muitas) rugas de seu rosto, ou a fragilidade de seus movimentos, sabendo encontrar - cada vez mais raramente - papeis ideais para sua idade e forma física.

É o caso desse Curvas da Vida, dirigido por Robert Lorenz (antigo diretor de segunda unidade em diversos filmes de Clint como Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Dívida de Sangue) onde Clint vive Gus, um antigo olheiro de beisebol que começa a perder a visão. Esse problema, obviamente, prejudica demais seu trabalho, que ao lado de um novo manda-chuva do time para qual trabalha, que é adepto de muita tecnologia para encontrar novos jogadores, são garantia de uma aposentadoria muito em breve.

Ao mesmo tempo, o filme aborda a conflituosa relação de Clint e sua filha vivida pela bela e versátil Amy Adams. Mickey é uma advogada sem tempo para sua vida pessoal e que tem uma relação distante com um pai que a relegou em detrimento de sua profissão. Porém, alertada sobre a condição física de Gus, decide acompanhá-lo na que parece ser sua derradeira viagem em busca de futuros craques do beisebol.


Durante a jornada, o mote do filme (que já era óbvio) ganha ares de fábula incluindo alguns personagens quase caricaturais como o jogador prodígio arrogante, os velhos companheiros de arquibancada de Gus e até mesmo o jogador aposentado que pretende seguir carreira na imprensa, vivido por Justin Timberlake. Mesmo com Timberlake provando a cada papel que tem jeito para a coisa, seu personagem é um mero enfeite que funciona como "agente da mudança", surgindo de forma apressada no filme.

A pressa é um dos elementos mais incômodos do filme, já que tenta resolver os conflitos propostos pela produção de forma preguiçosa e até incomoda, como a solução milagrosa que funciona como prova da capacidade do personagem de Eastwood em encontrar craques.

Outro problema reside em Matthew Lillard, famoso como o Salsicha das adaptações para o cinema de Scooby Doo, o ator está tentando encontrar um caminho distante da comédia infantil e vem atuando em dramas e dramalhões, filmes mais leves ou mais pesados. Aqui, seu Philip Sanderson, é um vilão de folhetim, cheio de frases prontas e que simplesmente é "babaca". Sem nenhuma motivação, apenas é um completo idiota. Com um vilão fajuto e uma historia claramente água com açúcar, fica difícil vê-lo como ameaça a alguém.


Como em todo filme de redenção/reconciliação existem momentos mais emotivos e que forçam o espectador a se emocionar (e nesse caso, não conseguindo), misturando-o a momentos leves e que resvalam na comédia de situação, e embora Adams e Eastwood funcionem muito bem em tela, o roteiro - que ainda inclui um plot twist revelador bastante forçado - não ajuda aos seus intérpretes.

Curvas da Vida é um drama genérico sobre encontrar seu lugar no mundo, não fugir de seus sonhos e acreditar em quem se é. Nada revolucionário, nada inovador, mas que pelo carisma de Clint e o talento de Adams, tem bons momentos.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Na Estrada


Na Estrada
(On the Road, 2012)
Drama - 137 min.

Direção: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera

Com: Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Tom Sturridge, Viggo Mortensen, Amy Adams

Começo a crítica com uma confissão: nunca li Na Estrada, livro de Jack Kerouac, que dá titulo ao mais recente filme de Walter Salles. Antes de assistir a produção cinematográfica, apesar de saber da importância histórica do livro e de tudo o que dele se diz e da influencia dele no mundo (e não só na literatura), jamais havia tomado conhecimento das historias de Sal Paradise e Dean Moriarty (pseudônimos do próprio autor Jack Kerouac e seu amigo Neil Cassady) e se o filme for fiel àquilo que está impresso nas páginas, continuarei não tendo o livro na minha lista de literatura a ser lida antes de morrer.

Na Estrada (o filme, antes que os fãs do livro me joguem pedras) é pretensioso, pedante em muitos momentos, de um exagero que beira o ridículo e apresenta personagens caminhando por um vazio que parece não ter fim. Como sabem não vivi nos anos cinquenta (bem longe disso), mas conheço diversos trabalhos que são filhotes do que Kerouac parece ter influenciado, segundo declarações dos próprios. Minha impressão sempre foi a de que por meio das experiências psicotrópicas, sexuais, espiritualistas e afins, esse pessoal encontrou seu lugar no mundo em meio aos muitos conflitos típicos da adolescência.

Essa não é percepção que tenho depois de assistir ao filme, que mais parece contar a historia de garotos e garotas perdidos, absurdamente pretensiosos sobre sua importância no planeta (como em geral os adolescente são), mas que no fundo, não tem nada a oferecer. São como o leito de um rio seco, onde ao longe se enxerga pequenas e rasas poças incapazes de matar a sede de ninguém.


Walter Salles parece profundamente reverente e hipnotizado pela historia que conta, o que é ótimo, já que demonstra um profundo amor ao projeto, mas é incapaz de dar alguma sustentação as mais de duas horas (que demoram muito mais do que isso a passar) de idas e vindas, aventuras sexuais e psicológicas vazias, que levam os personagens a lugar nenhum.

Mesmo que a ideia seja a de apresentar a formação da psique de um autor, que precisa de experiências para ser formada, ninguém ali parece verdadeiramente interessado nisso. O plano de experimentar é subvertido para questões mais próximas do adolescente típico: sexo, drogas e no caso, jazz.

Esse exagero de reverenciar cada experiência vazia dos personagens é referenciado na personagem do poeta Carlo Marx (o alter-ego do genial Allen Ginsberg, que ganhou um filme muito mais eficiente em 2011 chamado "Howl", infelizmente inédito por aqui), que reúne todos os clichês do intelectual pedante e arrogante que todos amamos odiar. Fatalista, Sorumbático, melancólico, irritadiço, reprimido e medroso, alguém que nos força a torcer para que se cale e de preferência perca a voz.


Já Dean Moriarty (ou melhor, Cassady) é a quintessência da irresponsabilidade, passando o filme inteiro em busca de alguma coisa, que nem mesmo ele sabe. Emulando um magnetismo praticamente irresistível, o personagem é a mola propulsora de tudo durante o filme, tornando-se aquele "anjinho" que funciona como consciência (na maioria dos casos falta de) dos personagens, em especial Sal.

Ele por sua vez é o narrador (do filme e livro) e, portanto tem a visão mais ampla da coisa, aquele que em teoria deveria ter a consciência do exagero de tudo aquilo, ao mesmo tempo em que é envolvido em todas as experiências necessárias para a criação de seu livro, que nunca sai do campo das ideias. Um garoto entediado e que não quer ser mais um número, em busca de sua identidade e de experiências novas.

Além da dupla principal, a personagem mais importante é Marylou. Curiosamente - ou não - essa é mais uma personagem de Stewart que em determinado momento se vê encantando dois homens. Continuo não conseguindo entender o que Kristen tem de tão mágico assim, para, invariavelmente estar sempre em produções em que é disputada como um pote de ouro no fim do arco-íris por todos os homens a sua volta. Diferente do elenco masculino, Stewart apesar de apresentar algumas nuances novas, continua presa as seus tiques - que parecem eternos e sem solução - e dificuldade extrema em ser expressiva.


O elenco ainda tem algumas participações especiais, em geral com personagens fracos ou insignificantes, como a desnecessária aparição de Steve Buscemi, que só funciona pela quebra de expectativa. Viggo Mortensen (que na vida seria o poeta William S. Burroughs, outro nome importantíssimo na literatura americana) e Amy Adams como a versão de futuro para aquela galera pré-hipponga e viciada em benzina estão divertidos pelo excesso, mas são personagens rasos, enquanto Kirsten Dunst tão elogiada em Melancolia, aqui é a personagem âncora do filme, a única que parece tentar fugir daquela existência pretensamente vazia e que não leva ninguém a lugar nenhum. Sua relação com o personagem de Garret Hedlund (Moriarty) é passional, mas Camille é uma mulher aborrecida, que não parece oferecer nada além de cobranças, o que torna fácil entender as motivações de Dean em sair sempre de casa.

Mesmo com um elenco irregular, Na Estrada poderia funcionar, já que sua estrutura excessivamente entrecortada entre muitos momentos históricos diferentes facilita a ideia de um roadie movie, porém a estrada do filme de Salles parece um lugar absolutamente vazio onde pouco, ou nada acontece, tornando-o uma enorme e vagarosa caminhada.

Mais o pior em Na Estrada, é a impressão de que ele não exemplifica a vitalidade que seus personagens querem demonstrar. Salles filma as desventuras de seus heróis como um tio zeloso, com pudores e receios de mostrar diretamente as perversões de sua trupe. Esteticamente, o filme também parece travado e nada condizente com uma historia que prega exatamente a quebra de paradigmas, parecendo muito mais ligado a Diários de Motocicleta. Bonito de se ver, o filme é soberbo ao retratar as muitas paisagens que cortam as muitas estradas americanas, porém, se em Diários de Motocicleta víamos garotos tornando-se homens diante de nossos olhos, aqui vemos garotos que vagam sem rumo, aproveitando a vida, mas que parecem não crescer nunca.


Em um exercício quase medroso, Salles não mostra justamente os momentos de maturidade dos personagens, preferindo manter a câmera focada apenas nas muitas aventuras hedonistas dos personagens. O crescimento e amadurecimento, tão importante para a formação dos personagens pouco é visto, e quando o filme apresenta os resultados das andanças do grupo, o faz de forma apressada, como se não achasse necessário mostrar as conseqüências de mais de duas horas de pedantismo intelectual.

Como disse na abertura do texto, nunca li Na Estrada, e talvez ele não tenha o mesmo impacto libertário comigo, pois "já passei da idade" de me revoltar com o sistema e partir rumo ao desconhecido em busca de experiências transformadoras. Também porque acho que essa questão é muito datada, muito próxima a uma realidade verdadeiramente castrativa, quando poucos - muitos poucos - tinham voz. Em uma era onde os muitos nichos, segmentos, e clãs conseguem se reunir dos mais variados jeitos e que o "ser diferente" é visto apenas como mais uma opção de cada um, a mensagem de dar uma banana a sociedade e cair na estrada parece perder força. O que nunca vai perder força, no entanto é o desejo do ser humano em encontrar seu lugar na gigantesca aldeia global e amadurecer - espera-se - no processo. Uma pena que Walter Salles não tenha conseguido apresentar essa sensação ao público. Os adolescentes de Na Estrada parecem vadios em busca da próxima dose e da próxima companhia para encher a cama, e estão longe de parecerem interessados em encontrar coisa alguma.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Os Muppets
(The Muppets, 2011)
Comédia/Musical - 98 min.

Direção: James Bobin
Roteiro: Jason Segel e Nicholas Stoller

Com: Jason Segel, Amy Adams, Chris Cooper, Kemit, Fozzy, Miss Piggy, Gonzo e Animal

Serão os Muppets relevantes ao século 21? Poderá funcionar um filme em que fantoches manipulados são as estrelas? O humor da turma de Jim Henson ainda funciona? Como competir com o glorioso 3d e as animações cada vez mais elaboradas?

São essas as muitas perguntas que o filme dos Muppets levantou, quando iniciou sua produção. Como fazer de um grupo de personagens que hoje, sobrevive graças ao amor dos mais nostálgicos, um filme de sucesso? A resposta é mais simples do que possa parecer: manter o respeito ao original, assumir a condição de datado, encher o filme de piadas "adultas", terem a noção de que a garotada não é seu público alvo e se render a nostalgia sem esquecer que o filme ainda está sendo produzido em 2011.

O primeiro fator que faz do filmes do Muppets funcionar é seu bom humor. Não só por se assumir como uma comédia de absurdos, mas por em momento algum se levar a sério, desde o absurdo plot que reúne o "primo do Pee-Wee", Gary (Jason Segel) que tem como irmão o muppet Walter. Ambos vivem em uma cidade americana tipicamente kitsch saída diretamente da fantasia republicana dos anos 50, onde passam suas vidas coloridas e saltitantes entre cantorias bobalhonas e episódios de Muppets. Gary namora Mary (Amy Adams) a mais de dez anos, e como comemoração para a data, decide levar a garota (que é professora de mecânica na escola local, notem os absurdos propositais da história) para uma viagem a terra da magia: Los Angeles, onde pretende também realizar o sonho de seu irmão e levá-lo a conhecer os estúdios onde os Muppets gravavam sua série de TV.


Uma vez lá, Walter descobre um plano maligno encabeçado pelo industrial Tex Richman (Chris Cooper hilário, até cantando) que pretende demolir o prédio e explorar o petróleo que lá existe, ao menos que os Muppets - segundo o contrato - consigam 10 milhões de dólares para saldar a dívida do estúdio.

A partir dai o trio Gary, Mary e Walter passa a buscar os Muppets para reuni-los na tentativa de angariar fundos para saldar as dívidas do estúdio. Claro, que como em todo filme dos Muppets, o primeiro é mais importante personagem é o primeiro a ser resgatado. Kermit (ou Caco) depois de muita conversa e uma canção (naturalmente) resolve ir atrás de seus antigos companheiros, e a partir daí o filme cresce muito em qualidade.

Sejam pelas participações especiais ou pelo ótimo timing humorístico dos personagens, Muppets consegue a proeza de se parodiar e ainda soar fresco e diferente. Se Jack Black continua sendo um "ator" sem graça, aqui funciona já que seu personagem é uma versão exagerada dele mesmo, o grande destaque é a impagável aparição de um famoso ator geek em um momento que aglutina todas as características que fazem do filme uma diversão leve e de grande qualidade: uma música tola e de letra brega (e por isso mesmo genial), coreografias datadas e interpretações que beiram a vergonha alheia, mas tudo feito com tal senso de humor que funciona. É difícil ser tolo propositalmente, e ainda assim, ser relevante e fazer a piada render.


Ainda no campo do humor, não faltam às muitas referências a situação anacrônica dos Muppets em um mundo digital. Desde o mordomo/chofer/computador dos anos 80, até o fato de jovens estrelas sequer reconhecerem Kermit (ou Caco), passando pela cena sensacional passada em um escritório de uma executiva da tv, que discursa sobre a penetração de mercado dos Muppets hoje, e sacramenta que o grupo não é reconhecido por ninguém, mostrando na sequencia um programa "da moda" onde um grupo de moleques bate sem dó em um professor. Esse humor anárquico e crítico é o que faz do filme relevante.

O roteiro de Nicholas Stoller (curiosamente o mesmo da bonbagem Viagens de Gulliver) e do próprio Jason Segel é feliz por não desvirtuar-se dos preceitos Muppets e ainda "jogar com as armas do inimigo" sendo cínico e ácido em diversos momentos do longa, como a sequencia em que a platéia do show do grupo é composta a princípio de um mendigo (Zach Galifianakis, de Se Beber Não Case), ou mesmo quando Fozzy, o urso que é mais engraçado do que a maioria dos humoristas brasileiros, acaba revelando um importante plot twist na parte final do filme, que vai de encontro a essa questão da falta de popularidade dos Muppets.

Recheado de canções brega, datado, nostálgico e com um roteiro que é um fiapo, Muppets é tudo isso sim, mas ainda consegue ser divertido e relevante em pleno século XXI.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Vencedor
(The Fighter, 2010)
Drama - 115 min.

Direção: David O. Russell
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson

Com: Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams



Cine biografias tem, por excelência, uma possibilidade muito grande de se consagrarem. Para cada aberração como Fique Rico ou Morra tentando, temos dez A Rede Social. Os filmes de boxe seguem esse estilo. Rocky e O Campeão conseguem ser exemplos de narrativa e usam o esquema de superação de forma estimulante, geralmente culminando na luta final, que tende a ser inspiradora e emocionante. Quando os dois subgêneros se fundem, potencializa-se a emoção e criam-se obras memoráveis como Touro Indomável. Porém, o tempo fez com que existissem diversos tipos de "filmes de boxe". Se Hurricane e Ali são exemplos do filme de superação, foram criadas variações para o gênero não se tornar repetitivo. A partir daí, surgiram filmes que usavam o boxe apenas como pano de fundo para uma vida difícil (Touro, O Invencível), contos morais dramáticos (Menina de Ouro) e até mesmo filmes noir com pano de fundo do boxe (A Morte passou por Perto). Todos bem sucedidos vale a pena dizer. Logo, é fácil constatar que é difícil se errar com um filme de boxe.

Obras sobre boxe rendem filmes competentes, sem dúvida, mas é raro ver algo que é digno de nota máxima, como Touro, o ótimo Menina de Ouro e o emocionante Quando Éramos Reis. As variações no subgênero são essenciais no que diz respeito a qualidade das obras. Pegando como exemplo os filmes de roubo, temos o conflito da segurança contra ousadia, o que separa um filme competente de uma obra-prima. Se o recente Atração Perigosa não alcança um lugar na memória dos deuses do cinema é justamente por não ousar. Como comentei na crítica do competente filme de Ben Affleck, Fogo contra Fogo é a variação ousada do filme de roubo, o que o torna especial e inesquecível.



E no filme de boxe a coisa anda de um jeito similar. Um filme de superação comum não ficaria no páreo com um Menina de Ouro, por exemplo. Deve-se haver um diferencial. E O Vencedor, novo filme do - indicado ao Oscar - David O. Russell, é um filme de superação que quer fincar seu pé na calçada dos filmaços do gênero.


Rotular o filme apenas como de superação seria um erro. Flertando com o esquema de filmes como Os Infiltrados e o próprio Atração Perigosa, O Vencedor entrega um interessante retrato sobre o povo de uma cidade do interior americano. Se nos filmes de Scorsese e Affleck a abordagem era policial, Vencedor tem um panorama dramático-cômico para sua vizinhança, retratada com leveza pelos roteiristas Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. E esse ritmo, que demonstra bem a admiração dos roteiristas e de O. Russell por Lowell, o local onde Micky Ward nasceu, é intenso e nunca deixa a película cair no esquecimento. A atmosfera de anos 90, recriada de forma simples e competente, faz com que cada nuance do drama da família seja potencializado, dando mais realismo a tudo ali. A história de boxe de Micky Ward, retratado de forma enérgica e eficiente por Mark Wahlberg, é a principal, mas o pano de fundo divertido dos curiosos habitantes de Lowell é o tal diferencial que O Vencedor usa para tentar calcar seus pés na memória.



Percebendo-se isso, é interessante constatar que O Vencedor é tão uma crônica sobre uma família disfuncional com origens irlandesas quanto um filme de boxe. Da mesma forma que Infiltrados e Atração retrataram os criminosos tradicionais e as pessoas normais daqueles locais, O Vencedor usa esse pano de fundo para sua história. Porém, como é um filme dramático, Vencedor fala bastante dos conflitos internos daquela gente. E justamente deles vêm às cenas mais pesadas do filme.


Mas, curiosamente, elas não são muitas. O filme de David O. Russell aprofunda-se mais no lado cômico dessa vizinhança e da própria redenção de Micky e seu irmão Dicky. Dando uma estética cool as partes de boxe (utilizando recursos como a montagem ágil e frases de efeito) e cômica em várias partes do núcleo familiar, o roteiro tem como seu maior trunfo a consciência dessa natureza. Afinal, as situações em que somos apresentados não poderiam ser levadas muito a sério. A maquiada Alice, mãe do clã boxeador, interpretada com intensidade notável por Melissa Leo, desperta risos até mesmo pelo seu modo "elegante do interior" de se vestir. O artificial cabelo loiro de Alice é uma inteligente sacada visual. Ao mesmo tempo em que nos apresenta um elemento recorrente dos anos 90, retrata bem o espírito da personagem (e do próprio filme). Apostando ferrenhamente no humor e no "feel good movie", O. Russell encontra nos caricatos núcleos familiares uma fonte cômica inusitada. A situação bizarra dos irmãos Micky e Dicky serem de pais diferentes ou a forma manipuladora com que Alice agencia a carreira de Micky é captada pelas lentes do diretor de forma irônica e extremamente divertida. E se poderia haver qualquer divergência entre o estilo cômico de O. Russell e um possível tom sério do roteiro, isso logo se invalida. Afinal, as sete irmãs Eklund-Ward tem um desenvolvimento raso justamente para se apoiarem no humor, o que surge como uma decisão corretíssima, com grande destaque para a briga entre Charlene e as irmãs.



Charlene, por sinal, é construída com esmero pelo roteiro e pela magnífica atuação de Amy Adams. Ela é o parâmetro para Micky bater de frente com sua família e tomar um rumo de verdade em sua antes fracassada carreira de boxe. As partes em que Micky começa a ganhar voz na família são reveladoras, fundamentais para a narrativa e, novamente, captadas com leveza divertida.

E mesmo que o retrato da carreira no boxe dos irmãos seja esquemático, a ciência das limitações narrativas que o roteiro impõe são fundamentais pra apreciação da história. Estão lá todos os arcos da superação do filme de boxe, mas somados ao núcleo familiar e ao tom surpreendentemente cômico, O Vencedor chega com dignidade a seu clímax, que é espetacular justamente pela construção formidável de situações e personagens que o filme de O. Russell tem. Deixando o público tenso e com uma torcida sincera pelo protagonista na obrigatória luta final, O. Russell realiza um filme redondinho e divertidíssimo, que entretém de maneira diferente e, acima de tudo, inteligente.



Essas limitações narrativas não só são ajudadas pela parte cômica como são utilizadas em prol das atuações. Visando a possível caricatura que cada ator poderia ser sujeitado a fazer pelos seus papéis exagerados, o roteiro abre essa brecha para o overacting com rara qualidade. E nesse caso, o extrapolar de emoções é utilizado de forma benéfica. Melissa Leo e os coadjuvantes podem estar atuando no limite do over, sim, mas a naturalidade com que tudo é encarado pelo filme é notável. Sendo assim, O Vencedor entra naquele seleto grupo de "filmes de atuação", desde o desempenho contido do ótimo Mark Wahlberg até a merecedora do Oscar, de Christian Bale.

O personagem de Bale, aliás, é o motivo maior da dramaticidade do filme e até a metade da projeção, quase o engole. Mudando fisicamente de forma assustadora, Bale ainda cria seu personagem com competência equivalente á de seus Patrick Bateman e Bruce Wayne. A grande prova disso é a sequência mais pesada do filme, a exibição do documentário da HBO sobre o vício de Dicky Eklund. Arrebatadora e palco explícito destinado a Bale demonstrar todo seu talento.



Sendo bem sucedido no núcleo familiar quanto no inspirador e revigorante núcleo do boxe, O Vencedor é um perfeito feel-good movie. Uma diversão com um tom mais sério que o cinemão pipoca, mas sem dúvida vitoriosa e leve por ser ciente de suas limitações narrativas. Sem chegar perto de ser uma obra-prima, mas uma película que deixa uma felicidade agradável no ar. Merecedor de sua indicação ao Oscar (ainda que Christopher Nolan e Danny Boyle tenham feito direções muito mais competentes que O. Russell), O Vencedor é uma boa surpresa.


Sem surpresas, preciso, enérgico e cômico. Quem diria. Overacting bem feito é outra coisa.