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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Tentação


A Tentação
(The Ledge, 2011)
Drama - 101 min.

Direção: Matthew Chapman
Roteiro: Matthew Chapman

Com: Charlie Hunnam, Terrence Howard, Patrick Wilson, Liv Tyler

O problema da pretensão é de nunca conseguir atingir os objetivos. Sempre que alguém, ou alguma obra, tenta ser profunda, ou até mesmo passar uma mensagem para tocar intelectual ou emocionalmente o publico, corre o sério de risco de - no português claro - dar com os burros n'água.

Esse é o caso de A Tentação, uma produção que quer falar sobre muitos assuntos, e tenta debatê-los sem, no entanto, aprofundar-se em nenhum deles, como traição, problemas conjugais e mais diretamente o eterno e insolúvel confronto entre fé e ciência.

A historia começa de forma instigante apresentando o personagem de Terrence Howard, o policial Hollis, que acaba de descobrir que é estéril, o que o choca já que ele tem dois filhos. Ao mesmo tempo, vemos Charlie Hunnam (mais conhecido do publico brasileiro por sua participação em Hooligans) que vive Gavin, um sujeito que está na beira de um prédio prestes a se atirar. Uma vez que a policia é alertada, Hollis é incumbido dessa missão, e numa tentativa de entender as motivações daquele homem e tentar impedi-lo de se atirar prédio abaixo, passa a conhecer sua historia.


Em diversos flashbacks, com uma ligeira (bem ligeira na verdade) referencia as narrativas nos clássicos noir, conhecemos os dois outros pilares da historia: o casal de vizinhos de Gavin, o sorridente Joe (Patrick Wilson) e a sempre bela Shana (Liv Tyler), que acabam de se mudar para o mesmo prédio do personagem de Charlie Hunnam. É-nos introduzido também a principal discussão do filme, a já referida questão da disputa entre religião e o ceticismo. Gavin é um sujeito "leve", que divide o apartamento com um amigo homossexual que é portador de HIV, o que é uma tentativa de transformar Gavin, de saída, em um sujeito realmente admirável, pois não basta ele não ser preconceituoso e dividir o apartamento com o amigo gay, esse amigo tem de ter AIDS, para transformá-lo ainda mais em uma figura que ganhe a simpatia do publico.

De outro lado Joe é travado, seu apartamento é iluminado de forma difusa, dando a impressão de ser ainda menor do que é uma jaula que guarda um fanático religioso disposto a tudo para convencer o mundo de que sua visão da vida é a única correta. Já Shana, é a esposa absolutamente reprimida e que guarda um segredo sobre sua motivação para ser tão submissa ao marido "maluco".

O grande barato de A Tentação são os momentos em que os pontos de vista dos dois personagens são colocados em cheque, em especial em duas sequências antes da metade do filme. Na mais interessante delas, o filme não se furta em defender uma postura bastante questionadora sobre a origem da vida, fé e a visão religiosa sobre nossa existência.

Porém, o filme começa a escorregar demais quando apresenta a real motivação para Gavin estar naquele parapeito da janela. Apelando para os clichês de um outro gênero - o thriller - transforma a discussão arquitetada até então em motivação para a vilania banal de um ser humano abalado pelo medo da rejeição.

A direção de Matthew Chapman é segura, dando espaço aos atores e não se amedrontando diante de uma premissa tão difícil de ser vista no cinema americano. A montagem é bem realizada, e mesmo com idas e vindas do tempo não se confunde nem deixa o espectador perdido quanto à ordem dos fatos apresentados, a exceção de um momento, logo no começo do filme e que envolve o personagem de Howard, mas que surge de forma proposital, exatamente para criar uma elipse no filme e deixar o espectador na expectativa da verdade sobre aquela cena.

Não existem grandes destaques no elenco. Hunnam não compromete, mas também não brilha (sua semelhança com o finado Heath Ledger impressiona), cumpre sua função com méritos, mesmo tendo um arco final bastante ingênuo diante de uma progressão dramática tão interessante e questionadora. Liv Tyler é bela e magnética em uma tela de cinema. Seus grandes olhos azuis derretem corações, e mesmo não sendo das atrizes mais talentosas de sua geração é sempre bom acompanhá-la em papéis em que ela surge como uma menina crescida ainda a procura de seu lugar no mundo. Já Patrick Wilson beira a canastrice, e por alguns momentos não convence em seus surtos de fé transloucada, porém se redime na hora final com uma mudança de perspectiva que dá maior profundidade a suas ações. E Terrence Howard vivendo seu próprio dilema diante de uma crise é contido e seguro e é daqueles casos de ator que merecia um destaque muito maior do que tem, mesmo tendo sido indicado a um Oscar há alguns anos atrás.


A Tentação é frustrante, mas o é pois consegue envolver o espectador no seu combo de questionamento religioso/espiritual, drama humano, thriller e romance. Uma pena que Chapman não tenha conseguido (e é mesmo uma tarefa bastante árdua) dar liga em suas muitas boas intenções do filme.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Os Estranhos
(The Strangers - 2008)
86 min. - Terror


Diretor: Bryan Bertino
Roteiro: Bryan Bertino


Com: Liv Tyler, Scott Speedman

Geralmente, no primeiro trabalho de vários diretores, o terror é usado como base pro roteiro. Por ser um gênero fácil de ser executado, ele ainda pode ser feito com baixos orçamentos. Em alguns casos, dá certo como em Cabin Fever, de Eli Roth. Em outros, dá errado demais como em Jogos Mortais, de James Wan.
Acredito que Bryan Bertino tenha puxado mais pro caso que deu errado. Em Os Estranhos, Bertino acerta em apostar num terror mais psicológico, mas erra fatalmente em cobrir as situações, já inverossímeis, com clichês aos montes. Em outros filmes, como 1408 e O Nevoeiro, as situações aterroradoras envolvidas com o psicológico humano, muito longe daquele gore de Jogos Mortais, funciona. Mas Bertino nunca poderia ser Haneke ou Darabont em seu primeiro longa.
A trama começa com um casal chegando numa cabana, bem escondida, no meio do mato. Depois que chegam, poucos diálogos são trocados. Com o tempo, decobrimos que Kristen(Liv Tyler) e James(Scott Speedman) estão brigados por uma recusa dela ao pedido de casamento de James. Após uma reconciliação, principalmente devido a fragilidade de Kristen e a carência de James, o casal volta ás boas. E é durante isso que um estranho grupo de pessoas mascaradas entra em sua casa, fazendo barulhos estranhos, deixando bilhetes escritos e assustando o, agora vulnerável, casal.


Com esse começo com um bom desenvolvimento de personagens, o filme prometia tomar um rumo bem legal, com interação de diálogos competente e aquela premissa do terror psicológico. Mas tudo toma um rumo diferente do competente, indo ao terrorzinho barato.
As atuações do filme são realmente razoáveis. Scott Speedman continua um ator limitado e Liv Tyler, apesar de ter competência e começado o filme atuando muito bem, resolveu tomar o rumo de mocinha-de-terror-que-berra-de-medo. Pode até julgar que isso se deve á fragilidade de Kristen depois da briga, mas não justifica os gritos de medo que todo terror tem. Scott Speedman também começa bem, mas resolve ir para o mesmo rumo de sempre. As outras atuações são todas meramente dispensáveis, afinal são 3 maníacos e o amigo de James.


Tecnicamente, o filme não faz totalmente feio. Com uma direção visivelmente iniciante, Bertino impressiona. Seu estilo "câmera na mão" dá mais realismo nas cenas, deixando ela meio tremida. Seu posicionamento de câmera também é bem interessante, explorando bastante o ambiente. A trilha sonora do grupo Tomandandy é normal demais, aderindo ao clichê que cerca a trama. Sua trilha, subindo a qualquer momento pra dar aquela impressão de susto, não impolga e só se mostra uma cópia idêntica as outras trilhas de terror. Já a fotografia de Peter Sova é ruim demais. Se em Push ele registrou Hong Kong com um olhar urbano e único, aqui ele opta por apenas pôr tudo escuro e botar pra filmar. E essa iluminação escura prejudica o filme, apesar de ocultar os maníacos bem. Com esse trabalho, ele põe sua competência em risco. A edição de Kevin Greutert é ágil, dando um ritmo mais rápido á trama arrastada. Não é um primor, mas facilita várias vias de entretenimento do filme, como o suspense.


O roteiro de Bertino é, ao mesmo tempo, um defeito e um acerto. No início, como já mencionei, a construção de personagens é notável. Mas depois o clichê, que assombra até os quesitos técnicos do filme, aparece. As pequenas situações de desespero do casal são previsíveis demais. Confesso que previ 3 ou 4 vezes o que um dos protagonistas ia tentar fazer. Sempre tem uma arma na casa, sempre tem um meio de comunicação sem ser o celular(que, obviamente, já foi devidamente inutilizado pelos maníacos) e sempre tem tramas paralelas a serem resolvidas. Em alguns momentos, fiquei revoltado com a mania de colocar objetivos a serem feitos, como os da arma e do meio de comunicação. Essa fórmula já foi muito usada no gênero terror e nunca deu certo. Se deu certo, foi na mídia dos Jogos computadorizados e em jogos de sobrevivência.
Apesar do filme colecionar mais erros que acertos, é interessante notar que Bertino tem potencial. Num drama, por exemplo, ele poderia fazer um trabalho mais bem acabado e digno de se apreciar. Até mesmo num terror ele pode fazer melhores trabalhos futuramente. Nessa trama explicitamente igual a de Violência Gratuita, Bertino poderia ter optado por mais interação de personagens e menos sustinhos previsíveis. Mas valeu pelo teste, que ele ouça a crítica e aprenda na próxima.


A única coisa que me assombra de verdade nisso é o final deste filme. Acredito que se a sequência já planejada(o filme custou 9 e arrecadou 90 milhões em solo americano) seguir os fatos do primeiro filme, ele só perderá mais pontos futuramente. E isso é bem possível, acredite. O povo americano adolescente é louco por um terror com sustos ridículos. Tá aí Jogos Mortais, em seu sexto exemplar, pra provar isso.

TRAILER:
























(Nota do Editor: Pessoal participei do podcast do Senpuu, um site/blog que é especializado em Tokusatsu, aquelas séries nipônicas estilo Jaspion e Changeman, por lá falei sobre um filme da série Kamen Rider. Quem quiser dar uma ajuda ao pessoal e ouvir o link é: http://senpuu.com.br/2009/10/senpuucast-17-kamen-rider-the-first/ )