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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Eu Vi - Walt nos Bastidores de Mary Poppins

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins
(Saving Mr. Banks, 2013)
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: Kelly Marcel, Sue Smith
com: Emma Thompson, Tom Hanks, Paul Giamatti, Colin Farrell, Ruth Wilson

Uma das histórias de bastidores mais saborosas de Hollywood é a intensa e longa corte feita por Walt Disney sobre a autora de Mary Poppins, P.L. Travers. Os relatos apontam que o criador do império da animação levou mais de vinte anos para conseguir tirar do papel sua ideia de um filme sobre o famoso livro. 

O filme (com um dos títulos nacionais mais auto-explicativos que já vi) conta essa história focando-se na personagem interpretada por Emma Thompson, mostrando-a no presente do filme - quando ela chega a Hollywood para finalmente acompanhar o início da produção e dar seus pitacos - e seu passado, quando nos é explicado o que aconteceu para que o livro tomasse forma. 

A personagem de Thompson é muito, mas muito chata. Daquelas pessoas que nada satisfaz, tudo é indigno de sua atenção e nada emociona. Tudo é problema, e isso imediatamente impõe uma barreira gigante entre o público e sua protagonista. É claro que vamos acompanhar os motivos de sua personalidade (quase) detestável ter sido formada, mas em geral seu personagem é um problema no filme. Outro é a transformarçnao de Walt Disney no sujeito mais legal do mundo. Não é nenhum segredo que apesar de seu trabalho ter sido fantástico e suas criações maravilhosas, sua personalidade não era tão dócil assim, mas essa visão do criador é comprensível, devido a produção ser - obviamente - do estúdio que ganhou seu nome.

Walt é um filme "bacaninha". Daquelas historinhas água com açucar que não ofende ninguém, que vai encontrar um público ávido por esse tipo de trama, mas que em geral, não vai a fundo no que e propõe. P.L. Travers é uma senhora irritante e traumatizada e Walt, um quase santo ancorado por uma promessa aos filhos. E só. Muito pouco para uma cinebiografia que coloca como protagonistas duas figuras tão importantes como Disney e Travers.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O Vingador do Futuro


O Vingador do Futuro
(Total Recall, 2012)
Ação/Aventura - 118 min.

Direção: Len Wiseman
Roteiro: Kurt Wimmer, Mark Bomback

Com: Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bill Nighy, Bryan Cranston

Como vocês devem ter percebido não sou fã de remakes, principalmente quando eles são justificados com a premissa infeliz de: "apresentar uma obra para uma nova geração". Além de o argumento ser infeliz por ignorar que as produções originais na maioria das vezes estão sim ao alcance das pessoas, é burro, pois ignora a capacidade das pessoas de irem atrás dos filmes/series que lhes interessam.

Embora a capacidade de pensar fora do quadrado venha sendo questionada em relação ao público comedor de pipoca do cinema (antes que alguém atire pedras: o público comedor de pipoca é aquele que assiste qualquer coisa "para se distrair", "para passar o tempo" e imagino que não seja o mesmo que lê, ouve ou assiste as críticas que eu e outros muitos colegas colocamos no ar todos os dias) é inadmissível que um estúdio ache sinceramente que as pessoas não vão questionar a necessidade de se trazer de volta uma produção do limbo.

O remake só é válido para mim quando falamos de uma obra que não é cinematográfica (casos de livros, quadrinhos - dependendo da última aparição do personagem na telona - contos e etc.), ou caso o filme original tenha pecado em algum aspecto, ou seja, que ainda haja alguma coisa a ser contada.


Vingador do Futuro embora possa se sair com a desculpa de que "é uma releitura do conto de Philip K.Dick", ignora essa ideia ao chamar os personagens pelos mesmos nomes usados no filme de 1989 estrelado por Schwarzenegger e dirigido por Paul Verhoeven, ou encaixar aqui e ali pequenas homenagens ao que vimos no primeiro filme, como a garota de programa com três seios, o disfarce usado pelo personagem de Schwarzenegger para entrar em Marte, ou mesmo o implante que o leva a ser perseguido por seus opositores. Ou seja, apesar de aparecer com essa ideia de releitura do conto, no fundo é um remake do filme anterior.

A historia por outro lado, ignora completamente elementos básicos do próprio conto (olha só) como a obsessão do personagem principal por Marte, colocando a trama em meio a um clichê de guerra entre duas superpotências (1984 feelings) e um gigantesco túnel que liga - em menos de 20 minutos - as duas únicas nações que sobreviveram depois de cataclisma biológico em meados do século XXI.

O visual é chupado sem nenhum pudor de Blade Runner, com ruas apertadas e imundas, cheias de umidade onde o Doug Quaid da vez (Colin Farrell errando o tom) é um funcionário de uma usina responsável pela criação de policias sintéticos - robôs - que são uma mistura dos Stormtroopers de Star Wars com um exército genérico e que serão usados como estopim do conflito que o filme acompanha.


Desiludido com sua vida infeliz e miserável na pobríssima Colônia (onde antes ficava a Oceania) e almejando uma vida muito melhor na - saída de Minority Report - Nova Britânia, decide por uma solução desesperada: um implante de memórias fictícias, que mesmo que não sejam reais, dariam certo conforto para uma vida dura. Duro de engolir não? Se no filme original tínhamos a obsessão por Marte, aqui o filme já estraga completamente a tensão e o mistério que guiavam o filme de Verhoeven apresentando na primeira cena (literalmente) um pseudo sonho que acaba com toda e qualquer duvida sobre a verdade por trás de Doug Quaid. Além do mais, todos os momentos em que o filme tenta criar algum suspense, o mesmo é destruído na cena seguinte, como na sessão de Doug na empresa criadora de sonhos, a Rekall.

A partir da descoberta da verdade sobre a real natureza de Quaid (que praticamente não foi alterada em relação ao filme original) a produção se transforma em mais um filme de ação genérico com ares futuristas, que tem apenas em seus bem pensados gadgets e nos cenários bonitos e cheios de estilo alguma qualidade.

Nada diferente do que o espectador alvo do filme (adolescentes e jovens adultos que gostam de ficção científica e filmes de ação) já não tenha visto melhor e com mais qualidade nos muitos games que pipocam todos os dias pelo mercado. Foi-se o tempo em que víamos o cinema influenciando as produções dos games. O oposto é o que mais vemos em Hollywood nessa era das redes sociais e afins. Filmes com cara de longas "cut scenes" tiradas dos últimos lançamentos da indústria dos games, com o ônus imperdoável de não nos deixar interagir com aquilo apresentado na tela.


Qual a graça de assistir a uma longa sessão de cenas que berram para serem jogadas sem um joystick à mão? Essa é a gênese desse Vingador do Futuro.

Colin Farrell como disse, está fora do tom, levando a sério demais o papel que tem em mãos. Falta carisma e bom humor ao personagem, principalmente quando tem em mãos um texto tão fajuto, que tem como um de seus principais momentos um puzzle (sim, no melhor estilo jogo de aventura) sendo resolvido por um piano. Se o seu filme tem esse tipo de interação, assuma o lado caricato e não tente nos convencer de que no fundo você está confuso e desmemoriado. Embarque na ação, não tenta fincar os pés numa realidade tão sólida quanto uma tigela funda de mingau.

Completam o elenco Kate Beckinsale que, esposa do diretor deste remake (o péssimo Len Wiseman da cine - serie Anjos da Noite) vive a esposa de Doug. Como imagino que alguns leitores não tenham tido a chance de assistir ao filme original, apenas digo que ela não é quem parece ser e apesar da personagem ser uma tragédia em termos emocionais e etc., pelo menos a atriz sabe onde está pisando: um longa de ação com ares de ficção científica, absolutamente esquecível.


Jessica Biel como a "musa" de Colin Farrell é outra que embora tenha entendido onde está pisando, não convence como a mulher revoltada em busca de justiça. A impressão é que a qualquer momento algo vai dar errado e a atriz vai sair chorando, mesmo munida de metralhadoras e outras armas modernosas. O filme ainda tem pontas de Bill Nighy (absolutamente mal aproveitado e, em comparação com a função do personagem no filme original, beirando o desnecessário) e de um Bryan Cranston em completo êxtase da canastrice. Talvez ainda tenha estado influenciado por Rock of Ages (crítica semana que vem), mas o fato é que seu Cohaagen é uma lástima, e parece um vilão de livro barato, cheio de frases feitas e olhares maldosos.

Len Wiseman até tem alguns poucos momentos felizes no filme. A primeira grande sequência de ação, com a câmera acompanhando a movimentação da arma e o tiroteio é muito bem realizada, deixando o espectador no meio da ação, assim como subsequente perseguição. Mas se já vimos uma perseguição de carros futuristas muito melhor (Eu Robô e Minority Report, por exemplo), Wiseman erra ainda mais ao amenizar a violência ao máximo. Esse é um daqueles filmes em que muita gente é morta, mas que não vemos nenhuma gota de sangue. Ideal para as mentes ianques sedentas de tiroteios, mas medrosas por acompanhar os resultados de tamanho desperdício de cartuchos.

Falta tanta coisa a esse Vingador do Futuro que falta até ânimo em comentar. O melhor mesmo é ignorar que ele foi pensado, aprovado, estrelado e dirigido, e procurar - se você ainda não viu, ou não se recorda - o filme original, que apesar das liberdades em relação ao texto de K.Dick, era mais bem humorado, ácido, divertido e principalmente prendia a atenção do espectador na jornada de Doug Quaid em busca da sua memória perdida e de sua real identidade. Esse ignora tudo isso, não apresenta nenhum mistério, esfrega todas as informações em nossa cara e ainda acha que consegue nos divertir. Talvez até consiga, mas no segundo que o espectador sair da sala, assim como o personagem principal não vai se lembrar de nada do que aconteceu nas últimas duas horas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Hora do Espanto
(Fright Night, 2011)
Suspense - 106 min.

Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Marti Nixon

Com: Anton Yelchin, Colin Farrell, Toni Collette, David Tennant, Imogen Poots e Christopher Mintz-Plasse

Não me lembro de A Hora do Espanto dirigido por Tom Holland (que veio a dirigir Brinquedo Assassino e Fenda no Tempo também) em 1985. Certamente assisti, em algum momento da infância/adolescência, mas honestamente, não me lembro de sequer um frame do filme, por isso (e até de forma mais correta) vi o remake dirigido por Craig Gillespie (cujo trabalho mais conhecido é a direção de alguns episódios da série United States of Tara com Toni Collette) sem pré-conceitos ou ideias comparativas.

Ambientado em um distante e emocionalmente frio subúrbio de Las Vegas (nem sabia que Las Vegas tinha um subúrbio típico americano), já no primeiro frame somos apresentados a simetria geometricamente perfeita daquele mundo de casas iguais afastadas por uma estrada desértica do mundo de alegria e diversão que é a Las Vegas como popularmente conhecemos.

Nesse ambiente somos apresentados a Charley (Anton Yelchin), um garoto popular, boa gente e que namora com a deslumbrante e sexy Amy (Imogen Poots). Criado pela mãe Jane (Toni Collette), ele tem uma vida quase perfeita, tão perfeita que não repara quando diversos colegas de classe começam a sumir da escola sem deixar maiores rastros. Alertado pelo "ex-amigo" Ed (Christopher Mintz-Plasse), um nerd nível freak, de que um de seus melhores amigos havia sumido, acaba convencido a ir até a casa do suposto desaparecido e verificar o que acontece. Ed começa a dizer que os sumiços eram culpa de um vampiro infiltrado na cidade, que sistematicamente estava matando todos ao redor e que sua identidade era conhecida de Charley. O tal vampiro era seu novo vizinho, o misterioso Jerry (Colin Farrell) que encanta sua mãe e sua namorada. Negando a idéia - aparentemente absurda - Charley segue sua vida, até perceber que seu amigo também pode ter sido vitima de um sumiço misterioso. Ao encontrar anotações de Ed, se convence da idéia vampírica e parte em busca de ajuda.


Isso resume os primeiros vinte minutos do filme, que apresentam superficialmente todos os envolvidos na história, que não esconde ser um filme b e não tenta inventar a roda, mantendo-se simples e divertido, apesar de ser profundamente bem realizado.

Um dos problemas do filme é o fato de Yelchin e Poots não convencerem como garotos do high school. A idéia de utilizar atores mais velhos para interpretar adolescentes quase nunca dá certo e aqui também isso acontece. Apesar disso, existe uma química razoável entre o casal e Yelchin mostra versatilidade, sendo capaz de em sua até então curta carreira, ir do drama (como em sua ótima atuação em Um Novo Despertar) ao herói de ação (em Star Trek e aqui), mostrando ser capaz de fazer uma carreira longa no ramo.

Farell por sua vez, está mais canastrão do que nunca, e isso é absolutamente essencial e perfeito para o filme. Se Farell fizesse de Jerry, um ser em conflito, cheio de dúvidas e que brilhasse na luz (não posso perder a chance de cutucar, me desculpem) não funcionaria na história de Marti Nixon (uma veterana da tv, com créditos de produtora executiva em Private Practice, Grey's Anatomy, Buffy e Angel entre outros e como escritora nessas duas últimas entre outros) que tem em seu background a facilidade de transitar nesse mundo vampírico contemporâneo ao misturar o kitsch, o suspense, o drama e a comédia. Para o bem e para o mal, Hora do Espanto remake, lembra um episódio chique e muito bem cuidado de Buffy ou Angel.


Os coadjuvantes são o que fazem de Hora do Espanto especial e divertido. Mintz-Plasse cada vez mais McLovin (seu personagem símbolo de SuperBad), é exageradamente ridículo como Ed, o que também é ótimo para a proposta desencanada do filme. Toni Collette por sua vez deve ter embarcado na aventura por amizade ao diretor Gillespie que a dirigiu na série de Tara, a mulher com múltiplas personalidades.

Mas quem rouba todas as cenas em que aparece é o brilhante e engraçado David Tennant (o segundo Doutor na volta da série Dr. Who), aqui interpretando o especialista no oculto Peter Vincent, que no original era vivido por Roddy McDowell (da série Planeta dos Macacos). Peter é uma mistura de roqueiro gótico com mágico moderno, uma coisa meio Chris Angel encontra o vocalista da banda HIM e Russell Brand. Mas obviamente, tudo aquilo é montado e a cena em que Vincent se despe do figurino é hilária. Tennant é daqueles atores que consegue ser engraçado sem fazer esforço e seu sarcasmo tipicamente inglês é usado aqui a exaustão.

O filme ainda tem tempo de brincar com a musa Sofia Vergara, escalando sua irmã Sandra, como amante/namorada do mágico que quando abre a boca revela uma assustadora semelhança com a irmã. Sofia e Sandra gritam e esperneiam de maneira idêntica, então, se essa não foi uma brincadeira com a típica latina boazuda, é uma ótima piada involuntária. Homenagem mesmo é ao ator Chris Sarandon, que era o vampiro no original, e que aqui faz uma ponta de luxo que rende a melhor sequencia de ação do filme.


Sequencias essas que são muito bem fotografadas (apesar de estarem brutalmente escuras) por Javier Aguirresarobe que - olhem só como são as coisas - tem em seus créditos a fotografia de Lua Nova e Eclipse, além de Os Outros, Mar Adentro, A Estrada e Vicky Cristina Barcelona. Javier é um mestre nas sombras e faz do escuro Hora do Espanto, um deleite para quem gosta de filmes de vampiro "roots", onde os monstros sugadores de sangue são realmente ameaçadores. Aqui, mesmo na atmosfera mais leve típica de produções de Joe Dante, as sombras e o suspense dão o ar da graça.

Outro grande destaque é a trilha vigorosa e poderosa de Ramin Djawadi (Fúria de Titãs e Homem de Ferro entre outros) que mistura as idéias de Drácula de Coppola e cria um dos poucos temas assobiáveis do cinema recente. Um trabalho excelente.

Gillespie por sua vez conseguiu misturar o suspense com as situações exageradas e propositais, criando uma mistura típica dos anos 80 (que ainda renderam Garotos Perdidos na mesma linha) com os avanços técnicos e de linguagem do novo século.Talvez não faça o sucesso esperado, mas é divertido, bem realizado, com piadas e referencias pop aos montes e duas ótimas sequencias de ação.

Obs: o 3d é do tipo "coisas voando na tela" e não é utilizado para criar profundidade. No que se propõe realiza bem o trabalho.



domingo, 7 de agosto de 2011

Quero Matar Meu Chefe
(Horrible Bosses, 2011)
Comédia - 98 min.

Direção: Seth Gordon
Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein

Com: Jason Bateman, Charlie Day, Jason Sudeikis, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell e Jamie Foxx

Atualmente, há duas grandes vertentes para comédias, de modo geral. Basicamente, dividem-se em dois subgêneros que ganham cada vez mais força entre um subgênero maior ainda - o da comédia adulta. Um deles, que atrai em maioria o público feminino, são as comédias românticas com debate de conteúdo sexual. São filmes como Sexo sem Compromisso, Amor e outras Drogas, e até o futuro Friends with Benefits, que dialogam com a temática do sexo desvinculado-o de um relacionamento sério. Paralelamente, outro tipo de produção que voltou a ser explorado em massa foi o das comédias de "macho" - motivado principalmente com o fenômeno de crítica e público de 2009, Se Beber, não Case! . Desde lá, tivemos várias outras tentativas de filmes humorísticos que abordassem a relação "porreira" entre homens, o tal "bromance" (aquela relação de camaradagem entre amigos em um bar por exemplo) e é só citar alguns desse ano, vale lembrar da própria continuação fraca de Se Beber... e do falho Passe Livre.

Somando isso aos desastres nucleares que vem passando pelo cinema de humor nacional - Cilada.com e derivados - e dá para se ter uma ideia de que não estamos em um período muito produtivo para as comédias adultas. Com repetições de temas aos montes, falta claramente originalidade aos roteiros, mas também alguém com mão firme para coordená-los a ponto de saírem minimamente satisfatórios. Desse modo, não fica difícil esperar algo diferente de Quero Matar meu Chefe, comédia que podia desafogar o gênero do eixo repetido de roteiros que ele passa. Entretanto, o longa que se propunha em sua divulgação - e até mesmo em sua introdução - uma dinâmica interessante sobre o cotidiano e a relação de um empregado com seu chefe, na verdade não passa de mais uma comédia de macho, onde os protagonistas se metem em situações absurdas e precisam sair delas, junto com seus "bros". Nesse aspecto, Quero Matar meu Chefe pode até ser uma enganação enquanto foco narrativo, mas nunca enquanto produto, afinal é dono de um resultado que, no final das contas, se sai muito bem ao lado de vários similares inferiores.




A trama acompanha a vida de três empregados - interpretados por Jason Bateman, Charlie Day e Jason Sudeiskis - e cada um deles tendo um carma em seu trabalho: seus respectivos chefes. Um deles é perseguido por um chefe psicopata (Kevin Spacey), o outro não consegue lidar com o assédio sexual da dentista ninfomaníaca (Jennifer Aniston) para a qual trabalha, e o terceiro não admite a conduta irresponsável e cretina de um cheirador inconseqüente que virou seu chefe após a morte do patrão anterior. Decididos a não suportar mais isso, eles decidem organizar um plano para matá-los, e para isso consultam Motherfucker Jones (Jamie Foxx) um criminoso experiente que os ensina táticas para realizar os crimes com sucesso.

O roteiro dos estreantes John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein e Michael Markowitz é interessante, mas claramente carece da originalidade sob o qual se disfarça nos meios em que é divulgado. Não é um filme essencialmente sobre os chefes, e em certos momentos os alvos em questão se tornam meros MacGuffins para uma trama de um trio de homens - composto pelo galanteador, o certinho e o pancada - que se metem em uma teia de acontecimentos de relevância criminal, e que precisam se desvencilhar dela, atravessando no decorrer diversas intempéries, tais como perseguições de carro, prisões, invasões de domicílio e experiências com drogas. Um tanto semelhante a Se Beber, Não Case!, comédia-modelo para os estúdios atualmente. O problema de ter um espírito tão parecido implica numa parcial falta de criatividade, mas também gera outros problemas. Afinal, os roteiristas criam um emaranhado de acontecimentos que procuram - só procuram - remeter à inteligência genial do filme de Todd Phillips, mas não conseguem nem mesmo resolvê-los dentro de sua lógica ''mirabolante''.




Aí surgem resoluções simplistas, fáceis, e algumas vezes previsíveis. Cria-se uma cadeia de eventos, e por não saber nem mesmo construí-la com sucesso completo, formam-se soluções incompatíveis. Ora, desse modo, começam a aparecer os buracos de roteiro, que permeiam silenciosamente a produção, mesmo que não sejam escandalosos, mas que geram certa suspensão de descrença, e também a necessidade de ter que relevar algumas situações propostas. Aliás, incongruências não se resumem apenas as partes de resolução da narrativa, mas também á sua premissa. Qual o sentido do personagem de Charlie Day, com receio de trair sua noiva com sua chefe, matar a mesma? Ele possui caráter o suficiente para não trair, mas se dispõe a cometer um assassinato sem hesitar sobre suas implicações morais? Além disso, é de Jennifer Aniston que estamos falando, e sua namorada retratada no filme não tem muitos atributos - tanto físicos quanto intelectuais - para criar essa resistência por parte do personagem.

A sorte e a salvação de Quero Matar Meu Chefe é que ele se trata de uma comédia, e possui outras características que compensam seus eventuais defeitos. Se ele se propõem a dar um belo espetáculo de gags, então ele dá: São várias, e elas conseguem ser certeiras e fazer a platéia rir sem forçar a barra. Dentro de cada ambiente que o roteiro faz seus personagens chegarem, há uma boa exploração de comicidade, com gags múltiplas, e que fazem o filme sobreviver diante de seus problemas. A melhor sacada do roteiro seja, talvez, a gag intraduzível - infelizmente - do Motherfucker Jones. Jamie Foxx ajuda muito nas cenas que participa, e as piadas proferidas pelos protagonistas não soam forçadas, e fluem naturalmente, resultado de um grupo de atores que estavam bastante á vontade.




Á vontade, na zona de conforto, não precisavam impressionar, e suas figuras serviram como meros peões para a construção das situações e para discursar piadas. Os atores se saem na média - diferente do que se tem em Se Beber Não Case! - e não são tão carismáticos, deixando o lugar para os chefes. Os mesmos - caricaturas - são engraçadíssimos apenas na sua construção de personagem, sem precisar de uma fala elaborada ou situação-chave . Kevin Spacey encarna solenemente o famoso estereótipo de chefe irredutível - diferente do Lester Burnham demitido de Beleza Americana - e demonstra sua versatilidade e habilidade que lhe renderam fama; Jennifer Aniston não precisaria de muito mais do que corpo para atuar, mas mesmo assim, se sai melhor que os demais nas cenas que participa; Colin Farrel, num papel de drogado - o que o ator já foi - se transfigura, e demonstra competência para o humor - como já visto em Na Mira Do Chefe. Basicamente, os atores mais competentes e experientes parecem que foram os que mais se dedicaram em atuar, e mesmo tendo curto espaço de tela, se sobressaem.

Depois de fazer o fraquíssimo, Surpresas do Amor, Seth Gordon parece ter aprendido a realizar humor de situação, ganhando muito mais timing para sua coordenação de set. As piadas e as gags são o ponto alto de Quero Matar Meu Chefe, mas tudo isso não esconde sua originalidade baixa e o fato de seguir a trilha das comédias de macho que surgem por aí. A única diferença dentro do contexto desse subgênero, é que o filme de Gordon fica na média, sem derrapar a níveis mais baixos. Ou seja, Quero Matar meu Chefe não é revolucionário, inteligente ou original como Se Beber, Não Case!, mas também não é fraco e infantil como Passe Livre. Entre homens em Vegas ou crianças que brincam com merda, vale o que um personagem diz durante o film : '' Vocês estão agindo como adolescentes da oitava série!''. No meio do caminho, na média, afinal.



sábado, 14 de maio de 2011


Caminho da Liberdade
(The Way Back, 2010)
Drama - 133 min.


Direção: Peter Weir
Roteiro: Peter Weir e Keith R. Clarke


Com: Jim Sturgees, Ed Harris, Colin Farrell e Saorsie Ronan

Peter Weir está de volta. Responsável pela criação de pelo menos dois filmes excepcionais (O Show de Truman e Sociedade dos Poetas Mortos) e outros talentosíssimos (A Testemunha, Gallipolli, Picnic na Montanha Misteriosa), o diretor australiano estava fora das telas desde o épico marítimo Mestre dos Mares, que lhe deu uma indicação ao Oscar (sua sexta).

Seu retorno é marcado por outro épico, dessa vez sobre a sobrevivência e capacidade de superar obstáculos e dificuldades. No caso, uma fuga de um Gulag (as famigeradas prisões soviéticas do tempo de Stalin) encravada na neve da Sibéria até a Índia, em uma viagem real e que cruzou mais de 6.000 quilômetros.


Weir abre seu filme entregando o jogo, dizendo (obviamente não dessa forma jocosa que direi a seguir, mas com esse sentido): "três caras atravessaram meio mundo e sobreviveram". Isso já nos diz que: a) aquela história terá um final "feliz" e b) nossa atenção deverá ser focada em observar quem serão os sobreviventes dessa aventura, o que nos leva a c) minha gigantesca decepção com o final apressado do filme.

Ano passado tive o prazer de ver um brutal e cruel filme sobre sobreviventes na mata chamado Van Diemen's Land (vocês podem ler a crítica aqui) e diferente do filme australiano (coincidentemente a mesma nacionalidade do diretor desse aqui), Caminho da Liberdade - até mesmo pelo cenário - não usa dos contrastes e da escuridão para enfatizar a dificuldade da jornada, mas aposta na maquiagem (indicada ao Oscar) para apresentar as mudanças que os personagens vão enfrentando durante sua longa e incessante caminhada.


O grande destaque do filme é sua fotografia. Weir mostra cada detalhe do trajeto dos fugitivos conseguindo imagens belíssimas, como por exemplo, na chegada do grupo a Mongólia ou o imenso deserto chinês que é cenário dos momentos mais intensos do filme.

O grupo de atores reunido para esse filme é ótimo. Ed Harris, Colin Farrell, Jim Sturgees, Saoirse Ronan e Mark Strong são as caras mais conhecidas que ainda tem diversos atores romenos e das repúblicas russas. Deles todos, o destaque vai para o soturno e calado personagem de Harris (Sr. Smith) um americano preso e enviado ao campo que tem a "curva dramática" mais verdadeira. Não consegui comprar a história do personagem principal (Jim Sturgees que vive o polonês Janusz) e muito menos sua resolução "happy ending".


Os problemas começam em não dificultar a vida do expectador para adivinhar quem chegará até o final da longa caminhada. Ao apostar em muitos personagens (e nesse caso dane-se a versão real, pois como já dizia John Ford, o que importa é a lenda) Weir não tem tempo de nos fazer gostar deles e principalmente de nos fazer conhecê-los e nos intrigar com sua importância para a trama. Desde sempre fica claro quais são os personagens principais e apenas uma pequena surpresa se faz notar dentre os sobreviventes.

Nisso reside o calcanhar de Aquiles do filme e que faz sua nota (boa até então) desabar para mim. Acompanhamos por mais de duas horas a intensa viagem desses prisioneiros para nos dez minutos finais sermos atirados em uma espiral acelerada que culmina em uma montagem patética de passos com imagens e textos sobrepostos (como o igualmente irregular Fora da Lei também fez) e o completo esquecimento de um dos personagens principais. Ele simplesmente "some", sem sabermos como, quando ou para onde ele foi.


As cenas finais são criadas para fazer chorar e depois de acompanharmos a epopéia dessa gente, o choro só pode surgir do esforço de acompanhar até o final esse amontoado de clichês de sobrevivência que até se sustentam, mas que são parcialmente implodidos pela pressa em encerrar-se.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

London Boulevard
(London Boulevard, 2010)
Thriller - 103 min.

Direção: William Monahan
Roteiro: William Monahan

Com: Colin Farrell, Keira Knightley, Ray Winstone, David Thewlis e Ben Chaplin



William Monahan é um escritor com grandes sucessos na carreira e London Boulevard marca sua estréia na cadeira de diretor. Monaghan "pariu" Cruzada, Rede de Mentiras, O Fim da Escuridão e recebeu o Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado pelo seu Os Infiltrados, filme de Martin Scorsese que adaptou Conflitos Internos para o paladar americano.


Esse London Boulevard (que ele também assina o roteiro e produz) é um exemplo correto do subgênero do filme de gangster, e conta a história de Mitchell, um homem recém saído da cadeia e que se envolve em um dilema moral e emocional: manter-se como mais um gangster assumindo os riscos da "profissão" ou deixar essa vida, com a oportunidade que uma estrela reclusa perseguida por paparazzis lhe oferece para trabalhar como uma espécie de segurança privado.


Colin Farrell - muito a vontade como bad-boy em um papel que tem muito do que o ator transparece fora das câmeras - interpreta Mitch, alguém que todos ao seu lado temem e respeitam. Keira Knightley, interpreta a estrela reclusa que serve como fada madrinha ao gangster. O filme conta com uma serie de atores interessantes e talentosos como coadjuvantes. David Thewlis vive um hippie doidão que serve como protetor para a personagem de Keira. Ben Chaplin, irreconhecível como um bandido de quinta e Ray Winstone interpretando com sua persona completam o elenco de ingleses notáveis no filme.


Apesar de ser recheado de momentos cool e belas imagens, London Boulevard é correto e nada mais. Você já viu essa história antes, e Monahan recicla clichês e entre tentativas e erros o saldo é mediano.



Acerta com seu elenco,mas erra no texto de alguns deles. A relação de Mitch e sua irmã Briona (a sexy Anna Friel) é mal conduzida e mal resolvida não causando o menor impacto emocional no personagem de Farrell. Mesmo Knightley varia sua interpretação em momentos delicados (na revelação na casa de campo, por exemplo) com outros de pieguice completa. Thewlis excêntrico em exagero só se torna um personagem interessante nos últimos minutos da projeção e apesar de ter um final "surpresa" e de mordaz ironia não convence no conjunto.


London Boulevard é um protótipo de tudo o que o cinema de gangster pretende ser: ágil como narrativa, com quilos de imagens ora engraçadas por sua bizarrice, ora absurdas pela própria situação, um vilão "malvado", um herói quase tão malvado, uma mocinha indefesa e coadjuvantes bem humorados (ou não). Uma pena que Monaghan quis misturar tudo em uma só história, que apesar de bons momentos aqui e ali, não é nunca inesquecível e obrigatório.

sábado, 8 de maio de 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus
(The Imaginarium of Doctor Parnassus, 2009)
Aventura/Fantasia - 123 min.

Direção: Terry Gillam
Roteiro: Terry Gillam e Charles McKeown

Com: Christopher Plummer, Heath Ledger, Lily Cole, Andrew Garfield, Tom Waits, Verne Troyer, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell

A filmografia de Terry Gillam sempre foi marcada pelo lúdico, pelo desbunde visual, pela tentativa (muitas vezes bem sucedida) de transportar seu público a um mundo de fantasia e sonho, que funciona muito melhor quando o espectador embarca na jornada que seu diretor o convida.

Por isso, caso quem veja O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus não “aceite” o visual e as idéias de Gillam desde o princípio, será perfeitamente compreensível que as respostas ao filme sejam neutras, apáticas ou simplesmente ruins.

Digo isso pois, diferente de seus trabalhos mais conhecidos pelo grande público (Irmãos Grimm e Doze Macacos) que apesar de serem obras de realidade fantástica, ainda mantinham muito do realismo e de linearidade, o novo filme do diretor é muito mais um conto de fadas do que uma história com elementos fantásticos. Parnassus se assemelha em estilo a Brazil e visualmente muito a As Aventuras do Barão de Munchausen. Ambos tem “mundos” fabulosos, com direção de arte impecável e os dois pés fincados (fundo) no âmbito do onírico.


Pessoalmente, Dr. Parnassus num top do diretor entraria na terceira posição, atrás de Brazil e Doze Macacos e logo acima de Munchausen. Parnassus é (visualmente) um avanço artístico e tecnológico em relação ao filme do “Barão".

A história, rebuscada, fala do Dr. Parnassus (Christopher Plummer) uma espécie de guru/ mágico/ monge /artista circense que tem o poder de realizar visual e fisicamente os desejos da imaginação de quem passa por suas mãos. Ele vive com sua filha Valentina (Lily Cole), e dois ajudantes (o garoto Anton vivido por Andrew Garfield e o anão Percy interpretado por Verne Troyer). Essa trupe apresenta um show circense que mistura a comedia dell’arte com figurinos vitorianos e que pretende “iluminar” a vida dos escolhidos pelo doutor, além é claro de sobreviverem com as “doações”.


A coisa complica quando um misterioso homem é encontrado enforcado embaixo de uma ponte ainda vivo. Esse homem, bem vestido e que alega não lembrar de sua identidade, é interpretado por Heath Ledger (em seu último papel, mas acho que todos já sabiam disso).

O filme ainda conta com Tom Waits (sempre bom ver Waits em filmes), Peter Stormare (em uma ponta) e Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell em participações muito perspicazes por parte de Gillam. Sem soltar spoiler, o diretor os usou de maneira genial os três atores de forma fluida não tornando as participações dos mesmos gratuita e muito integrada ao espírito do filme.


Os três estão muito bem. Depp usa de seu carisma e de sua habilidade para interpretar tipos estranhos e fantasiosos, enquanto Law e Farrell (esse último mais) tem uma chance muito interessante de atuarem fora de sua zona de conforto. Os três funcionam como reflexos tortos vindos do mesmo espelho. Cada um com características diferentes, mas vindos do mesmo lugar.

A parte visual é a mais impressionante do ano sem dúvida. Apesar de muita gente estar reclamando do uso do CG, ele não me incomodou e na minha opinião se fez necessária, visto a natureza do tema do filme e das possibilidades infinitas que a computação hoje apresenta a cineastas.


É claro que o uso indiscriminado é ruim (que o diga Peter Jackson e seu Lovely Bones), mas Parnassus não o faz. As imagens são fabulosas, e mereciam mais reconhecimento. O mesmo pode ser dito dos figurinos e da fotografia que estão dentro do padrão dos filmes de Gillam, um monstro nos aspectos visuais.

É bom perceber que Gillam se recuperou no tropeço de Irmãos Grimm e da decepção com os infinitos atrasos de O Homem de La Mancha, que aparece no IMDB listado para 2011. A história construída pelo diretor é uma mistura de Fausto com grandes momentos do escritor Neil Gaiman e prima pelo bom gosto. Os únicos problemas acontecem no ato final quando parece que Gillam quis resolver seu filme muito rapidamente. Uns dez minutos a mais, ou uma diminuição do primeiro ato (muito longo e que se resume a “a trupe encontra Ledger”) poderiam ter feito melhor ao filme que prende a atenção e mantém-se interessante (mesmo que tendo ritmo mais lento) para o espectador.


Gillam é mesmo um mestre das histórias fantásticas e vem criando “mundos” desde os tempos em que era um dos Python. Fico esperando qual o próximo devaneio que surgira da cabeça do genial inglês.

terça-feira, 16 de março de 2010

Coração Louco
(Crazy Heart, 2009)
Drama - 112 min.

Direção: Scott Cooper
Roteiro: Scott Cooper

Com: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Colin Farrel e Robert Duvall

Jeff Bridges é o que faz Coração Louco não se tornar mais um filme sobre comebacks que os americanos tanto adoram e exaltam como “exemplos de vida e superação”.

Se esse filme fosse estrelado por algum outro ator que não tivesse a maturidade tanto de vida quanto de atuação, certamente Coração Louco seria um porre.

O filme fala do cantor country decadente Bad Blake, um homem que a muito tempo fora alguém e luta com a realidade de que hoje não passa de um fantasma. Acometido de um bloqueio, o cara está a anos sem sequer compor nada novo. Blake é alguém que vive em sombras se apresentando para a mesma meia dúzia de fantasmas que ainda acompanham seus sucessos do passado. Podemos fazer milhões de paralelos com dezenas de artistas que até hoje vivem de sucessos do passado, amordaçados a velhas lembranças. Ele vive de showzinhos em lugares desertos, cidades que não o conhecem, ou para a mesma “meia dúzia” de fãs que acompanham sua carreira a anos. A história inicia-se realmente quando ele encontra-se com a jornalista Jean (Maggie Gyllenhaal) mãe de um garoto de quatro anos, e se encanta por ela e por seu filho. Ao mesmo tempo, o empresário de Bad consegue uma última grande chance. Abrir o show de Tommy Sweet (Colin Farrel) seu pupilo. O problema é que Blake guarda um enorme ressentimento de Sweet.


Durante todo o filme, Bad é mostrado como um homem que está perdido, solitário e que encontra alguma paz (artificial) nas garrafas de whisky. Porém ele é um gênio. Um artista incrível e compositor mais impressionante ainda. Durante o filme somos premiados com belas canções (ainda mais pra mim que gosto de country). No fundo, Bad é um artista, na concepção da palavra. Alguém que nasceu talhado para aquilo, mas que encontra uma série de dificuldades ao tentar realizar qualquer outra coisa. Não fala com o filho que abandonara, tem dificuldades extremas em manter qualquer tipo de relacionamento e é um alcoólatra e fumante inveterado. Um personagem complexo e que nas mãos erradas poderia se tornar um pastiche.

O que faz o personagem, apesar de todas as suas falhas, se tornar carismático e interessante é Jeff Bridges. Não dá pra precisar com exatidão se essa foi a melhor atuação do ano, mas que Bridges realizou um trabalho muito competente isso não pode ser negado. Muito a vontade no papel de boa vida, “pinguço” e fracassado, Bridges nos faz torcer por seu personagem e nos faz amenizar a infinidade de erros do filme.


O roteiro é fraco, e se apóia totalmente em Bridges e no melodrama sacarótico. Nenhum outro personagem que participa da vida de Bad tem alguma relevância emocional. Mesmo a personagem de Maggie Gyllenhaal (uma espécie de namorada de Bad) é vazia. Eu não consegui acreditar nesse casal. Pareciam, a todo momento muito artificiais. Não sei se faltou química aos atores, ou se simplesmente o roteiro queria dizer isso. Se quis, errou. A “jornada” de Bad, só ocorre por causa de seu amor, e isso não convence no filme em momento algum. Portanto a impressão que dá é que aquilo não é real. Bad faz um esforço não por ele, mas por ela.

Os outros poucos coadjuvantes tem pouco ou nada tem a fazer no filme. Robert Duvall por exemplo tem 3 cenas no filme todo e Colin Farrel tem igual tempo de tela, porém consegue retratar seu Tommy de forma diferente do que o próprio Blake pintava. De sujeito arrogante e ingrato, vemos que na verdade Tommy nutre respeito paternal pela figura do ídolo e mentor. Isso faz com que percebamos mais falhas em Blake, o que só corrobora a belíssima interpretação de Bridges.


Porém, existe algo além de Bridges em Coração Louco. Suas músicas. As composições do filme são todas muito eficientes. Típicas do country americano, recheadas de emoção, paixão e poesia. O Oscar de melhor canção não veio por acaso.

É complicado manter o espectador interessado por duas horas de ação quando a única coisa que realmente importa no filme todo é boicotada pelo próprio diretor e roteirista, que apelam para o melodrama de forma descarada (notem que medíocre é a participação do filho de Maggie em toda a película. Não que o garoto esteja mal, mas é usado de maneira tão gratuita e desnecessária que chega verdadeiramente a incomodar). É uma prova de que Bridges é extremamente talentoso, pois conseguir suplantar toda a sacarose implantada em Coração Louco é coisa pra gente muito, mas muito talentosa.


Infelizmente Coração Louco entra para aquela categoria de filmes que assim que você sair da sala vai se lembrar de muito pouco.

Talvez de Bridges ou das canções. Muito pouco pra um filme que poderia ser muito mais.