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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Caminhos da Floresta

Caminhos da Floresta
(Into the Woods, 2014)

Direção: Rob Marshall
Roteiro: James Lapine

com: Anna Kendrick, Daniel Huttlestone, James Corden, Emily Blunt, Christine Baranski, Meryl Streep, Lucy Punch, Tracey Ullman, Lilla Crwaford, Johnny Depp

Existe um momento em "Into the Woods" em que um dos personagens canta que não aguenta mais. Essa é a sensação que tive depois de pouco mais de vinte minutos desse péssimo musical que tenta misturar uma dezena de contos de fada em um mesmo balaio sem muita competência. Muito diferente do que a brilhante série em quadrinhos "Fábulas" ou a razoável "Once Upon a Time", falta muita coisa para que essa produção seja meninimante interessante.

Sendo um musical (e esse é daqueles em que só se canta, onde foram parar os musicais com números de dança?) esperasse competência das canções, principalmente quando se descobre - eu não sabia - que a produção de cinema é uma adaptação de uma musical de palco. Infelizmente, as músicas são muito fracas e quase todas as interpretações abaixo da crítica, especialmente as crianças que interpretam Chapeuzinho Vermelho e João (do Pé de Feijão). Johnny Depp faz uma ponta (péssima, o que vem se tornando um hábito em sua carreira) e Meryl Streep até que tenta mais não tem jeito jeito. Anna Kendrick e Emily Blunt ao lado do comediante britânico James Corden são os que se saem melhor, mas existe pouca inspiração na trama que segue - com algumas ligeiras mudanças - os fatos de alguns dos contos de fada mais famosos do mundo até sua metade, quando ocorre uma ruptura forçada e que dá origem a um terceiro ato absurdamente sério e deslocado diante do humor brega e exagerado que vinhamos até então.

Forte candidato a entrar na listinha de piores do ano de 2015, Into the Woods é um dos musicais mais fracos do século XXI, com atuações canastras, músicas fajutas, direção de arte pouco inspirada, figurinos fraquinhos (o que é o lobo mal?), efeitos visuais fajutos (os gigantes nunca aparecem e quando os vislumbramos notamos a falta de acabamento nos efeitos visuais) e uma trama que vai de aventura cômica meia boca a dramalhão insuportável.

★½ 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um Divã para Dois


Um Divã para Dois
(Hope Springs, 2012)
Comédia/Drama - 100 min.

Direção: David Frankel
Roteiro: Vanessa Taylor

Com: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell

O cinemão americano não gosta dos adultos. Muito menos dos adultos que estão chegando, ou já chegaram, à chamada terceira idade. São raros os projetos que apostam em atores mais velhos encabeçando o elenco, em papéis onde suas idades são importantes para a trama. Não se envelhece em Hollywood, e quando personagens mais velhos são vistos no cinema é sempre por aquele prisma clichê de sabedoria, desastre ambulante ou como pais e mães de família. Raramente estes atores têm chance de falarem sobre amor na maturidade, sexo, as dificuldades de manter um casamento, assuntos que parecem ser enormes tabus.

Uma das poucas atrizes que tem cacife para bancar um projeto que aborda esse tema é Meryl Streep, que na última década tem apresentado papéis tão variados como a freira de Dúvida, a primeira ministra britânica em Dama de Ferro e papéis mais leves e divertidos como a "maluquinha" de Mamma Mia e a dona de casa que se envolve com o ex-marido, no fraquinho Simplesmente Complicado.

Um Divã para Dois apresenta mais uma faceta da unânime Meryl. Sua Kay é uma mulher comum, típica personagem de meia idade que casada há muito tempo com Arnold (Tommy Lee Jones) vê seu casamento praticamente inexistir, com falta de carinho, amor, sexo e tudo o que faz de um relacionamento uma experiência única.


Decidida a re-acender a chama perdida, decide apostar tudo numa terapia de casal, que os tira de casa levando-os aos braços do Doutor Feld (o contido, mas excelente Steve Carell), o terapeuta responsável por tentar encontrar a fagulha apagada do casal.

O encanto de Um Divã para Dois está na dupla de protagonistas que tem uma química muito intensa, surgindo muito honestos. Meryl, como sempre (e ela é uma raridade que merece a referência) extrai qualidade no material que tem em mãos não importando muito a qualidade geral da obra, ainda mais quando o texto é tão humano, tão próximo das pessoas que conseguem se enxergar em diversos momentos da trama, mesmo aqueles que não tem nem metade da idade daqueles personagens. Meryl usa muito de seu olhar e transforma a personagem em uma claudicante mulher que pisa em ovos para tentar encontrar uma saída para sua vida infeliz e burocrática.

São diversos os momentos de destaque da atriz, que surge muito consciente de seu papel, jamais exagerando no excesso de submissão, ou na postura absurdamente compreensiva frente a um personagem ranzinza e travado com suas emoções.


Tommy Lee Jones surge "fresco", em um personagem muito próximo de um Woody Allen bronco, um homem com neuroses, reclamações, medos e que não sabe o que quer de sua vida. Vive sua rotina como uma maratona sem fim, sem perspectiva de uma mudança. Essa é uma das maiores interpretações de sua carreira, fugindo dos óbvios clichês que o marcam no imaginário popular. Seguro, intenso e muito inteligente.

E Steve Carell é a grande surpresa do filme. Seguro em um papel que o impede de mostrar seu viés cômico, está muito confiante como o terapeuta (que, novidade, não é um charlatão) que resolve ajudar o casal. Muitas das cenas mais interessantes do filme se passam em seu consultório, num "bate-bola" intenso e delicioso entre esses três atores fazendo seu melhor.

É difícil definir o gênero a qual essa produção faz parte. Tem momentos de pura comédia, geralmente envolvendo a dificuldade de conversar sobre sexo dos dois personagens tão travados, e de profunda emoção, quando o assunto fica muito mais sério e o sexo se torna apenas a primeira de muitas camadas de um texto que aborda a dificuldade de se manter um relacionamento. Tudo de forma muito realista, sem mágicas milagrosas, mas com um óbvio otimismo que faz de um assunto complicado muito mais leve para ser "comprado" pelo publico.


A direção é de David Frankel, o mesmo de Diabo Veste Prada, filme que rendeu um papel icônico a Meryl Streep, e que assim como Um Divã para Dois, tentava a todo custo transformar a historia potencialmente água com açúcar em algo com muito mais substância. Aqui, com um tema que já é denso o bastante, Frankel faz o caminho inverso, deixando as analises comportamentais recobertas de uma camada de humor e romance que faz do filme praticamente irresistível. Em mais um desempenho sensível de Meryl Streep, uma química inegável com Tommy Lee Jones, uma trilha romântica e moderna, cenários bem escolhidos e acertos até mesmo na escolha de subverter as expectativas do público em alguns momentos, este é um daqueles filmes gostosos de assistir, e que se não mudam o mundo, pelo menos o tornam mais feliz.


sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

A Dama de Ferro
(The Iron Lady, 2011)
Drama - 105 min.

Direção: Phyllida Lloyd
Roteiro: Abi Morgan

Com: Meryl Streep, Jim Broadbent e Richard E. Grant

Meryl Streep conseguiu. Durante as quase duas horas de duração de A Dama de Ferro, a brilhante atriz conseguiu me fazer simpatizar com uma das personalidades mais detestáveis do século XX. A primeira mulher ocidental a comandar um país é uma figura tão complexa e criticável que mereceria toda uma coluna só para analisar seus anos no governo britânico.

Porém, como o foco é o filme, a dramatização de fatos e momentos de sua vida passadas através do filtro de um realizador, basta dizer que segundo a diretora Phyllida Lloyd, Thatcher foi uma mulher dura, mas comprometida com seus princípios, que acima de tudo queria um país melhor. Certo?

Nem tanto. Se analisarmos a personagem real fora do filtro é praticamente impossível concordar com a aura quase de conto de fadas que o filme de Phyllida tem. São diversas sequencias de dança, de apreço de Thatcher pelo filme O Rei e Eu (o que não esconde as raízes musicais da diretora, que dirigiu Mamma Mia), de discursos pseudo-feministas, tudo para no fim dizer que ela salvou a Inglaterra de uma barbárie iminente. Sempre que uma figura polemica é biografada, esse tipo de problema surge. Se por um lado os conservadores aplaudem sua heroína tendo a chance de contar "sua história", os demais vêem o filme, como mais uma tentativa de reescrever a historia, ignorando todos os problemas da administração Thatcher.


Thatcher foi uma mulher dura, quase uma ditadora em sua postura para com o país e seus pensamentos, e que tem suas características explicadas aqui, como resultado do fato dela ser a única mulher no meio da corja de lobos (segundo o filme) que formavam  os muitos níveis do governo britânico. Portanto, era necessária que sua postura fosse igualmente agressiva e virulenta na lida com aquele mundo de homens.

Além de ser uma explicação quase misógina (e pior, vindo de uma mulher) já que quer dizer nas entrelinhas, que para uma mulher sobreviver no mundo da política ela precisa ser mais agressiva do que os homens, afastando no caminho todos a sua volta, é simplista, já que não leva em consideração - isso no filme é mostrado com uma preguiça enorme - a formação pregressa da garota.

Seu pai, visto em sequencias curtas, era um líder político de sua cidade, e Margaret a enxergava com muita admiração, mas é curioso que o discurso do pai da futura primeira ministra, seja quase o oposto ao da já primeira ministra Thatcher. Além disso, quando Thatcher encontra seu "verdadeiro amor", na figura de Denis (na versão jovem interpretado por Harry Lloyd e na versão idosa por Jim Broadbent) diz que não queria terminar sua vida lavando xícaras, o que rende uma rima visual pobre e óbvia, quase no final do filme.


De outro lado, Phyllida Lloyd parece que até tentou (e falhou assim como Clint em J.Edgar) dizer: "mas olha eu também mostrei o outro lado da história", incluindo uma serie quase sem muito sentido de manifestações - que basicamente são mostradas como um bando de cabeludos e barbudos batendo no carro de Thatcher, sem grandes explicações quanto à motivação por trás dos protestos - de discursos na câmara dos deputados (novamente sem grandes explicações sobre os motivos de tanta revolta, se perdendo em números e mais números) e - talvez a única vez que acerta nesse quesito - quando coloca um chilique da personagem, já fragilizada, quando lhe é apresentada a proposta da União Européia que ela refuta, dizendo que aquilo seria o fim da independência da economia da Inglaterra. 

Curiosamente, com a crise econômica dos últimos anos, esse discurso - impossível negar que é político - tenha ganhado um megafone gigantesco para ser ouvido. Mais um prova da intenção política de um filme como esse, a beira de eleições no país.

Streep, apesar do personagem anacrônico e cheio de problemas, faz de Thatcher, em especial quando surge mais velha e cansada pela vida, uma senhora austera e até agradável, apesar de marcada profundamente por sua doença e por suas escolhas na vida. Uma coisa muito complicada de ser vista e uma performance magnética e intensa, ajudada claro, por uma maquiagem magnífica que lhe dá recursos para ir de mulher jovial e poderosa do passado, a senhora acabada e quase enlouquecida no presente. Um trabalho verdadeiramente poderoso e que mimetiza de tal forma a pessoa de Thatcher que consegue a proeza de nos fazer identificar e até criar afeição por uma pessoa tão mesquinha e desagradável.


Lloyd, em um dos únicos momentos inspirados do filme (e que rendeu algumas risadas que honestamente não compreendi, na sessão que vi) coloca sua personagem dizendo algo próximo a isso: "Vivemos em uma sociedade que se importa mais com o que sentimos do que com nossos pensamentos e as ideias". Bonito, não?

Esse retrato de Thatcher é claro sobre sua mentalidade. Uma mulher fria, dura e que prefere morrer por uma ideia ruim, do que admitir seus erros e pensar "com os sentimentos". Fico feliz em perceber, que hoje, muita gente vem abandonando o "thatcherismo" e pensando na complexidade dos seres humanos, que não podem ser comandados baseados em conceitos abstratos, em ideias que não meçam seu impacto na vida cotidiana das pessoas. Esse foi o erro de Thatcher, e o erro de Phyllida, que por todo o filme tenta justificar de forma melodramática, conceitos que de nada tem de humanos ou emocionais. É pura bobagem racionalista.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fúria Pela Honra
(Dark Matter, 2007)
Drama - 88 min.


Direção: Shi-Zheng Chen
Roteiro: Billy Shebar e Shi-Zheng Chen


Com: Meryl Streep, Ye Liu e Aidan Quinn


Alguns filmes estrangeiros conseguem ser destaques nos Estados Unidos. Geralmente, isso ocorre com 1 ou 2 filmes de países exóticos a cada 5 anos. A Coréia do Sul faz sucesso, trazendo filmes como Mother, O Hospedeiro e Oldboy para a América e ter dado visão a seus icônicos criadores, Bong Joon-Ho e Park Chan-Wook. O Brasil já teve um momento assim, com Cidade de Deus e a merecida indicação de Fernando Meirelles ao Oscar e agora é a vez de um filme chinês ganhar um pouco de repercussão. Fúria pela Honra, péssimo título para Dark Matter (a matéria negra do espaço, tema recorrente do filme), é um pequeno drama feel good que conseguiu um prêmio em Sundance e passou pelo resto dos EUA. Ainda mais, o filme tem Meryl Streep, conhecida por selecionar a dedo seus roteiros, o que faz a expectativa pro filme só aumentar. Tudo bem ensaiado para um excelente drama indie, certo? Pois é, certas coisas são relativas.

A trama, que vai da comédia a tragédia, segue um brilhante estudante chinês, Liu Xing (Liu Ye), que vai para os Estados Unidos para estudar na Universidade de Iowa. Como seu professor, ele terá Jacob Reiser (Aidan Quinn), um homem que Liu admira muito por ter desenvolvido uma Teoria das Cordas, que influenciou diretamente a sua teoria sobre a Matéria Negra do espaço. Junto com seus 3 amigos, ele vai tendo suas aventuras pela América, enquanto conhece uma garota que ele se apaixona e uma mulher chamada Joanna Silver (Streep), que adora a Cultura Chinesa e se afeiçoa ao estudante. Porém, quando Liu desenvolve sua teoria, desperta a inveja dos acadêmicos e isso resulta numa série de eventos imprevisíveis.


Olhando a história, ela resultaria facilmente num clichê ambulante, uma típica história de jornada que até gera carisma e conquista o público pela emoção, mas irrita os críticos por ser tão arquetípica. Infelizmente, Fúria pela Honra trabalha muito com isso, afinal, as partes que Liu está com seus amigos são previsíveis e testadas anteriormente em qualquer filme de jornada ao país estrangeiro. Se há alguma coisa em que o filme se sobressai são nas partes emocionais, em que Liu Ye atua com uma entrega tocante, fazendo bem o papel do estudante nos dias mais difíceis de sua vida.

Porém, se as partes emocionais até tocam, não se pode dizer o mesmo da estrtura do roteiro. Pífio, o roteiro constrói personagens com desleixo e vemos até uma Meryl Streep apagada num papel sem razão de existir. Joanna Silver não serve pra nada no filme e é estranho ver uma profissional do calibre de Streep se sujeitar a atuar num desastre de personagem desses. Aliado a isso, temos uma indecisão constante na constatação de gênero do filme. Digo, ele começa como uma comédia feel good, passa pro drama leve, vai pro drama forçado e termina como um bizarro e risível filme de psicopata. As viradas no comportamento do protagonista são tão convincentes quanto a originalidade do roteiro de Avatar. O pacato estudante, que se preocupa tanto com a família a ponto de negar sua fase difícil pra ela (mentindo nas cartas), vira um cara perturbado. E o pior: sem um motivo realmente plausível. Fora os clichês absurdos, tipo ele citar que quer o Nobel e casar com uma americana loira, pra depois cortar pra ele conhecendo uma americana... Loira! Mal planejado desse jeito, o roteiro deveria ter sido no mínimo polido pra haver uma estrutura decente. Estranho ver como um filme tão esquisito pode ter sido apreciado pelos festivais na América. Vai ver é o final, vingativamente americano.


Pra não dizer que o filme é fraquíssimo, a estética é bem apurada. A direção do diretor de óperas Chen Shi-zheng é boa e bem contemplativa. Com takes bonitos e dando uma boa valorizada a algumas imagens, a direção faz um papel importante, segurando o filme como pode. Aliado a isso, a fotografia (Oliver Bokelberg) também é maravilhosa e tem tons cinzentos que combinam bem com o filme. Parece que está sempre algo nublado, o que na tela fica bonito. Mesmo com a direção de arte (Christopher DeMuri) fazendo o filme parecer feito pra tevê em alguns momentos, a fotografia compensa. O mesmo, porém, não se pode dizer da trilha sonora de Van Dyke Parks. Assim como o próprio filme, ela tem seus momentos bons (sinfonias bonitas e tocantes, em takes abertos de natureza), mas tem momentos muito vergonhosos, quando tenta forçadamente extrair alguma emoção da situação, mesmo ela sendo pouco profunda. Nas cenas felizes, a trilha também é forçada e risível em certos pontos.

Nas atuações, Liu Ye que rouba a cena. Seu jeito meio desengonçado, o inglês burocrático e um olhar meio empolgado meio perdido fazem uma atuação que não consegue sustentar o filme, mas pelo menos faz muito bem sua parte. Aidan Quinn, por outro lado, faz um sujeito caricatual, que começa muito legal e faz a linha do sábio cool, mas termina como um invejoso arrogante e pouco inteligente (mais uma virada de personagem sem sentido). Seguindo Quinn, temos uma perdida e irreconhecível Streep, no pior papel de sua carreira. Streep até tenta ir bem, mas acho que o próprio roteiro fez ela, visivelmente, falar suas falas sem ter crença nelas. Daria até pra falar que essa foi uma atuação pra pegar o cheque rápido, se não fosse o valor baratíssimo do filme.


No geral, Fúria pela Honra poderia até ser um descontraído filme de jornada ou um pesado filme sobre a queda do protagonista. Como escolhe ficar no meio termo e exagera coisas desnecessárias (aquele final é intragável), o filme é um esquecível e hypado estrangeiro fraco. Com uma trama como essas, não dava pra fazer muito. Mas daí cobri-la com situações fracas e viradas de personagem toscas? Aí é algo até amador.


sexta-feira, 26 de março de 2010

Julie & Julia
(Julie & Julia, 2009)
Comédia - 123 min.

Direção: Nora Ephron
Roteiro: Nora Ephron

Com: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci e Chris Messina

É curioso como numa temporada de filmes tão interessantes alguém pode realmente considerar Julie & Julia um filme “oscarizavel”. E falo isso com impressões positivas do filme. Julie & Julia é “bonitinho”, é um filme gostoso de ver se você não tiver grandes pretensões e funciona muito porque apesar de sua simplicidade e falta de pretensões não ofende a inteligência do espectador. Ele é uma comédia levemente (bem levemente) dramática e faz isso com competência. Mas está longe de merecer receber ovações, ou mesmo de apresentar um papel verdadeiramente bom de Meryl Streep.

Baseado em duas “histórias reais” inter-relacionadas, o filme fala do período em que Julia Childs, a primeira mulher a apresentar um programa de culinária da TV americana e de ter “ensinado” a mulher americana a comer com classe e estilo a partir de seu livro “Mastering the Art of French Cooking”, viveu na Europa preparando seu debut como autora. Ao mesmo tempo baseia-se na experiência da escritora e blogueira (olha a “categoria” representada) Julie Powell que dedica um blog a narrar suas aventuras ao cozinhar todas as receitas de Child armazenadas no tal livro no período de um ano.


Plot legal. Funciona como um mix de biografias, narradas de forma paralelas e de forma com que as narrativas se misturem e se “expliquem”. Exemplo: Julie se vê como incapaz de alguma coisa, e na historia de Julia a mesma também se vê da mesma forma. O que o roteiro de Nora Ephron (também diretora) parece querer dizer é que as duas mulheres são “farinha do mesmo saco”. Em resumo, são mulheres que se encontram e a seus talentos pelos caminhos tortuosos da vida.

Das duas historias, a que mais me agradou foi a de Julie (a cada vez mais interessante Amy Adams de Dúvida e Encantada), que funciona divinamente em especial quando aborda o “mundo blogueiro”. O que escrever? Quando escrever? Será que alguém lê o que eu escrevo? Será que alguém vai ler e, melhor, comentar? Tudo isso é abordado de maneira leve durante o filme.


Julie é uma funcionária do governo que trabalha com os seguros das vitimas do 11 de setembro, e que encontra uma válvula de escape quando cozinha. E como cozinha. Sempre que você assistir a um filme culinário de barriga vazia, existe uma enorme chance de a) sua nota pro filme aumentar pelo seu deslumbramento e b) você se pegar comendo qualquer coisa só pra matar a fome.

Julia (Meryl Streep) é a mulher de um adido cultural (Stanley Tucci, especialista em papeis leves em comédias igualmente “light”) que, uma vez em Paris, aprende todo tipo de coisa até se dar conta que verdadeiramente amava cozinhar e que é isso que deveria fazer. A narrativa de Julia é mais corrida e episódica, em razão da divisão do filme em duas partes e pelo exercício hercúleo de Ephron em resumir a fase mais importante da vida de uma pessoa em cerca de 60 minutos (o filme tem 123 minutos).


Ephron acerta (eu disse que o filme era bonitinho e funcionava) quando não tenta mostrar a vida colorida e perfeita e foge (como torci pra isso) do eventual encontro entre as duas. Em lugar disso ela prefere manter a aura mítica de Child intacta e faz de Julie mas do que uma fã, uma verdadeira expert em sua ídola.

Porém, o filme (e Ephron) erram bastante quando transformar a personagem de Child em uma quase caricatura. A todo momento ela é exagerada (e o filme adora enfatizar seu tamanho e seus modos desajeitados) e Meryl Streep erra feio ao compor a personagem dessa maneira. Longe de seus melhores momentos, a atriz entrega-se a farsa e ao tragicômico e esquece que além de ser uma pessoa tridimensional, ela representa alguém que realmente existiu.

E não, nunca vi Julia Child, mas me recuso a crer que alguém pode ser tão “over” em quase todos os momentos de sua vida.


Em compensação gosto cada vez mais de Amy Adams, que transforma sua personagem cheia de pequenos problemas muito humanos (stress, falta de tempo, falta de confiança em si mesma, medo de não conseguir vencer, medo de se manter eternamente presa ao nada, medo de envelhecer fracassado) numa criatura adorável e cheia de paixão pelo que faz. Cada prato preparado é uma vitória pessoal e uma nova rocha escalada em sua tentativa de reencontrar sua alto-estima. Se o filme fosse somente baseado no livro de Julie, com Julia sendo usada como personagem oculto; aquela sombra que paira sobre os personagens os inspirando, gostaria muito mais.

Ao fim da projeção, fico com a impressão que faltou tempo a Julie e que o tempo de Julia foi (sendo generoso) mal conduzido, mesmo com a bela reconstrução de época e com algumas (poucas) piadas e situações que roçam no realismo. Mas quer saber, o filme não se vende como sério e uma avaliação assim iria contra a própria proposta do filme.


Um dos maiores erros (a meu ver) de críticos por ai é a intransigência na crítica. Em outras palavras, não podemos ter o mesmo grau de exigência com filmes que “imploram” para não serem levados a sério. Em compensação, atrocidades como Transformers 2 (que apesar de serem claramente imbecilizantes, mesmo nesse nível, ofendem a inteligência de qualquer ser vivo) não merecem defesa pois querem ser algo que nunca poderão ser: bom entretenimento, pois não acreditam em seu próprio público.

Julie & Julia passa raspando nesse teste. Entretem e sabe muito bem a quem se destina. Um mérito e tanto numa indústria cada vez mais pretenciosa.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Simplesmente Complicado
(It's Complicated, 2009)
Comédia/Romance - 120 min.

Direção: Nancy Meyers
Roteiro: Nancy Meyers

Com: Meryl Streep, Alec Baldwin, Steve Martin

Em determinado ponto do filme, a personagem de Meryl Streep diz: “então é assim que é uma conversa de adultos”. Essa frase explica muito sobre o filme Simplesmente Complicado, que inacreditavelmente teve seu roteiro indicado ao Globo de Ouro.

Simplesmente é o novo fruto da árvore (que parece não ter fim) das comédias agridoces americanas, que pretendem ser “verdadeiras”, “realistas” e contar fatos da vida.

As aspas são mais que justificadas, pois o filme da diretora Nancy Meyers falha fragorosamente nessa tentativa. O filme soa no máximo como um passatempo esquecível de pouco mais de hora e meia.


A história fala sobre Jane (Meryl Streep), uma mulher de meia idade que está separada a dez anos de Jack (Alec Baldwin). Juntos o ex-casal viveram mais de 20 anos, e tiveram 3 filhos. O enrosco começa quando o mais novo dos filhos vai se formar e após uma mistura de flerte com um belo pileque, os dois acabam na cama.

As fagulhas até então adormecidas despertam e um caso de “retorno dos que não foram” se instaura. O problema é que Jack é casado, e Jane se vê no papel de amante do ex marido.
Nancy Meyers é uma especialista no gênero tendo escrito Recruta Benjamin, Presente de Grego, O Pai da Noiva, Alguém Tem de Ceder (esse ultimo também dirigiu) e sabe os atalhos do gênero. Talvez por isso, soe exageradamente infantil a trama orquestrada pela diretora.


O filme não funciona para começar pela sua falha moral básica dos personagens: sejam eles coadjuvantes (as cenas envolvendo o grupo de amigas deleitando-se com a “vingancinha” de Jane, ou os três filhos agindo como bebes de colo ao descobrirem o caso são medíocres) ou principais. A personagem de Meryl parece não ter conseguido seguir sua vida por questão da separação, e o de Alec é um esteriotipo ambulante. Steve Martin que vive o arquiteto Adam, é o único que realmente parece ser tridimensional. Todos os demais sofrem de “síndrome de Peter Pan”. Jane, não cresceu emocionalmente e lida a dez anos com a separação. Jack, parecendo entediado com o novo casamento acha que tudo vai ficar bem, os filhos do casal são uma coleção de “filhinhos da mamãe” típicos do subúrbio americano, que ficam chocados a cada demonstração de afeto dos pais. Cresçam minha gente ! Superem seus problemas, pelo amor de deus !

Meyers por sua vez, além de escrever os personagens rasos, ainda tenta amenizar a óbvia inconsistência de seus personagens, incluindo a comedia (que confesso funciona) numa historia que de leve e simples não tem nada. É realmente “simplesmente complicado” entender como uma mulher pode se sujeitar a uma nova tentativa de algo que já sabe que não vai dar certo. Pode até funcionar para alguns mas para mim, soou artificial, fútil e imbecil.


Baldwin é um cômico impagável, mas um ator dramático limitado. O ator, “se achou”, seu nicho é a comédia, e seus tipos (seja por aqui ou na série 30 Rock) roubam sempre a cena. São hilárias as suas tentativas de aproximação de Jane. Streep, dentre suas duas atuações indicadas a prêmios, tem nessa a “menos boa”. Streep, sempre está no mínimo muito bem, e esse é o caso. Apesar da futilidade e do texto fraco, os dois atores estão bem, conseguindo sobressair no meio da canastrice do roteiro. Martin, apesar de ter o personagem mais interessante, a tempos não tem uma atuação digna de nota, e não será dessa vez que terá.

O filme não é ruim, como pode ter parecido por minha resenha. Só não deve ser levado a sério, é um típico passatempo que você vai esquecer assim que sair da sala.


A comédia romântica é um dos gêneros preferidos do público, e também dos estúdios. Entretanto, por existir uma larguíssima variedade de filmes do gênero, fica ás vezes complicado de se criar mais tramas, já que quase todas dão no mesmo resultado final, passando pelas mesmas situações. Talvez na Inglaterra, pelas mentes dos componentes da Working Title, o terreno seja mais fértil, mas nos EUA a situação nem sempre é a mesma . Nancy Meyers, roteirista e diretora (mais recentemente) é uma daquelas que trabalha recorrentemente com comédias românticas, e conhece melhor do que ninguém o gosto do público. Criou diversos filmes do gênero, e já está calejada de criar esses roteiros.



Por vezes, a diretora criou filmes batidos, sobre mulheres de meia-idade que voltam ao amor, casais que se encontram e desencontram. Entretanto, ás vezes vem uma boa idéia, como em Do que as Mulheres Gostam , que tem uma premissa interessante . Nesse ano, Meyers nos dá Simplesmente Complicado, que possui uma trama rasoavelmente diferenciada, nesse infinito mar de ''mais do mesmo''. Contudo, se na hora de conceber idéias Meyers tem até algum sucesso, na hora de desenvolve-las tudo se resume ao fracasso .




Fracasso crítico, já que o público se lambusa com os caminhos (ruins) que a criadora segue em sua obra. Principalmente mulheres de certa idade que já se separaram (o que não é muito difícil de se encontrar hoje em dia, obviamente). Afinal, qual dessas mulheres não ia gostar da nova história de Meyers? Uma mulher separada há tempos, Jane (Meryl Streep) , não consegue arrumar um namorado, e não faz sexo há muito tempo (e o roteiro adora enfatizar isso). Um dia, na formatura de um de seus filhos, ela reencontra seu ex, Jake (o patético assumido Alec Baldwin), então casado com uma mulher muito mais jovem. Depois de beber e dançar muito, os dois passam um noite juntos. A partir daí, começam a ter um caso. Porém, Jane vai ter que decidir entre Jake de novo, ou o arquiteto recém divorciado Adam, que passa a reparar em Jane.



A premissa é até interessante, e acredito que foi ela e algumas piadas bem elaboradas que renderam ao longa a indicação no Globo de Ouro de melhor roteiro original. Fora isso, não há muito do que se pegar do roteiro. Parece, por vezes -principalmente no final - que foi o próprio Sid Field que escreveu o script . Para quem já está acostumado com filmes do tipo, tudo já é facilmente captado, e o que vai acontecer a seguir não é novidade . As situações são as clássicas do gênero, e nisso, o filme carrega quase zero de originalidade.


A falta de sutileza também dá as caras . O respeito a inteligência do espectador não está ali, e tudo que aparece em tela tem que ser explicado - tanto com imagens como com palavras - ao extremo. Ora, mesmo antes de entrar na sala, já sabemos que Jane é uma mulher que se sente sozinha e que queria ter um companheiro. Mostrar isso em tela está correto. Mas Meyers pesa a mão e exagera. Quem assiste não precisa nem se inclinar sobre a situação para senti-la. Tudo vem já mastigado . Quando Jane está triste por sua solidão, aparece um casal muito feliz e entra no elevador com ela. Então a diretora corta pra dentro dele, e mostra as carícias do casal, e a cara de tristeza de Jane. É realmente necessário colocar isso deste modo ? Prova de que Meyers está muito longe de saber guiar um filme com inteligência necessária .



E se o roteiro estrutural desenrola reviravoltas e clichês óbvios, os diálogos mostram certa qualidade. As piadas são boas, e as atuações - principalmente de Streep e John Krasinski - conseguem colaborar para efetua-las com timing certo. Com boas tiradas, o filme até faz rir, apesar de não muito. De resto, os diálogos mostram a falta de habilidade de Meyers de introduzir informação sem parecer artificial . ''Afinal, são dez anos''- de divórcio- , diz a protagonista logo no início do filme. Não fosse a ótima atuação de Streep, a frase poderia se tornar mais artificial ainda. Não seria mais fácil fazer a coadjuvante da vez perguntar quanto tempo faziam de separados ?




É também explícita a falta de qualidade na direção de Nancy Meyers. Seu jeito sem sal de dirigir já é colocado a vista logo no primeiro frame dos créditos iniciais. Não há cuidado por parte da cineasta em fazer algo mais diferenciado, e coordena o set com desleixo digno de alguns diretores de telenovelas. Além disso, alguns de seus takes são tão mal escolhidos que atrapalham o trabalho de edição, que já seria ruim o suficiente por si só. Deste modo, ocorrem erros até de continuidade. De fato, Meyers não consegue passar o que quer dizer de forma satisfatória, e sua direção deixa muito a desejar.



As atuações demonstram um pouco de qualidade em Simplesmente Complicado. Destaque para a renomada Meryl Streep. Mesmo fazendo o papel de mulher - comum, de meia-idade, que parece ter saído de Sex and the City- o tipo de personagem que Meyers adora - Streep demonstra todo seu talento. Consegue engolir o roteiro ruim com uma atuação extremamente realista e crível . Steve Martin está ali no meio com qualidade habitual, mas com destaque para seu timing com humor físico. Já Alec Baldwin não podia estar em melhor personagem . Risível, faz o papel de si mesmo, e enfim consegue assumir seu jeito estúpido de ser. É mais fácil - pelo menos para o resenhista aqui - rir de Badwin do que o que ele faz. É nada mais do que uma piada ambulante.

Mas Simplesmente Complicado foi feito para o público, que quer apenas dar umas gargalhadas fáceis e aliviar a mente. Pensando assim, o filme até funciona. Consegue mesclar o humor com o drama sem descompassar, até. Mas para por aí . Se quiser se divertir, procure uma forma inteligente, como comédias mais bem elaboradas como as dos Coen . No caso desse filme, é melhor ver uma comédia romântica da Working Title . Ou assisitir o núcleo cômico de uma novela das 8 global. É tão ruim quanto, mas é mais barato, e economiza tempo.