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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Hitchcock


Hitchcock
(Hitchcock, 2012)
Drama - 98 min.

Direção: Sacha Gervasi
Roteiro: John J. McLaughlin

com: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Danny Huston, Toni Collette, Michael Stuhlbarg, Jessica Biel

Modéstia a parte, eu conheço um pouco da história de Alfred Hitchcock. Por questões profissionais e pessoais (afinal, adoro seu trabalho) consegui ver boa parte de suas obras - que são muitas - e ler a respeito de seu processo criativo e sua vida pessoal. Sobre o processo criativo, e suas trucagens nas filmagens, suas ideias originais de enquadramentos ou suas observações sobre a construção de roteiros intrigantes e que mesmo aparentemente complexos guardavam para o público, soluções simples e gostosas de serem compradas, o melhor mesmo é ler os livros que são encontrados em diversas livrarias mundo afora.

O cinema, no entanto, parece preferir futricar sobre a vida pessoal do diretor. Ano passado, além do citado aqui, "A Garota", produção televisiva estrelada por Toby Jones e Sienna Miller mostrou a obsessão de Hitch por Tippi Hedren com uma ligeira romanceada. Mas, de fato, Hitchcock foi cruel com a atriz, e muita coisa do que está ali na tela (incluindo os pedidos de favores sexuais) são confirmados pela própria Hedren em algumas entrevistas. O quanto disso é a verdade dos fatos, nunca saberemos.

Hitchcock, no entanto é mais sutil nos problemas pessoais do diretor. Seria uma versão oficial de sua vida, caso esse estivesse vivo e pudesse opinar no roteiro. Apesar de ser vendido como "os bastidores de Psicose", muito pouco sobre o filme em si e suas gravações é mostrado. A produção de Sacha Gervasi, prefere se ater às questões de pré-produção, como encontrar o roteiro, os atores, driblar a censura e principalmente no papel fundamental da esposa de Hitchcock, Alma em toda a carreira do diretor.


Nisso, o filme acerta com exatidão matemática. Alma era a pedra da Rosetta de Hitchcock. A real decodificadora de sucessos e fracassos que mantinha a carreira do diretor nos eixos. Ela era quem lia os livros e os aprovava, ou dava as dicas em relação a novas ou novos atores para produções posteriores do diretor. A interpretação de Helen Mirren é segura, fazendo de Alma, uma mulher forte e decidida que mesmo amando - ao seu jeito - Hitch, sente-se isolada mediante as frustrações profundas de seu marido.

Anthony Hopkins por sua vez constrói Hitchcock da maneira mais conhecida por suas biografias e fofocas: um sujeito metódico, ciumento, profundamente talentoso e genial, mas cheio de uma infinidade de problemas emocionais que vão desde o ódio por seu corpo obeso (e sua obsessão por comida é um reflexo de seus problemas emocionais), a frustração com o seu estereótipo de "loira gelada" (sua musa inatingível) e seus muitos problemas com sua sexualidade.

A estrutura do filme é charmosa e irônica a principio já que apresenta o próprio Hitch/Hopkins diante da câmera e apresentando ao público a história a ser mostrada. Uma óbvia referencia ao período onde o filme se encaixa (os meses que tomaram conta da criação de Psicose), quando o diretor tinha sua muito bem sucedida série de TV, onde contava semanalmente um novo caso de suspense na telas americanas.


O filme então apresenta uma curiosa relação entre o famoso serial killer Ed Gein, que deu origem ao livro Psicose e também inspirou Silêncio dos Inocentes, e o próprio Hitchcock, numa tentativa de mostrar ao público como funcionava o processo do diretor e como ele se relacionava com seus vilões. Isso é outra referência à vida real do diretor, que era famoso por sua falta de confiança nas autoridades e medo profundo da polícia.

Hitchcock tenta ser um retrato de várias personas do biografado: o gênio das câmeras, o marido complicado, o homem cheio de traumas e não consegue ser profundo em nenhum deles. O gênio das câmeras mal é mostrado e sua relação com seus atores é vista de passagem, em uma curta cena onde entrevista Anthony Perkins/James D'Arcy (que está muito parecido com o ator, chegando a assustar) e na relação de amizade entre ele e a estrela Janet Leigh/Scarlett Johansson (fora do tom, apesar de ter acertado na composição do timbre e do sotaque da atriz interpretada). Mesmo nas passagens que envolvem o comitê da censura americana, o que se vê é muito pouco.

Já o homem cheio de traumas é visto aqui e ali, nos exemplos que já citei, e principalmente quando a mosquinha do ciúme o incomoda. Mas me parece uma visão muito reverente, muito cheia de dedos, com um profundo receio de incomodar, de ir além dos lugares comuns.


O único elemento que ganha alguma força é sua relação com sua mulher, que é de fato, a verdadeira protagonista do filme. Helen Mirren rouba cada uma das cenas, mesmo quando não deveria, o que enfraquece a composição de Hopkins para o personagem. Suas cenas com Danny Huston por exemplo são um frescor bem vindo em uma produção que tem dificuldade em encontrar a forma correta de abordar a difícil relação matrimonial de Hitch e Alma. O amor se existe ali, é quase fraternal e a relação dos dois é muito mais simbiótica do que amorosa. Existe uma necessidade quase fisiológica da presença de ambos um na vida do outro e Mirren consegue demonstrar isso com muita clareza. Mesmo tendo suas reservas quanto ao comportamento do marido, eles precisam estar juntos para existirem. Chega a ser triste e melancólico.

Mas, Gervasi erra muito a mão no balanço desses aspectos todos. Mesmo que a relação Hitch/Alma seja o centro do filme, ele é prejudicado por todo o resto que simplesmente não dá liga. E mesmo Anthony Hopkins é prejudicado por uma maquiagem que é - na melhor das hipóteses - medianas. A composição feita para a TV de Toby Jones - em "A Garota" -  é mais próxima do verdadeiro Hitchcock do que essa maquiagem (que absurdamente ganhou uma indicação ao Oscar desse ano).

As cenas de Hitch e Janet Leigh são tediosas, e Johansson não acerta nunca. E as poucas cenas de produção são tratadas de passagem e logo esquecidas. O trauma verídico com o fato de o filme mostrar pela primeira vez no cinema americano alguém usando um vaso sanitário (sim, isso é verdade), sua relação com Vera Miles (Jessica Biel) ou mesmo a questão das filmagens da famosa cena do chuveiro são mal aproveitadas numa montagem que quer criar humor em uma historia que grita por um ritmo mais lento e pausado.


São defeitos que estragam a experiência de assistir a uma ideia de biografia, que como está na moda, não mostra o homenageado do nascer ao morrer, mas a partir de um fato cria um panorama sobre sua vida. Hitchcock é uma experiência vazia como as valises, caixas ou pastas recheadas de "McGuffins", apesar do esforço do esforço de Helen Mirren e da presença classuda de Anthony Hopkins.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conspiração Americana


Conspiração Americana
(The Conspirator, 2010)
Drama - 122 min.

Direção: Robert Redford
Roteiro: James D. Solomon

Com: James McAvoy, Robin Wright, Kevin Kline, Tom Wilkinson, Evan Rachel Wood, Justin Long, Danny Huston


Robert Redford é um dos mais politizados personagens do cinema americano. Se em sua carreira a frente das câmeras não foi sempre que o ator envolveu-se em filmes políticos, fora dela - sempre que pode - o também diretor e idealizador do mais importante festival de cinema (fora da Europa) do mundo, gosta de apresentar suas posições políticas, embora não seja da turma de Sean Penn, que acha que tudo no mundo é difícil e cinzento.

Em Conspiração Americana, Redford aponta seu gatilho para o assassinato do presidente norte americano Abraham Lincoln, fazendo do julgamento de Mary Suratt (Robin Wright) o estopim para falar sobre o idealista fundador do jornal Washington Post, Frederick Aitken (interpretado por James McAvoy) que na época acabara de voltar da Guerra Civil americana e foi designado como advogado de Mary.

Mary - mãe de John Suratt, e que também foi julgado posteriormente pelo mesmo crime - foi acusada de conspiração junto a outros homens para assassinar o presidente americano e Aitken mesmo indignado assume o caso como manda o ofício que escolheu, afinal segundo a lei, todos merecem o direito a defesa, por mais culpados que pareçam ou mais grave seja o delito impingido ao acusado. O filme, e isso é o mais interessante, não tenta provar ao espectador que Mary é inocente, pelo contrário. A produção de Redford serve fartamente o espectador com indícios de que - se Mary não era diretamente cúmplice do atentado - certamente deveria saber em que seu filho estava metido.


O que Conspiração Americana quer apresentar é a noção de que mesmo diante de um ato horrível, a justiça não deve ser dobrada para que a verdade sobressaia. Em suma, o filme levanta a bandeira de que os fins não podem justificar os meios. Não é importante provar os fatos apresentados, mas dizer que não podemos nos rebaixar ao revanchismo ou a vingança, já que o precedente pode - mais tarde - nos custar caro.

Se hoje, impedimos um advogado de ter detalhes sobre o caso de um perigoso terrorista, por exemplo, quem garante que quando alguém incomodar o sistema (por assim dizer) o mesmo não possa acontecer? Claro, que essa interpretação pode ser exagerada e dramática, mas o cerne da questão é importante. A liberdade e a justiça devem sempre ser protegidas mesmo diante dos piores momentos de uma sociedade.

Por isso, que talvez o filme peque tanto em alguns elementos tradicionais do chamado "filme de tribunal", como o fato do advogado facilmente encontrar respostas para sustentar a defesa que faz de Mary, como uma declaração de um médico que diz que sua cliente tem problemas de visão e que por isso talvez não pudesse ter reconhecido determinado suspeito, ou que o personagem não se hospedava no hotel da personagem com seu nome verdadeiro, ou papéis que incriminariam uma outra testemunha entre outros.


Esse aparente descaso é apenas para mostrar que mesmo com as muitas dificuldades impingidas pelo governo (na figura de Edwin Stanton, secretário de Guerra, vivido com vigor e seriedade por Kevin Kline) Aitken é suficientemente capaz de ao menos colocar em dúvidas as verdades absolutas ditas pelo governo contra a acusada. Mas, isso enfraquece o fator de entretenimento da obra, tornando-a mais filosófica e analítica do que cinematográfica.

O elenco de apoio é formado por diversas estrelas e talentosos atores, como Tom Wilkinson que vive o senador que abraça a causa de Mary a primeira vista, e que entrega a Aitken quando percebe que sua figura jamais poderia ser respeitada no tribunal, além do já citado Kevin Kline, que faz o mais próximo de um vilão que o filme tem (além é claro dos assassinos de Lincoln) e do sempre competente Danny Huston como o promotor do caso.

Mas são nos ombros de Robin Wright e de James McAvoy que o filme se concentra. Mary é fria e resignada, apoiada em sua fé, como uma mulher dedicada completamente a seus filhos e capaz de tudo para mantê-los a salvo, mesmo que para isso arrisque sua própria vida. McAvoy faz de Aitken um idealista , mesmo quando não pretende defender Mary. Seus ideais de verdade e justiça são mais fortes do que seus pré-conceitos quanto a sua cliente. Ambos estão bem, apesar de não se destacarem particularmente, principalmente porque o componente humano serve a causa, e não o contrário.


A mensagem é mais importante do que a própria historia e isso sacrifica alguns aspectos dos personagens, como a relação de Mary e a guerra civil (no que ela acreditava, o que sentiu ao seu final) ou de Aitken e sua namorada/noiva/esposa, que simplesmente é ignorada após o segundo ato.

Redford curiosamente interpretou um personagem (dos mais importantes de sua carreira) muito ligado a historia do jornal fundado por Aitken. Em Todos os Homens do Presidente, ele viveu Bob Woodward, um dos jornalistas que denunciaram o Watergate e que culminou na renuncia do então presidente americano Richard Nixon, e em Conspiração Americana parece ainda defender os mesmos valores que seu personagem defendia em meados dos anos 70: a vitória mesmo que justa só pode acontecer se seguirmos os padrões morais e a justiça, por mais injusta que ela pareça. Pena que esse discurso fique lindo no papel, mas na tela seja enfadonho.



domingo, 23 de maio de 2010

Robin Hood
(Robin Hood, 2010)
Ação/Drama - 140 min.

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Brian Helgeland

Com: Russell Crowe, Cate Blanchett, Max Von Sidow, William Hurt, Danny Huston, Mark Strong

Robin Hood é um herói conhecido e bem clássico, em todos os sentidos. Ele tem todos os grandes atributos que um grande herói deve ter: é durão, corajoso, não tem medo de dizer o que pensa e é ainda um grande líder, um verdadeiro exemplo.

Logo, era uma questão de tempo para esse clássico ícone do folclore inglês fosse adaptado á era da Hollywood de grandes orçamentos. Adaptada 12 vezes para o cinema, a história já foi de filmes mudos da década de 20 e um longa malaio até uma paródia de Mel Brooks, passando pela adaptação com Kevin Costner em 1991. O exemplar com Costner é um frequentador da Sessão da Tarde, com seus atos heróicos, trilha metida a épica e um roteiro pouco atraente, mas entupido de diversão trash. Agora, o inglês chega ás telas pelas mãos de outro inglês, Ridley Scott.

O conceituado diretor começou a carreira com primores como Alien e Blade Runner, mas amoleceu com o tempo e agora alterna filmes ambiciosos mas com roteiros fracos como Cruzada e filmes menores e com qualidade satisfatória, como O Gângster. Após os primeiros trailer e as fotos, o novo Robin Hood empolgava. Russell Crowe parecia perfeito no papel e o elenco coadjuvante ia da competente Cate Blanchett até o legendário Max Van Sydow. Fora a impressão de que Scott queria algo novo e inovador, violento e sombrio. E agora Robin Hood chega ás telas.


A trama, julga a maioria do público, é conhecida. Robin é um ladrão que ajuda o povo de Nottingham roubando dos ricos e dando aos pobres. E é aí que a produção de Ridley Scott merece já ser vista: Não é essa a trama. A do filme conta a jornada de Robin Hood, um cavaleiro de Ricardo Coração de Leão (Danny Huston, sub-aproveitado), Rei da Inglaterra, que está nas batalhas pelo seu país quando é preso junto com 3 arqueiros após insultar uma ordem do rei. Logo, quando o rei é morto, Robin e os arqueiros fogem e levam a coroa até o ambicioso John (Oscar Isaac), que será proclamado o novo rei. Depois, Robin vai para Nottingham e conhece Lady Marion (Cate Blanchett) e Sir Walter Loxley (Max Von Sydow). Este último pede para que Robin se finja de seu filho para comandar a cidade, agora que ela está feliz com a volta do "filho pródigo". Mas quando Sir Godfrey (Mark Strong, excelente) começa a saquear várias cidades ao mando do rei, Robin tem que proteger Nottingham.

A trama não é fraca nem arquetípica. Ela poderia até criar uma excelente história de origem, que mostrasse um lado diferente de Robin Hood e, com o filme nas mãos de Scott, teríamos algo sujo, violento e, principalmente, inovador. Mas, com o roteirista Brian Helgeland, o buraco sempre é mais embaixo. Ele, responsável por trabalhos irregulares como Zona Verde, O Sequestro do Metro e Chamas da Vingança, faz desse potente candidato a clássico num típico e comum blockbuster hollywoodiano. Algumas frases de efeito e alívios cômicos não precisam participar do mix de Robin Hood. Se a proposta original (a linda forma com que o trailer foi montado) era reinventar o herói de forma artística, ela foi perdida. Temos aqui apenas um Begins, um reboot comum, como Sherlock Holmes  (apesar do filme do detetive inglês ainda ser melhor, pecando apenas por problemas triviais).


É a tal fórmula atual de recriar filmes com ação cativante recheadas com humor. Helgeland até constrói personagens com destreza e tem calma em desenvolver(note como ele cria um roteiro inteiro antes de mostrar o Robin que conhecemos), mas peca por criar situações comuns e diálogos completamente deslocados, tentando dar um tom épico em horas que simplesmente não precisava.

Outro exemplo é a suspensão de crença. De milhões de hectares na Inglaterra inteira, Robin foi parar justo onde o cavalo do rei passava na hora com a Coroa. E o pior: o único guerreiro vivo de uma emboscada é o homem que motiva Robin a encontrar seu passado, salvar Nottingham e tudo mais. Resumo: O filme inteiro é motivado por uma simples coincidência!

Estranho pensar que no início, quando Ricardo é morto, a flecha disparada seja por um mero zé-ninguém. Aqui, o fora do comum prevaleceu, mostrando um ponto forte do roteiro. Porém, no final Robin precisa lutar com todo mundo, até mesmo contra o vilão principal, tomando a responsabilidade de tudo. Talvez o roteiro tenha tentado fazer de Robin Hood um ser maior, tendo que o colocar em todos os grandes acontecimentos. Exagero.


Uma falha enorme. Mas o roteiro tem seus trunfos. Cria personagens legais, situações aceitáveis, se avaliadas de forma descompromissada e um filme divertido, com 140 minutos que passam sem incomodar. Pra quem exige pouco, o filme pode servir bastante. Para o público ávido por blockbusters, o filme será um espetáculo. Para quem esperava algo verdadeiramente artístico de Ridley Scott, fica pra próxima.

É interessante notar que Scott poderia ter feito algo pra melhorar isso. Ele poderia simplesmente pegar a trama e pedir pra refazerem o roteiro, com o intuito de deixá-lo mais interessante e estimulante mentalmente. Mas o comodismo que tornou parte de sua persona desde A Lenda aflorou aqui. Definitivamente, as bolas do diretor ficaram com aquele unicórnio de papel na mão de Harrison Ford no longíquo 1982.

Apesar de ter amolecido como narrador, Ridley Scott continua um diretor competente. Poderia ser gênio, mas ficou preguiçoso. Filma batalhas com arrojo e com uma câmera panorâmica que faz parecer que um Michael Bay da vida nem merecia ter uma cadeira no set. Nas cenas dramáticas, sem movimentos bruscos, a direção fica acima da média, ajudando a fluência das cenas. Interessante notar também como Scott não se deixa levar pela máxima atual de colocar efeitos especiais em excesso na tela. Aqui, o legal é ver que cada fotograma do filme é uma beleza e os cenários, riquíssimos.


Um verdadeiro deleite visual, com imagens bonitas a cada frame. Um filme visualmente perfeito. Ajuda também a paisagem matadora que contempla os olhos. Um grande exemplo do perfeito equilíbrio da direção de Scott com o cenário é a batalha final, pontuada com uma sequência curtíssima, porém impactante do filme: Robin, disparando sua flecha em slow-motion, de vários ângulos. Um primor. A fotografia de John Mathieson também auxilia a construir fotogramas extremamente lindos e registrando as batalhas (e os cenários) com a mesma grandiosidade. A trilha de Marc Streitenfeld é épica, mas não cai no lugar comum de um James Horner, por exemplo. Bonita e vale a pena.

As atuações também são boas. Russell Crowe faz um bom trabalho, apesar de ter mais talento que isso. Cate Blanchett faz seu padrão, o que é ótimo, mas não se sobressai mais por ter um personagem tão raso. Max von Sydow prova ser um leão da atuação, fazendo um papel poderoso e William Hurt faz pouco com seu pouco espaço de tela. Já Mark Strong é um ator extremamente competente e é profílico, podendo ter feições diferentes a cada momento. Uma atuação hipnotizante e camaleônica, de forma que não é possível saber quais as ambições de Godfrey pela aura fechada que Strong cria.

Num panorama geral, Robin Hood é um bom divertimento semanal e vale o ingresso, ainda mais pra quem gosta dos filmes de sandálias e espadas. Apesar da constante semelhança com outros exemplares do gênero, como Gladiador (até incomoda a semelhança de algumas cenas), o filme pode se sair interessante pra quem procura um novo herói antigo nas telas, recriado com os clichês atuais. Mas, ainda serve pelo visual dos fotogramas perfeitos que Scott filmou.


Fica agora a torcida por Ridley Scott. Que ele vá até sua sala, pegue um exemplar de Blade Runner e o assista e analise cada momento de sua preciosidade oitentista. E, principalmente, que ele se lembre que já foi um cineasta ousado, que ia contra as fórmulas de maneira inconsequente, arriscando tudo.

Era legal na época em que a ficção-científica se tornava um gênero infantil e completamente familiar (Star Wars e E.T virando bilheterias enormes) e Ridley nos apresentava uma filosófica ficção com influências Noir que era inteligentíssima e com roteiro impecável. E olha que ele tinha inovado 5 anos antes também, com Alien. Onde foi parar esse cara? Definitivamente, o Ridley Scott visionário, que ia contra as fórmulas, sucumbiu a elas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Fim da Escuridão
(Edge of Darkness, 2010)
Thriller - 117 min.

Direção: Martin Campbell
Roteiro: William Monahan e Andrew Bovell

Com: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston

Mel Gibson de volta a tela grande. De volta “a frente” das câmeras, já que Gibson vem se dedicando a direção a pelo menos uma década. Por ter tirado o astro da aposentadoria, O Fim da Escuridão já valeria uma espiada. Martin Campbell (o mesmo de GoldenEye e Cassino Royale, ambos filmes de James Bond) dirige a produção que poderia muito bem ter como subtítulo “Quando a Idade Chega”. Pois, por meio da historia policialesca, Campbell conta como o policial Thomas Craven (um homem envelhecido pela profissão e pela vida) tem de reaproximar-se da filha que é assassinada na sua frente.

Se fosse um filme de arte, talvez O Fim da Escuridão fosse muito mais profundo e interessado em discutir como aquele homem que nunca foi próximo de sua filha, fará agora, que ela morreu para de uma forma ou de outra sentir-se próximo a ela.
Campbell opta pela jornada de um homem só (no melhor estilo Charles Bronson em Dificil de Matar) interessado em descobrir os assassinos de sua filha. Vale lembrar que o filme é baseado numa mini-serie britânica (que eu não vi) de 1985, dirigida pelo próprio Campbell.


Durante o percurso o personagem de Gibson (como em 11 entre 10 produções do gênero) descobre que os problemas são mais densos do que imaginava, de que existe algo conspiratório na situação, entre outros elementos básicos de uma produção policial.
Gibson lembra bastante seu personagem em O Troco e isso não é um elogio. Se naquele filme funcionava razoavelmente bem devido ao contexto (homem desesperado por vingança após ser preso), nesse pareceu forçado. Não consegui acreditar em Gibson pai, mesmo nas imagens em que o personagem escuta vozes da filha ou a enxerga pequena. Essas cenas deveriam funcionar como apelo emocional, não funcionam. Parece que Campbell teve de encaixá-las depois, o que quebra o ritmo do filme.

Mas mesmo sem os pequenos interlúdios, Fim da Escuridão, não passa de um policial genérico. Nem mesmo Gibson e seu carisma, conseguem elevar a qualidade do filme. Campbell conduz cenas de ação genéricas (incluindo um atropelamento extremamente clichê, usado desde Premonição até a série LOST). A trama é enrolada, e assim como o personagem de Gibson sente, precisamos de seguidos explicações. E tome personagem dizendo, e vem outro e repete, e logo depois aparece um terceiro que acrescenta algo. E no fim você nem lembra do que foi dito, tal nível limitado e quase estúpido do que propõe Campbell.


Garanto que quando tudo fica claro, o espectador um pouquinho mais exigente dirá: “Mas tanta enrolação pra isso?”.

Pois é. Fim da Escuridão completa o quadro medíocre criando o pior vilão de filme de ação do ano. Medonho de tão mal escrito, o personagem conta com frases de efeito “nível z” e exageros muito evidentes. Num determinado momento o pobre ator (que é bom e não vou contar para não estragar “a surpresa”) olha para o personagem de Gibson dias após a perda da filha, apresenta a cara mais “bandido malvado que mata criançinha” e diz: “Qual a sensação?”. Prestem atenção nessa aula de como não criar um vilão. É quase um serviço de utilidade pública.

E porque Fim da Escuridão não tem a pior nota do blog, já que você xingou o filme em cada linha que pode?

Ora leitor, por dois motivos bem simples.


Primeiro: Fim da Escuridão não quer ser mais nada do que uma diversão mediana. Nada mais do que isso, e por esse motivo seria leviano de minha parte querer classificá-lo da mesma forma que fiz com REC 2, por exemplo. Sem me estender, REC 2 era a sequencia de um filme fabuloso, extremamente criativo na forma de contar a historia e que funcionou muito bem. Logo, o padrão para a avaliação da sequencia também cresceu. Fim da Escuridão, por sua vez, não é sequencia de nada, mas foi vendido como o ”comeback” de Gibson, o que gerou alguma expectativa. Porém, tudo o que foi divulgado antes prenunciava o mais do mesmo. Mais um filme genérico policial, que se fosse estrelado por Wesley Snipes ou Lorenzo Lamas (ele ainda faz filme?) iria direto para as locadoras (ainda existe isso?). Por isso, apesar de achar o filme “bem mais ou menos” ele não recebe uma nota tão ruim. Expectativas medianas para um filme de igual calibre.

O outro motivo refere-se diretamente a algo que percebi no filme. Ray Winstone. Seu personagem, o misterioso Jedburgh, é a única coisa interessante do filme. Lembra um pouco os “heróis” de filmes policiais europeus, ou de filmes independentes. Jedburgh é aquele camarada que nunca define pra que lado vai, e cada cena sua é tensa. Será que ele vai sacar a arma e acertar um balaço no meio da testa de Gibson? Será que ele quer no fundo ajudar o cara? Se quer, porque? As motivações apesar de bem simplistas até seguram um pouco o fiozinho que o plot narrativo do filme. E muito do mérito tem de ir para Winstone, que mistura a pinta de malvado de Os Infiltrados com o ar blasé que compôs seu personagem em Everything (filme inglês de baixo orçamento, em que vive um homem em crise que procura a amizade de uma garota de programa).

Mais são dois pontos menores, que apenas impedem que O Fim da Escuridão seja um fracasso completo. Gibson merecia um retorno melhor.