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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Kick-Ass 2



Kick-Ass 2
(Kick-Ass 2, 2013)
Ação/Comédia - 103 min.

Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Jeff Wadlow

com: Aaron Taylor-Johnson, Chloe Grace Moretz, Jim Carrey, Christopher Mintz-Plasse

O primeiro Kick-Ass era um caso raro em que a adaptação era infinitamente superior ao material original. Enquanto Mark Millar não gostava (e parece continuar não gostando) de seus personagens humilhando-os constantemente e aguardando que o público conseguisse sentir alguma coisa além de dó de seu protagonista, o filme de Matthew Vaughn era descolado, divertido e não se levava a sério, ao mesmo tempo em que era levemente critico. Mas basicamente existia um carinho pelos personagens que na obra original inexistia.

Apesar de não se tornar um sucesso estrondoso de bilheteria, o filme conseguiu muitos fãs entre os que leram e os que não leram os quadrinhos originais, fazendo do filme um cult. Com essa aura sobre o original, uma continuação era mais do que prevista. Mais dai começaram os problemas. Diferente do original onde havia uma obra pregressa que - mesmo sendo ruim - dava bases e criava os personagens para essa adaptação, nesse a produção teria de sair do zero. Mark Millar pensando na "arte" topou escrever uma sequência, que honestamente não faria muito sentido, já que o tom e o final da mesma é completamente diferente do filme. Para piorar, Matthew Vaughn abdicou de dirigir a sequência atuando apenas como produtor, deixando o cargo para o inexperiente Jeff Wadlow. Some-se a tudo isso, um coadjuvante que as vésperas do filme ser lançado decide não participar da divulgação do mesmo por considerá-lo "violento demais".

Cheirava mal, não? E de fato, se não é uma porcaria é sim uma tremenda decepção. Mais preocupado em - sério - dar estofo emocional aos personagens e pensar em traumas a serem reproduzidos, do que em divertir o público com sequências de ação non-sense, personagens carismáticos e bom humor que tinha muito de besteirol, o filme fracassa por não ter condições de ser aquilo que imagina ser.


Kick-Ass (o personagem) não é tão cool como o Homem-Aranha. Hit-Girl por mais que seu pai tenha morrido de forma brutal no filme anterior, não é o Batman e principalmente, Red Mist (que muda de identidade e é chamado de Motherfucker) não é um grande vilão, portanto querer produzir um filme com base em curva de amadurecimento desses personagens é perder o foco do porque o primeiro filme funcionou tão bem.

Em substituição aos nerdismos, piadas e non-sense entra uma dose cavalar de humor grosseiro e violência que não diverte, apenas nos leva a bocejos eventuais. A trama em que Kick-Ass se reúne a uma espécie de "Liga da Justiça" genérica não só não funciona como deixa de valorizar os próprios personagens. São uma dezena de novos heróis que - segundo o roteiro - foram inspirados por Kick-Ass e Hit-Girl. Enquanto isso, Mindy/Hit Girl chega à adolescência e passa por um "coming of age" dos mais desnecessários, tendo de ser manter fiel a uma promessa feita ao pai e deixar de usar a roupa de Hit Girl. Os constantes sermões do pai adotivo da garota de que "ele não quer essa vida para ela" e "que ela não é a Hit Girl" são tão reciclados de tantas outras produções que não causam a menor comoção no espectador. Mesmo porque, percebemos que a competência policial nesse filme é das mais baixas registradas recentemente o que reforça a ideia de que aquela garota podia perceber que ela deveria abdicar de uma promessa absolutamente idiota e sem sentido (afinal, a garota foi treinada como uma assassina mortal, mas não pode deixar de obedecer ao tal policial, o que a transforma numa espécie de animal feroz enjaulado).

Jim Carrey tem até certa razão em reclamar da violência de Kick-Ass 2. Não porque ela seja tão mais exagerada do que a do primeiro filme, mas porque ela é tão gratuita e mal colocada que não consegue transformar o conceito escapista em "sério" e sabota a diversão vista no filme original. Diferente do primeiro Kick-Ass esse não é de fato, um filme "divertido". É sisudo, mal encarado e com personagens que apelam para a violência simplesmente por apelar. Se no primeiro filme ela era cartunesca (afinal voar de jet pack ao som de "Aleluia" e atirar no vilão com uma bazuca são de fato bem próximos da realidade), aqui ela é suja e não combina com o cerne daqueles personagens. É como imaginar o Coyote do Papa-Léguas usando um AK-47 para perseguir sua presa.


Carrey no entanto, apesar de criticar o filme, faz do Coronel Stars and Stripes um personagem divertido, o mesmo valendo para a coleção de figuras excêntricas que fazem parte da Liga. Já Mintz-Plasse se era ingênuo e divertido no primeiro filme, aqui é simplesmente chato. Motherfocker não tem carisma algum e quando tenta parecer um daqueles vilões engraçados e que sempre se dão mal no final erra no tom e parece aborrecido. O mesmo vale para seus comparsas que entram e saem do filme sem nem lembrarmos o que fazem à exceção de Mother Russia, uma halterofilista violenta e cruel que parece a hipotética filha anabolizada (mais) de Ivan Drago e Sagat do Street Fighter. Visualmente impactante, mas narrativamente apenas um adorno estranho.

Hit-Girl segue sendo a alma e coração do filme e Chloe Moretz provando o quanto vai melhorando a cada ano. Madura e conseguindo alguma resma de profundidade em um roteiro exagerado é a que melhor se sai, enquanto Aaron Johnson parece perdido como seu personagem, sem saber se abraça o Kick-Ass "malvado" desse segundo filme ou se ainda guarda algum resquício de Dave Lizewski, da primeira produção.

As sequências de ação são praticamente esquecíveis e algumas até mal realizadas, como a que envolve Hit Girl no alto de vans. A batalha final recheada de gente parece mal fotografada, nunca conseguindo dar o escopo que o filme gostaria de emular. Decepcionante e provavelmente sepultando chances de uma terceira produção, Kick-Ass 2 é um rascunho mal feito da diversão escapista e non-sense do filme original, com muito mais barulho, violência gratuita e personagens enfadonhos e que parecem ter se esquecido do que eram.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sombras da Noite


Sombras da Noite
(Dark Shadows, 2012)
Comédia/Fantasia - 113 min.

Direção: Tim Burton
Roteiro: Seth Grahame-Smith

Com: Johnny Depp, Eva Green, Helena Bonham Carter, Chloe Grace-Moretz, Jackie Earle Haley, Jonny Lee Miller

Tim Burton precisa urgentemente de uma reciclagem. Parece claro para quem acompanha a carreira do diretor de grandes trabalhos como Ed Wood e Edward Mãos de Tesoura que Burton esta vagando no limbo há alguns anos. Parece profundamente perdido entre seus mundos fantásticos, bonitos de se ver, mas cada vez mais vazios e absurdos.

Em Sombras da Noite, Burton concebe mais um mundo exagerado. Baseado na novela - sim, novela - americana de mesmo nome, o filme conta a historia do retorno ao convívio humano do vampiro Barnabas Collins (Johnny Depp), que fora amaldiçoado por uma bruxa ciumenta quando rejeitou o seu amor. Uma vez amaldiçoado com o vampirismo, foi caçado pelos habitantes locais e enterrado onde permaneceu inerte por mais de um século.

Quando o filme começa, somos apresentados à nova geração da família Collins, que outrora - e isso é explicado no bom prólogo do filme - havia construído e mantido a cidade de Collinsport (não por acaso batizada com o nome da família). A matriarca é a bela Elizabeth (Michelle Pfeiffer), viúva e que tem na excêntrica e profundamente antenada no que de mais pop acontece Carolyn (Chloe Grace-Moretz) sua única filha. Na casa ainda moram o irmão "vagabundo" Roger (Jonny Lee Miller) e seu filho, o assustado (e avatar do pequeno Burton imagino) David (Gulliver McGrath), a doutora alcoólatra vivida por Helena Bonham Carter, o caseiro-empregado-criado-pau para toda a obra Willie (Jackie Earle Haley) e uma senhora quase cega e surda, a Sra. Johnson.


A apresentação de todos esses personagens, que ainda incluem a misteriosa Angelique (Eva Green) e a desnecessária Victoria (Bella Heathcote), é divertida e recheada de uma trilha sonora excelente, direção de arte impecável e diálogos engraçados. Parecia que Burton finalmente tinha acertado.

Porém, Burton escorrega no que parece ser seu calcanhar de Aquiles: o desenvolvimento da historia e dos personagens. Se Barnabas, apesar dos irritantes tiques de Depp (a saber: sua mania de enrolar as palavras como o capitão Jack Sparrow, o olhar perdido como Willy Wonka e Sweeney Todd e seu olhar de cima para baixo quando quer passar a impressão de que se assustou com alguma coisa, assim como... todos os seus tipos criados com Burton) é bem resolvido e entendemos que a graça do filme será acompanhar um vampiro profundamente apaixonado por seu legado e seu nome familiar se habituando as modernidades do século XX, os demais personagens são rascunhados e sem nenhuma profundidade.

Angelique é a megera apaixonada, a doutora uma alcoólatra ranzinza, Roger é tão mal resolvido que na metade da projeção Burton não tem pudor em tirá-lo do filme sem maiores traumas, a menina interpretada por Moretz apesar de divertida é um pequeno estereótipo de uma época, o garotinho que deveria servir como ligação emocional com Barnabas tem pouco tempo de cena e Victoria, que tinha tudo para ser a personagem redentora e fundamental para a trama, é quase que completamente esquecida no pavoroso ato final, que tira explicações e ideias da cartola do Gato Félix para resolver alguns pontos de conflito.


Sem revelar o desfecho da trama, basta ao leitor saber que o humor non-sense permeia o filme, e que no final tudo se resolve em uma gigantesca batalha, que vai revelar a verdadeira natureza de um dos personagens, sem que, no entanto nenhuma referencia tenha surgido para corroborar essa mudança.

Apesar de um elenco que se esforça para se divertir com aquilo é difícil fugir do óbvio: Tim Burton precisa de um novo fôlego. Precisa parar de se auto-parodiar, de tentar reciclar ideias dos outros (no novo século, a exceção de Peixe Grande e Noiva Cadáver, todos os seus filmes são adaptações, remakes de obras conceituadas ou re-imaginações de universos: Planeta dos Macacos em 2001, Fantástica Fábrica de Chocolates em 2005, Sweeney Todd em 2007 e Alice no País das Maravilhas em 2010). Foi-se o tempo em que a indicação de Tim Burton ao lado de um roteiro sobre mundos fantásticos era sinônimo de diversão e bom trabalho.

Sombras da Noite é datado, mal construído, com personagens demais e mais um trabalho do diretor lindo de se ver e vazio como um poço sem fundo.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret


A Invenção de Hugo Cabret
(Hugo, 2011)
Aventura/Drama - 126 min.


Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan


Com: Asa Butterfield, Chloe Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Christopher Lee, Emily Mortimer, Michael Stuhlbarg, Helen McCroy e Jude Law


Muito antes de se tornar cineasta, Martin Scorsese sempre foi um cinéfilo inveterado. Pode parecer o caminho natural das coisas - um apaixonado por cinema seguir a carreira de diretor - mas a verdade é que existe muita gente por trás das câmeras que não conhece de fato a história do cinema. Scorsese sempre foi um devoto da Sétima Arte, e possui cultura cinéfila suficiente para esbanjar em seus diversos filmes . Não a toa é o cineasta das referências, que tem ciência do percurso da arte ao longo dos anos, além de contribuir fazendo parte dela como um dos expoentes mais talentosos da cinematografia norte-americana de todos os tempos.

Considerado por muitos o melhor cineasta vivo, sem dúvida não havia opção mais sábia para a direção d'A Invenção de Hugo Cabret do que o talentosíssimo nova-iorquino nascido no Queens. Mais do que traquejo no manuseio das câmeras, o filme baseado no livro homônimo de Brian Selznick precisava de alguém que verdadeiramente respirasse cinema para coordená-lo. Sem conhecer a obra original , confesso que assim que Scorsese comprou os direitos de adaptação do livro para o cinema, pairou sobre mim e outros colegas uma grande nuvem de desconfiança. Afinal , por mais aficionado que um sujeito seja por sua arte, há naturalmente limites para trafegar sobre gêneros - e se existe alguém com gênero bastante definido em sua carreira, esse alguém é Martin Scorsese.

Mean Streets, Taxi Driver, Touro Indomável, Bons Companheiros, Gangues de Nova York e Os Infiltrados são exemplos fortes da nada leve lista de filmes que compuseram a respeitosa carreira de Scorsese. A brutalidade se tornou inerente as suas composições nas telas, muito porque Scorsese a vivenciou durante seu crescimento na violenta região conhecida como Little Italy. Como um diretor tão brutal e ''censura R'' poderia aceitar dirigir um longa teoricamente infantil? E, ainda por cima, utilizando uma tecnologia muito controversa nos dias de hoje - o 3D. Afinal, Scorsese representa uma entidade clássica , e se render a uma experiência que gerou tantos subprodutos fúteis e caça-níqueis nos últimos anos era algo , no mínimo, questionável.




Mas a verdade é que não se pode julgar nada antes da hora. A Invenção de Hugo Cabret revela-se mais um marco emocionante e desde já inesquecível da estupenda cinematografia de Martin Scorsese. Uma película simples, porém jamais rasa, que trata das origens da história do cinema, ao contar a paixão de um menino pela mágica sala escura que revela histórias - e se a narrativa de Hugo Cabret, a princípio, não tinha nada que combinasse com Scorsese, já podemos ver por aqui que semelhanças existem, e ao longo da projeção, amontoam-se.

Roteirizado pelo hábil John Logan - mente responsável por Rango, outro filme que soube lidar de maneira sutil e eficaz com referências ao cinema - A Invenção de Hugo Cabret narra a história de Hugo (Asa Butterfield), um menino que vive entre as paredes da estação de trem de Paris, tratando para que os relógios daquele lugar não parem. Ele tem o propósito de consertar um misterioso autômato encontrado por seu falecido pai, e para isso, faz pequenos roubos na loja de Georges (Ben Kingsley). Determinado a cumprir seu objetivo, ele é ajudado pela afilhada de Georges, Isabelle (Chloe Moretz) que possui ,curiosamente, uma chave que se encaixa perfeitamente na fechadura do autômato.

O script do longa certamente não é seu ponto alto, repleto de situações já conhecidas e com uma narrativa esquematizada, mas não era possível sair desse sistema: Hugo é, antes de mais nada, um filme de homenagem aos antigos clássicos, tendo assim seu foco não em reinventar a roda, mas em analisá-la da maneira mais saudosista e interessante, conseguindo trazer para as novas gerações a história da origem da Sétima Arte de maneira tocante, emocional e sutil. Diferente de outro longa desta temporada que remonta a clássicos, como O Artista, Hugo não utiliza das técnicas da época para reforçar sua nostalgia e escancarar suas referências. Usa uma história paralela, para contar sobre os acontecimentos da vida de Georges Mélies, por exemplo. Não apela, por tanto, nem aponta setas luminosas para sua "ousadia". Apenas trata com carinho os entraves reais da vida dos pioneiros do cinema, utilizando de outra narrativa tocante para tanto.




Aliás, esse paralelo traçado entre o cinema antigo e a narrativa contada pelo próprio filme é bastante chamativo. Há personagens coadjuvantes aos montes que servem de link direto ou indireto à personas e situações do cinema do final do século XIX e das décadas de 10, 20 e 30. O personagem de Sacha Baron Cohen, por si só, é a encarnação do humor físico desempenhado na época de Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd; todo o esquema de atuações do elenco de apoio suporta as referências aos primórdios do Cinema, onde o humor e os trejeitos quase teatrais eram considerados fundamentais.

Mas talvez o que mais mexa com o espectador seja a noção da paixão que Scorsese possui por sua profissão. Quando citei que era de se estranhar alguém como o diretor realizar um filme "destinado ao público infantil", era porque simplesmente não havia assistido ao longa. A Invenção de Hugo Cabret tem muito em comum com a vida de Scorsese, ligações que vão desde sua infância até sua vida recente. Hugo, afinal, é um menino deslumbrado por cinema, que ficava encantado quando seu pai o levava a uma sala de exibição. Ora, a conexão que isto tem, não só com amantes de cinema ao redor do mundo, mas principalmente com  Martin Scorsese aprimorando sua cinefilia ainda jovem, é claríssima, e gera uma força emotiva incrível, que se origina desse belo subtexto.

Ainda temos também, a história de Georges Méliès. Aqueles que viveram com tamanha paixão e dedicação ao cinema como Méliès, são pertencentes a um grupo seleto de artistas. O homem foi testemunha e agente importantíssimo nos primórdios da Sétima Arte, realizador de centenas de filmes, passando por uma fase negra quando vendeu as películas de suas produções para empresas que as derreteram para a criação de calçados. Não cabe a mim dizer se Scorsese é tão inclinado como Méliès foi para o cinema; comparações do tipo sempre serão nascentes de polêmicas desnecessárias. O que fica claro para nós, entretanto, quando vemos Méliès trabalhando em seu estúdio construído com paredes de vidro, é a imagem de um artista inebriado com sua obra - e é inevitável não ter um insight neste momento que nos remeta a Scorsese, que deixa um manifesto de amor à  hoje subestimada Sétima Arte, tratada como comércio por tantos pseudo-diretores".




No geral, é isso que o filme é: uma grande mensagem de afeto ao cinema. Tal mensagem é representada pelo amor de personagem a personagem; pelo carinho de Hugo com seu autômato; pela persistência de cada um por seu objetivo - assim como nunca Hugo desiste de reaver seu caderno, os verdadeiros cineastas nunca desistiram do verdadeiro valor do cinema. Por vezes, nos enxergamos  em mero exercício sensorial durante a projeção: analisando as referências metalingüísticas inspiradas - como nas cenas onde Hugo está prestes a ser atropelado por um trem, remetendo à primeira exibição dos irmãos Lumière - ou pelos gracejos simples de um ou outro personagem .

Nos perdemos também pelas belas imagens que o 3D primoroso do filme exibe: Scorsese realiza aqui seu primeiro trabalho com o 3D estereoscópico, e logo de cara faz uma das melhores apresentações tridimensionais que o cinema já viu. Sabe como passar as noções de profundidade, revelando que parece mesmo ter se dedicado a estudar a técnica, e consegue aplicar a tridimensionalidade até para realçar o drama de seus personagens - a neve contínua, a fumaça aparecendo em momentos oportunos - demonstrando que Hugo é, mais do que Avatar ou qualquer outro filme, um projeto realmente pensado para o 3D. Há passagens na trama que têm seu potencial dramático atingido apenas se assistidas com a tecnologia. Momentos singelos, que não devem ter sua surpresa estragada sendo contados aqui. Tudo isso, aliado a um design de produção soberbo, produz fotogramas de beleza surpreendente. Note também a inteligência da direção de arte ao aliar todos os cenários/instrumentos antigos com uma paleta de cores vivas que transmitem o "sonho" dentro da cabeça de uma criança.

Outro aspecto que nos deixa completamente extasiados na projeção são suas atuações.  Se Asa Butterfield consegue prender toda a atenção dos espectadores a si, revelando ter uma presença de cena admirável, principalmente para um ator de sua idade, as coisas ainda melhoram com sua química nada forçada com a talentosa  Chloe Moretz. Os dois levam suas cenas adiante com fluidez invejável, o que torna a experiência do filme ainda mais orgânica. Aliás, outro que se revela completamente entregue a seu papel - o mais delicado, já que trata de uma figura histórica - é Ben Kingsley, que exibe seu carisma costumeiro, encarnando o turbilhão de emoções que seu personagem se submete, mas tendo êxito, principalmente, ao trazer à vida a paixão que este tinha por sua arte.




A Invenção de Hugo Cabret é uma homenagem sem precedentes, filme que se revela extremamente vistoso e sentimental à primeira vista, porém se torna mais terno e importante depois de certo tempo. É uma daquelas apresentações que nos lembram do que a Sétima Arte realmente é feita - de idéias e de trabalho duro. Inspiração e transpiração nos trazem a um limiar de sucesso no cinema, que é o patamar no qual qualquer realizador deveria querer chegar: o de sonho. Não estou dizendo aqui que Scorsese é arrogante o bastante para ter a audácia de ensinar a alguém como transmitir a magia do cinema; mas fazê-la ficar eternizada é um bom e bem-vindo lembrete.