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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Lincoln


Lincoln
(Lincoln, 2012)
Drama - 150 min.

Direção: Steve Spielberg
Roteiro: Tony Kushner

com: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, David Strathairn, Sally Field, James Spader, Joseph Gordon-Levitt, Hal Hoolbrook

Lincoln tem cara de vencedor de Oscar. É quadrado, careta, correto, patriótico e tem um elenco em ótimo momento. Mas, é arrastado, sonolento, lentíssimo e a sensação de acompanharmos um épico sobre a politicagem americana não é das melhores. Talvez funcione - imagino pelos elogios vindos de fora - muito melhor para os norte-americanos que conseguem se relacionar diretamente com aqueles personagens e histórias. Para os cucarachas daqui, não passa de uma modorrenta história sobre os bastidores da política, e convenhamos, as nossas histórias são mais suculentas de serem vistas, cheias de comédia, traição, vergonha, terror e ação.

O grande destaque é para o supracitado Daniel Day-Lewis, certamente um dos maiores atores do planeta. Seu Lincoln é um homem calmo e sereno, que em sua infinita cautela foi capaz de manter um país unido mesmo diante de uma guerra civil. Sua interpretação naturalista de um líder frente a um desafio é realmente especial, fazendo o espectador gostar de Lincoln imediatamente. Compramos suas ideias, seus discursos, suas muitas historias inseridas no filme, sua forma de ver a vida e até mesmo conseguimos entender sua relação complicada com sua esposa. Tudo graças a um momento (mais um, o que não é nenhuma novidade) desse excepcional Daniel Day-Lewis. É incrível notar como Daniel trabalhou, por exemplo, o timbre de voz do personagem, sempre baixo, quase que falando para dentro com uma ligeira rouquidão, que mesmo quando exaltado permanece seguro de cada palavra proferida. Lincoln de Spielberg recebe toda a carga messiânica que os americanos colocam em cima de seu presidente mais famoso.

Como disse, os atores se destacam em Lincoln e esse é o caso de Tommy Lee Jones, em desempenho arrebatador, como Thaddeus Stevens, um congressista que defende a igualdade racial em um período onde esse tipo de postura era visto como absurda. Seus discursos no congresso americano são energéticos, cheios de gana, força, inteligência e vida. Esse é um dos grandes desempenhos do ator em sua carreira. Completa o "trio de ferro" Sally Field, vive a Sra. Lincoln como uma mulher amargurada e eternamente em estado de depressão pela morte de seu filho. Sally fez o contraponto pessoal em meio a uma produção excessivamente engessada por sua ideia de passar uma mensagem.


Engessada por culpa do excesso de reverencia histórica de Steven Spielberg para com seu tema. Se em Lista de Schindler, Spielberg conseguiu misturar uma historia grandiloquente com quilos de emoção, Lincoln é apenas historicamente correto, um longa (mesmo) cheio de momentos edificantes, mas que não conseguem fazer o espectador se emocionar com a história.

Lincoln, não é uma biografia do presidente americano, mas a história da assinatura da libertação dos escravos, com detalhes nefastos de conchavos políticos, e todo o trabalho de bastidores para que a décima terceira emenda (que dava fim a escravidão) fosse aprovada. O que Spielberg fez foi praticamente ignorar toda a história até ali, e apresentar um momento histórico apenas. Isso, para quem não conhece a história do presidente americano (sendo honesto, uns 98% da população mundial) transforma o filme numa experiência incompleta. Como Lincoln chegou ao poder? Como o filho de Lincoln morreu? Como a relação de Abraham e Mary Todd "azedou"? Como é possível demonstrar que o presidente era carismático? Apenas essa última pergunta o filme tenta responder, encaixando uma quantidade assombrosa de anedotas que Lincoln usa para ilustrar suas ideias políticas, e que servem de veículo para Day-Lewis mostrar seu talento.

O presidente americano é quase um sábio mitológico, capaz de ter sempre a resposta correta para todos os problemas apresentados. O que Spielberg faz, é transformar seu líder em um messias, mesmo quando esse é "obrigado" a apelar para a politicagem para conseguir seu intento, já que suas promessas para os candidatos do partido rival para que esses endossem a lei, são sempre tratadas com escárnio e bom humor, e dão a entender no decorrer da trama, que aqueles homens foram convencidos "pelo ideal" e não pelos cargos que iriam receber em troca do apoio.


Spielberg é um tremendo diretor e disso todos sabem. Sua capacidade de construção de quadros é magnífica e aqui isso se comprova, já que ele consegue nos ilustrar uma gigantesca obra de bla bla politiqueiro. Uma façanha, mediante sua escolha para o filme. O filme praticamente não conta com cenas de ação, sendo uma obra calcada quase que exclusivamente em texto, o que - nas mãos de um sujeito menos competente - poderia ser transformado em um teatro filmado. Spielberg acerta em suas escolhas fotográficas, quando sempre coloca o presidente sob uma fotografia contrastada para exacerbar suas rugas (um sinal de sabedoria e experiência), e mesmo nas cenas diurnas Spielberg mantém a câmera próxima ao presidente, apostando em poucos momentos de grandes planos abertos, salvo aqueles em que existe uma real necessidade de dar um sentido de grandiosidade a obra. Já pensa diferente no tocante as sequências no Congresso que parece uma panela de pressão, acanhada, apertada, sufocante para aqueles que tentam debater. Isso, auxiliado pelas trocas de ofensas de lado a lado, faz dessas sequências, as verdadeiras "cenas de ação" do longa.

Contudo, por mais que Spielberg seja competente, é o texto de Tony Kushner que é o grande trunfo da obra. Recheado de grandes frases é uma base maravilhosa para que seus atores desfilem as já citadas interpretações de qualidade. Mesmo aqueles com pouco tempo de tela, casos de Joseph Gordon-Levitt e James Spader (ótimo) têm seu pequeno "solo" linguístico.

Porém, essa incapacidade crônica de emocionar o público é surpreendente em se tratando de Spielberg, que sempre apelou para essas sensações em suas produções. Se em filmes históricos mais fracos como Amistad (quem não se lembra de Djimon Hounsou gritando liberdade em seu julgamento?) ou mesmo no soporífero Cavalo de Guerra, o diretor encheu a tela de momentos "pra fazer o espectador chorar", aqui eles nunca acontecem. E por mais absurdo que pareça, elas fazem muita falta. 


Mesmo John Williams, um mestre em criar sensações emocionais por suas notas, aqui está surpreendentemente contido, sóbrio, com uma trilha basicamente incidental, sem grande destaque (sua indicação ao Oscar, me parece exagerada inclusive). Lincoln é um Spielberg sem as características que fizeram do diretor o mais famoso do mundo. Na ânsia de criar um retrato histórico correto, seguro, "sério" de um momento fabuloso de seu país, esqueceu de transformá-lo em uma experiência cinematográfica rica, ou com alguma alma.

Claro que existem momentos de bravata e de exacerbação, mas muito poucos, como a sequência em que Mary e Lincoln discutem veementemente por causa de seu filho mais velho, ou quando Lincoln impõe sua vontade perante o seu gabinete, mas quem precisa segurar esse elemento é Tommy Lee Jones, que é o responsável por tentar emocionar po público. O filme inclusive poderia ser encerrado com a revelação sobre um segredo do personagem que ganharia pontos no fator emocional, mas não, Spielberg prefere esticar a narrativa e tratar a morte de seu protagonista (por favor, não me venham com essa de spoiler aqui) de forma banal, sem ter a coragem de ter recriado o momento de sua morte. A covardia de tentar "tocar no mito" parece tão grande que nem mesmo mostrar sua morte parece ser uma coisa confortável para o diretor, que prefere mostrar a passagem de Lincoln de forma abrupta e sem cuidado algum, impedindo o público (de novo) de criar qualquer vínculo emocional aos personagens, mesmo diante de uma tragédia.

Lincoln é uma produção estéril. Fria, gélida, corretíssima, tecnicamente muito bem construída, com um Daniel Day-Lewis perfeito e um Tommy Lee Jones exuberante, mas que não guarda características daquele que um dia foi o sujeito que mais sabia emocionar uma platéia de cinema. Lincoln não tem alma alguma, e parece apenas um vulto histórico apagado pelo tempo em uma folha amarelada na história. Nada digno para um homem tão importante para seu país.



Em 1865, logo após o fim da Guerra Civil norte-americana, o poeta Walt Whitman escreveu o poema “O Captain! My Captain!”, uma grande metáfora sobre toda a jornada de unificação do país sob os novos conceitos abolicionistas adotados e defendidos pelo presidente Abraham Lincoln. Os marcantes versos de Whitman foram escritos após a fatídica morte do presidente, e toma este como o capitão de uma embarcação que, logo após concluir sua “viagem aterradora” com sucesso, morre no convés e deixa toda sua tripulação em estado de agonia e frustração.

Lamentavelmente, o único sentimento que o filme de Steven Spielberg compartilha com o brilhante texto de Whitman é o de frustração. Uma frustração decorrente de uma obra falha, superficial e descartável, que procura recontar os fatos, mas não investiga-los.  Entretanto, Spielberg já foi capaz de gerar os sentimentos despertados pelo poeta do século XIX. Já o fez incontáveis vezes, e a última foi no espetacular Munique, um longa maduro e intrigante que retratava a relação conturbada entre a família e a violência de maneira espetacular.

Ironicamente, um dos co-escritores responsáveis pelo belo script de Munique foi Tony Kushner, o roteirista de Lincoln. Adaptado do livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln de Doris Kearns, o roteiro de Lincoln toma por princípio os meses que antecedem a votação da 13ª Emenda no Congresso, o documento que, entre outras coisas, traria a escravidão nos EUA ao fim. Desse modo, somos introduzidos ao dilema do presidente (vivido por Daniel Day-Lewis): tentar selar o acordo de paz com os Estados Confederados – e assim colocar em risco a aprovação da Emenda – ou buscar o apoio necessário para a maioria na Casa dos Representantes, assinarem a abolição e assistir, nesse meio tempo, ao banho de sangue que o país enfrenta.


O texto de Kushner aborda o tema da abolição – que é a discussão ideológica central no filme – com certo idealismo reforçado, que não só era incompatível com o espírito da época, mas também seria difícil de engolir até nos dias atuais. Há em Lincoln muito maniqueísmo de fácil deglutição, e pouca dissecação de assuntos.  É muito mais fácil de fazer, mas também de se absorver, uma narrativa que desenhe uma situação de forma bidimensional. Kushner não se atreve a ousar, a investigar mais de perto os contornos turbulentos daquele período. Mas se não faz isso, não é por falta de conhecimento ou incompetência – afinal, Munique é um elaborado retrato de personagens cheios de méritos e falhas de caráter, personagens humanos. Se Tony Kushner opta por uma abordagem superficial, é por puro medo. Medo de ser mal interpretado, de dar a entender algo errado num tema tão crucial e polêmico na história dos EUA.

Medo que é compartilhado por um dos maiores corações moles que a indústria recente já viu que se trata do novo Spielberg.  O medo que Spielberg nutre é o de ousar e sujar sua imagem como bom moço, mas principalmente de sujar a imagem de um dos ícones mais importantes da América do Norte – Abraham Lincoln.  Desse medo, surge um respeito demasiado, que interfere desde o modo como o personagem é retratado e culmina até mesmo na direção de Spielberg. A originalidade passa batida, e o diretor escolhe usar a fórmula básica da biografia: mitifique seu biografado e deixe o resto falar pro si mesmo. E o mito de Lincoln parece furado, afinal o tomamos como algo a ser adorado, mas tampouco sabemos o porquê Lincoln mereceria ser reverenciado. Isto porque seus realizadores não se atrevem a explorar sua persona a fundo, e se contentam com a sempre segura superficialidade.  Assim sendo, Spielberg toma o projeto para si mais como um desarme de bomba do que um longa-metragem. Qualquer passo fora da fórmula pode causar uma explosão de danos incalculáveis.

O que salva o exercício formuláico de Spielberg do total fracasso é a humanidade trazida por seu talentoso elenco. Daniel Day-Lewis consegue encarnar Lincoln com estofo emocional interessante, dedicando sua atuação – baseada no método – a incorporar cada detalhe dos hábitos do ex-presidente: Sua postura elegante, mas um tanto cabisbaixa; seu semblante calmo, mas claramente perturbado por toda a sorte de eventos que precisa lidar. É uma pena que o trabalho esmerado de composição de personagem realizado por Day-Lewis não encontre eco em Kushner ou Spielberg.  Entretanto, o desempenho do ator inglês é acompanhado de perto pela interpretação de Tommy Lee Jones, que vive um abolicionista radical que é também uma das lideranças do Congresso. Seu personagem admirável só não merecia sua cena final, que revela um motivo tão óbvio e parco para seu ativismo. Outro problema de responsabilidade do roteiro.


Lincoln é um filme padronizado no esquema recente de produções de Spielberg. Quanto mais simplória, superficial e melodramática for uma trama, melhor. Aliás, o melodrama exagerado e forçado de Spielberg chega a doer quando entoado nas trilhas genéricas e megalomaníacas de John Williams. Infelizmente, isto se repete em Lincoln, em mais de uma infeliz oportunidade. Spielberg encontra-se hoje em dia na sua fase “lugar seguro”, e tudo aquilo que for grandiloquente e formulaico já tem prioridade na sua filmografia. Talvez seja por isso que seus filmes aventurescos sejam aqueles que estejam se saindo melhor – como o Aventuras de Tintim.  De qualquer forma, não é o caso de Lincoln. Um longa que foi feito quase 150 anos depois que os fatos realmente ocorreram, com 150 minutos de duração, não deveria ser tão facilmente superado, tanto em estilo quanto em profundidade, por um poema de seis estrofes feito no calor recente dos acontecimentos. 



quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha


O Espetacular Homem-Aranha
(The Amazing Spider-Man, 2012)
Ação/Aventura - 136 min.

Direção: Marc Webb
Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves

com: Andrew Garfield, Emma Stone, Martin Sheen, Sally Field, Rhys Ifans, Dennis Leary

(obs.: a crítica contém alguns spoilers. Se puder, evite lê-la antes de assistir ao mais recente filme do "Cabeça de Teia").

O Espetacular Homem-Aranha cumpre seu objetivo mais raso: diverte. Em geral, o espectador quando vai ao cinema para assistir uma produção cheia de heróis busca uma bela sessão escapista, duas horas de diversão descompromissada, ideal para esquecer os problemas e afins. E para esse efeito, o reboot do Aranha funciona bem. Mantém um bom ritmo até quase seu final (quando parece inspirar-se em Senhor dos Anéis e apresentar finais para todos os personagens do filme), e diverte sem muito medo o espectador.

Porém, o filme não passa muito disso. Se o espectador é leitor de Aranha (não é o meu caso) e talvez espere a quintessência do personagem embalada em um filme de ação/aventura exemplar, é possível que se decepcione, principalmente, pois - tornando-me repetitivo - apesar de entreter, é um Frankenstein sem personalidade no que tange sua abordagem a trama e aos personagens do filme.

Explico: a historia começa com o pequeno Peter Parker sendo entregue aos seus tios Ben (Martin Sheen) e May (Sally Field), por seus pais (Richard Parker vivido por Campbell Scott e Mary Parker vivida por Embeth Davidtz). A abordagem é realista, muito próxima da ideia de Sam Raimi em seu primeiro Aranha, ampliada aqui pela trama de mistério sobre o paradeiro dos pais de Peter. O clima é mais sério, como indicavam os muitos trailers do filme. Damos então um salto no tempo, e ainda nesse clima "real", somos apresentados à nova representação de Peter Parker.


Andrew Garfield é uma versão muito mais contemporânea dos estereótipos nerds do que o insosso Tobey Maguire o era no filme de 2002. Para mim, alguns elementos ajudam essa transformação, sendo o principal deles a mão de Marc Webb, diretor desse Aranha. Vindo do sucesso do drama romântico 500 Dias com Ela, o diretor tem uma visão muito mais fresca sobre os adolescentes e jovens adultos de hoje, do que tinha Sam Raimi, um bom diretor, mas de uma geração mais velha. Talvez por isso seu Peter seja sempre tão "abobalhado", enquanto o Peter de Webb é muito mais cool (embora o próprio Garfield em entrevista refute essa ideia de cool e fale em adequação ao mundo moderno). Ajuda ainda o fato de Garfield ter uma idade mais próxima ao personagem dos quadrinhos do que Maguire, e de ser um fã do material (o que está marcado a fogo na tela), com uma interpretação bastante competente de Peter Parker, com todos os trejeitos típicos de um adolescente, tornando-o nunca um herói na concepção da palavra, mas um adolescente típico, cheio de medos e dúvidas e até um pouco irritante em alguns momentos.

Na escola, ele é apaixonado pela bela Gwen Stacy (Emma Stone), que diferente da Mary Jane de Kirsten Dunst, não vive em um lar abusivo e nem sonha em ser atriz, ou muito diferente da Gwen Stacy - colocada de qualquer jeito - do terceiro filme do Aranha, que parecia uma patricinha mimada e sem graça. Emma Stone usa na personagem alguns de seus trejeitos que caracterizaram sua carreira, como o bom humor constante, observações irônicas e uma leve "maluquice" que faz de Stacy, uma garota divertida e encantadora.

O filme ainda tem a presença excelente e muito realista de Martin Sheen como o tio Ben definitivo, que não abusa dos clichês para ensinar responsabilidade ao sobrinho, e mesmo repetindo o destino mostrado no primeiro filme baseado no personagem, o faz de maneira muito mais inteligente e próxima da realidade. Sally Field, como Tia May, faz com que nos esqueçamos da sempre simpática velhinha vivida por Rosemary Harris, na trilogia original. Mais ativa - por questões óbvias de idade - e mais emocional, é outra que convence de saída, em especial sobre seu relacionamento com Martin Sheen.


Porém, o filme começa a perder a mão do tal realismo, quando vemos o nosso vilão, o doutor Curt Connors (Rhys Ifans). Para quem conhece alguma coisa da mitologia do personagem sabe que o a presença do doutor Connors no filme significa a presença do Lagarto como vilão. O cientista que sofre de traumas por não ter um braço (fato que é enfatizado sempre que possível inclusive visualmente com uma pequena sequência em que Connors é encaixado diante do reflexo de um manequim com os dois braços) deseja criar uma espécie de soro que misture o DNA humano com animal a fim de conseguir a regeneração dos genes afetados pela deficiência. Essa pesquisa tem a ver com os pais de Parker, e movido pela curiosidade, o nosso herói decide conhecer o doutor, para por tabela conhecer melhor seus pais e a motivação para o abandono pregresso.

Os problemas começam ai, já que parece que tudo é preguiçosamente ligado ao personagem principal, para facilitar uma resolução mais simples. É um erro? Não, quando não parece forçado. O primeiro erro é o de colocar Gwen Stacy como estudante brilhante e ajudante de laboratório de Connors, sendo que em momento algum existe alguma indicação que Stacy sequer gosta de ciência. Entendo que a ideia era "chocar" o espectador, mas a forma como isso é conduzido não funciona na totalidade.

Uma diferença interessante reside na criação do Homem-Aranha. Uma vez que Parker é bem desenvolvido, o filme cria seu Aranha da mesma maneira. Sai o fotógrafo bobalhão que é picado por uma Aranha num museu, e entra o curioso jovem que se mete aonde não devia e acaba picado por uma aranha mutante. Sai o garoto que cria uma fantasia para lutar e ganhar uma grana, e entra o garoto obcecado em encontrar o assassino do tio que cria uma roupa misturando o conceito da luta livre com o uniforme atlético.


Mas, a mudança mais bem vinda é que finalmente o cinema consegue mostrar com competência toda a movimentação e a força de um sujeito picado por uma Aranha. O "sentido Aranha" que avisa o personagem do perigo é muito mais orgânico, assim como a movimentação é muito mais fluída e a força física mais "brutal". A ideia de acabar com as teias orgânicas foi ótima, já que também relaciona a criação dos dispositivos à trama das aranhas mutantes e o uso das modificações genéticas realizadas pelos cientistas.

Outra mudança foi que o personagem mascarado finalmente tem aquele bom humor ácido que marca o personagem nos quadrinhos. Um gozador por natureza, o Aranha de Marc Webb é engraçado e muito falante, sem muito pudor em humilhar o vilão antes de acertá-lo com um soco ou enrolá-lo em sua teia.

Até esse ponto, o filme caminha muito bem. Apesar do exagero de Gwen trabalhar justamente com o vilão do filme, o filme balanceava muito bem a ação e a trama de mistério que movia o filme. O problema começa justamente quando Connors assume seu "alter-ego" e todos os elementos parecem ser suprimidos e facilmente relacionados a Peter, incluindo ai a própria criação do vilão.  É como se tudo precisasse estar ligado fio por fio ao personagem principal, transformando-o no sol que gira ao redor dos planetas/personagens que compõem a narrativa. Mais exemplos: Peter salva um determinado personagem e o pai desse vai ser peça fundamental na trama, na cena que apesar de visualmente ser muito impactante, presta o exagero de mostrar uma bandeirola americana sem sentido algum, em mais uma homenagem tediosa a "coragem do povo de Nova York". Outro exemplo? Peter em determinado momento caça seu vilão e simplesmente leva sua câmera com um gigantesco adesivo de identificação colado na mesma, o que entrega sua identidade ao vilão. Essa questão da identidade secreta é outro problema, já que Parker parece ansioso para dividir seu segredo com o mundo, já que ao final do filme, uma porção de personagens acaba sabendo de seu segredo. 


A construção visual do Lagarto é outro erro, claramente artificial o personagem carece de carisma, de ameaça e pouco lembra um lagarto real, surgindo como um híbrido estranho de humano com dinossauro, o que até poderia fazer sentido, mas a construção visual nesse caso realmente não funciona. 

A partir daí, o filme ganha em ação e perde muito no clima divertido que vinha construindo até ali. As coincidências ultrapassam o limite para esse tipo de produção e são camufladas por ótimas sequências de ação, o que não deixam de empolgar, mas que revelam uma historia que no fundo não responde a nada que se propôs a responder. No fundo, aquela questão que todo mundo se fez quando do anúncio desse reboot infelizmente persiste: por que recontar a origem de um personagem que já foi contada há tão pouco tempo? O Espetacular Homem-Aranha está longe da espetacularidade desejada, e embora tenha a melhor representação do herói nas telas, merecia uma historia menos preguiçosa. Quem sabe na - óbvia - sequência.

Muito se questionou sobre a necessidade de um reboot para uma franquia tão jovem quanto a de Homem-Aranha. O sucesso arrebatador (e um tanto inesperado) do primeiro filme acabou gerando frutos: não só ajudou a consolidar o gênero nas telas como conseguiu render duas sequências que arrecadaram pouco mais de 1,5 bilhão de dólares juntas. A produção do último capítulo da trilogia foi conturbada, porém. O apressado cronograma (a estreia do terceiro filme fora definida ANTES do lançamento de Homem-Aranha 2), misturado a uma pressão constante dos produtores, acabou por limitar o controle criativo do diretor Sam Raimi, vitimando assim, a qualidade do fraquíssimo terceiro segmento. Sendo assim, entende-se a necessidade mercadológica em prosseguir a franquia com um reboot: não havia muitos caminhos a serem trilhados após o insosso final. Com a saída de Raimi, o superprodutor Avi Arad anunciou o reinício, roteirizado por James Vanderbilt (roteirista requisitado e prolífico, indo de Zodíaco a Violação de Conduta).


Após uma produção folgada, sem pressa, o filme ganha uma massiva campanha de divulgação. Mas seria essa a tal "historia nunca contada" do Aranha? Do ponto de vista cinematográfico, seria O Espetacular Homem-Aranha (curiosamente, um título mais operístico que o do primeiro filme) uma válida experiência?
O desenvolvimento de Peter Parker, apesar de aparentar mais extenso, é um tanto semelhante ao de Homem-Aranha 1. Temos a presença do bullying; a vingança contra Flash Thompson; o amor platônico pela garota da sala; a situação com os tios. É no tom que há a diferença. Muitos acusam o filme de Marc Webb como “desnecessário”, mas mesmo falho, essa nova abordagem não soa idêntica ao filme de Raimi. É como se fossem as mesmas situações, mas com um olhar diferente.

Desde os breves créditos iniciais, já se percebem as intenções da estrutura do longa. A estilizada abertura, cheia de teias e ligações, sugere uma historia toda conectada entre si. O que, por sua vez, parece uma mania dos roteiristas atuais, que seguem essa tendência que os produtores parecem gostar tanto. Entende-se aí a contratação de Vanderbilt: veterano em roteiros policiais "intelectuais", cheios de suas viradas em estrutura (Violação de Conduta, o "ultimate" filme de reviravoltas, é um roteiro original de Vanderbilt), o roteirista abraça a tentação de interligar tudo no passado e presente de Peter Parker.
Oposto em tom e mais focado nesse tipo de narrativa falsamente intrincada, o novo Aranha conta com uma atmosfera muita mais sisuda que a da primeira trilogia. E mesmo mais sério e sóbrio, o filme de Webb é muito menos dramático que o de Raimi. Há pelo menos três situações dramáticas bem semelhantes aos filmes anteriores e, em todas elas, o peso não é sentido como no filme de 2002.


Mas antes do fundo dramático, há a problemática estrutura. Tentando interligar todas as pontas da narrativa possíveis, o roteiro de Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves encontra nas coincidências o seu fio da trama. Quando estoura o cano da casa, Peter encontra a maleta do pai. Maleta essa que tem um símbolo estranho, junto com fórmulas. Símbolo este que Peter encontra ao esbarrar no advogado de Norman Osborn, que estava (que coincidência!) levando esses documentos naquela exata hora. Hora esta em que ele visita um viveiro de aranhas radioativas. Esta fórmula dos símbolos que, estudada por Peter, é solucionada para que Curt Connors possa realizar sua teoria. A já citada “teia de acontecimentos” incomoda, apesar de ser admitida e adorada pelos roteiristas. Quando Peter fala com o Capitão Stacy sobre o Lagarto, o policial explicita: “então quer me dizer que Connors, brilhante mentor de minha filha, é esse monstro?”. Fora que, por Deus, se você fosse um super-herói mascarado, você colocaria seu nome na câmera na hora de ir atrás do vilão? A mudança de foco no drama é o que salva o script mal-construído.
O que nos leva á tal crise de identidade do adolescente. Peter encara a máscara em certa cena, como se fosse uma maldição. Essa direção, de um menino aprisionado por não saber quem é, é levada a exaustão. “Sei qual é seu nome, mas quero saber se você sabe”, diz Gwen. Peter é amargurado por isso e, mesmo que desenvolvido sem muito capricho, o conceito é interessante.


O desenvolvimento dos personagens, mesmo falho, acaba se tornando a maior força de O Espetacular Homem-Aranha. E o elenco envolvido, todo muito bem dirigido por Webb, só ressalta isso. Andrew Garfield está perfeito no papel, Emma Stone é novamente adorável, e a química dos dois atores nas cenas de romance transpira na tela. Martin Sheen exala segurança como Tio Ben, o tornando inclusive o mais humano dos personagens. E mesmo ecoando a esquizofrenia de Willem Dafoe no primeiro filme, Rhys Ifans se demonstra um bom vilão e suas cenas como Curt Connors são bem fundamentadas e discutidas pelos personagens envolvidos. E isso reforça a qualidade de atuação de Ifans, já que o Lagarto de CGI raramente convence, soando inclusive tolo nas suas tentativas de diálogo (e se salvando, pra variar, na pancadaria).

Um Aranha mais brincalhão, que se diverte ao balançar em “teias” de ferro e extravasa suas piadas na roupa vermelha e azul, acaba soando um tanto novidateiro. Ao acordar, a demonstração de raiva pelo sono através dos poderes rende uma engraçada cena, além da fome gigantesca de Peter ao chegar de sua primeira jornada com os poderes (o que me fez testemunhar um herói quase drogado, o que não deixa de entreter). A teia de vibrações, construída por ele, também empolga (e nos lembra da inteligência de Peter). E pra qualquer fã, ver um Aranha magrelo, soltando suas teias pelo lançador no céu de Nova York, nunca deixa de empolgar. Mas o interessante é que faltou justamente uma essência ao herói. Há apenas uma cena, a do filho do bombeiro (que, COINCIDÊNCIA!, salva nosso herói mais tarde), que nos faz lembrar do que é feito o Amigão da Vizinhança – o que é muito pouco. Sem ser contagiado pela ciência de suas responsabilidades, o Peter Parker de 2012 perde força e não sente as dores do que é renunciar sua vida pelo herói. A cena responsável por isso, com Gwen, idêntica a do filme original, não carrega a mesma angústia que tinha com Mary Jane no Aranha de Raimi.

A diferença no tom do novo filme, que torna o reboot um tanto válido, se deve muito a dois fatores em especial: a busca pelo realismo (provavelmente após o sucesso do Batman de Nolan) e o diferente desenvolvimento de Peter Parker. Ainda que, como já dito, diversas passagens sejam bem parecidas, o foco no drama do protagonista é outro: a busca pela identidade. E nesse ponto, a verossimilhança merece crédito. Mesmo que aqui e ali soe genérico (mas não menos eficiente) como o uso dos celulares no clímax, esse realismo é realçado pela atuação muito boa de Garfield - e funciona. Desde ás solitárias passagens pelo colégio do início até a presença constante da câmera no quarto de Peter, o filme ecoa a geração de A Rede Social. A condição social do jovem cientista é sentida por toda a primeira hora de projeção, mesmo quando Peter encontra o doutor Connors (rendendo excelentes interações). Porém, algumas cenas acabam perdendo sua força devido á preguiça do script.


Cenas essas que, pelo seu reducionismo, acabam soando alheias no meio da introdução. Peter acaba sendo abordado como um loser típico, sem muitas diferenças em relação ao arquétipo. Quando vai buscar seu material no armário, há um casal se beijando e impedindo a passagem; ao ver o nerd sendo humilhado pelo valentão, Peter toma partido e acaba apanhando – e ganhando a atenção da mocinha. Fora isso, o núcleo dos tios Parker é bem menos competente que no filme de 2002 na tarefa de evocar as responsabilidades de Peter com sua família. Além disso, Ben e May perdem as características básicas na trama estrutural (demonstrar a relação de valores para o protagonista se tornar um herói) e terminam como meros tutores do jovem. Justamente por isso, (OH! MAJOR SPOILER!) a morte de Ben é muito menos sentida que no longa original.

Mas talvez, a maior falha de Kloves, Vanderbilt e Sargent seja em quem é o tal Homem-Aranha. Em certo ponto, um personagem diz para Parker: “Essa Cidade precisa de você”. Vendo a projeção (e como Peter se tornou o heroi), nunca sentindo a mudança que o Aranha traz e sem saber de sua tarefa quase compulsória como vigilante de Nova York, fica a dúvida: precisa mesmo?

E se o roteiro trabalha com temas interessantes mas carece de um cuidado maior, a estética visual se apresenta completamente oposta ao filme de Raimi – e igualmente excelente. O Techno-coro criado por James Horner, numa trilha á antiga, funciona mesmo sem criar um tema específico pro herói. A direção de arte do recém-falecido J. Michael Riva investe em um ar mais científico e cria ambientes assépticos, contemporâneos e belíssimos, como o laboratório da Oscorp e o magnífico prédio, todo baseado em vidro. Ainda com uma fotografia estupenda de John Schwartzmann, abundante em tons sóbrios e sombria na medida certa (e munido da resolução monstruosa da excelente câmera Red One), o filme possui na direção segura de Marc Webb um ponto chamativo.


Mesmo que ainda falte certa sensibilidade em reconhecer uma solução estúpida e ignorá-la (lagartos em todo o lugar, a analogia peixe/lagarto na hora do jantar, a marcha dos lagartos na teia), Webb demonstra bom olho estético. Mais arrojado que o diretor de aluguel comum que os estúdios contratam, Webb cria soluções visuais interessantes para a ação do filme e demonstra a segurança de seu debut, 500 Dias com Ela, na hora de dirigir seus atores. Tanto a sequência na escola quanto o enérgico clímax (a cena de Emma se escondendo do Lagarto é excelente) são favorecidos pelos ângulos elegantes e montagem limpa que Webb prefere. Com destaque, ainda, para as boas transições de cena que Webb e seu editor Alan Edward Bell criam, como o link do prédio sendo clicado e tomando a tela inteira logo depois. Além disso, inspirado nas melhores fases de Todd McFarlane nas HQs do herói, o diretor cria quadros memoráveis com as estilosíssimas poses do Aranha (o que rende o último frame do longa, que busca encerrar esse primeiro filme com a maior solenidade possível). E para fechar: o novo sentido de aranha é muito, muito legal. Será uma boa aposta a volta de Webb para o segundo(há ecos do Duende Verde em pelo menos dois lugares), e inevitável, filme.

Se a tarefa foi apresentar um Homem-Aranha mais crível para o novo público, até que O Espetacular Homem-Aranha funciona: definitivamente, o Peter de Andrew Garfield e o de Tobey Maguire são diferentes. Essa abordagem jovem, mais realista e menos operística e de homenagem, funciona para o tempo atual e ainda diferencia bastante os dois trabalhos. Ainda que não seja um espetacular e perfeito filme do que é um super-herói de verdade, o novo Aranha ao menos é seguro. Mas é mais que um script mais completo e menos preguiçoso o que melhorará essa futura franquia, assim como é mais que uma busca de identidade pela alma de Peter Parker.

Falha, então, aonde o original mais triunfava. A melhoria será a compreensão dos envolvidos de qual é o peso real de ser o Homem-Aranha.