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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Instrumentos Mortais: A Cidade dos Ossos

Instrumentos Mortais: A Cidade dos Ossos
(The Mortal Instruments: City of Bones, 2013)
Aventura/Romance - 130 min.

Direção: Harald Zwart
Roteiro: Jessica Postigo

com: Lily Collins, Jamie Campbell Bower, Robert Sheehan, Lena Headey, Jared Harris, Jonathan Rhys Meyers

Pergunto-me com certa frequência qual o segredo para certas séries infanto-juvenis ou de realidade fantástica fazerem tanto sucesso. Em Harry Potter, J.K. Rowling pegou um elemento de conhecimento geral (os bruxos, magos) e partir dai produziu uma mitologia própria com regras e personagens únicos. Stephanie Meyer em Crepúsculo (mesmo não gostando dos filmes) também pegou elementos de conhecimento geral (vampiros, lobisomens) e transformou-os em uma coisa diferente do que estava presente no imaginário popular (para o bem e para o mal), além de rechear suas histórias com romance, o que atraiu um público novo ao gênero da fantasia. George R.R. Martin viu sua série das Crônicas de Gelo e Fogo serem catapultadas a best-sellers quando foi transformada em serie de TV. Nos livros (e felizmente na série) a mistura de ficção "histórica" com elementos de fantasia também pareceu diferente, somando-se a sensação de urgência constante na história, onde tudo pode acontecer. 

Pois bem, nos exemplos que dei acima o sentimento de frescor, de "ineditismo" talvez seja responsável pelo interesse de muitas pessoas pelas obras citadas. E é claro que a partir do sucesso dessas, muitas "cópias" e trabalhos de temáticas parecidas surgiram por aí. Além, de outros livros importantes no gênero que acabaram ganhando sua chance na tela grande (casos do mal sucedido "A Bússola de Ouro", dos "Crônicas de Nárnia" e do vindouro "Ender's Game"). E isso também vale para o mercado editorial, já que a quantidade industrial de lançamentos de realidade fantástica e fantasia é cada vez maior. 

Além da questão de popularidade, existe uma outra questão sobre a maioria dos novos autores de fantasia: parece que os mesmos leem apenas realidade fantástica, reproduzindo apenas versões inferiores de livros e contos mais cativantes. Todos os grandes autores do gênero leram mais do que apenas esse tipo de literatura e, portanto conseguiram criar mundos novos e criativos exatamente por sua variedade de influências. O caso da versão cinematográfica de Instrumentos da Morte é exatamente condizente a essa reclamação. Um dos grandes abacaxis de 2013 é uma coleção incontrolável de clichês, elementos requentados, ideias fajutas e protagonistas ruins num mesmo filme e que se for mesmo fielmente baseado em um livro, já o transforma também em uma bobagem gigantesca e dotada de pouquísima originalidade.


Os clichês e os elementos requentados começam pela própria história que é mais uma trama teen onde uma garota absolutamente comum se transforma na "escolhida", graças (nesse caso) a sua descendência milenar. Ela é filha de caçadores das sombras, sujeitos que caçam demônios e que originalmente surgiram com as bençãos de anjos. Nessa salada de referências ainda aparecem magos de sunga apertada (sério!), lobisomens (que obviamente precisam ser barbudos quando na forma humana) e até vampiros (que não brilham). O único momento de frescor é a utilização de marcas na pele como símbolos dos poderes dos tais caçadores. Até mesmo um triângulo amoroso acaba surgindo na trama que ainda incluem referências a Star Wars (sim, é isso mesmo que você leu) e uma serie de personagens desinteressantes.

Se a garota Clary (Lily Collins, esforçada) tem a clara motivação de encontrar sua mãe sequestrada por causa de um segredo milenar e o caçador bad boy (Jace/Jamie Campbell Bower) cumpre seu dever com a causa (e se apaixona no caminho), o mago líder do grupo e que deveria ser a epítome da seriedade e competência, mostra-se fraco e um personagem com problemas emocionais absurdos em se tratando da realidade da produção. O mesmo problema aflige um dos coadjuvantes apaixonados ou mesmo o mago de cueca. Até mesmo o amigo da protagonista (Simon, interpretado por Robert Sheehan) que serve apenas de alívio cômico fajuto, acaba ganhando um pequeno drama que deve ter consequências nas eventuais continuações da serie.

Mas nada é mais grave para uma produção de aventura/ação do que um antagonista que não cause nenhuma sensação de perigo para os protagonistas. Embora cheio de estilo e com um discurso empolado e recheado de frases feitas, Valentine vivido por Jonathan Rhys-Meyers acaba caindo no hall dos vilões gritalhões com muita pose mas com planos óbvios e "modus operandi" tão confuso quanto à quantidade de referências e clichês dos mais variados filmes/personagens que a produção tem.


Contando com efeitos visuais capengas e uma direção de arte que atira para todo lado (indo de catacumbas medievais, bibliotecas vitorianas, armazéns sujos e raves estranhas) a trama caminha pelo acumulo de ideias já vistas em diversas outras produções com diálogos bregas, falta de química entre seus protagonistas e um desperdício das poucas boas ideias, como a das marcas ou a participação de um coadjuvante que revela ser mais do que aparenta (uma dica: ele é barbudo).

Instrumentos Mortais: A Cidade dos Ossos é um caça níquel. Não faço a menor ideia se o livro é aquilo que foi transposto na tela ou não, mas se depender da experiência causada pela produção dificilmente o livro que deu origem a produção ganhará minha atenção.

Obs: a tal Cidade dos Ossos do título ganha seus dois minutos de atenção e... só.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Datilógrafa

A Datilógrafa
(Populaire, 2012)
Comédia/Romance - 111 min.

Direção: Régis Roinsard
Roteiro: Régis Roinsard, Daniel Presley e Romain Compingt

com: Romain Duris, Déborah François, Bérenice Bejo, Shaun Benson

Simpática comédia francesa, A Datilógrafa esteve no festival Varilux de cinema francês e chega ao circuito nacional, dando a chance de um público maior conseguir assistir a esse singelo trabalho do diretor Régis Roinsard que não tem medo de fazer uma comédia romântica com vários dos elementos tradicionais em tramas do gênero. E fazer desses clichês que nos irritam em diversas produções diferentes, elementos de força no filme.

A trama fala sobre a garota do interior Rose Pamphyle, que no final dos anos cinquenta, quando o papel da mulher na sociedade era o de mãe e dona de casa, decide sair da pequena cidade onde nasceu e enfrentar o mundo. Um dos poucos empregos que uma garota poderia conseguir é o de secretária e por isso Rose entra na disputa pelo cargo em uma firma de arquitetura. Sua única qualidade é a de datilografar, o que faz com velocidade impressionante, o que chama a atenção de seu chefe (Louis), um ex-atleta que desistiu dessa vida quando participou da segunda guerra mundial, mas que mantém a chama da competitividade acesa, especialmente contra Bob, seu amigo americano que se casou com sua paixão do passado, a igualmente bela Marie. 

Nessa tentativa de competir e de vencer seu amigo (que aposta contra o sucesso da garota de forma irônica) - mesma que seja usando outras mãos - Louis inscreve a jovem garota em um concurso local de digitação em velocidade (sim, amigos é isso mesmo que vocês leram) e a partir daí o romance toma conta da produção, usando os velhos artifícios do homem que não tem coragem de assumir uma posição e da mulher apaixonada e que se coloca nas mãos do sujeito para tê-lo em sua vida. 



Elementos básicos em uma dezena de comédias românticas e que aqui funcionam pela direção de Roinsard, que consegue manter sob controle a taxa de glicose da trama, e pela química entre os protagonistas. Se Louis (Romain Duris) esbarra na caricatura, exagerando em algumas caretas e num excesso de sisudez que beira a antipatia em certos momentos, Rose (Déborah Françoise) é radiante. Nunca tinha visto a jovem atriz, e ela me pareceu uma mistura de Natalie Portman com Mary Elizabeth Winstead, atrizes que usam dos seus grandes olhos para conquistar a afeição (e paixão) do espectador. É singela e delicada, mas não cai no clichê da mocinha burra e indefesa.

As tais competições de datilografia são os pontos altos do filme. Muito bem montadas e usando o som para construir uma cama sonora que dispensa o auxílio de música propriamente dita, Roinsard consegue criar tensão em um grupo de pessoas batendo a máquina, da mesma forma que acompanharíamos uma atividade esportiva. O filme ainda explora a questão do culto a fama, mesmo quando essa venha por motivos aparentemente banais (como bater a máquina em alta velocidade), e de forma discreta faz sua "denúncia" à fábrica de ídolos do esporte. 


Mas esse não é o foco da história de fato. A produção francesa é uma historia de amor bastante previsível e que transita pelos clichês com sucesso e bastante charme. A excelente reconstrução de época e a direção de arte elegante e que abusa da mistura de cores (especialmente nas tais competições) ajudam a deixar o filme mais leve e até ingênuo, beirando um conto de fadas moderno. Simples, sem inventar a roda e abusando de clichês, mas com atores decididos e com ótima química, A Datilógrafa é um raro caso de comédia romântica que consegue sobreviver mesmo com seus clichês. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Hospedeira



A Hospedeira
(The Host, 2013)
Romance/Ficção Científica/Aventura - 125 min.

Direção: Andrew Niccol
Roteiro: Andrew Niccol

com: Saorsie Ronan, Max Irons, Jake Abel, Diane Kruger, William Hurt

Falar mal de qualquer coisa escrita por Stephenie Meyer é uma diversão de muita gente. Além de não ver necessidade dessa perseguição (que me parece bem infantil na verdade) acho que se você simplesmente não gosta de uma coisa, ignorar a existência do objeto é a melhor forma de demonstrar sua insatisfação. Por isso, prevejo uma coleção de "haters" (profissionais ou não) que sequer viram ou leram A Hospedeira vociferando internet afora simplesmente pelo filme ser uma adaptação de um livro da referida escritora.

Isso significa que A Hospedeira é bom? Não. Essa não é uma defesa do filme, mas uma constatação de que se perde tempo demais "falando mal" de coisas que não se gosta e pouquíssimo tempo elogiando coisa que se ama. Dito isso, vamos ao filme.

Hospedeira guarda algumas ligações com a obra anterior de Stephenie Meyer. Assim como em Crepúsculo, a protagonista é uma garota e em determinado momento (embora isso aconteça de forma mais criativa) divide seu amor entre dois homens. Na trama a Terra vive em paz, harmonia e felicidade, depois que foi invadida e quase totalmente absorvida por uma raça de criaturas que usam os corpos humanos como hospedeiros. Os poucos humanos que não foram assimilados vivem foragidos. Uma dessas garotas é Melanie, que ao tentar fugir de uma tropa de alienígenas cai de um prédio e fica a beira da morte. Recuperada recebe seu implante alien, mas, mantém consciência da sua "vida anterior" e a partir dai começa um dialogo entre a mente da garota e a entidade alien que a "ocupa".


Aos poucos, a consciência da garota convence a alienígena a procurar seu irmão pequeno que fora deixado no lugar onde ela havia se acidentado e seu namorado/amante. Diante da dos sentimentos da garota, a entidade acaba se afeiçoando aos hospedeiros de sua espécie e parte para o encontro do restante dos humanos.

A vilã da vez é Diane Kruger obcecada em descobrir os segredos da garota, já que sua companheira alienígena tem acesso às memórias da humana. Sua vilã é razoável apesar de conseguir encontrar a pista da Hospedeira (mais tarde chamada de Peregrina) da forma mais boba possível: a saída do mapa escondido que indica o paradeiro das personagens que fora escondido em uma roupa. Da mesma forma, o filme a partir da metade tem uma enorme dificuldade de fazer a trama andar já que parece engessada no mesmo problema de Crepúsculo: o triangulo amoroso que não funciona e chega às raias do risível em cenas como a que envolve o personagem do galã Max Irons (Jared) que é "obrigado" a beijar Melanie para fazer com que a consciência da humana que habita se revolte com a situação e retorne de uma espécie de exílio espiritual (ou algo assim). Deu pra entender? Pois é, são cenas de vergonha alheia que tentam criar uma atmosfera de bom humor e leveza e não conseguem. O filme para movimentar-se cria uma justificativa igualmente piegas que envolve um acidente com um dos coadjuvantes, daqueles que fazem os protagonistas largarem suas vidinhas tranquilas e entrar em conflito com os vilões.

Por outro lado, existem coisas bem interessantes no filme. A protagonista de Saorsie Ronan é boa, principalmente se levarmos em consideração que ela interpreta duas personagens que tem linguagens corporais, vocabulários e atitudes diferentes em relação ao que estão enfrentando. William Hurt que vive seu tio também é outro destaque importante conseguindo extrair bons momentos de um texto que não é grande coisa. 



O clima asséptico e clean que o diretor Andrew Niccol utiliza desde Gattaca, aqui ganha momentos de ironia com inserções visuais como a que trata do desapego ao consumismo na mais que genérica "Store" (loja/armazém em inglês), onde todos os humanos absorvidos entram e pegam os produtos que precisam sem nenhum tipo de merchandising ou glamour.

Outro acerto é o fotográfico que explora bem o deserto norte-americano do Novo México com seus horizontes infinitos e as formações rochosas únicas o que dá um ar ainda mais desolado para a nova morada dos sobreviventes humanos. O visual dos alienígenas em sua forma original é simples e apesar de apostar em um conceito bem batido (os parasitas), a forma com que são apresentados é elegante e até bonita em alguns momentos como nas cenas finais quando são vistos por um viés emocional que convence. 

A Hospedeira já nasce com a rejeição de parte do público graças a quem escreveu a obra adaptada. Justificado? Em termos, já que a obra guarda semelhanças com a série de Bella e Edward, como a existência de mais um triangulo amoroso que não funciona, alguns diálogos bem pobres e a falta de tensão na trama que só é quebrada com um evento absolutamente genérico. Por outro lado o pano de fundo é mais interessante e a presença de algumas assinaturas visuais de Andrew Niccol seguram a historia. Mesmo com um epílogo desnecessário (embora sirva para sacramentar o discurso de inclusão dos personagens) o filme não é esse apocalipse anunciado.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Dezesseis Luas


Dezesseis Luas
(Beautiful Creatures, 2013)
Romance/Fantasia - 124 min.

Direção: Richard LaGravenesse
Roteiro: Richard LaGravenesse

com: Alden Ehrenreich, Alice Englert, Jeremy Irons, Viola Davis, Emma Thompson, Emmy Rossum

Dezesseis Luas já nasceu condenado às comparações com Crepúsculo. Mais um dos muitos filmes com temática fantástica e romance adolescente que apareceram (e aparecerão) nos cinemas, inevitavelmente será sempre vendido e até mesmo compreendido por quem não tiver paciência em ler um pouco a respeito, como uma cópia dos vampiros de Stephanie Meyer.

Essas comparações ao mesmo tempo em que podem atrair uma base de fãs (o que eu duvido, já que o que fã menos gosta é alguma coisa sendo comparada com seu objeto de adoração) rechaça uma maioria que simplesmente não tem a menor simpatia por essa turma que brilha.

Pois bem, Dezesseis Luas é, e não é parecido com Crepúsculo. Explico: as semelhanças existem, pois também estamos num mundo de fantasia, onde também existe um romance proibido e o destino do mundo está nas mãos dos protagonistas. No entanto, a historia de Ethan e Lena é muito melhor conduzida.


O romance entre os protagonistas é muito mais próximo do realismo, o que faz imediatamente com que a credibilidade do relacionamento do casal seja muito maior. Outra diferença é que ao invés de "pregar" uma conduta de espera e de castidade velada, Dezesseis Luas entende que por mais mágicos e especiais que seus protagonistas sejam, são adolescentes cheios de hormônios.

A trama é bastante simples: Lena é a nova garota da escola de Ethan, encravada em uma tediosa cidadezinha americana, uma dessas localizadas no cinturão da bíblia americana, onde a reunião na igreja e o banimento de tudo aquilo que promova a curiosidade humana é o prato do dia.

A garota é uma proto-bruxa (no filme ganha o título de Conjurador), que aos dezesseis anos será "chamada" para assumir seus poderes para o lado do bem ou do mal. Por ser uma bruxa, não é aconselhável (ou melhor, "não pode mesmo") que ela se relacione com um mortal, por razões óbvias. Uma bruxa/bruxo vive muito mais do que um humano, tem poderes e pode ser tentado ao lado negro da força. Ao mesmo tempo, o garoto Ethan é acometido de sonhos com a garota e que acabam envolvendo uma antiga maldição que liga os dois.


A família de Lena fundou a pequena cidade, e a menina vive sob a severa vigia de seu tio Macon, vivido com enorme fleuma e bom humor por Jeremy Irons. Ele é um conjurador das trevas e não quer que sua sobrinha seja seduzida para tal caminho.  As razões serão explicados durante a trama e por motivos óbvios não vou contar aqui, mas garanto ao leitor que não são complicados e beiram o lugar comum.

É sobre essa base que o romance adolescente é construído. Maldições, amor impossível, poderes, magia e fantasia, mas mesmo assim existe um componente humano e uma boa química entre os jovens Alden Ehrenreich e Alice Englert. O grande trunfo de Dezesseis Luas, no entanto é seu elenco de coadjuvantes. Se Jeremy Irons se diverte com a pose dândi de seu personagem, uma oportunidade muito boa para que ele desfile seu sotaque britânico cheio de arrogância, Viola Davis nos trás ao "mundo real", embora sua personagem também seja marcada pela magia, enquanto Emma Thompson tem jornada dupla e abusa do overacting para realizá-la. Por fim a bela Emmy Rossum é o "avatar da sensualidade explícita" no filme. Apesar de sua personagem parecer importante, o filme a sabota tirando-a de cena muito rapidamente.

A impressão que passa é que Richard LaGravenese (que também dirige o filme), teve muito trabalho em condensar o livro de Kami Garcia e Margaret Stohl, já que alguns eventos surgem de forma acelerada na tela, em especial no ato final, que padece do mal - comum infelizmente - a muitos filmes do gênero: o excesso de expectativa.


Se a trama toda é construída para nos mostrar o grande momento de transformação da garota, o resultado final é bastante insatisfatório. Prejudicado por efeitos visuais medianos (para ser gentil), e uma construção da sequencia equivocada (onde não se nota a grandiosidade das cenas que poderiam estar ali), Dezesseis Luas perde a chance de também apresentar uma batalha verdadeiramente empolgante.

No entanto, o design de produção até ali é muito caprichado. A casa de Lena com sua longa escada (que imediatamente me lembrou a de Frankenstein de Mary Shelley) e sua decoração branca é muito bonita, assim como a sala de jantar vista numa comemoração familiar posterior.

Apesar dos personagens serem cativantes e funcionarem bem, me causou um incomodo as incessantes referencias a uma serie de autores "malditos", como Bukowski e Kurt Vonnegut Jr. Não por serem autores de segunda, muito pelo contrário, mas pela inevitável ironia de vermos sujeitos absurdamente anti-establishment sendo citados em uma produção pipoca adolescente que é vendida como seguidora de outra franquia de sucesso.


Talvez resida aí a ironia de Dezesseis Luas. Apesar de ser vendida como uma cópia, existe ali certo frescor de originalidade, ou uma simpatia por aqueles garotos - que verdadeiramente parecem um casal comum - que não se encontra nos similares (excluo Jogos Vorazes porque a ideia dessa serie é diferente das demais). Talvez - e não li os livros para saber - a ideia de sair do lugar comum (ou da cidadezinha como os personagens sonham em fazer) seja ilustrada pelas autoras do livro e pelo diretor do filme, com esses exemplos literários.

Simpático e até surpreendente na bacia de produções medíocres destinadas ao sofrido público adolescente, Dezesseis Luas nos faz acreditar no conto de fadas e comprar a franquia. Que faça dinheiro, pois só assim será possível sabermos o que acontece na história de Ethan e Lena.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

As Sessões


As Sessões
(The Sessions, 2012)
Drama/Romance/Comédia - 95 min.

Direção: Ben Lewin
Roteiro: Ben Lewin

com: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy e Moon Bloodgood

Como lidar com um tema controverso de forma terna e sem parecer apelativo ou melodramático em excesso? Essa parece ter sido a pergunta que o diretor Ben Lewin fez-se antes de se meter na produção de As Sessões, que conta uma história (verdadeira, por mais insólita que pareça) entre a relação de uma terapeuta sexual e um cliente muito especial.

Primeiro é necessário explicar - como a personagem faz seguidamente no filme - o que de fato é uma terapeuta sexual. Ora, ela cura pessoas com problemas sexuais? Você pode me dizer rapidamente e não estar de todo errado. De fato, Cheryl (Helen Hunt) é especialista na "cura" de problemas ligados a sexualidade, porém ela lida diretamente com homens que sofrem de algum tipo de deficiência mental ou física de forma prática. Ou seja, não explica apenas na teoria, mas trocando em miúdos "vai pra cama" com esses homens a fim de estimulá-los e a ensiná-los a como atingir o prazer sexual.

Essa profissão controvertida é tratada com grande cuidado por Lewin conseguindo com que o espectador - pelo menos imagino dessa forma - não crie o ranço óbvio de que ela é uma garota de programa com tesão por esses homens. Cheryl é mostrada como uma profissional, e como tal, capaz de (a principio) separar sua vida profissional, onde atua como terapeuta, com sua vida pessoal.


Do outro lado temos Mark O'Brien, um escritor que por ter sofrido de poliomielite quando criança vive preso a uma cama, sem conseguir movimentar-se do pescoço para baixo (embora diferente dos tetraplégicos, consiga sentir todo tipo de sensação, inclusive sexuais) e que passa suas noites atado a uma pulmão artificial, o qual não pode ficar distante por mais de algumas horas. Mesmo com todas essas dificuldades, Mark se formou na Universidade e vive de escrever artigos para publicações americanas, como o filme mostra em sua introdução, resgatando uma matéria de televisão sobre o verdadeiro personagem.

Mesmo com todo o seu sucesso profissional, Mark sente falta do amor, já que devido a sua condição nunca conseguiu um relacionamento afetivo, quanto mais sexual. Em uma história linear e praticamente sem sobressaltos dramáticos, ele consegue encontrar Cheryl e criar uma amizade e carinho, como não havia conseguido encontrar com outras pessoas.

Uma das boas ideias da historia é a relação entre o escritor e seu amigo padre (o sempre ótimo William H.Macy). Brendan é um padre moderno em seu exterior, com suas "madeixas" douradas longas e sua atitude positiva. Com Mark sendo um sujeito devotado, logo procura os conselhos de seu amigo e confessor, diante das dificuldades de dar o passo em diante e partir para o sexo - pelo sexo - uma prática que como todos nós sabemos, a Igreja Católica não concorda.


O tratamento dado pelo roteiro a esses encontros é sutil e sensível, com um padre usando do bom senso e do carinho para compreender aquele sujeito, encarando-o não como mais uma ovelha em seu rebanho, mas como um homem que precisa ser acarinhado e sentir-se feliz.

O grande destaque é - e não poderia deixar de ser - John Hawke, que vive Mark com enorme sutileza, sem poder se mexer e criando uma voz anasalada que consegue transmitir toda a fragilidade da personagem. Um trabalho difícil, andando na corda bamba entre seus desejos, sua percepção de si mesmo como uma "criatura de segunda classe" e sua mente preocupada com a aprovação divina (representada pelo quadro da Virgem Maria em seu quarto que o personagem conversa).

A indicação ao Oscar para Helen Hunt vem muito pelo fato da atriz, assim como a personagem real, parecer se desprender da noção de vergonha, e expor-se fisicamente ao julgamento da sociedade, dando uma banana aos críticos. Afinal, Hunt não é mais uma menina (completa 50 anos em 2013), e segundo a cartilha de Hollywood não é "de bom tom" expor-se dessa forma depois de certa idade. Porém, Hunt - e é necessário comentar os atributos físicos da atriz, já que são relevantes para a trama e não apenas por que enfim, sou homem e heterossexual - é uma mulher bonita e consegue despertar o desejo no personagem de Hawkes. A sensualidade da atriz é usada - apesar dela aparecer muito nua - de forma sutil - o que é curioso - e mesmo nas cenas de sexo propriamente dita, a intenção nunca é excitar o espectador, mas fazê-lo se emocionar com as conquistas de seu protagonista.


Porém, o desenvolvimento de sua personagem é falho, já que na divisão pessoal/profissional, esse primeiro aspecto não é suficientemente desenvolvido. Suas crises, seus problemas e tudo mais, acabam perdendo espaço para a historia de Mark, o verdadeiro protagonista da trama. O que me faz questionar a Academia em sua escolha: se Hunt não tivesse aparecido nua, teria sido indicada?

Diferente dela, H.Macy acerta o tom do padre Brendan, que de confessor temerário pelas ações de seu fiel, se torna um ouvinte amável e um sujeito interessado no bem estar de seu amigo, e numa espécie de "salvação espiritual" de Mark, já que para termos uma vida plena, o amor é fundamental (pelo menos enxergo dessa forma, me chamem de romântico se quiserem).

As Sessões é sutil na abordagem de sua história - complexa de ser compreendida por muita gente - e delicada na intenção de mostrar o ato sexual como transformador, mesmo que resvale em uma óbvia trama melodramática na parte final do filme, criando uma tensão desnecessária em um filme que não precisava de "plot twists" para funcionar bem.


Somando-se a um desenvolvimento precário da personagem de Hunt, que tem seus conflitos emocionais simplesmente esquecidos pela trama que nunca oferece respostas sobre as questões, o filme de Ben Lewin é muito bem intencionado, reverente, honesto e sincero, mas nunca alcança o potencial que poderia atingir.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Entre o Amor e a Paixão


Entre o Amor e a Paixão
(Take this Waltz, 2011)
Romance/Drama - 116 min.

Direção: Sarah Polley
Roteiro: Sarah Polley

com: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman

Este é o terceiro filme dirigido pela atriz Sarah Polley, reconhecida do grande público por seus papéis completamente diferentes em Minha Vida sem Mim e no remake de Madrugada dos Mortos. Como diretora Polley abraça sem pudor os estereótipos do cinema indie americano, realizando obras dramáticas e tocantes.

Entre o Amor e a Paixão (uma boa tradução do sentido da obra, diga-se de passagem) é um exemplar de filme romântico "sério", daqueles que tenta transmitir em uma historia fictícia, as muitas nuances e dificuldades de se manter um relacionamento a dois, passando pelos diferentes estágios do mesmo.

Michelle Williams é a complexa Margot, uma mulher bela e profundamente introvertida que vive um relacionamento que funciona na base de brincadeiras quase infantis com o aspirante a escritor (de livros de receitas) Lou, vivido por Seth Rogen. Apesar de uma existência quase idílica e recheada de momentos onde os personagens nada fazem além de comer (frango) e dormir, aparentemente o relacionamento funciona. A coisa começa a complicar quando Margot conhece o sedutor Daniel (Luke Kirby), outro sujeito que trabalha de forma recreativa, numa existência igualmente frugal. Sentindo-se atraída pelo novo, enquanto ainda ama o velho, a personagem de Michelle Williams passa boa parte da projeção indecisa sobre seus sentimentos e sobre o caminho a seguir.


Esse é mais um desempenho interessante de Michelle Williams que consegue trazer humanidade e sensibilidade a uma personagem difícil de gostar. Eterna insatisfeita com sua própria existência, e vivendo ao lado de um homem que a ama verdadeiramente, é muito fácil detestá-la, ou julgar cada passo que ela dá rumo à destruição de uma relação estável. Mas, por outro lado, manter-se infeliz em um relacionamento simplesmente pela comodidade é algo igualmente idiota. E é por essa ideia que a interpretação contida e introspectiva de Williams, apostando demais na linguagem corporal funciona bem. Notem como a cada vez que a personagem tem alguma dúvida sobre seus sentimentos ela chega perto de seu marido e tenta acarinhá-lo, beijá-lo, abraça-lo, como se estivesse tentando encontrar a paixão nesses gestos.

Seth Rogen por sua vez encontra-se em um papel bastante diferente do que o público está acostumado a vê-lo. Bastante sereno e usando seu ótimo timing cômico para enriquecer o filme em vez de deixá-lo cair na piada pronta, é especialmente sensível nos momentos derradeiros da trama, conseguindo (auxiliado por uma boa montagem) passar por diferentes estágios da confrontação. Negação, desespero, ódio, humor, chantagem emocional, Rogen transita por esses e outros momento comuns em relacionamentos.

Porém, Sarah Polley parece não conseguir simplesmente contentar-se em apresentar uma historia de amor, praticamente sabotando toda a jornada física e emocional de sua personagem, nos dizendo que de fato, ela não acredita em nada daquilo, fazendo com que nossa compaixão pela personagem de Michelle Williams praticamente seja sepultado.


Take this Waltz não chega a ser um fiasco, mas é uma historia de amor envergonhada demais para assumir-se assim, e leve demais para ser encarado sobre um drama sobre relacionamentos.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vantagens de ser Invisível


Vantagens de ser Invisível
(The Perks of Being a Wallflower, 2012)
Drama/Romance/Comédia - 103 min.

Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky

com: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Dylan McDermott, Tom Savini, Kate Walsh, Johnny Simmons

Um elenco jovem em ótimo momento, um roteiro denso, emocionante e muito bem dirigido (pelo mesmo homem responsável pelo livro e por sua adaptação em forma de roteiro) e um grau de realismo muito próximo do que sofrem aqueles que apresentam problemas de depressão, ou simplesmente, daqueles que não conseguem encontrar seu lugar nessa selva chamada humanidade, Vantagens de ser Invisível (titulo que parece contar uma comédia, o que não é de todo incorreto, mas que não faz jus ao filme) é um dos grandes trabalhos do ano que chegam ao Brasil.

Mesmo soando "verde" em alguns momentos - muito pela inexperiência de Chbosky, o diretor realiza seu segundo filme - o filme se apóia em uma historia sensível para emocionar o espectador e trazer uma mensagem de amor e amizade muito poderosa. Partindo do jovem Charlie (Logan Lerman de Percy Jackson e de Três Mosqueteiros), o filme conta a sua historia, a partir de seu primeiro dia no High School (para quem não sabe, o nosso ensino médio), mas diferente do que a maioria das produções americanas sobre o tema faz, deixa seus dois pés no chão. Ambientado no início dos anos 90, uma era pré-internet, onde encontrar uma tribo para se fazer parte era mais difícil, o filme coloca Charlie como um garoto solitário, que encontra a amizade ao lado do sofrido Patrick (Ezra Miller) e da radiante Sam (Emma Watson), meio-irmãos que também estão fora do radar do ser popular. Patrick, por ser homossexual e Sam por ter tido problemas quando era "caloura". Ambos não têm a melhor das reputações entre o meio escolar politicamente correto. Ao lado das também excêntricas Alice (Erin Wilhelmi) uma apaixonada por vampiros e Mary Elizabeth (Mae Whitman) uma punk adolescente redatora de fanzines (quem lembra?) e do "lesado" Bob (Adam Hagenbuch) logo criam um grupo de amigos que envolve o garoto, pela primeira vez, em um ambiente acolhedor, onde seus sentimentos, medos e paixões afloram.

Tudo feito com muito cuidado e atenção para com os personagens, que são todos tridimensionais, até mesmo as participações pequenas dos pais de Charlie e seu irmão mais velho tem espaço para se desenvolver. O destaque é o excelente Ezra Miller, que faz de Patrick, um arquétipo do palhaço, que esconde uma profunda melancolia e tristeza por trás da atmosfera de alegria e despojamento. Já Emma Watson, despe-se de toda a aura fantasiosa de Harry Potter para apresentar Sam, como uma garota em busca de um norte, falível e capaz de servir de apoio e de objeto de desejo para a motivação de Charlie. Lerman por sua vez, surpreende com a complexidade de seu personagem, um garoto marcado por um trauma recente e que vive recluso em seu próprio mundo solitário. Com o desenrolar da historia, que mistura humor e dor, a crônica de sua vida ganha cores mais intensas que culminam em uma resolução visceral e chocante.


Em uma associação barata e até cruel (admito) Vantagens de ser Invisível, é próximo do que Walter Salles pretendeu com seu pedante Na Estrada. Explico minha lógica: em ambos vemos grupos adolescentes em busca de seu lugar no mundo. A diferença é que os adolescentes "libertários" de Salles eram rasos e não tinham traumas a serem enfrentados, apenas a incapacidade e falta de pretensão em crescer. Os garotos de Chbosky são muito mais honestos com suas dificuldades adolescentes e parecem muito mais críveis, principalmente emocionalmente. Se em Na Estrada, todos pareciam super homens (e mulheres) hedonistas sem qualquer envolvimento emocional, Vantagens mostra a dificuldade da paixão, as dificuldades em encontrar seu espaço e principalmente expõe motivos tangíveis às dificuldades dos personagens, sejam eles psicológicos ou não.

Embora o leitor possa pensar que a trama seja profundamente triste, Vantagens é igualmente engraçado e sutil em suas observações sobre o mundo que nos cerca. Auxiliado por uma trilha sonora que faz os trintões (e os mais velhos de espírito, como esse sujeito que escreve) se deliciarem, é um contraponto inteligente ao tal "coming-of-age" tão comumente retratado no cinema, mas dificilmente tão próximo de uma realidade tangível como essa. Da surpresa de Logan Lerman, a consolidação de Ezra Miller, a beleza e competência de Emma Watson e a ponta segura de Paul Rudd (como um professor de literatura que inspira o jovem Charlie), Vantagens é uma aberração no mundo dos filmes sobre adolescentes. Trata os objetos de estudo de forma calorosa, amorosa e piedosa, mas sem esquecer que estão inseridos no mundo real, muito mais duro e cruel do que imaginamos.

Obs: Impossível deixar de mencionar - especialmente para quem é fã, como eu - a homenagem ao fantástico musical Rock Horror Picture Show que está presente na produção.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Para Roma com Amor


Para Roma com Amor
(To Rome with Love, 2012)
Drama/Romance/Comédia - 102 min.

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen

Com: Jesse Eisenberg, Alison Pill, Alec Baldwin, Penelope Cruz, Roberto Benigni, Ellen Page, Woody Allen

Parece regra: basta Woody Allen juntar muitas historias em uma mesma narrativa para que o filme desande. Embora, não seja só isso que faça de Para Roma com Amor um filme consideravelmente inferior a Meia Noite em Paris, ou mesmo outros filmes de Allen que não estão no mesmo patamar de seus filmes mais intrigantes, inteligentes, divertidos ou dramáticos.

O problema de Para Roma, reside no mesmo que catapultou Meia Noite para o topo das listas de melhores do ano de muitos críticos ao final do ano passado: seu roteiro. Se Meia Noite não era um desbunde de direção, tinha um roteiro afinado que funcionava muito bem, bons personagens e uma historia ao mesmo tempo mágica e realista, que relacionava a nostalgia com vultos do passado, num coquetel de cultura e diversão.

Para Roma tem um roteiro episódico, recortado entre uma serie de personagens diferentes que povoam o filme. Em suma, o primeiro erro de Allen foi conceber em um mesmo filme tantas subtramas, tantas histórias diferentes que em momento algum se inter-relacionam, permanecendo únicas. Talvez se cada pequeno conto se se transforma em um filme teríamos novos e bons filmes do diretor, embora essa ideia episódica surja como uma homenagem do diretor ao cinema italiano, popular nos anos sessenta e setenta por lançar diversos filmes que tinham essa ideia de apresentar várias pequenas historias unidas em um único filme.


Iniciando com um plano em um guarda de trânsito que funciona como apresentador da "ode" de Allen a cidade italiana, o filme intercala as diversas historias presentes em seu roteiro. Temos o casal do interior que chega a cidade de Roma e diante do iminente encontro com os tios do "noivo", acabam se perdendo, envolvendo-se com atores famosos e garotas de programa. A historia - digamos - principal coloca uma jovem turista americana que ao se apaixonar por um italiano traz seus pais para conhecer a família do namorado e possível marido. O filme ainda critica a indústria das celebridades com a historia do homem que sem motivo alguma se torna famoso e ainda tem espaço (em teoria) para colocar um espelho diante de um homem de meia idade (ou de um jovem) para analisar a passagem do tempo e as consequências de nossas escolhas na vida.

A historia do casal interiorano é que apela mais diretamente para o humor. A jovem Milly (a bela Alessandra Mastronardi) se perde na complexa Roma - e Allen ilustra isso com diversos figurantes tentando informar a garota, que obviamente não consegue compreender as informações - enquanto seu noivo, o travado Antonio (o espirituoso Alessandro Tiberi) recebe a visita da garota de programa Anna (Penelope Cruz estonteante), que funciona como professora para o personagem. Essa é a historia que melhor funcionaria como apoio para uma outra maior e mais elaborada, pois a natureza da montagem (com cenários diversos e muitos figurantes) ajuda a historia a parecer maior do que na verdade é. Apesar do humor não funcionar na resolução da historia, que parece ter saído de um filme ruim de Almodóvar, diverte pela comédia de erros que proporciona.

A historia da jovem americana (Alison Pill) que se apaixona é a que tem mais tempo de tela e que por consequência pode ser encarada como principal, embora seja a menos interessante delas. Simplória em sua construção, tenta ganhar pontos com a entrada dos pais da "noiva", vividos por Judy Davis e Woody Allen. Phyllis (Davis) é uma psiquiatra cética que vê o marido como um homem que pode ser dominado, já que em sua profissão (ele trabalhava na divisão de musica clássica de uma gravadora e dirigiu algumas operas) sempre foi considerado excêntrico, portanto, um material vasto para uma análise. Allen, por sua vez, repete pela enésima vez o personagem neurótico e cheio de manias que o consagrou. Longe de ser um grande ator, Allen funciona nesses papeis, pois eles representam muito do que Allen sente e pensa, portanto não parece absurdo imaginar que os discursos de Jerry a respeito da aposentadoria sejam o que Allen verdadeiramente pensa. Jerry detesta estar aposentado e enxerga "parar" como morrer. Será essa a visão de Allen? Sem seus filmes rapidamente morreria, mesmo que não de forma física? Outra questão muito debatida no filme é o fato do personagem ser por diversas vezes chamado de "a frente de seu tempo". O que seria isso? Uma sátira de Allen aos intelectualóides, que acham que seus trabalhos são realmente especiais? Uma constatação de que a arte muitas vezes antecipa-se a sociedade? Ou um reflexo de si mesmo? De todo caso, o foco da historia não é o personagem de Allen diretamente, mas o sogro de sua filha, um legitimo cantor de banheiro que é usado por Allen como ultima esperança para manter-se ativo. Apesar de funcionar no começo e da trilha e produção serem impecáveis, é cansativo revermos a mesma ideia sendo repetida. O bom humor do começo da história vai se perdendo, transformando os sorrisos (Allen nunca fez filmes em que as pessoas gargalham compulsivamente) em indiferença.


A melhor das pequenas historias é a que critica sem piedade a indústria da fama. Roberto Benigni é um sujeito sem graça, que tem uma família absolutamente comum e um emprego banal. Sem nenhum motivo aparente, passa a ser perseguido pelos papparazzi que estão interessados em tudo e qualquer coisa que ele faça. Tudo vira motivo para notícia, de seu café da manhã até seu corte de cabelo, sempre com o viés crítico. Porém, o personagem de Benigni como muitos que são tocados pelas facilidades da fama, passa a aproveitar o "bem-bom". Allen deixa de lado a crítica quando nos momentos finais da trama subverte a situação, quase que se rendendo a fama.

E a mais confusa dos pequenos contos envolve Jesse Eisenberg e Alec Baldwin, que nunca fica exatamente claro, se são amigos reais ou imaginários. Seria Eisenberg o reflexo do passado de Baldwin? Ou seria Baldwin um vislumbre do futuro de Eisenberg? Allen dá dicas sobre o realismo da historia. Enquanto todas as historias seguem praticamente uma mesma linha cronológica, essa historia tem saltos no tempo, o que demonstra que algo ali não está certo. O fato de Baldwin estar sempre presente ao lado de Eisenberg também é outra indicação da natureza da historia, tornando-o quase a representação da consciência do personagem.

Para Roma com Amor é um amontoado de historias, algumas razoáveis, nenhuma notável e algumas mal resolvidas. Na tour mundial de Allen, dessa vez na Itália, o diretor homenageia a cidade e seu cinema, é verdade, mas diferente de seu ultimo filme, esqueceu-se de unir o guia turístico a uma narrativa sólida.