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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Os Suspeitos

Os Suspeitos
(Prisoners, 2013)
Thriller/Drama - 153 min.

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Aaron Guzikowski

com: Hugh Jackman, Jake Gylenhaal, Viola Davis, Maria Bello, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano

Denis Villeneuve me impressionou positivamente com "Incêndios", um dos filmes mais intensos que vi em 2012. Antes disso ele também foi muito elogiado por "Politécnica", produção que vergonhosamente ainda não consegui ver. Portanto, havia uma expectativa para sua estreia no mercado americano e com dois filmes de uma vez: o suspense Enemy e o filme analisado aqui, Os Suspeitos.

Confesso que vendo a divulgação do filme, especialmente o trailer apresentado, e a sinopse da produção me questionei se o canadense não estaria estreando com um projeto "sem assinatura", onde seria controlado pelo estúdio em busca de um veículo para Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal. Porém, além da presença dos dois atores, o elenco ainda apresentava Maria Bello, Terrence Howard, Viola Davis, Paul Dano e Melissa Leo. Todos os atores com indicações ao Oscar e com talento. Passou-se algum tempo e o filme estreou em diversos festivais e foi muito bem recebido. Opa, talvez existisse alguma coisa ali, talvez eu tivesse sido tomado pelo ranço do trailer expositivo e óbvio. Ou, talvez existisse uma predisposição dos colegas em gostar do filme pelo pedigree de seu condutor. Dúvidas que só poderiam ser respondidas quando assistisse a produção.

Durante "Os Suspeitos" fui percebendo que não conseguia piscar. Não era - felizmente - um problema físico, mas a excelência da trama mostrada por Villeneuve. Utilizou-se dos clichês do suspense a seu favor e criou uma trama em formato de quebra-cabeça (ou de labirinto, elemento fundamental na trama) em que cada peça da trama nos é apresentada, mas sem a incomoda sensação de que os realizadores do filme consideram os espectadores incapazes de compreender a trama. Em resumo: Suspeitos é um thriller de trama intrincada com detalhes que precisam ganhar a atenção do espectador, sem, no entanto, apelar para recordatórios, discursos explicativos e outros recursos "for dummies" comuns no cinemão americano.


A história começa quando a família Dover visita seus vizinhos (os Birch) para celebrar o dia de Ação de Graças. Keller e Grace tem dois filhos, o garoto Ralph e garotinha Anna, assim como seus amigos Franklin e Nancy, que também tem dois filhos, as meninas Eliza e Joy, praticamente da mesma idade dos filhos de seus amigos. Em teoria são famílias espelhadas apenas com a diferença de raça para diferenciá-los. Depois dos comes e bebes, as duas garotinhas decidem irem até a casa dos Dover para encontrar o apito perdido da loirinha Anna. E daí somem. A partir daí a trama se divide na perseguição de Keller ao principal suspeito que a investigação do detetive Loki não consegue manter preso por falta de provas, e o detetive tentando solucionar o caso.

Denis Villeneuve usa uma situação - infelizmente - bastante comum para criar seu quebra-cabeça muito tenso que não busca apenas a solução do thriller, mas também tem a intenção de falar sobre a vingança e os limites de onde o sujeito pode ir para conseguir seu objetivo. Cada peça do quebra-cabeça é importante e merece uma atenção especial do espectador e vai se revelando um novo elemento de uma trama cada vez maior.

A fotografia lúgubre do filme só ajuda a reforçar um ambiente que vai se entristecendo, se corrompendo  e tornando-se claustrofóbico em frente aos nossos olhos. A atmosfera calorosa - apesar do frio - da casa dos Birch no começo do filme é radicalmente diferente do que o filme nos vai mostrando com o decorrer do tempo. As sombras se apossam dos personagens e da vida daquela família. O roteiro da produção é igualmente inteligente nos conduzindo por alguns caminhos que parecem tão precisos e que vão se revelando não tão certeiros assim, ao mesmo tempo em que são corretos dentro da intenção do filme. A religiosidade, tema fundamental na trama, é outro elemento muito bem utilizado e desde - literalmente - o primeiro plano, colocando a fé e a ausência da mesma como mola propulsoras da trama.


O elenco está todo muito bem. Keller e o detetive Loki são os protagonistas, cada um num espectro da investigação. Hugh Jackman e Jake Gylenhaal que vivem os dois citados respectivamente estão muito bem na produção. Esse talvez seja o personagem mais intenso e assustador do ator em sua carreira (certamente o é dentre seus personagens nos Estados Unidos). Keller é um pai de personalidade forte e que não mede as consequências de seus atos, embora não encontre prazer em momento algum com o que tem de fazer, destituindo-o na alcunha de sádico e afins. Loki beira o comportamento passivo-agressivo, tendo de manter o controle da situação em meio a muita pressão dos pais das garotas sumidas, da própria investigação, os problemas da policia e traumas pessoais. Seu trabalho contido, revela um sujeito metódico, inteligente e que em sua racionalidade consegue resolver as arestas da intrincada produção.

Ao lado dos dois lados dessa moeda, os coadjuvantes também tem seu momento de brilhar, cada um com um "solo", um momento em que podem demonstrar o talento que tem. Franklin (Terrence Howard) vai se fragilizando a cada nova situação enfrentada e vive em conflito sobre suas ações até desabar em uma cena emocionante. Grace (Maria Bello) entra em estado de negação e se mantém entorpecida diante de suas suspeitas de que o pior acontecera com sua filha e a amiguinha. Nancy (Viola Davis) guarda para si suas impressões e dor, mas as deixa florescer em uma cena maravilhosa e intensa, onde é impossível não se deixar emocionar pela composição da atriz e nos chocar com suas conclusões sobre as ações de seu marido. Paul Dano e Melissa Leo são outros que conseguem entregar interpretações tão intensas quanto à dos dois casais protagonistas. Dano faz de Alex um garoto de fala mansa e fragilidade perturbadora, que nos faz caminhar entre a compaixão e medo. E Melissa parece desde a primeira aparição uma mulher machucada pela vida e a interpretação da atriz nos indica esse caminho.

Os Suspeitos é uma belíssima estreia em território ianque do canadense Villeneuve. Angustiante, tenso, desagradável de ser acompanhado consegue nos inserir naquele ambiente sombrio e cheio de relações com a vida real. Extremamente competente como thriller e intrigante na proposta de não apoiar a posição do "olho por olho, dente por dente" é dos casos raros de entretenimento para adultos. Maduro, inteligente e sem muitas concessões.

domingo, 25 de setembro de 2011

Sem Saída
(Abduction, 2011)
Ação - 106 min.

Direção: John Singleton
Roteiro: Shawn Christensen

Com: Taylor Lautner, Lily Collins, Maria Bello, Jason Isaacs, Alfred Molina, Sigourney Weaver e Michael Nyqvist

Transformar Taylor Lautner, de galã juvenil descamisado em herói de ação "mothafucka" era a missão do diretor John Singleton (Os Donos da Rua) afastado da tela grande desde 2005. Ancorado por bons coadjuvantes (Jason Isaacs, Maria Bello, Alfred Molina, Sigourney Weaver e o sueco Michael Nyqvist), a chance crescia cada vez mais. Sem Saída poderia não ser o filme de ação do ano, mais poderia ser uma diversão descompromissada e relaxada com algum pedigree.

O título inglês (Abduction) faz muito mais sentido, do que a opção em português, já que resume o plot em uma palavra. Abduction ou abdução é um sinônimo de rapto/sequestro, e, embora sempre seja vista em referência a ufologia (as famosas abduções alienígenas) no fundo significa a mesma coisa. Sem Saída fala sobre isso. Nathan (Lautner) é um garoto comum, festeiro, sempre em busca de diversão e que vive com os pais Mara (Maria Bello) e Kevin (Jason Isaacs), que apesar de razoavelmente rígidos, parecem boas pessoas e são profundamente preocupados com o garoto. Kevin vive treinando o garoto como se o preparasse para algum evento posterior. Caso parecido com o de Eric Bana no ótimo Hanna (que sai em DVD no Brasil em breve e terá crítica do Fotograma), que funciona como mentor e treinador da garota que dá título ao filme de Joe Wright.

Tudo muda quando um apaixonado Nathan, consegue uma chance de se reaproximar de sua paixão de infância Karen (Lily Collins, que viverá a Branca de Neve na versão de Tarsem Singh da história), graças a um trabalho da escola. Durante a pesquisa do mesmo - crianças desaparecidas - Karen encontra um site que mostra fotos dessas crianças e suas respectivas atualizações para os dias de hoje. Uma delas assusta Nathan, que acaba descobrindo que é uma das crianças desaparecidas. Mas como? Ele é adotado? Se ele é adotado, por que aparece no site? E por que ele está com essa família? Quem são essas pessoas que ele chamava de pai e mãe até ontem?


Sem Saída passa os próximos noventa minutos tentando apresentar respostas para essas perguntas de forma coerente. Infelizmente, esbarra na própria pergunta. Após soltar no ar muitas duvidas, faz de Nathan uma versão adolescente de Jason Bourne que precisa descobrir sua identidade enquanto é perseguido por uma organização que deseja matá-lo. Nada de muito original, é verdade, mas que tem bom ritmo e algumas ótimas sequências de ação.

O problema é crer que o garoto do high school tem força e técnica suficiente para enfrentar capangas mercenários e bolar planos mais elaborados e geniais do que a CIA, apenas com a ajuda de sua namoradinha e de um amigo da escola.

Ao mesmo tempo, o tal McGuffin da história que faz tanta gente estar atrás do garoto (em determinado momento, o FBI e o tal bandido vivido por Nyqvist procuram o garoto ao mesmo tempo) é uma bobagem e a motivação dos personagens é clichê.


Sobram frases de efeito e momentos desnecessários, como a forçada cena romântica entre Lautner e Collins em um trem enquanto são perseguidos por meio mundo. O roteiro do filme (do novato Shawn Christensen) abusa dos maneirismos e desperdiça ótimos coadjuvantes, como Alfred Molina, relegado ao posto de homem fraco e sem pulso que comanda a investigação e que tem uma motivação extra para seu empenho, e de Nyqvist que aporta nos Estados Unidos vindo do sucesso da versão original da trilogia de Stieg Larsson (cujo primeiro livro será refilmado por David Fincher), como o vilão europeu exótico da vez.

Singleton por sua vez é um diretor em profunda decadência. Depois da estréia de alto nível, vem sendo relegado a filmes de aluguel e produções quase b. Mesmo nas sequências de ação, o diretor não consegue se destacar, não apresentando nada de novo ou que prenda a atenção do espectador. O filme começa tenso e interessante, mas depois que a revelação de Nathan surge, transforma-se em um thriller fuleiro sem grandes destaques.

Lautner - que é o melhor ator do trio principal "crepuscular" - vai bem no quesito presença, mas a idéia de um adolescente dar conta de uma série de marginais realmente não funciona. Mesmo com treinamento e a demonstração de que o garoto sabe se virar, não dá pra se deixar convencer de seu êxito tão fácil. Quando precisa demonstrar qualquer outra emoção (dor, ódio, medo, carinho) o garoto se esforça bastante, mais ainda parece um pouco imaturo, porém, é salutar o fato dele parecer estar buscando novos horizontes, menos egocêntricos e pretensiosos (como certo vampiro brilhante que vive em produções onde tem de ser galã, jamais convencendo). Taylor parece que vai seguir no caminho trilhado por Ben Affleck, que não é um grande ator, mas escolhe projetos mais modestos e mais próximos de seu talento.


Sem Saída é um filme de ação mediano, não ofende, mas está longe de conseguir seu intento. Desperdiça gente talentosa (Weaver, coitada, tem três cenas), aposta na ação juvenil, em motivações já mais que exploradas e não tem nenhum "fato novo" que possa tirá-lo do limbo das produções medíocres de 2011.