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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Eu vi - Sobrenatural 2

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.


Sobrenatural 2
(Insidious: Chapter 2, 2013)
Direção: James Wan
Roteiro: Leigh Whannell
com: Patrick Wilson, Rose Byrne, Ty Simpkins, Barbara Hershey

O primeiro Sobrenatural foi um dos filmes de terror mais interessantes dos últimos anos. Certamente, até o lançamento de "The Conjuring", o mais bacana realizado em terras americanas e que ganhou distribuição nos cinemas de uma forma mais massiva. A trama onde um garoto é atormentado por essa entidade bizarra e que levava seu pai a entrar no mundo dos sonhos (ou algo assim) para resgatar sua alma funcionou muito bem justamente por não tentar inventar a roda e manter-se seguro na "zona de conforto" do gênero.

A segunda história começa exatamente onde o primeiro terminou. Sim, é bem importante que o espectador tenha visto, ou veja, o primeiro antes de partir para essa sequência. Sem dar muitos spoilers, digo que o final da trama do primeiro filme é o mote dessa segunda. O que de fato aconteceu nesse mundo de sonhos? A partir dai o roteiro de Leigh Whannell e a direção de James Wan vão e voltam no tempo explicando o presente e o passado de alguns personagens numa tentativa de racionalizar toda aquela experiência (com o perdão do trocadilho infâme) sobrenatural.

Funciona em alguns momentos, mas o filme força a barra quando tenta criar paradoxos temporais e dar uma profundidade muito grande a tudo aquilo. Por outro lado, subverte as expectativas quanto ao vilão da primeira história o que garante algumas surpresas. O clima soturno continua marcando presença embora o ar de investigação dê ao filme uma dimensão maior e que por vezes, atrapalha o clima de terror. James Wan acertou três produções em sequência, e por mais que os filmes não sejam revolucionários e afins, divertem e conseguem atingir os objetivos primordiais do gênero.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Invocação do Mal

Invocação do Mal
(The Conjuring, 2013)
Terror/Thriller - 112 min.

Direção: James Wan
Roteiro: Chad Hayes e Carey Hayes

com: Vera Farmiga, Lili Taylor, Patrick Wilson, Ron Livingstone

Incensado (com razão) graças ao ótimo trabalho realizado em Sobrenatural, o diretor James Wan, vive um momento bastante feliz em sua carreira. Responsável pelo primeiro -e melhor - dos Jogos Mortais, o diretor tem a sequência de Sobrenatural estreando em breve mundo afora e o controle sobre a franquia Velozes e Furiosos que se mostra assustadoramente assertiva e lucrativa. Wan está caminhando para se consolidar com um dos poucos diretores do mainstream americano que assinam suas obras com características únicas.

Invocação do Mal prova seu talento para o gênero. Baseado em uma história real acontecida em 1971, o roteiro dos irmãos Chad e Carey Hayes acompanha a família Perron que acaba de se mudar para uma casa em meio à zona rural do estado americano de Rhode Island. Ao mesmo tempo, também apresenta os investigadores sobrenaturais Ed e Lorraine, um casal que ganha a vida descobrindo fraudes sobrenaturais ou enfrentando ameaças do além. O grande acerto do filme é de não ignorar um mínimo de lógica em suas ações mesmo lidando com um gênero em que a suspensão de descrença é fundamental. Ao apostar em duas linhas narrativas paralelas, o filme amplia seu foco, e dá destaque tanto aos moradores da casa amaldiçoada como aos caçadores, sem se esquecer de não fazer perguntas às quais não conseguiria uma resposta minimamente convincente.

James Wan tem completo domínio sobre a história que quer contar. É capaz de numa mesma produção ir do suspense psicológico típico de produções do subgênero "casa assombrada", com uso do som e das sombras para infligir medo no espectador, sem esquecer de apresentar cenas de impacto gráfico com alguma constância. Essa dificuldade de previsão que o público tem diante de uma produção que consegue com grande competência transitar pelo terror mais gráfico e o mais subjetivo é o que fez com que a produção ganhasse a comparação - a meu ver justa - com produções setentistas que mesmo com recursos financeiros muito menores, não tinham medo de "chocar" o espectador quando viam a necessidade. Ao mesmo tempo em que construíam um clima de tensão constante que pregava o espectador na cadeira, ansioso pela resolução da trama.



Durante quase toda a projeção é esse sentimento que Invocação do Mal nos faz sentir. Com pouquíssimo espaço para o público recobrar o fôlego, o filme embarca em uma espiral de constante tensão apesar de sua trama não ter legitimamente nenhuma novidade. Mistura casa mal assombrada, investigação parapsicológica, objetos amaldiçoados, fantasmas, crianças macabras, serial killers, médiuns e ainda arruma espaço para incutir traumas nos personagens principais. E milagrosamente nada parece fora do eixo.

Mas, Invocação do Mal não é perfeito. Incomoda-me a resolução que opta por um simplismo incomodo, não em relação às respostas dadas pelo filme aos seus questionamentos, mas a forma acelerada demais com que Wan os resolve. Por outro lado, é impossível não sentir-se impressionado com o visual e o acerto na construção dessas referidas cenas finais.

Como também é impossível não se sentir impressionado com a reconstrução de época (já que o filme é supostamente baseado em fatos reais) e nos objetos de cena. O que nos leva a macabra boneca Annabelle, um daquelas "personagens" que já estão no hall de criaturas inesquecíveis do cinema, ao lado do boneco Chucky, por exemplo. A curiosidade macabra me leva a querer saber mais "aventuras" com a misteriosa boneca. De onde ela veio? Quem teria sido seu primeiro dono?



Assim como a boneca impressiona, todo o porão dos Warren, onde uma centena de objetos do tipo está guardada poderia gerar uma infinidade de sequências, somente focando-se nas aventuras do casal de investigadores. Teria, James Wan encontrado uma nova franquia? E se sim, por onde começar? Com outras histórias do casal real? As possibilidades são infinitas.

Vera Farmiga e Lili Taylor roubam a cena como as reais protagonistas do filme. Se a médium de Vera é uma mulher essencialmente enfraquecida por suas escolhas de vida e que ela considera uma verdadeira missão, Lili é uma mãe em busca de soluções para os problemas em sua casa. Patrick Wilson tenta de todas as formas tirar o peso das costas de sua mulher e funciona como apoio racional da trama, enquanto o personagem de Ron Livingstone, o pai da família, é coadjuvante dentro da própria casa, tomado por sua mulher e suas muitas filhas, aliás uma ideia inteligente e bastante pertinente em um mundo machista como o nosso: dar força e fazer das personagens femininas fundamentais para a trama funcionar. Além de Farmiga e Lili Taylor, a filha do casal de investigadores (Judy/Sterling Jerins) e Christine (uma das muitas filhas dos Perron), que se transforma no elo entre os eventos fantasmagóricos e a realidade.

Invocação do Mal não me causou o mesmo frio na espinha que Sobrenatural havia me causado, mas, acho-o mais competente que o filme citado e mais polido. Wan melhorou como contador de histórias e o roteiro que tem em mãos apresenta maiores nuances e personagens mais bem desenvolvidos e com arcos mais bem definidos. Se não "assusta" como o seu filme anterior tem uma história melhor que mistura terror setentista (pelo clima e ambientação) com técnicas modernas conseguindo criar uma ilusão de suspense constante e energética.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Tentação


A Tentação
(The Ledge, 2011)
Drama - 101 min.

Direção: Matthew Chapman
Roteiro: Matthew Chapman

Com: Charlie Hunnam, Terrence Howard, Patrick Wilson, Liv Tyler

O problema da pretensão é de nunca conseguir atingir os objetivos. Sempre que alguém, ou alguma obra, tenta ser profunda, ou até mesmo passar uma mensagem para tocar intelectual ou emocionalmente o publico, corre o sério de risco de - no português claro - dar com os burros n'água.

Esse é o caso de A Tentação, uma produção que quer falar sobre muitos assuntos, e tenta debatê-los sem, no entanto, aprofundar-se em nenhum deles, como traição, problemas conjugais e mais diretamente o eterno e insolúvel confronto entre fé e ciência.

A historia começa de forma instigante apresentando o personagem de Terrence Howard, o policial Hollis, que acaba de descobrir que é estéril, o que o choca já que ele tem dois filhos. Ao mesmo tempo, vemos Charlie Hunnam (mais conhecido do publico brasileiro por sua participação em Hooligans) que vive Gavin, um sujeito que está na beira de um prédio prestes a se atirar. Uma vez que a policia é alertada, Hollis é incumbido dessa missão, e numa tentativa de entender as motivações daquele homem e tentar impedi-lo de se atirar prédio abaixo, passa a conhecer sua historia.


Em diversos flashbacks, com uma ligeira (bem ligeira na verdade) referencia as narrativas nos clássicos noir, conhecemos os dois outros pilares da historia: o casal de vizinhos de Gavin, o sorridente Joe (Patrick Wilson) e a sempre bela Shana (Liv Tyler), que acabam de se mudar para o mesmo prédio do personagem de Charlie Hunnam. É-nos introduzido também a principal discussão do filme, a já referida questão da disputa entre religião e o ceticismo. Gavin é um sujeito "leve", que divide o apartamento com um amigo homossexual que é portador de HIV, o que é uma tentativa de transformar Gavin, de saída, em um sujeito realmente admirável, pois não basta ele não ser preconceituoso e dividir o apartamento com o amigo gay, esse amigo tem de ter AIDS, para transformá-lo ainda mais em uma figura que ganhe a simpatia do publico.

De outro lado Joe é travado, seu apartamento é iluminado de forma difusa, dando a impressão de ser ainda menor do que é uma jaula que guarda um fanático religioso disposto a tudo para convencer o mundo de que sua visão da vida é a única correta. Já Shana, é a esposa absolutamente reprimida e que guarda um segredo sobre sua motivação para ser tão submissa ao marido "maluco".

O grande barato de A Tentação são os momentos em que os pontos de vista dos dois personagens são colocados em cheque, em especial em duas sequências antes da metade do filme. Na mais interessante delas, o filme não se furta em defender uma postura bastante questionadora sobre a origem da vida, fé e a visão religiosa sobre nossa existência.

Porém, o filme começa a escorregar demais quando apresenta a real motivação para Gavin estar naquele parapeito da janela. Apelando para os clichês de um outro gênero - o thriller - transforma a discussão arquitetada até então em motivação para a vilania banal de um ser humano abalado pelo medo da rejeição.

A direção de Matthew Chapman é segura, dando espaço aos atores e não se amedrontando diante de uma premissa tão difícil de ser vista no cinema americano. A montagem é bem realizada, e mesmo com idas e vindas do tempo não se confunde nem deixa o espectador perdido quanto à ordem dos fatos apresentados, a exceção de um momento, logo no começo do filme e que envolve o personagem de Howard, mas que surge de forma proposital, exatamente para criar uma elipse no filme e deixar o espectador na expectativa da verdade sobre aquela cena.

Não existem grandes destaques no elenco. Hunnam não compromete, mas também não brilha (sua semelhança com o finado Heath Ledger impressiona), cumpre sua função com méritos, mesmo tendo um arco final bastante ingênuo diante de uma progressão dramática tão interessante e questionadora. Liv Tyler é bela e magnética em uma tela de cinema. Seus grandes olhos azuis derretem corações, e mesmo não sendo das atrizes mais talentosas de sua geração é sempre bom acompanhá-la em papéis em que ela surge como uma menina crescida ainda a procura de seu lugar no mundo. Já Patrick Wilson beira a canastrice, e por alguns momentos não convence em seus surtos de fé transloucada, porém se redime na hora final com uma mudança de perspectiva que dá maior profundidade a suas ações. E Terrence Howard vivendo seu próprio dilema diante de uma crise é contido e seguro e é daqueles casos de ator que merecia um destaque muito maior do que tem, mesmo tendo sido indicado a um Oscar há alguns anos atrás.


A Tentação é frustrante, mas o é pois consegue envolver o espectador no seu combo de questionamento religioso/espiritual, drama humano, thriller e romance. Uma pena que Chapman não tenha conseguido (e é mesmo uma tarefa bastante árdua) dar liga em suas muitas boas intenções do filme.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Jovens Adultos

Jovens Adultos

(Young Adult, 2011)
Drama/Comédia - 94 min.

Direção: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody

Com: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson

Crescer é muito ruim. Abandonar a tranquilidade da infância e a falta de responsabilidade da adolescência, onde nossos únicos problemas são nossas notas e a garota (ou garoto) que queremos "pegar". Não sei como essa geração adolescente lida com isso (afinal tem gente que já aos 15 anos parece profundamente amargurada com a vida e fazendo força para "ser adulto" de forma até ridícula), mas sei que para mim, crescer foi uma coisa dolorosa. Adquirir responsabilidades é o que separa "os garotos dos homens", e saber que seu trabalho e suas atitudes podem sim modificar alguma coisa (para o bem ou para o mal) são exemplos desse novo status adquirido.

Jovens Adultos fala a muitos de nós diretamente, a outros como aviso do que virá e a maioria como uma lembrança do que passamos, claro que não na proporção quase apocalíptica que a personagem Mavis Gary (Charlize Theron) passa.

Mavis é uma mulher intragável. Profundamente mimada e arrogante, exemplifica claramente a adolescente que não cresceu, que vive uma vida mentirosa, que esconde sua incapacidade de encarar seus problemas por trás de uma fachada de "sou superior a humanidade". Somada a essa condição, a personagem enfrenta uma desventura em seu trabalho (espertamente o roteiro a coloca como ghost writer de uma famosa série de livros para "jovens adultos", ou adolescentes se você não for politicamente correto), quando vê seu castelo de cartas ruir, ao ser informada que a serie está sendo cancelada.


Para deixar sua vida ainda mais divertida, Mavis vem enfrentando a separação - complicada e dolorosa, como todas - do marido, e sobrevive de fast-food e uma dieta televisiva do pior que o meio de comunicação pode prover.

Quando ela recebe um e-mail com a foto do primeiro filho, do ex-namorado de colégio, tem um súbito ataque de arrogância e decide ir até a pequena cidade em que viveu boa parte da vida, e reconquistar o namorado, que hoje é um sujeito casado (e feliz).

Mas para Mavis isso não é nada, e em sua cabeça cheia de problemas, Buddy continua a amando loucamente e vive uma existência presa ao comodismo da cidade pequena e que basta um estalar de dedos para que ele perceba o quanto ela é superior a todos os outros habitantes da cidade (e do mundo talvez) e resolva partir com ela para a cidade grande.


O mais interessante do ótimo roteiro de Diablo Cody (ela mesma, vinda do desastre chamado Jennifer's Body, mas com o interessante Juno e um careca dourado no currículo) é que em momento algum somos tomados por alguma simpatia pela personagem de Charlize. Mavis é uma pessoa inconveniente, e o roteiro não faz questão alguma de mudar essa ideia, apenas elabora uma serie de "lições" para que a personagem vá percebendo - muito vagarosamente - que o melhor a se fazer é seguir em frente e não tentar encontrar respostas para o hoje no que passou. Por isso, se o espectador estiver esperando uma história edificante, sobre uma mulher que aprende que sua suposta superioridade frente aos demais não existe, melhor não assistir Jovens Adultos.

Os coadjuvantes estão muito bem. Patton Oswalt, um daqueles atores que você certamente já viu, mas que dificilmente lembra de seu nome, tem uma chance ótima de elaborar um personagem que foge do lugar comum de sua carreira. Patton é um comediante, e dizem (concordo) que são eles que têm maior capacidade de transitar com qualidade entre os gêneros cinematográficos. Mas - imagino que por puro preconceito - geralmente são deixados para brilhar em seus nichos, longe das possibilidades de personagens que possam fugir da persona criada pela mídia para os interpretes.

Por isso, é muito bom ver Oswalt vivendo Matt Freehauf, um homem marcado por uma tragédia que deixou sequelas físicas e - principalmente - mentais, e que assim com Charlize vive numa profunda amargura camuflada por hobbies exóticos. Matt faz whisky caseiro numa pequena destilaria em sua garagem e cria bonecos misturando diversas peças de outros, para criar algo novo, mais bonito e completo. A metáfora em relação a sua condição física é evidente.


Nada mais natural, então, que ambos criem um laço de amizade, já que ambos são reflexos de uma mesma coisa. Mavis parou no tempo, e ainda vive como se fosse a rainha do baile, admirando-se em todos os espelhos possíveis, tendo produzir-se cada vez mais para aparentar estar sempre tão bela quanto era aos 16 anos. É engraçado notar como a maquiagem de Charlize, apesar de todos os esforços da personagem, jamais parece verdadeiramente boa. A impressão é que a personagem nunca poderá esconder quem é, e as marcas que o tempo produziu. Jason Reitman - em mais uma direção segura, que proporciona aos atores o palco ideal para ótimas interpretações - mostra ao público que está (literalmente) na cara, que aquela mulher está fazendo um papel idiota tentando recriar uma situação que jamais acontecerá.

Matt é o homem que marcado pela infelicidade e refugiado em um mundo fantástico, vive cada dia sabendo exatamente os seus limites, sabendo onde pode pisar e como pode encontrar soluções para seus problemas. Mesmo assim, mantém a marca de que algo muito grande - e que não terá substituição - lhe foi arrancado.

Mavis vive presa ao passado de alegrias, e Matt vive preso ao presente, sem forças e nem vontade para repensar o passado de tristezas. Em um simples diálogo Matt, resume perfeitamente essa sintonia e simbiose entre as duas personagens. Quando Mavis diz que está no auge (entenda-se auge físico, menta e afins), ele rebate dizendo: "Você não está no auge, porque quando eu estava no meu auge - durante a adolescência, quando ambos se conheceram - você nem olhava para mim". Isso revela a autoimagem que Matt tem de si mesmo. Para ele é impossível conceber que uma mulher tão bonita pudesse querer qualquer tipo de amizade/envolvimento com alguém tão pequeno e inferior como ele.


Patrick Wilson vive o ex-namorado, um homem que cresceu. Que viveu sua vida intensamente durante a adolescência, mas soube o momento de guardar a jaqueta de estrela do futebol e criar uma família e encontrar algo para fazer de sua vida. E sua esposa Beth, é compreensiva e percebe o quanto Mavis é insegura e passa por problemas.

Na cena de catarse de Mavis, mantém-se tranquila, como se observasse a personagem de Charlize como uma criança que acaba de dar chilique porque não conseguiu comer o pedaço de bolo com a cereja em cima. Essa atitude é a que todos os personagens parecem ter com ela, menos a irmã de Matt, a insegura Sandra, que é responsável por encaixar a personagem de Charlize nos trilhos, lhe apontando a direção da estrada do hoje, ao mostrar que a pequena Mercury não é nada demais, e que como tudo na vida de todos nós, passa. Cabe a nós seguirmos em frente e relembrarmos aqueles momentos com uma saudosa nostalgia, mas sem traumas, mesmo que alguns deles ainda persistam em nos assombrar.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma Manhã Gloriosa
(Morning Glory, 2010)
Comédia/Romance - 107 min.

Direção: Roger Michell
Roteiro: Aline Brosh McKenna

Com: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton, Jeff Goldblum e Patrick Wilson


O gênero comédia romântica é o mais malhado pelos colaboradores e pelo editor do Fotograma sem sombra de dúvida. Não somos insensíveis, nem padecemos do mal da falta de coração ou mesmo somos mal-humorados. Apenas percebemos, pela experiência de acompanharmos uma grande (modéstia a parte) quantidade de filmes sendo lançados mês a mês, que este subgênero além de sofrer das limitações (nas produções mais fracas) de clichês exaustivos, tem ainda atores medianos na maioria de suas produções e problemas sérios quando se enxerga como algo mais do que um diversão ligeira.


Felizmente, Uma Manhã Gloriosa, é quase um milagre dentre as produções do gênero, pois consegue misturar o bom humor e a doçura (comuns nessas produções) com uma ligeira acidez (sempre bem vinda), um elenco afinadíssimo (todos muito bem) e uma certa anarquia e irresponsabilidade ao defender suas idéias, fugindo do politicamente correto.



A história acompanha a workaholic ("A" workaholic melhor dizendo) Becky Fuller (vivida com inexaurível intensidade por Rachel MacAdams) uma produtora de um programa matutino de um canal de tv de Nova Jersei. Quando o filme começa, Becky se vê sem emprego e começa a enviar desesperadamente currículos em busca de vagas de trabalho. Consegue na decadente IBS, comandada com fleuma e quase desprezo por Jerry Barnes (Jeff Goldblum) onde lhe é oferecido o cargo de produtora executiva do pior programa da casa, o quase falido Daybreak, apresentado pela histriônica Colleen (Diane Keaton divertida) e pelo chauvinista Paul McVee (Ty Burrell, conhecido pela série Modern Family). Becky de cara manda embora o apresentador e fica com a difícil tarefa de encontrar um novo ancora, ao mesmo tempo em que começa a flertar com o também produtor Adam Bennett (Patrick Wilson de Pecados Íntimos e Watchmen). O escolhido é o ácido e lendário Mike Pomeroy (interpretado pela lenda Harrison Ford, um dos únicos astros americanos ainda não oscarizado), um jornalista dono de todos os principais prêmios da tv e jornalismo americano que se ve preso a responsabilidade de apresentar o programa para conseguir ganhar os milhões de seu contrato.

O que faz de Manhã Gloriosa funcionar tão bem é seu elenco fabuloso. Além da entrega de McAdams, Patrick Wilson não compromete e Diane Keaton está muito a vontade. Mas é Harrison Ford quem opera o milagre de na mesma produção fazer rir e emocionar em questão de minutos, usando de todos os seus cacoetes e olhares que o público já conhece e que dificilmente são vistos em uma produção desse tipo, que volta a mostrar o quanto Harrison pode ser um ator cômico brilhante.



O filme também brinca com a questão notícia x diversão como pauta de um programa de tv, não tentando defender lados, mas deixando claro que há noticia cada dia mais perde espaço para as amenidades na programação. Não consigo encarar isso de maneira mais séria, pois além do filme não defender lados, ainda faz um mea culpa - ou melhor - tenta criar uma utopia onde a noticia e as fofocas podem caminhar lado a lado, já que por mais informados e interessados no mundo ao redor, todos nós (sem exceção) precisamos de um pouco de diversão e descontração.


No cerne, o filme de Roger Michell (o mesmo do também cultuado Um Lugar Chamado Notthing Hill e do gracioso Venus) é exatamente isso: descontraído, carinhoso com seus personagens e que consegue a proeza de divertir o mais endurecido dos espectadores, eu, por exemplo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sobrenatural
(Insidious, 2010)
Suspense - 103 min.

Direção: James Wan
Roteiro: Leigh Whannel

Com: Patrick Wilson, Rose Byrne, Lin Shaye, Leigh Whannel, Angus Sampson e Barbra Hershey



Apesar de não inventar a roda, o suspense dirigido por James Wan não faz feio em suas intenções: prega bons sustos no espectador e ainda consegue manter-nos fixos na resolução de sua história, infelizmente seu grande e fatal erro.


Sobrenatural acompanha a família Lambert que acaba de se mudar para uma antiga casa. Quando um dos filhos do casal - Dalton - subitamente entra em um estado de coma profundo, sem nenhuma explicação médica, Renai (a mãe) começa a suspeitar que sua casa talvez seja habitada por espíritos malignos.


James Wan é o escritor e diretor do único dos Jogos Mortais que realmente é interessante: o original. Em Sobrenatural ele não deixa de lado esse background e em alguns momentos usa dos mesmos enquadramentos e de sua obsessão perturbadora por palhaços para nos pregar sustos. Outra característica do filme é que seu diretor usa de filtros de alto contraste para apresentar as cenas "assombradas" e filtros naturalistas nas seqüências do cotidiano da família o que causa um impacto imediato e faz o público antecipar as cenas - se preparando talvez - para a carga de medo que receberá a seguir.



Apesar de aparentemente enquadrar-se no subgênero "casa assombrada", Sobrenatural é muito mais do que somente isso. Trata de outros assuntos do "além" com alguma eficiência e conseguindo provocar alguns bons sustos na audiência. Claro que muitos destes sustos não são méritos apenas de Wan, que sabe bem o que fazer com sua câmera para assustar o espectador, mas do design de som e da trilha sonora por vezes alta demais propositalmente.


Os atores em filmes assim raramente tem o que proporcionar em termos de curvas dramáticas densas ou coisa do tipo. Sobrenatural não inventa a roda e faz de seus protagonistas (a bela Rose Byrne como a mãe desesperada Renai e o taciturno Patrick Wilson como o pai Josh) reagirem as condições ao seu redor.


Wan acerta a mão também ao provocar uma série de sustos seqüenciais mantendo o filme e o público em estado de tensão constante, mas erra ao inserir dois coadjuvantes que deveriam funcionar como alívio cômico e que não conseguem mais do que risadas amarelas da audiência (um deles o roteirista do filme). Em compensação acerta em cheio na caracterização dos espíritos que - novamente - não são originais, mas que funcionam muito bem. O meu favorito é a família de espíritos "primos do Coringa" sempre sorrindo de forma macabra.



O filme ainda tem duas coadjuvantes de luxo: Lin Shaye, vivendo a médium Elise Rainer e a redescoberta Barbara Hershey como a mãe de Josh que vem a ter um papel importante no decorrer da história.


Mas o grande problema do filme e que o faz perder pontos em sua avaliação final, apesar de comum em produções do gênero, é seu final que é óbvio demais, tendo sido repetido em outras produções do gênero. Um pouco mais de ousadia por aqui não faria mal, embora faça parte da cartilha do diretor não encerrar seus filmes com, digamos, os louros da vitória.


Eficiente no que é sua obrigação, porém pouco inspirado em sua conclusão, Sobrenatural é um trabalho interessante de Wan, que se afirma como o grande diretor americano da nova geração quando o assunto é assustar sua audiência.

domingo, 4 de julho de 2010

Esquadrão Classe A
(The A-Team, 2010)
Thriller/Ação - 117 min.

Direção: Joe Carnahan
Roteiro: Joe Carnahan, Brian Bloom e Skip Woods

Com: Liam Neeson, Bradley Cooper, Jessica Biel, Quinton "Rampage" Jackson, Sharlto Copley, Patrick Wilson

A Série Esquadrão Classe-A é grande conhecida de uma geração de adultos. Uma série descompromissada e cheia de ação que tinha personagens carismáticos, episódios divertidos e um nível técnico acima da média. E ainda tinha Mr. T., engraçado e bad-ass em um papel que fez parte de uma geração e que deu evidência ainda maior para o astro. E, como todo grande sucesso da TV, a série atraiu os olhos hollywoodianos, ávidos por novas franquias, mesmo que isso nunca tenha rendido um ótimo filme nas telas. Para cada As Panteras, temos dois Sou Espião. Porém, com o tempo, o filme dos 4 especialistas no absurdo tomou forma e com uma excelente parte técnica. Liam Neeson tinha abraçado o projeto, o elenco estava ótimo, o estiloso Joe Carnahan assumia a direção e até mesmo haviam arrumado um cara parecido com o Mr. T.

Enfim, o resultado visto nas telonas é recompensador. O filme tem seus defeitos, que não são poucos, mas agrada demais. Diversão garantida e que respeita o espectador, entrando no cinema com méritos. Ao público antigo, old-school, fã da série, temos um filme respeitoso e que flerta com novos horizontes, servindo como um prelúdio da série, um A-Team Begins, não só modernizando os personagens como mantendo o espírito de cada um deles. As situações inverossímeis da série também estão aqui e só estão presentes para divertir ainda mais. Aos não-iniciados na série, temos um legítimo produto feito pra entreter por 110 minutos, que só tem a agradar mais quando visto pela segunda vez e que consegue algo que é raro e emocionante hoje em dia: cria um interesse em conhecer mais a série antiga.


A trama, assumidamente rasa, acompanha um time de soldados especiais que se encontram pela primeira vez 8 anos antes do filme. Nesse primeiro encontro, descobrimos que dois desses soldados são Hannibal (Liam Neeson) e Cara-de-Pau (Bradley Cooper) e que Hannibal está tentando salvar Cara-de-Pau de uma gangue. Porém, Hannibal precisa de um furgão. E Bosco Barracus (Quinton Jackson) está na cidade com seu furgão e encontra Hannibal no meio do deserto. Uma operação absurda depois, incluindo uma divertidíssima sequência de helicóptero, pilotado pelo insano Murdock (Sharlto Copley), e o time está formado. Porém, 8 anos depois, o grupo é acusado de traição pelo roubo de formas de dinheiro no Iraque. Presos, eles recebem a ajuda de Lynch (Patrick Wilson) e tem que provar sua inocência.

O roteiro, escrito por Briam Bloom, Joe Carnaham e o irregular Skip Woods, agrada bastante pela consciência do que ele representa. É um roteiro previsível, cheio de situações arquetípicas, mas recheadas de humor e que se assumem divertidos, sem grandes ambições. Entretenimento é a chave segundo os escritores e isso é ótimo. Em tempos de ambiciosos remakes épicos e pancadaria descompassada de robôs, Esquadrão Classe A encontra um espaço. Por mais inverossímeis que sejam as situações (a sequência do tanque é insana), elas fazem sentido e não ofendem. E a construção de personagens, uma especialidade da série e essencial pra uma possível franquia, é excelente e só ajuda o filme. Sem contar a fidelidade á série. Hannibal continua genial, Cara-de-Pau continua irresponsável, B.A continua sendo um brutamontes sensível e Murdock está mais maluco que nunca. Falando em Murdock, suas tiradas de humor são fantásticas, abrangendo de Blue Man Group até mesmo a nacionalidade de Sharlto Copley.


Nas partes técnicas, o filme também agrada. A direção de Joe Carnahan não tem a marca assinada e estilo esbanjado como em Narc e A Última Cartada, mas tem bons enquadramentos e fluidez nas cenas de ação. Acompanhando a direção, temos uma edição igualmente fluente. A fotografia do oscarizado Mauro Fiore faz uma boa homenagem á série, com tons desérticos e insiste na mania atual de retratar o Bem com tonalidades azuis e o Mal com tonalidades laranjas. Apesar de clichê, serve e é mediana. A trilha sonora de Alan Silvestri também homenageia a série e cria uma trilha tipicamente americana e com tons patrióticos, bem de exército.

Nas atuações, pontos a mais, apesar de um enorme incômodo. Liam Neeson está no limite do caricato, o que funciona. Não espere ver uma magistral atuação do ator e todos sairão satisfeitos. Bradley Cooper também segue esse ritmo, mas por estar em início de carreira, já dá pra ter um panorama maior dela. Atingindo o ápice do action guy aqui, o ator se concretiza como um ator de blockbuster acima da média, sendo engraçado quando pedido (Se Beber não case!) e tendo carisma quando pedido (como aqui). Quinton Jackson tinha a tarefa mas árdua do elenco, mas capta perfeitamente o carisma e o bom coração de B.A. Ainda mais no final, quando seu lado brutamontes entra em evidência. E, a melhor atuação, Sharlto Copley. O excelente ator de Distrito 9 já provou que tem densidade dramática, mas aqui ele mostra seu lado cômico. São dele as melhores tiradas do filme e até nas sequências de ação, suas tiradas insanas servem. Não só pra entreter, mas também pra construir o personagem como um cara insano. Jessica Biel, no papel da Agente Sosa, só serve pra ser um colírio e não compromete.



Porém, existe o tal incômodo já citado. E ele responde por Patrick Wilson. Estranho pensar que o competente ator de Watchmen e Pecados Íntimos tenha feito um personagem tão estúpido e ridículo como Lynch. Quando tem que ser engraçado, ele exagera na dose e quem dá as cartas é a vergonha alheia. Quando tenta fazer algo mais sério, tenta fazer a caricatura do vilão. Tão esdrúxulo que só faltava ele pedir pro mocinho passar para o lado dele no final. Enfim, suas cenas são tão fracas que o filme até perde ritmo, incomodando um pouco.

Apesar de Wilson, Esquadrão Classe A flui muito bem e aposta nas cartas certas, provando que entretenimento puro e divertido pode render bons filmes, sem incomodar a crítica. Apesar de não ser relevante artísticamente, vale a pena gastar dinheiro com o filme. Joe Carnahan, apesar de ter acabado com seu lado autoral e ter se rendido aos caprichos de estúdio com esse blockbuster, consegue criar um universo divertido e interessante, apesar da densidade dramática zero. Agora fica a torcida pro filme arrecadar bastante, pra que haja uma sequência tão frenética quanto essa.