quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O Mandaloriano e Grogu

O Mandaloriano e Grogu

(The Mandalorian and Grogu, 2026)


Direção: Jon Favreau
Roteiro: Jon Favreau, Dave Filoni e Noah Kloor
com: Pedro Pascal, Sigourney Weaver, Jeremy Allen White

Propósito é uma questão inerente ao ser humano. Buscamos por ele, o tempo todo. Viver sem propósito é uma questão metafísica complexa e que trás dor e agonia.

Propósito é algo que O Mandaloriano e Grogu não parece preocupado em encontrar. Em suas longas (muito longas) duas horas e doze minutos, vemos uma aventura banal, simplista e mais óbvia que uma linha reta. Quando foi que Star Wars deixou de ter um sentido e um propósito, que seja o mais direto: divertir a audiência?

Pois divertir o filme não consegue. Tem lapsos, momentos, frames, algumas criaturas bem feitas em computação gráfica, mas não tem alma, não tem peso e não causa nenhuma impressão. Quando o filme saiu nos cinemas, muitos disseram que parecia um episódio longo da serie em que os personagens surgiram. 

Discordo. 

Para parecer com a serie, deveríamos ter um mínimo de senso de urgência e um pequeno (lembremos ainda é Star Wars) temor pela vida dos protagonistas. Aqui nada disso acontece: você sabe que o Mandaloriano vai sobreviver. Você sabe que jamais alguma coisa aconteceria com o Grogu e que no fim tudo vai dar certo.

Eu entendo a questão do conforto da previsibilidade, mas existem limites. Limites esses que aqui são ultrapassados e por muito. Uma coisa é criar uma aventura escapista no universo Star Wars. Outra é pegar personagens que já foram apresentados ao público em duas temporadas de uma serie e criar mais uma história óbvia e que não move esses personagens. Esse é daqueles filmes que não arrisca em absolutamente nada, e tão insosso que até mesmo falar à respeito parece desperdício de tempo. 

Ele não provoca nada. Nem uma reação de amor, nem a de ódio. É um fast food frio, com refrigerante sem gelo. Não esperava que Star Wars pudesse descer mais baixo que suas series live action (tirando Andor que é excelente) ou de Solo, mas caras, eles conseguiram. 

Pegaram todo o potencial que o personagem Mandaloriano tinha na serie, o charme de seu código de conduta ilibado, seu senso de justiça retinto e os mistérios sobre a origem de Grogu e decidiram... não fazer nada com isso. Faz aí um puxadinho da serie, uma historinha que possa ser resumida em um tweet (de 140 caracteres) que começa do nada e vai a lugar nenhum e lança... no cinema ainda por cima. 

Não por acaso o público não comprou. Star Wars está velho. E não falo isso com etarismo em mente, mas como a constatação de que parece uma história anacrônica que tenta encontrar um rumo e falha miseravelmente toda vez que tenta replicar uma magia que não tem como replicar. 

1977 foi a quase cinquenta anos, e não vai voltar. Ou a franquia entende isso e tenta encontrar um caminho naturalmente condizente com o momento e o público de hoje, ou vai virar peça de museu, como tantos outros clássicos do cinema que hoje são relembrados pelo público cinéfilo, mas que não respingam no mainstream. 

Claro que vão fazer mais, afinal a fanbase é grande, mas está envelhecida. E ficando cada vez mais impaciente e cansada. Mandaloriano e Grogu é mais um prego nesse caixão estelar que parece destinado a explodir num dos três sóis de Tatooine. 




terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ameaça Profunda

Ameaça Profunda

(Underwater, 2020)

Direção: William Eubank
Roteiro: Brian Duffield e Adam Cozad

com: Kristen Stewart, Vincent Cassel, T.J. Miller, Jessica Henwick, John Gallagher Jr, Mamoudou Athie

A expressão "guilty pleasure" é daquelas expressões complicadas de realmente explicar. Muita coisa classificada pela maioria, como boa ou mesmo excelente, acaba entrando nessa categoria, quando de fato, o tal "prazer culposo" é muito mais relacionado a obras que você como espectador/leitor tem uma ligeira (ou total) consciência de que não e lá grande coisa. A história pode não prender, os personagens podem ser odiáveis, o ritmo com mais lombada que as ruas perto de casa, ou simplesmente não ser tudo isso. Não dá para um filme nessa categoria ser aclamado por público e crítica. Ele precisa estar sob o radar, navegando incólume a atenção das pessoas. 

É o caso desse Ameaça Profunda, filme de 2020 lançado ali na pandemia e que passou batido, pouca gente viu, menos ainda falou sobre e foi derramado ai nos streamings na vida (hoje está no Disney+). 

E o que faz dele pra mim. um guilty pleasure?

A mistura desbalanceada, mas divertida entre ser um sub-Alien e uma história lovercraftiana.
A trama acompanha a personagem da Kristen Stewart (Norah) e mais um grupo de marinheiros que trabalham numa estação abaixo do mar (mas assim, muito abaixo do mar, quase roçando o fundo do fundo) e sofrem um acidente e precisam sobreviver. 

No começo tudo parece um acidente causado por falha mecânica ou algum fator explicável pela mente humana, porém com o decorrer a trama a coisa vira o tal sub-alien lovercraftiano. 

O filme é bem tenso, deverás escuro, com efeitos espertos e que se aproveitam demais do ambiente sombrio para serem efetivos. Os personagens não tem lá muito tempo de desenvolvimento, uma vez que o ritmo da história é de um Fórmula 1 em plena reta, sendo intenso do inicio ao fim. Kristen Stewart que protagoniza o filme entra bem no estilo "poucas palavras-muita ação" uma vez que ela está sempre precisando resolver alguma coisa ou consertar algo ou salvar a vida de alguém. 

O que não torna o filme inesquecível é que essa fórmula é conhecidíssima e se você já viu Alien ou qualquer slasher dos anos 80, já entende que você tem ali o estereótipo de final girl, os sacrifícios necessários e a vilanização da corporação sem rosto. Isso faz da experiência bastante previsível de sua metade em diante, o que não tira o brilho da boa execução, tirando ai o fato do filme ser escuro demais, o que incomoda em alguns momentos. 

A gente tá muito acostumado, principalmente pelo preço dos ingressos, a usar muito o fígado para "julgar" arte. Ou ela precisa ser brilhante ou ela é uma porcaria. Isso cria uma floresta de filmes medianos, divertidinhos e que não comprometem a experiência meio que abandonados. Sorte que, diferente de quando esse blog publicou sua última crítica, tem uns duzentos streamings para que esses filmes possam ser vistos.




sexta-feira, 4 de setembro de 2026

11 anos depois

 Onze anos atrás eu escrevi (não tinha IA pra fingir) minha última "crítica" nesse blog. De lá para cá, muita muita, mas muita coisa mesmo, mudou. Tanto na minha vida pessoal, quanto no mundo ao redor.

Começando pela parte mais fácil, o mundo ;) Como já citei não tinha IA para "melhorar o texto", a internet era bem diferente do que é hoje, as redes sociais muito menos poderosas do que ficaram, o país ainda não vivia uma polarização tão intensa (embora as hoje chamadas "jornadas de Junho" já tivessem acontecido dois anos antes), a terra ainda era redonda e as vacinas eram confiáveis para 100% da população mundial. 

Já minha vida, essa deu um giro de 180o. Trabalhei bastante, ganhando menos do que deveria, tive filhos e principalmente minha cabeça mudou. Lendo alguns dos textos aqui eu me vejo mais esperançoso e menos cínico. Por muito tempo esse blog foi uma espécie de terapia ocupacional sem fins lucrativos.

Eu só sentava depois de ver um filme e escrevia o que queria. Isso não mudou. Ainda tenho esse método, ou pretendo ter. 

O que talvez mude é que se eu dava muita atenção ao outro. Hoje, mais velho e entendendo que a internet não é - nem de longe - a vida real, minha atenção para o que fulano acha de mim é nula. Se você curtiu o que eu escrevi bacana, fico feliz de você ainda exercer o domínio da leitura de mais de um parágrafo. Se não, obrigado também. Valeu pela visita.

Enfim, pretendo voltar a escrever aqui vez ou outra, como uma terapia ocupacional mesmo. Não pretendo seguir calendário de lançamento, escolher o que vai hittar ou farmar aura (to atualizado nas gírias). Vou no free style. Vi, acho que tenho algo a dizer, vou lá e escrevo. Simples assim, do mesmo jeito que esse blog começou a mais de uma década atrás. 

terça-feira, 3 de março de 2015

Relatos Selvagens

Relatos Selvagens
(Relatos Salvajes, 2014)

Direção: Damián Szifrón
Roteiro: Damián Szifrón

com: Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Oscar Martínez, Erica Rivas, Walter Donado, Julieta Zylberberg, Rita Cortese, Diego Gentile

Uma coletânea de diversas situações extremas em que o acaso, o destino ou o que quer que se acredite ditam as regras. Os tais "Relatos Selvagens" são pequenas histórias que representam momentos de desespero humano diante da injustiça, mentira e fúria. Um homem que se enxerga como vítima de todos a sua volta, uma garçonete que reencontra um homem que a fez muito mal no passado, uma disputa no trânsito, um homem em busca de justiça quando seu carro é rebocado, um acidente de trânsito com consequências terríveis e a pior festa de casamento da história. Todas elas misturando na mesma medida horror, suspense, non-sense e até um pouco de comédia, transformando o filme em um espetáculo de humor negro.

O que se destaca é a imprevisibilidade da maioria das situações, o texto afiado e as grandes interpretações dos atores, destacando-se o figurinha fácil do cinema argentino Ricardo Darín, Erica Rivas e Oscar Martínez nos seguimentos mais longos do filme. Não é difícil entender o sucesso do filme já que ele se relaciona facilmente com muitos de nós. Aqui, a coisa só é elevada a enésima potência e mesmo naqueles mais simplórios (o de Darín e o do homem que se vê como vítima) existe um toque de surpresa e fantasia. Alguns beiram o non-sense, outros usam da crítica social (de leve) para surpreender o espectador e outros beiram a anarquia. Tudo bem organizado, bem montado e com momentos muitíssimo satisfatórios.

Num mundo ideal, filmes como esse (e sendo bem honesto quase toda a lista dos estrangeiros) teriam sido os nomeados ao principal prêmio do cinema americano, com os demais filmes fazendo apenas figuração.

★★★★

segunda-feira, 2 de março de 2015

Conto da Princesa Kaguya

Conto da Princesa Kaguya
(Kaguyahime no monogatari, 2013)

Direção: Isao Takahata
Roteiro: Isao Takahata e Riko Sakaguchi

Faço votos para que esse não seja o último dos filmes do Studio Ghibli. Porém, se essa nefasta possibilidade se concretizar, essa é uma das mais belas histórias já apresentadas pelo estúdio e uma despedida bastante digna.

Adaptado de uma lenda do folclore japonês, o mais longo filme do estúdio é uma delicada e emocionante história sobre um casal de camponeses que encontram uma criança dentro de um bambu e a criam como sua filha transformando-a na Princesa Kaguya.

Muito já se disse a respeito da opção do diretor Isao Takahata (o mesmo do seminal O Tumulo dos Vagalumes) em fazer seu filme com essa técnica de animação que parece saída de uma pintura de aquarela ou esboços mais ríspidos - nas poucas, mais lindas sequências de ação. Funciona perfeitamente para a ideia do filme, que é suave e parece deslizar na tela. Um pouco longo (eu tiraria uns 10 minutos), mas essencial. Em um mundo em que todas as animações parecem precisar ser em 3D, Kaguya merece ser vista por sua enorme qualidade e por ainda compreender que um lápis e um papel podem dar vida a qualquer coisa.

★★★★½


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O Juiz

O Juiz
(The Judge, 2014)

Direção: David Dobkin
Roteiro: Nick Schenk, Bill Dubuque

com: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Vera Farmiga, Billy Bob Thornton, Vincent D'Onofrio

Longo demais esse drama de tribunal/envelhecimento que reúne Robert Downey Jr. e o brilhante Robert Duvall. Downey é o filho advgado do juiz interpretado por Duvall que tem problemas sérios de relacionamento com o pai e que se ve obrigado a voltar a cidade pequena (mas que clichê) quando sua mãe morre. A partir daí seu envolvimento na família e nos problemas gravíssimos que acometem seu pai apenas aumentam.

A graça do filme é acompanhar os dois atores "duelando", mas a história é tão requentada e as reviravoltas tão melodramáticas e rocambolescas que não consegui me conectar aos personagens ou me emocionar com seus dramas, por mais humanos que sejam. Entendo que a trama até funcione e o embate entre o mal humor e a retidão moral de Duvall e o cinismo de Downey (aqui, finalmente deixando de ser Tony Stark) rendem bons momentos, mas a impressão de que o filme não está indo pra frente é enorme.

Com um final que - apesar de poético - você telegrafa um ano antes, "O Juiz" é um filme protocolar, daqueles que não conseguem um destaque na prateleira.

Obs: A indicação de Duvall por esse filme é desproporcional. Apesar de bom trabalho, o ator já esteve muito melhor em outros momentos e outros atores poderiam ter levado a vaga.

★★½





quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Caminhos da Floresta

Caminhos da Floresta
(Into the Woods, 2014)

Direção: Rob Marshall
Roteiro: James Lapine

com: Anna Kendrick, Daniel Huttlestone, James Corden, Emily Blunt, Christine Baranski, Meryl Streep, Lucy Punch, Tracey Ullman, Lilla Crwaford, Johnny Depp

Existe um momento em "Into the Woods" em que um dos personagens canta que não aguenta mais. Essa é a sensação que tive depois de pouco mais de vinte minutos desse péssimo musical que tenta misturar uma dezena de contos de fada em um mesmo balaio sem muita competência. Muito diferente do que a brilhante série em quadrinhos "Fábulas" ou a razoável "Once Upon a Time", falta muita coisa para que essa produção seja meninimante interessante.

Sendo um musical (e esse é daqueles em que só se canta, onde foram parar os musicais com números de dança?) esperasse competência das canções, principalmente quando se descobre - eu não sabia - que a produção de cinema é uma adaptação de uma musical de palco. Infelizmente, as músicas são muito fracas e quase todas as interpretações abaixo da crítica, especialmente as crianças que interpretam Chapeuzinho Vermelho e João (do Pé de Feijão). Johnny Depp faz uma ponta (péssima, o que vem se tornando um hábito em sua carreira) e Meryl Streep até que tenta mais não tem jeito jeito. Anna Kendrick e Emily Blunt ao lado do comediante britânico James Corden são os que se saem melhor, mas existe pouca inspiração na trama que segue - com algumas ligeiras mudanças - os fatos de alguns dos contos de fada mais famosos do mundo até sua metade, quando ocorre uma ruptura forçada e que dá origem a um terceiro ato absurdamente sério e deslocado diante do humor brega e exagerado que vinhamos até então.

Forte candidato a entrar na listinha de piores do ano de 2015, Into the Woods é um dos musicais mais fracos do século XXI, com atuações canastras, músicas fajutas, direção de arte pouco inspirada, figurinos fraquinhos (o que é o lobo mal?), efeitos visuais fajutos (os gigantes nunca aparecem e quando os vislumbramos notamos a falta de acabamento nos efeitos visuais) e uma trama que vai de aventura cômica meia boca a dramalhão insuportável.

★½ 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Livre

Livre
(Wild, 2014)

Direção: Jean-Marc Valée
Roteiro: Nick Hornby, Cheryl Strayed

com: Reese Whiterspoon, Laura Dern

Esse é um trabalho que sai perdendo seu impacto por ser parecido (concetualmente) com "Na Natureza Selvagem", que é um filme um pouco mais antigo e que tem um legião de fãs. Em ambos vemos a luta do ser humano comum (leia-se que não é um atleta ou que está fisicamente preparado) para sobreviver em um ambiente naturalmente hostil: a natureza. Porém, enquanto "Na Natureza" abordava o desiludido rapaz que foge da vida na cidade em busca de um novo caminho, aqui Reese Whiterspoon está em busca de redenção. Baseado na vida de Cheryl Strayed, Resse vive uma mulher que perdeu muito e que está tentando encontrar uma forma de começar a viver novamente.

O roteiro de Nick Hornby é inteligente ao não apostar no dramalhão, e misturar os momentos mais ousados - emocionais e fisicamentes - com outros mais leves deixando com que a "via crucis" da personagem seja melhor deglutida pelo espectador (penso eu).

A força do filme está mesmo em sua protagonista em um bom drama de redenção e superação de limites. Não é espetacular, mas tem seus bons momentos (especialmente nos flashbacks em que vemos os problemas emocionais e de convívio e vício da personagem). Whiterspoon é uma atriz competente, mas, que ainda não conseguiu apresentar em sua carreira, uma sequência de bons filmes (mesmo já tendo levado um Oscar pra casa por "Johnny e June" merecido). "Livre" talvez seja o início de uma nova fase na carreira da atriz.


★★★