Mestres do Universo
(Masters of the Universe, 2026)
Direção: Travis KnightRoteiro: Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee
com: Nicholas Galitzine, Jared Leto, Idris Elba, Camila Mendes, Jóhannes Haukur Jóhanneson, Jon Xue Zhang, Alison Brie, Sam C. Wilson, Charlotte Ridley, James Purefoy, Morena Baccarin Christiaan Bettridge e Kristen Wiig.
O melhor blockbuster de 2026 não fez sucesso nas bilheterias, mas felizmente, parece ter encontrado o público no streaming. Dá pra entender um pouco o "fracasso" de bilheteria se levarmos em consideração que a divulgação do filme foi um tanto bipolar. Hora parecia "séria e adulta", hora parecia "colorida e leve". Talvez isso tenha confundido o público? Ou talvez os interessados nessa trama são velhos-cansados-que-preferem-ver-em-casa-do-que-encarar-uma-sessão-de-cinema-cheia-de-gente-chata?
Seja uma coisa ou outra (ou até mesmo uma terceira opção), o fato é que Mestres do Universo é muito feliz em praticamente tudo que se propõe. Entende claramente o que quer fazer e consegue ser autocrítico, sagaz, levemente profundo e divertido.
O filme não esquece que é baseado numa linha de brinquedos que gerou um desenho cujo objetivo era vender e gerar lucro. Isso é fundamental para que a leitura da obra seja precisa: ela sabe que é uma bobagem, ela abraça essa cafonice e não ter vergonha em momento algum dela. Sejam pela inúmeras frases de efeito com múltiplos sentidos, seja pela fotografia colorida, seja pelo tom dos personagens que em momento algum se levam a sério.
Mesmo o protagonista, que passa por um jornada de auto descobrimento e de compreensão de seu papel como homem no mundo, entendendo que sua masculinidade não é medida pelos músculos, mas que às vezes, eles são a única resposta contra o mal verdadeiro, não é lá muito sério.
Desde já a sequência em que o vilão Esqueleto entra na cabeça do He-Man já é cinematograficamente histórica, com dezenas de camadas de interpretação que podem sugerir desde uma psicose do protagonista, a uma leitura óbvia e não por isso errada, do mote clássico do personagem, a tal da eu tenho a força.
O filme perde bastante tempo nessa construção do que é a tal da força e mesmo em um blockbuster claramente leve, ainda sim levanta algumas boas discussões sobre masculinidade.
Todo o elenco está bem, com destaques óbvios para Nicolas como He-Man, Idris Elba como Mentor e o cancelado Jared Leto que numa performance quase imperceptível e despojada de ego , constrói um Esqueleto no tom exato. Canalha, malvado, idiota, um típico ditador bufão que fala muito e por ter muito poder ganha força pelo medo embora na verdade ninguém respeite, leve a sério.
Esqueleto é o contraponto de masculinidade que He-Man apresenta. Enquanto o herói parte do "vamos conversar primeiro" e em sua jornada encontra o equilíbrio entre "teoria e prática" , o vilão é o macho típico: idiota, brutalhão, com péssimo humor e nada inteligente. Não é difícil imaginar em quem o Esqueleto votou, digamos assim.
Já o Mentor é talvez a representação mais honesta da crise de masculinidade que passamos. Ele tem um jeito de ver, agir e compreender o mundo, porém, durante o filme começa a perceber que o mundo mudou e que ele não precisa mais seguir certos dogmas que pareciam escritos a ferro em sua mente. Como exemplos disso, a primeira sequência de ação tem Mentor dizendo a Teela, que é claro que ele vai vencer enquanto na última ele simplesmente fala que "fará o seu melhor e mesmo com medo vai lutar". Percebe a diferença? Ele continua agindo, mas se no primeiro momento ele escondia o que de fato sentia com medo de um julgamento emocional, no segundo momento ele simplesmente não precisa mais fingir uma pose heroica para ser herói.
E tudo isso é dito com muito humor, sem parecer palestrinha e com ótimos momentos de ação, toneladas de fan service para quem conhece o lore de He-Man e momentos de emocionar.
Como uma cria oitentista que consumiu He-Man com enorme voracidade quando criança confesso que me emocionei em alguns momentos. A primeira transformação, o discurso da Feiticeira sobre a força, o final apoteótico, tudo isso funciona muito bem.
Tecnicamente é um filme muito competente. A construção de Eternia é eficiente, realista na medida certa e nunca cai para o "realismo dark Zack Snyder'. Como disse, o filme sabe que é um filme de hominho e essa percepção é a grande chave para a qualidade do filme.
Contar com Brian May do Queen para criar o tema de Eternia (saído dos anos 80) e a inclusão de Princess of the Universe da mesma banda em um outro momento do filme, fez clicar a semelhança dessa produção com a injustiçada - e que parece estar sendo redescoberta e entendida - versão de Flash Gordon dos anos 80, que fez basicamente a mesma coisa. Entendia que essa história de hominho não era tão séria assim.
Fico com pena de quem não entendeu o tom do filme e queria ver "um Conan muito macho com sua longa espada poderosa" e não entendeu que o He-Man nunca foi isso, mas uma autoparódia tão eficiente que ao mesmo tempo em que divertia as crianças nos dava uma bizarra lição de moral todo fim de episódio. Essa era a força. E ela continua muito poderosa.