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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma História de Amor e Fúria


Uma História de Amor e Fúria
(Uma História de Amor e Fúria, 2013)
Drama - 78 min.

Direção: Luiz Bolognesi
Roteiro: Luiz Bolognesi

com as vozes de: Selton Mello, Camila Pitanga, Rodrigo Santoro

(obs: por se tratar de um filme que tem em sua narrativa diversos avanços temporais, essa crítica acaba tendo spoilers).

O Brasil não tem tradição no mundo dos longas metragens animados, sejamos claros. Por uma serie de motivos que vão desde a dificuldade técnica para criá-los (no passado), até a captação de recursos complicada, a concorrência com os produtos que vem de fora, passando até pela falta de interesse de uma serie de realizadores, que talvez enxerguem a animação apenas como mais uma forma de entretenimento para crianças, tudo isso contribui para a quantidade mínima de animações em longa metragem feitas por aqui.

Não é assim que pensa Luiz Bolognesi, que usou a incomensurável tela em branco que é a animação para produzir seu novo filme, uma história séria, cheia de críticas sociais agudas que se traveste de história de amor, conseguindo sucesso na primeira contenda e ficando na média na segunda tentativa.

Tecnicamente, para uma geração acostumada a ver animações em 3D pipocando na tela, o visual da produção pode parecer sem refinamento e de fato sofre com alguns problemas no sincronizar entre as vozes ditas pelos atores/dubladores e o que é visto na tela. Um mal que mesmo em produções bem antigas, a Disney (pra ficar num exemplo bem grandioso e até injusto admito) não sofria. Por outro lado, o visual da ação bebe muito no anime com sequências simples, trechos que parecem saídos de um splash page de quadrinhos, misturado com a fluência e realismo dos cenários que bebem na fonte dos japoneses.



A trama divide-se em quatro contos sobre esse homem que não morre e que foi agraciado com esse dom para combater Anhangá, a encarnação do mal para os tupinambás (segundo o filme, confesso que não sei se isso corresponde à verdade dos fatos). Em sua primeira aparição cerca de cinquenta anos depois do descobrimento do Brasil, Selton Mello dá voz ao índio tupinambá que vive encantado por Janaína (voz de Camila Pitanga) e que tenta a todos os custos evitar uma guerra entre sua tribo - que é auxiliada pelos franceses - contra os tupiniquins e seus aliados, nossos colonizadores lusitanos. Nesse primeiro trecho, Bolognesi faz sua primeira crítica. Colocando uma gigantesca cruz subindo nas praias da Guanabara para ilustrar seu destemor ao falar dos massacres produzidos pelos colonizadores diante dos índios, verdadeiros "donos" da terra. O poder dado ao índio o faz voar, mas apenas quando ele se encontra em real perigo, portanto, vendo sua tribo e sua amada ser morta ele, se transforma em um pássaro e voa para o norte, local da segunda trama.

Em 1800, a trama gira em torno da revolta da Balaiada, transformando o herói indígena em Francisco dos Anjos Ferreira o idealizador do movimento revolucionário que lutava contra o governo central do Império e que acabou devassado pelo exército liderado por Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias. Bolognesi aqui aponta seu fuzil na cara do exército e da exaltação de quem o filme acusa ser, um assassino.

A trama ainda aponta para um momento mais óbvio da história do país, a ditadura militar. Em um período onde vemos infelizmente uma série de pessoas vendo vantagens no tirânico momento de nossa história, Bolognesi fala daqueles mesmos crápulas que a história - felizmente - vem condenando.



E no futuro, o segmento mais criativo, Bolognesi cria um Rio de Janeiro protegido por milícias particulares que transformaram a cidade numa metrópole "segura" mas fascista, onde todos aqueles que contrariam a ordem do poder são chacinados. A batalha é pela água controlada por uma empresa multinacional muito poderosa que me pareceu lembrar a Petrobrás, pelo menos no conceito de empresa nacional. Talvez Bolognesi não esteja criticando a empresa em seu filme, mas use seu nome para representar a empresa fictícia Aquabrás.

Em todos esses segmentos duas coisas são claras: que o amor do herói imortal por Janaína não tem fim, em suas muitas re-encarnações e seu apreço pela ideia de que os heróis do Highlander tupinambá não se transformaram em estátuas, mas viraram rodapés em livros de história.

É uma postura ousada para o cinema comercial nacional, e Bolognesi é inteligente ao apostar na animação para contar sua história. Além de provar o tal espaço em branco para a criação de exércitos indígenas, batalhas entre os balaiados e o exercito, torturas dos militares e uma cidade saída do encontro entre Akira, Matrix e toda a sorte de animações futurísticas, atinge o curioso, o mais jovem na tentativa de transmitir a mensagem de não acreditar apenas na versão oficial. De não crer cegamente no que o seu livro de história conta. Pesquisar, ir além do lugar comum, o que é salutar, não importando aí sua posição política, já que uma sociedade justa e correta é aquela que tem o acesso universal a cultura e conhecimento.



Como disse, o grande destaque técnico do filme vai para a construção dos cenários dos diferentes ambientes em que a historia se passa. Se os personagens e a movimentação dos mesmos não são grande coisa, esses elementos são balanceados com os ambientes ricamente construídos e que trafegam do foto realismo da floresta, da influência barroca nos anos de 1800, na linguagem de quadrinhos nos anos 60 e nos néons azuis e no alto contraste no futuro.

Se as mensagens políticas são bem apresentadas e funcionam bem, o romance não agrada de todo. Talvez pelos personagens não estarem tão desenvolvidos, não consegui acreditar nesse amor profundo do nosso Highlander por Janaína. O romance me parece apenas uma desculpa para manter o protagonista interessado em combater o mal, já que a forma com que ele conhece e desenvolve seus poderes também surge de forma corrida.

Pela ousadia de abordar temas adultos num formato que no Brasil dificilmente recebe essa temática, História de Amor e Fúria merece a atenção. Talvez não atinja seus objetivos como narrativa, já que sua premissa de amor além dos tempos empaca no desenvolvimento dos protagonistas, mas tem ideias sérias e bem apresentadas por baixo da cobertura.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Billi Pig

Billi Pig
(Billi Pig, 2012)
Comédia - 95 min.

Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: Ronaldo D'Oxum e José Eduardo Belmonte

Com: Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Preta Gil, Milhem Cortaz, Otávio Muller e Tadeu Mello.

Billi Pig não é para mim. Percebi isso nos primeiros cinco minutos do filme, quando Grazi Massafera acorda depois de ter um bizarro sonho em que se vê fazendo um ritual em busca de talento - que a personagem não tem - e que envolve um Oscar de mentira, um grupo de índios estranhos e... um porco realizado em um CG paupérrimo cor de rosa.

Isso significa - o fato de ter notado que o humor praticado por Billy Pig não funcionar comigo - que o filme seja ruim? Sim, e não. Significa que, o diretor José Eduardo Belmonte é deverás ousado pois em tempos de comédias brasileiras com cara e jeito de programa de televisão, vai muito mais longe, na origem da comédia popular no cinema nacional: as chanchadas da Atlântica, e só por isso Billi Pig já merece respeito. O que obviamente não significa que o texto funcione sempre (na verdade, ele funciona quase nunca), mas quando acerta, acerta em cheio fazendo o espectador rir sem muito pudor.

A história gira em torno de dois trapaceiros Selton Mello (fazendo ele mesmo) e Milton Gonçalves (depois de muito tempo fazendo pontas no cinema brasileiro recente, aqui tendo a chance de protagonizar de verdade uma produção) que se aproveitam da crendice popular sobre o personagem de Milton - um padre/charlatão que diz operar milagres - para aplicar um golpe em um traficante especialmente rico e que se vê em uma situação aterrorizante: sua filha única está em coma, e desesperado o bandido apela para - literalmente - os céus em busca de solução.


Junta-se a dupla, a grande revelação e novidade de Billi Pig, a já citada Grazi Massafera. Além de deslumbrante (o que o mundo já sabe), a jovem surge descontraída, sem medo da paródia e revela ser uma comediante de futuro e uma atriz de recursos. Quando assistirem ao filme, notem o cuidado em transformar cada frase da personagem em uma coleção de possíveis gags e a simplicidade como a atriz consegue surgir simplória, mas ainda sim graciosa. Realmente é uma grata surpresa.

Marivalda - a personagem de Grazi - é afligida por conversas (imaginárias ou não) com um porco cor de rosa de plástico, que funciona como conselheiro/amigo da personagem. Na bizarra lógica do filme, onde tudo é uma grande palhaçada, isso até funciona, embora o texto seja daqueles tão exagerado e tão ruim, que em alguns momentos acaba funcionando exatamente por isso, por ter a real noção de que está fazendo uma gigantesca piada.

Só assim para engolirmos, patos azuis, números musicais com música brega (a trilha sonora é na linha de O Palhaço, resgatando símbolos do brega no Brasil, o que parece estar na moda), tiroteios, esteriótipos físicos, e até um final - que não vou contar - que remete aos folhetins da TV. Ou mesmo o plot - muito mal explicado - sobre o padre e sua amante, que é filha da dona de uma funerária que por sua vez é cobiçada por um de seus empregados, um simples ex-jogador de futebol meio abobalhado. Entenderam?


Outro problema - e esse um problema mesmo, e não uma ideia de fazer graça - é a de que muitas sequencias estarem no filme sem muito sentido. O próprio plot da funerária entra e sai do filme sem grande função, assim como as personagens que fazem parte desse "núcleo". São pequenos sketches que funcionam razoavelmente bem, mas que no conjunto do filme estão perdidos, sem grande acréscimo a produção.

Como sempre costumo dizer - e às vezes, escrever - fazer humor é infinitamente mais difícil do que fazer drama. A prova é a quantidade de filmes dramáticos laureados todos os anos e lembrados e a desértica colaboração das comédias na soma geral de grandes filmes do ano. Billi Pig é uma comédia que finca seu pé nas chanchadas e faz isso com ligeira competência. Não é um bom filme, longe disso, mas aqui e ali, podemos ver - talvez - uma saída tipicamente nossa para a armadilha das comédias pasteurizadas e chatíssimas com cara de novela das sete. E isso é um grande avanço, mesmo com porcos de plástico feitos em CG.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Reis e Ratos

Reis e Ratos
(Reis e Ratos, 2012)
Drama/Comédia - 111 min.

Direção: Mauro Lima
Roteiro: Mauro Lima

Com: Selton Mello, Otávio Muller, Cauã Raymond, Rodrigo Santoro, Rafaella Mandelli, Paula Burlamaqui e Seu Jorge

Confesso que não fiz sequer uma anotação sobre Reis e Ratos antes de escrever o texto. Em geral (isso não é regra, cada um faz do jeito que acha melhor), sempre anoto algumas coisas a respeito do filme antes de começar a escrever minhas impressões sobre o mesmo. Não foi o caso desse filme. E por favor, não encare isso como um elogio. Faltaram-me conceitos e palavras para tentar entender que monte de bobagens eu tinha acabado de ver. Um filme acéfalo e que tem o humor raso de um Zorra Total, a paródia digna de um Casseta e Planeta e a preocupação política de uma Praça é Nossa.

Pior, recheada de gente talentosa, fazendo o pior trabalho possível, achando que realmente está soando engraçado. Reis e Ratos é uma piada sem graça, contada num salão vazio para uma platéia de fantasmas.

Comecemos com a história, que é uma paródia de uma serie de filmes de espionagem e sobre a guerra fria, e que envolve um grupo de personagens pé de chinelo e seu envolvimento no golpe militar. Segundo a "lógica" do filme, um grupo de conspiradores, que envolve um agente da CIA que é dono de loja de sapato, um fazendeiro do interior e um integrante do exercito brasileiro.


Junto a essa "turminha da pesada" está uma cantora que vem do Rio Grande do Sul (que a produção faz questão de enfatizar com um sotaque irritante), um locutor de rádio gay, que é "curado", pela tal cantora do Sul (spoilers) e um marinheiro negro e comunista.

A ideia é que tudo isso fizesse algum sentido e principalmente tivesse graça. E não acontece. O humor que é baseado em uma mistura satírica de "homenagens" ao cinema de espionagem e ao cinema noir americano, não funciona em momento algum, sujeitando atores talentosos a uma serie de piadas fracas e que só reforçam a falta de noção do roteiro pavoroso.

Selton Mello, um dos bons atores nacionais, aqui além de apresentar um pavoroso sotaque (uma versão light de Fucker e Sucker do pavoroso Casseta e Planeta) ao seu personagem, ainda parece deslocado e imitando a si mesmo em uma coleção de frases de efeitos medíocres, todas inspiradas num suposto humor cool.


Santoro e Raymond também não podem fazer muita coisa. Santoro, auxiliado por uma maquiagem interessante, constrói seu personagem como uma criatura do esgoto (por isso seu nome Rato, quanta originalidade hein crianças?), um sujeito viscoso e nojento de fala rápida e imundo. Interessante por ir contra a imagem de galã de Santoro no Brasil, mas ainda sim, muito pouco para salvar o filme do desastre. Raymond tem ainda mais problemas, pois seu personagem é um locutor de rádio que se descobre ser um agente adormecido dos soviéticos e que passa informações cifradas durante as transmissões de seu programa. Além de o sotaque ser mais do que irritante, a suposta homossexualidade do personagem é "curada" por outra personagem, o que é uma bobagem sem graça, talvez um receio de transformar o "herói" da história em gay.

A tal garota é a mais que fraca Rafaela Mandelli, que força um insuportável sotaque gaúcho, para indicar suas "origens", e que é outra que tem apenas momentos de vergonha alheia recitando frases de efeito e embarcando na história que não faz sentido algum.

Existem momentos de profunda vergonha alheia, como a cena de sexo entre Paula Burlamaqui e Selton Mello, que serve apenas para exibir a atriz nua, já que além de não ser engraçada, é profundamente desnecessária e muito mal realizada. Outra bobagem - talvez explicada pelo egocentrismo de mostrar para o público a pujança da produção - são as três sequencias em que o público enxerga um avião sobrevoando a orla carioca. Apenas fazem o filme crescer em duração e não acrescenta em nada a história a ser contada.


Existe uma boa piada em Reis e Ratos: sua reverência aos filmes dublados, que inclui a escalação de diversos dubladores para retratar personagens estrangeiros, e já que o público acostumou-se a ouvir muita coisa dublada por aquele pessoal, a identificação é direta. Um acerto em trezentos em noventa e cinco tentativas não redime o filme, infelizmente.

Mauro Lima (do competente Meu Nome não é Johnny) fez um filme com cara de serie de tv ruim, e apesar de tentar fugir do apelo estético da tv (com seus milhares de planos médios e closes incessantes) escorrega no tema, nas piadas, no timing e principalmente por não se resolver até que ponto sua paródia é sobre o próprio cinema e seus clichês, ou uma tentativa de criar uma comédia sobre o período da ditadura.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Palhaço
(O Palhaço, 2011)
Drama/Comédia - 90 min.

Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcello Vindicato

Com: Selton Mello, Paulo José, Álamo Facó, Thogun, Teuda Bara, Larissa Manoela, Giselle Motta, Hossen Minussi, Fabiana Karla, Jorge Loredo, Tonico Pereira, Ferrugem e Moacyr Franco

Selton Mello é um ator consagrado e muito versátil. Por isso, não é com grande surpresa que acompanhamos as profundas mudanças entre Feliz Natal (sua estréia na direção) e O Palhaço. Se Feliz Natal era um drama urbano sombrio, desesperançoso, cru, granulado e com muita câmera na mão, O Palhaço é uma ode a alegria, a comédia, as cores do circo, da vida simples de um grupo de pessoas que amam o que fazem e que superam dificuldades com um sorriso no rosto e uma piada na ponta da língua.

Acompanhamos a história do palhaço Benjamin/Pangaré (Selton Mello) que cruza o interior do país com seu pai Valdemar/Puro Sangue (Paulo José), enfrentando toda uma variedade de dificuldades e encontros divertidos, sem na verdade, saber o que quer da vida. No fundo, Selton usa do Palhaço (essa figura sempre sorridente) para falar de um homem em busca de seu lugar na vida. Em busca de auto-afirmação, de conseguir sair de baixo da asa do pai e principalmente descobrir uma forma de se sentir feliz fazendo os outros rirem também.

Montado de maneira simples, dando muito espaço para os atores, O Palhaço consegue apresentar o circo de forma cinematográfica não caindo no teatro filmado, sabendo como e onde posicionar a câmera para amplificar cada situação criada pelos atores. A apresentação final que inclui uma ótima sequencia de humor da dupla (muito entrosada) Mello-José é o ponto alto do filme, uma verdadeira catarse para os olhos e ouvidos.


O cenário escolhido - interior de Minas Gerais - também ajuda muito o filme. Quase todo filmado durante a chamada "hora mágica" nas cenas diurnas, é impossível não encarar o sol e o céu claro como elementos importantes na cena. Mesmo nas cenas noturnas ou internas, a iluminação e a fotografia mantêm o clima leve da produção. A única variação em relação a esse trabalho, acontece quando a cidade de Passos (curiosamente o lugar onde Selton nasceu, mas que, segundo o mesmo não tem relação alguma com o que vemos na tela) é mostrada. Um ambiente mais escuro, com poucas cores, mais saturado e com maior acidez, é o reflexo da mudança de foco do longa, quando passa a acompanhar a jornada de um determinado personagem pela cidade mineira.

O elenco - e esse é um filme de elenco basicamente - é todo ele excelente. Álamo Facó e Hossem Minussi são João e Chico Lorota a dupla responsável pelo som no circo e os criadores de caso, sempre tentando levar vantagem. Thogun interpreta Gordini, o homem forte, aquele que levanta os halteres nas apresentações circenses, mas que contrapõe essa imagem de forte sendo o mais sensível do grupo, encanado até mesmo com seu cheiro. A excelente Teuda Bara consegue ir do cômico ao emocional com muita facilidade e vive a outra palhaça, Dona Zaira, sempre a procura de um sutiã novo.


Os protagonistas, Paulo José e Selton Mello estão em grande momento. Selton faz de Benjamin um sujeito de fala mansa, que esconde muito do que é e de suas reais intenções. Passa pela vida atuando entre o palhaço engraçado do picadeiro e o homem em busca de seu lugar. Uma interpretação sutil, muito segura, cheia de maneirismos e de tiques que funcionam para fazer de Benjamin um sujeito realmente "estranho".

Já o grande Paulo José, faz de Valdemar um homem cansado pela vida, mas que tem disposição para seguir em frente. Seguro de quem é, e do quer para sua vida, ve as duvidas do filho com ternura, mas com certa rigidez. Interpretando muito com o olhar, Paulo, apesar das limitações da idade parece um garoto em cena, destacando-se a química com Selton em todos os números do circo.


O filme conta também com uma série de participações especiais, que, além darem espaço (assim como Selton fez em Feliz Natal) para o resgate de grandes nomes da tv e do cinema nacional, enriquecem muito o filme. 

São os casos de Fabiana Karla (conhecida humorista), Tonico Pereira (como irmãos gêmeos e mecânicos), Jorge Loredo (o eterno Zé Bonitinho), Ferrugem (que nunca envelhece) e Moacyr Franco (estreando no cinema em uma pequena, mais hilariante participação que rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia ano passado). Selton é notável também por dar espaço à jovem Larissa Manoela que interpreta a jovem Guilhermina, numa sensível e delicada interpretação, funcionando muitas vezes como o olhar do público deslumbrado com aquele mundo.


Tecnicamente o filme é belíssimo. A direção de arte é das melhores do ano, sabendo usar do bizarro (como a casa do prefeito de uma cidade pequena recheada de quadros exóticos), do simplório (quando o circo é enfocado e suas habitações simples, feitas de remendos e com um ar kitsch), do opressivo (os detalhes da cidade grande, o quarto de hotel que determinado personagem fica) e o mágico (o ambiente circense, onde também se destacam os ótimos figurinos do filme).

O Palhaço é um desbunde visual, de sentimentos nobres com muito bom humor (e que garantem sim algumas risadas) mas profundamente emotivo e que aponta Selton Mello como um realizador de alta qualidade, tendo apenas dois filmes no currículo. Sinal de que seu talento é latente e merece ser acompanhado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Lope
(Lope, 2010)
Drama - 106 min.

Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Jordi Gasul e Ignacio del Moral

Com: Alberto Ammann, Leonor Watling, Pilar López de Ayala, Luis Tosar, Miguel Ángel Muñoz, Juan Diego e Selton Mello.



Confesso que em minha brutal ignorância jamais tinha ouvido falar no escritor/dramaturgo/poeta Lope de Vega e muito menos em sua prolífica carreira, por isso não tenho como afirmar quanto de "real" existe na narrativa do filme do brasileiro Andrucha Wadddington. Portanto minha análise é objetivamente sobre o produto final: o filme.


Seguindo a cartilha da cinebiografia, Lope acompanha os "grandes momentos" do surgimento do poeta com todas as desventuras e aventuras do personagem. Lope é interpretado por Alberto Ammann de forma a reforçar ainda mais a impressão de que Lope é um conquistador nato, talentoso e que vive intensamente cada segundo de sua vida. Os demais coadjuvantes não comprometem (apesar de lhes faltar brilho), embora a beleza de Leonor Watling (que vive a ingênua e apaixonada Isabel) e de Pilar Lopez de Ayala (a fogosa Elena Osorio) seja um colírio para os olhos.


Andrucha usa os mesmos (ou muito parecidos) filtros que usara em Casa de Areia, para reforçar o ambiente essencialmente arenoso e inóspito da Madrid do século XVI, além de forçar a saturação para destacar os tons mais escuros da produção.


A narrativa não é episódica e se esforça para dar um panorama da vida do personagem, deixando de lado seu trabalho, que é visto de relance e com destaque para suas poesias destinadas a jovens impressionáveis e a ricas mulheres da corte que eram (igualmente) impressionáveis pelos textos - nesse caso - outorgados a outros, que compravam os poemas do autor. A visão do filme para seu personagem é a de que Lope é um Don Juan egoísta e beberrão, que se importa pouco com aqueles a que agride e deseja apenas "viver intensamente".


Não é das formas mais inteligentes de apresentar seu personagem, ainda mais quando o filme clama pela simpatia do público pelo "devasso" Lope. Longe de acarinhá-lo, o resultado é o oposto e Lope é encarado como um arrogante garoto mimado que não sabe bem o que quer da vida, além do poder e do coração de todas as damas de Madrid.


O roteiro tem uma série de problemas em transportar o espectador para aquele mundo, em especial para provar as relações entre seu protagonista e os coadjuvantes. O exemplo mais bem acabado para mim é a relação com o marques de Navas (Selton Mello) que surge na história e some sem nenhuma explicação, mesmo com o mesmo roteiro - e filme - não cansar de lembrar a Lope e ao publico que a traição de Lope será vingada pelo marquês. Mesmo assim, não existe um segundo para nos mostrar o marques ou seus planos, ou mesmo sua tão falada vingança, que fica - pelo que o filme apresenta - só no campo das idéias. Ou seja, o roteiro insere uma perspectiva de "combate" e o descarta quando opta por outro caminho, o que invalida e enfraquece as motivações dos personagens para fugirem de Madrid.



Lope não é um camarada simpático e nos força - e isso talvez seja intencional - a ver com mais atenção o personagem do Frei Bernardo (Luis Tosar), que parece ser o único a ajudá-lo numa tentativa de "regenerá-lo" e colocar um pouco de sabedoria na cabeça do impulsivo personagem.


A primeira incursão do cineasta brasileiro fora do país não é um fracasso monumental, mas nem de longe pode ser encarado como um sucesso. Prejudicado - desde a saída - por um roteiro que não consegue criar apreço por seus personagens, e uma coleção de coadjuvantes fora de tom ou fracos, o filme parece um longo especial para tv, onde aqui e ali podemos enxergar quadros construídos com esmero e excelente - mesmo - trabalho de direção de arte e figurinos. Falha em seu casting e principalmente ao optar por contar a história de um homem retirando dele suas principais características: suas obras, deixando ao público uma história - já vista antes muitas vezes - sobre um homem perdido em seus sonhos e que quase destrói sua própria vida.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Feliz Natal
(Feliz Natal, 2008)
Drama - 100 min.

Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato

Com: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Graziela Moretto, Paulo Guarnieri e Lúcio Mauro

Selton Mello talvez seja o ator mais importante do cinema nacional. Talvez, porque afirmar isso categoricamente além de ser um exercício de arrogância tremendo, pode ser perigoso, já que todo grande - e mesmo os medianos - ator precisa de bons papéis que sacramentem sua condição e seu talento.

Sabendo disso, é que Mello (vislumbrando o futuro, talvez) trás ao público Feliz Natal, sua estréia por trás das câmeras. É nítido, mesmo aos leigos, que a maior preocupação de Mello são seus personagens, aquela gente perturbada que por quase uma hora e meia ilumina a tela trazendo a tona problemas e situações que muita gente deve ter passado. É claro que Mello - e aqui cabe um elogio de cara - é deverás inteligente ao incutir em cada personagem características "over acted" que auxiliam na identificação do público com a história.

Na prática isso quer dizer que, ao embutir nos tipos de seu filme características excessivas ele consegue aquele laço (quase intransponível em alguns momentos) entre a história e o público, já que esse último consegue gostar do que vê, se colocando numa posição cômoda, ao identificar-se com aqueles personagens de maneira superficial e (por cada elemento estar nessa esfera mais exagerada) ainda assim manter-se numa posição de superioridade que julga de maneira vil e arrogante a história a sua frente.


Se o público vê um fac-símile de sua vida retratado em tela, dificilmente ele compra aquela idéia, já que o choque de realidade é tamanho que afasta aquela sensação de entretenimento que é fundamental quando se conta qualquer história ficcional. Caso o espectador queira ver um retrato real da vida, ele busca (quem se interessa por isso) um documentário.

Por isso, julgar qualquer filme mais cru de "retrato fiel da vida" é uma bobagem, e os grandes nomes do cinema independente sabiam muito bem disso. Selton Mello parece ter entendido a mensagem e referencia por diversas vezes a obra de John Cassavettes e Dogma 95. De Cassavettes, por exemplo, ele tira os diálogos realistas, a invasão da psique dos seus personagens e a personagem de Darlene Glória que parece muito com a vivida por Gena Rowlands em Mulher Sob Influência. Ambas são mulheres em estado de insanidade e que fazem aqueles ao seu redor se sentirem desconfortáveis a seu redor. Do Dogma 95, vem a estética granulada e "imunda" de filmar, com muita câmera na mão, closes e super-closes e a fotografia que usa apenas luz natural, inclusive nas cenas noturnas. Porém Mello não é xiita e por diversas vezes aposta (com resultados positivos na maioria das vezes) no uso de trilha sonora e até de interlúdios musicais.


Os atores estão - todos - bem. Bom ver de volta ao cinema Paulo Guarnieri que rouba a cena a cada aparição como o frustrado e depressivo Theo. Um cara que tenta encontrar saídas onde elas não existem e tenta unir o que já foi quebrado. Darlene Glória, já citada, compõe Mércia como uma mulher perdida e esquecida pelo tempo, num paralelo curioso e inteligente com a carreira da própria atriz. Leonardo Medeiros que é muito melhor no cinema do que na televisão é um homem amargurado e que usa o natal - essa festa melancólica por excelência - como terapia para expurgar de vez seus fantasmas, e Graziella Moretto tenta trazer o filme ao chão, sendo de todos os personagens, aquele que mais se parece com alguém de carne e osso, e talvez aquele que o espectador, imagino que por esse motivo, tenha mais dificuldade de se relacionar.

O maior trunfo para com que seu quarteto de atores funcione bem é seu texto, que é ferino, sensível e bastante natural. Uma pena que o desenvolvimento da narrativa seja o calcanhar de Aquiles da produção.


Apesar de as idéias estarem lá, e no fundo o filme falar sobre situações que somente a vida pode consertar, ele perde tempo com os interlúdios que funcionam, visualmente muito bem, mas que deixam uma sensação de "por quê ?". Qual a necessidade narrativa de partir para isso? O que motiva essa escolha?

Essas opções surgem descompassadas e apesar de obterem resultados visuais acachapantes (notem a cena em que a ceia de Natal é consumida pelas moscas) não funcionam tão bem quanto ao andamento da história, parecendo uma longa procissão rumo ao vazio. Mesmo quando se revela o motivo para que Caio (o personagem de Medeiros) seja considerado um pária , pensamos "é muito barulho, mas muito mesmo, para uma explicação tão rasa". Não que seja algo banal, mas o personagem já cumpriu seu calvário e todos ao seu redor o tratam quase como um verme nocivo. Interessante ao retratar o que uma mancha numa colcha branca pode representar, mas vazio quando vemos que tudo ao seu redor é, talvez, mais sujo do que qualquer mancha que Caio possa representar.


Talvez esteja ai o mérito do filme: apresentar tudo sem hipocrisia. Tudo é sujo, tudo é escurecido e apodrecido pelo tempo e pela vida. Mello conseguiu um debut bastante interessante, que apesar das falhas pontuais mostra-se uma história inteligente, intrigante e muito cruel, assim como a vida pode ser.