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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Detona Ralph


Detona Ralph
(Wreck-it-Ralph, 2012)
Comédia/Aventura - 108 min.

Direção: Rich Moore
Roteiro: Phil Johnston e Jennifer Lee

com as vozes de: John C. Reilly, Sarah Silverman, Jack McBrayer, Jane Lynch, Alan Tudyk

Detona Ralph mistura dois elementos que são garantia quase certa de sucesso: animação de qualidade e videogames. Por isso, além do timing do lançamento nacional (férias e sem lançamentos de apelo popular na semana), podemos antecipar o possível sucesso da mais recente animação dos estúdios Pixar/Disney por essas bandas. E não chega a ser injusto.

A historia é o grande trunfo da produção, que apesar de ser tecnicamente irretocável,é ancorada na ideia de re-apresentar a premissa de encontrar seu lugar no mundo no mundo, no caso dos videogames, seja em uma velha máquina arcade oito bits ultrapassada ou um mega FPS (first person shooter) super moderno e com visual espetacular.

Não, os personagens do jogo oito bits (chamado Fix-it-Felix Jr., algo como Felix, o Consertador) não surgem com visual de época, mas guardam algumas características de movimentação típicas do período de produção do jogo, menos nosso protagonista, o vilão do jogo, Ralph.


Ralph é um sujeito bacana, gente boníssima, que está cansado de ser um vilão. A situação é agravada por não ter apoio de seus colegas de jogo que - digamos - não conseguem separar o profissional do pessoal, encarando-o sempre como um inimigo nefasto e perigoso. Na primeira cena do filme, vemos Ralph em meio a uma sessão de apoio aos vilões, onde podemos reconhecer diversos personagens icônicos dos games, como Bowser da série Super Mario, Zangief e M. Bison de Street Fighter, Dr. Eggman da serie Sonic, os famigerados fantasmas do mítico Pac Man, entre muitos outros. Ali já notamos o clima em que nosso protagonista é envolvido. Ele é um sujeito em busca de seu espaço e em busca de reconhecimento além daquele que tem e que o incomoda.

A trama começa a engrenar quando Ralph decide entrar em uma festa que comemora os 30 anos do jogo, dada - obviamente - no cenário/casa onde o mesmo se passa, e após criar uma confusão é confrontado com o fato de que ele sempre será um vilão. Revoltado, acaba decidindo encontrar uma forma de ser reconhecido como algo além e parte para o encontro de seus objetivos a partir da sensacional ideia do Game Central, uma espécie de plataforma de trem, onde todos os jogos estão conectados.

Vale lembrar que Fix-it-Felix Jr. e tantos outros jogos mostrados no filme, não estão ligados magicamente, ou, como é mais comum nos dias de hoje, via on-line. Eles são resquícios de uma era praticamente extinta e bastante nostálgica: os fliperamas. O tal Game Central (no mundo "real") nada mais é do que a régua de energia onde todos os cabos das máquinas arcade estão unidos.


Feito a observação, é interessante notar a riqueza de detalhes com que o ambiente é apresentado e a quantidade absurda de easter eggs escondidos pelos cenários, que vão de personagens fazendo pontas a frases grafitadas nos muros virtuais que fazem referência a diversos outros jogos.

Outra observação pertinente é que Detona Ralph tem a mesma ideia de Toy Story: quando os humanos não estão vendo, os programas (personagens e cenários) têm vida própria e personalidades complexas. Isso é responsável pela imediata quebra de expectativa referente a alguns personagens icônicos e que surge imediatamente como na já citada cena de abertura do filme.

Em sua busca Ralph acaba penetrando em dois mundos: a versão de games de tiro modernos em Hero's Duty, onde se traveste de soldado na ânsia de destruir os insetos invasores e conquistar o prêmio e na colorida e fofíssima Sugar Rush, um game de corrida passado em um mundo de doces (o que eventualmente pode causar no espectador uma crise de fome, o que sugere a dica de não assistir ao filme de barriga vazia).


Quando em Hero's Duty Ralph conhece a vigorosa sargento Callhoun, uma loira forte e segura, que tem um trauma em seu passado. Em Sugar Rush, onde boa parte do filme se passa, conhece a irritante Venellope, uma postulante a corredora que nunca consegue sucesso em participar da corrida.

Ao lado desses coadjuvantes, o próprio Felix, o herói do game de Ralph, parte em busca do vilão/amigo/companheiro de aventuras já que sem a presença do vilão, o game é inutilizado pelo fliperama e tende - por ser antigo - a ser desativado.

O filme é inteligente ao colocar quatro narrativas paralelas se interligando em prol da boa diversão: Ralph e seu desejo de ser aceito e que dialoga muito bem com a trama de Venellope, enquanto Callhoun precisa impedir uma hecatombe no mundo dos games e Felix impedirem a sua própria hecatombe, o desligamento de seu jogo.


Não é a toa que essas duplas logo se encontram e dividem por mais tempo a tela. As caracterizações são impecáveis e o visual de Sugar Rush realmente cumpre seu objetivo mais mesquinho: o de deixar o espectador salivando por qualquer comida doce a sua mão. São criativas as formas com que o filme encontra para criar veículos com base de biscoito, waffer, chocolate, rosquinhas, sorvete e afins.

Já a trama em si não apresenta nada de novo e pode até ser encarada de forma reacionária em alguns momentos (admito que possa estar exagerando aqui, mas foi minha impressão), principalmente em sua visão quanto ao "nosso lugar no mundo". Porém, o carisma de Ralph é enorme, Felix é um coadjuvante desajeitado e cativante, Calhoun é ranzinza na medida certa para não parecer arrogante e Venellope é aquela criança pentelha de voz irritante que adoramos odiar.

Como curiosidade, é bacana perceber a sacada da Disney/Pixar em colocar como o jogador - nas vezes em que vemos os games em ação de verdade - uma garota, o que pode parecer politicamente correto, mas que reflete uma realidade (felizmente) cada vez mais presente.


Detona Ralph não é brilhante, mas é divertido, tem ideias criativas (o vulcão feito de refrigerante e bala é uma adição visual bacana a um mito clássico) e personagens bem realizados. Talvez não seja inovador, não tenha um roteiro cheio de grandes viradas e um final bastante simplista (e como disse que pode até ser visto como reacionário), mas é superior ao que Disney e Pixar fizeram no último ano.

Obs 1: o curta que precede o filme é IMPECÁVEL e é a melhor coisa que a Disney fez em anos. Não percam: Paperman.

Obs 2: antes de xingar a dublagem cheia de nomes incomuns (leia-se celebridades e atores de novela e afins) assistam ao filme. Ela não é brilhante, mas é bastante competente.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Valente


Valente
(Brave, 2012)
Aventura - 100 min.

Direção: Mark Andrews, Brenda Chapman
Roteiro: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi

Com as vozes de: Kelly MacDonald, Emma Thompson, Billy Connolly, Julie Walters, Robbie Coltrane, Kevin McKidd, Craig Ferguson

Ufa foi apenas um escorregão. Essa é a sensação que tive ao final de Valente, a mais recente produção dos estúdios Pixar, graças - é claro - aos muitos problemas vistos em Carros 2, sem sombra de dúvida o mais fraco dos filmes do estúdio. Valente, por outro lado, se não é o mais fantástico das animações do estúdio (coloco Wall-E, Toy Story 3 e Ratatouille na frente) é uma bem vinda volta aos eixos. 

A historia é simples, e trata sobre alguns conceitos já bastante esmiuçados pelos filmes de animação: amadurecimento e "ser quem você é". Apesar de a ideia parecer batida e até hipócrita (já que um dos efeitos colaterais mais claros do cinema é sua influência sobre o comportamento humano) a Pixar, como de praxe, consegue transformar conceitos com cara de sermão em entretenimento de qualidade, e aqui com uma dose extra de emoção e um viés feminino muito mais claro do que qualquer outro de seus filmes até então.

Co-roteirizado e co-dirigido por uma mulher de forma inédita no estúdio, fica clara a influência feminina tanto na construção da historia quanto na forma com que a mesma é desenvolvida. Valente é mais sutil e muito mais preocupado com o desenvolvimento de suas personagens femininas, como nenhum outro filme do estúdio havia conseguido. Já a historia é dominada por personagens femininas fortes e inteligentes, enquanto os homens são os alívios cômicos da produção.


Outra boa ideia, foi a de que mesmo em um ambiente medieval e afins, não existe a figura do príncipe encantado que salva a donzela indefesa, o que faz do filme uma produção contemporânea, já que coloca a mulher como centro dos eventos, que consegue desenvolver-se e resolver seus problemas sem a ajuda do "macho da vez".

Valente apresenta a princesa Merida, uma jovem inquieta com brilhantes olhos verdes e o cabelo ruivo mais intenso e cacheado que o cinema (na vida real ou em animação) já retratou. Seu visual exótico é mais uma arma para que a produção identifique aquela personagem como "um peixe fora d'água", uma pequena revolucionária diante de costumes antigos e tradicionais. Quando a historia começa, a pequena garota já demonstra uma vontade grande de viver intensamente, de forma - em teoria - masculinizada, em meio à natureza enquanto empunha um arco e flechas, até enxergar uma misteriosa luz que a faz ser notada por um gigantesco urso que ao tentar atacar a garota, sua mãe e seu pai, acaba sendo enfrentado por esse último, o que o faz perder uma perna. O filme então avança no tempo, e encontramos Merida, num estágio adolescente, em meio às mesmas aventuras envolvendo escaladas e os mais diferentes tipos de "esportes de ação", enquanto precisa lidar com sua mãe, a rainha Elinor, que desgostosa com as desventuras da filha, tenta a todo custo transformá-la em uma princesa tradicional, cheia de regras de conduta. 

O filme versa sobre a relação entra as duas personagens, e os óbvios conflitos entre as personalidades tão dissonantes quanto a da rainha certinha e cheia de regras e a da princesa - um chamado "espírito livre" - que preza por sua liberdade e quer conseguir seus objetivos com seu próprio esforço e de seu jeito. 


A trama ganha corpo quando, decidida a lhe dar um marido, os pais de Merida decidem convidar os demais clãs que formam seu reino - uma espécie de reunião de clãs encravada na Escócia - o que causa uma enorme revolta na garota. Depois que os pretendentes são apresentados e a princesa causa uma confusão, ela se revolta com a mãe e parte para a floresta, onde se envolve com uma misteriosa personagem acaba alterando sua vida para sempre.

No fundo, Valente é sobre a relação conflituosa entre pais e filhos, e o amor, mesmo quando existem falhas de comunicação gritantes entre os dois lados da conversa. A diferença é que, se a Pixar já havia feito isso com Procurando Nemo pelo viés masculino, agora deixa as mulheres tomaram as rédeas da conversa.

Como disse no início do texto, os homens em Valente são personagens coadjuvantes e que estão sempre sendo retratados de forma bufa. O maior exemplo é o rei Fergus, que apesar de ser o supremo senhor daquele canto do mundo, é claramente subserviente a sua esposa, numa alusão sobre aquela velha máxima masculina: "quem tem a última palavra na relação sou eu, e ela sempre é: tá bom, querida". Retratado como um homem brincalhão, divertido, amoroso, mas um pouco apalermado, é uma curiosa visão sobre a seriedade dos cargos de liderança, e principalmente sobre a ideia de satirizar a importância de toda aquela pompa.


Os pretendentes por sua vez são igualmente satirizados: o gordinho que fala em uma língua incompreensiva, o galã de fundo de quintal e o completo apalermado, enquanto os pais desses garotos também tentam manter a pose de homens fortes e valorosos. A Pixar assume o feminismo com classe, e coloca os brigões e bárbaros (em uma era em que Game of Thrones faz tanto sucesso), numa posição de divertimento familiar, deixando suas mulheres brilharem. Ainda no campo masculino, é preciso dizer que a representação dos três irmãos de Merida são sensacionais. Os trigêmeos, ruivos como a irmã, mas com os cabelos que parecem chumaços de algodão são pequenos gênios do mal, sempre prontos a aprontar alguma travessura que os faça comer mais doces. 

Sucinta em sua amarração de eventos, a historia começa a pecar quando acelera demais o processo de redenção dos personagens, tornando a mensagem de aceitar as diferenças e compreender o outro, um pouco mastigada demais, principalmente para os padrões Pixar de entretenimento.

Tecnicamente, o que mais podemos dizer sobre a Pixar? Ao lado dos japoneses dos estúdios Ghibli, ninguém no planeta faz animações com a mesma qualidade visual que esse pessoal. Tudo, dos detalhes do pano usado em uma determinada bandeira (em que conseguimos ver os detalhes da costura do tecido), passando pelas pedras dos corredores dos ambientes do filme, passando pelo desbunde dos muitos rios, cachoeiras, montanhas, bosques e florestas, é de uma competência alarmante. Se muita gente reclamou do visual "cartoon" dos personagens (incluindo ai os animais), os cenários beiram o foto-realismo, o que dá a produção ainda mais destaque.


Valente é uma bem vinda mudança de ares na Pixar, um olhar mais feminino que ainda não tínhamos visto no estúdio e que espero rever no futuro. Não vejo como Valente poderia gerar uma sequência, embora alguns personagens (como a hilária bruxa) merecessem maior atenção no futuro e conta com um dos finais mais doces entre todos os trabalhos que o estúdio já apresentou.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Carros 2
(Cars 2, 2011)
Aventura/Comédia - 113 min.

Direção: John Lasseter e Brad Lewis
Roteiro: Ben Queen

Com as vozes de: Owen Wilson, Larry the Cable Guy, Michael Caine, Emily Mortimer, Eddie Izzard, John Turturro e Thomas Kretschmann

E a Pixar errou. Sim amigos, o estúdio mais competente do cinema mundial, responsável por alguns dos melhores filmes da história recente do cinema, um dia teria de errar. Infelizmente - e até de forma irônica - isso aconteceu pelas mãos do responsável pela própria criação do estúdio: John Lasseter.




Carros 2 é um Frankenstein mal costurado e com órgãos aparecendo, tentando a todo custo manter-se em pé. O primeiro Carros era uma história inocente, mas divertida (ao menos), focado no carro de corrida Relâmpago McQueen, um presunçoso carro da Nascar que aprende em sua jornada a esquecida cidade de Radiator Springs, o valor da amizade e da humildade. Carros 2 parece ter sido escrito numa explosão de idéias, nenhuma delas revisada ou melhor compreendida.



É um filme de espionagem (parodiando 007 - o que parece ser uma moda) e um filme sobre "ser você mesmo", e ainda é uma corrida ao redor do mundo. Tudo isso em menos de duas horas de projeção, apostando em personagens infantis ou infantilizados e uma história que é tão absurda quanto ineficaz.


A história de espionagem acompanha o espião Finn McMissil (voz original de Michael Caine) e sua investigação sobre o uso terrorista de uma arma, que acaba envolvendo a recém criada Corrida de Volta ao Mundo e seu novo e revolucionário combustível sustentável, desenvolvido por um milionário e que será usado por todos os carros na corrida. É nesse ponto que Relâmpago McQueen (voz original de Owen Wilson) entra. Instigado por seu amigo - e protagonista desse filme - Mate (vo original de Larry the Cable Guy), decide se juntar a trupe dos maiores carros do planeta (que incluem carros de fórmula, protótipos e até carros de rally) e competir. Ao mesmo tempo, Mate é confundido com um espião americano e passa a ser peça chave na investigação dos espiões britânicos (além de McMissil, a delicada Holley Caixa de Brita, voz original de Emily Mortimer).



Confuso e cheio de idas e vindas, o roteiro concebido (como de praxe em animações) a muitas mãos - Ben Queen baseado em história de Lasseter, Brad Lewis e Dan Fogelman - tem apenas uma nota positiva: não aposta na obvia continuação, preferindo uma abordagem diferente a essa sequencia, o que explica a tal história de espionagem. Mas é muito pouco, principalmente quando o seu roteiro é cheio de fórmulas manjadas, discursos de livro de auto-ajuda (os piores ainda por cima) e um plot twist final que faz a cabeça do espectador explodir ao não conseguir compreender - além de revelar uma quantidade notável de rombos na história até ali - as motivações do tal "vilão misterioso".


O apuro técnico da Pixar continua impecável. Desde a calorosa Radiator Springs, passando pela iluminada e compacta Tóquio (onde encontramos as gags mais engraçadas do filme, como a que envolve wasabi, uma espécie de condimento japonês e as famosas e bizarras privadas daquele país), a já retratada Paris (em Ratatouille), passando pela pista italiana, que mistura as curvas do principado de Mônaco (os fãs de automobilismo certamente reconhecerão) com o clima amoroso das pequenas e encravadas cidadelas medievais características do país. E finalmente Londres, que é retratada com extremo bom gosto e com um destaque especial para a reconstrução do transito e do palácio de Buckingham.



As corridas são de longe o ponto alto do filme, todas lindamente mostradas, apostando nos ângulos conhecidos pelo espectador das transmissões de automobilismo e simulando com exatidão os diferentes pisos e os sons de cada um dos carros. Notem, por exemplo, como o carro de fórmula (Francesco Bernulli, claramente uma Ferrari quem tem voz original de John Turturro) tem um som absolutamente diferente do carro de rally (uma homenagem a Peugeot e seus famosos carros campeões da categoria) e como o próprio desempenho dos diferentes tipos de carro foram pensados de acordo com suas características em cada um dos pisos - o fórmula anda melhor no asfalto, enquanto o carro de rally e McQueen, por ter aprendido a técnica no primeiro filme, se saem melhor na terra, por exemplo. Uma pena que essa estrutura que lembra vagamente o clássico Grand Prix (ao acompanhar uma trupe de corredores pelo mundo) e o clássico anime Speed Racer (que envolve os perigos e inimigos que tentam tirar da prova os principais corredores, além da rivalidade entre os competidores durante uma temporada de corridas) apareça tão pouco tempo na tela.


Lasseter apostou na trama de espionagem que até começa muito bem, com uma grandiosa e muito bem realizada sequência recheada de explosões e tiroteio, mas se compromete ao apostar suas fichas no pior de todos os coadjuvantes do primeiro Carros: o guincho abobalhado e infantil Mate.



Do ponto de vista meramente mercadológico, talvez faça algum sentido, já que Mate é um dos mais queridos pelas crianças (que fizeram do primeiro Carros, um sucesso de público), mas pensando apenas na estrutura da história, a ingenuidade do personagem depõe contra a criação de uma aventura do mesmo nível das que a Pixar pode - e já - realizou. Tolo por quase todo o filme, e conseguindo realizar todas as suas ações por pura sorte, Mate é um herói acidental, e quando o filme começa a "transformá-lo" em um verdadeiro herói de ação perde a chance de fazer graça dessa condição. Sai o ingênuo guincho enferrujado que não tinha idéia de que o confundiram com um espião e entra o engajado e seguro de si guincho (ainda abobalhado) mais que consegue se safar e pensar em soluções de forma mais impressionante e ágil do que Sherlock Holmes, por exemplo. Mate talvez funcionasse (e disse talvez) como um coadjuvante bobalhão, mas jamais como protagonista, já que o personagem é uma coleção de frases de efeitos pretensamente engraçadinhas, que talvez funcionem para o seu sobrinho de 3 anos (e disse talvez, de novo).


Esse Frankenstein animado ainda corre o risco de passar uma mensagem perigosa, quando coloca como vilões de seu filme carros velhos e "ruins", que nas entrelinhas buscam uma vingança contra os mais novos e mais modernos. Lasseter parece querer catequizar as pequenas crianças a temer o diferente e o mais velho, ao mesmo tempo em que coloca como protagonista um carro igualmente "apodrecido". Afinal o que isso quer dizer?



A Pixar cometeu aqui seu primeiro grande equívoco, que o próximo (o já anunciado Brave) novamente mostre toda a capacidade da empresa em criar o melhor entre as animações produzidas no ocidente. E que possamos ter de volta a sensação - até então certeira - de que esses caras são os melhores no que fazem.


Obs: o curta Férias no Hawaii, que acompanha o filme é mediano, mesmo contando com os personagens de Toy Story.


Obs 2: a dublagem nacional não atrapalha. Luciano do Valle como o locutor é o grande destaque entre os famosos.


Obs 3: o 3d não é ruim, mas também não acrescenta muita coisa. Se a dúvida pesar e o bolso estiver vazio, opte pelo 2d, a diferença não compensa o preço mais alto.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Toy Story 3
(Toy Story 3, 2010)
Animação - 103 min.

Direção: Lee Unkrich
Roteiro: John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich

Quando Toy Story foi lançado em 1995, o sucesso foi imediato. Com revolução na parte técnica e profunda criatividade na hora de contar histórias, todos se apaixonaram pelo primeiro filme de Woody e Buzz. Ora, a continuação foi feita em 1999 , com mais uma boa história e uma constatação que já rondava as mentes dos bonecos : “ Um dia Andy vai para a faculdade, e todos seremos esquecidos’’ . Mesmo com essa mensagem na cabeça, todos os brinquedos continuaram fielmente ao lado de Andy, até quando tudo acabasse. Onze anos depois de Toy Story 2 e quinze anos depois de sua primeira aventura, a Pixar decide corajosamente retratar o dia tão temido pelos brinquedos . Corajosamente, pois realizar uma sequencia de um filme depois de mais de uma década, é de um risco inimaginável. Há toda uma geração nova, e as crianças de 1995 são adolescentes crescidos de hoje em dia. Mas a trilogia assim foi pensada. A maior saga da Pixar chega ao seu ponto final .

A trama é levada ao espectador de maneira reta e sem rodeios. Os personagens estão reduzidos, e não duvide do que aconteceu com eles: foram jogados fora. Os bonecos sentem tudo que ocorre a sua volta, mas o que poderiam fazer? A hora também chega para os poucos que restaram. Quando Woody fala para os brinquedos se reunirem, e a resposta é “Estamos todos aqui , Woody” há um vislumbre do que o filme representará para todos os personagens. Na trama em si, Andy decide que levará apenas Woody para a faculdade , e que todos os outros brinquedos ficariam no sótão. Por azar do destino, os brinquedos são colocados no saco do lixo, e ao pensar que seriam jogados fora, fogem para a caixa de doações que vai para a creche Sunnyside. Começa então a tentativa de Woody em trazer os companheiros de volta para casa, e mostrar que foi tudo um engano. Mas todo o grupo se decide em ir para a creche, e ser eterno lá. É a volta do discurso de Toy Story 2, onde rondava o questionamento de fidelidade á casa de Andy ,ou favorecimento solo.


E não há questionamentos de que esse é o filme mais adulto e dramático da série Toy Story, e muito provavelmente o da Pixar também . Não há mais o tom de porto seguro, e o termo “voltar pra casa” já não tem o mesmo significado que antes. A simbologia mais clara de que este é o filme mais realista e sombrio dos cativantes personagens está no início da película . Em 1995, no original , o filme começa com Andy brincando com seus bonecos, e sua voz narrando enquanto os balança pelos móveis de seu quarto. A partir da cena mostrada, somos introduzidos á imaginação do menino. Em Toy Story 3, o filme se inicia com uma cena épica de aventura dos brinquedos e logo corta para a cena do mesmo Andy pequeno brincando com seus bonecos. A mensagem que fica é que nesse filme não há mais espaço para deslizes ou brincadeiras. O destino deles é definitivo e real. O que se segue após essas cenas é a seqüência de filmagens feitas pela mãe de Andy quando ele era pequeno. Neste momento, temos certeza de que não sairemos da sala de exibição sem chorar pelo menos uma vez.

O foco do roteiro como sempre , é na construção de personagens. Ou melhor, desconstrução de personagens . A maior parte das personas de Toy Story 3 já está estabelecida na mente de todos que assistem, e não cabe acrescentar nenhuma informação nova . O destino do filme é levar todos esses personagens ao limite : da emoção, da razão, da força , da esperança . E é assim que o filme corre ; sob a pressão de todos os acontecimentos , Woody assume a responsabilidade de protagonista , e tem o dever de reunir todos os amigos e salvá-los do destino trágico ; Buzz tem a força necessária para assumir a liderança do grupo em vários momentos, e não demonstra fraqueza perante os desafios monstruosos . Como resultado disso tudo tiramos a mensagem que o filme passa durante seu desenvolvimento : Não importa a crise pela qual passamos, mas a tradição e a amizade dos companheiros é maior do que qualquer promessa falsa .O símbolo máximo disso é uma das cenas finais, onde todos os personagens, cientes de seus destinos e incapazes de reverter a situação, simplesmente dão-se as mãos, enquanto a música dramática sobe. Um dos gestos mais emocionantes que já vi em toda a história do cinema. Passar incólume a cenas desse tipo é impossível .



E a escolha da direção foi das mais acertadas. Lee Unkrich pode não ser o melhor cineasta, mas soube utilizar todos os manerismos típicos da série, sem errar na mão , dirigindo ação de maneira incrível e tornando todos os momentos épicos e emocionantes . Escolher o diretor do primeiro longa, John Lasseter, seria menos correto . Apesar de Lasseter ser genial , é um diretor que cria ótimas obras originais, e o que este último capítulo não pedia originalidade, mas sim forte emoção e engrandecimento dos personagens. E foi o que Unkrich conseguiu fazer com sucesso . As sensações de nolstagia que ele consegiu passar ao público ainda vão ecoar por algumas semanas.

Por fim, Toy Story 3 passa sem erro nenhum , superando as expectativas criadas e tirando o medo que muitos fãs (inclusive aquele que vos escreve) que o filme fosse ruim e estragasse a série. Muito pelo contrário . O longa de 2010 de Woody e Buzz consegue honrar seus predecessores e ir além , superando os outros dois filmes e se consagrando como o melhor da trilogia . Somando todos os seus extratosféricos acertos , a constatação final é indubitavel : Toy Story 3 é isoladamente o melhor filme do ano até aqui, e um dos melhores filmes da história. Divertido. Emocionante. Dramático. Perfeito.