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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Em Transe


Em Transe
(Trance, 2013)
Drama/Thriller - 101 min.

Direção: Danny Boyle
Roteiro: Joe Ahearne, John Hodge

com: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassel

Entre aqueles colegas e amigos, devo ser um dos poucos que realmente gostou de 127 Horas. Em geral gosto de Danny Boyle, acho-o criativo no uso dos excessos, seja ele do som - em geral altíssimo, da montagem - em geral acelerada, dos temas - em geral multifacetados e das interpretações - em geral beirando over acting. Essa é a sua forma de fazer cinema e diante de Trainspotting, Cova Rasa, Extermínio e até mesmo Caiu do Céu, trabalhos muito interessantes - e diferentes um do outro - sua competência está provada. Que pese ainda o seu Oscar por Quem quer ser um Milionário (que eu particularmente não gosto)  e o já citado 127 Horas, dois filmes que dividiram bastante o público e crítica, o diretor é bem sucedido e goza do respeito dos colegas e críticos.

Toda essa introdução de livro biográfico serve apenas para tentar entender em que poço Boyle se enfiou para conceber Em Transe, seu mais recente trabalho. Estruturado como filme de assalto, e posteriormente como uma produção quase onírica e por fim como "elegia da vingança", Em Transe é um "semi-abacaxi" que pela maior parte do tempo parece uma bobagem pretensiosa, caminhando desgovernadamente sem um rumo específico.

Essa sensação de desconforto que senti é explicada pela trama. Simon (James McAvoy) é um sujeito que trabalha em leilões de arte e que durante um assalto acaba sendo atingido na cabeça e perde a memória recente. Ficamos sabendo na sequência seguinte que ele é um dos comparsas do assalto e que o quadro roubado no leilão ficou com ele. Mas ele não sabe aonde. Não se recorda com a pancada na cabeça.



O bando liderado por Franck (Vincent Cassel), tenta de tudo e no desespero para colocar as mãos no quadro, recorre ao hipnotismo. Aleatoriamente a escolhida é a bela Elizabeth (Rosario Dawson), que tem a missão de encontrar as memórias de Simon, em meio ao caos que sua perda de memória deixou sua cabeça. A partir daí, a trama se desenrola entre os mundos da memória criados pelo rapaz e pelas descobertas na vida real.

A confusão e desorientamento da trama - não dando a impressão que vai chegar a algum lugar - é ampliada pela forma como a narrativa é apresentada. A princípio simplista (caras querem um quadro caro vs. sujeito não sabe onde está e precisa achá-lo), ganha ares épicos e grandiloquentes quando vai se destrinchando, culminando em um daqueles finais saídos do pior do cinema pop, onde tudo "tem que fazer sentido e a trama precisa ser certinha", o que parece fazer o gosto de uma parcela generosa do público.

Esse cinema robótico não dá espaço para o próprio desenvolvimento da historia. Boyle está tão preocupado em acertar sua resolução - para que tudo "faça sentido" - que ignora que seu ato final apesar de funcionar num sentido matemático (ou seja, a trama se encaixa) em termos cinematográficos e narrativos é patética. Você caminha por 90% do tempo em uma direção para mudar tudo em um daqueles plot twists exagerados e que dão um ar de realidade fantástica a uma historia que - quando não se passa na cabeça do protagonista - é calcada no realismo em termos narrativos.



Essa ideia beira o pedantismo, e quer dar um estofo épico a uma trama simples demais. Que pese o fato de Boyle ser um bom diretor e saber conduzir-nos por seu labirinto de referências, cores, sombras e iluminação precisa, fazendo da experiência ainda mais frustrante. Se o primeiro ato é intrigante (afinal por quê Simon quis se envolver com o crime?) e as respostas para nossos questionamentos no segundo são aceitáveis (óbvias, mas fazem sentido de forma prática) o ato final descamba para uma virtuose e exercício de estilo que - se é tradicional na filmografia de Boyle - prejudica sua história. E tudo começa na imagem mais impactante de toda a trama, um trabalho magnífico da equipe dos efeitos visuais do filme. A partir daí, com a quebra violenta entre real e imaginário, a trama corre - literalmente - até o fim de forma lisérgica com revelações sendo atiradas na cara do espectador, sem que exista muito espaço para que possamos engolir muito bem tudo aquilo dito. É uma estratégia claro, usada em milhões de filmes. Você derrama um caldeirão de informações em um espaço curto, não dando tempo para o espectador pensar nos furos e absurdos do que está vendo, porque estamos tão curioso para saber até onde a trama caminhará que aceitamos aquilo passivamente.

Se James McAvoy está correto, Vincent Cassel ve seu personagem ir perdendo força de forma agressiva e depois de um início forte, vai tornando-se um coadjuvante de luxo, enquanto Dawson da frieza inicial vai se tornando a peça fundamental da trama (pequeno spoiler aqui). Rosario é uma mulher belíssima e Boyle soube usar seus "atributos" para ilustrar sua pedante trama. Mesmo que seja ótimo ver a atriz completamente nua (pelo menos para os heterossexuais e as lésbicas) estas sequências são das mais gratuitas da história recente do cinema. E por que razão? Boyle precisa responder a uma pequena e insignificante referencia que faz no início do filme sobre um livro de arte. Muitos podem dizer que, na verdade, é uma exercício sobre o domínio que a personagem é submetida, mas por favor, ninguém me tira da cabeça que no fundo Boyle quis apenas mostrá-la pelada (nada contra, ela é linda) e que se as cenas não aparecessem na tela, de fato nada mudaria.

Em Transe flerta com o completo desastre com uma intimidade assustadora, mas Boyle sabe deixar o espectador, se não envolvido (já que os personagens são frios e a trama sórdida não ajuda), ao menos curiosos para saber onde aquele assalto mal sucedido vai nos levar. Uma pena que a resolução encontrada seja mais do mesmo, e caia no quase absurdo, transformando personagens em pessoas com habilidades super humanas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

127 Horas
(127 Hours, 2010)
Drama/Thriller - 94 min.

Direção: Danny Boyle
Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy

Com: James Franco

Iniciando com uma edição ágil e uma trilha animada, os créditos iniciais de 127 Horas dão o tom da vida acelerada do alpinista Aron Ralston (James Franco). O título do filme, porém, só aparece na tela - em um fotograma belíssimo - alguns minutos depois, quando o nosso vigoroso protagonista cai de repente numa fenda estreita do Canyon que escalava. Chocado, Aron fica alguns segundos suspenso, sem acreditar no que acabou de acontecer . É possível enxergar na sua face os primeiros sentimentos de pânico em decorrência da situação unusual na qual acabara de entrar. E aqueles são apenas os primeiros segundos dos longos cinco dias e 7 horas que o alpinista teve de suportar com uma rocha imprensando seu braço contra a parede do canyon.



E dois anos depois de ser consagrado vencendo o Oscar pelo bom, porém hiper-valorizado Slumdog Millionaire, o diretor inglês Danny Boyle vem agora realizar o seu melhor trabalho nos últimos anos, contando exatamente a história verídica e espetacular de Aron Ralston, o alpinista que passou às 127 horas do título com o braço direito esmagado na fatídica rocha, em uma fenda do Blue John Canyon em Utah, Estados Unidos.

Na trama desenhada no filme, dá-se a entender que Aron, de certo modo, estruturou tudo o que fosse possível para que não fosse resgatado - Não retornava as ligações da mãe há dias, não mantinha mais contato com a ex-namorada Rana (Cleménce Poésy), e, principalmente, não tinha avisado pra ninguém aonde tinha ido. O último contato com seres humanos antes do acidente tinha sido com duas turistas, Kristi (Kate Mara) e Megan (Amber Tamblym), as quais ele tinha guiado por um tempo no passeio. Mas, como pode ser visto no próprio trailer, elas não conseguiram ouvir aos chamados desesperados de Aron. Ele estava sozinho, sem muito que fazer.




E o roteiro de 127 horas aproveita muito bem todo o potencial que a história real impressionante dispunha. Com uns braços amassados, presos, e uma rocha grande e pesada limitando seus movimentos, era muito fácil para Aron enveredar pelo caminho do desespero. ''Do not loose it, Aron '', entretanto, o aventureiro diz. Era preciso manter a paciência para seguir com chances de vida, e entrar em pânico não ajudaria em nada. Com esforço, ele passa por maus bocados - enfrenta a dor, as alucinações, a escassez de água e comida, culminando em ter que beber a própria urina - até ter o ímpeto de amputar o próprio braço com as ferramentas que possuía no momento. Como peça de ilustração de um fato real, o novo longa de Danny Boyle é excepcional. Utiliza sua trilha para temperar a tensão com certa ironia, mas também para pontuá-la em momentos de dor lancinante - como na inconfortável cena em que Aron corta o nervo de seu braço, cena, aliás, que fez pessoas passarem mal em festivais ao redor do mundo. Uma retratação muito talentosa e eficiente da jornada de superação do alpinista.

E talvez ''superação'' seja o adjetivo mais óbvio para 127 Horas. Realmente, a superação física é visível, mas não é só nisso que o termo se baseia. Superação do modo de agir, das concepções que Aron possuía antes de ficar preso por mais de cinco dias numa fenda. Fica muito claro no momento em que ele declara que aquela rocha estava esperando por ele desde que nasceu. Era o ponto de mudança que ele precisava passar, o aprendizado que necessitava adquirir.




E esse aprendizado tem as formas muito bem definidas pelas fases que o filme apresenta. No início, a agitada e divertida vida de Aron, e no decorrer do tempo após o acidente, às considerações dele sobre tudo que não chegaria a viver se aquele canyon fosse o último capítulo de sua vida. E nessa divisão de fases, Boyle se molda muito bem em todas elas. Consegue colocar uma direção com ar de videoclipe - que ganha mais força com a montagem rápida - no início, e lidar com o drama seguinte de maneira competente, arrancando imagens belíssimas do ambiente no qual a produção se passa.

Mas, de fato, seria impossível falar de 127 Horas sem citar com veemência o nome de James Franco. Ele é o fator essencial que torna o filme de Boyle acima da média. Toda a emoção passada por Franco é real, assustadoramente tridimensional e penetrante. Nos sentimos tocados de maneira muito especial pela performance do jovem ator. Sua interpretação é singular desde sua postura corporal, passando por seu olhar enfraquecido, chegando ao clímax nas partes em que encarna a dor que o alpinista passou na vida real. Uma verdadeira amostra de talento que a nova geração de atores possui. Ótimo, merece todas as indicações que vier a receber.


Numa avaliação geral, podemos constatar que 127 Horas é uma brilhante trama baseada em fatos, transportada para as telas de cinema com muito esmero. E vale também para termos uma percepção mais elevada sobre a própria carreira de Danny Boyle. Ele veio de um filme - Slumdog - que da vida como um conto poético, onde o destino se encarrega de dar o rumo a seus personagens. Então deve ser de muito valor dirigir agora um filme onde um personagem sozinho tenha que mudar, pela força de vontade de sobreviver, o próprio destino - e aprender com isso uma lição necessária.
Depois de muitos meses sem escrever, mudar de mestrado e cruzar o Atlântico duas vezes, finalmente me instalei  em um novo país e resolvi fazer um novo post pelo simples motivo de que nas últimas semanas assisti a coisas sensacionais! Estamos em plena “red carpet season” e é nessa época que os estúdios lançam os filmes que consideram ser seus golden tickets para levar algumas estatuetas. Bom para os fãs de cinema, que podem se deliciar com coisas bem bacanas em tela. Os indicados ao Oscar foram anunciados sem grandes surpresas ontem e, coincidentemente no mesmo dia tive o privilégio de ver uma palestra com Simon Beaufoy, o roteirista de “Ou Tudo ou Nada”, “Quem Quer Ser Um Milionário” e do filme sobre qual escrevo hoje, “127 Hours”. Beaufoy  viu na tarde do mesmo dia seu nome ser anunciado como um dos candidatos a levar o prêmio de melhor roteiro original.
“127 Hours”, é uma obra bem difícil de enquadrar como um gênero específico. O filme é baseado no livro “Between a Rock and a Hard Place”, do americano Aaron Ralston que relata a história real da qual foi protagonista: durante uma caminhada por um parque nacional desértico em Utah, nos EUA,  Aaron sofreu um acidente e acabou tendo a mão prensada por uma rocha, tendo ficado por mais de 5 dias preso dentro de um cânion, isolado. Não é spoiler contar que ele conseguiu escapar, já que a história é de fato real e foi contada em detalhes pelo próprio Aaron, mas vale fazer suspense sobrecomo ele o faz; a que sacrifícios tem que se submeter para salvar a própria a vida.


O filme é o aguardado projeto seguinte de Danny Boyle, diretor inglês superpremiado pelo overrated “Quem Quer Ser Um Milionário”, que levou os grandes prêmios no Oscar em 2009. Boyle é claramente um diretor indie e usou o status e influência que o Oscar lhe trouxe para conseguir viabilizar este projeto, um filme que dificilmente se enquadraria nos planos de algum grande estúdio, entre outros, por um grande motivo: seu protagonista passa praticamente o filme todo sozinho em cena, contracenando consigo mesmo.
Boyle tem soluções interessantes para burlar o isolamento de Aaron na trama. Ele está fisicamente sozinho, sim, mas mergulhamos a todo instante na mente do personagem. Ecoam lembranças, memórias e até projeções de quem ele foi, é e, se conseguir sair daquela situação, deseja ser. O diretor usa todos os truques frenético-visuais que aprendeu com seus filmes anteriores (“Trainspoting”, “A  Praia” e “Slamdog” gritam na tela!) como artífico para ilustrar o exagerado espírito aventureiro do jovem. Os primeiros 20 minutos de filme são como um grande especial de esportes radicais de algum canal de TV a cabo: split screens, slow e fast motion usados aos montes, câmeras frenéticas e muita adrenalina. Passada essa etapa e instalado o grande conflito do filme, Boyle passa a usar seus truques para invadir a mente do protagonista e ilustrar em tela o processo de amadurecimento psíquico e espiritual que o permitiram sobreviver àquela situação.

É prazeroso assistir. As coisas estão no lugar certo e a  eficiente fotografia de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle funciona. Mas sente-se a presença de Boyle  um pouco demais. Não que as pirotequinias dele não sejam eficazes; são. Mas fica a  incômoda sensação de mais do mesmo. Já vimos muitos dos artifícios empregados nos outros trabalhos do diretor e a coisa acaba soando como se ele estivesse no automático. O filme tem, no entanto, um grande trunfo: James Franco. 


O longa é nitidamente de Franco. Construir uma narrativa que se apóia integralmente em seu protagonista não é fácil e Boyle teve sensibilidade apurada ao escolher seu Aaron e confiar plenamente nele para levar a história. Franco imprime em tela o arco dramático de seu personagem com muita competência e carrega uma ironia, um senso de humor absolutamente necessários para compor este personagem. A trajetória de Aaron é, na verdade, seu amadurecimento. Passa de um jovem arrogantemente inconsequente, a um homem que valoriza as coisas que tem ao seu redor e que busca forças para conquistar as coisas que ainda não tem. James Franco se diverte como o Aaron inicial, aquele que é o “dono do mundo”, o jovem confiante o suficiente para embarcar nesta viagem sozinho.  A cena em que entrevista a si mesmo, como se estivesse em um programa de auditório, falando para uma câmera portátil que carrega é genial – é neste momento que revela para a platéia que não contou a ninguém onde estava indo e revela a si mesmo que aquilo muito provavelmente vai lhe custar a sua vida. 

É verdade que Danny Boyle (re)utiliza vários dos elementos que já nos mostrou em seus filmes anteriores e que isso pessoalmente me distanciou do filme. Mas é preciso dar o braço a torcer e dizer que esses artifícios de fato funcionam em tela. O filme não se torna monótono em nenhum momento e o diretor consegue imprimir bastante aflição à trama, em especial na aguardada (e ao mesmo tempo supertemida) cena do auto-sacrifício a que Aaron tem que se submeter para escapar daquela situação. Em tempos de inacabáveis “Jogos Mortais”, que extrapolam o uso da violência gráfica e nos dão uma perversa aula de anatomia humana, Boyle nos entrega uma sequência brilhante; explícita na medida certa. Vemos o mínimo e o máximo necessário da carnificina e o resto é trabalho da montagem precisa de Jon Harris, do trabalho de som e da interpretação impecável de James Franco.  Difícil não levar às mãos ao rosto ou fincar os dedos na poltrona do cinema.

Franco foi indicado ao prêmio de melhor ator e Danny Boyle correu por fora: não levou indicação de melhor diretor, mas assina o roteiro com Beaufoy e por isso pode levar outro Oscar para casa. Acho bem difícil que o filme ganhe o prêmio de melhor filme, pois briga com produções de peso (sobre as quais vou tentar escrever nos próximos dias). Fica aqui o meu desejo de que Danny Boyle explore outras linguagens em seus próximos filmes. Não há duvidas que é um diretor muito competente e seria bem interessante vê-lo explorar novas maneiras de contar suas histórias.

terça-feira, 23 de março de 2010

Cova Rasa
(Shallow Grave,1994)
Comédia/Drama/Thriller - 92 min.

Direção: Danny Boyle
Roteiro: John Hodge

Com: Kerry Fox, Christopher Eccleston, Ewan McGregor

Os ingleses são famosos por muitas coisas, e uma delas é de seu peculiar (e para alguns intragável) humor. O humor inglês tende a ser ácido, sarcástico e muito politicamente incorreto.

Cova Rosa é a estréia na direção de Danny Boyle (recente vencedor do Oscar pelo filme Quem Quer Ser um Milionário) e o filme é um bom exemplar do que se convenciona chamar de “comédia inglesa”. Cova fala de três amigos (Juliet), (David) e (Alex), vividos por Kerry Fox , Christopher Eccleston e Ewan McGregor (em início de carreira e semi cabeludo) respectivamente, que dividem um apartamento e estão a procura de um quarto morador para dividir despesas e para fazer “um novo amigo”.


Hugo é o escolhido e chega dizendo que é um escritor, buscando espaço para escrever seu novo livro, quando de repente aparece morto em seu quarto, trancado por dentro, e junto a uma mala cheia de preciosas libras.

E ai é que “o caldo engrossa”, com o típico e até certo ponto clichê, jogo de moralidade entre devolver o dinheiro ou ficar com ele, e ainda mais, no caso de ficarem com a grana, o que fazer com o corpo.

Os personagens são interessantes, e isso é um enorme mérito do diretor, pois apesar de McGregor (pela personalidade de seu personagem) ser o que poderia se chamar de protagonista, os outros dois moradores do apartamento são igualmente interessantes e bem construídos.


Cova é uma bela tentativa de Danny em avaliar os “culhões” do ser humano, forçando os personagens numa espiral de acontecimentos que transformam três amigos em três estranhos, o que é um mérito tanto do diretor quanto do bom roteiro a cargo de John Hodge, apesar dele conter alguns problemas, pelo menos na minha avaliação.

O filme talvez peque pelo seu maniqueísmo no tratamento dos personagens, os identificando quase como esteriótipos dentro da inusitada situação. Porém o trabalho visual apurado de Danny Boyle compensa esse problema com o bom uso da câmera, ora utilizando composições austeras e simplistas, ora estilizando a ação e criando tomadas bastante criativas (como na derradeira cena do filme).


Outro ponto importante é a mistura de comédia com suspense que concentra os típicos maneirismos de Boyle, e que seriam aprofundados e transcendidos no clássico moderno Trainspotting. Estão lá o uso da cor saturada, os movimentos moderninhos de câmera, o exagero cômico ao mostrar a violência.

Além disso , ainda destaco a fotografia bastante colorida (assim como a direção de arte, que compõe o apartamento do trio como um reduto da intriga por meio das cores) que brinca com sombras e com luzes ao retratar o agravamento da situação vivída pelos protagonistas e a bela e inusitada trilha sonora a cargo de Simon Boswell que recheia de bom humor o filme.


Cova é uma estréia promissora, que indicava que seu diretor tinha predicados suficientes para alçar vôos mais altos (como o fez vide o cult clássico Extermínio e o já citado e magnífico Trainspotting).