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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Para Sempre Alice

Para Sempre Alice
(Still Alice, 2014)

Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland

com: Juliane Moore, Kate Bosworth, Kristen Stewart, Alec Baldwin

Eta filme difícil de se ver (especialmente se você tem alguma traço de hipocondria). "Para Sempre Alice", da vencedora do Oscar Juliane Moore conta a história da professora de linguística que descobre ter um tipo raro de Alzheimer. O filme é uma longa (nem tanto já que o filme não chega a duas horas) espiral rumo a degradação mental da personagem. Esse é daqueles que quer que o espectador se emocione e chore e por vezes, quase consegue.

Moore é uma excelente atriz e leva nas costas o filme mesmo ancorada por coadjuvantes talentosos (especialmente Alec Baldwin e Kristin Stewart que vem acertando seguidamente). Felizmente o filme não vai até o fundo do poço da doença e nos deixa com uma imagem final bela e poética (o que reforça o aspecto de "fazer chorar" que o filme pretende).

Assim como a grande maioria dos filmes do Oscar desse ano passa longe de ser uma grande produção, mas tem seus méritos cinematográficos - especialmente em ter uma protagonista que vai se despindo de suas capacidades intelectuais na nossa frente - e por abordar um tema tão duro de forma não tão melodramática assim.


★★★

domingo, 16 de dezembro de 2012

A Origem dos Guardiões


A Origem dos Guardiões
(Rise of the Guardians, 2012)
Aventura - 97 min.

Direção: Peter Ramsey
Roteiro: David Lindsey-Abaire

com as vozes de: Hugh Jackman, Alec Baldwin, Isla Fisher, Jude Law, Dakota Goyo

O mercado das animações blockbuster de estúdios consagrados anda um tanto estagnado. Todo ano, havia os lançamentos das três grandes: Pixar, Dreamworks e Disney. Enquanto a Pixar representava uma bússola de qualidade, sempre ousando mais que a concorrente e a parceira Disney, a produtora de Spielberg se entregava à sua já conhecida diversão passageira e recheada de referências à cultura Pop. Após a queda de qualidade da Pixar com os fracassados lançamentos de Valente e, principalmente, Carros 2, a Dreamworks teve finalmente uma chance de se destacar desses estúdios, tanto nas premiações quanto no próprio imaginário do espectador. Afinal, para o espectador seria mais fácil se lembrar da qualidade de Como Treinar o Seu Dragão se Toy Story 3 não tivesse sido lançado no mesmo ano.

Porém, se antes o descompromisso e o deboche eram a regra (Shrek, O Espanta Tubarões, Os Sem-Floresta), com o tempo o estúdio foi se adequando ao mercado e investindo em conceitos formulaicos para obter sucesso. A partir do leve fracasso de Bee Movie, as animações da casa raramente surpreendiam o espectador, entregando entretenimento bem executado, mas nada memorável. Como agora os super-heróis estão novamente em pauta, os criadores de Kung Fu Panda, como em Megamente, lançam um produto do subgênero.
E a prometida revolução ensaiada em Megamente, como debatida na minha crítica do filme, novamente permanece suspensa. A Origem dos Guardiões é interessante e intenso, puxando um pouco do apelo emocional que tornou Como Treinar... o melhor filme do estúdio, mas pouco faz pelo gênero além de entregar um Vingadores versão Contos de Fada.

Desde o princípio, fica clara a intenção do filme de Peter Ramsey em construir uma jornada de superação ao protagonista eleito, Jack Frost. A bela cena inicial, que impacta pela queda no lago e prossegue detalhando a vida de Frost com seus poderes recém-adquiridos, serve bem ao ambientar o passado e motivação do herói (ainda que a narração em off seja bem expositiva). Após a origem de Frost, o panorama super-heroico do grupo do título se estabelece aos poucos. O sinal da Lua avisa ao Papai Noel que o vilão Bicho Papão está de volta, dessa vez, muito poderoso. Rapidamente, ele se reúne com o Coelho, a Fada do Dente e Sandman, o senhor dos Sonhos.


Como em um filme de roubo, o novato no grupo Frost é o encarregado de mostrar todos os pormenores do grupo. Assim, a Dreamworks é liberada para executar cenas como a dos ajudantes do Noel se preparando para o Natal, o Coelho concebendo seus ovos para a Páscoa e as fadas-mirins auxiliando a Fada do Dente a entregar todos os dólares pelo mundo inteiro. Além de visualmente impressionantes (Guillermo Del Toro é produtor-executivo e consultor visual do filme), essas sequências divertem por conferir explicações “plausíveis” para esses mitos que entregam tantos presentes em tão pouco tempo. Então, os ovos de Páscoa são coloridos em uma espécie de refúgio artesanal subterrâneo, e as distribuições de Natal e dos dentes são transformadas em mega-operações quase de espionagem, onde tudo é minuciosamente estudado e executado. Além, é claro, de serem divididas em segmentos regionais (muito esperta a ideia de criar um “setor europeu” para as fadas). Funcionam também as piadas entre os mitos, que trocam diálogos divertidos baseados em suas funções (a Fada diz para Noel que “é fácil falar quando se trabalha só uma vez ao ano, diferente de mim”). E por mais que essas tiradas sejam por vezes bastante óbvias (Sandman aparecer dormindo às vezes é de uma previsibilidade ímpar), o senso de humor do filme é tão bobo e sua narrativa é tão leve que nem se percebe com incômodo esses fatores.

A caracterização dos personagens também acerta ao ser eficaz, apesar de bem econômica e conhecida do gênero. O Papai Noel tem um porte físico característico e falas professorais/paternais que os identificam de cara como o líder do grupo; o Coelho, ágil, imponente e bad-ass (no original, dublado pelo australiano Hugh Jackman), usa um boomerang e vários gadgets para suas tarefas, sendo basicamente o “homem de ação” do grupo; a Fada do Dente é fofinha e colorida, serelepe, simpática e falante; Sandman é o mais introspectivo e a figura mais emblemática do filme, de longe o melhor personagem; e Pitch, com seu jeito gótico, figurino sóbrio e físico nosferático, apresenta uma ameaça urgente e satisfaz na tarefa de assustar. Interessante, ademais, é a escolha de representar a personalidades de alguns dos personagens por quesitos culturais/geográficos. Além do já citado jeitão australiano do Coelho, a expressividade russa do Papai Noel sempre diverte. 

E a parcimônia digna de um lorde inglês de Pitch é bem relevante para o papel, que o faz um vilão melhor ainda. E abordando a comparação a Vingadores, Pitch é um vilão inclusive melhor que Loki, que nunca apresentara ameaça naquele filme, nem mesmo no momento-chave envolvendo o Agente Coulson.


O longa peca, porém, na estrutura. Se a já citada estereotipada criação dos personagens (Noel é o líder, Fada a tagarela, Coelho o durão, Sandman o velho sábio, Jack o herói em formação) termina sendo eficaz, a decisão de narrar a história por confrontos esporádicos com o vilão acaba cansando. E se o esboço é raso, o miolo se preocupa pouco em inovar. 

Temos o arco clichê de superação do herói, que precisa se tornar responsável e assumir sua condição de herói (o “grande poderes, grandes responsabilidades” ganha até elemento narrativo no filme, a descoberta pelo “lema” do herói); a esperança representada pela figura de um menino comum; e a tentativa do vilão seduzir o protagonista para a turma do mal. Além disso, o roteiro usa de um deus ex machina dos mais difíceis de engolir ao solucionar a queda e ascensão de Jack Frost. Como o bastão é quebrado ao meio e se conserta apenas após Jack simplesmente juntar os dois pedaços? E que vilão jogaria o herói em uma vala se sabe que ele pode só pular dali e voltar como ameaça?

São os mesmo defeitos corriqueiros dos filmes da casa, mas para um roteiro escrito pelo consagrado dramaturgo David Lindsay-Abaire, se esperava mais. A ideia de transformar figuras mitológicas pra crianças em um Vingadores infantil é, sem dúvida, chamativa, mas uma execução tão average não é tradição de um roteirista com tanto potencial. Aqui e ali, se notam as intervenções dramáticas de Abaire (a morte de um personagem, e o medo dos heróis pelo possível esquecimento perante as crianças, são trabalhados com esmero), mas é pouco perto da trivialidade do entretenimento correto que é A Origem dos Guardiões. 


Fica difícil saber se as coisas poderiam ser diferentes para o filme, mas a impressão que fica é que a abordagem escolhida simplesmente impedia o longa de alçar voos maiores. Talvez nem se Jack Frost fosse um protagonista menos opaco o filme empolgaria mais.
O que nos traz de volta à questão de Megamente. Ousadia não é esperada na fórmula adotada pelos criadores, mas sempre é com bem-vinda surpresa que surge algo como um Como Treinar seu Dragão. Da ambição presente no longa do alien azul em criar a desconstrução definitiva dos super-heróis, ao menos, o filme não sofre. Desde o princípio, se assume que o plot comporta uma aventura de grandes feitos, mas que mantém o diferencial, prometido anteriormente, de molho.

A Origem dos Guardiões tem ritmo envolvente e uma galeria de personagens que são atraentes o suficiente para manter a atenção por 100 minutos. Há uma óbvia intenção em criar novos episódios com estes personagens, mas infelizmente o filme fracassou nas bilheterias mundiais. O ponto de partida simplório fecha seu arco com eficácia e dá a lição para a criançada que o selo Dreamworks costuma oferecer. Tem-se a certeza que o estúdio cada vez mais se estabelece como um produtor de blockbusters de apelo infantil, que se resolvem bem melhor no setor da animação. Diversão rápida, ainda que nunca memorável. Ainda um degrau abaixo de um Kung Fu Panda, mas absolutamente superior ao aceitável e esquecível Gato de Botas.

Em um ano onde Frankenweenie é anunciado como o filme de animação do ano, até que dá para reconhecer o valor super-heroico e os personagens carismáticos de A Origem dos Guardiões.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Rock of Ages: O Filme


Rock of Ages: O Filme
(Rock of Ages, 2012)
Comédia/Musical - 123 min.

Direção: Adam Shankman
Roteiro: Justin Theroux, Chris D'Arienzo e Allan Loeb

com: Diego Boneta, Julianne Hough, Tom Cruise, Alec Baldwin, Russel Brand, Catherine Zeta-Jones, Mary J. Blige, Bryan Cranston, Paul Giamatti

Rock of Ages é brega. Muito brega. Exagerado, cartunesco, simplório na relação de seus personagens, tem um roteiro absolutamente previsível, personagens que são praticamente esboços, canções que (em sua maioria) não são especificamente conhecidas de muita gente e direção apenas mediana.

Mas é uma ótima diversão. Parece absurdo não? Explico. Rock of Ages é tudo isso acima, mas propositalmente. E essa é a grande qualidade da produção de Adam Shankman, não se levar a sério. Mesmo quando o filme apresenta momentos de maior "reflexão", ou pequenos dramas dos personagens principais, sempre encontra uma maneira de encaixar uma observação engraçada, irônica ou simplesmente mostra na tela algo que destrua aquele clima de pseudo seriedade que o espectador possa - por alguns segundos - ter comprado.

A historia é absurdamente clichê e versa sobre a garota da cidade pequena (Sherrie Christian/vivida por Julianne Hough) que chega a Los Angeles em plena era do hard rock californiano, ou como muita gente erroneamente gosta de chamar "metal farofa", em busca do sonho de ser cantora. Assim que põe os pés na cidade é assaltada perdendo seus bens mais preciosos: seus discos. Entra em cena o ajudante de bar e músico em potencial Drew Boley (Diego Boneta) que vendo a situação da garota decide convidá-la a trabalhar com ele no famoso Bourbon Club, um amalgama de todos os bares da famosa Sunset Strip.


O bar é administrado pelo bonachão Dennis Dupree (Alec Baldwin), um hippie aposentado que vive o sonho do rock'n'roll ao lado do amigo e parceiro de negócios Lonny (Russel Brand). O Bourbon está ameaçado pela eleição do prefeito Mike Whitmore (Bryan Cranston) e especialmente por sua esposa Patricia (Catherine Zeta-Jones), uma combativa inimiga do estilo de vida rock'n'roll.

Enquanto os jovens pombinhos se envolvem romanticamente, Dupree prepara sua cartada final para manter seu bar funcionando, armando um concerto com o rockstar Stacee Jaxx (Tom Cruise) uma mistura de todos os clichês e personalidades roqueiras típicas dessa era de excessos. A historia segue então estes personagens, seus encontros e desencontros, sempre com muito bom humor, acidez e uma breguice que combina demais com a produção.

Evidentemente que o filme não é perfeito. Tem alguns personagens que entram e saem da trama sem nenhuma função, como a dona de um clube de striptease vivida por Mary J. Blige. Apesar de ser uma cantora de mão cheia e de seu clube ser palco de algumas das poucas coreografias desse musical, onde muito se canta e muito pouco se dança, sua personagem não tem nenhum arco dramático. Outra que é desperdiçada é Malin Akerman, como a jornalista que coloca pela primeira vez o rockstar Stacee Jaxx em uma posição - digamos - desconfortável.


Os protagonistas também não são grande coisa, sejamos francos. Se não comprometem cantando (embora quase nenhuma canção tenha conseguido ficar no mesmo patamar das versões originais), são apenas jovens esforçados, e talvez diante de uma trama mais complexa e que exigisse mais do que a mimetização de um clichê do casal apaixonado, os dois atores conseguissem apresentar algo mais denso.

Mas aqueles que realmente roubam a cena são os coadjuvantes. Todos muito bem no filme (isso mesmo, até mesmo o insuportável Russel Brand acerta, e assim, como Jack Black em Escola de Rock, parece estar interpretando uma variação de sua própria personalidade), mesmo com Zeta-Jones sendo menos importante para a trama como todos os trailers anunciavam. Mesmo Bryan Cranston em uma ponta de luxo acerta na canastrice necessária para seu personagem. E Alec Baldwin, já consagrado como um comediante de mão cheia, novamente vai muito bem, naquela auto parodia que ele sabe fazer tão bem na serie 30 Rock.

Mas, os grandes destaques do elenco são Paul Giamatti e Tom Cruise. Giamatti imita Peter Grant, famoso empresário do ramo musical, que teve como principal cliente o Led Zeppelin. O personagem do empresário é o mais próximo de um vilão que o filme apresenta, embora suas maldades não sejam em si - cruéis - mas simplesmente aproveitadoras. Ele é mais um dos muitos clichês explorados pelo filme, a da indústria como um gigantesco tubarão comendo o talento dos artistas.


E Cruise, mesmo com seus problemas pessoais, maluquices e afins, é sim um ator talentoso. Quem ainda não consegue conceber que um sujeito com pinta de galã tenha sim talento, precisa desesperadamente procurar um psicólogo para curar essa baixa estima. Porém, é inegável que por muito tempo, o ator se protegeu de papéis que brincassem com sua imagem. Se em Trovão Tropical ele vivia o empresário canalha, aqui ele vai ao limite da imagem de galã surgindo sem camisa em quase todas as cenas do filme, abusando das muitas caras e bocas para representar o ápice da degradação do rock star. Além disso, sempre está acompanhado de seu macaco de estimação Hey Man, que ao mesmo tempo em que é uma frase comum no inglês, não deixa de ser uma piadinha sobre Rain Man, filme que Cruise co-estrelou ao lado de Dustin Hoffman. Apesar de até esboçar um arco dramático que fala de amadurecimento e de encontrar seu lugar no mundo, Cruise se destaca mesmo pela incrível capacidade de convencer o espectador como o rock star, inclusive cantando (e bem).

Adam Shankman, do irregular, mas com a mesma ideia anárquica Hairspray, consegue criar um musical divertido e profundamente irônico que funciona muito bem na tela. A peça original (para os que não sabem o filme é baseado em um sucesso da Broadway) consegue encontrar significados até profundos - milagrosamente, diga-se de passagem - e fazer das efêmeras e profundamente divertidas canções da época um belo acompanhamento para um filme que sabe que não está inventando a roda, mas que acerta com bons arranjos e divertidas versões de canções de forte apelo melódico.

O filme tem alguns destaques óbvios entre os momentos musicais da trama. Catherine Zeta-Jones cantando e realizando a coreografia mais exagerada da historia em "Hit me With your Best Shot" de Pat Benatar, o surgimento do personagem Rock Star de Cruise em "Wanted Dead or Alive" do Bon Jovi, o dueto engraçadíssimo e exponencialmente oposto ao que diz a letra de "I Want to Know what Love Is" do Foreigner, a consagração rock star, com direito a todos os excessos de um show oitentista de "Pour Some Sugar on Me" do Def Leppard, a montagem inteligente e sensível ao som de "Here I Go Again" do Whitesnake, a engraçadissima cena de entrega emocional ao som de "Can't Fight this Feeling Anymore" do REO Speedwagon e o número musical bem realizado ao som de "Any way You Want It" do Journey. E não, não citei todas as musicas do longa, e sim, são muitos os momentos musicais no filme, que não sofre como outros musicais de um cansaço mental ao acompanharmos as canções. Talvez pelas mesmas serem conhecidas e em geral terem um clima alegre e descontraído, que além de funcionarem como obras fechadas dão ao filme um animo muito grande.


Rock of Ages é uma ode a um período quase totalmente hedonista e ao trinômio sexo-alcool (os personagens não usam drogas no filme, embora o álcool seja uma, mas enfim, me entenderam) e muito rock'n'roll. Uma celebração das festas e da falta de compromisso com qualquer coisa que não seja a diversão e a busca do sonho ingênuo do amor eterno. É quase um conto de fadas, mas com uma trilha sonora muito mais legal.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Para Roma com Amor


Para Roma com Amor
(To Rome with Love, 2012)
Drama/Romance/Comédia - 102 min.

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen

Com: Jesse Eisenberg, Alison Pill, Alec Baldwin, Penelope Cruz, Roberto Benigni, Ellen Page, Woody Allen

Parece regra: basta Woody Allen juntar muitas historias em uma mesma narrativa para que o filme desande. Embora, não seja só isso que faça de Para Roma com Amor um filme consideravelmente inferior a Meia Noite em Paris, ou mesmo outros filmes de Allen que não estão no mesmo patamar de seus filmes mais intrigantes, inteligentes, divertidos ou dramáticos.

O problema de Para Roma, reside no mesmo que catapultou Meia Noite para o topo das listas de melhores do ano de muitos críticos ao final do ano passado: seu roteiro. Se Meia Noite não era um desbunde de direção, tinha um roteiro afinado que funcionava muito bem, bons personagens e uma historia ao mesmo tempo mágica e realista, que relacionava a nostalgia com vultos do passado, num coquetel de cultura e diversão.

Para Roma tem um roteiro episódico, recortado entre uma serie de personagens diferentes que povoam o filme. Em suma, o primeiro erro de Allen foi conceber em um mesmo filme tantas subtramas, tantas histórias diferentes que em momento algum se inter-relacionam, permanecendo únicas. Talvez se cada pequeno conto se se transforma em um filme teríamos novos e bons filmes do diretor, embora essa ideia episódica surja como uma homenagem do diretor ao cinema italiano, popular nos anos sessenta e setenta por lançar diversos filmes que tinham essa ideia de apresentar várias pequenas historias unidas em um único filme.


Iniciando com um plano em um guarda de trânsito que funciona como apresentador da "ode" de Allen a cidade italiana, o filme intercala as diversas historias presentes em seu roteiro. Temos o casal do interior que chega a cidade de Roma e diante do iminente encontro com os tios do "noivo", acabam se perdendo, envolvendo-se com atores famosos e garotas de programa. A historia - digamos - principal coloca uma jovem turista americana que ao se apaixonar por um italiano traz seus pais para conhecer a família do namorado e possível marido. O filme ainda critica a indústria das celebridades com a historia do homem que sem motivo alguma se torna famoso e ainda tem espaço (em teoria) para colocar um espelho diante de um homem de meia idade (ou de um jovem) para analisar a passagem do tempo e as consequências de nossas escolhas na vida.

A historia do casal interiorano é que apela mais diretamente para o humor. A jovem Milly (a bela Alessandra Mastronardi) se perde na complexa Roma - e Allen ilustra isso com diversos figurantes tentando informar a garota, que obviamente não consegue compreender as informações - enquanto seu noivo, o travado Antonio (o espirituoso Alessandro Tiberi) recebe a visita da garota de programa Anna (Penelope Cruz estonteante), que funciona como professora para o personagem. Essa é a historia que melhor funcionaria como apoio para uma outra maior e mais elaborada, pois a natureza da montagem (com cenários diversos e muitos figurantes) ajuda a historia a parecer maior do que na verdade é. Apesar do humor não funcionar na resolução da historia, que parece ter saído de um filme ruim de Almodóvar, diverte pela comédia de erros que proporciona.

A historia da jovem americana (Alison Pill) que se apaixona é a que tem mais tempo de tela e que por consequência pode ser encarada como principal, embora seja a menos interessante delas. Simplória em sua construção, tenta ganhar pontos com a entrada dos pais da "noiva", vividos por Judy Davis e Woody Allen. Phyllis (Davis) é uma psiquiatra cética que vê o marido como um homem que pode ser dominado, já que em sua profissão (ele trabalhava na divisão de musica clássica de uma gravadora e dirigiu algumas operas) sempre foi considerado excêntrico, portanto, um material vasto para uma análise. Allen, por sua vez, repete pela enésima vez o personagem neurótico e cheio de manias que o consagrou. Longe de ser um grande ator, Allen funciona nesses papeis, pois eles representam muito do que Allen sente e pensa, portanto não parece absurdo imaginar que os discursos de Jerry a respeito da aposentadoria sejam o que Allen verdadeiramente pensa. Jerry detesta estar aposentado e enxerga "parar" como morrer. Será essa a visão de Allen? Sem seus filmes rapidamente morreria, mesmo que não de forma física? Outra questão muito debatida no filme é o fato do personagem ser por diversas vezes chamado de "a frente de seu tempo". O que seria isso? Uma sátira de Allen aos intelectualóides, que acham que seus trabalhos são realmente especiais? Uma constatação de que a arte muitas vezes antecipa-se a sociedade? Ou um reflexo de si mesmo? De todo caso, o foco da historia não é o personagem de Allen diretamente, mas o sogro de sua filha, um legitimo cantor de banheiro que é usado por Allen como ultima esperança para manter-se ativo. Apesar de funcionar no começo e da trilha e produção serem impecáveis, é cansativo revermos a mesma ideia sendo repetida. O bom humor do começo da história vai se perdendo, transformando os sorrisos (Allen nunca fez filmes em que as pessoas gargalham compulsivamente) em indiferença.


A melhor das pequenas historias é a que critica sem piedade a indústria da fama. Roberto Benigni é um sujeito sem graça, que tem uma família absolutamente comum e um emprego banal. Sem nenhum motivo aparente, passa a ser perseguido pelos papparazzi que estão interessados em tudo e qualquer coisa que ele faça. Tudo vira motivo para notícia, de seu café da manhã até seu corte de cabelo, sempre com o viés crítico. Porém, o personagem de Benigni como muitos que são tocados pelas facilidades da fama, passa a aproveitar o "bem-bom". Allen deixa de lado a crítica quando nos momentos finais da trama subverte a situação, quase que se rendendo a fama.

E a mais confusa dos pequenos contos envolve Jesse Eisenberg e Alec Baldwin, que nunca fica exatamente claro, se são amigos reais ou imaginários. Seria Eisenberg o reflexo do passado de Baldwin? Ou seria Baldwin um vislumbre do futuro de Eisenberg? Allen dá dicas sobre o realismo da historia. Enquanto todas as historias seguem praticamente uma mesma linha cronológica, essa historia tem saltos no tempo, o que demonstra que algo ali não está certo. O fato de Baldwin estar sempre presente ao lado de Eisenberg também é outra indicação da natureza da historia, tornando-o quase a representação da consciência do personagem.

Para Roma com Amor é um amontoado de historias, algumas razoáveis, nenhuma notável e algumas mal resolvidas. Na tour mundial de Allen, dessa vez na Itália, o diretor homenageia a cidade e seu cinema, é verdade, mas diferente de seu ultimo filme, esqueceu-se de unir o guia turístico a uma narrativa sólida.



sábado, 3 de abril de 2010

Os Infiltrados
(The Departed, 2006)
Thriller - 151 min.

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: William Monahan

Com: Matt Damon, Leonardo DiCaprio, Jack Nicholson, Mark Walhberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga e Alec Baldwin

Se existe um grupo de cineastas que fizeram por toda sua vida trabalhos geniais, obras marcantes, mas não obtiveram tal reconhecimento em Hollywood, certamente Martin Scorsese se encaixa nele.

Talento nato na direção, Scorsese surgiu como diretor no período da Nova Hollywood, uma época de mudanças drásticas no cinema comercial americano, e fez diversos filmes que foram verdadeiros marcos na história do cinema, e apesar de muito cultuados posteriormente, não levaram os prêmios americanos mais importantes - O Oscar, principalmente -. A partir, daí, a cada filme fantástico que Scorsese fazia e não conseguia arrancar um Oscar, reforçava mais o tabu da falta do prêmio da Academia. Em 2006, porém, isso estava para mudar.



Baseado numa história de um aclamado filme de Hong Kong intitulado Infernal Affairs, sobre policiais e bandidos infiltrados, foi escrito por William Monaham, que o fez mesmo sem assistir a obra original, algo louvável, evita inspirações desnecessárias, e adapta para o universo americano com mais liberdade e criatividade.

A história ganha, nas mãos de Monaham, um aspecto americanizado extremamente natural e interessante. Os núcleos abordados são da polícia de Boston e da máfia irlandesa local . Não poderia ser mais apropriado Scorsese pegar o posto de direção, já que um dos seus filmes anteriores , o nomeado ao Oscar Gangues de Nova York, já dialogava sobre a temática dos imigrantes irlandeses nos EUA. Some isso a temática violenta já associada facilmente a Scorsese, e a premissa se torna um prato cheio para referências e maneirismos do diretor.


A premissa em si não é complexa, e superficialmente, poderia ser considerada apenas de mais um filme policial comum. Entretanto, todo o desenvolvimento em cima da trama estrutural eleva o filme da mediocridade. A história mostra a vida de dois homens com objetivos diferentes, mas carmas semelhantes.

De um lado, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um descendente de irlandeses que tem na sua árvore genealógica um emaranhado de conexões criminosas, mas mesmo assim, quer entrar para a polícia estadual. Ele, diferente de toda a família, quer entrar para o lado da lei e da ordem, e um dos modos de servir ao estado seria infiltrar-se na gangue do grande chefe da máfia irlandesa Frank Costello (Jack Nicholson). Costello, por sua vez, criou um garoto da sua vizinhança, chamado Collin Sullivan (Matt Damon) para, no futuro, poder entrar na polícia, e servir como um informante a Costello.


Os detalhes , em sua maioria, é que transformam Os Infiltrados um suspense policial tão diferenciado. O cerco se fecha gradativamente, sem pressa, mostrando ao longo dos 151 minutos de filme toda a dualidade dos infiltrados . Chamados de ''ratos'' por serem os dedo-duros das corporações - tanto a criminosa quanto a policial - os dois protagonistas sempre vão e vem dos dois mundos, mas sempre estão a um passo de serem pegos.

É mais um caso de filme policial bem programado, com sub-tramas que interessam e
objetividade na dose certa. O suspense da trama é muito bem desenvolvido, também, por toda a compreensão do universo colocado no papel. Nada ali é colocado de maneira burra, e ao mesmo tempo que um dos infiltrados ataca, sua defeza fica a mostra, colocando tudo a perder.


Fica a quilômetros do filme, entretanto, a mudança de lado de algum dos dois. Os lados estão bem definidos e a única dúvida existente é a dos outros personagens, que não sabem em quem podem confiar, afinal desconhecem quem são os traidores. Essa dúvida, aliás, é o que dá o tom ao filme todo. Sempre que Costigan ou Sullivan agem como traidores nas corporações que se infiltraram, a verdade ameaça aparecer, podendo acabar com os planos dos dois. Um jogo de xadrez bem delineado que realça cada vez mais a dualidade referida linhas acima. A própria persoangem de Vera Farmiga serve para isso: mostrar a simetria nas relações dos ratos. E se todo o filme corre no estilo Michael Mann, onde um dos dois lados vai ganhar o duelo, o final não poderia se diferenciar mais.

Apesar do grande apuramento que o roteiro apresenta, esse é o tipo de filme que podemos encher a boca e falar: é mais do diretor. Ainda mais se o diretor for um Martin Scorsese. Todas as qualidades que botam o roteiro um patamar acima dos demais do gênero merecem ser divididas com a direção sublime que Scorsese apresenta. O suspense que o roteiro contém é muito bem conduzido pelo cineasta, que consegue criar clímaxes e dar a inquietação necessária ao espectador durante as cenas. Toda a simbologia presente no filme também é de responsabilidade do ótimo cineasta .


No início do filme, a cena começa fechada, num fundo preto, onde só se ve o personagem de Damon. Logo depois, a cena se abre, mostrando que naquele momento ainda é fácil se camuflar. Mais tarde, o efeito é usado de novo, de forma contrária (a cena começa aberta e se fecha num dos ''ratos'') mostrando que naquele momento, o cerco para descobrir o X9 só se fecha cada vez mais . O resto varia de planos muito belos, que enquadram todos com talento de sobra, movimentações de câmera que só embelezam mais a técnica do filme e cortes rápidos que não deixam o filme passar devagar. Há ainda, claro , referencias a filmes anteriores do diretor, mas dessa vez, de forma mais contida.

Mas passar por Os Infiltrados e não falar das atuações é impossível. Jack Nicholson usa de um estilo excêntrico, como de costume, e consegue roubar a cena de costume. Daria até para indicar ao Oscar, mas a Academia já deve ter ficado cansada por tantas vezes. DiCaprio atua na medida, não fazendo nada além da atuação padrão. Apresenta um nível bom, mas se se esforçasse mais, o resultado poderia ser melhor. Fora Nicholson, os grandes destaques ficam para Matt Damon e Mark Wahlberg. Damon consegue passar uma dissimulação maravilhosa, atuação sublime, mostrando que pode tanto convencer como espião do bem como criminoso disfarçado. Uma das maiores atuações da carreira. Wahlberg também é engolido pelo personagem e consegue se destacar com uma atuação bem realista, diferente dos seus outros trabalhos. Mereceu a indicação ao Oscar, apesar de não se a melhor atuação do filme. Sem dúvida, sem essa escolha fenomenal de atores o filme não teria todo o seu potencial explorado.


No final das contas, a técnica de Os Infiltrados é muito competente sim, mas serve apenas de cereja no bolo de um filme com profissionais excelentes e história bem desenvolvida. A fotografia suja nas ruas e limpa nos ambientes mais fechados é maravilhosa, e tem uma beleza como poucas. A edição premiada de Thelma Shoonmaker é muito inventiva em certos pontos, mudando o jeito de determinada cenas e segurando com competencia outras. Erra só na continuidade de certas sequencias, erros bobos, mas que poderiam ter sido evitados. Já a trilha de Howard Shore mistura momentos de músicas tranquilas com músicas mais agressivas, variando de acordo com o momento que o filme se encontra.

Certamente, Os Infiltrados não é o melhor filme de Scorsese e também não é sua melhor direção. É provavelmente o melhor trabalho recente do diretor, mas não se compara a um Taxi Driver ou a direção inventiva de um Touro Indomável. O fato de Os Infiltrados ganhar 4 Oscar- entre eles os mais importantes, de Direção e Filme - é justíssimo. Deveras, merecia no ano em que disputou, e Scorsese foi o que mais se destacou em 2006. Porém o gosto que fica é que foi feita uma justiça por tudo que Martin Scorsese fez pelo cinema em toda sua carreira. O reconhecimento tardio - mas pelo menos em vida - a um dos maiores mestres do cinema americano e internacional.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Simplesmente Complicado
(It's Complicated, 2009)
Comédia/Romance - 120 min.

Direção: Nancy Meyers
Roteiro: Nancy Meyers

Com: Meryl Streep, Alec Baldwin, Steve Martin

Em determinado ponto do filme, a personagem de Meryl Streep diz: “então é assim que é uma conversa de adultos”. Essa frase explica muito sobre o filme Simplesmente Complicado, que inacreditavelmente teve seu roteiro indicado ao Globo de Ouro.

Simplesmente é o novo fruto da árvore (que parece não ter fim) das comédias agridoces americanas, que pretendem ser “verdadeiras”, “realistas” e contar fatos da vida.

As aspas são mais que justificadas, pois o filme da diretora Nancy Meyers falha fragorosamente nessa tentativa. O filme soa no máximo como um passatempo esquecível de pouco mais de hora e meia.


A história fala sobre Jane (Meryl Streep), uma mulher de meia idade que está separada a dez anos de Jack (Alec Baldwin). Juntos o ex-casal viveram mais de 20 anos, e tiveram 3 filhos. O enrosco começa quando o mais novo dos filhos vai se formar e após uma mistura de flerte com um belo pileque, os dois acabam na cama.

As fagulhas até então adormecidas despertam e um caso de “retorno dos que não foram” se instaura. O problema é que Jack é casado, e Jane se vê no papel de amante do ex marido.
Nancy Meyers é uma especialista no gênero tendo escrito Recruta Benjamin, Presente de Grego, O Pai da Noiva, Alguém Tem de Ceder (esse ultimo também dirigiu) e sabe os atalhos do gênero. Talvez por isso, soe exageradamente infantil a trama orquestrada pela diretora.


O filme não funciona para começar pela sua falha moral básica dos personagens: sejam eles coadjuvantes (as cenas envolvendo o grupo de amigas deleitando-se com a “vingancinha” de Jane, ou os três filhos agindo como bebes de colo ao descobrirem o caso são medíocres) ou principais. A personagem de Meryl parece não ter conseguido seguir sua vida por questão da separação, e o de Alec é um esteriotipo ambulante. Steve Martin que vive o arquiteto Adam, é o único que realmente parece ser tridimensional. Todos os demais sofrem de “síndrome de Peter Pan”. Jane, não cresceu emocionalmente e lida a dez anos com a separação. Jack, parecendo entediado com o novo casamento acha que tudo vai ficar bem, os filhos do casal são uma coleção de “filhinhos da mamãe” típicos do subúrbio americano, que ficam chocados a cada demonstração de afeto dos pais. Cresçam minha gente ! Superem seus problemas, pelo amor de deus !

Meyers por sua vez, além de escrever os personagens rasos, ainda tenta amenizar a óbvia inconsistência de seus personagens, incluindo a comedia (que confesso funciona) numa historia que de leve e simples não tem nada. É realmente “simplesmente complicado” entender como uma mulher pode se sujeitar a uma nova tentativa de algo que já sabe que não vai dar certo. Pode até funcionar para alguns mas para mim, soou artificial, fútil e imbecil.


Baldwin é um cômico impagável, mas um ator dramático limitado. O ator, “se achou”, seu nicho é a comédia, e seus tipos (seja por aqui ou na série 30 Rock) roubam sempre a cena. São hilárias as suas tentativas de aproximação de Jane. Streep, dentre suas duas atuações indicadas a prêmios, tem nessa a “menos boa”. Streep, sempre está no mínimo muito bem, e esse é o caso. Apesar da futilidade e do texto fraco, os dois atores estão bem, conseguindo sobressair no meio da canastrice do roteiro. Martin, apesar de ter o personagem mais interessante, a tempos não tem uma atuação digna de nota, e não será dessa vez que terá.

O filme não é ruim, como pode ter parecido por minha resenha. Só não deve ser levado a sério, é um típico passatempo que você vai esquecer assim que sair da sala.


A comédia romântica é um dos gêneros preferidos do público, e também dos estúdios. Entretanto, por existir uma larguíssima variedade de filmes do gênero, fica ás vezes complicado de se criar mais tramas, já que quase todas dão no mesmo resultado final, passando pelas mesmas situações. Talvez na Inglaterra, pelas mentes dos componentes da Working Title, o terreno seja mais fértil, mas nos EUA a situação nem sempre é a mesma . Nancy Meyers, roteirista e diretora (mais recentemente) é uma daquelas que trabalha recorrentemente com comédias românticas, e conhece melhor do que ninguém o gosto do público. Criou diversos filmes do gênero, e já está calejada de criar esses roteiros.



Por vezes, a diretora criou filmes batidos, sobre mulheres de meia-idade que voltam ao amor, casais que se encontram e desencontram. Entretanto, ás vezes vem uma boa idéia, como em Do que as Mulheres Gostam , que tem uma premissa interessante . Nesse ano, Meyers nos dá Simplesmente Complicado, que possui uma trama rasoavelmente diferenciada, nesse infinito mar de ''mais do mesmo''. Contudo, se na hora de conceber idéias Meyers tem até algum sucesso, na hora de desenvolve-las tudo se resume ao fracasso .




Fracasso crítico, já que o público se lambusa com os caminhos (ruins) que a criadora segue em sua obra. Principalmente mulheres de certa idade que já se separaram (o que não é muito difícil de se encontrar hoje em dia, obviamente). Afinal, qual dessas mulheres não ia gostar da nova história de Meyers? Uma mulher separada há tempos, Jane (Meryl Streep) , não consegue arrumar um namorado, e não faz sexo há muito tempo (e o roteiro adora enfatizar isso). Um dia, na formatura de um de seus filhos, ela reencontra seu ex, Jake (o patético assumido Alec Baldwin), então casado com uma mulher muito mais jovem. Depois de beber e dançar muito, os dois passam um noite juntos. A partir daí, começam a ter um caso. Porém, Jane vai ter que decidir entre Jake de novo, ou o arquiteto recém divorciado Adam, que passa a reparar em Jane.



A premissa é até interessante, e acredito que foi ela e algumas piadas bem elaboradas que renderam ao longa a indicação no Globo de Ouro de melhor roteiro original. Fora isso, não há muito do que se pegar do roteiro. Parece, por vezes -principalmente no final - que foi o próprio Sid Field que escreveu o script . Para quem já está acostumado com filmes do tipo, tudo já é facilmente captado, e o que vai acontecer a seguir não é novidade . As situações são as clássicas do gênero, e nisso, o filme carrega quase zero de originalidade.


A falta de sutileza também dá as caras . O respeito a inteligência do espectador não está ali, e tudo que aparece em tela tem que ser explicado - tanto com imagens como com palavras - ao extremo. Ora, mesmo antes de entrar na sala, já sabemos que Jane é uma mulher que se sente sozinha e que queria ter um companheiro. Mostrar isso em tela está correto. Mas Meyers pesa a mão e exagera. Quem assiste não precisa nem se inclinar sobre a situação para senti-la. Tudo vem já mastigado . Quando Jane está triste por sua solidão, aparece um casal muito feliz e entra no elevador com ela. Então a diretora corta pra dentro dele, e mostra as carícias do casal, e a cara de tristeza de Jane. É realmente necessário colocar isso deste modo ? Prova de que Meyers está muito longe de saber guiar um filme com inteligência necessária .



E se o roteiro estrutural desenrola reviravoltas e clichês óbvios, os diálogos mostram certa qualidade. As piadas são boas, e as atuações - principalmente de Streep e John Krasinski - conseguem colaborar para efetua-las com timing certo. Com boas tiradas, o filme até faz rir, apesar de não muito. De resto, os diálogos mostram a falta de habilidade de Meyers de introduzir informação sem parecer artificial . ''Afinal, são dez anos''- de divórcio- , diz a protagonista logo no início do filme. Não fosse a ótima atuação de Streep, a frase poderia se tornar mais artificial ainda. Não seria mais fácil fazer a coadjuvante da vez perguntar quanto tempo faziam de separados ?




É também explícita a falta de qualidade na direção de Nancy Meyers. Seu jeito sem sal de dirigir já é colocado a vista logo no primeiro frame dos créditos iniciais. Não há cuidado por parte da cineasta em fazer algo mais diferenciado, e coordena o set com desleixo digno de alguns diretores de telenovelas. Além disso, alguns de seus takes são tão mal escolhidos que atrapalham o trabalho de edição, que já seria ruim o suficiente por si só. Deste modo, ocorrem erros até de continuidade. De fato, Meyers não consegue passar o que quer dizer de forma satisfatória, e sua direção deixa muito a desejar.



As atuações demonstram um pouco de qualidade em Simplesmente Complicado. Destaque para a renomada Meryl Streep. Mesmo fazendo o papel de mulher - comum, de meia-idade, que parece ter saído de Sex and the City- o tipo de personagem que Meyers adora - Streep demonstra todo seu talento. Consegue engolir o roteiro ruim com uma atuação extremamente realista e crível . Steve Martin está ali no meio com qualidade habitual, mas com destaque para seu timing com humor físico. Já Alec Baldwin não podia estar em melhor personagem . Risível, faz o papel de si mesmo, e enfim consegue assumir seu jeito estúpido de ser. É mais fácil - pelo menos para o resenhista aqui - rir de Badwin do que o que ele faz. É nada mais do que uma piada ambulante.

Mas Simplesmente Complicado foi feito para o público, que quer apenas dar umas gargalhadas fáceis e aliviar a mente. Pensando assim, o filme até funciona. Consegue mesclar o humor com o drama sem descompassar, até. Mas para por aí . Se quiser se divertir, procure uma forma inteligente, como comédias mais bem elaboradas como as dos Coen . No caso desse filme, é melhor ver uma comédia romântica da Working Title . Ou assisitir o núcleo cômico de uma novela das 8 global. É tão ruim quanto, mas é mais barato, e economiza tempo.