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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Django Livre


Django Livre
(Django Unchained, 2012)
Western - 165 min.

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

com: Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Kerry Washington

Reclamar de "tarantinisses" em um filme do próprio é bobagem. Por isso, aviso que não entrarei no coro dos que não veem "realismo histórico", "veracidade nos fatos", "desvirtuamento de valores" e tudo mais que foi dito há quatro anos atrás quando o diretor brincou de guerra em seu Bastardos Inglórios. Prefiro me ater ao fato de que é inacreditável perceber que mesmo criando as obras mais cheias de referências que um cineasta pode produzir, e, portanto, deixando "de lado" a originalidade, Quentin Tarantino assina a ferro e fogo cada uma de suas obras com uma contundência impar. Bastam muito poucos frames de exibição para notarmos que estamos no "mundo mágico" de Tarantino, onde referências e misturas exóticas permeiam o caminho.

Django Livre não é exceção, de fato, acho que nem mesmo em Kill Bill as transgressões cinematográficas foram tão agudas quanto aqui. Se no filme da Noiva, ele usou dos filmes de kung fu B para tratar de vingança, aqui ele é ainda mais ousado, usando um spaghetti western para transformar um escravo negro em "herói" e maior assassino do Oeste.

Nos Estados Unidos o filme foi acusado de racista pelo uso da apalavra nigger (que a gente pode traduzir livremente como "crioulo"), que é verborragicamente dita durante boa parte do filme. Aqui faço uma defesa de Quentin. Acho, ou melhor, tenho quase a certeza de que aqueles que acusam o filme de ser racista não o assistiram, pois se assistissem somente aos primeiros dez minutos notariam exatamente o oposto disso. Explico: ao som do tema de Django (o mesmo composto na década de sessenta para o filme original italiano), vemos uma fila de escravos caminhando seminus pelas "estradas" de pedra e terra embaixo de sol, chuva e frio, sendo escoltados por seus donos. A noite cai, e vemos uma carroça com um ridículo dente preso ao seu teto parar e após apresentações, conhecemos o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) que está à procura de escravos que moraram em uma determinada fazenda. Após uma ligeira conversa, Schultz revela ser muito mais do que um sujeito empolado de fala mansa e "dentista" como acusava sua carroça, é também um matador que leva um dos escravos (o nosso herói Django) que havia dito que conhecerá a fazenda e seus moradores. Pois bem, e ai a coisa fica perigosa para os amantes da história "esse filme é racista". Waltz dá duas opções aos escravos ali presos. Levar um dos homens atingidos pela fúria de Schultz (como eu disse ele é um matador) até um médico e voltar ao cabresto ou... acho que entenderam. Liberando a fúria homicida de anos de abusos e flagelos, o que fazem os escravos? Acho que vocês podem imaginar.


Talvez, no contexto histórico e social americano, o uso excessivo da palavra realmente funcione como gatilho racista, mas, por favor, vamos entender a historia envolvida. Todos aqueles que usam a palavra nigger são mostrados como salafrários, bandidos, canalhas, estúpidos e que não merecem viver. Tarantino não glorifica a palavra, apenas mostra que por meio dela podemos exemplificar a ignorância de que a profere com tanta virulência.

Django Livre acompanha a dupla mais insólita de caçadores de recompensa (a "profissão" adotada pelo imigrante alemão vivido por Christoph Waltz) que se afeiçoa ao parceiro Django e decide ajudá-lo em seu plano de vingança, o que leva o filme muito próximo das suas origens italianas. Longe de ser um western sobre redenção humana, ou com comentários sociais (apesar da sacada de fazer do herói um escravo é ótima), Django é um romance, por mais torto que pareça. Django quer encontrar Brunhilda (Kerry Washington) sua esposa, que foi separada dele e hoje permanece perdida. Brunhilda, a valquíria de ébano que fala alemão fluente e que tem a personalidade forte como a de uma besta nórdica.

E é nesse clima irônico e violento que Django segue, com suas escravas que falam alemão, fazendeiros brancos que discutem pela dificuldade de enxergarem com sacos de pano mal costurados sobre os rostos (na cena mais engraçada do filme, e das mais engraçadas da carreira de Tarantino), um herói vestido de valete renascentista andando a cavalo, uma luta entre escravos sobre o chão de madeira, um ataque de cachorros a um pobre coitado que tentou fugir de sua condição e é claro, tiroteios, explosões e tudo mais.


Django tem problemas, no entanto, especialmente em seu segundo ato quando parece que Tarantino quis esticar ao máximo a sensação de suspense (que não é eficiente), tornando muito longos certos diálogos, embora elas sejam estilisticamente muito bem realizadas. É o caso da citada cena dos capuzes, que é longa demais, embora muito boa.

Jamie Foxx é um Django digno. Um homem que aprende um ofício e se transforma em um verdadeiro azougue no que se propõe a fazer. Foxx está intenso, fisicamente impecável e acertando até em detalhes de composição muito sutis como sua constante sensação de tensão, que só é deixada de lado no glorioso ato final. Já Christoph Waltz, embora seja impossível negar seus acertos como o calhorda polido e talentoso, parece demais uma versão mais velha (dado o momento histórico em que o filme se passa) de seu coronel Landa de Bastardos Inglórios. Certas sutilezas de interpretação, a constante polidez de suas palavras, a sua educação cirurgicamente pensada e sua frieza em executar seus inimigos são a mesma do brilhante vilão do filme de 2009.

Quem rouba a cena é a dupla Samuel L. Jackson e Leonardo DiCaprio, como um - aparentemente - velho escravo bajulador e um fazendeiro sádico, respectivamente. Jackson, brilhantemente caracterizado é impagável como o cruel e hilário senhor sem papas na língua, chocado por ver um negro em posição diferente do que a de escravo, mas que durante a produção vai se revelando um líder, amargo e violento. E DiCaprio, segue a linha de Waltz, só que sem a aura de "nobreza" que o Dr. Schultz transparece. Sua personagem é sedutora, aparentemente gentil, mas raivosa em sua essência e isso fica muito claro quando sua paciência se encerra.


Django é uma aula de estilo, embora ele não tente emocionar o público, mas sim entretê-lo, diverti-lo com seus excessos e mesmo com seus erros. Tarantino é uma auto-referência humana, um sujeito verborrágico que fez de seu cinema seu agradecimento àqueles que o inspiraram, tornando difícil imaginar um filme tarantinesco em que nos sintamos tocados emocionalmente por uma história (embora isso acabe acontecendo em Bastardos Inglórios e em Kill Bill).

Isso não impede de que uma produção do diretor seja uma experiência cinematográfica satisfatória. Se ele não atinge o público pela emoção, o faz pelo humor, já que é impossível não se divertir em Django Livre. Além das atuações que estão perfeitas para o clima do filme, ele ainda é inteligente em suas homenagens (Franco Nero, o Django original faz uma ponta) e no uso sempre certeiro da trilha sonora. Afinal, só em um western de Tarantino veríamos soul music e hip hop quando uma procissão cavalga pelas estradas do sul dos Estados Unidos.

Django Livre não é um remake de Django, nem um faroeste histórico ou uma denúncia social contra o racismo, mas outra brincadeira de Tarantino com sua enorme biblioteca de referências. Um pouquinho arrastado demais, com um roteiro que estica demais certos momentos, mas uma aula de estilo e de criatividade visual. Que venha seu filme sobre alienígenas, fantasmas ou qualquer coisa do gênero.










O maior fã de Cinema presente em Hollywood, Quentin Tarantino se afastou dos policiais do início de carreira para homenagear os grandes filmes da indústria. Se sua celebração ocorrera pelos clássicos Cães de Aluguel e Pulp Fiction, o primeiro risco veio em Jackie Brown, que ao adaptar Elmore Leonard, fugiu um pouco do terreno comum do diretor. Porém, foi em Kill Bill que o ex-gerente de locadora começou a visitar diferentes gêneros: da ação japonesa e duelo espadachim dos dois filmes sobre a Noiva até a guerra mundial de Bastardos Inglórios, passando pelo manifesto grindhouse À Prova de Morte. Até que Tarantino, fã incondicional de Sergio Leone resolve se aventurar com seu primeiro Western. E em Django Livre, o diretor volta ao passado do spaghetti western para contar uma fábula distorcida.

(Kill Bill vol. 2 é, em essência, um faroeste [e dos bons], mas é aqui que o americano faz um western no sentido literal).

Como fez com a Universal em Bastardos, Tarantino já inicia seu filme com reverência, ao projetar o logo antigo da Columbia Pictures. As paisagens áridas dignas dos clássicos do gênero preenchem a tela logo no primeiro take, sempre ressaltadas pela fotografia. Entretanto, como um elemento intruso, um grupo de escravos anda por ali. O western sempre situou suas tramas longe do Sul norte-americano a fim de evitar temas polêmicos como a escravidão, o que causa a subversão da imagem bem interessante no contexto. E se isso traz uma questão tipicamente “tarantinesca” (um conceito estabelecido, mas modificado à sua maneira) de uma maneira mais séria, é logo após, na cena de introdução de King Schultz, que o conhecido despojo do diretor se nota. Muitos diálogos divertidos e uma explosão de violência depois, o Django alforriado do título e o ex-dentista já se fazem presentes de forma grandiosa na tela. Tarantino se reafirma como um marcante criador de mundos/personagens, mas são em outros quesitos que o filme surpreende, seja de maneira positiva ou negativa.


O roteiro, novamente escrito pelo diretor, salta de uma referência a outro para contar uma envolvente história de formação de mito, maior até que a formação de herói, uma (re)criação de gênero. Se o exemplo mais fácil se dá pelo escravo cowboy, o diretor vai além ao criar o Dr. Schultz como um legítimo lorde inglês. Desde seus trejeitos, sua cadenciada retórica e seu cavalheirismo até a disciplina diante de um alvo, o caçador de recompensas alemão é encaixado na trama como um digno esgrimista dos livros clássicos da literatura. Até mesmo seu cavalo, Fritz, é educado a ponto de responder ao ser chamado (!).

Logo, o revisionismo de Django Livre é um pouco mais complexo do que o de westerns mais recentes, como Os Imperdoáveis. É um filme que revisita não apenas os faroestes, mas todos os gêneros, para reuni-los. Utiliza um alemão e um afro-americano para contar sobre a formação da cultura negra, dentro de uma trama fabulesca do folclore europeu em forma de faroeste. É a mesma exploração cinéfila presente em Kill Bill e À Prova de Morte, mas com muito mais maturidade e ambição.

Mesmo na estética, as variações se refletem. Os planos de contemplação absoluta do deserto se juntam aos exagerados zooms rápidos do gênero. Nas cenas da tortura de Django e sua esposa, Tarantino usa de uma fotografia grindhouse para registrar Bruce Dern; nas cenas de travessia (não são poucas, mais a frente), a câmera registra o brilhante pôr-do-sol; nas cenas de diálogo no deserto noturno, a granulação fica visível no bonito ambiente azulado. O arrojo de Tarantino aparece em belas cenas: os ângulos que o diretor concebe são muito bonitos, a tensão criada para um duelo é precisa, e o domínio de close que demonstra aqui é coisa de mestre (repare o imponente close em Leonardo DiCaprio quando o mesmo acende seu cigarro), mas é notável que essa separação torne o filme mais volátil. É o mais solene dos trabalhos do diretor em temática e técnica (toca Dies Irae, de Verdi) – mas também o mais blaxpoitation de todos.


Um reflexo dessa dualidade ocorre no entendimento do diretor do serviço que em uma cena pode prestar à narrativa e ao subtexto. Passagens essencialmente narrativas chegam desnecessárias (como o encontro com um caçador, que oferece abrigo para a dupla) ou meramente convencionais (a montagem de Django aprendendo a ser caçador). Já a cena do Ku Kux Klan debochando de suas máscaras surge exclusivamente para tirar um sarro com a temática séria, sem função alguma para a história (por mais que, isolada, a cena seja ótima).

Nisso, o roteiro se mostra impreciso. Django é um filme ambicioso em temática e procura reunir muita informação em seus 165 minutos. Com os já citados contrastes, o filme se revela oscilante. Ora brilhante (o estupendo clímax), ora corriqueiro (desentendimento dramático consagrado entre os protagonistas é algo novo na obra do diretor). O montador Fred Raskin, antes assistente da falecida Sally Menke (colaboradora de Tarantino em todos os projetos), faz um trabalho digno da sua antiga companheira, ao dosar bem o ritmo do filme e tentar organizar a empreitada temática proporcionada por Quentin, mantendo a energia da obra.

Diferente do calibrado roteiro de Bastardos Inglórios (onde todas as cenas estavam no lugar certo), a narrativa de Django segue muito menos uma estrutura coesa. A reunião do tributo ao western acaba tresloucada, justamente por trabalhar com uma abrangente escala de referências. Se em Bastardos tínhamos uma narrativa que incluía passagens sobre os temas que o diretor admira, em Django temos diversas passagens sobre os temas que o diretor admira que incluem uma narrativa. Tudo o que era calculado em Bastardos, tende ao caótico em alguns momentos de Django – e isso não é um demérito dado à qualidade da temática que o diretor impõe a seu script.


Há excessivas travessias no filme, o ritmo até a chegada a Candyland não é tão consistente quanto o irretocável primeiro ato, a salada de culturas talvez não agrade a todos. Mas a quem reconhece ambiciosas incursões estilísticas em territórios desconhecidos, Django Livre será um longa marcante dentro da própria carreira do diretor, que já inclui diversas obras ímpares. Se aqui se fazem presentes as primeiras evidentes falhas em uma estrutura de Tarantino, não é por um motivo banal.

E mesmo com isso, a qualidade do diretor como narrador aparece em boa parte da película, criando uma coleção de cenas que já nascem expressivas, com um elenco à vontade e uma fotografia deslumbrante de Robert Richardson. Toda a excelente passagem do jantar em Candyland remete à cena da taverna em Bastardos Inglórios; a violência brutal da luta de escravos é chocante; a cena do escravo D’Artagnan é precisa ao caracterizar tanto tema quanto personagens; o último ato remete a um faroeste de raiz (sombras, beijo no contraluz, cowboy correndo com o rifle pra cima), ainda que com o upgrade de Tarantino; todas as frases de efeito de Foxx; o monólogo arrepiante de Calvin sobre um crânio. E, claro, a epítome da revisão: o clímax surtado e sensacional, que mistura clássico e novo, catarse com estilo, câmera lenta com faroeste, hip-hop com soul, Ennio Morricone com Jamie Foxx. Se não ressaltei com todas as letras o clímax, vale lembrar: é um banho de sangue estilosíssimo de Tarantino, que deixa até o de Kill Bill levemente pálido.

E com surpresas, surpreendentes ou frustrantes, a narrativa do afiado roteiro vai se consolidando. Se não se pode esperar solidez na narrativa, ao menos Django vale cada futura visita para simplesmente observar o talento de Tarantino em transitar entre gêneros, homenagens revisionistas e obsessões de uma maneira explosiva, afirmativa, talentosa. Pontualmente perfeito, o longa ganha bastante por sua maneira de estudar as culturas que está lidando. Se termina imperfeito, se recupera em outros aspectos. Não é um passo adiante na carreira do diretor como foi Bastardos, mas sem dúvida um exercício empolgante.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Prova de Morte
(Death Proof, 2007)
Ação - 114 min.

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

Com: Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Rose McGowan

Em 2007 ,Quentin Tarantino e Robert Rodriguez entraram num projeto em conjunto chamado Grindhouse, para homenagear os tantos filmes da década de 70 pertencentes a esse quase gênero - onde as produções eram baratas , as histórias toscas, e o cuidado dos distribuidores quase inexistente - que marcou a geração dos cineastas, que assistiam ás famosas sessões duplas em estacionamentos ou cinemas baratos. A produção, então, foi dividida em dois filmes: Planeta Terror, de Rodriguez, e Á Prova de Morte, de Tarantino. Por azar do destino e extrema falta de destreza administrativa das distribuidoras brasileiras, o filme de Robert Rodriguez chegou ao Brasil em sua data prevista, mas o mesmo não aconteceu com a película de Tarantino. Mas , depois de um inexplicável atraso de 3 anos, Á Prova de Morte enfim chega ao Brasil .

E é fato de que esse ''passatempo'' do diretor é simplesmente mais uma de suas obras-primas, e , avaliada separadamente do seus contexto, é ainda melhor. Ora, o projeto Grindhouse sofre afinal de dois ritmos diferentes : Um é o caricato mundo criado por Robert Rodriguez, e o outro é o interessantísimo mundo tarantinesco de Á Prova de Morte. Em poucas palavras é possível resumir a diferença básica: Rodriguez criou algo convencional, e Tarantino algo pessoal, onde a homenagem brota de maneira mais cativante .


A história de Á Prova de Morte apresenta tudo o que uma produção Grindhouse original tinha : garotas sexy , clima de suspense e horror, e sanguinolência . Nesses pilares, Tarantino consegue estabelecer sua originalidade através de uma história única. Nela, acompanhamos o dublê misterioso Stuntman Mike ( Kurt Russel) que vaga pelas cidadezinhas á procura de futuras vítimas do seu carro - Um Chevrolet Muscle adaptado para dublês, seguro para quem o dirige. Paralelamente seguimos as histórias das vítimas que Stuntman Mike pretende atacar. Entram para interpretá-las , Rosario Dawson, Zöe Bell , Vanessa Ferlito ,entre outras . A história, é claro, não é tão simplória a resumir-se por matanças , e na inteligente divisão de seus arcos de história, Tarantino ganha pontos mais uma vez.

O roteiro se estabelece de maneira interessante, principalmente em sua estrutura . Tarantino pega uma trama básica típica de Grindhouse (vilão matador que vai atrás de suas vítimas) e utiliza todos os detalhes recorrentes de sua carreira, comos os diálogos extensos e estranhos ou os seus arcos gigantes de narrativa, além de utilizar muito da auto-referência - desde de detalhes do figurino até músicas, marcas e situações chave. O cineasta também utiliza todos os recursos presentes num filme de terror barato. A típica ''enrolação'' antes da ação em si, e o erotismo farto (emblematizado na cena da dança do colo), que estava presente na maioria dos filmes Grindhouse. Na parte da divisão de arcos, Tarantino se sobressai mais uma vez, como dito antes. Assim como em Kill Bill ou Bastardos Inglórios, em Á Prova de Morte Tarantino divide sua narrativa em trechos objetivos e que são contundentes para o entendimento da história. Como se trata de uma história de horror básica, Tarantino resolve simplificar mais ainda as relações: o filme se baseia praticamente em dois atos: Ação e reação. E, como de costume, seus diálogos estão afiados e com assuntos estranhos. Porém, desta vez, Tarantino os coloca em situações onde personagens são apresentados, fazendo com que a típica parte de ''enrolação'' seja interessantes para trama. Além disso tudo, Á Prova de Morte ainda apresenta mais uma novidade: os erros. O filme não desperdiça oportunidades de criar erros de edição, problemas na construção de som e efeitos mal acabados. Além disso, Tarantino inclui propositalmente em seus script de personagens situações que não vão se resolver - como a da personagem Lee - ou que não tem relevância nenhuma para a história - como a participação de Eli Roth pretendendo embebedar as garotas.


Na direção, Tarantino aproveita para experimentar novidades e lapidar algumas de suas marcas registradas. Todas as cenas de ação filmadas com carros eram de certo modo novidade para a filmografia de Tarantino na época em que o fime foi rodado. Nessas cenas, Tarantino mostra que consegue acompanhar a ação passando toda a emoção e sem perder o estilo . Nas marcas registradas, a cenas da conversa entre as dublês no bar entra em destaque. Ali , o diretor busca criar um conversa extensa, mas filmar tudo em um take apenas. O desafio já havia sido proposto em seu primeiro filme, Reservoir Dogs , e foi aperfeiçoado aqui. Enquanto ele gira no eixo de uma personagem que fala, ele mostra todas as outras, de costas, e conforme a conversa segue, os eixos mudam, mas sem cortes. Genial. De resto, Tarantino abusa de bons enquadramentos e direção de atores competente como sempre.

Nas atuações, quem mais impressiona é Kurt Russel (Aventureiros do Bairro Proibido, Fuga de Nova Iorque), que apesar de ser um ator consagrado, nunca obeve um papel onde pudesse mostrar todo seu talento. Aqui, como o vilão carismático, Russel encanta a platéia, e quando troca olhares com o público e com os outros personagens, a sintonia é perfeita. O papel de sua vida. Todas as outras garotas mostram grandes atuações e entrega total para o desempenho do filme. Nas partes técnicas o diretor mais uma vez não decepciona. A jukebox mental de Tarantino não parece ter fim, e as músicas de seus filmes são sempre um destaque. A fotografia, assinada por ele mesmo, é boa, e ajuda a dar o tom de velho e de baixo custo ao filme.


Depois de um avaliação completa, é possível dizer que Á Prova de Morte é mais uma das grandiosas obras-primas da genial galeria de Quentin Tarantino. Um toque do seu talento nato ao gênero Grindhouse . Aqui, o garoto do Tenessee cria uma homenagem adicinando doses de seu cinema primoroso. Enquanto Rodriguez criou uma homenagem convencional e caricata, Tarantino proporcionou uma história única, e uma experiência única , marcando sua assinatura profundamente em nossas mentes, de novo.

O cinema de Grindhouse percorreu os anos 70 de forma marcante. Os filmes mal feitos, censura alta e com doses cavalares de monstros, sangue, sexo, matança, exagero e caricaturas serviu pra entreter e animar a adolescência de um dos maiores diretores da história do cinema, Quentin Tarantino. E ele, cinéfilo até a alma, apreciador de geniais obras antigas, sempre usou referências em seus filmes e, constantemente, homenageia elas nas telas. Desde Pulp Fiction, em que imortalizou a literatura policial até Bastardos Inglórios, um filme de Segunda Guerra Old School com trilha de faroeste, o diretor bebe de clássicos antigos pra criar seus clássicos modernos. Agora, era a vez de Tarantino homenagear os filmes de Grindhouse, filmes em que se viam nos estacionamento e cinemas vagabundos da época de baixo orçamento e, principalmente, trash até a essência.

E, nesse projeto, Tarantino chamou Robert Rodriguez, também amante desses filmes. Tomavam forma os dois projetos: Planeta Terror e Á Prova de Morte. Logo, essa enorme diversão gerou 2 longas e 5 curtas, que seriam exibidos entre os dois filmes. Esse era o esquema: Dois filmes pelo preço de um. Porém, a longa duração do projeto e a falta de conhecimento da maioria do público sobre o sub-gênero fez o filme fracassar nas bilheterias e eles foram divididos para o lançamento mundial. Então, o Brasil também dividiu os filmes. Porém, se a Europa Filmes viu Planeta Terror (o segmento de Rodriguez) chegar aos cinemas em 2007, Á Prova de Morte foi segurado pela distribuidora até 2010, quandio os direitos foram expirados e comprados pela Playarte, que lança o filme essa semana nos cinemas. E toda essa expectativa gerada é, sem dúvida, recompensadora.


A trama segue um grupo de garotas em Austin, Texas. Elas são modelos e vivem muito bem nessa pequena cidadezinha e vivem indo a bares e andando de carro, demonstrando sua sensualidade. Porém, num bar, elas são surpreendidas por um homem chamado Stuntman Mike (Kurt Russell), um sádico dublê que tem um legítimo Muscle Car "Á Prova de Morte". E, com isso, leva suas vítimas a um aterrorizante passeio, extremamente violento.

A proposta inicial de Grindhouse era homenagear esse gênero cultuado pelos dois cineastas. Porém, se em Planeta Terror Robert Rodriguez realizou um filme de grindhouse mais exagerado, mais caricato e action-packed, Tarantino fez uma legítima HOMENAGEM, dando sua marca ao gênero. Enquanto Planeta Terror é um filme grindhouse comum, Á Prova de Morte é a homenagem de um gênio para o sub-gênero. Tarantino pegou uma trama do sub-gênero e construiu uma narrativa completamente sua, com suas situações divertidas e seus diálogos afiados (e descartáveis). E, homenageando, colocou falhas na película, falhas de continuidade, edição tosca e situações engraçadíssimas pelo espírito trash, como o repentino final. Também perto do final, temos a perseguição dos Muscles, um branco contra o preto. Engraçada até a alma, não havia forma mais exata de demonstrar quem é do mal e quem é do bem.


Desde a construção de personagens até as situações criadas por Tarantino, Á Prova de Morte é um enorme acerto. Apesar de discursarem o tempo inteiro sobre cinema, cultura pop em geral e afins, agora os personagens tarantinescos tem uma diferença: são mulheres.

E é incrível como o criador tem mão até pra escrever diálogos femininos depois de duas décadas fazendo filmes extremamente masculinos. E até nisso há a homenagem: aqui, os diálogos servem pra típica enrolação de filme de terror, que culmina no grande ato (nesse caso, as batidas de carro com Stuntman Mike). Tudo isso, somado a icônica criação do personagem de um inspirado Kurt Russell torna Á Prova de Morte um filme sensacional. Pode até ser o filme de Tarantino com ritmo mais lento, mas tudo isso é recompensador.

Tecnicamente, o filme também arrebenta. A direção de Tarantino é mais uma vez completa, com destaque ao genial take inteiro de 7 minutos em que as amigas conversam no bar sobre perseguições de carro no cinema(mulher falando disso?!) e as perseguições de carro, orquestradas de maneira fabulosa. E isso, confesso, até me espantou. A mão de Tarantino para a ação nunca havia sido mostrada antes e aqui é excelente. A edição de Sally Menke é competente quando pedida e homenageia no tom certo quando necessário.

No início, cortes mal feitos e caricatos. Homenagem. No final, perseguições montadas de forma ágil. Competência. A fotografia de Tarantino é maravilhosa também e o envelhecimento da película foi preciso pra dar o tom trash. E isso é aliado à trilha sonora que, como de costume nos filmes do diretor, é sensacional e vai ficar horas e horas na sua cabeça.


Avaliando de uma forma geral, ainda se somando ás inspiradas atuações de Kurt Russell, Vanessa Ferlito e até a dublê Zöe Bell, Á Prova de Morte é um deleite aos olhos e um legítimo produto cinéfilo. Tarantino entrou pra história novamente com um novo filmaço, excelente por conter cada segundo de sua marca. Se, apesar de ter 113 minutos, esse é o filme mais lento em ritmo dele, é porque homenagens nem sempre podem construir um filme todo sem incomodar. Pois aqui não incomoda. Aos cinéfilos, temos uma nova pérola tarantinesca aqui. Completamente diferente do que Rodriguez fez com seu Planeta Terror, Tarantino fez uma verdadeira homenagem ás Grindhouses. Os diretores dos trashs setentistas podem ficar honrados.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bastardos Inglórios
(Inglorious Basterds, 2009)
Drama/Guerra - 153 min.

Diretor: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

Com: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Bruhl, Til Schwiger

No mundo cinematográfico de hoje em dia, com produções saindo pelo ladrão e falta de originalidade pairando sobre todos, é bem difícil achar algum diretor com estilo próprio. Brett Ratners da vida ganham espaço fazendo trabalhos fracos a produtores que visam lucro e assim segue boa parte das produções hollywoodianas. Entretanto, ainda temos esperança se a questão é personalidade. Nomes que vem a cabeça são poucos, mas um deles sem a menor dúvida é Quentin Tarantino. Já mostrou a todos seu estilo, sem medo de ser extremamente violento ou saudosista. Kill Bill, sendo visto como uma experiência completa, é uma dupla homenagem: aos filmes de Faroeste e Kung Fu.


Em Bastardos Inglórios, Tarantino mexe no terreno da II Guerra Mundial encrementando personagens, situações e elementos nunca existentes. O filme nada mais é , que uma clara homenagem a tudo que já foi feito no cinema, e, acima de tudo, uma obra de ''auto -homenagem'' pois mostra a II Guerra pelos pensamentos insanos e divertidos de Tarantino.

Logo de início, o filme tem o logotipo de Tarantino, com os créditos iniciais ao som de uma música que nos remente a Kill Bill, e letras que o cineasta usa como sempre em seus trabalhos. Com a divisão de capítulos de sempre, o filme conta a história de um grupo de soldados liderados pelo tenente Aldo Raine( Brad Pitt), que têm um objetivo apenas: matar nazistas e arrancar seus escalpos (e acreditem, essa última parte é mostrada de maneira bem explícita =D). Em outro hemisfério da trama, gira o plano de vingança de Shosanna Dreyfus, dona de um cinema(Mélanie Laurent), que assistiu a família ser morta pelo ''Caçador de Judeus" Coronel Hans Landa(Christoph Waltz), e planeja sua vingança . Esses dois hemisférios seguem numa rota de encontro, que o filme se encarrega de contar. E conta muito bem. Todo o caminho que o roteiro traça para que suas duas horas e meia se completem não é demorado ou complicado. As cenas, em si, não são muitas, porém longas,mas nem um pouco cansativas.


O roteiro, aliás, é um dos mais corajosos já feitos no que diz respeito a ''respeito aos fatos ocorridos''. Como dito no início desse texto, é preciso ter muita personalidade, coragem e criatividade para fazer um filme como esse surgir. Tratar de temas tão famosos como o nazismo e a Guerra de maneira particular é coisa de gênio. O filme não se inibe, por exemplo, em mostrar várias vezes, a figura de Hitler, como personagem, o que geralmente não se faz em filmes, livros ou quadrinhos que tratam o tema nazismo. O maior trunfo deste filme portanto é o roteiro, que reescreve muitas páginas da História à moda de Tarantino, como um nerd gostaria de ver.Por falar em nerd, aliás, o diretor honra sua nerdice, e faz referências incessantes ao cinema. As soluções, os motivos ,as desculpas, tudo tem um esbarrão cinematográfico. Quando um personagem diz ser quem não é, por exemplo, usa como desculpa '' eu participei do filme tal...você não viu?". Todas essa referencias incomodariam se fossem colocadas por um outro realizador, mas sendo colocadas de maneira jeitosa e divertida, elas ajudam o filme a ficar muito mais cool.

A direção de Tarantino também já tem suas marca registradas. Uma delas é o modo caricato e seco como mostra cenas de violência e mutilação. Outro ponto que já conhecemos de sua direção mas que não nos cansamos de ver são os closes nos personagens. Não fica aquela coisa artificial. Toda a cena que os closes são empregado são de ápice dramático, e esse ''truque'' de direção simples e antigo funciona muito bem, principalmente nos filmes desse diretor. O diretor também consegue instigar o espectador ao máximo com seu suspense. Há cenas em que se sabe que algo brutal vai acontecer, e por isso, como um sádico, Tarantino deixa as cenas mais e mais extensas, sem muitos movimentos de câmera, para que no clímax, ocorra o que se esperava.


Outro ponto mais que positivo do filme foram as escolhas de atores. Brad Pitt foge do seu papel comum de galã, e faz um personagem caricato e sensasionalmente engraçado. São em papéis assim que os atores honram seus nomes já feitos. Outro que rouba as cenas que participa é Christoph Waltz. Impressionante sua intepretação do vilão Hanz Landa. Mostra como um nazista matador de judeus consegue manter sua classe, pompa, bom humor e crueldade todos em uma só persona.Digno de Oscar.(vamos prestar atenção na premiação do ano que vem) Uma grande atriz também é colocada em evidência, não só pela sua beleza estonteante. Ela é Mélanie Laurent, que tem muita carga dramática no filme, e leva o trabalho com uma seriedade e talento únicos. É mais uma que agora tem um destaque maior, e merece receber mais chances pois tem talento. O resto do elenco também é sensasional, e são fundamentais no filme.


Analisando todos os pontos afinal, não encontro defeitos visíveis a Bastardos Inglórios, um dos melhores filmes do ano com certeza. E com todo o seu contexto e coragem, pode ser definido como a obra-prima de Quentin Tarantino (superando inclusive Kill Bill.). E ser a obra - prima de alguém como ele, não é pouca coisa.









Se tem uma coisa perfeitamente correta é afirmar que mais cineastas deviam aprender o porque de Tarantino ser grande: ele assiste filmes. Ele aprende com eles, vendo o que pode melhorar e o que ele pode usar naquilo para se aperfeiçoar. Quando ele vendeu dois de seus roteiros, True Romance e Natural Born Killers, consegui financiamento para dirigir o cult-classic Cães de Aluguel. Logo depois, esses roteiros viraram filmes de Tony Scott e o cultuado Oliver Stone, respectivamente. E foi vendo cinema e lendo muita literatura pulp que o nerd Tarantino escreveu Pulp Fiction, em 1994. E, desde então, ele foi aperfeiçoando sua maneira de contar histórias, que agora tem identidade própria: Violência extrema, roteiro com referências nerds e incrivelmente depurado, tramas amalucadas e amarradas, fazendo todo o sentido e, principalmente, fazendo homenagens. Em Kill Bill Vol. 1, ele homenageou os filmes de vingança japoneses. E nele incluiu sua violência, suas referências nerds e suas tramas únicas. Uma enorme dessas referências é o nome do forjador das espadas, Hattori Hanzo, que era um grande herói de seriado medieval japonês. Em Kill Bill Vol. 2, ele homenageou os faroestes, com um olhar moderno, mas com a mesma sede de vingança de um legítimo pistoleiro.Agora, com Inglourious Basterds, ele resolve levar seu mundo para a Segunda Guerra Mundial, criando uma trama totalmente nova. E isso é ótimo, pois o permite ter liberdade sobre os personagens e situações, sem preocupação com fidelidade histórica.



E é nesse terreno que Tarantino se sente á vontade: impondo sua identidade, sem se importar com a audiência. Como Steven Soderbergh, o negócio é ele gostar do filme. Se a platéia gostou, ok.


Inglourious Basterds é um projeto ambicioso de Tarantino desde o início. Com o roteiro dele pronto, vários outros filmes dele foram cancelados e o antes filme de 2007, estréia em 2009.

A trama conta várias histórias, com diferentes personagens principais, como num ensemble cast, como Crash. A trama central enfoca em Shoshanna Dreyfus(Mélanie Laurent), uma judia que teve sua família fuzilada pelo Coronel Hans Landa(Christoph Waltz, Oscar á vista), conhecido como Caçador de Judeus e planeja uma vingança contra ele e seu batalhão. Cruzando com o Coronel, temos a trama dos Bastardos Inglórios do título, o time de soldados judeus comandados por Aldo Raine(Brad Pitt). Em seu time, tem dos mais contidos, como o psicótico-silencioso Hugo Splitz(Til Schweiger), aos mais amalucados bastardos, como Donny Donowitz(Eli Roth, alucinado). Além disso, ainda tem a trama dos ingleses, a do herói de guerra alemão Frederick Zoller(Daniel Brühl, competentíssimo) e a trama da atriz e espiã alemã Brigdet Von Hammersmark(Diane Kruger). Toda essa trama pode parecer confusa, mas toda a desconfiança se esvai quando o desenvolvimento de personagens aparece. Todos são colocadas na tela de forma harmoniosa, com diálogos enormes, pontuando o que cada personagem pensa. Se em Senhor das Armas conhecíamos os 4 protagonistas como a palma da nossa mão, aqui conhecemos os 20 protagonistas como ninguém. Definitivamente, esse é o melhor filme de Tarantino em desenvolvimento de roteiro.


O roteiro de Tarantino é perfeito em desenvolvimento, mas não só isso. Suas situações são mais verossímeis que nunca, criando algo verdadeiramente possível para a Segunda Guerra. Não tendo esse comprometimento com a História Mundial, Tarantino tem sua liberdade realçada a algo muito maior que simples talento. Ele amadureceu. Criou um roteiro adulto, demonstrando que continua o mesmo nerd de sempre, mas agora cria tensão de verdade, sem deixar o lado cômico pra escanteio. Situações, como a primeira do filme, o diálogo do fazendeiro LaPadite com o Coronel Landa, são espetaculares. É soberbo a forma com que vemos que o ator Denis Menochet não deixa a competência de Christoph Waltz te ofuscar. Ele atua de forma emocionanete. E o melhor: o roteiro de Tarantino impõe uma tensão enorme envolvendo o cinismo e sagacidade de Landa com a fragilidade bruta de LaPadite. Algo emocionante de se ver e apontando que o roteiro não tem pontas soltas.

As atuações do filme são surpreendentemente perfeitas. Não há falhas. Brad Pitt está engraçadíssimo e muito á vontade, transbordando seu talento habitual. Mélanie Laurent está lindíssima e atuando soberbamente. Sua personagem é de uma veracidade assustadora. Apesar do clima do filme ser um tanto cômico, a angústia de Shoshanna é relatada com maestria pelos olhos lindos, fortes e cheios de garra de Mélanie. Eli Roth entrou nesse filme para festejar. Só assim para explicar como ele se encaixou impressionantemente no papel de Donny. Atuando bem e de forma psicótica, Eli também mostra pelos seus olhos seu sentimento dominante: loucura. Til Schweiger também está atuando como Eli, mas contido. Seu Hugo Splitz é assustador pela sua aura negra, não por diálogos ou frases de efeito. Ele é foda e pronto. Matou 13 nazistas. Daniel Brühl também está ótimo, com um papel bem mais forte do que ele já tinha feito antes. Perto disso, só seu papel em Adeus, Lênin. Mas o destaque do filme é um merecedor de Oscar: Christoph Waltz. Seu Hans Landa é o personagem mais profundo de todo o filme. Apesar dele ser um matador de Judeus, um cara muito cruel e ser coronel nazista, ele é um ser carismático ao extremo, cool demais, com possibilidades até de adoração a ele, coisa que pode ser muito criticado pelos puritanos que assistirem esse filme.


Outro fator que deve ser criticado é a violência tarantinesca, mas isso sempre é. Apesar de estar na identidade do cineasta, que é adorado pelos críticos, nem todos se acostumam a ver escalpos sendo retirados.


Tecnicamente, o filme não deixa pra menos. A direção de Tarantino é ótima e a sua melhor captura de atores e cenários. Nos planos fechados, ele abusa de conversas longas com sua câmera calma, mas nos planos abertos ou de ação, ele faz um trabalho impecável. O balé dos coreógrafos figurantes e dos atores é notável e um dos melhores executados na história do cinema. Além de tudo, Tarantino escalou uma equipe simplesmente matadora. A fotografia de Robert Richardson é linda, capturando o clima antigo da Segunda Guerra melhor do que muito fotógrafo experiente. Meio saturada, meio sépia, sua fotografia também é soberba. A edição de Sally Menke também é perfeita. Sempre atendendo ao necessário, ela dá agilidade na ação, calma nas cenas de drama e cortes incrivelmente rápidos nas cenas de humor. E é um fato que algumas dessas cenas fazem melhor efeito justamente pela edição, como quando Aldo Raine é pego. Outros dois fatores ótimos são a direção de arte e figurino. O cuidado que a equipe do filme teve com cenários e roupas antigas é obsessivo, até. Até mesmo quando é preciso retratar o glamour da Segunda Guerra, o figurino retrata nas roupas de Brigdet Von Hammersmark. Mas o que mais chama a atenção técnica do filme é a trilha sonora, escolhida por Tarantino. Toda montada, sem composições autorais, a trilha é fantástica. Vai de Ennio Morricone a David Bowie(?!). Mais uma das inúmeras homenagens dele. Esplêndida, reflete bem o clima com o filme e condiz muito bem com o teor da história.


Além de tudo, o roteiro ainda consegue se organizar com todos os itens técnicos e cria um clímax simplesmente espetacular, empolgante e alucinado ao extremo, cheio de adrenalina. Nada fica apressado, tudo se resolve e como num pelo tecido, não há pontas soltas, tudo foi feito com um esmero carinhoso.


Depois de anos de espera, esse projeto do grande diretor saiu do papel. E ninguém mais tem dúvida que ele amadureceu e conseguiu fazer seu trabalho mais sério, mas sem perder sua personalidade. Mais diretores deviam ser como Tarantino, ou melhor, mereciam ser Tarantino.


Que ele continue nos contemplando com maravilhas cinematográficas como essas, criando histórias realmente criativas e malucas, mas sem perder o sentido ou a vergonha.


Tarantino, aqui, se consolida como um dos novos gênios modernos do cinema mundial. Reconheçamos então, um diretor cult-artístico e um novo clássico moderno.

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