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domingo, 25 de novembro de 2012

Roubo nas Alturas


Roubo nas Alturas
(Tower Hesit, 2011)
Comédia - 104 min.

Direção: Brett Ratner
Roteiro: Ted Griffin e Jeff Nathanson

com: Ben Stiller, Eddie Murphy, Casey Affleck, Alan Alda, Matthew Broderick, Stephen Henderson, Judd Hirsch, Tea Leoni, Michael Peña, Gabourey Sidibe


Na indústria cinematográfica, é corriqueiro o comentário sobre a época em que uma obra se passa. Em tempos de crise financeira afetando o país, surgem as mais diversas visões sobre o assunto. Oliver Stone fez em seu mediano Selvagens uma maneira de contornar a economia, assim como Soderbergh e seu Magic Mike. Em Roubo nas Alturas, até Brett Ratner, conhecido por suas direções sem alguma identidade, resolve conceber uma visão sobre o tópico. Em filmes blockbusters, nunca algo fora do comum, mas um leve parecer sobre a atualidade (até Transformers, por um lado, representa bem uma época). O novo de Ratner parte justamente de um problema de finanças para tecer sua narrativa, o que não deixa de ter sua relevância no atual cenário.

Estruturado como um filme de assalto a lá Onze Homens e um Segredo, o filme começa de forma simples apresentando a rotina do protagonista Josh Kovaks em seu emprego de chefe de segurança no prédio do título original (Towe Heist). Logo que ele chega em seu trabalho, a forma articulada com que faz suas ações demonstra a familiaridade com sua função, mas é a intimidade no tratamento com os funcionários ao seu redor que é o que caracteriza a bondade e honestidade do personagem de Ben Stiller. Também válida é a decisão do roteiro em incluir o obrigatório novato no ambiente, como o personagem de Michael Peña, que, ao ter seu primeiro dia no trabalho, serve como motivo para Josh mostrar ao espectador todo o ambiente. Mas ainda que tenha esse novato com função bem definida, o filme surpreendentemente escapa do didatismo ao transformar todos os empregados do roubo em iniciantes totalmente leigos.

A graça do bem-humorado projeto, portanto, é acompanhar a forma com que esses losers contornam as situações. Logo nesse início, quando Josh chega ao prédio, vemos rapidamente cada um que irá nos acompanhar na projeção, em situações que definem, de forma bem sutil até, suas personalidades. E a apresentação do vilão do filme é interessante justamente pela maneira nada ameaçadora com que ele é retratado (é um leão de Wall Street, afinal). Dotados de uma vulnerabilidade, que tanto os aproxima do espectador como dá certa urgência ao roubo (nunca se sabe ao certo se aquilo dará certo mesmo), os personagens de Roubo nas Alturas possuem inesperado carisma em suas simples composições, ainda que a tendência óbvia seja a de Eddie Murphy roubar a cena na sua volta a papeis como os que realizava nos anos 80 (e, de fato, o ator está muito bem).


Nisso, o roteiro de Ted Griffin e Jeff Nathanson se revela cheio de fórmulas prontas como a maioria dos filmes de roubo (Griffin roteirizou Onze Homens e um Segredo). Porém, o subgênero é um dos mais bem sucedidos em Hollywood, apesar de nunca se entregar a uma grande evolução. Competentes longas, que vão de Atração Perigosa e Uma Saída de Mestre a Velozes e Furiosos 5, utilizam da consagrada divisão de três atos do manual do Heist Film e, talvez até por isso, continuam empolgantes. Se Roubo nas Alturas surpreende, portanto, é por conseguir construir um primeiro ato consistente, baseado apenas nas pessoas ali retratadas. Após este ato, o roteiro se desenrola apenas no planejamento e execução do roubo – e o que eventualmente dará errado.

O diretor Ratner, bastante contido e construindo uma boa atmosfera urbana com o excelente fotógrafo Dante Spinotti, consegue então estabelecer um cenário de opressão financeira aos trabalhadores da Tower sem muito esforço. E isso se reflete na excelente escolha de elenco: por mais que sejam competentes, todos do elenco têm algum elemento de B-list das estrelas hollywoodianas, com a exceção clara de Ben Stiller, que não só é o protagonista como compensa essa tendência com sua já conhecida postura retraída em seus “filmes-família”. Já Matthew Broderick e Eddie Murphy, astros de muito sucesso no passado e agora entregues a projetos que mal aproveitam seus talentos, são exemplificações perfeitas; Casey Affleck e Michael Peña, por mais competentes que sejam ainda não são totalmente estabelecidos no cenário hollywoodiano; Alan Alda, vivendo o vilão, é um nome forte na TV que nunca se estabeleceu em produções grandes; e, claro, a presença da mais expressiva das atrizes de comédias bobas, Tea Leoni, no papel da agente do FBI. E nesse entretenimento bem executado que é Roubo, as atuações são bastante orgânicas.

Parte dali, então, o comentário sobre a recessão. Os funcionários promovidos a ladrões são movidos por um sentimento de justiça que não poderia ser mais relacionado à crise: se um homem, vivendo na cobertura com sua piscina com estampa de uma nota de cem dólares, pode estar tão bem de vida após roubar nosso suado dinheiro, por que ele teria que sair impune?  A motivação no rosto dos empregados é forte, apesar de se detectar com tanta facilidade o discurso pronto do filme. Bastante inocente, o filme de Ratner acredita na solução imediata financeira. E, principalmente, acredita que pode arrumar formas de punir os ricaços da Bolsa de Valores que foram responsáveis pelo desastre do excesso especulativo. Mas já que a produção é cercada de personagens que acreditam nessa ideia, não é tão absurdo aceitar o filme. Ainda que possua esse leve comentário, Roubo nas Alturas ainda é um esquemático blockbuster que diverte justamente pela previsibilidade. Nada ali, no final das contas, deve ser levado muito a sério, mas é divertido pensar que mesmo um bobo heist movie bem-humorado de 85 milhões ainda possua seu parecer sobre os tempos difíceis de agora.


E pela previsibilidade, obviamente, enfileiram-se as situações que mantém o roteiro dentro de uma estrutura conhecida. Para conseguir um “olheiro” dentro da Tower, acaba existindo um conflito no grupo, ainda que este não tenha sido planejado e surja apenas conveniente; na falta de uma forma plausível de abrir o cofre, transformar a faxineira em uma expert de fechaduras termina sendo a saída; o protagonista Josh deve ter um interesse romântico, por mais perigoso que ele seja; a verossimilhança é jogada fora assim que for conveniente; e, claro, que no clímax algo dará bastante errado no roubo e tudo terá que ser reorganizado. Mas nada disso atrapalha a montagem segura de Mark Helfrich e o bom olho de Ratner para suspenses cômicos, embalados, aliás, por uma trilha de Christopher Beck que, finalmente, funciona. O ritmo da projeção é bem-sucedido e, ainda que tenha uma inocência um pouco acima do normal, o discurso do filme é facilmente absorvido.

Quando não se tem um fundo intelectual muito grande a ser abordado e explorado, há a saída de investir na emoção. E Brett Ratner, inexpressivo em sua alcunha de um dos maiores diretores de aluguel da indústria, até consegue realizar um pensamento mais consistente, sem que perca a diversão garantida que todos seus filmes devem ter. E a estrutura de filme de assalto melhor empregada (Griffin e Nathanson são profissionais competentes em um filme mais descompromissado, afinal) do que no seu anterior Ladrão de Diamantes transforma Roubo nas Alturas em algo levemente melhor que este, a aceitável trilogia Hora do Rush ou até mesmo o terceiro X-Men.

Raro blockbuster onde tudo o que é pra dar certo, dá, considerando até mesmo o que se erra. Para um filme sem muita ambição, os erros são tão corriqueiros que são facilmente perdoáveis. Não tem força para ser chamado de evolução na filmografia de Ratner, mas sem dúvida é um passo competente e que diverte sem muito esforço.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

I'm Still Here
(I'm Still Here, 2010)
Drama/Comédia - 108 min.

Direção: Casey Affleck
Roteiro: Casey Affleck e Joaquin Phoenix

Com: Joaquin Phoenix


Quando as noticias de que Joaquin Phoenix tinha surtado, largado tudo e virado um hippie maluco que queria fazer hip-hop surgiram, muita gente achou que aquilo não passava de golpe de publicidade, Porém, quando o tempo passou e o cada vez mais estranho Joaquin começou a envolver-se em situações perturbadoras, começaram a dar crédito a suas verdades e todos passaram a encará-lo como um ex-ator perturbado e sem futuro.


Até meados de setembro do ano passado, após o lançamento do filme, muitos (inclusive o famoso critico Roger Ebert) encaravam I'm Still Here como um retrato de uma mente perturbada e de uma jovem estrela que se apagava ainda em seu auge.


E não é que o documentário e toda a situação que o envolveu não passou da maior pegadinha da história recente? Nada era real, tudo o que surge na tela é a construção de uma "anti-imagem", um anti-personagem, uma persona construído apenas com a intenção de subverter as expectativas do público sobre como deveriam se portar as estrelas ou como funciona essa coisa de ser estrela, e mais ainda: como é fácil manipular a opinião publica, apresentando fatos e factóides a todo momento, com a intenção de chocar a opinião publica.



Munidos disso, Joaquin e o diretor e também ator Casey Affleck (The Killer Inside Me, Assassinato de Jesse James e Gonne Baby Gonne) criaram essa história absurda de que Phoenix estava se aposentando da atuação e que se dedicaria ao hip hop.


O próprio documentário já começa dando pistas de que aquela história é uma completa mentira ao mostrar imagens do pequeno Joaquin cantando e dançando, seguido de diversas entrevistas onde o ator dizia que jamais havia cantado, tocado ou tinha nada relacionado ao mundo da música. De cara o filme diz ao seu espectador: Phoenix é um mentiroso, não creia em suas palavras.


O que se segue é a história de mentira da queda de uma estrela, por suas próprias escolhas, seu comportamento desregrado, sua forma estúpida de lidar com todos ao seu redor e por sua obvia falta de talento para seu novo empreendimento. Critica também os famosos entourages que vendo o astro da companhia jogar sua carreira fora, não são capazes de se posicionar e dizer que a pessoa não tem talento, o que suas sucessivas bobagens vão estragar sua vida.



Joaquin, e chega a ser cômico demais escrever isso, tem o papel de sua vida. Intenso e perturbado a cada segundo, o filme reflete a egotrip (tanto fictícia quanto real, afinal quem se interessa em ver um documentário, mesmo que fake, sobre Joaquin Phoenix?) de seu personagem e diversas seqüências são impagáveis.


Sua conversa com Edward James Olmos (que não sei se sabia da brincadeira) é sensacional, sua perseguição a Sean Combs (P.Diddy) e a hilária tiração de sarro com Ben Stiller (que parece que sabia de toda a brincadeira) valem o ingresso, assim como as cenas de total depreciação pessoal com vômitos, prostitutas, barrigas em franco crescimento, roupas rasgadas e sujas entre outras barbaridades.


Phoenix se torna um misto de mendigo com artista performático e a cada cena parece mais perturbado, parecendo muito com Nicholson em Iluminado, exagerado e perturbado em cada palavra dita.



O filme apesar de criativo em suas idéias, se torna cansativo e a veia egotrip explode a partir da metade do filme, que apesar de não ser longo é cansativo e poderia ter uns quinze minutos a menos.


Curioso como esse, que é sem duvida o melhor papel do ator, deve ter sepultado sua carreira, o que chega a ser irônico, já que acaba sacramentando as intenções profanadas por seu alter-ego.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


The Killer Inside Me
(The Killer Inside Me, 2010)
Drama/Thriller - 109 min.

Direção: Michael Winterbottom
Roteiro: John Curran

Com: Casey Affleck, Kate Hudson, Jessica Alba, Ned Beatty, Elias Koteas, Tom Bower e Simon Baker



Michael Winterbottom é um dos meus diretores favoritos. Por isso cada uma de suas novas incursões na sétima arte são aguardadas por mim com grande interesse. Seu filme anterior Genova, criticado aqui foi uma grande decepção e quando o primeiro trailer desse thriller de suspense com a marca da perturbação do diretor inglês saiu a expectativa só aumentou.


O livro de Jim Thompson (autor dos livros que deu origem a Os Imorais e autor do roteiro de Glória Feita de Sangue) já teve uma adaptação anterior em 1976, estrelada por Stacy Keach que infelizmente não vi, mas o que circulou antes da estréia do filme, foi que essa é uma daquelas obras ditas "inadaptáveis", complicadas de reproduzir como um filme.


Winterbottom topou a tarefa e auxiliado pelo roteiro de John Curran e por um elenco afinado conseguiu se não uma obra prima, um filme deverás interessante e impactante sobre a insanidade e a constatação de que os traços da loucura e das perversões estão em todos os lares.



Sem entrar no mérito do "um tapinha não dói", o que Winterbottom discute aqui não é o hábito do sadomasoquismo ou do sexo selvagem, mas da psicopatia que pode surgir a partir de uma "dieta" de violência, repressão e abusos sexuais.


O personagem de Casey Affleck , o xerife Lou Ford, é dos mais perturbados da recente safra do cinema. Affleck, que é melhor ator que o irmão mais famoso, consegue mais um desempenho poderoso como o psicopata boa praça que esconde sua indiferença para com o mundo ao seu redor com uma fachada de bom moço.


Sem medo de expor seus atores aos castigos físicos (com direito a uma violentíssima cena com Jessica Alba, que abusa da sensualidade em seu desempenho) e a expor seus atores a dificuldades óbvias da construção de seus personagens.



Winterbottom não facilita a compreensão do espectador, não expondo a linha narrativa de forma clara. Os primeiros trinta minutos que estabelecem a história do xerife Ford que vai atrás da garota de programa Joyce (Alba) e acaba entrando numa relação sexual doentia e violenta é mostrada de forma direta e sem rodeios. Winterbottom mostra sem muitos pudores para os padrões americanos esse relacionamento. Curioso notar como os cortes de "censura" foram feitos no sexo mas na violência estúpida contra a personagem de Alba nada foi cortado. Tudo aparece com uma crueza até desnecessária a princípio, mas que reforça o caráter doentio do personagem de Affleck.


Os coadjuvantes são todos muito bons. Desde a estrela de TV Simon Baker (da série The Mentalist) vivendo um investigador, passando pelo excelente Elias Koteas (de Crash, Anjos Rebeldes e da série Law & Order: Special Victims Unit), os veteranos Ned Beatty (Rede de Intrigas, Amargo Pesadelo) e Tom Bower e a bela Kate Hudson, que assim como Alba sai da zona de conforto e apresentando um trabalho bastante consistente.



Mas nada seria tão interessante, caso a história contada fosse frágil. E isso não acontece. Winterbottom brinca com nossas expectativas, fazendo o espectador se sentir incomodado por apresentar simpatia pelo personagem doentio vivido por Affleck a principio. Quando vemos o resultado de suas ações e sua posterior tentativa de encobrir suas falhas de caráter, o diretor mostra seu personagem não como um monstro, mas como um homem "comum" cheio de falhas.


O problema que o filme apresenta, o que motiva a nota não ser maior, é que na metade final essa dubiedade moral termina, e a loucura pura e simples toma conta do personagem o que enfraquece a sensação de incomodo que era o charme do filme, que não é nada mais do que uma versão mais sexy de Henry- Desejos de um Assassino, com a mão de Winterbottom.


Interessante como outros filmes do diretor mas ainda espero ver o mesmo diretor de Código 46 e principalmente de Festa Nunca Termina, (um dos maiores filmes da década) de volta. Ou será que depois do seu projeto pornográfico 9 Canções, Michael desaprendeu? Espero que não.