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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


Martin Scorsese

Se Martin Scorsese tivesse se tornado padre como queria e era interesse de seus pais, será que teria sido um grande clérigo? Dúvidas à parte, a grande verdade é que sua cinematografia nunca deixou de render homenagens (ou críticas) ao modelo religioso que conheceu quando criança lá pelos idos da década de 50. O menino que conviveu num bairro onde criminosos, punguistas e prostitutas eram parte do cartão-postal do lugar e que estudou na Escola de Cinema de Nova York, aprendeu realmente a fazer filmes quando realizou a película Boxcar Bertha - lançado no Brasil como Sexy e Marginal - trabalho em que decifrou os segredos de se filmar rápido e gastando muito pouco. E verdade seja dita esse aprendizado aliado a paixão pelo Neo-Realismo italiano e a amizade com Brian de Palma (que lhe apresentou o ator Robert de Niro, ator-assinatura definitivo de seus principais filmes) marcaram definitivamente sua carreira.



Seu início se dá com Quem bate à minha porta?, em 1968, mas a glória e o reconhecimento só começariam a despontar realmente cinco anos depois com Caminhos Perigosos, onde começa sua parceria com De Niro, e com o antológico Taxi Driver, que trazia uma pequenina Jodie Foster começando a carreira ainda na pele de uma prostituta. Em 1977 o primeiro fracasso: o musical New York, New York, que quase foi a tampa no caixão de uma carreira até então bem sucedida. O resultado do filme foi tão abaixo das expectativas que Scorsese entrou numa depressão nervosa e teve de se afastar dos sets por três anos. Contudo, sua volta foi gloriosa com Touro Indomável, onde retrata a saga do pugilista irracional Jake La Motta. Uma produção até hoje considerada injustiçada, na opinião de vários críticos de renome, por não ter levado o Oscar de Melhor Filme na época.



Entre 1983 e 1985 Scorsese envereda pelo humor (de viés negro, é bem verdade!) e faz dois de seus melhores filmes menores: o anárquico O Rei da Comédia (com participação do humorista Jerry Lewis) e Depois de Horas (uma pequena obra-prima urbana até hoje subestimada pela crítica). Passada essa fase realiza duas produções que poderiam ter rendido melhores comentários e bilheterias, mas que acabaram compondo dentro da filmografia de Scorsese sem muito brilho: A Cor do Dinheiro (que contou com a dupla de astros Paul Newman e Tom Cruise) e a adaptação do polêmico romance bíblico de Nikos Kazantzakis A Última Tentação de Cristo (com Willem Dafoe como protagonista). Chegam aos anos 90 e o diretor volta aos dramas de máfia com Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995), ambos baseados em romances de Nicholas Pillegi, além de fazer sua primeira incursão no suspense com Cabo do Medo, outra produção que sofreu críticas severas no período em que foi lançada.



Depois dos inexpressivos Kundun (que contava a história do Dalai Lama) e Vivendo no Limite (com Nicolas Cage na pele de um motorista de ambulância que ouve e vê os pacientes mortos que compõem a sua rotina diária), o diretor se volta para seu projeto mais ambicioso: o épico Gangues de Nova York, em gestação por mais de duas décadas, e apresenta a Hollywood o seu novo pupilo, o jovem e talentoso Leonardo Dicaprio (que lhe foi apresentado por De Niro, que trabalhou com o rapaz no filme O Despertar de um Homem). Com ele também realiza O Aviador, baseado na vida do milionário Howard Hughes, Os Infiltrados e o recente suspense penitenciário Ilha do Medo, adaptação do romance Paciente 67 do escritor Dennis Lehane.



Atualmente o cineasta divide sua atenção entre inúmeras tarefas: a pós-produção de seu mais novo longa, dessa vez estreando no gênero infantil, A Invenção de Hugo Cabret (com presença de Jude Law e Ben Kingsley no elenco), a finalização de seu mais novo documentário sobre a vida do Beatle George Harrison, administrando sua Film Foundation, uma organização não lucrativa criada por ele e dedicada á preservação de filmes mudos e ainda arranja tempo para produzir para o canal a cabo HBO a série televisiva Boardwalk Empire, sobre o período da Lei Seca, sucesso de crítica e audiência. Entre seus próximos projetos constam uma cinebiografia do cantor Frank Sinatra e um projeto que tem tudo para ser o grande filme do século XXI: The Irishman, filme de gângster que reunirá o trio Al Pacino, Robert de Niro e Joe Pesci.



O que mais a mente sórdida, analítica e perfeccionista de Scorsese aprontará para o público sedento por suas tramas cheias de corrupção e malícia? O que poderemos esperar desse menino que quase virou católico fervoroso? O tempo dirá. Mas que deixará a plateia de boca aberta, disso não há a menor dúvida.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011



Francis Ford Coppola


Uma das coisas que mais me atrai em cinema é a visão pessoal dos diretores (isso para os que são realmente diretores de cinema e não meros fabricantes de blockbusters, como tenho visto com mais frequência nos últimos anos). E isso Francis Ford Coppola sempre teve, desde sua estreia cinematográfica em 1963 dirigindo o curta Dementia 13, uma obra simples e aterradora, bem ao estilo dos grandes realizadores hollywoodianos que, concomitantemente, viram sucesso na terra das oportunidades. Ele sempre foi o homem dos projetos audaciosos e grandiosos e, mesmo que muitas vezes tenha esbarrado nos limites impostos pelo regime castrador das produtoras, tendo de abortar muitos de seus projetos mais queridos, ainda assim ele imprimiu uma marca única na história do cinema. E não à toa fez de sua obra-prima em duas partes uma lenda na premiação do Oscar.


Francis Ford Coppola nasceu em 7 de abril de 1939. O filho de Carmine Coppola, músico e compositor, não teve vida fácil desde pequeno (aos 9 anos de idade teve poliomielite, o que quase arruinou sua vida e tirou do público o contato com um grande gênio das câmeras). Após uma formação universitária na UCLA, ganhou a vida no começo da carreira escrevendo roteiros e produzindo películas de baixo orçamento, algumas delas de cunho erótico, ao lado do parceiro e também diretor Roger Corman, até seu primeiro contato com a câmera na década de 1960. Porém, seu sucesso consagrador só ocorreria realmente em 1972, quando do lançamento de sua obra-prima O Poderoso Chefão, adaptação para as telas do romance do escritor Mario Puzo, que contava a saga da família Corleone e sua escalada rumo ao poder. Sucesso esse que se repetiria dois anos depois na continuação, que trazia a juventude do patriarca dessa família, Don Vito Corleone. Ambos os filmes foram consagrados com o Oscar de Melhor Filme (Coppola também ganharia o prêmio de melhor diretor e roteiro pela segunda parte da saga e o de roteiro original pelo filme Patton: rebelde ou herói).




À parte o megasucesso da obra-prima gângster, o diretor sairia-se melhor produzindo para outros cineastas, dentre eles alguns velhos parceiros do tempo de faculdade, como foram as produções THX 1138 e American Graffiti (de George Lucas), Kagemusha (de Akira Kurosawa) e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (de Tim Burton). Contudo, ainda teve fôlego - resguardados alguns problemas de produção, ego dos artistas e falta de apoio de algumas distribuidoras - para realizar o fantástico filme de espionagem A Conversação (com Gene Hackman na pele de um araponga que acaba caindo numa grave crise de consciência) e arrebatar plateias em 1979 com seu majestoso épico de guerra Apocalipse Now, baseado na clássica obra literária de Joseph Conrad, e vencedora da Palma de Ouro em Cannes. Um produção, entretanto, que foi pautada por todos os tipos de excessos, como o enfarte de Martin Sheen durante as filmagens e a decisão de dirigir Marlon Brando em planos fechados e escuros para ocultar sua obesidade mórbida que já dava sinais mais do que evidentes.




No mais, Coppola oscilou entre retratos da rebeldia e da juventude perdida (como O Selvagem da Motocicleta, Jovens sem Rumo e Peggy Sue: seu passado a espera, onde trabalhou com seu sobrinho Nicolas Cage em início de carreira), a paixão por automóveis (Tucker: um homem e seu sonho), musicais mal sucedidos (o interessante Cotton Club, com majestosa performance do dançarino Gregory Hines, e o até hoje incompreendido Do Fundo do Coração, com Raul Julia e Nastassja Kinski) e uma parceria inusitada com o astro pop Michael Jackson (Capitain EO), até hoje considerada uma das produções mais caras de todos os tempos, feita para um dos parques da Disney. O sucesso de fato só bateria às portas novamente com o clássico de terror Drácula de Bram Stoker, por muitos críticos considerado o seu último filme autoral. Em 2000 ausenta-se do cenário cinematográfico para cultivar em seus vinhedos, hoje sua maior paixão.






Provavelmente os maiores interesses de Coppola na indústria do cinema atualmente sejam a filha prodígio Sofia Coppola, que vem se especializando em dramas humanos - como Encontros e Desencontros e As Virgens Suicidas - e na produtora American Zoetrope onde atualmente está envolvido na produção do filme On the Road, obra máxima da Beat Generation de autoria do escritor Jack Kerouac, a ser dirigido pelo brasileiro Walter Salles. Seus últimos dois filmes (Youth without Youth e Tetro) passaram despercebidos pelo circuito e ele ainda arrisca uma nova produção, voltando ao gênero horror em Twixt now and Sunrise, que contará com Val Kilmer e Elle Fanning no elenco. Para os mais saudosistas pode parecer pouco (e realmente é, se levarmos em consideração a grandiosidade de seus melhores projetos), mas Coppola simplesmente não se incomoda mais com isso. De alguma forma ela sabe que seu tempo áureo já passou e a única coisa que deseja é sombra e vinho fresco. "O resto", sempre dizem os gigantes da sétima arte quando estão praticamente aposentados, "é pura nostalgia".







quarta-feira, 22 de setembro de 2010


Let me In: um filme necessário?


Uma das coisas mais comuns em Hollywood: comprar os direitos de filmes estrangeiros que surpreenderam no mercado internacional e produzir versões próprias, do jeito que o americano gosta de ver. Foi assim com os japoneses "O Chamado" e "O Grito", o espanhol "REC" e tantos outros. Esses três, no entanto, são obras de terror mais tradicionais, de certa forma mais fáceis de se adaptar. Agora os americanos estão pisando em território perigoso: escolheram o sueco “Låt Den Rätte Komma In" (aqui lançado como “Deixa Ela Entrar”), de 2008 e entregam o versão deles com este "Let Me In".

Pessoalmente acho assustadora a idéia do que um estúdio pode ter feito com essa história. A trama gira em torno do que talvez seja uma das mais improváveis e genuínas histórias de amor já contadas no cinema: uma menina e um garoto pré-adolescentes que se encantam um pelo outro. O problema: ela é uma vampira. Não soa muito original em tempos de "Crepúsculo" over-saturando essa mitologia em todos os cantos da nossa vida... Mas não se engane: o envolvimento dos personagens de “Deixa Ela Entrar” não podia ser mais diferentes do amor idealizado e pudico de Bella e Edward.


A qualidade da interpretação de Lina Leandersson e Kåre Hedebrant que dão vida ao estranho casal é assustadora. Existe algo absolutamente gelado e ao mesmo tempo incrivelmente doce no olhar dos dois e o filme contrasta passagens de delicadeza intensa com cenas de horror extremamente violentas e apavorantes. E são justamente esse clima gelado, o ritmo lento e envolvente e a profundidade da relação dos dois que me pergunto se sobreviverão nas mãos do estúdio americano.


O escolhido para tocar o projeto foi Matt Reeves, que estreou com o competente "Cloverfield", sobre aquele mostro misterioso que destruiu NY pela milésima vez. Eu não duvido do talento do cara, longe disso. Só fico aflito em pensar como ele vai lidar com o tom sóbrio do filme original. "Cloverfield" foi todo rodado em digital, com a intenção de acompanhar um grupo de amigos que tenta sobreviver ao ataque enquanto registra tudo com uma câmera amadora. Tem aquela qualidade realista de produções como "A Bruxa de Blair" e, mais recentemente, "Atividade Paranormal". Funciona muito bem! Se o cara tivesse sido escalado, por exemplo, para dirigir "Quarentena" (a versão americana de “REC”, que eu citei aqui acima), o filme provavelmente teria ficado muuuuuito mais interessante do que acabou ficando. Mas falamos aqui em um filme de planos longos e ritmo desacelerado; uma história construída com maestria e pleno domínio da linguagem cinemática. Um filme calmo e extremamente profundo. Ou seja, totalmente antagônico ao frenesi estressante grita de “Cloverfield” a todo o tempo.























Numa coisa, no entanto, Reeves: escalou a genial Chloe Moretz para interpretar a vampira Abby depois de ver o trabalho excepcional da menina como a heroína Hit Girl em "Kick-Ass". Não consigo pensar em nenhuma outra atriz desta idade que pudesse dar conta do recado e parece que a menina entrega uma performance digna do papel. Ela, aliás, deve estar fazendo muita terapia fora das telas (se não está, deveria!), por que parece só se envolver em papeis que a obrigam a lidar com um universo muito mais maduro e violento do que deveria para seus 13 anos. Fica a dúvida: será que o jovem australiano Kodi Smit-McPhee está também à altura de Kåre Hedebrant, o ator original? Será que a química entre os protagonista é tão boa quanto a obra exige que seja?

Os atores Kodi Smit McPhee e Chole Moretz em cena de "Let Me In".
O trailer de “Let Me In” (acima) já dá sinais de que a coisa toda foi bem anabolizada e deve focar mais nos momentos de terror do que de afeto . Já nota-se outro estilo; outro ritmo. De qualquer forma, deve valer como exercício de comparação e possivelmente como forma de se constatar (mais uma vez): certos filmes são tão especiais que não deveriam ser tocados. Jamais.



(Nota do Editor: Originalmente publicado em http://mytakeonit-pp.blogspot.com)

terça-feira, 31 de agosto de 2010


(Nota do Editor: é com grande prazer que anunciamos a chegada de mais um tripulante a nau fotogramica. Paulo Pandolpho, 25 anos, assiste e faz cinema desde os 8 anos de idade e é o mais novo membro de nossa equipe. O Paulo tem um blog muito interessante sobre cinema (e outras coisinhas mais). A parte de cinema deve aparecer por aqui também, e as coisinhas mais vasculhem no http://mytakeonit-pp.blogspot.com/ e conheçam o trabalho do cara).

O Surto de M. Night Shyamalan



M. Night Shyamalan perdeu a cabeça de vez.

Não consigo me lembrar de nenhum outro diretor que teve uma carreira tão dividida quanto a dele. Pra mim, são duas fases muito claras: os quatro primeiros filmes, “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila” representam os acertos. Filmes de roteiro esperto – todos escritos por ele – filmados de maneira muito interessante, que mostravam domínio do diretor sobre a linguagem cinematográfica. São filmes nitidamente bem pensados e realizados; obras em que os elementos como música, fotografia e direção de arte são explorados de maneira muito precisa.

A segunda (e infelizmente atual) fase dele concentra 3 grandes erros e se iniciou com o estranhíssimo “A Dama na Água”. Shyamalan tinha a Buena Vista (que faz parte do grupo Disney) como parceira nos seus 4 primeiros projetos. “O Sexto Sentido” foi um enorme sucesso e o projetou como uma das grandes apostas da nova geração de diretores – lembro de ler algumas matérias que chegaram a compará-lo (mantidas as devidas proporções, é claro!) a Alfred Hitchcock e Steven Spielberg. Quando teve o insight sobre a trama de “Dama”, o estúdio tentou convencê-lo a desistir do projeto. O diretor lutou pelo que acreditava, rompeu com a Disney e... estava errado. O filme foi um fracasso nos EUA e, somando a bilheteria do mundo todo deu irrisórios 2 milhões de lucro para a Warner, nova parceira do diretor.

O filme é uma fábula moderna sobre uma sereia (Brice Dallas Howard) que aparece na piscina de um condomínio na Filadélfia, nos EUA. Paul Giamatti faz o zelador do condomínio, que descobre a criatura mítica e embarca com ela em uma jornada para tentar ajudá-la a retornar para seu mundo e de quebra ainda identificar um misterioso escritor, que supostamente escreverá um livro que irá beneficiar a humanidade. Tudo muito criativo, é verdade. Mas o filme sublinhava o que eu vejo como a pior característica das obras dele: exigir que o espectador compre um universo com regras muito específicas; muitas delas bem difíceis de engolir. Quando faz isso de maneira inteligente (como em “A Vila” e “Sinais”), nós nos envolvemos com a história e relevamos coisas que poderiam ser quase enquadradas como trapaça. Mas “Dama” elevou isso à nona potencia. Era uma história de fantasia feita para adultos que se passava num ambiente realista, mas existia apoiada em aspectos nada críveis. Não dava para comprar.

Zooey Deschanel e Mark Wahlberg pagam mico em "The Happening"
O próximo filme, “Fim dos Tempos”, foi um susto pra mim. Achava que “Dama” tinha sido um deslize, mas esse projeto estrelado por Mark Wahlberg e Zooey Deschanel sobre um vírus misterioso que se alastra pela humanidade piorou muito a situação. O filme soa em vários momentos como uma comédia, mas faz humor involuntariamente; quando deveríamos estar absolutamente assustados e tocados pela jornada dos protagonistas, estamos na verdade chocados com a canastrice gritante. Assisti uma só vez, confesso. Mas fiquei mesmo com a sensação de que quase nada se salva ali.

Isso nos traz ao novo filme dele “O Último Mestre do Ar”, que estreou na última sexta-feira. Baseado em na série de animação “Avatar: The Last Airbender” do canal Nickelodeon, o filme sempre me pareceu uma escolha estranha de Shyamalan. A campanha de marketing é bem vaga e misteriosa e para quem não é familiarizado com a série de TV – como eu – o filme foi vendido de forma enganosa: parecia um épico oriental. É na verdade, um filme infanto-juvenil. Até aí, tudo bem. O problema é que é um filme infanto-juvenil muito, muito fraco! É quase impossível de acreditar que a mesma mente por trás de “O Sexto Sentido” possa ter realizado o que vemos em “The Last Airbender”. Fazia muito tempo que não assistia algo tão chato, arrastado e sem emoção – adjetivos que tem que passar longe de qualquer filme e especialmente de histórias de aventura e fantasia.

A história: Aang, uma espécie de monge budista é identificado como o Avatar, a reencarnação de uma divindade única, capaz de controlar os quatro elementos: Terra, Ar, Fogo e Água. Estamos falando de um mundo alternativo; não estamos na Terra, e este planeta não-identificado é dividido por diferentes nações, cada uma com um dos elementos como “força” motriz e cidadãos que conseguem controlar esses elementos. A nação do Fogo (quem mais?) está atacando as demais e luta pela hegemonia da planeta. O Avatar, é claro, é o único que pode trazer o equilíbrio de volta. Congelado em uma bolha de ar (!) por cem anos, ele é finalmente libertado e, ainda como um menino, terá que aceitar seu chamado divino e lutar pela paz no planeta.


A premissa é até interessante e Shyamalan teve nas mãos uma grande oportunidade: pela primeira vez estava contando uma história que se desenrola assumidamente num universo fantasioso; aqui, não nos sentiríamos forçados a comprar sereias que vivem em piscinas e homens com super poderes andando entre nós (como em “Corpo Fechado”). Tudo pode acontecer em uma terra de fantasia! Mas Shyamalan erra feio ao nos situar neste universo que criou: joga um volume enorme de informação a todo tempo e, por ser um filme para público mais jovem, repete essas informações over and over again! Subestima o espectador num grau elevadíssimo, colocando voice overs explicando a cena que estamos vendo diante dos nossos olhos e, de quebra, muitas vezes ainda usando letreiros para reforçar o que está acontecendo. A platéia não é idiota e, aprendi nas aulas de roteiro e direção, tratar a mesma como tal é um dos maiores erros que um filme pode cometer.

Noah Riger como Aang em momento nervosinho.
Jackson Rathbone (Sokka) e Nicola Peltz (Katara): irmãos chatinhos.
Além disso, o elenco escolhido é fraco e apático demais! Não dá para se envolver com nenhum deles, em momento algum. Falta emoção e, num filme que se propõe a levantar inúmeras questões existências dos personagens isso é inadmissível. Como sentir a angustia de um personagem se ele não transparece emoção? Como temer e torcer por este personagem se você simplesmente não se importa como ele? Não há carisma em nenhum dos atores e personagens principais. Jackson Rathbone (o Jasper da série “Crepúsculo”) confirma sua incompetência e entra e sai de cena como um personagem secundário patético, sem o mínimo propósito para a história. Nicola Peltz, que faz sua irmã, não convence em nenhuma cena e chega a ser irritante em vários momentos. Fora eles ainda temos Noah Ringer, que interpreta o Avatar e não é de todo mal, mas simplesmente não consegue “vender” a profundidade emocional que seu personagem deveria conter. Fechando com chave de ouro (NOT), está Dev Patel, que interpreta o filho do líder do povo de Fogo, exilado pelo pai até que consiga localizar e capturar o Avatar. É impossível olhar para ele e não lembrar de seu Jamal (de “Quem Quer Ser um Milionário”), o que trabalha contra ele, que tenta aqui emplacar como vilão.

As cenas de luta são o ponto alto da obra. É bem interessante o modo como os “benders” manipulam os elementos e os usam como forma de defesa e ataque. As cenas que incluem Água e Ar são especialmente bonitas e vale pontuar um plano seqüência de alguns minutos bem executado em uma das batalhas. Mas apesar de bem realizados, nenhum desses efeitos é groundbreaking. Não há nada que não tenhamos visto antes muitas (e muitas!) vezes.
Dev Patel como Zuco: vilão bonzinho.
Se é que dá para piorar a situação, “Airbender” ainda consegue ser o exemplo perfeito para ilustrar uma atual polêmica em Hollywood: o mau uso do 3D. A “nova” tecnologia surgiu com força como a arma dos executivos para levarem as pessoas ao cinema em tempos de donwloads grátis e DVDs pirata no metrô. E a coisa tem funcionado, “Avatar” fez a maior bilheteria da história para comprovar. Daí prática tão comum entre os estúdios e que tem gerado a tal polêmica: a conversão de filmes idealizados e rodados em 2D para a exibição em 3 dimensões. O propósito é um só: $$$! O 3D, que em muitas produções tem sido usado como ferramenta estética e narrativa; filmes pensados para serem feitos desta forma, passou a ser usado com banalidade e com resultado estético bem sem graça. “O Último Mestre do Ar” faz justamente isso: se vende como 3D somente para atrair gente ao cinema e o que vemos é um espetáculo opaco, desinteressante e gratuito.


Shyamalan: Rindo de que?
Em suma: uma catástrofe. Shyamalan realmente perdeu completamente a noção e se afunda cada vez mais profundamente a cada trabalho concluído. Uma grande pena.

O filme não tem feito carreira brilhante nos EUA, mas já acumulou mais de 225 milhões de dólares no mundo todo, tento custado inacreditáveis 150. Isso deve garantir a continuação da saga - o primeiro filme se encerra já deixando tudo armado para a sequência. Devem vir mais dois filmes sobre os quais você certamente não vai ler neste blog.


(Nota do Editor: Postado originalmente em http://mytakeonit-pp.blogspot.com/)