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domingo, 11 de dezembro de 2011


Margin Call - O Dia Antes do Fim
(Margin Call, 2011)
Drama/Thriller - 107 min.


Direção: J.C. Chandor
Roteiro: J.C. Chandor


Com: Kevin Spacey, Demi Moore, Paul Bettany, Zachary Quinto, Jeremy Irons, Stanley Tucci e Simon Baker


Lá para o meio do filme, Peter Sullivan (interpretado por Zachary Quinto) está em um táxi, se deslocando de um ponto para outro, nessa noite complicada. Nervoso com sua própria descoberta, Sullivan olha para as pessoas na rua, pela janela, apreensivo. Então, ele fala com seu amigo Seth: "Essas pessoas não têm ideia do que está por vir".

É sobre isso que Margin Call fala. Mas principalmente, é nesse nível que o mesmo opera. Tendo completa ciência sobre o evento que debate, o diretor e roteirista J.C. Chandor se revela muito habilidoso nas informações com que trabalha e na tensão que impõe, mas peca justamente em dar rosto ao acontecimento.

Logo no início, a atmosfera do longa se instala com facilidade. Eric Dale (Tucci) está em seu escritório trabalhando, com uma aparência serena mas com os ombros pesados, até ser chamado para uma sala á parte, devidamente preenchida com um headhunter. Após separar suas coisas, com certo pesar, Dale avista seu colega Sullivan (Quinto), a quem parece ter uma relação professor-aprendiz, e o avisa sobre um aplicativo em um pen drive, que seria bom dar uma olhada. Mas antes da porta do elevador fechar, Dale previne o amigo: "Cuidado com isso". Jogando uma interessante isca, o longa fisga o espectador logo aqui, ao introduzir o mistério que levará a trama á frente e ainda cria um clima essencialmente frio e profissional na história, o que reforça o caráter financeiro e técnico que Margin Call carrega até o fim.




E ao abrir o espaço para Zachary Quinto, o filme entra numa vertente diferente de exploração em filmes de corporações: a da hierarquia ás avessas. Basicamente, um empregado de baixo escalão acaba sendo o desbravador da cruzada de 12 horas para tentar salvar a firma que trabalha. Logo, as forças maiores são acionadas. Aquela executiva que vimos no início, interpretada por Demi Moore, acaba se tornando personagem chave mais tarde. Sem saber a quem recorrer, Sullivan fala com Rogers (Spacey). Sem saber também de muito ("Me explica em inglês claro!", diz ele após um dos cientificismos corriqueiros que o filme oferece), Rogers chama Cohen (Baker). Este que convoca a reunião geral que resolverá o problema por vir, com a chegada de John Tulid (Irons), o executivo-chefe da empresa. Á medida que essa hierarquia empresarial começa a aparecer, a película vai revelando sua verdadeira intenção: o de suspense cauteloso e baseado em atuações.

E nisso, Margin Call não decepciona. Kevin Spacey volta ás grandes atuações com uma segurança natural no papel de Rogers. Simon Baker diverte com seu cinismo, da mesma maneira que surpreende com sua competência; Zachary Quinto acaba anulado a partir do meio (o que abordarei a seguir), Demi Moore faz bem seu papel, Stanley Tucci encarna com destreza e serenidade seu Eric Dale. Mas é com Paul Bettany e Jeremy Irons que J. C. Chandor se demonstra um belo condutor de elenco. O primeiro, com a competência de seus trabalhos "artísticos", abraça a frieza cafajeste de um yuppie convicto ao passo que Irons, normalmente um ator que passa sem se abalar entre a absoluta competência e o risível caricato, acaba sendo reducionista em sua composição para esbanjar uma segurança que não costuma ter.

Chegando perto da resolução, porém, o filme perde um tanto de sua força. O ritmo naturalista, cadenciado, acaba sendo rígido com seus personagens e os torna coadjuvantes de suas próprias histórias. Não por acaso, o maior elo com o espectador, o personagem de Quinto, acaba sendo reprimido no final, por ser "fora da alçada profissional" do assunto a que trata. Não se engane: grandes projetos panorâmicos foram perfeitos em omitir algo de seus personagens, como Traffic, A Rede Social e Tropa de Elite 2. O problema é quando temos um indeciso paralelo entre o panorama rígido e o desenvolvimento de personagens. 



Preferindo dar ênfase em dramas menores (como a condição da cadela de Rogers), Chandor acaba vitimando a unidade de seu trabalho ao não dosar suas duas vertentes principais do roteiro: a ambientação e o desenvolvimento. Chandor não tem a habilidade de um Soderbergh em Contágio e, por isso, acaba condenando as grandes atuações e a tensão financeira a um projeto indeciso. Em síntese, o diretor faz um panorama que dá espaço demais para os personagens e um estudo que se preocupa demais em se ambientar.

O senso de urgência, o que em teoria seria o mais complicado de se fazer num filme sobre um evento alarmante, acaba sendo o que Margin Call tem de melhor. O desenvolvimento, o que é crucial em um filme essencialmente feito para os atores brilharem, acaba soando precário demais, reduzido demais, preguiçoso até. A ambientação é contagiante (com uma trilha precisa de Nathan Larson), a montagem clipada das cenas do comércio de ações é fabulosa (que nunca faz o barato projeto parecer pobre visualmente), as interações entre os inteligentes personagens são estimulantes. Porém, não sentir nada emocional por aqueles personagens (indo de encontro á proposta do diretor) acaba sendo ruim para quem queria ser mais que um belo retrato histórico da economia.

Preciso, complexo, urgente e cínico, Margin Call é bom em suas pretensões, mas fica perigosamente na superfície das emoções do período que retrata. E "competente" pra quem almeja ser "brilhante" não é a melhor das opções.


domingo, 7 de agosto de 2011

Quero Matar Meu Chefe
(Horrible Bosses, 2011)
Comédia - 98 min.

Direção: Seth Gordon
Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein

Com: Jason Bateman, Charlie Day, Jason Sudeikis, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell e Jamie Foxx

Atualmente, há duas grandes vertentes para comédias, de modo geral. Basicamente, dividem-se em dois subgêneros que ganham cada vez mais força entre um subgênero maior ainda - o da comédia adulta. Um deles, que atrai em maioria o público feminino, são as comédias românticas com debate de conteúdo sexual. São filmes como Sexo sem Compromisso, Amor e outras Drogas, e até o futuro Friends with Benefits, que dialogam com a temática do sexo desvinculado-o de um relacionamento sério. Paralelamente, outro tipo de produção que voltou a ser explorado em massa foi o das comédias de "macho" - motivado principalmente com o fenômeno de crítica e público de 2009, Se Beber, não Case! . Desde lá, tivemos várias outras tentativas de filmes humorísticos que abordassem a relação "porreira" entre homens, o tal "bromance" (aquela relação de camaradagem entre amigos em um bar por exemplo) e é só citar alguns desse ano, vale lembrar da própria continuação fraca de Se Beber... e do falho Passe Livre.

Somando isso aos desastres nucleares que vem passando pelo cinema de humor nacional - Cilada.com e derivados - e dá para se ter uma ideia de que não estamos em um período muito produtivo para as comédias adultas. Com repetições de temas aos montes, falta claramente originalidade aos roteiros, mas também alguém com mão firme para coordená-los a ponto de saírem minimamente satisfatórios. Desse modo, não fica difícil esperar algo diferente de Quero Matar meu Chefe, comédia que podia desafogar o gênero do eixo repetido de roteiros que ele passa. Entretanto, o longa que se propunha em sua divulgação - e até mesmo em sua introdução - uma dinâmica interessante sobre o cotidiano e a relação de um empregado com seu chefe, na verdade não passa de mais uma comédia de macho, onde os protagonistas se metem em situações absurdas e precisam sair delas, junto com seus "bros". Nesse aspecto, Quero Matar meu Chefe pode até ser uma enganação enquanto foco narrativo, mas nunca enquanto produto, afinal é dono de um resultado que, no final das contas, se sai muito bem ao lado de vários similares inferiores.




A trama acompanha a vida de três empregados - interpretados por Jason Bateman, Charlie Day e Jason Sudeiskis - e cada um deles tendo um carma em seu trabalho: seus respectivos chefes. Um deles é perseguido por um chefe psicopata (Kevin Spacey), o outro não consegue lidar com o assédio sexual da dentista ninfomaníaca (Jennifer Aniston) para a qual trabalha, e o terceiro não admite a conduta irresponsável e cretina de um cheirador inconseqüente que virou seu chefe após a morte do patrão anterior. Decididos a não suportar mais isso, eles decidem organizar um plano para matá-los, e para isso consultam Motherfucker Jones (Jamie Foxx) um criminoso experiente que os ensina táticas para realizar os crimes com sucesso.

O roteiro dos estreantes John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein e Michael Markowitz é interessante, mas claramente carece da originalidade sob o qual se disfarça nos meios em que é divulgado. Não é um filme essencialmente sobre os chefes, e em certos momentos os alvos em questão se tornam meros MacGuffins para uma trama de um trio de homens - composto pelo galanteador, o certinho e o pancada - que se metem em uma teia de acontecimentos de relevância criminal, e que precisam se desvencilhar dela, atravessando no decorrer diversas intempéries, tais como perseguições de carro, prisões, invasões de domicílio e experiências com drogas. Um tanto semelhante a Se Beber, Não Case!, comédia-modelo para os estúdios atualmente. O problema de ter um espírito tão parecido implica numa parcial falta de criatividade, mas também gera outros problemas. Afinal, os roteiristas criam um emaranhado de acontecimentos que procuram - só procuram - remeter à inteligência genial do filme de Todd Phillips, mas não conseguem nem mesmo resolvê-los dentro de sua lógica ''mirabolante''.




Aí surgem resoluções simplistas, fáceis, e algumas vezes previsíveis. Cria-se uma cadeia de eventos, e por não saber nem mesmo construí-la com sucesso completo, formam-se soluções incompatíveis. Ora, desse modo, começam a aparecer os buracos de roteiro, que permeiam silenciosamente a produção, mesmo que não sejam escandalosos, mas que geram certa suspensão de descrença, e também a necessidade de ter que relevar algumas situações propostas. Aliás, incongruências não se resumem apenas as partes de resolução da narrativa, mas também á sua premissa. Qual o sentido do personagem de Charlie Day, com receio de trair sua noiva com sua chefe, matar a mesma? Ele possui caráter o suficiente para não trair, mas se dispõe a cometer um assassinato sem hesitar sobre suas implicações morais? Além disso, é de Jennifer Aniston que estamos falando, e sua namorada retratada no filme não tem muitos atributos - tanto físicos quanto intelectuais - para criar essa resistência por parte do personagem.

A sorte e a salvação de Quero Matar Meu Chefe é que ele se trata de uma comédia, e possui outras características que compensam seus eventuais defeitos. Se ele se propõem a dar um belo espetáculo de gags, então ele dá: São várias, e elas conseguem ser certeiras e fazer a platéia rir sem forçar a barra. Dentro de cada ambiente que o roteiro faz seus personagens chegarem, há uma boa exploração de comicidade, com gags múltiplas, e que fazem o filme sobreviver diante de seus problemas. A melhor sacada do roteiro seja, talvez, a gag intraduzível - infelizmente - do Motherfucker Jones. Jamie Foxx ajuda muito nas cenas que participa, e as piadas proferidas pelos protagonistas não soam forçadas, e fluem naturalmente, resultado de um grupo de atores que estavam bastante á vontade.




Á vontade, na zona de conforto, não precisavam impressionar, e suas figuras serviram como meros peões para a construção das situações e para discursar piadas. Os atores se saem na média - diferente do que se tem em Se Beber Não Case! - e não são tão carismáticos, deixando o lugar para os chefes. Os mesmos - caricaturas - são engraçadíssimos apenas na sua construção de personagem, sem precisar de uma fala elaborada ou situação-chave . Kevin Spacey encarna solenemente o famoso estereótipo de chefe irredutível - diferente do Lester Burnham demitido de Beleza Americana - e demonstra sua versatilidade e habilidade que lhe renderam fama; Jennifer Aniston não precisaria de muito mais do que corpo para atuar, mas mesmo assim, se sai melhor que os demais nas cenas que participa; Colin Farrel, num papel de drogado - o que o ator já foi - se transfigura, e demonstra competência para o humor - como já visto em Na Mira Do Chefe. Basicamente, os atores mais competentes e experientes parecem que foram os que mais se dedicaram em atuar, e mesmo tendo curto espaço de tela, se sobressaem.

Depois de fazer o fraquíssimo, Surpresas do Amor, Seth Gordon parece ter aprendido a realizar humor de situação, ganhando muito mais timing para sua coordenação de set. As piadas e as gags são o ponto alto de Quero Matar Meu Chefe, mas tudo isso não esconde sua originalidade baixa e o fato de seguir a trilha das comédias de macho que surgem por aí. A única diferença dentro do contexto desse subgênero, é que o filme de Gordon fica na média, sem derrapar a níveis mais baixos. Ou seja, Quero Matar meu Chefe não é revolucionário, inteligente ou original como Se Beber, Não Case!, mas também não é fraco e infantil como Passe Livre. Entre homens em Vegas ou crianças que brincam com merda, vale o que um personagem diz durante o film : '' Vocês estão agindo como adolescentes da oitava série!''. No meio do caminho, na média, afinal.



terça-feira, 30 de março de 2010

Homens que Encaravam Cabras
(The Men Who Stare at Goats, 2009)
Comédia - 94 min.

Direção: Grant Heslov
Roteiro: Peter Straughan

Com: George Clooney, Ewan McGregor, Jeff Bridges e Kevin Spacey

De boas intenções o inferno está cheio, e é fácil perceber porque, em especial quando essas boas idéias são cometidas em nome do cinema. Quantos filmes (esse começo de ano está prodigioso nesse quesito) tiveram ótimas idéias estragadas pelo meio do caminho resultando em produções comuns, estéreis e em última instancia ruins.

Homens que Encaravam Cabras é mais um que se junta ao cada vez maior hall dos filmes que tem boas idéias demolidas por problemas durante a projeção. No caso de Homens é seu ritmo, ou melhor, a falta dele e a incapacidade de ser engraçado quando pretende ser e não conseguir ser satírico quando precisa ser.


O filme pareceu ter sido uma tentativa de recriar o clima dos irmãos Coen. Aquele humor negro e satírico que flerta com o absurdo. Até Jeff Bridges “volta” ao seu papel em Grande Lebowski ao viver o hippie milico Bill.

A história, que tinha um enorme potencial ainda mais quando ficamos sabendo que ela é real, fala de um jornalista (Bob Wilton, vivido por Ewan McGregor) que ao entrevistar um suposto adivinho (ou algo assim) descobre que o governo treinava pessoas para usar certos poderes especiais no intuito de aproveitá-los na guerra. Ao mesmo tempo seu casamento rui e ele se manda para o Iraque, em busca de auto afirmação como “macho”. Lá ele encontra um dos treinados pelo governo (Lyn Cassady, interpretado por George Clooney) que explica o que era o treinamento.


A idéia era transformá-los em jedis.

Sim, um jedi. Igualzinho ao de Star Wars. Com super poderes, capacidade de atravessar paredes, aquela coisa de convencer as pessoas a não fazer o que elas queriam, encontrar pessoas em longas distancias entre outras coisas.

Foi uma boa a sacada de ter McGregor no elenco, em especial na cena em que Clooney fala pela primeira vez sobre os jedis e ouve de McGregor “você não pode ser um jedi”. Se você não vive na terra, saiba que McGregor foi um jedi na nova trilogia Star Wars.


O filme então se divide entre os eventos de uma missão que Lyn e Bob (agora envolvido na coisa, e em busca de uma história) e flashbacks contando sobre a montagem da equipe chamada de Exercito da Nova Terra, que pregava a paz e toda aquela coisa hippie.

Potencial tinha certo? Ia ser hilário ver as tentativas de Clooney em se passar por jedi usando seus poderes. Mas Heslov (diretor) e Straughan (roteirista) optaram por um road movie esquisito que nunca chega a lugar nenhum e só vai irritando o espectador.

Os momentos menos maçantes são os flashbacks, onde dá pra notar que Bridges vive mesmo um momento especial, já que mesmo copiando vários trejeitos de seu “Dude” ainda sim se sai razoavelmente bem. Clooney, (no flashback usando uma peruca ridícula) que deveria ser o astro do filme, me pareceu que assim como o público foi se decepcionando com o filme. Ele vai “murchando” e a cada tomada vai piorando. Um dos papéis mais fracos do ator.


McGregor é outro que faz coro com o resto do elenco e mantém a mediocridade em alta, assim como Kevin Spacey (olha o elenco desse filme) que faz o “vilão” do filme, numa atuação patética.

Heslov (que pra quem não lembra foi coadjuvante em True Lies e era o roteirista de Boa Noite e Boa Sorte) não conseguiu fazer de seu “Frankenstein” que mistura M.A.S.H., Três Reis e os filmes dos Irmãos Coen um filme interessante.


Falho na condução, e muito irregular no ritmo, Homens que Encaravam Cabras é mais um filme que entra pra lista de boas idéias que foram incompetentes em sua condução esse ano.