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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Gravidade

Gravidade
(Gravity, 2013)
Drama/Ficção Científica - 91 min.

Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón e Jona Cuarón

com: Sandra Bullock, George Clooney

Correndo o risco de me repetir de maneira patética (já que acho que já comecei uma crítica dessa mesma forma) é preciso dizer que é sempre um desafio enorme conseguir expressar em palavras a força de determinados filmes. Seja quando tais produções nos emocionam ou nos deixam estupefatos com suas qualidades técnicas. Mas, raramente conseguimos encontrar a combinação desses dois elementos em uma mesma produção. São casos raros (cada vez mais) e que merecem nossa atenção.

Não digo que Gravidade seja o melhor filme da história (longe disso) ou mesmo que seja o melhor do ano (mas está certamente entre os cinco melhores sem dúvidas), mas é o filme que melhor consegue combinar uma história que não tem pudores em apelar para nossas emoções primordiais, ancorada em uma precisão técnica e uma qualidade de realização absolutamente impecável.

A trama de Gravidade é na superfície bastante simples: enquanto estão instalando um novo equipamento no telescópio Hubble, a engenheira-médica Ryan Stone (Sandra Bullock) e o astronauta Matt Kowalsi (George Clooney) são atingidos por restos de satélites destruídos por uma chuva de meteoros e ficam a deriva no espaço. À partir dai precisam encontrar um jeito de sobreviver. Na verdade a luta por sobrevivência no espaço é um subterfúgio para falar sobre o renascimento espiritual da protagonista que luta para manter-se viva depois de um trauma terrível. Ryan é uma mulher endurecida por seus problemas e que vaga cumprindo seus objetivos sem nenhuma meta ou objetivo de vida. Quando precisa sobreviver ela tem de tomar as rédeas da situação, enfrentar seus demônios e expurgá-los.


 Alfonso Cuarón usa da vastidão do espaço para emular seu isolamento abissal ao mesmo tempo em que consegue deixar que a percepção da personagem dentro de seu traje de astronauta seja absolutamente claustrofóbica. Ele ainda usa do ritmo da respiração de Bullock para ditar o ritmo do filme, tanto às raras oportunidades de tranquilidade quanto os constantes momentos de desespero. Cuarón substitui os clichês da ficção no espaço apostando no "realismo cientifico", deixando o ambiente sem som (já que não existe ar e portanto o som não se propaga) a exceção da trilha sonora que amplifica as sensações de terror e tensão. Apesar de emular um realismo, não é a intenção de o filme ser um tratado científico sobre a vida no espaço, mas um tremendo thriller.

Uma vez que se filma "no espaço", sem nenhum eixo para ser respeitado ou mesmo um chão que serve de limite para onde a câmera pode se movimentar, a fotografia pode mostrar o que está na cabeça do diretor e de seu fotógrafo. Ainda bem que Cuarón e Emmanuel Lubezki (o fotógrafo) são brutalmente criativos e excelentes no que fazem. Cuarón é especialmente sádico ao apostar em planos bem longos quase todos apresentando uma situação de perigo iminente. Em termos narrativos enfatiza a angústia da protagonista e nos insere em meio a seu drama. Em termos cinematográficos é um exercício de virtuose a serviço da história, coisa rara e dificilmente exibida com tanto sucesso.

Porém, nada disso funcionaria se aqueles atores encarregados de contar a história não desempenhassem suas funções com esmero. George Clooney , faz do Tenente Kowalsi, um sujeito absolutamente seguro e que mesmo quando encontra problemas sem muita possibilidade de resolução, se mantém sereno e tentando transmitir sapiência. Além disso, é adepto da teoria de que rir é o melhor remédio e povoa sua participação com anedotas e "causos" o que angaria nossa imediata simpatia. Mas, esse é o show de Sandra Bullock.


Quem lê o blog há algum tempo sabe que não tenho muito apreço pelas qualidades de Sandra Bullock como atriz. Admito que ela seja belíssima, simpática, parece ser uma mulher inteligente e definitivamente esforçada, mas nunca havia me convencido. Até Gravidade. Os longos seis meses de preparação física e as muitas horas de filmagem em ambientes escuros tendo apenas a voz de George Clooney em seu ouvido, deram frutos e dos mais saborosos. Essa é a melhor performance da carreira da atriz e de longe uma das mais interessantes do ano, até aqui. Sua personagem está longe dos delírios histéricos, gritaria constante ou qualquer outro clichê que seja possível imaginar em uma situação de total desespero. É claro que existem momentos em que a personagem se assusta, hiperventila, se estressa e até perde a razão, mas sua jornada em busca de um despertar emocional (podemos até "viajar" um pouco e encarar dessa forma, porque não?) é apresentada com sutilezas e credibilidade nas suas ações. Ao falar de seu passado, ela não surta, mas parece resignada e somente uma situação extrema a faz sair de seu estado emocionalmente vegetativo.

Gravidade é um dos grandes filmes sobre o espaço já realizados. É o melhor filme de Alfonso Cuarón (embora continue adorando Filhos da Esperança), a melhor atuação da carreira de Sandra Bullock, reúne os efeitos visuais mais realistas em muito tempo, virtuose técnica que pode sim, servir de patamar para comparações futuras de quem tentar se aventurar a reproduzir as qualidades dessa produção e por reunir tantos "melhores" em um só filme é de longe um dos melhores filmes lançados em 2013.


Obs: o 3D é excelente e se não é o melhor já produzido, entra na seleta lista de produções que sabem utilizar-se da profundidade de campo que a tecnologia é capaz de prover.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Oblivion


Oblivion
(Oblivion, 2013)
Aventura/Ficção Científca - 126 min.

Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Joseph Kosinski, Karl Gajdusek e Michael Arndt

com: Tom Cruise, Andrea Riseborough, Olga Kurylenko, Morgan Freeman, Nikolaj Coster-Waldau e Melissa Leo.

A expectativa no cinema é trágica. Quando ela é provocada por gente sedenta para divulgar um filme pode ser enganosa, às vezes até vexatória e ridícula. Quando ela surge dos fãs de uma obra muito conhecida, pode se transformar em ódio ou tristeza (ou alegria extrema, sejamos justos). Mas, nada é pior do que ver na tela um filme criar expectativas e ir se desfazendo em erros e clichês na nossa frente.

É o caso de Oblivion, produção ancorada no carisma de Tom Cruise e dirigida por Joseph Kosinski, o mesmo por trás de Tron: O Legado. Os primeiros vinte minutos da produção são espetaculares. Sem exagero. Mesmo com uma narração absurdamente expositiva de Tom Cruise, que conta toda a historia da Terra até aquele momento, Kosinski consegue criar uma escala enorme e muito elegante para ilustrar a imensidão da tarefa do personagem de Jack Harper (Tom Cruise). A grandiosidade da natureza que invade antigas moradas humanas, destruindo pontes, prédios, estádios e tudo mais é uma versão "tunada" daquilo que a serie do Discovery, "Um Mundo sem Ninguém" apresentou ao público como factível.

Inegavelmente, Kosinski sabe filmar. Ele tem ótimas ideias visuais e conceitos para os elementos de ficção cientifica mais óbvios como veículos e gadgets, que apesar de serem futuristas, guardam uma praticidade e uma sensação de "sim, isso poderia existir", garantindo a funcionalidade das coisas e dando credibilidade a toda a construção desse mundo.


A trama é uma variação do tema do futuro apocalíptico. Sessenta anos antes do presente do filme, a Lua foi atacada e depois a Terra foi invadida por alienígenas. Os humanos lutaram e venceram, porém o planeta foi completamente comprometido, sobrando apenas os destroços e um planeta quase que completamente tomado pela radiação. Os sobreviventes humanos, dividem-se entre uma morada em um satélite que fica em órbita do planeta e a vindoura passagem de ida para uma lua de Saturno. A função de Jack Harper/Cruise na trama é a de fiscalizar as gigantescas máquinas que sugam a água dos mares do planeta, transformando-a em água doce para servir de combustível e alimento para a população que se divide entre os dois ambientes habitados pelos humanos. Ao seu lado, Vika/Andrea Riseborough é ao mesmo tempo sua companheira de trabalho e de alcova, servindo como oficial de comunicações e de ligação entre os dois e o satélite.

O drama está no personagem de Cruise, um nostálgico e obcecado pelo passado, que recolhe livros, objetos dos mais genéricos e vive sonhando com uma outra realidade quando - ao lado - de uma mulher desconhecida vivia numa realidade bastante próxima da nossa. Por outro lado Vika é uma mulher segura das regras, seguindo sua rotina, esperando ansiosamente o dia em que seu trabalho na Terra se encerre e que ela possa - ao lado de Jack é claro - finalmente ir para a lua de Saturno.

A historia vira completamente quando um acidente faz uma antiga nave cair na Terra e com ele, um segredo ser revelado. É claro que não vou contar a vocês do que se trata, pois esse é daquele tipo de filme onde a trama te leva a querer saber respostas para uma situação que parece desde a saída estranha. E o problema está justamente aí. Criada uma expectativa pelo filme, especialmente pelas perguntas colocadas em questão e pela forma com que Kosinski conduz com grandiosidade seu filme, esperamos atingir uma resolução digna.


Não é o caso. Não que Oblivion jogue pro alto tudo o que mostra até ali, mas é inegável que a produção é derivativa. Trabalhar com clichês do gênero é complicado. A chance da mistura de elementos conhecidos não funcionar é sempre grande. Aqui, algumas soluções encontradas para a trama são bastante questionáveis, em especial a que explica a origem dos sonhos do protagonista. Por outro lado, é curioso que Kosinski aposte em uma abordagem diferente do esperado, subvertendo a opinião do publico a respeito dos protagonistas, o que funcionaria se a trama desse mais tempo para que os antagonistas de Cruise pudessem ser mais explorados, talvez evitando algumas descrições em diálogos e apostando em soluções cinematográficas (trocando em miúdos: em vez de falar sobre, seria mais impactante mostrar aquilo).

As tais referências vem de todas as eras. Se existe - por exemplo - um deserto radioativo, em algum momento um dos personagens da trama diz a Cruise que lá "ele encontrará mais que a verdade", uma observação que remete ao fabuloso final de Planeta dos Macacos. Além dele, 2001 é grosseiramente referenciado sem nenhum pudor, assim como o recente (e ótimo) Lunar é responsável pela referência mais absurda, e que me parece uma solução - que apesar de funcionar na trama - desnecessária.

É difícil escrever a respeito do filme sem especificar detalhes importantes da trama, mas tento explicar: o roteiro dentro da proposta da produção funciona bem, não existem furos grosseiros ou algo do tipo. Porém a sensação é que as respostas aos questionamentos produzidos não atingem o nível da expectativa gerada pelo próprio Oblivion.


Além disso, a inserção de uma historia de amor na produção - e que é fundamental para o andamento da mesma e desenvolvimento do personagem de Tom Cruise - não tem a força necessária para que consigamos comprar o sacrifício daqueles personagens na trama.

Cruise atua com seu carisma e num ambiente seguro. Cheio de seus tiques e momentos em que sua presença física é exigida está longe de seus grandes momentos interpretativos, mas acerta por compor um personagem que gostamos facilmente, um sujeito bacana e interessado em conhecer, em saber, em descobrir.

Oblivion é menos cheio de surtos estéticos do que Tron: O Legado e mostra que Kosinski é um diretor com bons instintos e olho. Cria aqui uma historia de impacto visual muito grande (ainda mais visto em IMAX), com som monstruoso e uma trilha sonora que acerta em cheio (a cargo de Anthony Gonzales e M83) criando uma atmosfera épica ideal para a grandiosidade da historia contada, mesmo que essa grandiosidade se apresente com tão poucos personagens importantes. A engenhosidade das perguntas e de algumas respostas dadas, perdem impacto quando confrontadas com outras opções que seguramente poderiam ter sido evitadas.


Esse é um ano especialmente fértil para a ficção cientifica no cinema. Esperemos que Oblivion seja apenas um aperitivo para produções mais fortes. Se encararmos como aquele couvert antes do prato principal, até que se sai bem. Porém, vendido como o "novo filme de Tom Cruise", com tanto barulho envolvido e chegando ao público em uma linda bandeja de prata e champagne, Oblivion é apenas mediano.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Hospedeira



A Hospedeira
(The Host, 2013)
Romance/Ficção Científica/Aventura - 125 min.

Direção: Andrew Niccol
Roteiro: Andrew Niccol

com: Saorsie Ronan, Max Irons, Jake Abel, Diane Kruger, William Hurt

Falar mal de qualquer coisa escrita por Stephenie Meyer é uma diversão de muita gente. Além de não ver necessidade dessa perseguição (que me parece bem infantil na verdade) acho que se você simplesmente não gosta de uma coisa, ignorar a existência do objeto é a melhor forma de demonstrar sua insatisfação. Por isso, prevejo uma coleção de "haters" (profissionais ou não) que sequer viram ou leram A Hospedeira vociferando internet afora simplesmente pelo filme ser uma adaptação de um livro da referida escritora.

Isso significa que A Hospedeira é bom? Não. Essa não é uma defesa do filme, mas uma constatação de que se perde tempo demais "falando mal" de coisas que não se gosta e pouquíssimo tempo elogiando coisa que se ama. Dito isso, vamos ao filme.

Hospedeira guarda algumas ligações com a obra anterior de Stephenie Meyer. Assim como em Crepúsculo, a protagonista é uma garota e em determinado momento (embora isso aconteça de forma mais criativa) divide seu amor entre dois homens. Na trama a Terra vive em paz, harmonia e felicidade, depois que foi invadida e quase totalmente absorvida por uma raça de criaturas que usam os corpos humanos como hospedeiros. Os poucos humanos que não foram assimilados vivem foragidos. Uma dessas garotas é Melanie, que ao tentar fugir de uma tropa de alienígenas cai de um prédio e fica a beira da morte. Recuperada recebe seu implante alien, mas, mantém consciência da sua "vida anterior" e a partir dai começa um dialogo entre a mente da garota e a entidade alien que a "ocupa".


Aos poucos, a consciência da garota convence a alienígena a procurar seu irmão pequeno que fora deixado no lugar onde ela havia se acidentado e seu namorado/amante. Diante da dos sentimentos da garota, a entidade acaba se afeiçoando aos hospedeiros de sua espécie e parte para o encontro do restante dos humanos.

A vilã da vez é Diane Kruger obcecada em descobrir os segredos da garota, já que sua companheira alienígena tem acesso às memórias da humana. Sua vilã é razoável apesar de conseguir encontrar a pista da Hospedeira (mais tarde chamada de Peregrina) da forma mais boba possível: a saída do mapa escondido que indica o paradeiro das personagens que fora escondido em uma roupa. Da mesma forma, o filme a partir da metade tem uma enorme dificuldade de fazer a trama andar já que parece engessada no mesmo problema de Crepúsculo: o triangulo amoroso que não funciona e chega às raias do risível em cenas como a que envolve o personagem do galã Max Irons (Jared) que é "obrigado" a beijar Melanie para fazer com que a consciência da humana que habita se revolte com a situação e retorne de uma espécie de exílio espiritual (ou algo assim). Deu pra entender? Pois é, são cenas de vergonha alheia que tentam criar uma atmosfera de bom humor e leveza e não conseguem. O filme para movimentar-se cria uma justificativa igualmente piegas que envolve um acidente com um dos coadjuvantes, daqueles que fazem os protagonistas largarem suas vidinhas tranquilas e entrar em conflito com os vilões.

Por outro lado, existem coisas bem interessantes no filme. A protagonista de Saorsie Ronan é boa, principalmente se levarmos em consideração que ela interpreta duas personagens que tem linguagens corporais, vocabulários e atitudes diferentes em relação ao que estão enfrentando. William Hurt que vive seu tio também é outro destaque importante conseguindo extrair bons momentos de um texto que não é grande coisa. 



O clima asséptico e clean que o diretor Andrew Niccol utiliza desde Gattaca, aqui ganha momentos de ironia com inserções visuais como a que trata do desapego ao consumismo na mais que genérica "Store" (loja/armazém em inglês), onde todos os humanos absorvidos entram e pegam os produtos que precisam sem nenhum tipo de merchandising ou glamour.

Outro acerto é o fotográfico que explora bem o deserto norte-americano do Novo México com seus horizontes infinitos e as formações rochosas únicas o que dá um ar ainda mais desolado para a nova morada dos sobreviventes humanos. O visual dos alienígenas em sua forma original é simples e apesar de apostar em um conceito bem batido (os parasitas), a forma com que são apresentados é elegante e até bonita em alguns momentos como nas cenas finais quando são vistos por um viés emocional que convence. 

A Hospedeira já nasce com a rejeição de parte do público graças a quem escreveu a obra adaptada. Justificado? Em termos, já que a obra guarda semelhanças com a série de Bella e Edward, como a existência de mais um triangulo amoroso que não funciona, alguns diálogos bem pobres e a falta de tensão na trama que só é quebrada com um evento absolutamente genérico. Por outro lado o pano de fundo é mais interessante e a presença de algumas assinaturas visuais de Andrew Niccol seguram a historia. Mesmo com um epílogo desnecessário (embora sirva para sacramentar o discurso de inclusão dos personagens) o filme não é esse apocalipse anunciado.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A Viagem


A Viagem
(Cloud Atlas, 2012)
Drama/Sci-Fi/Aventura - 172 min.

Direção: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer
Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer

com: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugh Grant, Ben Whishaw, Hugo Weaving, James D'Arcy, Doona Bae, Susan Sarandon

Os irmãos Wachowski vivem à sombra de Matrix. Isso parece (pra ficar no tema do filme) um karma cósmico que sempre nos fará comparar cada uma de suas obras com a mais bem sucedida. O mesmo pode ser dito de Tom Tykwer, outro assombrado por sua própria glória pregressa com o fenomenal Corra, Lola Corra. Da união dessas três mentes surge a adaptação de Cloud Atlas de David Mitchell, um livro daqueles que o próprio autor considerava inadaptável para a tela grande, mediante a quantidade absurda de tramas paralelas e da tentativa de misturá-las. Digo tudo isso baseado em comentários daqueles que leram o livro e do próprio autor.

Pois bem, A Viagem (ou Cloud Atlas, título mais poético) narra uma serie de historias que tem como tema provar a teoria de que estamos todos interligados, de que nossas vidas são eternas e que nosso espaço no cosmo é infinito. Espinhoso, não? Como conseguir filmar uma teoria de forma a mantê-la coesa e ainda sim não esquecer de que antes mais nada, existe um filme a ser mostrado.

Saúdo os realizadores por sua audácia, por ousarem, por pensarem fora da caixa e de tentarem apresentar coesão em suas histórias. Mas, infelizmente, essa tentativa esbarra na qualidade dessas histórias, em quesitos técnicos e na escolha equivocada de manter os mesmos interpretes em quase todas as narrativas.


Comecemos explicando de fato, o que são as "viagens" do filme: em 1849 acompanhamos a viagem de Adam Ewing (Jim Sturgees) que cruza o Pacífico da Austrália até San Francisco para encontrar sua amada; em 1939, as vésperas da Segunda Guerra Mundial, um prodigioso compositor (Robert Frobisher vivido por Ben Whishaw) tenta encontrar seu caminho de sucesso enquanto mantém um caso secreto com seu amante mais rico; na década de setenta, uma jornalista (Luisa Rey vivida por Halle Berry) investiga uma usina nuclear prestes a ser aberta; em 2012 um agente literário (Timothy Cavendish vivido por Jim Broadbent) precisa fugir da sua prisão imposta em um asilo; em 2144 vemos a Nova Seul recheada de clones produzidos para servir o homem e a revolta de uma delas (Sonmi 451 vivido por Doona Bae) contra o sistema em que vive e finalmente um futuro muito a frente (2321 e 2346), um homem (Zachry vivido por Tom Hanks) precisa enfrentar seus medos e levar uma estranha a um monte sagrado em sua vila, diante de uma realidade pós-apocalíptica onde o homem vive em condições quase neandertais.

Parece confuso não? E principalmente como podemos conseguir acompanhar tantas historias sem nos perder? Vendido como algo complexo e indecifrável, na verdade A Viagem é bastante simples. Basta compreender que cada história é interligada a uma outra, que os temas são repetidos e que os personagens "dialogam" entre si, diante da teoria da conectividade. Basicamente, quando vemos Luisa Rey (Halle Berry), lendo as cartas de Frobisher (Ben Whishaw) para seu amante, ou quando a composição de Frobisher é executada em Nova Seul, ou quando a andróide Sonmi 451 vira peça importantíssima na vida e cultura em um futuro ainda mais distante. Isso sem contar com as referências temáticas, que colocam casais trágicos, lutadores pela liberdade, sonhadores, espalhados em cada realidade. 

Vale lembrar que apesar de cada historia ter um protagonista claro, todos esses atores que encabeçam suas historias, ao lado de figuras como Hugh Grant, Susan Sarandon, Hugo Weaving, Keith David e James D'Arcy se encarregam de viver os coadjuvantes de cada historia, o que para cada ator deve ter proporcionado muito trabalho, mas uma tremenda diversão, já que Tom Hanks, por exemplo, vive um médico cafajeste e interesseiro, um gerente de hotel mesquinho, um cientista nuclear, um escritor mal encarado, um ator e o já citado homem simplório. Cada um com mais ou menos importância para as tramas.


Porém, para o filme realmente não parecer enfadonho ou cansativo (em suas mais de três horas de duração) cada uma dessas narrativas precisaria ser de alta qualidade, o que não é caso. 

Na trama do navio, além do cenário ser praticamente o mesmo, a relação entre o personagem de Sturgees e o de Tom Hanks demora a engrenar e é levada em "banho-maria" e mesmo com a adição de uma sub-trama que envolve um escravo fugitivo parece vazia e com cheiro de já vi isso antes. Nem mesmo visualmente o filme acerta aqui, já que temos uma serie de planos abertos do navio, mas muito pouco dele em ação. A segunda trama já é mais interessante, graças a bons momentos de Ben Whishaw e de seu patrão vivido por Jim Broadbent. Apesar de estarmos vendo um dramalhão típico inglês (uma quase versão de Jane Austen gay) com direito a tragédias mil, a trama por si só é interessante. Não é inovadora e tem cheiro de comida requentada, mas agrega valor pelos bons atores. 

A pior das tramas (e que curiosamente parece ser a que mais tem sequências de ação) é a ambientada nos anos 70. Além da ideia da investigação ser óbvia do primeiro ao último minuto, a revelação do segredo da usina é genérica e por mais que possamos vê-lo ressoar em outras narrativas, é uma ideia rocambolesca demais que não convence de sua seriedade. A trama que mais me agradou é que parece ser a mais singela e simples de todas. Uma mistura de Guy Ritchie com comédia de situação, sobre um molho do melhor do humor negro a trama do agente literário de Jim Broadbent e sua fuga desesperada para escapar dos capangas de seu escritor maluco é muito divertida e fica melhor depois que ele acaba preso e precisa fugir.


As duas ultimas tramas merecem um parágrafo especial já que brincam com a ficção científica, tema que os Wachowski são muito bons (ou eram, enfim). Na trama em Nova Seul, o visual é impecável realmente, mas novamente esbarramos em uma historia corrida demais, em que não conseguimos nos afeiçoar aqueles personagens em especial ao caso de amor trágico entre a clone de Doona Bae e o rebelde vivido por Jim Sturgees. Mesmo com visual futurista bem construído, fica a impressão de que estamos vendo um trailer muito longo de um filme inacabado. O mesmo vale para o último segmento, que mistura um futuro a lá Mad Max na floresta com conceitos de divindade ritualísticos, selvagens saídos da imaginação de Robert Howard ou figurantes do Highlander original e a personificação de seres futuristas vestidos de branco e cheios de tecnologia e em busca de respostas. Quando elas chegam, a sensação é de vazio, e a compreensão de que as respostas não existiam, que a tal busca era um grande McGuffin e que a historia real era a daquela jornada. Curiosa, mas ainda assim irregular.

Percebam então que a irregularidade narrativa mata a ideia de coesão e de unidade que é a mola propulsora do filme. Essa mesma irregularidade é percebida nas questões técnicas. Se os efeitos visuais futuristas são excelentes e muito bonitos de serem vistos, a montagem de Alexander Berner é hercúlea e muito, mas muito boa, já que consegue ir ligando as narrativas por questões visuais, mas principalmente por diálogos que apresentam o segmento a seguir, o que pode ser visto com alguma frequência em histórias em quadrinhos. 

Em compensação a maquiagem é constrangedora em muitos momentos. Por mais que possamos levar em consideração a ideia de que "estamos todos juntos nesse caldeirão e somos todos iguais" o que e espera é um mínimo de qualidade, o que poderia evitar verdadeiras aberrações visuais como tentar nos convencer de Halle Berry como uma loira judia, todo o elenco ocidental maquiados como orientais no segmento em Seul, Doona Bae surgindo ocidentalizada (ruiva e com direito a sardas), na ideia, que não funciona, em termos alguns homens vestidos de mulheres ou a personagem que Hugh Grant interpreta em 2012 e sua papada que faria Jabba ter inveja. Isso porque nem cheguei a falar dos péssimos efeitos conseguidos para envelhecer parte do elenco.


Erros assim, em um filme que procura a unidade a todo o tempo, quase um alinhamento estelar para passar sua mensagem tira imediatamente o espectador do filme, já que não é possível crer naquelas figuras a nossa frente, mesmo levando em consideração questões como o ambiente em que as historias se passam. Em determinado momento a narrativa é tão fajuta que passamos a tentar adivinhar quem está por baixo de cada camada de látex mal colocado.

Como disse acima os atores devem ter se divertido demais com essa oportunidade, mas a ideia de manter um mesmo elenco para interpretar praticamente todos os papéis cria um incomodo tanto visual, como de qualidade de interpretação, já que não são todos os atores que conseguem acertar. Hugh Grant, por exemplo, mesmo com a maquiagem ruin, está ótimo como o já citado Jabba cover no segmento contemporâneo, mas péssimo como o dono de usina. Já Halle Berry está mal no segmento em que é protagonista (o texto não ajuda), mas bem no segmento hiper-futurista, e mesmo Tom Hanks é um coadjuvante mediano no segmento do navio. O único que parece parecer incólume é Jim Broadbent, muito bem em cada segmento.

A Viagem é uma experiência incompleta. Perde-se na tentativa de ser profundo, de ter conceitos filosóficos e talvez no afã de ser relevante escorregue na questão mais importante em qualquer filme: contar uma boa história. A Viagem é formada por clipes de filmes que variam de promissores a modorrentos, e por isso não consegue ser mais do que uma ousada tentativa de ser diferente.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Looper - Assassinos do Futuro


Looper - Assassinos do Futuro
(Looper, 2012)
Ação/Sci-FI, 118 min.

Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson

com: Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Jeff Daniels

Regra básica: filmes de viagem no tempo são confusos e nem sempre conseguimos entender exatamente o que vemos. A própria natureza da ação (ir e voltar em uma mesma realidade) já nos parece confusa e com enorme frequência os paradoxos e buracos de narrativa ficam evidentes. Looper é mais um desses casos em que a lógica (e os que acham que cinema precisa ser cientificamente correto) fica em segundo plano diante de uma historia bastante simples, mas apresentada de forma complexa, graças e uma excelente montagem e um trabalho visual que revela muito talento de seu realizador.

Rian Johnson, cujo trabalho de maior impacto era o singelo e visualmente inteligente Vigaristas estrelado por Rachel Weisz, Adrian Brody e Mark Ruffalo, mistura gêneros cinematográficos diferentes e os amarra com uma corda firme da viagem no tempo para soar original e diferente. Com um roteiro assinado pelo próprio Johnson, Looper apresenta uma sociedade futurista muito próxima da gente. Em 2042, a viagem no tempo ainda não foi inventada, nos diz Joe (Joseph Gordon Levitt, protagonista e um dos produtores do filme), mas trinta anos nesse futuro (ou seja, 2072) ela é uma realidade. Banida do alcance do cidadão comum, a prática se revela interessantíssima para que os bandidos resolvam seus problemas. Em uma sociedade onde "se livrar dos corpos é cada vez mais difícil" como Joe nos informa também, a viagem no tempo é a solução perfeita. Prende-se o sujeito, se envia até o passado onde assassinos contratados resolvem o problema e se livram de um corpo que trinta anos no passado não existe ainda.

Um desses assassinos é o já citado Joe, que nessa sociedade que quase beira o velho oeste, recebe seu pagamento em prata, anda em seu possante carro esporte e frequenta a balada local (que funciona como um saloon do velho oeste). Ao lado de outros caçadores de recompensa (ou loopers como são chamados), e sempre armado de seu bacamarte (uma espécie de arma que também remonta aos tempos do oeste americano) Joe segue sua rotina morosa economizando seu pagamento para sair daquela vida. Porém, algo esta acontecendo nesse mundo, dia após dia, os loopers vem sendo fechados, o que na gíria local significa que pouco a pouco, os loopers têm matado suas próprias versões do futuro em troca de uma aposentadoria precoce. Tudo isso é motivado pelo misterioso Rainmaker, que segundo a lenda local, surgiu do nada e vem apagando da existência os Loopers.


A trama começa a ficar complexa quando surge na frente de Joe seu eu do futuro (Bruce Willis) que acaba fugindo e criando muitos problemas para o Joe do passado que precisa agora persegui-lo ao mesmo tempo em que também é perseguido por outros Loopers de sua organização, já que não existe coisa pior nesse negocio do que deixar seu "presunto" fugir.

Parece complexo, e em determinados momentos essa sensação se concretiza. Com um roteiro que abraça sem dó toda essa complexidade, Johnson brinca com o espectador tentando nos mostrar a teoria de que o tempo é cíclico e funciona de forma circular, ou seja, passado e presente funcionam ao mesmo tempo e uma ação pode ser repetida a exaustão até que se resolva da forma que um dos viajantes ache conveniente. Essa brincadeira acontece e deixa a principio o espectador confuso. Mas quando começamos a pensar sobre isso (sim, pensar no cinema olha que coisa rara) até que Johnson tenta fazer sentido com suas explicações.

Sem estragar a diversão do espectador, basta dizer que as idas e vindas no tempo são bem montadas e você consegue criar empatia tanto pelo inseguro e irascível Joe de Gordon Levitt e pelo Joe de Bruce Willis, um sujeito mais maduro e que tem um plano a seguir.


Looper mistura ficção científica e suas viagens no tempo com uma estética que lembra filmes dos anos setenta, western, drama "indie" e um desenvolvimento de personagens incomum para produções mais modernas (e com dinheiro) realizadas nos Estados Unidos dentro do gênero.

Johnson prefere desenvolver seus personagens e apostar na verossimilhança de um mundo que lembra demais o nosso, e que não tenta copiar a estética de Blade Runner de futuro. Apesar de não ser nada sutil em relação à condição social em que as pessoas vivem Johnson não cai na armadilha de colocar tudo em um ambiente sufocante, cheio de néons e sob chuva. Prefere a desolação dos vastos painéis de concreto na cidade grande, das ruas largas e dos mendigos de rua, amparado por uma direção de arte que tenta deixar o ambiente o mais atemporal possível, usando de tecnologia apenas em momentos específicos da trama, fazendo os poucos gadgets do filme mais críveis.

Apesar de ter sua ação quase toda passada em uma cidade grande, Looper também tem momentos importantes - e seu clímax - realizados em uma vistosa fazenda americana. Lá, Johnson opta por apostar no tom dourado das plantações de trigo, nos tons ensolarados que ajudam (se é que precisa de ajuda) Emily Blunt a aparecer ainda mais bonita. Segura, a atriz é mais um dos elementos que transforma a fazenda em um ambiente acolhedor e que por isso mesmo, funciona tão bem para as revelações do filme.


É impossível deixar de mencionar a maquiagem que deixa Gordon Levitt parecido com Willis. Não, a ideia não é transformá-lo em um clone, mas deixar os traços do ator o mais próximos possível dos de Willis. O filme ainda tem alguns coadjuvantes em bons momentos, como Jeff Daniels que funciona por ser uma espécie de vilão que demonstra sua crueldade por meio da gentileza e Paul Dano que tem uma cena de impacto e que remonta aos tiques nervosos vistos no excepcional Sangue Negro.

Contando com algumas cenas realmente impressionantes (em especial a que vemos um homem literalmente ser desmontado em nossa frente) e uma mistura de subgêneros que nunca fica confusa, Looper tem um texto que abraça sem dó os clichês da viagem no tempo, em todos os seus triunfos e seus defeitos. Auxiliado por um bom trabalho técnico, mesmo quando se complica com um texto mais rebuscado, consegue manter o espectador tenso dentro de seu clima de thriller.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cowboys & Aliens
(Cowboys & Aliens, 2011)
Ação/Thriller/Sci-Fi - 118 min.

Direção: Jon Favreau
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Mark Fergus e Hawk Ostby

Com: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Paul Dano, Keith Carradine, Clancy Brown e Sam Rockwell

Jon Favreau conseguiu o que parecia impossível: transformou um filme que envolve cowboys, aliens, James Bond e Indiana Jones em uma produção sem nenhuma personalidade, sem charme, graça, e que não é nem mesmo divertida. Mesmo envolvendo dois gêneros estabelecidos (juntando-os em uma - esperada - terceira realidade, onde ambos consigam conviver em "paz"), o filme jamais decola. Favreau para aumentar ainda mais as expectativas quanto ao filme, ainda conseguiu Daniel Craig (Bond) e Harrison Ford (Indi.. ahh vocês sabem), para co-estrelar a produção. Um prato suculento e cheio até a boca para fãs sedentos da melhor diversão escapista da história da humanidade. Pelo menos, essa era a pretensa intensão do filme.

Cowboys & Aliens conta a história do pistoleiro amnésico Jake (Craig) que desperta no deserto, sozinho, sem nem sequer lembrar de quem é, e com um bracelete/pulseira estranho no braço direito. Vagando, ele chega até a cidade de Redemption, uma dessas minúsculas cidadezinhas americanas de Velho Oeste, que cansamos de ver nos filmes e games. Lá é ajudado pelo pastor Meacham (Clancy Brown) e descobre que tudo gira em torno da mão de ferro de Dollarhyde (Ford), o fazendeiro que dita às regras da cidade. Nesse ambiente inóspito, o filme apresenta seus coadjuvantes como o dono do bar Doc (Sam Rockwell), a bela e misteriosa Ella (Olivia Wilde), o xerife Taggart (Keith Carradine) e o mimado e apalermado filho de Dollarhyde, Percy (Dano) que é confrontado por Jake e acaba sendo preso.


Quando - de forma bisonha - o xerife descobre que Jake é um homem procurado, também o prende e enquanto Dolarhyde pai parte em busca da libertação do filho, e Jake tenta entender quem é, uma misteriosa luz surge na cidade que é sumariamente atacada por naves espaciais. O que poderia ser o sonho de qualquer moleque de 14 anos de idade, se mostra uma coleção sem coesão de clichês, com vilões fracos que não convencem por sua motivação e um desperdício absurdo de grandes atores.

Comecemos por esse último item. Cowboys reúne Craig, Ford, Rockwell, Dano, Brown, Carradine e a inexpressiva Olivia Wilde, um elenco repleto de nomes fortes para subutilizar boa parte dele. Rockwell passa o filme inteiro reclamando da vida, de seus medos e tenta ser o alívio cômico fracassado do filme. Dano, Brown e Carradine estão no filme, imagino, por serem caras "conhecidas" do publico, já que não podem fazer quase nada com seus personagens unidimensionais e vagos. Dano, como o garoto arrogante de voz afetada, chega a irritar, enquanto Brown serve como o pretenso guia moral da redenção de Jake e Carradine mais como motivador da busca do garoto Emmett (Noah Ringer, o péssimo Aang de Último Mestre do Ar).


E Wilde? Incrível constatar como as pessoas continuam entregando personagens importantes para essa atriz que demonstra, ser dotada de um número cada vez mais limitado de expressões e que tem um carisma menor do que o de uma formiga agonizante. Completamente fora de sintonia como a misteriosa mulher que diz conhecer os segredos sobre Jake e sobre os invasores alienígenas.

Craig estrela o filme tentando parecer uma mistura de Clint Eastwood e Charles Bronson, mas fica muito longe de qualquer um deles. Craig é um ator lacônico, que interpreta com a presença e o olhar, portanto seria fácil afirmar que Jake é um personagem feito na medida para o ator. De fato é, mas ao mesmo tempo, é alguém com quem o espectador tem dificuldade de se identificar, já que o personagem parece ser um tipo desprezível e por mais que Favreau e seu time de roteiristas (que inclui gente boa como Damon Lindelof da série LOST, Roberto Orci e Alex Kurtzman de Star Trek e Mark Fergus e Hawk Otsby de Filhos da Esperança) tentem amenizar a condição do personagem, Craig é um protagonista muito duro para que consigamos crer em qualquer tipo de suavidade em sua personagem.


Diferente de Ford, que muita gente crê interpretar a si mesmo em uma série de variações, que consegue sempre humanizar seus personagens, por mais vazios e rasos que os mesmos pareçam. Cheio de cacoetes típicos de todas as suas outras interpretações, Ford se não é brilhante, pelo menos dá dignidade ao seu personagem. Uma pena que quando atuam juntos, Craig e Ford - outra falha de Favreau - não consigam entregar sequer uma cena memorável. O mesmo vale para a falta de química entre Dano e Ford nas pouquíssimas cenas em que atuam juntos, como pai e filho.

Tecnicamente, Favreau comete mais um erro crasso em seu filme. Convidou o premiado e talentoso Matthew Libatique (conhecido da filmografia de Darren Aronofsky) para ser seu fotografo, que parece estar, como o diretor, perdido entre fazer um filme moderno e um western tradicional. Essa mistura estranha de estilos pode ser percebida pelas escolhas incomuns na forma de fotografar uma batalha a cavalo. Aqui, se foge dos grandes planos abertos, dos confrontos que são emoldurados pelo cenário, e prefere-se dar espaço ao combate direto, utilizando-se até de câmera de mão. E quando Craig surge em tela, trôpego e fugindo do covil alienígena, Favreau amarra ao ator uma steadycam nos moldes do que Danny Boyle adora fazer em seus filmes. Ao mesmo tempo, o filme é exageradamente escuro prejudicando a compreensão de algumas cenas importantes no filme.


Apesar de seguir uma típica estrutura dos westerns após o surgimento da ameaça alienígena (e aqui quem já viu qualquer western vai entender o que digo), o filme não segue exatamente esse rumo. Diferente do que acontece quando acompanhamos um grupo de pistoleiros no encalço de bandidos (um exemplo claro disso é o excelente Bravura Indômita, o remake, dos irmãos Coen), quando temos tempo para conhecer aqueles personagens, motivações, dramas pessoais e medos, Cowboys & Aliens, por precisar explicar a presença alienígena na Terra, opta por inserir a dissonante personagem de Olivia Wilde, quem vem se revelar como mais importante do que aparentava e é responsável por explicar os motivos absurdos e ridículos da presença alien na terra. Talvez se optasse por não explicar diretamente a presença dos seres no planeta, mas apenas conduzir essa aventura onde o papel dos vilões (quase sempre destinados aos índios) seria vivido pelos ETs, o filme se saísse muito melhor.

E quando tenta mostrar a ação, Favreau acaba com ela - em especial no clímax - quando monta seu filme de modo a apresentar todos os elementos do filme de uma vez, entrecortando e prejudicando seqüências de ação que poderiam tornar-se épicas e impactantes. Mesmo quando tenta criar tensão com o surgimento aqui e ali de alienígenas, não consegue fazer o espectador sequer piscar de medo.


Cowboys & Aliens começou a ser vendido com a salada mais gostosa do cinema. Misturaria dois gêneros consagrados e que jamais haviam de forma direta coabitado o mesmo filme. Infelizmente, Favreau se empolgou com seu brinquedo, esqueceu de fazer um faroeste interessante e de apresentar um sci-fi descente. A salada de Favreau não tem sal, azeite e vinagre, e no meio de tantos vegetais, alguns de gosto bastante duvidoso.



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Apollo 18
(Apollo 18, 2011)
Terror/Sci Fi - 88 min.

Direção: Gonzalo López-Gallego
Roteiro: Brian Miller

Com: Warren Christie, Lloyd Owen e Ryan Robbins

Você sabe quem são os atores que fazem Apollo 18? Pois é, segundo o IMDB (talvez o mais famoso e seguro site para informações técnicas de cinema no mundo) o filme era estrelado pelo vazio até a última quinta feira, dia 01 de Setembro. Ninguém. Zero. Kaput! Essa é só mais uma nota que se junta ao imenso mistério que cercou a produção e divulgação do suspense espacial com estética de documentário produzido por Timur Bekmambetov (diretor de O Procurado). Mesmo durante a cabine de imprensa nem o release, nem fotos de divulgação foram apresentadas. Tudo envolto em muito mistério.

Justificado?

Nem um pouco. Além de não ter nada de original no conceito do filme, a tal "realidade" do filme já deu o que tinha que dar. Esse recurso de fingir que recebeu um vídeo secreto ou misterioso que só agora pode ver a luz do dia, funcionou em 1999 com a Bruxa de Blair, e tirando o brilhante REC, todos os outros documentários de ficção não funcionaram bem. Tirando poucos sustos no irregular Atividade Paranormal, ou a idéia do monstro em Cloverfield, filmes assim perdem muitos pontos por sua tentativa de estética quase amadora, que além de incomodar os olhos, tem problemas de ritmo constantes e a sensação da falta de motivação para alguém ficar carregando uma câmera durante um momento de profundo desespero.


Apollo 18 é mais um exemplar da família. Diferente de seus antecessores mais modernos, tenta recriar a sensação de angústia, desespero e ansiedade que o clássico Bruxa de Blair apresentava. O filme fala da fictícia missão Apollo 18, que vai a lua de forma absolutamente sigilosa e que enfrenta os mistérios de um lugar inóspito, solitário, e que como dizia o cartaz de Alien "se você gritar, ninguém vai te ouvir". A missão é comandada pelo capitão Nate (Lloyd Owen) que lidera o grupo, por Ben (Warren Christie) e pelo piloto da nave John (Ryan Robbins). Para não estragar a surpresa de quem vai ver o filme, apenas digo que Apollo é mais psicológico e permanece nas sombras do que apela para sustos fáceis e o gore. Como os créditos iniciais - de forma apalermada - insistem em dizer, as filmagens foram recuperadas e colocadas a disposição em um fictício website, portanto indicam que, ou os astronautas sofreram muito e morreram ou, alguém encontrou essas imagens em alguma gaveta secreta da NASA e resolveu "mostrar ao mundo". Como o cinema de ação - geralmente - é previsível, não é preciso muito mais do que quinze minutos de filme para percebermos como aquele video vai nascer.

Falando sobre o vídeo em si, Apollo 18 supera tudo o que não se deve fazer na filmagem de um filme, misturando gramaturas, qualidade de filme, bitolas e iluminação. Uma verdadeira salada, que pelo menos, dá credibilidade a idéia de video perdido e amador. A maioria das filmagens é apresentada em 16 mm sem conversão (aparentemente) , o que resulta em uma diminuição arbitrária do tamanho da tela quando as imagens são apresentadas nesse formato. O Som por sua vez tem função primordial. Além de ser parte integrante da narrativa, é o catalisador das tensões que os personagens enfrentam. Tudo tem inicio a partir de alguma coisa ouvida por um personagem e se encerra com mais explosões sonoras.


Se esteticamente é difícil analisar esse tipo de produção, é salutar ressaltar o trabalho da equipe de produção na criação do solo lunar. Apesar de não apresentar nenhuma novidade, convence de que estamos em um ambiente desolado, frio e distante de qualquer contato humano. Essa aura alienígena é ampliada com a boa fotografia das tomadas externas (que não envolvem o 16 mm), quase sempre estourada e de altíssimo contraste.

Se tecnicamente o filme cumpre aquilo que promete, narrativamente ele sofre de um problema de ritmo constante. Se a introdução copia a forma de apresentar os fatos de Distrito 9, o desenvolvimento da história lembra uma mistura do seminal Alien (pela presença de uma ameaça desconhecida no espaço que ataca sorrateiramente os tripulantes de uma nave) com o recente Lunar (pelo tédio da missão e pela sensação de isolamento que o filme apresenta e pelo fato de apenas os astronautas aparecerem fisicamente no filme).


Porém, a mistura dos dois filmes - um clássico do suspense e um drama humano brilhante ambientado no espaço - não funciona muito bem. Na queda de braço entre dois gêneros tão diferentes, o diretor Gonzalo López-Gallego (estreando em produções americanas) prefere apostar no suspense de sobrevivência, com resultados razoáveis. Se nos assustamos em uma excelente sequencia em que um dos astronautas investiga uma cratera lunar abandonada, a conclusão do filme põe quase tudo a perder quando força a enésima potencia a capacidade do espectador em suspender a descrença. Uma vez que apresenta sua premissa, fica impossível crer que o que a introdução do filme nos apresenta possa ter acontecido. Simplesmente não faz sentido.

Os atores - todos desconhecidos - executam funções pré-determinadas pelo roteiro de Brian Miller. Temos o líder, o esperançoso e o impaciente. Cada um deles serve ao propósito da história, mas sem brilho, sem uma grande cena para nos fazer torcer pelos personagens ou temer seus destinos. Incomodamos-nos e nos sentimos intrigados pela história, muito em função de uma mórbida curiosidade para saber como aquela história vai acabar.


O que poderia ser um suspense tenso e virulento sobre solidão e sobre o medo, transforma-se em uma montanha russa quando os acontecimentos vão se sucedendo. Não chega a ser ruim como o pavoroso A Casa - recentemente lançado por aqui - mas fica claro que essa forma de fazer cinema de suspense e horror, está cada vez mais com os dias contados.