quinta-feira, 11 de agosto de 2011




Encaixando como tema central de sua filmografia a Natureza como algo em perfeito equilíbrio, Terrence Malick sempre a usa como pano de fundo de suas obras. O subtexto carregado, presente desde Badlands, atingiu seu ápice em Cinzas no Paraíso. Trabalhando esse subtexto, o diretor se estabeleceu como um adepto da experiência metafísica e um amante da Natureza em seu estado mais selvagem. Quando analisada, a trama de O Novo Mundo é um fantástico palco para as teorias de Malick. Sua mensagem otimista, do Homem aprendendo com a Natureza, é forte o suficiente para elevar a básica história de Pocahontas. A trama universal, verídica, contava como dilema central o "homem branco" que se apaixona pela mocinha de outro povo. Essa trama, aliás, virou centro de diversos filmes, inspirando inclusive películas como Avatar. Porém, se o forte dos filmes de Malick não é o que está no primeiro plano de narrativa e sim na mensagem das imagens, em O Novo Mundo somos apresentados a uma nova postura do diretor quanto a narrativa. 

Ainda que lenta, atmosférica, encantadora, a narrativa investe muito mais na trama e nos personagens que no subtexto que tanto tornou Malick diferenciado. Em Badlands, pouco importava a fuga do casal principal quando analisávamos a psicopatia de ambos. Em Cinzas no Paraíso, o triângulo amoroso não era nada perto do debate do equilíbrio entre Homem e Natureza. O mesmo vale para Além da Linha Vermelha, que explorava mais a psique do Homem perdido na hostilidade de seu caráter do que a Guerra propriamente dita. Já O Novo Mundo explora tanto a Natureza com suas belíssimas imagens quanto o seu desenvolvimento de trama. Isso poderia sinalizar uma clara evolução de Malick como contador de histórias e, em certa parte, representa exatamente isso. Porém, o diretor peca exatamente naquilo que sempre foi bom: No desenvolvimento da mensagem contida ali.







O início da película é Terrence Malick á moda antiga. A harmonia de Pocahontas com a Natureza é retratada da maneira mais solene possível. Os delicados gestos, o Sol batendo na câmera de uma maneira divina, a narração em off precisa. Começam então os bonitos créditos, com um imponente corte que inicia a belíssima sinfonia Das Rheingold. O contato com o Homem surge logo depois desses créditos, com a chegada dos imponentes navios Ingleses. A sutileza conhecida de Malick é vista desde já: quando Colin Farrell aparece, já sabemos de sua situação como escravo, graças ao singelo take de suas mãos acorrentadas. Ali inclusive, naquele breve instante, John Smith pega a água caindo em sua cela, mesmo com as mãos atadas. Com uma sensibilidade emocionante, o diretor cria uma bela metáfora do Homem acorrentado a seu destino "civilizado" e que tenta absorver a Natureza mesmo preso.

Logo que chegam, os ingleses falam em "não ofender os nativos". Claramente, é a melhoria do Homem desde o psicopata Kit Carruthers em Badlands. O paradoxo, porém, permanece. A violência do Homem continua, ao mostrar seus confrontos com os indígenas e até mesmo a fala rápida dos meninos da Colônia, que contrasta com o constante silêncio das Aldeias dos nativos. E esse mesmo Homem que aprendeu a respeitar quem é superior a ele, é aquele que tem o objetivo de colonizar a Natureza. Essa entidade, que Malick respeita mais que tudo, tinha em Cinzas uma "personalidade" implacável. Quando em equilíbrio, ela abraçava o Homem sem reservas. Quando essa linha se partia, o preço pago era alto. Aqui em O Novo Mundo, a Natureza parece mais calma, mais reservada, mais deidificada e intocável. O acesso a ela é exclusivo dos indígenas, como nas cenas dos lindos rituais de espiritualidade dos nativos. Já com outros que tentam acessá-la, como John, ela tenta os afastar (como a brilhante cena do pássaro voando pra cima de John). Quando Pocahontas fala com sua Mãe, ela quer falar com cada árvore que toca, cada grão de terra que pisa. E é aí que entra o início do caso de amor de John Smith com Pocahontas.







A dualidade Homem/Natureza sempre foi subtexto para Malick, mas aqui se torna metaforicamente a trama em si. John se apaixona pela princesa indígena. Ela é a personificação da Natureza e o Homem, não por acaso chamado John Smith (o mais comum dos nomes masculinos da língua inglesa), é o amálgama de todos na Terra. Ainda que, como dito, a Natureza pouco faz de efetivo para interferir na história, esse esquema era obviamente o que se esperava de uma obra do diretor. O desenvolvimento desse arco é fabuloso ao se virar para seus personagens e o amor entre eles. Justamente por se focar nesse romance que a narrativa soa tão diferente do resto dos filmes de Malick. E mesmo testando um campo mais didático (o que inclui narrações em off que até mesmo explicam a imagem em certos pontos), o diretor é bem sucedido ao criar lindos planos como um pelo meio da projeção, retratando o delicadíssimo e sutil amor entre John e Pocahontas.

O ritmo da produção, acompanhando essas sutilezas, é contemplativo e lento. No início da trama, a agilidade dá as cartas ao apresentar o arco principal, de John vivendo entre os indígenas. A fluidez da narrativa é tão grande que o espectador é surpreendido por Malick ao constatar que a história não deve seguir os rumos que se imaginava antes. E se a trama, um tanto arquetípica, já era extremamente bem desenvolvida até a virada brusca, quando toma novos contornos o filme apenas enriquece mais e mais estruturalmente.







E se a narrativa de Malick evolui, a técnica do diretor também segue a toada. O extraordinário dessa evolução é justamente constatar que Malick aprimora o seu já conhecido cuidado obsessivo com o visual. O Novo Mundo é, talvez, o filme mais lindo de Terrence Malick. Brilhantemente fotografado por Emmanuel Lubezki, as escolhas técnicas do filme são soberbas. Lembrando o Barry Lyndon de Kubrick, o filme investe pesado em luz natural. Lubezki cria uma película inteira em 65mm com essa intenção de edificar a Natureza e limitar o artificial. A cena da fogueira entre John e Pocahontas é belíssima. O tom vívido da luz contemplativa do fogo nos rostos apreensivos dos excelentes Colin Farrell e Q'orianka Kilcher é de tirar o fôlego. As batalhas, em certo ponto da projeção, são registradas no estilo inconfundível de Malick, o que mostra o competente trabalho de Lubezki e do diretor mesmo em sequências nas quais não estão habituados (Lubezki ainda não tinha feito Filhos da Esperança na época). A trilha de James Horner também contempla a beleza do filme de uma forma linda, marcante.

Essa batalha, que marca de certa forma o fim do primeiro ato, é pontuada por imagens em paz da Natureza. A mensagem é clara, ainda mais para quem viu o resto dos filmes do diretor.

Porém, nem tudo fica no controle de Malick. A narrativa mais elegante e coerente, com personagens carismáticos e admiravelmente tridimensionais, acaba cobrando seu preço. Ao justificar a dualidade do título do filme, Malick apresenta O Novo Mundo a Pocahontas. E aí o discurso, que antes já estava em menor grau, muda. O simples conto de John se apaixonando pela Natureza acaba gerando o complexo conto de Pocahontas se apaixonando pelo Homem. Não houve uma mudança de postura na mensagem, mas que Malick abre uma nova vertente em seu pensamento, é inegável. Optando por complicar e enriquecer sua estrutura, o diretor acaba não concluindo sua história com John, o que geraria um belo fim de ciclo na sua filmografia, preparando o terreno para Tree of Life, a perfeita harmonia Homem/Natureza.






E seguindo Pocahontas, que se revela a verdadeira protagonista, o filme toma um novo rumo que é inegavelmente soberbo, mas descartavelmente arriscado. A tendência de Malick sempre foi mostrar o Homem se adequando á Natureza e em O Novo Mundo, o diretor resolve fechar sua filmografia adequando a Natureza ao Homem. O que era um processo gradual, cadenciado, se torna uma bola de neve. Se o Homem começa como inferior a Natureza, por que criar um equilíbrio entre as duas Forças ao subverter a mais forte delas?

Isso poderia ser visto como uma necessidade de ser fiel á História real, mas seria irrelevante e estreito pensar que Malick deixaria sua mensagem se diluir só para seguir de forma documental uma obra de ficção. Logo, o mais provável é observar que Malick falhou ao desenvolver as virtudes do Homem, ao mostrá-lo como bondoso e altruísta depois de gastar uma hora e dez minutos de película ao mostrá-lo como ganancioso e implacável. Porém, os "problemas" do filme são mais complexos. Malick mostra Cruzes e Igrejas durante toda a projeção, relacionando-as com os Homens. Ao endeusar o Metafísico presente na cultura nativa, as manifestações religiosas podem ser vistas como equivocadas aos olhos do diretor. Sendo assim, o final poderia ser, na verdade, a tragédia da Natureza perdendo para o Homem, da Pocahontas sendo domesticada.




Essa complexidade começa a ser esmiuçada ao analisar os takes finais. Pocahontas dançando naquele vasto campo, com outro personagem, é a prova da felicidade da protagonista. Sua comunhão com a Mãe-Natureza no final, o banho na água, é a representação máxima de que a Princesa não esqueceu de suas raízes. Portanto, houve o equilíbrio entre as duas Forças que tanto bateram de frente (com a Natureza sempre sendo mais poderosa, diga-se de passagem). E esse equilíbrio é representado pelos últimos takes, da Natureza selvagem em Paz absoluta, com o rio correndo normalmente e as árvores calmas e felizes.

Porém, a dúvida volta quando os detalhes da situação são analisados. O palco da conversa entre John e Pocahontas é um jardim enorme, mas totalmente "lapidado", domesticado. Estaria Malick feliz com o equilíbrio alcançado ou estaria triste com a queda da Natureza-Pocahontas para o Homem? A dualidade segue até o final e essa dúvida mantém-se na mente até depois da sessão. Não se engane, é lindíssimo ver Pocahontas manter sua essência natural mesmo em meio aquele mundo estranho dos homens brancos. Mas é igualmente trágico ver a transformação daquela divina criatura em "equilíbrio", em algo que ela não é.




Por patinar levemente em sua mensagem, Malick cria uma obra imperfeita. Perigando terminar sem unidade, O Novo Mundo acaba se focando na narrativa e, por isso, dá uma volta inteira e se complica quando poderia traçar uma reta e ser bem sucedido. Ao valorizar mais o subtexto, Malick criou obras-primas. Aqui, ousou ao elaborar uma narrativa mais complexa. Mas com isso, criou um final que não soa ambíguo por respeitar a inteligência do espectador ou por depender da interpretação de cada um; soa ambíguo por não saber exatamente o que quer falar.

Como obra fechada, técnica e narrativa, fabuloso. Como uma parte da filmografia de um gênio e em sua mensagem, imperfeito.

FICHA TÉCNICA
O Novo Mundo (The New World, 2005)
roteiro: Terrence Malick
fotografia: Emmanuel Lubezki
trilha sonora: James Horner
direção de arte: David Crank
montagem: Richard Chew, Hank Corwin, Saar Klein e Mark Yoshikawa
estrelando: Colin Farrell, Q'orianka Kilcher, Christopher Plummer, Christian Bale, Wes Studi






 

quarta-feira, 10 de agosto de 2011





Diferente de outros diretores que surgiram em sua geração, Terrence Malick tem uma cinematografia completamente peculiar: não se entrega a qualquer projeto, não faz qualquer filme, tem personalidade forte - quase excêntrica - e se apega fortemente á mensagem. Mas não existe mensagem cinematográfica particular de cada um de seus filmes - como muitos outros cineastas fazem - mas sim, uma mensagem que quer passar em toda sua carreira, em sua existência como artista . É o raro caso do diretor americano que tem um discurso tipicamente europeu, e talvez seja por isso, por essa combinação do melhor de dois mundos, que Malick seja tão admirado e ovacionado, mesmo tendo uma carreira tão diminuta em número de longas .

E a principal mensagem que Terrence Malick se apega para transmitir, ao longo de sua carreira, talvez seja o tema clássico do Homem X Natureza . Desde seu primeiro filme, o excelente Badlands (1973), a mensagem já existia nos seus trabalhos. E se em Badlands, a mensagem foi um tanto quanto irônica - o homem, presumidamente equilibrado, era selvagem; a natureza, tida como selvagem, demonstrava puro equilíbrio - e inusitada - a psicose de Kit e Holly gerava risos nervosos - em seu longa de retorno (após cerca de 20 anos longe das câmeras) Malick trouxe um tema simplesmente perfeito para retratar sua citada dualidade: A Guerra. Desse modo, em 1998, Terrence Malick faz - tanto tempo depois de seu último trabalho até então, Cinzas no Paraíso - Além da Linha Vermelha, um filme contando a história da companhia C, na Segunda Guerra Mundial, no eixo do conflito no Pacífico.






A escolha de tema é genial por poder implantar a dualidade no longa a todo o momento. Ao mesmo tempo em que podemos ver a loucura dos seres humanos grifada em tela - e a guerra é um dos temas que faz isso melhor - temos sempre a natureza como plano de fundo literal. Afinal, o que está formando o cenário dos eventos? Onde os soldados estão? A natureza está em todo o lugar, e as cenas da Segunda Guerra permitem destrinchar ao melhor estilo Malick, toda a gama de interpretações e subtextos que aquela combinação pode gerar.

A partir dessa conclusão, Malick já inicia seu filme, logo no fotograma de abertura, com uma sacada genial. Um take único, simples e de breve duração: Um crocodilo adentra as águas de um lago escuro, desaparecendo lentamente enquanto submerge. Ou seja, através de elementos legítimos da fauna e da flora, podemos captar a insegurança e o temor humanos presentes na guerra. O crocodilo entrou no lago. A tensão instaurou-se. Uma bela mensagem inicial para abrir o espetáculo que virá a seguir. Após isso, somos apresentados, aos poucos - com takes de beleza singular - aos diversos personagens com os quais lidaremos ao longo da exibição. Todos integrantes da já citada Companhia C, que se dirige às proximidades do Japão, para seguir com os conflitos norte-americanos no Pacífico. Não demora muito para que os personagens se agrupem nos barcos que os levarão até uma ilha, ilha essa onde se desenrolarão as batalhas.






Desde já, somos acostumados a lidar com um recurso muito típico de Malick, que funciona incrivelmente bem em seus filmes, o que na mão de outros poderia virar didatismo incorreto: narrações em off. Aqui, elas permitem ouvir os pensamentos mais internos e melancólicos dos soldados, o que denota uma possibilidade de entender a Guerra em questão, por uma dimensão maior, mais aprofundada e imersiva - e por conseguinte, também mais dramática .

E quando começam as batalhas, o estudo da mensagem de Malick também começa: a cada vitória, há também o terror e o questionamento perante a violência. A sanguinolência, os horrores da guerra em cada um de seus milímetros são capturados pelas lentes sensibilíssimas do diretor. Cada soldado reage de um jeito, mas quase todos revelam a mesma incompreensão, o mesmo desespero frente à insanidade humana. Um retrato perfeito desta insanidade é construído, e ele só se destaca mais, frente á perfeição e equilíbrio da natureza. Em tela, essa dualidade (homem X natureza) é traduzida em takes imortais, como aquele em que borboletas azuis voam despretensiosamente sob uma mina que explode; ou no caso em que um jovem soldado, a beira da morte, encontra o fim do seu desespero ao contemplar uma singela vegetação na contraluz... São detalhes, mas que constroem uma belíssima crítica á humanidade, através de um desbunde, tanto em simbolismo, quanto em excelência técnica - os planos abertos de Malick e a fotografia sublime de John Toll , quando combinados á paisagem, geram arrepios.






A obra só não é impecável por um fator: ao utilizar a guerra como artifício para construir sua mensagem, Malick acaba se perdendo dentro do tema, e torna a própria guerra - por si só - um tema a ser abordado no filme. Aí brotam muitos personagens desnecessários, - verdadeiro excesso de estrelas, por conseqüência - sequências que tratam de hierarquia dentro do batalhão, e toda uma gama de assuntos que são pertinentes á didática geral da guerra, mas não ao foco principal - a crítica aos humanos e seu paralelo frente à natureza. Desse modo, talvez imbuído de uma vontade de criar um grande épico de guerra , Malick deixa uma duração gigante - 170 minutos - e dilui sua mensagem com excesso de arestas que poderiam - e deveriam - ser aparadas. Mistura o essencial - sua mensagem - com o meramente descartável e acidental - todas as dinâmicas de guerra dispensáveis. Diluindo conteúdo, Além da Linha Vermelha perde um pouco de sua força. Não foi aqui que Malick conseguiu a perfeição, porém, chegou muito perto.

Mas mesmo estando um pouco diluída , a mensagem vital permanece lá . E se prestarmos atenção ao desfecho do longa - que é genial e incrivelmente emocionante - podemos aprender muito com ele. Se ele nos fisga no início com o discurso do soldado Witt, (Jim Caviezel , o verdadeiro protagonista, se há algum) - repare no conto de Witt sobre sua mãe, logo no começo do filme - o seu final só nos permite entender que ainda há homens que aprendem com a sabedoria da natureza, com o equilíbrio da vida. E se é possível possuir tais sentimentos provenientes da natureza dentro de nós, ora, então ainda há esperança. Para todos nós.


FICHA TÉCNICA
Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998) 170 min.
roteiro: Terrence Malick
fotografia: John Toll
trilha sonora: Hans Zimmer
direção de arte: Ian Gracie
montagem: Leslie Jones, Saar Klein e Billy Weber
estrelando: Jim Caviezel, Nick Nolte, Sean Penn, Elias Koteas, Ben Chaplin, John Cusack, Adrien Brody, John C. Reilly, Woody Harrelson, Miranda Otto, Jared Leto, John Travolta, George Clooney, Nick Stahl e Thomas Jane




terça-feira, 9 de agosto de 2011


Terrence Malick realizou seu segundo filme com parcimônia. Depois dos problemas na filmagem de seu debut, Badlands, Malick ganhou uma equipe mais profissional e mais tempo. Ao ser bem recebido pela crítica pelo primeiro trabalho, o diretor conseguiu um bom orçamento, 3 milhões de dólares, e teve maior visibilidade para o público em geral, já que contava com Bert Schneider (lendário produtor nos anos setenta) na produção. Porém, em Cinzas no Paraíso, os produtores conheceram mais o perfeccionismo do diretor. Se Edward Pressman (produtor de Badlands) tinha dado controle criativo total para Malick em 1973, Schneider não fez diferente. Resultado: Malick começou um trabalho diferente, experimentando imagens avulsas da natureza e rebuscando mais ainda o complicado trabalho de narração em off já realizado em seu primeiro longa. E demorou dois anos na pós-produção do filme. Porém, se do ponto de vista técnico e comercial Malick estava deixando seus produtores enfurecidos, não se podia dizer o mesmo na forma artística.


O cuidado excessivo com a montagem do filme, a inserção da trilha sonora de maneira diferente da ordem na qual foi composta e o complicado processo de mixagem de som tornavam o filme mais e mais complexo visto pelos olhos de dentro da Paramount (empresa produtora do filme). Se durante as filmagens o ritmo era lento e Malick constantemente refazia cenas e reescrevia diálogos, na sala de edição a obsessão pela perfeição era maior ainda. Como disse Schneider no livro Easy Riders, Raging Bulls: "Richard Brooks escolheu Gere, montou e lançou Mr. Goodbar enquanto Malick ainda estava na pós-produção. Porque Terry não conseguia resolver o filme".

Sim, Cinzas no Paraíso tem sua boa parcela de narração e imagens que não são fundamentais a trama. Porém, quando se analisa o brilhante subtexto que Malick trabalha no filme, percebe-se que cada segundo dos dois anos valeram a pena. Cada take tem um significado maior do que aparenta, tornando o filme uma experiência surpreendente. É na mensagem que a trama, um tanto convencional, se destaca. A lentidão do diretor é perfeitamente justificada quando se analisa a proposta.








Desde o início, Malick já mostra um aprimoramento desde sua estréia. A narração que determinou Badlands como um conto de fadas está presente também, com um preciso tom de voz fabulesco imposto pela menina Linda Manz. A consciência no metafísico também surge mais decidida ("Deus sequer nos ouve..."). E se a direção de Badlands era mais contida e apenas acompanhava os personagens, sem floreios, aqui em Cinzas no Paraíso uma evolução estilística visível é notada. No início do filme, na fábrica, Malick inclusive introduz takes com câmera na mão, o que voltaria a ocorrer em uma das belíssimas sequências no campo de trigo. A utilização da grua também é visível e sutil, precisa. E justamente esse take com grua, dos bóias-frias no trem, é o que precede a apresentação da casa do fazendeiro vivido por Sam Shepard.

O take solene, introduzido por um cross-fade lento, ostenta a aura mítica da belíssima casa no meio do campo de trigo, foi imortalizada como a capa do DVD deste filme lançado pela Criterion. Em nosso primeiro contato, já sabemos que aquele será o palco dos conflitos humanos que o trio protagonista irá vivenciar. Gênio é assim, provoca isso no espectador, o avisa com sutileza sua proposta, com respeito pela intelectualidade de quem está do outro lado.

E se um upgrade de direção é visível, há também uma reinvenção de postura no roteiro. Em Badlands, Malick era ácido em estabelecer uma atmosfera fria, decadente, em torno de seus personagens. A psicopatia do ser humano era retratada de forma visceral, tanto ativa (por Kit) quanto passiva (por Holly). E em Cinzas, somos apresentados a Bill logo com um momento de explosão de fúria do mesmo. Porém, a diferença se dá ao longo da narrativa, quando vemos os humanos ali presentes com qualidades contagiantes. A voz de Linda também embala esses sentimentos bonitos, mostrando as qualidades das pessoas trabalhadoras do campo, que já haviam ganhado uma bela homenagem nos créditos iniciais, que demonstram todo o amor de Malick por eles. O diretor ainda realiza um competente plano gêmeo para mostrar a alegria de um sapateador, em torno de uma fogueira festiva. Ternura e amizade, pura e simples, com um violinista divertido embalando a trilha. Os problemas, porém, continuam. O humano continua irracional e a balança que o diretor usa para medir o destempero do homem é a natureza.








Se em Badlands a Natureza era apenas um mero pano de fundo para a fuga do casal protagonista, em Cinzas ela se torna uma personagem vívida, um organismo que dita a narrativa. E Malick registra esses momentos como ninguém. A cena-chave é a da colheita. Quando a colheitadeira passa por cima do trigo, com Abby retirando os excessos, Malick mostra a reação dos animais em relação aquilo. E essa sensação da natureza observando o ser humano se instala em diversas cenas. Bill e Abby estão se divertindo na água, andando e pulando, mas Malick faz questão de nos mostrar que há jacarés assistindo tudo, de longe. Claramente, é a Natureza que manda ali, é a força em equilíbrio que reina o local. E se nos futuros filmes o diretor analisa o quanto o ser humano pode aprender com o Ambiente, é aqui que o início da complexa análise é realizado.

O equilíbrio lindíssimo entre Homem e Natureza é o necessário para se viver no Paraíso. O belíssimo campo de trigo, o tal Paraíso do título, é um lugar fundamental para esse equilíbrio. Seria impossível viver sem a Natureza em lugar tão vasto e rico para a mesma. Para registrá-lo de maneira divina, Malick buscou inspiração nas pinturas de grandes artistas. O Crepuscular campo é, na verdade, o Mundo de Christina (http://migre.me/5pW6o). Richard Gere olhando triste a janela do patrão é a Janela da Noite de Hopper (http://migre.me/5pW7q) e a casa majestosa do Fazendeiro, na verdade, é a Rail Road (http://migre.me/5pW9F). Nada mais justo que arrancar, do excelente Néstor Almendros, uma das melhores fotografias da história do Cinema. Transportar o Paraíso para as telas não é fácil e Malick e Almendros constroem um, particular.
E essa tarefa complexa de equilibrar duas forças tão distintas chega a se concretizar em tela. E, no fundo, quando analisamos a trama (um tanto trivial, um drama romântico), é sobre esse subtexto inteiro que o filme trata. Um dos homens consegue estabelecer esse contato direto. Aproveita a Natureza, compreende-a (claro que tudo interpretativo, Malick nunca é didático). E a retribuição é imediata. Malick filma planos inteiros dos campos esvoaçantes, dos animais em paz. Tendo seu ápice na belíssima tomada da planta crescendo, germinando, o equilíbrio é lindo e Malick fica claramente feliz com sua narrativa, afinal os personagens realmente aprenderam o que o diretor sempre almejou. Mas não dura muito tempo.








A trama do filme depende bastante do desenvolvimento dos personagens. E, mesmo distante e apresentando ainda resquícios da frieza de sua estréia, Malick é extremamente bem sucedido ao gastar todos os primeiros trinta minutos com um tom atmosférico incrível que insere o espectador no drama dos personagens. Nisso, é desnecessário dizer que o diretor arranca performances memoráveis de todos os envolvidos. Repare como Gere olha distante e apreensivo, numa clara reflexão de Malick para a natureza selvagem de seu caráter. Brooke Adams também oferece instantes sublimes, como aquele que o diretor registra o rosto apreensivo da indecisa mulher que agora se vê numa encruzilhada emocional. Sam Shepard também realiza seu trabalho com exímia competência e até mesmo os coadjuvantes, como Linda Manz e Robert J. Wilke, estão soberbos.


As interiorizações dos personagens são fundamentais, mas é quando a tensão se explicita que a união dos temas Homem vs Natureza se instala de vez. Quando vão caçar pássaros, interferir na Natureza, Bill e o Fazendeiro vão empunhando espingardas. O olhar perdido de Gere e a ternura no olhar de Shepard são registrados com clareza. O tiro é ouvido e quando Bill dispara no chão, a raiva contida é denunciada em seus olhos, ao passo que a ternura do Fazendeiro vira apreensão de imediato. O homem tem sim suas virtudes, mas aqui ele continua sendo aquele Kit Carruthers vivido por Martin Sheen. A cena inteira remete a um duelo e é fácil se lembrar da atmosfera de faroeste de fuga que Badlands tinha, que era visível na aparição de figuras tensas como o senhor vivido pelo próprio Malick no filme de 73. Em comum, há o registro. Os olhos serem a janela da alma nunca fez tanto sentido quanto nos filmes de Terrence Malick.


Analisando esse caráter do duelo, a escolha da menina Linda como narradora não poderia ser mais acertada. Sendo uma mediadora, não tomando um partido, ela faz com que o espectador tire suas próprias conclusões no meio do fogo. Ainda dando o já citado tom fabulesco para história, a narração em off não tem um papel tão vital quanto em Badlands, mas se demonstra igualmente acertada e tão impressionante quanto em níveis simbólicos para a narrativa e as interpretações perante a mesma.








E as Cinzas no Paraíso se instalam no momento exato. O amor que o Fazendeiro sentia no coração era puro, incrível. Tímido, o homem enfermo se reservava a adorar aqueles cabelos negros e esvoaçantes de Abby. Ainda que explorando a sua terra (e, por consequência, a Natureza), o homem é bom, como a própria narradora imparcial reconhece. E é sublime e desolador o momento que Sam Shepard olha para a câmera após observar Gere e Brooke de longe. É uma estrada para o inferno, consciente, mas incontrolável. Sam olha no fundo dos olhos do espectador, por um breve instante (que acaba com um imponente cross-fade), como se perguntasse á natureza selvagem humana dentro de cada um de nós: Vocês reagiriam diferente? Vocês não fariam o que eu estou prestes a fazer? O momento é tão poderoso que é necessário ver. E essa incursão no lado mais cru de nós mesmos nunca foi tão dura.


Como a cena da caça aos pássaros denunciava, claramente o impasse não poderia acabar de outra forma. E a vergonha daquele olhar de Sam para o espectador é tão grande que a própria Natureza se manifesta. Se Ela gosta tanto de se sentir equilibrada com o ser humano, quando o fio se rompe nada mais claro que um ato inexplicável acontecer. Um estopim. O tempo de equilíbrio acabou. E o resultado do fim do impasse é tão cruel e visceral que a força maior, a Natureza, faz o que pode para não compactuar com isso. O cavalo simplesmente sai. A repulsa é maior que tudo e não há como um animal tão distinto e belo se submeter a um ser retrógrado e infantil como o tal Ser Humano.


E quando a Natureza está muito acima de nós para tomar uma decisão definitiva, que seja então o Homem. Cinzas no Paraíso até dá a impressão de se estender demais, mas demonstrando imenso respeito a seus personagens, fecha o seu arco de maneira satisfatória para conferir dignidade a quem merece. Aquela altura, naquele longínquo 1916, Terrence Malick aprendeu que o ser humano tem suas imensas virtudes, como a amizade do trilho do trem. A carismática Linda é a prova disso e Abby se demonstra vítima das circunstâncias e de seu próprio espírito. Ainda temos muito a aprender com a Natureza.








O equilíbrio entre as forças é o necessário. E nada foi alcançado ainda. Falta a humildade, a busca pelo conhecimento, a racionalidade. Esse debate só seria visto novamente em Além da Linha Vermelha, quando o ser humano melhora a postura. Porém aqui, quando vemos o fim do duelo e acompanhamos a triste trilha de Ennio Morricone, não há como pensar de outra forma. E Malick prega seu pensamento metafísico de forma genial. Precisamos evoluir.


No fundo, até o Paraíso é uma Terra de Ninguém.

FICHA TÉCNICA:
Cinzas do Paraíso (Days of Heaven, 1978) 94 min.
roteiro: Terrence Malick
fotografia: Nestor Almendros
trilha sonora: Ennio Morricone
direção de arte: Jack Fisk
montagem: Billy Weber
estrelando: Richard Gere, Brooke Adams, Sam Shepard, Linda Manz, Robert Wilke