terça-feira, 16 de agosto de 2011

Balada do Amor e do Ódio
(Balada Triste de Trompeta, 2010)
Drama/Romance - 107 min.

Direção: Alex de la Iglesia
Roteiro: Alex de la Iglesia

Com: Carlos Areces, Antonio de la Torre e Carolina Bang



Você conhece Alex de la Iglesia? Se a resposta for negativa, por favor (de coração) vá atrás de seus filmes, quase todos grandes trabalhos. Ação Mutante, O Dia da Besta, 800 Balas e até mesmo os mais regulares como Crime Ferpeito e Comunidade tem grandes momentos. Apenas The Oxford Murders pode ser considerado um fracasso e mesmo assim tem classe e uma boa (apesar de batida) história de investigação.


Balada Triste de Trompeta é visualmente impressionante e inesquecível, e feito com pouco dinheiro imagino. Conta a história do palhaço "triste" Javier, filho de palhaço e que viu seu pai ser preso durante a Segunda Guerra pelos franquistas. Anos mais tarde e já um adolescente, Javier tenta ajudar o pai a fugir e na confusão o vê ser morto. Esses primeiros minutos são lindamente fotografados em alto contraste deixando o filme onírico, aumentando a percepção de que aquele lugar e época não têm vida e estão condenados.



Quando o filme para de avançar no tempo, vemos Javier novamente, dessa vez como um gordinho solitário e tímido, que talvez por trauma ou por desconhecer outra vida, está vivendo como palhaço começando em um novo circo. Iglesia é muito feliz em seu casting pois além de Carlos Aceres ser um ator expressivo como Javier, conta com coadjuvantes interessantes ao seu redor. Figuras marcantes que adornam a sensação de inesperado e quase mágico que o circo e seus personagens trazem a cabeça das pessoas.


A história realmente engrena quando Javier conhece seu futuro parceiro, o palhaço Sérgio (Antonio de la Torre), um violento e petulante homem que é casado com a lindíssima e brutalmente sensual Natalia (Carolina Bang), que Javier vem a se interessar. A partir dai a história acompanha de forma bufa e recheada de humor negro a história desses três personagens e suas idas e vindas entre amor e ódio.


Recheado de homenagens ao cinema (Frankenstein e Monstro do Circo entre outras) o trabalho de Alex é uma versão menos exótica e mais pé-no-chão de Fellini, e como tal abusa do lirismo e das imagens acachapantes para passar sua mensagem. Sua direção de arte é inspiradíssima e a fotografia caminha entre o gótico sombrio e as luzes naturalistas. Na segunda metade do filme, quando a sátira política é abertamente exposta (até então, o mais profundo disso que tínhamos visto eram os cenários que emolduravam o circo: cidades destruídas e gente muito pobre) e os personagens estão definidos, Alex voa alto, tão alto que perde um pouco o pé e faz o filme perder força.


Tomando cuidado - mesmo - para não soltar nenhum "spoiler" apenas digo que a transformação física e mental de Javier e Sergio, apesar de visualmente serem espetaculares e assustadoras, surgem exageradas pelo abuso do diretor. Depois de certo tempo a sátira e as situações que os personagens enfrentam soam excessivas. Notem - quando virem o filme, é claro - o exagero da transformação mental de Javier. Visualmente é impressionante, mas o filme não consegue me convencer que um homem passando pelo passou tornar-se-ia o que se torna na parte final da película.



A história pareceu curta demais para o desbunde visual que o filme tem. O ato final é muito longo, e muita coisa poderia ser resumida com mais parcimônia. A própria inclusão da tal Balada Triste, que surge absolutamente do nada, tem função meramente estética e pouco acrescenta a narrativa, além de mostrar mais uma vez que o personagem Javier é exageradamente apresentado.


Por isso, é mais interessante acompanhar as histórias de Sérgio e Natalia, dois personagens mais cheios de nuances e de personalidade mais interessantes. Sérgio começa como um monstro perturbado, violento e amedrontador, mas extremamente amoroso com as crianças e em sua moral perturbada, apaixonado por Natalia. Ela por sua vez além de sensual, mostra-se ardilosa ao não abrir mão de Sergio, ao mesmo tempo em que não impede os avanços de Javier. Soando confusa e até ingênua por boa parte da projeção, Natalia é a musa que conduz a história e como tal mantém-se emocionalmente distante até quase o derradeiro frame.



Final esse que abusa do lirismo e da poesia para transmitir a mensagem de que o amor e o ódio caminham de braços dados como grandes amigos e que basta uma fagulha mal apagada para que uma explosão de sentimentos transforme a vida de uma pessoa. Pena que a fagulha seja pequena e que a explosão possa ser controlada por um sopro.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Apollo 18



O filme produzido por Timur Bekmambetov, o criativo diretor de O Procurado, pega a estética de projetos como REC e Cloverfield pra contar uma história espacial, na Lua, sobre a missão perdida dos anos 70. É interessante analisar a proposta do filme pois além de ser uma ideia original (afinal, o contexto não foi totalmente explicado na vida real, deixando margem pra criar), tecnicamente é bem competente. O trailer apresenta uma montagem eficaz, que vai aumentando gradativamente a tensão até o final catártico. Ainda que invista em certos sustos bem manjados, como o "susto falso" que o astronauta dá na câmera ou quando um dos americanos é puxado pra dentro de uma cratera, o trailer pelo menos dá um bom panorama do filme e o que se esperar dele, ainda encontrando espaço pra sub-tramas bem instigantes (como a do capacete soviético). Apollo 18 deve ser uma boa promessa do gênero pro final do ano.

sábado, 13 de agosto de 2011

Super 8
(Super 8, 2011)
Aventura/Sci Fi - 112 min.

Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams

Com: Joel Courtney, Elle Fanning, Riley Griffiths e Kyle Chandler

Nostalgia é um sentimento comum. Talvez seja inerente ao ser humano ter essa sensação de que o passado, nossa memória, nossa infância sejam mais interessantes, vibrantes, excitantes e divertidos do que o nosso presente. Almejamos sempre que possível recriar as mesmas sensações que fizeram parte desses momentos tão especiais. E para isso todo tipo de artifício é utilizado, dentre eles, o cinema. Pipocam por todos os lados, os revivals, atualizações, remakes e reinvenções de sucessos dos anos 60, 70 e 80. Em sua grande (imensa) maioria não passam de caça níqueis com único propósito de ganhar dinheiro à custa dos nostálgicos de plantão.

Esse era o perigo que corria a produção de Super 8. Amparada por Steven Spielberg, em um filme da Amblin (famosa por clássicos dos anos 80 como: Gremlins, Goonies, Enigma da Pirâmide, A Cor Púrpura, Um Dia a Casa Cai, De Volta para o Futuro entre muitos outros) e dirigido por J.J. Abrams (criador de Alias, LOST e diretor da mais recente versão de Star Trek), o projeto foi cercado de um frisson pré-lançamento enorme, catapultado pela falta de informações a respeito do filme e de uma divulgação que apontava para esse viés nostálgico, apelando diretamente para os fãs de Goonies, ET, Conta Comigo e afins.


E então? - pergunta o leitor. O filme é nostálgico?

Sim, e não. Existe uma clara tentativa de soar nostálgico em seu tema, na forma como seus personagens são apresentados e nas muitas pequenas homenagens aos clássicos da época, aqui e ali. Mas não é nostálgico, pois tem a assinatura do diretor, e apesar de ter uma idéia nostálgica (e ser um filme pipoca também) é construído e amarrado como uma homenagem ao período e não como uma mera cópia, algo que o mesmo Abrams já tinha realizado em sua versão de Star Trek. Existe o respeito, existem as homenagens, mas existe personalidade na forma de contar a história.

A história de Super 8 é ao mesmo tempo simples e ambiciosa. Fala sobre a cidade de Lilian, uma pequena e simples comunidade durante o final dos anos setenta. Lá vivem alguns garotos que simbolizam a inocência de uma época e de uma geração que hoje forma boa parte da critica e dos "fazedores" de cinema mundo afora. Diferente dos garotos de Goonies, que tinham por volta de 12 ou 13 anos de idade, em Super 8, a molecada já tem os seus 15 anos e muitos hormônios em explosão. Esse excesso de energia é catalisado pelo grupo de personagens principais para o cinema. Muita gente que hoje vive de, e para, o cinema começou da mesmíssima forma que os garotos Charlie (Riley Griffiths), Cary (Ryan Lee), Martin (Gabriel Basso), Preston (Zach Mills) e Joe (Joel Courtney).


A história mistura a produção de um filme de zumbis em Super 8 (aquelas câmeras populares que durante boa parte do século XX fizeram a alegria de muitos futuros cineastas) com um estranho acidente de trem que os garotos presenciam durante a filmagem de uma cena. A trama ganha escopo quando o acidente violentíssimo (e brilhantemente registrado pela câmera de J.J. Abrams) passa a ser investigado pelos militares e um clima de mistério e questionamentos toma conta da cidade. Não ajuda em nada, o fato de uma série de eventos estranhos começarem a acontecer do dia para a noite, como a fuga em massa de animais, faltas de energia constantes e a aparição de cubos estranhíssimos que parecem não ter função alguma.

Um filme como esse, entrega sua sorte aos seus interpretes, já que os efeitos e as explosões estão lá a serviço da história, algo cada vez mais raro nos chamados "pipocões". E é uma ótima notícia saber que todos os atores mirins apresentam momentos de puro brilhantismo. Seja o alívio cômico Martin e sua aversão a dor e seu péssimo - e nojento - habito de passar mal durante as dificuldades e que serve como ator para a produção do filme, passando pelo piromaníaco em potencial e zumbi nas horas vagas Cary, ao medroso, apagado (o mais fraco da turma) e figurante de corpo e alma Preston, passando pela dupla principal, os amigos Charlie, um gorducho pretenso diretor mandão mas hilário e o nosso herói, uma espécie de mini Spielberg ou mini J.J. Abrams, Joel que cuida da produção dos efeitos visuais do filme, enquanto tenta curar um trauma e conviver com o pai, um policial severo e que parece deslocado em sua vida.


Se junta a trupe dos garotos, a talentosa e graciosa Alice, interpretada com grande sensibilidade pela grande atriz (já podemos dizer isso, sim) Elle Fanning que é apresentada desde o primeiro take (um bonito travelling que sai do capo de um carro para dentro da janela do motorista para ilustrar a beleza e a paixão platônica que Joel sente por ela) como uma pequena Valquíria, uma angelical representação da beleza e da paixão. Ajuda muito o fato da garota, além de ter presença marcante em tela ser extremamente talentosa. Alice é uma garota que vive com um pai aparentemente bruto, mas que faz parte daquela categoria clichê do cinema: "os brutos de coração de ouro". Alice e o pai foram abandonados pela mãe e isso reflete (apesar de no momento da cena não soubermos dessa informação) em sua primeira aparição como atriz no tal filme em super 8 dos garotos, onde ela é a atriz principal (e única). Sua cena envolve - tentando não soltar spoiler - declarar seu amor e pedir a um determinado personagem que não vá embora. A garota emociona aos garotos em tela e aqueles que estão do outro lado. Isso se repete em outra cena mais a frente quando ela faz um singela e verdadeiramente emocionante confissão a outro personagem. Elle - se nada der errado em sua carreira e escolher projetos com cuidado, o que ela parece ter - tem tudo para ser uma das grandes atrizes de sua geração.

Outra grande surpresa é o garoto Joel Courtney, que vive o garoto Joe, que é o personagem principal da trama. Tentando se reerguer depois de um trauma (que é mostrado na primeira cena do filme de maneira delicada e que culmina na apresentação de todos os personagens de forma dinâmica e funcional, estabelecendo já o "quem é quem" do filme), o garoto é o bastião da inocência - não no sentido politicamente correto da palavra - mas no sentido de caráter. Puro e inocente a ponto de se doar pelos amigos mesmo não querendo estar presencialmente ali, mesmo que isso lhe custe algo que ame e mesmo que isso o faça enfrentar perigos maiores do que sua pouca idade possa indicar. Ao mesmo tempo, o garoto precisa lidar com um pai ausente, que por sua vez precisa se desdobrar como pai e policial.


Os adultos no filme são encarados da mesma forma como Spielberg os via em ET. São criaturas estranhas e que pouco ou nada tem a acrescentar ao mundo dos adolescentes (ou pré, defina como quiser). Embora não os mostre da perspectiva forçada dos garotos (debaixo para cima, criando a sensação de que os adultos estão fora de quadro e portanto fora daquela realidade), tematicamente o "diálogo" é o mesmo.

Apenas dois personagens fogem a essa idéia. Jackson (Kyle Chandler), o pai de Joe, que representa a lei e a ordem em meio ao caos perpetrado em sua cidade e Louis (Ron Eldard), o pai de Alice, que surge como o bruto com coração mole como disse acima, mas que vai se tornando importante para a trama. Jackson é uma versão atualizada do personagem de Roy Scheider em Tubarão, que questiona a versão oficial e pacificadora das ditas autoridades legais, embora ele mesmo seja uma autoridade.


Outra característica que referencia as produções do período em que o filme se passa (e até alguns mais recentes) é o uso primoroso do som para criar tensão e desenvolver uma sequencia de ação. Homenageando Contatos Imediatos, ou ET, J.J. Abrams e equipe realizam proezas ao utilizar de maneira mais que eficiente esse elemento que muitos cineastas encaram apenas como veiculo para explosões sem sentido. As explosões de Super 8 - e elas são várias - além de fazerem sentido para a narrativa, são brilhantemente realizadas e o som amplifica ainda mais cada uma delas. A primeira grande sequencia que envolve um acidente de trem, fará - seguramente - a sala de cinema em que o leitor estiver vendo esse filme chacoalhar, tamanho acerto técnico em impactar o espectador. Em outro trecho (o que homenageia Contatos Imediatos) o som nos informa antecipadamente que um determinado personagem será atacado em um posto de gasolina de maneira sutil e bastante eficiente.

Assim como em Star Trek, a fotografia de Super 8 abusa dos flares (exposição dos reflexos na película), o que é quase uma assinatura em filme do diretor. As luzes e as contraluzes têm papel fundamental em seus filmes, e aqui além de abusar desse recurso característico de sua filmografia, ele ainda sabe contar sua história com segurança sem abusar de "invencionismos". Larry Fong, depois do "estágio" com Zack Snyder (com quem fez 300, Watchmen e Sucker Punch), aqui surge mais contido (ainda bem), ilustrando com enorme qualidade as idéias de Abrams. Nas seqüências de ação é bastante seguro e não cai na vala comum (e um tanto chata) da câmera na mão, apostando em dar escopo, criando planos grandiosos para ilustrar a idéia de batalha campal. Também acerta na granulação que fica num misto entre a homenagem e a noção de que está fazendo um filme em 2011, e na forma criativa de ilustrar o tal mistério que envolve o acidente de trem.


J.J. ,nas seqüências de ação, consegue mostrar ao espectador tudo o que ocorre em tela sem confundir o espectador. Também mantém os seus característicos travellings circulares e sua tendência a misturar uma sequencia musical emocional com uma cena de explosão (nos moldes do nascimento do capitão Kirk em Star Trek). J.J. mostra aqui que é sim um diretor de cinema (e que Star Trek não fora um acidente), sabendo escolher seus planos com cautela e que tem olho para escolher atores jovens (uma nova qualidade a ser explorada). Outra qualidade cada vez mais clara é sua habilidade para montar suas seqüências de forma mais que compreensível, tornando-as dinâmicas, sem apelar para o piscou-perdeu ou a clipagem, ainda, tão na moda em seqüências de ação. As montadoras Maryann Brandon (da série Alias, Missão Impossível 3, Como Treinar seu Dragão, Kung Fu Panda 2 e Star Trek) e Mary Jo Markey (das séries LOST e Alias, Missão Impossível 3 e Star Trek) conduzem o trem desgovernado com freios de aço. O grande destaque vai para as sucessivas - e funcionais - seqüências de suspense que o filme apresenta. Minha favorita é a do ônibus em fuga, que mistura humor, suspense, ação e horror sem errar na mistura. 

A trilha é outro destaque e assim como o som é extremamente valorizada. Contando novamente com o parceiro Michael Giacchino, a trilha de Super 8, se não contém um tema épico como em outros trabalhos do compositor, é sólida e tocante quando precisa ser. A sequencia final funciona de maneira mais do que emocional, emulando o melhor da parceria Spielberg/Williams. Outro acerto está na escolha das canções da época do filme que são utilizadas com muito cuidado e assertividade.


E a tal ameaça que move toda a trama? Novamente, pisando em ovos para não estragar a graça de ninguém, basta dizer que funciona como elemento criador de tanta tensão. Seguindo a escola "Scottiana" vai sendo apresentado em doses homeopáticas e mesmo quando surge totalmente em tela, ainda assim mantém a aura de mistério. Outra idéia da cartilha Amblin é a de dar alguma profundidade a ameaça, que não surge como vilão do filme, mas como alguém que age de determinada forma em virtude das conseqüências da vida.

Os vilões são os militares que simbolizam a mentira, a automação, o cumprir ordens sem medir as conseqüências, a sede de poder, a falta de escrúpulos e mais uma série de adjetivos. Por esses motivos, não existem como "personagens", mas como estereótipos que nesse tipo de filme até funcionam, já que para a história andar é necessário a inclusão de um agente externo, um motivador, algo, ou alguém, que motive os personagens a seguirem em frente.


Além dessa característica, o espectador também pode questionar algumas soluções um tanto simplistas ou mesmo ruins para alguns momentos do filme. Um determinado personagem que sobrevive milagrosamente quando mesmo em filmes muito menos "cerebrais" teria sido partido ao meio em uma sequencia semelhante, ou a incompetências dos militares que não descobrem as crianças e seus mirabolantes planos, ou a facilidade para aquela molecada chegar até o "covil" da tal ameaça. São pequenos buracos, ou falhas no roteiro que podem incomodar os mais céticos, ou aqueles que talvez tenham problemas com o tipo de filme que Super 8 é.

De minha parte, encaro-os como charmosas imperfeições. Não prejudicam o festival divertido e cheio de energia, bom humor e o tocante encerramento que Super 8 tem. Não sei se fará o que seus companheiros de prateleira na produtora fizeram com duas gerações seguidas, transformando-os em fãs neófitos das produções da Amblin, mas é inegável que corre nas veias do filme o mesmo DNA que fez da produtora a favorita de muita gente.






sexta-feira, 12 de agosto de 2011


Árvore da Vida
(Tree of Life, 2011)
Drama - 139 min.


Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick


Com: Brad Pitt, Jessica Chastain, Hunter McCracken e Sean Penn

Árvore da Vida é uma carta de amor a humanidade, ao planeta Terra e uma constatação de nossa infinita incapacidade de compreensão de nossa existência. Por mais de duas horas, Terrence Malick nos leva a um passeio pela história do planeta, ao mesmo tempo em que discute nossa pretensa finitude e as sempre complicadas e tensas relações entre esses seres que cismam em complicar suas vidas.

É difícil descrever com propriedade o que é Arvore da Vida. Podemos dizer , no entanto, que Malick é brutalmente pretensioso quando fala sobre a humanidade. Que o diretor a partir do microcosmo de uma típica família americana expõe tudo o que sente pelo ser humano e suas reações a seus irmãos e ao planeta. Que no meio de seu filme, Malick coloca em quadro uma preciosa e inesquecível versão para a origem do universo e da criação da terra. E que em cada fotograma de seu novo filme Terrence Malick faz uma obra prima.







Descrever a mais completa perfeição de imagens, tons e idéias em película é um trabalho árduo. Dizer que Malick fez aqui sua obra prima talvez até seja um exagero, mas é impossível negar que a experiência cinematográfica proporcionada por Arvore da Vida é a mais intensa que este crítico participou em muito tempo.

Desde o inacreditável uso do som, que ecoa pela sala nos envolvendo em um casulo sonoro (sendo fundamental para a construção de algumas seqüências do filme), passando pelas excelentes atuações de todo o elenco, culminando no desbunde visual que Malick apresenta. Não existem palavras para exemplificar as sensações que o diretor consegue emular em seu mais recente filme. Tudo funciona além da perfeição, com uma fluidez que beira o inacreditável. 

Como foi possível ao diretor mostrar sua história de forma elíptica e ainda sim emocionar a platéia? Ao nos apresentar a história da família comum norte-americana dos anos 50, os O'Brien, consegue a proeza de se comunicar diretamente com nossas emoções, já que cada um de nós de uma forma ou de outra, já esteve no papel de um dos O'Brien. Brad Pitt encabeça o elenco, com sua mais impressionante interpretação em muitos anos. Como o rude, porém amoroso pai dessa família (identificado apenas como Sr. O'Brien o que reflete sua rigidez com o mundo e sua família). Crente na teoria de que o mundo é uma selva espinhosa e sem espaço para a derrota, faz da vida de sua família (e de seus filhos mais especificamente) uma interminável maratona de testes com o intuito de prepará-los para uma existência árdua. Pitt consegue, quase magicamente, fazer de um personagem abertamente complexo e facilmente detestável, um sujeito por quem nos importamos e que sinceramente torcemos, quando exemplifica seu carinho abraçando - mesmo de forma rude - seu filho mais problemático, transmitindo um amor tão intenso quanto suas inesgotáveis cobranças.






Jack por sua vez, tem dois intérpretes igualmente fabulosos. Na maior parte da projeção - que se passa nos anos 50, como já citei - o papel do garoto é vivido com grande naturalidade por Hunter McCracken (anotem esse nome). Representando, na minha interpretação, o homem que ao começar sua caminhada pelas planícies da vida vai gradativamente perdendo sua inocência, fé e esperança, Jack é a alma do filme. A opção, brutalmente corajosa, de escalar um garoto sem qualquer experiência cinematográfica anterior, só amplia a noção da força interpretativa que esse garoto apresenta. Sendo responsável por um escopo inesgotável de variações dentro da alma de seu personagem, Jack responde por toda a jornada de crescimento, amadurecimento e maturidade que é visto em cada um de nós. Quando surge mais velho, Jack tem os olhos, o andar e a mente marcada por seu passado. Sean Penn, mesmo inferiorizado pela vulcânica interpretação do garoto Hunter, faz do Jack "velho" a versão completa e cheia de neuroses e vazios existenciais que só começavam a serem percebidos em sua infância.

Malick é sutil ao ir e voltar no tempo, apresentando de forma pretensamente desordenada os fatos e os efeitos de pequenos eventos, e grandes traumas que marcam a vida de Jack. Jack talvez seja o reflexo de Malick, ou sua visão do homem comum, falível, cheio de inseguranças, mas profundamente bom em sua essência e em busca de respostas que ele sabe que não encontrará. A jornada de Jack - lindamente retratada no filme - é a quintessência de nossas duvidas. Uma longa peregrinação pelos territórios inóspitos de nossa mente em busca de soluções para nossos traumas e medos mais secretos.






Se O'Brien e Jack representam o homem,  a brutalidade da terra em formação ou mesmo a natureza (como disse Jessica Chastain, interprete da Sra. O'Brien, em entrevistas) os outros dois garotos e filhos do casal representam, cada um a sua maneira, a inocência perdida, a tal graça que Malick faz questão de citar quando aponta a forma com que Jack foi ensinado. Se minha memória não estiver em péssimo estado, em determinado momento do filme, Penn surge em dos inúmeros voice overs do filme para dizer algo próximo a isso: "fui criado entre a natureza e a graça". A graça é representada por seus irmãos, em especial RL (Laramie Eppler) que tem seu nascimento e primeiro meses retratados com uma beleza impar na história recente do cinema. RL é doce, luminoso e parece sempre estar nutrido por uma espécie de luz extraterrena que faz do personagem uma personificação da graça em estado diluído. 

A graça em estado bruto é a já citada Sra. O'Brien (Jessica Chastain) que além de ser mais do que belíssima, é a alma caridosa e bondosa que faz o contraponto as explosões do personagem de Pitt. Chegando a ser sublime em diversos momentos do filme, é nela que o filme e os garotos se apóiam quando estão ainda decidindo a qual "rei" devotarão suas vidas: a natureza (Pitt) ou a graça (Chastain). RL nitidamente é um seguidor da graça, enquanto o pequeno - e de participação limitada no filme também - Steve ainda está decidindo-se sobre qual caminho seguir. Jack é um adorador da natureza, abraça sua virulência e sua imprevisibilidade com as duas mãos nuas, sem medo de se queimar com as intempéries. 





Por isso sua relação com a mãe é tão intensa e visceral, pois enxerga nela algo que jamais poderá ser, assim como sua relação com o irmão, que representa sua nêmese, seu oposto, seu yang. Chastain é a graça que se une a natureza para gerar a humanidade.

As comparações a 2001 começam ai, Kubrick assim como Malick é um humanista. Embora seus filmes sejam todos de uma rigidez que beira (às vezes ultrapassa) o sadismo, Kubrick tinha fé no estado bruto do homem e o representava com vigor e força. Em 2001, sua intensa necessidade de respostas encontrou seu ápice, ao mostrar a historia da humanidade sem ter a menor intenção de premiar-nos com alguma mágica resposta tirada de um livro esotérico ou de auto - ajuda. Kubrick fez de 2001 seu testamento para as estrelas. Malick, faz de Arvore da Vida a sua versão desse mesmo testamento. Ambos parecem apresentar suas visões pessoais sobre a mesma pergunta, e ambos não se sentem dignos de serem os responsáveis por apresentarem respostas para seus magnânimos questionamentos.






Malick é humilde ao admitir que não sabe as respostas para suas perguntas e ao fazer isso tem a exata noção de sua infinita pequenez diante da incomensurável pujança do universo. O magnífico interlúdio em que somos apresentados ao universo é a mais perfeita representação da sabedoria de uma deidade que já surgiu em tela. Os seguidos momentos de união entre átomos e elétrons, com o surgimento de nebulosas, o fogo que brota da cáustica terra virgem, os mares que rompem as pedras, a chuva que torrencialmente limpa e hidrata planícies destruídas, tudo representando o ato da criação. Malick faz uma das mais profundas declarações sobre fé que vi em muitos e muitos anos numa tela de cinema. Isso tudo sem apelar para os misticismos, os símbolos óbvios (embora o filme comece com a citação do livro de Jó, que é uma inspiração clara para as muitas voice overs do filme e para o evento caótico que transforma a vida dessa família, e a aparição de símbolos cristãos que surgem para ilustrar uma crítica a religião organizada) e o discurso religioso. Malick não fala de religião, fala de algo muito mais intenso, verdadeiro e real: fé. 

Somente a mente de um gênio poderia unir dinossauros e um discurso abertamente sobre fé e deidades em uma mesma narrativa, sem soar exagerado. Pelo contrário, a união das duas forças parece - no filme de Malick - jamais ter precisado brigar, parecem velhos amantes que se encontraram e estão papeando em um café, tentando entender como puderam viver tanto tempo longe um do outro. Fé e ciência para Malick parecem uma coisa só. Misturar as mais precisas e cientificamente corretas pesquisas sobre a criação do universo e ainda assim defender abertamente uma força superior, é uma tarefa hercúlea e praticamente impossível. Eu disse, praticamente, já que Malick prova ser possível, prazeroso e visceral.






Há anos, o diretor é um notório mestre das imagens, fazendo de cada um de seus filmes uma experiência visual inesquecível. Correndo o risco de mudar de opinião amanhã, digo a vocês que Arvore da Vida apresenta as imagens mais impressionante da carreira do diretor. Sua opção por manter sua câmera sempre próxima aos atores, ao mesmo tempo em que faz da mesma, uma gentil dançarina que vaga pelos corredores de casas, bosques e ruas sempre pronta a mostrar de forma singela e visceral (por mais contraditória que pareça) o melhor de cada um em cada cena.

A fotografia é assombrosa. Emmanuel Lubezki é orgânico em sua abordagem. Como a natureza, a fotografia é fluida, intempestiva e inesperada. Segue o fluxo de rio, o barulho de passos na grama, o som de uma profunda respiração. Entende que a natureza deve apontar a forma como deve ser vista, e a obedece de forma humilde e sincera.






A montagem é um caso a parte. Notório por seus filmes serem seguidos de hiatos cada vez mais longos, Arvore da Vida foi montado por cinco pessoas diferentes. Miraculosamente não se nota variação alguma de estilo em trecho algum do filme. É claro que o interlúdio tem toda uma dinâmica diferente, assim como o trecho em que o personagem de Sean Penn aparece, mas mesmo assim o trabalho de Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Billy Weber, Mark Yoshikawa e do brasileiro Daniel Rezende mantém a mesma linha de pensamento e a tal fluidez tão presente no filme.

E quais adjetivos seriam dignos de descrever mais uma obra de arte produzida por Alexandre Desplat? Além de conseguir igualar a perfeição visual de Malick, consegue amplificar as emoções que o druida dos efeitos visuais Douglas Trumbull em parceria com Dan Glass criou. A já inesquecível sequencia "espacial" é amplificada pela delicadeza e sensibilidade que Desplat coloca em cada acorde, em cada nova nota que rompe a tela, em cada novo tema que retrata a naturalidade cósmica inerente aos eventos retratados. É glorioso, magnífico e desde já um dos maiores trabalhos de uma trilha sonora da história recente do cinema. Como já citei, impossível esquecer de falar sobre os efeitos visuais que são em sua maioria realizada da mesma forma que Trumbull realizava quando Kubrick o chamou para realizar 2001. Manualmente e com ajuda dos mais diferentes elementos, o mosaico de efeitos que ilustram a criação do universo foi surgindo. Muito pouco de computação gráfica - por incrível que pareça - foi utilizado no filme.






Árvore da Vida é um filme complexo - isso só pra usar uma palavra popular. Desafia-te a pensar não só no filme, mas principalmente em que ele discute. Te choca com a beleza estonteante de cada plano e com sua pretensão desmedida em se fazer ouvir em uma momento do cinema em que poucos - muito poucos - tem alguma coisa dizer.

Malick não faz concessões. Se o espectador/leitor conhecer a filmografia do diretor, terá aqui uma experiência inesquecível, digna de contar para os netos: "eu vi Árvore da Vida no cinema", da mesma forma como muitos dizem ter visto uma série de clássicos eternos na sala escura. São experiências que marcam nossas vidas.

Mas, pelo mesmo motivo, muitos leitores/espectadores talvez se sintam ofendidos e profundamente frustrados, com o fato de Malick ter a petulância de não facilitar em nada o nosso "trabalho". Ele pode te ofender com sua plena falta de vontade de lhe premiar com respostas. Pode lhe enfurecer com a perspectiva de mais de duas horas de questionamentos metafísicos e espirituais e pode lhe fazer questionar a sanidade até mesmo desse crítico tão empolgado e devotado a escrever os porquês de seu profundo amor (a palavra não soa exagerada nesse caso) pelo filme.






Não se preocupe, sua reação é perfeitamente normal e compreensível. Apenas sugiro, que mesmo que tenha detestado com todas as suas forças o filme de Malick, lhe de outra chance, daqui a algum tempo. Arvore da Vida é daquele tipo de filme que cresce cada vez mais que é revisto e que jamais será possível ser inteiramente decifrado ou compreendido. É o desfio de Malick a humanidade: decifra-me ou devoro-te, tal qual uma esfinge encravada em nosso inconsciente.

Eu, de minha parte, jamais tentarei decifrá-lo, prefiro ser devorado em minha profunda ignorância, consumido por suas imagens, sons e idéias. Fazer parte do cosmo, digerido pelas estrelas e sublimado aos céus, onde quem sabe consiga responder se Malick tinha razão.