segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Upside Down



Uma sci-fi francesa que introduz o conceito de uma rivalidade quase-ideológica entre dois mundos. Um romance sobre o drama de dois amores separados pelo nível gravitacional de suas realidades. O ousado projeto do diretor Juan Diego Solanas chega com imponência e causa expectativa, realçada pelo bom trailer embalado pelo Audiomachine. A fotografia dessaturada ao máximo registra a bela Kirsten Dunst e Jim Strugess de forma leve, contrastando as ambiciosas imagens fantasiosas com o dramático romance dos protagonistas. Mas se a ambientação do mundo impressiona (espera-se um ótimo conflito social panorâmico, que elevaria a experiência), a trama preocupa. Mesmo contendo momento emocionantes (a queda de Sturgess no final do trailer é excelente), a historia romântica já se desgastou com o tempo, após ser levada á total saturação. Desde sempre o Cinema quer contar o dilema do homem que se apaixona pela mulher proibida (mesmo na ficção-científica) e, justamente por isso, Upside Down pode se enfraquecer. Resta saber se Solanas terá pulso firme em sua condução.




domingo, 12 de fevereiro de 2012


Um Homem de Sorte



Quando você pensa que os produtores da esfera hollywoodiana já combinaram tudo de bizarro, chega Um Homem de Sorte. O mediano Scott Hicks, do drama inglês Os Garotos estão de Volta e do remake Sem Reservas, conduz a nova adaptação do escritor medíocre preferido das adolescentes apaixonadas: Nicholas Sparks. E depois de nos bombardear com Querido John e A Última Música, os responsáveis pelas adaptações do americano chegam com Zac Efron para protagonizar a historia. Provando mais uma vez sua versatilidade, Sparks concebe a trama de um homem na Guerra (como em Querido John) que acha um item importante sobre uma mulher (como em Diário de uma Paixão) e, voltando do conflito resolve ir ao encontro dela, numa cidade do interior (como em A Última Música). Porém, ele logo descobre que a muher é casada (como em Noites de Tormenta) e terá que lutar pela mulher de seu destino. Com seu trailer meloso, sua fotografia clara e apelativa, as atuações exageradas e as frases de amor kitsch, Um Homem de Sorte parece mesmo mais um exemplar perfeito da grife Sparks. Mas agora, com o adicional do bonitão preferido das antigas pré-adolescentes de High School Musical. Será que Efron continuará insistindo em seus papeis "sérios" (como no fraco A Morte e Vida de Charlie)?




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012


Branca de Neve e o Caçador




O segundo trailer da adaptação da Universal para a história dos Irmãos Grimm segue o ritmo de teaser do primeiro, mas apresenta melhor sua proposta e seus arcos, em meio á montagem frenética com a estilosa música eletro-metal ao fundo. Utilizando a estética como seu principal fator a favor (como ressalta o card de créditos '"dos produtores de Alice in Wonderland"), a prévia da releitura causa estrondo com a ação quase medieval e os combates violentos, que contrastam com o certo poder de algumas das imagens, como a de Charlize Theron banhada de branco. Contando ainda com um foco total na Rainha Má de Theron, o trailer parece ter consciência da inexpressividade da protagonista Kristen Stewart e apenas a aborda para compor as tais imagens  bonitas (a pele alva da moça deitada na neve causa certo impacto). Porém, isso não torna a proposta melhor e, pelo visto, a Branca de Singh se sairá melor nas telonas em 2012. Uma aposta arriscada da Universal, que depende bastante do sucesso desse filme para uma potencial franquia.



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Artista

O Artista
(The Artist, 2011)
Romance/Comédia/Drama - 100 min.

Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius

Com: Jean Dujardins, Bérénice Bejo, John Goodman e James Cromwell

Quando o ator entra no palco, ele é agraciado. Sua dança é contagiante, seus trejeitos são inspirados. A atuação é muito mais corporal e carismática do que comovente. O nome do ator tem mais destaque que o do filme. Desde o sapateado preciso ao sorriso despreocupado, George Valentin é a síntese perfeita dos atores de toda uma geração. Aquela época onde o espetáculo era mais artístico que financeiro, menos cínico e mais deslumbrado. Quando a Meca do Cinema era uma terra de sonhos. Onde vivia o diretor bem vestido e bonachão, a diva loira do Cinema, o público galante e feliz. Todos os retratos de sua época, sendo caracterizados com o respeito de um profissional apaixonado por toda uma mitologia.

O francês Michel Hazanavicious, em seu quarto filme nos Cinemas, traz um pouco da metalinguagem atual para retratar a angústia de seu protagonista. Encaixando metáforas para enriquecer sua produção, Hazanavicious eleva sua homenagem a outro patamar. Sendo assim, O Artista se consagra de uma forma interessante. Não depende somente de suas referências; mas tampouco sobreviveria sem elas.

Os histrionismos típicos da época, promovidos com felicidade (e orgulho) por Valentin simbolizam bem a discussão ideológica presente no filme. Discussão essa imortalizada pela obra-prima de Billy Wilder, Crepúsculo dos Deuses. "Nós não precisávamos de diálogos. Nós tínhamos expressões", dizia Norma Desmond. Exatamente como a atriz vivida por Gloria Swanson, Valentin tem a plena convicção que não merece ser esquecido. O carisma de sua persona, que não parece saber (ou melhor: querer) diferenciar seus personagens de si mesmo, conta muito para compor a jornada do protagonista. Olhando com admiração para um quadro de si mesmo, Valentin poderia ter demonstrado um arroubo narcisista em primeira instância. Porém, ao longo da projeção, a análise fica mais profunda. O astro não admira a si mesmo; admira o que representa.




E o quê o francês representa?

A felicidade nos olhos de Valentin, nos momentos em que se vê diante do público, é emocionante. Ver a sua arte tomando forma parece ser a maior das glórias para o ator. Mas quando Al Zimmer (John Goodman), o diretor, o chama para assistir uma cena na esfumaçada cabine de projeção, tudo muda. A ótima fotografia de Guillaume Schiffman troca de tonalidade, se tornando mais pesada. Aquela atriz naquele microfone não aparenta, mas mudará uma indústria para sempre. A partir dali, o fim do Cinema Mudo parecia ter sido apresentado de forma abrupta. Mas ao privilegiar o Artista, Hazanavicious começa a contar a ruína do obsoleto, através das já citadas metáforas.

A passagem do protagonista assistindo seu Tears of Love, nas sombras junto com seu cachorro Uggie, é formidável por representar uma virada na trama sem fazer muito alarde. Superficialmente, é apenas a cena onde nosso herói percebe que seu filme será um flop. Porém, é nas sutilezas que as nuances dramáticas d'O Artista são descobertas. Brilhantemente composto por Jean Dujardin, Valentin vai gradualmente descobrindo sua ruína. Não por acaso, a areia (o chão do protagonista do filme fictício) começa a cair. É Valentin assistindo a si mesmo, sucumbindo.




E a queda só poderia ser representada daquela maneira. A estrutura do filme chama a atenção a partir dali por conciliar, com a mesma competência que encaixou as referências, o fim de George Valentin com o fim do Cinema mudo. O ator anda com um modesto terno na rua e, ao fundo, o Cinema sutilmente anuncia o filme de hoje: "Lonely Star". Quando Dujardin olha, triste, para a bancada após a reunião com Zimmer, ele observa diversos aspirantes a ator. Todos fotogênicos, mas sem a mesma presença do artista. Não é por acaso que Hazanavicious encaixa diversos atores para substituir Valentin; é como se ele fosse único, só podendo ser substituído por vários. Um só não seria suficiente.

Mas antes fosse apenas competência o quê Valentin tinha. Reconhecendo a paixão que o ator tem por sua profissão, se torna duro assistir ao fim de uma Era. No mundo atual, as informações passam tão rápido que tudo se torna antigo com o tempo. O Artista, nesse singelo jogo de metáfora, acaba tendo o que dizer sobre isso. Valentin abre a porta e sai. O passado deixa a sala, literalmente, para abrir espaço para o futuro. E é justamente pela atuação de Dujardin (e pela honestidade do amor do roteirista pelo tema) que o competente pensamento, ainda que simples e inocente, se torna extremamente relevante.

E se há alguma dúvida sobre o quê é a vida de George Valentin, não resta mais perto do fim. Mesmo que indiretamente, até a situação de mais perigo foram os filmes que provocaram.




Logo dizer que O Artista é um exercício meramente estilístico seria um pouco estreito. Para ficarmos no Cinema recente, seria como dizer que Super 8 é apenas uma brincadeira sem fundamento com os filmes de Steven Spielberg. É por conciliar tão bem a homenagem com a narrativa que o filme se mostra excelente.

Obviamente, porém, Hazanavicious demonstra seu apreço pelas referências, encaixando inúmeras ao longo da metragem. Desde emular os takes da época (como a direção na escadaria) até prestar tributo aos clássicos (Dujardin vendo suas mobílias antigas é Cidadão Kane puro, a trilha utiliza Bernard Herrmann, o filme de espadachim parece Zorro), passando pelos números musicais da saudosista trilha de Ludovic Bource, o diretor esbanja segurança para conduzir o seu roteiro e elenco. Criando passagens excepcionais tanto na metalinguagem (a já memorável cena do sonho audível de Valentin, o título BANG na tela próximo ao final) quanto em sua técnica (o brilhante quadro da mesa com whiskey entornado e as estátuas da casa de Valentin, ora juntas ora separadas), Hazanavicious ainda se diverte com a época de sua produção ao tornar obstáculos reais como problemas para o protagonista, como a Crise de 29.

E o respeito aquela Era é contagiante. Mesmo sem dinheiro para sustentar suas casas, a fila para o Cinema continua grande. Hazanavicious mostra Peppy pela primeira vez atrás de um cenário de filme, repete diversas vezes o eterno take da dança dos protagonistas. Desde a forma solene com quê o diretor francês filma o letreiro "Hollywoodland", não há dúvida sobre o quê o move.




Porém, se Dujardin cai com os mudos, Peppy Miller está no outro espectro. A odisséia da atriz vivida com energia por Berénice Bejo se alterna com a jornada de Valentin. O cuidado da produção em recriar a época acaba mais evidente aqui, com uma direção de arte que acerta nos mínimos detalhes (repare como em sua primeira aparição em filmes, Peppy está escrito como "Pepi", o que sugere com elegância o papel irrelevante da atriz). Interessante descobrir que, mesmo que eleja como protagonista o Artista, o filme homenageia mais o Cinema no segmento de Peppy, o que vai de total encontro a quem esperava uma mera película nostálgica.

E mesmo falando sobre Peppy, Hazanavicious dá um jeito de aproximar mais a saga de seu Artista com a do Cinema mudo. Até na carta de despedida da enraivecida esposa, Valentin acaba sendo confrontado pelo mundo novo.

Por esses pequenos toques que se nota que O Artista não é um filme exclusivamente nostálgico e fetichista. Tampouco, uma homenagem inócua similar a Cantando na Chuva. De Cidadão Kane a Rede Social, raramente se errou ao contar a mais bonita das historias: a ascensão e queda de um homem. A saída da zona de conforto para um homem é uma história antiga e utilizada em diversas produções, mas quando somada á recaída de um cidadão, não poderia ser mais bela.

Apaixonado e cheio de referências, sim. Mas um digno retrato da Arte. Ou do Artista.

Ou até do Homem.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pronto para Recomeçar

Pronto para Recomeçar

(Everything Must Go, 2010)
Comédia/Drama - 97 min.

Direção: Dan Rush
Roteiro: Dan Rush

Com: Will Ferrell, Rebecca Hall, Christopher Jordan Wallace e Michael Peña

Uns meses atrás, estreou no Brasil o fracasso de crítica e público, Larry Crowne, que tinha no elenco duas super -estrelas do cinema mundial: Julia Roberts e Tom Hanks (que também assinou a direção). No patético filme, Larry era um sujeito boa praça que perde o emprego e precisa "reencontrar o sentido da vida" ao mesmo tempo em que seu mundo cor de rosa começa a fazer sentido.

Pronto para Recomeçar é basicamente a versão real e sem retoques sobre a reconstrução de um homem (Nick Halsey), depois de ser abandonado pela esposa, perder o emprego e a casa em que vive e ainda ter que dominar e vencer o vício do álcool. Apesar de a sinopse parecer indicar um dramalhão melado e cheio de lições de vida, na prática o filme de Dan Rush é mais cínico e bem humorado do que a média da categoria. Muito disso é mérito da escalação de Will Ferrell, um ator de grande talento que consegue transitar com méritos pela comédia (onde se consagrou nos Estados Unidos) e pelo drama (Mais Estranho que a Ficção) e que aqui consegue caminhar entre esses dois mundos com extrema habilidade.

É um grande trabalho de Ferrell, que é emocionante, crível e patético em iguais proporções. O filme não nos força a gostar daquele homem, que claramente tem sérios problemas de caráter. Não é a toa que sua mulher o deixou, e que largou suas coisas no jardim em frente à bela casa da família, fazendo de Nick um sem teto, acampado no próprio jardim, cercado de tralhas.


Outra qualidade é a de não esfregar na cara do espectador explicações óbvias sobre o personagem principal. Não existe uma preocupação em explicar cada detalhe da vida de Nick, deixando muitos dos porquês subentendidos ou a cargo dos próprios personagens, o que poderia ser um recurso pobre (já que a cartilha do cinema diz que: em vez de contar uma ação, mostre) aqui funciona perfeitamente, já que se o filme optasse por mostrar os problemas de Ferrell perderia muito tempo, mostrando cada pequeno evento que causa a hecatombe emocional do personagem.

Deixando essa responsabilidade para uma conversa informal entre os personagens, o diretor Dan Rush aproxima as relações do publico, deixando-a mais humanas, o que é o segredo do filme. Apesar do absurdo de acompanharmos um homem acampado em seu próprio jardim e mesmo com alguns exageros humorísticos desnecessários (como uma disputa por seu carro ou a abertura do filme mostrando Ferrell fugindo depois de furar o pneu de seu ex-chefe), Pronto para Recomeçar é profundamente emocional e espera que o espectador compre a ideia de seu "herói" mais que falível e que não vai tentar lhe dizer como viver sua vida.

Talvez seja esse o grande mérito do filme, o de não tentar - como é comum em produções vendidas como dramas humanos vindas dos Estados Unidos - explicar ao espectador como proceder com sua própria vida, já que Nick nada mais é do que mais um sujeito difícil, cheio de defeitos e nada simpático, mas com um bom coração e uma grande vontade de melhorar.


A interação entre Ferrrel e o garoto Christopher Jordan Wallace é outro achado. Parecendo saído (com restrições óbvias de temática) de Papai Noel as Avessas, o relacionamento entre o fracassado Nick e o maduro e ávido por conhecimento Kenny (Wallace) faz do filme uma comédia involuntária (onde ai sim, o humor funciona direito) sobre o patético estado do personagem principal. E quando o filme ganha a figura de Samantha (Rebecca Hall) uma jovem grávida vinda da cidade grande, o filme também subverte nossas expectativas, transformando-a em muito mais do que um rostinho bonito.

Ainda contando com uma participação interessante de Michael Peña, como um policial e amigo de Nick, que tenta ajudá-lo boa parte do filme, Pronto para Recomeçar é um trabalho seguro de Dan Rush e mais uma atuação quase irrepreensível de Ferrell, que mostra cada dia mais que é um ator versátil e que deveria ter mais espaço para brincar com seus dotes dramáticos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012


Rock of Ages



Com imensa energia e letreiros luminosos, Rock of Ages chega com sua primeira prévia. Sua fotografia frenética, com cores explosivas e abundantes, introduz bem a atmosfera dos anos 80. E se ver Alec Baldwin vestido de hippie é bem divertido, presenciar Tom Cruise como um astro de rock, remetendo aos Europes e Journeys da vida, é algo que promete ser tão icônico  quanto o Les Grossman do ator em Trovão Tropical. Os arrojados movimentos de câmera e as excelentes piadas sobre a época (as melhores são a do autógrafo nos seios e a sobre a androgenia tipicamente Bowieana) quase despistam o fato do diretor em comando ser o mesmo de Um Amor para Recordar e Hairspray. Porém, o elenco envolvido e o caráter operístico dos números musicais fazem valer a espera, nesse projeto que promete combinar muito bem o clima promovido por Cameron Crowe em 2000 com seu Quase Famosos e a energia de Moulin Rouge.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cult: Elefante



A grande diferença entre um grande clássico e um filme cult é simples: Cult é aquele filme que você gosta e não necessariamente é tão bom assim (alguns até são), mas que por algum motivo você adora, se diverte e indica aos amigos. O caso é que na ânsia de encaixar esses filmes em alguma sessão, o Fotograma resolveu criar essa nova sessão, onde aqueles filmes amados e cultuados serão aqui comentados. Sempre de maneira leve e divertida, como pede um filme cult.

Elefante
(Elephant, 2003)

John é um adolescente comum. Algo o aflige, mas não se sabe o que é. Ele está chegando no colégio, dirigindo o carro, pois seu pai não está bem o bastante para conduzir. Elias também é comum, gosta de fotografia e passear no parque. Sua afeição pela arte é grande a ponto de abordar um casal desavisado para uma breve sessão de fotos. Acadia, amiga de John, o consola pelo seu choro contido, mesmo sem saber por quê. Depois, vai para seu seminário sobre opção sexual. Nathan, garoto atlético e jogador de futebol, sai do campo para falar com sua namorada. Ainda que levemente assediado por três amigas populares, ele parece gostar de sua namorada. Percebe o elogio e deixa-o para trás, sem foco. Não teve importância. O que é importante fica em foco.

Já Michele é uma "freak". Ela não está satisfeita com algo, mas também, no fundo, é comum. Insatisfeita com seu modo de vida, um dilema crescente. Porém, ela percebe algo no campo de futebol. O céu está bonito e enigmático hoje. Ele passa normalmente, tranquilo. Está como qualquer outro dia, comum, mas carrega de alguma forma, uma atmosfera.

Parece que alguma coisa importante vai acontecer.



Elefante, o brilhante filme de Gus Van Sant, coloca sua alma nos adolescentes de Portland em um dia normal no High School americano. Angustiados, felizes ou indiferentes, todos ali compartilham da tal atmosfera. Muitos a presenciam, poucos a sentem. O palco é o Colégio, mas o que é um palco além de uma mera alegoria? Comuns ou não, os personagens são o que importa. Eles é que ficam no foco das lentes de Van Sant.

Num ambiente tão vasto quanto o colégio, é difícil manter o controle sobre tudo. O plano fantástico no campo de futebol se foca em um ponto só. De vez em quando, aparece um ou outro jogador, mas o jogo está acontecendo à direita da câmera. Não adianta, pode-se tentar o quanto quiserem, nem tudo fica no enquadramento. Algo pode estar acontecendo por aqui e não se pode nem prever ou imaginar. É aqui que Michele toma o plano, no seu centro. Temos alguém importante o suficiente. Tão importante que o foco vai para ela.

Essa lógica visual de Van Sant com o magistral fotógrafo Harris Savides é precisa. Seus personagens, sempre, estão no plano principal, no foco. Como David Fincher fez em A Rede Social, o fundo é distorcido. Porém, se na obra-prima de 2010 a distorção era para ilustrar que o mundo exterior não importava para o egocentrista Mark Zuckerberg, aqui em Elefante o fundo não é focado porque simplesmente ele não importa.



A narrativa não convencional, que mais observa seus personagens que os analisa, que mais retrata um dia normal do que conta uma história, acaba dando liberdades para Van Sant utilizar da criatividade para montar, dirigir e desenvolver a sua crônica. Armado de uma montagem inventiva, dele próprio, Van Sant vai e volta com frequência no tempo. Dando margem para diversos pontos de vista, o diretor divide a estrutura em capítulos não-numerados com o nome dos personagens-chave. Cada passo que John, Nathan, Elias, as amigas e Michelle dão, é motivo de registro. A foto que Elias tirou de John pode ter sido agora para eles, mas para Michelle, essa foto só é vista perto do final. John pode ter brincado com o cachorro agora, mas só depois que as amigas viram. O longa não tem pressa: conta os momentos de cada personagem dando total atenção, se desviando apenas para ir para outro.

Essa observação é rica e executada de maneira incrível, porém numa tragédia, o motivo é o mais triste. E em Elefante, saber o final da projeção torna a experiência muito mais angustiante. Como o Irreversível do genial Gaspar Noé, o filme utiliza dos sentimentos do público com a tragédia para tornar a experiência, em teoria catártica, em uma tristeza crescente. Como disse Hitchcock uma vez (adaptado) "um susto é momentâneo, mas a expectativa de saber dele dura eternamente." Ambos os filmes utilizam de uma montagem rebuscada para impor sua motivação. Distanciam-se, porém, na abordagem delas; se Noé inverte seu filme para emocionar, Van Sant usa de seu final conhecido para o mesmo. Para quem conhece, não há problema: o diretor encaixa a entrada dos atiradores no colégio pouco antes de introduzi-los na película.

E para criar expectativa, há o apego a imagem. Van Sant e Savides vão seguindo seus personagens com parcimônia, indo á todos os cantos do colégio, porque não querem perder um só detalhe. Não têm para um cineasta algo mais belo que uma imagem. Os planos-sequência são, em sua essência, a demonstração máxima de amor á imagem. O corte seria, interpretando, a morte de um instante. Em Elefante, a urgência é pertinente: a morte não seria só do instante.



A tal atmosfera do dia, estranha, começa a ganhar contornos aos 45 minutos. Já havíamos visto Alex e Eric, mas não os conhecíamos. O primeiro, apenas um estranho no ninho, vítima do bullying, provavelmente novo no colégio. Observador, inteligente, frio. O colégio o incomoda. O segundo é pouco abordado, distante, desligado, pouco inteligente. Ambos gostam de cultura. E de armas.

Porém, quando vamos para a casa de Alex, Van Sant começa uma jogada interessante. Além de desenvolver seu clímax, o diretor e roteirista especulam os motivos daquilo. Alex vê um documentário sobre nazismo passando na TV. Toca seu piano com competência, mas com raiva. Lê livros. Odeia o Bullying. Joga games violentos (Van Sant mostra um trecho do massacre em primeira pessoa, sendo sugestivo brilhantemente). E, principalmente, como dito anteriormente, gosta de armas. Sem ter uma resposta definitiva, Van Sant sugere todas. Mas não é por isso que não tem uma preferida. Após entrar no site de venda de armas, o tempo se fecha. Começa o fim, o tempo de mudança, a melancolia se instala. Começa a Agnus Dei da missa Elefante.

E quando conhecemos o porquê disso tudo, momentos se tornam eternos na mente. O desenvolvimento de personagens em Elefante é tão esplêndido porque ele não precisa de arcos para existir; só precisa de singelos instantes. É John tendo seu último instante inocente no filme, devidamente registrado na precisa câmera lenta do filme. É ver Michelle, sempre enquadrada de perto, num plano aberto na quadra, sabendo que ali é que ganha sua liberdade. É ver Elias revelando suas amadas fotos. Ver as três amigas almoçando, aparentemente de maneira trivial. Ou Nathan conversando com sua namorada. Ou Alex tapando seus ouvidos para evitar o barulho caótico e uníssono do espetáculo "farreliano" das aparências: o refeitório do colégio. E, até mesmo, o instante mais honesto da produção; nunca beijados, Alex e Eric se beijam. Não por serem homossexuais ou por desejo, mas por simples conveniência. A morte é certa, pra que pudores? Há apenas o momento.



No massacre, o caos se instala de verdade. Os planos teóricos se tornam práticos. A falta de ética se torna imoralidade. Por amar cada vítima ali, Van Sant tenta ser frio para não privilegiar ninguém. É nesse clímax que conhecemos a personificação da mensagem do diretor. Benny surge, assim, com uma hora de filme, ajudando Acadia. Ele anda em seu traje amarelo, curioso, para saber o que está acontecendo. Ele acabou de surgir. E se torna, perigosamente, o foco do enquadramento. Triste saber o quão efêmera essa tal de Vida é.

E se há frieza, é porque todos, sem exceção, são vítimas. Alex anda no corredor com seu fuzil de assalto. Ele mira no campo do enquadramento. Ele fica ao fundo, pois o foco é a arma. Se a High School é vítima de Alex, não seria Alex uma vítima da arma?

Assim, Elefante convida seu espectador para sua missa fúnebre. Convida-te para ser o voyeur de um réquiem para um sonho. Van Sant ama seus personagens incondicionalmente, não quer se distanciar deles, mas quando é necessária, a câmera tem que ir embora. Se distanciar, vagarosamente, porque não quer ir, mas precisa. O personagem, dentro de um conveniente freezer, se tornou frio demais para ser visto. O personagem em foco não é mais alguém para se amar ou observar. É alguém que não dá pra compreender, um monstro, um ser que não pode ser explicado porque não tem uma só explicação. É alguém que pode ser diferente a cada visão, que pode ser sentido por um grupo de homens*, mas que não pode ser entendido porque pode haver diversos motivos, mas pode não haver nenhum. Ele tem diversas formas, mas nenhuma é definitiva. Nada além de especulações. Alguém que observamos, mas não enxergamos; que tocamos, mas não entendemos.

Um Elefante. * Obs.: http://migre.me/5KYYN


domingo, 5 de fevereiro de 2012


In the Land of Blood and Honey




O primeiro trabalho de Angelina Jolie como roteirista e diretora ganha um trailer que diz bastante sobre o que esperar para o filme, que chega no fim de ano, fruto de sua alta ambição em concorrer ao Oscar. Um ritmo cadenciado, que em conjunto com a sóbria fotografia acaba remetendo ao Cinema do Leste Europeu, não por acaso onde a história se passa. A história de amor ambientada no seio da guerra demonstra ser emocionante e a agora diretora conduz com sensibilidade as cenas de romance (como no sorriso tímido da protagonista pintando, com a tensa trilha ao fundo). Ainda que a visão política de Jolie seja contundente, ainda escapam alguns arroubos de bom-mocismo, que se tornam explícitos na parte final da prévia. “O amor pode mudar o que quisermos”, pra cá, “A guerra transforma quem somos” pra lá... Esse jogo se torna claro no próprio título, que fala de Sangue e de Mel, de Guerra e de Amor. Jolie parece conhecer bem as relações humanas e em encontrar uma unidade no mundo cão da violência (o trailer lembra o ótimo Tiranossauro em diversos pontos), mas essa dualidade pode soar amarga em tela. Resta saber se a americana equilibrará tudo.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

À Beira do Abismo

À Beira do Abismo
(Man on the Ledge, 2012)
Thriller - 102 min.

Direção: Asger Leth
Roteiro: Pablo F. Fenvjes

Com: Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Anthony Mackie, Genesis Rodriguez, Edward Burns e Ed Harris

Certos filmes entram em cartaz e você fica pensando: por quê? Por que não apostar no home video, onde o filme pode encontrar um público (obviamente) menor, mas que tenha um pouco de carinho pelo filme? Por que empurrar goela abaixo dos cinemas, filmes tão bobocas e sem nenhuma novidade como esse À Beira do Abismo? São questões para as quais ainda não encontrei respostas convincentes.

À Beira do Abismo pode ser enquadrado no subgênero (inventado por mim) do "schizophrenic movie". É aquela típica produção que é vendida como frango, mas na verdade é salada. A história que aparentemente era interessante, com um sujeito qualquer que decide se matar pulando de um prédio, poderia render de tudo. Desde análises psicológicas, até um drama sobre aquele personagem e o porquê ele decide se matar entre outras variáveis, mas é de fato um simples subterfúgio para algo mais, transformando À Beira do Abismo, em mais um exemplar dos filmes de "ação" com uma história inverossímil e exagerada.

Nick Cassidy (Sam Worthington) é o tal sujeito que quando o filme começa ameaça se jogar da janela de um hotel de luxo em Nova Iorque. Logo, conhecemos o passado do personagem e ficamos sabendo que Nick era policial e estava preso por um crime que (claro) ele diz que não cometeu. Durante o enterro de seu pai (em que consegue a liberação para acompanhar, é claro, ao lado dos guardas da cadeia) briga com seu irmão (Jamie Bell) e com seu ex-parceiro (Anthony Mackie) e acaba fugindo.


O filme vai aos poucos revelando que Nick na verdade não é culpado e que tudo não passa de um plano armado por ele e seu irmão para encontrar e prender o verdadeiro culpado por seus supostos crimes. O problema inicial é que além da ideia parecer fraca de saída, a tal reviravolta e o tal plano (não se preocupem, não vou contar) é digna de uma comédia involuntária. Juntando a isso estão uma profusão de clichês datados e que remetem diretamente a outros filmes melhores e mais bem realizados, como Plano Perfeito e A Negociação.

Outro problema é a utilização equivocada de uma serie de coadjuvantes presentes no filme como a do núcleo policial, formada pela fraca Elizabeth Banks e o insosso Edward Burns (e como participação do eterno "Homem de Preto" Titus Welliver) que tenta inserir uma segunda história, sobre a dificuldade da personagem de Banks em se relacionar com os demais policiais.

As soluções do roteiro, que aposta em uma mistura infeliz de caça ao vilão com filme de roubo é outro problema sério. O filme de roubo, estrelado por Bell e pela bela Genesis Rodriguez, além de ser uma repetição do que outros tantos filmes já executaram anteriormente, é idiotizante e menospreza a inteligência do espectador ao inserir a personagem de Genesis apenas (mesmo) como colírio para os olhos, já que não faltam cenas em que o filme dá destaque ao generoso decote da atriz (um vestuário absolutamente usual quando se pensa em assaltar alguma coisa), ou mesmo a um strip-tease fora de contexto, que só serve para mostrar que a atriz é realmente linda.


Do outro lado, o vilão (Ed Harris, muito mal) é uma caricatura. Não tem nenhuma intensidade, passa o filme ofendendo tudo e a todos apenas como marca de sua vilania. Nada sutil em cena alguma, mesmo quando não existe motivo para isso (note a cena, logo no começo do filme, quando depois de receber um relógio como presente , o personagem simplesmente atira o objeto longe para demonstrar como é um camarada ruim).

O que o diretor Asger Leth (estreando na função no cinema de ficção) faz de interessante, é que apesar de todos os problemas do roteiro que o filme tem, mantém um ritmo constante de apreensão e de que alguma coisa realmente importante vai acontecer, mesmo quando começamos a perceber que a história não é grande coisa. Leth consegue fazer do filme um thriller de ritmo razoavelmente empolgante e que prende a atenção do espectador, embora esse saiba (espero) que está acompanhando uma aventura somente razoável de final mais do que previsível.

A Beira do Abismo tenta ser o "Incontrolável" de 2012 (para quem não lembra é aquele filme do trem lançado no começo do ano passado com Denzel Washington e Chris Pine, e assim como esse, tinha um roteiro mais ou menos e um ritmo incessante), mas tropeça em protagonista e coadjuvantes fracos (Sam Worthington é uma negação e Jamie Bell é muito mal aproveitado aqui) e na sensação de salada indigesta devido à mistura de uma serie de elementos e referencias dos mais variados gêneros em um produtor que é um fracasso como drama e genérico como filme de ação.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

Histórias Cruzadas
(The Help, 2011)
Drama - 146 min.

Direção: Tate Taylor
Roteiro: Tate Taylor

Com: Viola Davis, Octavia Spencer, Emma Stone, Bryce Dallas Howard e Jessica Chastain

Para angariar prêmios, principalmente aqueles estadunidenses, um filme muita das vezes precisa ter mais do que "apenas" qualidades técnicas e narrativas. É preciso ter uma mensagem, uma lição de moral, e ajuda muito se esta for "sentimentalóide", com um cunho de crítica social e política. Funciona para ganhar admiradores ao redor do mundo, e também para faturar alguns mui bem vindos carecas dourados. Sempre foi assim em Hollywood, e a tendência é continuar - não necessariamente o melhor filme ganha, mas aquele que cativa mais os jurados. Afinal de contas, o Oscar nada mais é que uma grande eleição. Deste modo, criar uma produção com apelo emocional, anexada de um pseudo-ativismo político por direitos humanitários é um passo enorme para atrair a atenção para si.  Se a vitória não vem, pelo menos as indicações chegam aos montes.

Neste aspecto, Histórias Cruzadas é uma falha de proporções épicas, pois compromete sua desde já intenção clichê inicial, de criar um manifesto apelativo pela luta contra o racismo, através de uma narrativa que vergonhosamente pinta os negros como seres acovardados e sem força própria na árdua tarefa de ter seus direitos reconhecidos. No entanto, se há alguém que pode bater de frente com o racismo e ainda de quebra ser a "mocinha" da história, essa pessoa é uma menina loira , de olhos azuis, interpretada pela bela Emma Stone.

Pode até ser involuntário, mas a mensagem que o filme de Tate Taylor transmite é completamente oposta a qualquer princípio de libertação dos negros - as empregadas negras não são agentes ativos em sua jornada de encontro à civilidade reconhecida; são criaturas amedrontadas que acham sua "salvadora" em Eugenia "Skeeter" Phelan (Stone), uma moça que retorna ao Mississipi depois de estudar em outro estado, e não está acostumada mais aos hábitos discriminatórios de sua região natal. Ou seja, a personagem interpretada por Stone nada mais é que uma versão estrangeira da nossa já conhecida Sinhá Moça, e se no Brasil a protagonista é branca para facilitar a "venda" da personagem para o público - leia-se: discriminação - não parece ser muito diferente no longa norte-americano.


Na trama, somos introduzidos a uma destas empregadas negras chamadas de maids ou helpers - daí o título original The Help. Aibileen Clark (Viola Davis) é uma empregada de meia idade com uma história de vida sofrida e que passou toda a vida criando os filhos brancos de seus patrões. A atenção dedicada ás crianças é tamanha que elas enxergam em Aibileen uma mãe, já que a negra é quem educa e dispensa a maior parte do tempo com os pequenos. Ela e Minny (Octavia Spencer) são duas amigas de profissão que sofrem com o racismo extremo de socialites como Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard). Depois de eventos mais explícitos e cruéis de discriminação racial, as duas negras decidem ajudar na reportagem de Skeeter sobre a vivência das maids de Mississipi: relatam o que presenciaram, o que fizeram, e o que sofreram trabalhando para os brancos.

O principal problema do roteiro adaptado de Tate Taylor - não li o livro "The Help" em que ele se baseia - é sua gritante hipocrisia quanto ao seu principal tema: a questão racial. Obviamente ele tem em sua proposta mostrar o combate à discriminação - porém se o seu objetivo é esse, seu discurso cinematográfico, na prática, soa diferente: quem precisa ser a voz de expressão e de salvação para as afro-americanas é uma escritora branca. Não importa se a intenção é essa, mas a mensagem que fica é "Pessoas brancas resolvem o racismo", denotando uma suposta incapacidade por parte dos negros em resolverem seus próprios problemas. Julgá-los como incapazes é, ironicamente, de um racismo tão grande quanto aquele que o filme “julga” combater.

Além disso, a atitude um tanto covarde das negras do filme não parece se encaixar com nenhum dos princípios de resistência à segregação: nem o confronto direto defendido por Malcolm X, nem a atitude de convivência pacífica, mas mantendo seu ativismo, de Martin Luther King Jr. A postura das negras parece acomodada, sem ímpeto, necessitando da "boa vontade" de uma jovem de olhos claros para tirá-las de seu lugar. Em uma análise detalhada, Histórias Cruzadas tem muito de um discurso misógino - afinal, tanto Martin Luther King Jr. e J.F Kennedy, que têm suas mortes apontadas no filme, foram homens que se mantiveram contra o sistema segregatório vigente; eles sim, foram ativistas, lutaram, e viraram mártires.


Não só isso retrata o contexto misógino presente no longa; a boa moça Skeeter, que aparece no início como um despontar de vigor da força feminina, disposta a trabalhar, fumar, mas sem se preocupar pela ausência de um namorado - status exigido naquela época para um provável futuro casamento - demonstra sua hipocrisia quando chamada para sair com um homem: muda de humor, fica animada, arruma uma bela roupa, alisa o cabelo e corre para o carro. Onde estava a forte moça independente? São várias rachaduras que se apresentam aos poucos nos discursos de The Help, que demonstram toda a sua falsidade; no fundo, é uma história feita para a elite caucasiana, que subestima as minorias e acredita na "boa ação" dos ricos e brancos para com os pobres negros.

E tudo piora com a presença de personagens unidimensionais que podem ser rotulados com facilidade extrema. Basta um olhar direcionado a Emma Stone para ver nela a protagonista boazinha - note, uma protagonista branca num filme sobre negros - , e não demora também para enxergarmos na personagem de Dallas Howard uma "vilã" típica. As personas aqui são falsas como o cabelo cheio de laquê das dondocas retratadas.

Entretanto, essa proposta cheia de estereótipos funciona em determinadas situações, e embora cause momentos constrangedores - a negra viciada em frango frito; Aibileen falando "You is smart", é o ápice do senso comum sobre os afro americanos - gera personagens interessantes, como a deslocada Celia Foote (Jessica Chastain) socialite que não é aceita por suas companheiras de classe. Celia é o estereótipo da patricinha voluptuosa, cheia de chiliques, mas que você vê no primeiro instante que tem "bom coração". A performance de Jessica Chastain em cima da persona evoca toda a verdade que é inerente ao personagem estereotipado, e leva todos os trejeitos e caras e bocas a um patamar elevado, dando literalmente vida ao estereótipo. Dessa forma, é interessante que numa determinada cena-chave, Celia esteja embriagada - é possível hiperbolizar ainda mais a personagem, notando o estudo atencioso da atriz para captar este exagero e transmiti-lo, mostrando um pouco de verossimilhança brotando do arquétipo.


E se Jessica Chastain auxilia na modelagem de sua personagem, Viola Davis também contribui vigorosamente para a construção de Aibileen. Apesar da mensagem do filme subestimar o poder de sua etnia, Aibileen nunca demonstra ser uma mulher frágil, apesar de transparecer seu sofrimento e suas emoções apenas com um olhar. Davis mostra cada sentimento da persona que encarna, mas sua face reluta em sorrir, ou chorar, tentando manter a expressão séria: o velho hábito de sentir dor ás escondidas, tendo que tocar a vida mesmo com o coração partido. Aliás, a cena em que Aibileen conta sobre a morte de seu filho - como uma mulher forte que suporta a dor -, deve ser a sequência que foi possivelmente responsável por suas indicações em tantos prêmios. Octavia Spencer faz bem o seu trabalho, é uma boa coadjuvante e retrata com veracidade Minny Jackson, mas não justifica ser a franca favorita em tantas premiações.

Com um design de produção primoroso, que remonta à época com perfeição, e uma direção de arte caprichosa, Histórias Cruzadas peca muito também por não possuir um diretor experiente: um cidadão com traquejo atrás das câmeras talvez soubesse onde não pesar tanto a mão, para não soarem tão apelativas certas cenas. Taylor não interfere no filme, não tenta dar sua colaboração como autor, ou tentar transmitir algo com seus takes. Pouco também influenciaria no discurso incorreto que Histórias Cruzadas têm, e que quase o implode como produção.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Lock Out




O novo projeto do megaprodutor francês Luc Besson ganha seu primeiro trailer, que apresenta uma curiosa montagem que mescla uma cena inteira no primeiro minuto para, depois, dar lugar a diversos cortes de ação. Logo após um enigmático início, somos apresentados ao personagem de Guy Pearce, que leva uma baita surra ao longo dessa cena. Misturando diálogos estilosos (e clichê) com as perguntas ameaçadoras, a tortura é pontuada com os socos em Pearce, que tem sua cabeça inclinada para a direita, o que faz com que os créditos apareçam no local vazio deixado por ela. Porém, se essa iniciativa é criativa, os cortes finais já foram testados anteriormente, mas funcionam. O ambiente espacial, bem semelhante ao dos videogames, dá um bom contraste com as cenas mais urbanas de correria com Pearce. A promessa é de guilty-pleasure, absurdo e divertido, mas a prévia é tão bem montada em seu início que vale a conferida.