segunda-feira, 8 de agosto de 2011



Um dos cineastas mais cultuados e aclamados de todos os tempos, Terrence Malick, debutou como diretor em 1973, com o filme Badlands. Ainda jovem, e saindo do segundo ano no American Film Institute, ele começou a criar o roteiro de seu vindouro primeiro longa, uma história simples em estrutura, mas extremamente complexa em relação a seus personagens, seus sentimentos e seus significados. Neste seu primeiro projeto, Malick já mostrava sua tendência para um cineasta dado a passar mensagens, e a criticar os homens por seus comportamentos por muitas vezes insensatos. Não é a toa que o próprio Malick definiu o que queria fazer em Badlands, como uma espécie de ''conto de fadas'', preenchido com violência, falhas de caráter e insanidade, utilizados como artifícios de ensinamento, como tantos contos de fadas da Era Medieval - onde eles surgiram - faziam.

Entretanto, Badlands não se passava na Era Medieval, e sim na década de 50, no meio-oeste dos Estados Unidos. Uma história de contos de fadas não envelhece, é atemporal - outro objetivo explicitado pelo diretor, de fazer o filme ser ''suspenso'' no tempo - e nesse sentido Badlands parece perfeito. Longe de ser um filme de época anacrônico, é um produto que nasceu no meio da Nova Hollywood, um momento revolucionário para o cinema norte-americano, e que por se desenhar como mais um belo estudo da mentalidade humana, se revela um verdadeiro marco. Marco esse, que, como muitos outros longas alternativos de sua época, teve orçamento diminuto - apenas 500 mil dólares foram disponibilizados para a produção, valor que foi estourado antes do fim das filmagens, levando Malick a pedir auxílio de amigos (!) para encerrar a produção - mas qualidades vitais para qualquer longa, muito vistosas.


Explorando tanto visualmente - pelas paisagens paradisíacas - como narrativamente - repare no simpático e fluido sotaque interiorano - o ambiente onde a trama se passa, o filme conta uma história de amor entre dois jovens: A bela adolescente Holly Sargis (Sissy Spacek) e o rebelde á la James Dean, Kit Carruthers (Martin Sheen). Como o relacionamento dos dois não é admitido pelo pai da moça (Warren Oates), os dois passam a viver um romance proibido até decidirem fugir pelo oeste do país, em meio à canyons e desertos, cometendo desde seu ponto de partida, crimes e outras atrocidades, revelando dois fortes sentimentos: a paixão um pelo outro, e a psicopatia inerente aos dois.


Narrado pela personagem de Spacek, o roteiro de Malick tem uma agilidade correta para um filme sobre jovens, e consegue otimizar cada linha do script ao utilizar sua estrutura a seu favor. Por ser um longa narrado, é possível transbordar a tela de imagens variadas, que geram oportunas elipses temporais - afinal, o jovem casal fica fugindo por um bom tempo - sem perder sentido, graças á pontual narração da personagem Holly. Esse aspecto de narrações em off - de modo geral - causam uma sensação contínua de explicação de roteiro - algo que não ocorre aqui, e nem nos filmes de Malick que vieram depois - já que cada frase possui sutileza e sensibilidade, sem parecer didático, mas sim um informe mais milimétrico dos personagens.



Personagens esses , que são o coração do longa. É através deles que o roteiro se permite realizar o estudo de mentalidade humana, e sua comparação Homem X Natureza. É irônico perceber, aliás, o contraste que permeia todo o filme, e que ilustra essa mensagem de dualidade tão bem. A natureza, representada de maneira belíssima pelos ''Badlands'' - regiões montanhosas recheadas de canyons e modulada agressivamente pela erosão - é considerada, no âmbito geral, selvagem: um local onde animais perigosos vivem, sem a proteção de um teto, um lugar sem lei. Sarcasticamente, esse local, na produção, é um ambiente calmo, bonito e que exala perfeita harmonia. Já os homens, ditos ''civilizados'' são aqueles que aderem á mais pura selvageria. Kit é a demonstração mais perfeita disso: é tão animalesco, psicopata, que mata uma fileira de pessoas por onde passa, e de maneira tão incompreensível e sem sentido, que gera risos nervosos na platéia.

E ele não carrega o fardo e emblema de psicopata sozinho. Holly o acompanha realizar barbaridades de diferentes tamanhos, e demonstra uma perfeita complacência, aceitação, comodidade. Talvez seja a mais doente dos dois - afinal, pior do que o louco, é aquele que dá razão a ele. Perdidos nesse espírito pueril, jovem e tresloucado, é um reflexo da juventude de quase todas as gerações: pessoas que metem o pé na estrada, cometem loucuras, se amam, e acham que aquela situação momentânea, claramente passageira, pode - num devaneio - ser eterna. Ora, só são eternas em contos de fadas - e justamente por isso, Badlands é um conto de fadas clássico, com direito a mortes, execuções e palavrões, destinado, na nossa era, não a educar criancinhas para não adentrar florestas, mas divulgar ao mundo uma crítica e um estudo sobre a mentalidade distorcida do homem, e sua disparidade negativa frente ao equilíbrio perfeito da natureza.

E se a psicopatia era vital para esboçar a desnaturada essência humana, Martin Sheen e Sissy Spacek incorporam a doença mental do casal de forma complementar e engrenada, encarnado cada um, diferentes características da patologia: Kit é a emoção jovial, a violência irracional, a adrenalina e a raiva animal; Holly é a frieza, a ausência de sentimentos, o fator que não se espanta, que admite como natural o absurdo. A exposição dessas emoções é tão chocantemente realista e crível, que chegamos à conclusão de que não haveria atores melhores para os papéis. Perfeitos. Outro que transmite perfeição, é Terrence Malick como diretor. Combinada com uma fotografia precisa, perfeita, e que capta takes abertos de paisagens deslumbrantes, a direção de Malick transpira vasta experiência - que Malick certamente não possuía em seu trabalho de estréia - uma exatidão nas horas de comandar closes, coordenar cenas que vão da pura absorção da atuação, até perseguições mais elaboradas. Além disso, sabe o momento de apreciar um acontecimento na duração certa, e de contemplar nas horas certas. Gênio é gênio, e ele não precisa muito mais do que 95 minutos pra mostrar que sabe muito da arte que comanda.

Badlands leva sua mensagem e sua perfeição até no título. Badlands é o nome dado a formações rochosas erodidas, que formam montanhas, vales e canyons. Recebeu esse nome por se tratarem de terras desgarradas, duras de se atravessar por serem selvagens e irregulares, no filme, já poderia ser ''badlands'' simplesmente pelo fato da dupla assassina passar por ali. Se no Brasil vemos ''Terra de Ninguém'' no título, essa terra pode muito bem ser nosso planeta, e o ''Ninguém'', por ser habitada por humanos que se revelam tão anárquicos,violentos e doentes, em diversos momentos.

FICHA TÉCNICA:
Terra de Ninguém (Badlands, 1973) 94 min.
roteiro: Terrence Malick
fotografia: Tak Fujimoto, Stevan Larner e Brian Probyn
trilha sonora: George Tipton
direção de arte: Jack Fisk
montagem: Robert Estrin
estrelando: Martin Sheen, Sissy Spack, Warren Oates








domingo, 7 de agosto de 2011

Quero Matar Meu Chefe
(Horrible Bosses, 2011)
Comédia - 98 min.

Direção: Seth Gordon
Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein

Com: Jason Bateman, Charlie Day, Jason Sudeikis, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell e Jamie Foxx

Atualmente, há duas grandes vertentes para comédias, de modo geral. Basicamente, dividem-se em dois subgêneros que ganham cada vez mais força entre um subgênero maior ainda - o da comédia adulta. Um deles, que atrai em maioria o público feminino, são as comédias românticas com debate de conteúdo sexual. São filmes como Sexo sem Compromisso, Amor e outras Drogas, e até o futuro Friends with Benefits, que dialogam com a temática do sexo desvinculado-o de um relacionamento sério. Paralelamente, outro tipo de produção que voltou a ser explorado em massa foi o das comédias de "macho" - motivado principalmente com o fenômeno de crítica e público de 2009, Se Beber, não Case! . Desde lá, tivemos várias outras tentativas de filmes humorísticos que abordassem a relação "porreira" entre homens, o tal "bromance" (aquela relação de camaradagem entre amigos em um bar por exemplo) e é só citar alguns desse ano, vale lembrar da própria continuação fraca de Se Beber... e do falho Passe Livre.

Somando isso aos desastres nucleares que vem passando pelo cinema de humor nacional - Cilada.com e derivados - e dá para se ter uma ideia de que não estamos em um período muito produtivo para as comédias adultas. Com repetições de temas aos montes, falta claramente originalidade aos roteiros, mas também alguém com mão firme para coordená-los a ponto de saírem minimamente satisfatórios. Desse modo, não fica difícil esperar algo diferente de Quero Matar meu Chefe, comédia que podia desafogar o gênero do eixo repetido de roteiros que ele passa. Entretanto, o longa que se propunha em sua divulgação - e até mesmo em sua introdução - uma dinâmica interessante sobre o cotidiano e a relação de um empregado com seu chefe, na verdade não passa de mais uma comédia de macho, onde os protagonistas se metem em situações absurdas e precisam sair delas, junto com seus "bros". Nesse aspecto, Quero Matar meu Chefe pode até ser uma enganação enquanto foco narrativo, mas nunca enquanto produto, afinal é dono de um resultado que, no final das contas, se sai muito bem ao lado de vários similares inferiores.




A trama acompanha a vida de três empregados - interpretados por Jason Bateman, Charlie Day e Jason Sudeiskis - e cada um deles tendo um carma em seu trabalho: seus respectivos chefes. Um deles é perseguido por um chefe psicopata (Kevin Spacey), o outro não consegue lidar com o assédio sexual da dentista ninfomaníaca (Jennifer Aniston) para a qual trabalha, e o terceiro não admite a conduta irresponsável e cretina de um cheirador inconseqüente que virou seu chefe após a morte do patrão anterior. Decididos a não suportar mais isso, eles decidem organizar um plano para matá-los, e para isso consultam Motherfucker Jones (Jamie Foxx) um criminoso experiente que os ensina táticas para realizar os crimes com sucesso.

O roteiro dos estreantes John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein e Michael Markowitz é interessante, mas claramente carece da originalidade sob o qual se disfarça nos meios em que é divulgado. Não é um filme essencialmente sobre os chefes, e em certos momentos os alvos em questão se tornam meros MacGuffins para uma trama de um trio de homens - composto pelo galanteador, o certinho e o pancada - que se metem em uma teia de acontecimentos de relevância criminal, e que precisam se desvencilhar dela, atravessando no decorrer diversas intempéries, tais como perseguições de carro, prisões, invasões de domicílio e experiências com drogas. Um tanto semelhante a Se Beber, Não Case!, comédia-modelo para os estúdios atualmente. O problema de ter um espírito tão parecido implica numa parcial falta de criatividade, mas também gera outros problemas. Afinal, os roteiristas criam um emaranhado de acontecimentos que procuram - só procuram - remeter à inteligência genial do filme de Todd Phillips, mas não conseguem nem mesmo resolvê-los dentro de sua lógica ''mirabolante''.




Aí surgem resoluções simplistas, fáceis, e algumas vezes previsíveis. Cria-se uma cadeia de eventos, e por não saber nem mesmo construí-la com sucesso completo, formam-se soluções incompatíveis. Ora, desse modo, começam a aparecer os buracos de roteiro, que permeiam silenciosamente a produção, mesmo que não sejam escandalosos, mas que geram certa suspensão de descrença, e também a necessidade de ter que relevar algumas situações propostas. Aliás, incongruências não se resumem apenas as partes de resolução da narrativa, mas também á sua premissa. Qual o sentido do personagem de Charlie Day, com receio de trair sua noiva com sua chefe, matar a mesma? Ele possui caráter o suficiente para não trair, mas se dispõe a cometer um assassinato sem hesitar sobre suas implicações morais? Além disso, é de Jennifer Aniston que estamos falando, e sua namorada retratada no filme não tem muitos atributos - tanto físicos quanto intelectuais - para criar essa resistência por parte do personagem.

A sorte e a salvação de Quero Matar Meu Chefe é que ele se trata de uma comédia, e possui outras características que compensam seus eventuais defeitos. Se ele se propõem a dar um belo espetáculo de gags, então ele dá: São várias, e elas conseguem ser certeiras e fazer a platéia rir sem forçar a barra. Dentro de cada ambiente que o roteiro faz seus personagens chegarem, há uma boa exploração de comicidade, com gags múltiplas, e que fazem o filme sobreviver diante de seus problemas. A melhor sacada do roteiro seja, talvez, a gag intraduzível - infelizmente - do Motherfucker Jones. Jamie Foxx ajuda muito nas cenas que participa, e as piadas proferidas pelos protagonistas não soam forçadas, e fluem naturalmente, resultado de um grupo de atores que estavam bastante á vontade.




Á vontade, na zona de conforto, não precisavam impressionar, e suas figuras serviram como meros peões para a construção das situações e para discursar piadas. Os atores se saem na média - diferente do que se tem em Se Beber Não Case! - e não são tão carismáticos, deixando o lugar para os chefes. Os mesmos - caricaturas - são engraçadíssimos apenas na sua construção de personagem, sem precisar de uma fala elaborada ou situação-chave . Kevin Spacey encarna solenemente o famoso estereótipo de chefe irredutível - diferente do Lester Burnham demitido de Beleza Americana - e demonstra sua versatilidade e habilidade que lhe renderam fama; Jennifer Aniston não precisaria de muito mais do que corpo para atuar, mas mesmo assim, se sai melhor que os demais nas cenas que participa; Colin Farrel, num papel de drogado - o que o ator já foi - se transfigura, e demonstra competência para o humor - como já visto em Na Mira Do Chefe. Basicamente, os atores mais competentes e experientes parecem que foram os que mais se dedicaram em atuar, e mesmo tendo curto espaço de tela, se sobressaem.

Depois de fazer o fraquíssimo, Surpresas do Amor, Seth Gordon parece ter aprendido a realizar humor de situação, ganhando muito mais timing para sua coordenação de set. As piadas e as gags são o ponto alto de Quero Matar Meu Chefe, mas tudo isso não esconde sua originalidade baixa e o fato de seguir a trilha das comédias de macho que surgem por aí. A única diferença dentro do contexto desse subgênero, é que o filme de Gordon fica na média, sem derrapar a níveis mais baixos. Ou seja, Quero Matar meu Chefe não é revolucionário, inteligente ou original como Se Beber, Não Case!, mas também não é fraco e infantil como Passe Livre. Entre homens em Vegas ou crianças que brincam com merda, vale o que um personagem diz durante o film : '' Vocês estão agindo como adolescentes da oitava série!''. No meio do caminho, na média, afinal.



sábado, 6 de agosto de 2011

Smurfs - O Filme
(The Smurfs, 2011)
Comédia - 103 min.

Direção: Raja Gosnell
Roteiro: J. David Stern, David N. Weiss, Jay Scherick e David Ronn

Com: Hank Azaria, Neil Patrick Harris, Jayma Mays, Sofia Vergara e as vozes de: Jonathan Winters, Alan Cumming, Katy Perry, Fred Armisen, George Lopez e Anton Yelchin.

Era uma vez um desenho animado, muito amado nos anos oitenta, sobre um grupo de seres azulados que viviam em uma floresta mágica e enfrentavam a ameaça constante de um bruxo e de seu gato laranja. Esse desenho marcou uma geração e entrou para o imaginário da cultura pop, sendo referenciado em diversas outras produções dos mais diversos gêneros e países. Falo, obviamente, dos Smurfs.

O desenho animado tão amado por tanta gente, aqui surge da mesma forma que Alceu e Dentinho, Alvin e os Esquilos, Vira Lata, Zé Colméia e Scooby Doo apareceram na tela grande. Numa mistura esquisita entre animação e live-action que nada tem a ver com o material original. Lembra bastante o já citado Alvin e os Esquilos e a sátira das princesas Disney Encantada, com a diferença de que Encantada - apesar de não ser um filme excelente - era uma sátira muito bem elaborada e que fazia piada de um clichê. Toda a performance de Amy Adams fazia sentido como brincadeira com as mais famosas princesas do cinema.


Em Smurfs, os humanos fazem muito mal a história, que em determinado momento passa a focar muito mais nas desventuras do casal Patrick (Neil Patrick Harris) e Grace (Jayma Mays) do que nos pequenos seres azuis. Apesar de começar de maneira - infantil, é verdade - bastante promissora, quando a partir de uma narração em off (apresentada pelo Smurf narrador, uma boa sacada) somos apresentados a vila dos Smurfs e seus inúmeros habitantes, cada qual nomeado de acordo com uma respectiva característica de sua personalidade, o filme só vai funcionar realmente para as crianças pequenas. 

Nesse mesmo prólogo, o filme também introduz o grande personagem do filme, aquele que rouba todas as cenas em que participa. Hank Azaria interpreta o bruxo Gargamel de maneira deliciosa, e é por ele, e somente ele, que o filme não é de todo insuportável. Copiando trejeitos quase a perfeição do desenho animado, Gargamel é um bruxo arrogante, inescrupuloso mas divertidíssimo em sua tentativa sem fim de capturar os Smurfs. Por outro lado, os Smurfs são construídos em 3d, lembrando evidentemente os traços do desenho animado, mas plastificados, em uma tentativa de caracterização que busca uma espécie de realismo, assim como as versões 3d de Zé Colméia e dos esquilos cantores.


A trama é bobinha, e claramente destinada aos pequenos. Quando o Smurf Desastrado (voz de Anton Yelchin no original) entrega acidentalmente a localização da vila para Gargamel, ele e mais alguns outros Smurfs são sugados por uma espécie de portal temporal/místico/estranho/azulado e saem na cidade de Nova Iorque, onde tentam desesperadamente encontrar uma forma de voltarem para casa, ao mesmo tempo, em que precisam fugir da vilania de Gargamel que os segue pelo mal fadado portal.

Uma vez no mundo real, o filme adota a idéia óbvia e bastante clichê de utilizar os personagens aprendendo o modo de vida "civilizado" de nossa sociedade, interagindo e fazendo graça com coisas aparentemente banais e até mimetizando personalidades ou satirizando outras. Esses momentos são as chamadas "piadas para o papai", que são tolas, rasteiras e profundamente infelizes nesse filme. Como exemplo, notem a sacada "genial" que os roteiristas (J. David Stern, David Weiss, Jay Scherick e David Ronn) utilizam para brincar com a cor dos personagens: em duas seqüências, os Smurfs passeiam no teto de taxis nova-iorquinos. Nas duas vezes, somos surpreendidos pela inserção de anúncios que remetem a cor dos bichos. Uma do grupo Blue Man Group e outro de blu-ray. Sério? Não poderiam ser menos sutis?


Os atores que deveriam, em teoria, servir como elo de ligação entre o publico e a história (em especial para os adultos, já que as crianças só terão olhos para os Smurfs) são todos fracos esboços de personagens. A exceção do citado Hank Azaria, nenhum dos outros atores conseguem encontrar o tom de seus personagens. Neil Patrick Harris é tão inexpressivo que prejudica descaradamente o filme, quando precisa assumir o posto de personagem principal. Não que ele não se esforce, e que não tenha aqui e ali uma ou outra boa sacada (a pesquisa no Google e o questionamento sobre os nomes dos Smurfs são boas piadas), mas joga tudo para o alto quando se vê tocando uma guitarra de mentira na versão mais terrível de Walk this Way (do Aerosmith) que já tive o desprazer de ouvir.

A graciosa Jayma Mays, parece não ter sido avisada que não gravava uma versão estendida de um episódio de Glee (com duendes azuis) já que a única diferença de sua Grace para a Emma da série de tv é o fato de em Smurfs ela surgir grávida, o que força o filme a entrar em uma patética e desnecessária conversinha mole sobre paternidade e tudo mais.

Sofia Vergara não existe. Pelo menos em Smurfs, seu personagem tem a importância e relevância praticamente nulas. O guru da moda Tim Gunn, que faz uma ponta de luxo no filme, está melhor do que a voluptuosa e talentosa atriz latina, famosa pelo histrionismo e grande atuação na série Modern Family.


O elenco de dubladores faz o melhor trabalho possível. Os serezinhos apesar de profundamente infantis, são carismáticos e os dubladores são todos muito bons, incluindo ai a cantora e musa Katy Perry que faz de Smurfette uma versão censura livre dela mesma.

No fundo Smurfs, poderia ser uma brincadeira divertidíssima e uma homenagem nostálgica aos velhos fãs e ainda apresentar estes personagens a uma nova molecada ensandecida para conhecer os pequenos seres azuis. Poderia, se Gosnell (diretor) e equipe não tentassem inventar a roda. Tirando os Smurfs da floresta, das Smurfamoras, e das aventuras simplistas em que sempre venciam o bruxo mal, tornaram-se mais um filme bobinho no meio de tantos outros com potencial muito menor. Uma lástima tão grande quanto à quantidade de Smurfs em tela.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011


Twixt




O estranhíssimo trailer do novo filme de Francis Ford Coppola impressiona pelo apuro visual e pela invejável atmosfera de terror, auxiliada pela tendência barroca que o filme parece seguir, desde seu Chroma key exagerado e sua fotografia realista até o visual gótico que culmina com a aparição de Edgar Allan Poe, interpretado por Ben Chaplin. Misturando a atmosfera de um filme de David Lynch com os enquadramentos de (pasmem) sua filha Sofia Coppola, Francis parece criar uma obra diferente de toda a sua filmografia, o que não deixa de ser uma benvinda incursão do cineasta no desconhecido gênero do horror gótico. Ainda que Val Kilmer adore um overacting e o visual barroco possa se tornar equivocado, a espetacular Elle Fanning, sozinha, já seguraria o ótimo trailer. Com uma trilha sem excessos e auxiliando a tensão, o trailer ainda tem um belo final, que mostra mais da beleza plástica de algumas imagens. Mesmo com um insistente narrador didático no começo do trailer, a experiência não se abala. Uma incógnita. Twixt pode ser belíssimo e soberbo ou cafona e exagerado.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Melancolia
(Melancholia, 2011)
Drama - 136 min.

Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier

Com: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgard e Stellan Skarsgard

O filme irmão bastardo e bem comportado de Anticristo é a nova aposta do polêmico diretor Lars Von Trier, tão conhecido por seus filmes e por sua propensão a polêmica. Quem imagina que Von Trier tenha atraído os holofotes apenas no último festival de Cannes, talvez não se lembre de Os Idiotas, filme que provocou escândalo ao apresentar uma historia em que um grupo de pessoas finge ter deficiências mentais como forma de causar choque nas ditas pessoas "normais". Isso sem contar com a profusão de nudez e de sexo explicito que Trier encaixou no filme. Anos mais tarde, ousou ao criar dois filmes "esquecendo-se" dos cenários para analisar a nossa incapacidade de compreender e nos importar com o outro, mesmo que estejam a poucos metros de nós. Podemos julgar - de forma veemente - sua continua propensão a apontar o dedo para a humanidade e dizer que não valemos absolutamente nada, o que para mim, teve amplificações sem precedentes no complicado - e abominável - Anticristo, um filme que não se sustenta em momento algum, servindo-se apenas do choque gratuito que causa no espectador. Falta coesão em sua história, personagens que compreendam quem são e principalmente (por mais absurdo que pareça) uma história propriamente dita.

Chegamos então a 2011, e Von Trier abre a boca e causa a polêmica em Cannes, quando promovia a indicação de seu filme para a Palma de Ouro. Muito se disse sobre o diretor e pouco foi dito a respeito de Melancolia. Já passou da hora de percebermos que Von Trier adora um microfone e que é um caçador de confusões, mesmo que o faça sob as bases de um discurso que beira o adolescente revoltadinho com o mundo.


Mas ao analisarmos cada um de seus trabalhos é necessário esquecermos a figura humana e nos concentrarmos no diretor, em seu trabalho e seus resultados em tela. E felizmente, Melancolia é um grande trabalho, mesmo que tenha problemas em suas duas partes tão energicamente divididas (tal qual o citado "irmão bastardo" Anticristo), que funcionam como dois médias metragens estrelados pelos mesmos personagens.

O roteiro (escrito pelo próprio Von Trier) apresenta a personagem de Justine (Kirsten Dunst) que sofre de uma mistura de bi-polaridade com depressão e profunda melancolia. Quando o filme começa, ela está a caminho da festa de seu casamento (Von Trier um fanático por criticar os rituais da sociedade aqui se furta de apresentar o casamento religioso) em que tem de conviver com uma família complacente a seus problemas, mas que vive em constante estado de tensão devido a sua aparente enfermidade. Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) é a co-estrela do filme e divide as atenções com a vencedora de Cannes, sendo nessa primeira parte a principal coadjuvante. Na segunda parte, Von Trier apresenta a história do fim do mundo, a partir da chegada do planeta Melancolia que possivelmente se chocará com a Terra exterminando toda a vida no planeta.


Von Trier não faz segredo do desfecho de seu filme que já apresenta na primeira sequencia a colisão entre os dois planetas, além de plantar pistas sobre a personalidade dos personagens que serão exploradas no decorrer do filme. Aqui temos a primeira, de muitas provas, da qualidade excepcional da fotografia de Melancolia. Um trabalho de grande qualidade de Manuel Alberto Claro, que mesmo seguindo a estética Von Trier de filmar (muita câmera na mão, zooms automáticos, um certo desleixo nos enquadramentos, quando é necessário apresentar uma cena em movimento) consegue resultados impressionantes, em especial na segunda parte, que pretende ser mais contida e atmosférica. Isso é claro, sem esquecer a sequencia de abertura que é magnífica e que dialoga diretamente com Anticristo em sua forma.

Esse talvez seja o filme mais estelar de Von Trier, repleto de grandes interpretes, tal qualidade de atuações dá muito resultado em tela. Kirsten Dunst (na primeira parte do filme, intitulada Justine) consegue transmitir a exata sensação de deslocamento sem no entanto forçar a barra rumo à insanidade, ou a qualquer tipo de demência ou problema mais sério. Esse limiar, em uma condição de profunda tristeza auto infligida, ou talvez resultado de uma criação distante, têm reflexo na personalidade sempre apreensiva de sua irmã Claire (nome da segunda parte do filme que tem foco em sua personagem). Charlotte Gainsbourg apresenta aqui um desempenho igualmente impressionante, numa marcha sem trégua pelo fio afiado de uma navalha sabendo claramente que tem de tomar a rédeas da situação, enquanto sua irmã vive em seu próprio mundo. Na segunda parte, no entanto, despe-se de todas as máscaras e sucumbe ao inevitável apocalipse.


Completam o elenco principal, o brilhante Kiefer Sutherland, tendo uma chance rara de sair da zona de conforto dos personagens durões. Ele interpreta o marido de Claire, John, um rico empresário que é o responsável pela suntuosa festa de casamento de Justine. A princípio chega a ser impossível não se identificar com John, que parece o único são diante de uma família disfuncional e complicada. Mas com o decorrer do filme, em especial a segunda parte, vemos sua pretensa perfeição e integridade ir se desfazendo em nossa frente, culminando em um ato chocante, mas que faz todo sentido diante do crescente individualismo do personagem.

John Hurt e Charlotte Rampling (Dexter e Gaby respectivamente) são os pais da noiva, que vivem um casamento que não existe e cada qual se refugia em seu próprio mundo de sonho. Hurt é um senhor metido a conquistador que se esquiva de toda e qualquer responsabilidade sobre a vida das filhas e da mulher. A personagem de Rampling por sua vez é a quintessência da amargura. Amarga com seu casamento e com sua vida, servindo como espelho de uma possível versão da personagem de Dunst, que claramente herdou traços da personalidade da mãe. Com menor destaque temos o sempre talentoso Stellan Skarsgard, aqui interpretando o frio e mesquinho patrão de Justine, e seu filho na vida real Alexander Skarsgard, que vive o patético e profundamente apaixonado noivo, Michael.


Melancolia é repleto de mensagens subliminares inteligentes e instigantes. A mais interessante delas é a da festa de casamento como reflexo da vida, ou mesmo uma analise sobre a própria condição do ritual do casamento. A primeira parte do filme começa e termina com uma festa de casamento, que é adequada a analise da convivência humana. No inicio - segundo a cartilha de Von Trier - o filme parece dizer, que a ansiedade pelo desconhecido nos move para frente, em busca de respostas que talvez não sejam possíveis de serem respondidas. Com o passar do tempo (e da festa) percebemos que as cores não são tão brilhantes e que somos envolvidos por uma profunda apatia e que realizamos certas atividades como se fossemos obrigados pela sociedade, mesmo que na verdade não tenhamos nenhum interesse nela. Essa grandiosa festa, culmina na melancólica percepção de que a vida passou e que no fundo ela não importa de verdade, já que somos destinados a infelicidade e a tristeza.

Esse discurso profundamente niilista apesar de soar adolescente é bem fundamentado pelo filme. Apresentando uma série de rituais profundamente valorizados pela sociedade - aqui vistos de forma ácida pela lente sempre agressiva do diretor - o filme funciona muito bem entre suas personagens na primeira parte.


A personagem de Dunst apresenta os grandes diálogos do filme quando tenta manter-se sã em meio a seu profundo estado de apatia. Em especial quando conversa com sua irmã e diz sentir-se presa por um fio de lã cinzento, que o espectador mais atento talvez tenha visto na primeira e belíssima cena do longa.

Porém, nem tudo "são flores" no mundo perturbado de Von Trier. O segundo segmento, que aborda de maneira mais óbvia o fim do mundo, peca por abolir praticamente a personagem de Dunst, que caminha trôpega pela tela, dando espaço a intensa interpretação de Charlotte Gainsbourg e de Kiefer Sutherland, que tem um dos finais de personagem mais cheios de mensagens subliminares do cinema recente.


O discurso de Von Trier também parece um pouco vago, e sua excessiva tentativa em mortificar todo e qualquer ritual social surge de forma exasperada em todos os seus filmes, que satirizam e até ofendem a humanidade sem muita dó. Mas essa, não deixa de ser a opinião pessoal desse crítico, que não crê nessa visão escurecida de Von Trier sobre os seres humanos. Se o leitor talvez for um defensor ou simpatizante da visão de humanidade, como algo desprezível e que não faria falta em um planeta tão bonito e rico como o nosso, talvez aproveite melhor o discurso de Von Trier.

Por não ter comprado a discurso e ter entendido que o filme de Von Trier sofre com sua divisão tão rígida em dois atos que não funcionam da maneira deslumbrante com que as imagens que a ilustram poderiam demonstrar, é que Melancolia não leva um conceito maior. Embora seja impossível esquecer seus últimos planos, onde a escuridão e o som nos fazem companhia.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011


A grande diferença entre um grande clássico e um filme cult é simples: Cult é aquele filme que você gosta e não necessariamente é tão bom assim (alguns até são), mas que por algum motivo você adora, se diverte e indica aos amigos. O caso é que na ânsia de encaixar esses filmes em alguma sessão, o Fotograma resolveu criar essa nova sessão, onde aqueles filmes amados e cultuados serão aqui comentados. Sempre de maneira leve e divertida, como pede um filme cult.

Miami Vice
(Miami Vice, 2006)



Diretor arrojado de filmes policiais, Michael Mann raramente se entrega a outros gêneros. Se O Último dos Moicanos e Ali são filmes históricos, Profissão Ladrão, Inimigos Públicos e Colateral são policiais desde sua essência. Tendo realizado apenas um filme realmente ruim, o inexplicável The Keep, Mann é bem subestimado nas premiações em geral. Esquecido pelo Oscar em 1995 por sua obra-prima Fogo contra Fogo - assim como ocorreu com Cassino no mesmo ano - Mann foi indicado apenas uma vez por O Informante. É uma pena, porém, que essa subestimação sobre o diretor ocorra também com Miami Vice, seu nono filme.


Tubbs e Sonny estão numa boate de noite. Sendo cuidadosos desde o princípio, estudando cada pessoa do ambiente, eles estão ali para pegar um criminoso, não necessariamente alguém importante. Com Linkin Park tocando ao fundo, os policiais conseguem seguir seu modus operandi mesmo no meio daquele caos. A partir dali, o caos se instala de vez e algo dá errado. No meio da ação, o telefone de Sonny toca. É Alonzo Stevens, seu informante, vivido por um ótimo John Hawkes. Muitas palavras desconexas, com um desespero crescente em sua voz, Alonzo pede a ajuda de Sonny e o encarrega de cuidar de Leonetta pois ele está fugindo da cidade. Não tarda para que a dupla saia imediatamente da boate para cuidar do possível caso que eles têm ali. E ao longo da projeção, a admiração por essa cena inicial só cresce pois, além de apresentada de maneira competente, ela é a porta para o espectador entrar no filme. Tubbs e Sonny saem do caso do cafetão para investigar o caso de Alonzo por pura conveniência do momento, por ser mais importante. E isso é algo que ocorre durante toda a projeção, diversas vezes. A sensação de impotência dá as cartas em Miami Vice.


O realismo com que Mann trata a trama policial é o fator que mais chama atenção no filme. O espectador é jogado no meio dos casos, no meio da ação, sendo localizado da mesma forma que os protagonistas. Uma passagem que prova isso é a conversa com o agente do FBI John Fujima, que os chama para a missão da mesma forma que o público fica sabendo, sem uma passagem prévia do agente teorizando com seus subordinados sobre o seu plano. Em algumas cenas, aliás, o público é apresentado à situação sem saber nada, com os protagonistas conversando normalmente sem explicar nada. Uma grande antítese aos filmes policiais onde tudo é explicado: se naqueles projetos sempre temos alguém novato para ser nosso representante em tela, aqui somos desafiados por Mann. Um respeito admirável a capacidade intelectual do espectador. E mais interessante ainda é ver que, ao longo da projeção, o espectador pode se ver aprendendo o trabalho dos detetives para acompanhá-los, como prova a excelente cena que Tubbs elabora datas falsas pra descobrir qual é a agência que possui um informante interno, apenas um exemplo dos vários que demonstram o perfeito raciocínio dos detetives.

Pouco antes da conversa, a crua cena da morte dos agentes do FBI após uma transação com os da Supremacia Brancos, neonazistas dos quais Sonny e Tubbs foram encarregados de prender, é o início do tratamento da violência que Mann trabalha. Diferente do caricatural exagero de um Bad Boys II e da censura PG-13 de um blockbuster comum, Miami Vice entrega um duro realismo em cada bala disparada. A urgência dos tiroteios, registrados pela soberba câmera do fotógrafo Dion Beebe, dá a sensação de que algo ruim vai acontecer. Sendo um projeto policial mais técnico e pesado, o filme submete os detetives aos testes mais impressionantes ao introduzir uma trama cruel e impiedosa. Nada de meros disfarces e identidades falsas (ou grampos telefônicos). A dupla pula de caso em caso e não sabe onde vai dar. Antes eram os "Supremacistas", depois Jose Yero. E agora? Quem será o bandido? Em pensar que tudo começou com um cafetão numa boate.

A imersão na infiltração é completa, complexa, intrincada. A brilhante cena de introdução de Jose Yero, em que Tubbs e Sonny se apresentam como transportadores de drogas é impressionante de tão real. A confiança no disfarce e no poder de suas palavras faz Tubbs inclusive acusar o traficante de agente do FBI, questionando se ele está disfarçado para pegar o esquema dos ditos transportadores. A ameaça final (envolvendo uma boa referência a Jackson Pollock, até) é arrasadora por mostrar quão habituados ao crime aqueles detetives estão. Essa competência incrível de Tubbs e Sonny é levada as últimas conseqüências. Sabemos que eles são capazes, mas o peso da investigação é tão grande que é fácil pensar que a maioria iria sucumbir ao Vício de Miami do título. E sobre competência, é dito profissionalmente. Emocionalmente, o grau é mais elevado ainda.

O desenvolvimento de personagens é a chave quando o roteiro toma os rumos mais dramáticos. Enquanto Tubbs é definido como um homem decidido, responsável, centrado, Sonny é o elo mais fraco da dupla. Mais emotivo e impulsivo, é Sonny que acabará se envolvendo mais do que deveria. E Colin Farrell capta com perfeição essas características de Sonny. Repare como Sonny parece ser um menino irresponsável perto de figuras mais imponentes como Isabella e o próprio Tubbs. Quando Isabella seca o cabelo de Sonny com a toalha, parece até a mãe dele. As cenas no chuveiro, tanto de Tubbs quanto de Sonny, mostram bem a diferença entre os dois. Enquanto a de Tubbs mostra seu amor e carinho pela namorada (não por acaso, uma policial, o que retrata a fidelidade de Tubbs pela polícia e pela amada), a cena de Sonny mostra a dúvida, a falta de decisão, o conflito, tudo pelo olhar. Nada mais natural, portanto, que Sonny seja o infiltrado que tem dúvidas sobre qual o caminho certo. E essa perigosa decisão do roteiro, que poderia soar clichê como Avatar ou Velozes e Furiosos, é trabalhada com brilhantismo por Mann.

O caminho que os detetives trilham é tão imprevisível que é natural como a gravidade que um deles acabe sucumbindo. Com Sonny sendo desenvolvido como mais imaturo, é normal a dúvida. Só por isso, o clichê já seria amenizado. Porém, Mann vai além ao subverter o clichê ao alterar o desfecho da jornada. Enquanto numa trama comum o infiltrado iria para o outro lado, em Miami Vice, Sonny não se deixa levar. Fora que, provando estar dirigindo um policial adulto como poucos, Mann abraça a emoção visceral sem medo. Não é pelos milhões e pela vida fácil de criminoso que Sonny se apaixona. É por Isabella. A cena de sexo dos dois é mais libertadora que prazerosa. O choro tem explicação. É o choro de saber que dificilmente ficarão juntos, desde quando se viram pela primeira vez. E a dor de saber que o desfecho pode não ser mesmo recompensador é o que torna o filme mais fascinante.

A angústia de estar solitário, sozinho no fogo, move os personagens. Não podendo confiar em nenhuma agência (o FBI precisou consultar a Miami-Dade para executar a ação federal), Tubbs e Sonny andam em carros de barões de drogas, os encontram e saem sem a mínima cobertura. E a eficiência do roteiro de Mann se nota até aí, nas sutilezas. Sabemos tanto que as agências são corruptas como Arcángel (o barão das drogas) é poderoso porque Tubbs viu que o sistema de cobertura de sinal do criminoso é coisa de alta inteligência, como a CIA. O desenvolvimento dos traficantes também é magistralmente realizado. Se Jose Yero é alguém em conflito contra os métodos dos protagonistas, Arcángel é um homem frio e enigmático. Por isso, quando chega o único momento de fúria, Mann o registra de costas, representando o autocontrole incrível que o traficante exerce em não deixar transparecer suas falhas e emoções.

Emoções, aliás, que é algo tão presente nos vívidos Tubbs e Sonny, é o que falta em Arcángel. A reveladora conversa do traficante com Isabella em seu quarto mostra bem o contraste entre os protagonistas e o antagonista. Esquematizando de maneira distante e incisiva um plano, Arcángel é objetivo ao dizer que ao fim do serviço, os transportadores devem morrer. O protesto da antes fria Isabella demonstra que ela se sentiu mexida (e também se apaixonou) por Sonny. Ao convencê-lo do contrário, Isabella pensa não ter deixado aparecer suas emoções, mas esse é um trunfo apenas de Arcángel, que capta pelo olhar (com a câmera de Mann fixa em seus olhos) a possível mentira. A dúvida que o traficante tem na relação perigosa com Isabella se concretiza, junto com o público, já que Mann é perfeito em não demonstrar com clareza se é amor ou ganância que movem a determinada personagem vivida pela excelente Gong Li.

A trilha sonora de John Murphy contribui muito para o clima de melancolia do filme. Investindo bastante no rock progressivo para pontuar a tensão durante os diálogos e segmentos mais cadenciados, Murphy utiliza desde Mogwai até Moby para aumentar a angústia. E se outro compositor escolheria uma trilha mais agitada para a ação, Murphy é feliz ao utilizar um piano mais agressivo e pausado, que só potencializa a gravidade das situações. Soberbo.

Esse pesar se reflete na fotografia. Ao fotografar os personagens de Mann sempre no escuro, sempre com um ambiente azulado, frio, Dion Beebe cria um ambiente triste e que, ao mesmo tempo, é extremamente realista. Utilizando um grão muito grosso, Beebe auxilia a direção frenética e quase-documental de Mann a estabelecer um policial de verdade. Momentos de puro primor técnico, como o tiroteio final, que possui um take em particular que é notável: quando um bandido é morto, o sangue espirra na câmera. Esta se levanta e aponta em direção á luz, mostrando com clareza o granulado da câmera e a selvageria do confronto, ao mesmo tempo em que contempla a luz de forma divina. Impecável.

E se Miami Vice é um triunfo narrativo e de desenvolvimento de personagens, quase um estudo, tecnicamente é um desbunde visual. Com a direção mais espetacular da carreira de Michael Mann, o filme se consolida como um belo exemplo de projeto incompreendido em sua época de lançamento. Agressivo, implacável, emocionante, Miami Vice ainda termina com uma tristeza desoladora. No epílogo, a carga emocional do encontro de Sonny e Isabella é de cortar o coração. A sensação de impotência diante da situação é notável de tão realista. O abraço é a chave do choro. Desde que Neil McCauley largou sua namorada para fugir de Vincent Hanna em Fogo contra Fogo, Michael Mann nunca deu um fim fácil a seus personagens. Ele sempre soube o poder de uma boa história. No clímax em especial, perfeito no ponto de vista técnico e narrativo, a melancolia é sentida pela maneira mais estranha que já se fez num filme policial de ação. Nunca ninguém ficaria triste porque um bandido morreu. Não por pena do bandido.

Mas porque o caso, que quase consumiu nossos heróis ao longo da projeção, foi perdido.




terça-feira, 2 de agosto de 2011


Contagion




O primeiro dos últimos filmes de Steven Soderbergh - que já anunciou a aposentadoria após realizar seus próximos projetos - Contagion, ganha seu primeiro trailer, estrelado e belíssimo. Com um ar documental, o vídeo mostra o início de um contágio da humanidade por um vírus letal, transmitido pelo ar. ''Gastando'' seus atores sem economias, Soderbergh já ''empacota'' Gwyneth Paltrow logo de cara, e lança bases para uma interessante produção, num estilo ensemble cast, que pode vir a dar uma visão completamente nova ao sub-gênero de filmes de contágio. Se tratando de Soderbergh - trabalhando com um elenco que conta com Matt Damon, Marion Cottilard, Kate Winslet, Jude Law e tantos outros - nunca se espera menos do que um filme de ponta .

segunda-feira, 1 de agosto de 2011


50/50




O trailer da nova comédia dramática com Joseph Gordon-Levitt e Seth Rogen, 50/50, chega conseguindo conciliar duas palavras que parecem completamente antagônicas: Câncer e humor. Adaptação do livro verídico I'm with Cancer, de Will Reiser, - também roteirista do longa - o filme conta a história de um rapaz de 25 anos (Gordon-Levitt) que descobre que tem um tipo de câncer e passa anos lutando contra a doença. O título é em função de sua probabilidade de cura: 50% a 50%. Tendo a sutileza de misturar tons obviamente dramáticos com tiradas cômicas que não banalizam o assunto, a comédia desperta só em seu trailer, algo que produtos como Funny People tiveram dificuldade de despertar em um filme inteiro. Com um roteiro feito por quem já viveu a situação, o filme promete.

sábado, 30 de julho de 2011


The Ides of March




O formidável trailer do novo filme de George Clooney apresenta de cara o seu conto sobre dilemas morais no mundo da política. Sendo outro filme do engajado ator/diretor, baseado na política, The Ides of March tem como trunfo nessa prévia a aposta em seu competente elenco. Ao dar espaço a Ryan Gosling, cada vez com mais presença cênica, o trailer ganha bastante ao deixar a tensão fluir e os tensos diálogos dos personagens se organizarem. Interessante notar que, além de um exímio cuidado com o visual, Clooney-diretor monta o trailer como um roteiro de filme, ao apontar pistas sobre o caráter dos personagens para depois debatê-los e estudá-los, como prova a cena breve do avião. A aura ameaçadora de Paul Giamatti, se contrapondo a natureza mais idealista do Clooney-ator, também contribui para aumentar a expectativa do drama político.