terça-feira, 13 de dezembro de 2011


ParaNorman



Direto do estúdio Laika  - o mesmo que realizou a espetacular animação Coraline- surge o primeiro e interessante trailer de ParaNorman . A animação conta a história do menino Norman, que tem a estranha capacidade de conversar com mortos - inclusive sua falecida avó. Quando sua cidade começa a ser invadida por zumbis, bruxas,  fantasmas e todo o tipo de criaturas, cabe a Norman a tarefa de salvá-la . É muito agradável ver que os criadores de Coraline preparam-se para fazer em ParaNorman um certo avanço em sua temática. Se o terror-comédia de insinuação,  com conceitos realmente assombrosos foi sugerido em Coraline, ele parece ter tudo para se aprofundar com muita qualidade neste próximo longa que vem por aí . Por tudo que a prévia mostrou, parece valer muito a pena.





Homens de Preto 3



MIB -Homens de Preto 3 tem seu primeiro trailer, depois de divulgados seus interessantes cartazes-mosaicos em preto em branco . O vídeo do terceiro filme da franquia é divertido e carrega o tom irônico característico da série - dessa vez  há até um alienígena que vive como pichação em muros . A trama conta como o agente J (Will Smith) precisa impedir que o vilão Yaz (Jemaine Clement) ponha seu plano em prática : viajar para 1969 para matar o jovem agente K (Josh Brolin) e evitar assim que seja derrotado pelo agente K no presente ( Tommy Lee Jones). Depois de um hiato de 9 anos sem sequências, parece que os engravatados prometem um belo retorno . 




domingo, 11 de dezembro de 2011


Margin Call - O Dia Antes do Fim
(Margin Call, 2011)
Drama/Thriller - 107 min.


Direção: J.C. Chandor
Roteiro: J.C. Chandor


Com: Kevin Spacey, Demi Moore, Paul Bettany, Zachary Quinto, Jeremy Irons, Stanley Tucci e Simon Baker


Lá para o meio do filme, Peter Sullivan (interpretado por Zachary Quinto) está em um táxi, se deslocando de um ponto para outro, nessa noite complicada. Nervoso com sua própria descoberta, Sullivan olha para as pessoas na rua, pela janela, apreensivo. Então, ele fala com seu amigo Seth: "Essas pessoas não têm ideia do que está por vir".

É sobre isso que Margin Call fala. Mas principalmente, é nesse nível que o mesmo opera. Tendo completa ciência sobre o evento que debate, o diretor e roteirista J.C. Chandor se revela muito habilidoso nas informações com que trabalha e na tensão que impõe, mas peca justamente em dar rosto ao acontecimento.

Logo no início, a atmosfera do longa se instala com facilidade. Eric Dale (Tucci) está em seu escritório trabalhando, com uma aparência serena mas com os ombros pesados, até ser chamado para uma sala á parte, devidamente preenchida com um headhunter. Após separar suas coisas, com certo pesar, Dale avista seu colega Sullivan (Quinto), a quem parece ter uma relação professor-aprendiz, e o avisa sobre um aplicativo em um pen drive, que seria bom dar uma olhada. Mas antes da porta do elevador fechar, Dale previne o amigo: "Cuidado com isso". Jogando uma interessante isca, o longa fisga o espectador logo aqui, ao introduzir o mistério que levará a trama á frente e ainda cria um clima essencialmente frio e profissional na história, o que reforça o caráter financeiro e técnico que Margin Call carrega até o fim.




E ao abrir o espaço para Zachary Quinto, o filme entra numa vertente diferente de exploração em filmes de corporações: a da hierarquia ás avessas. Basicamente, um empregado de baixo escalão acaba sendo o desbravador da cruzada de 12 horas para tentar salvar a firma que trabalha. Logo, as forças maiores são acionadas. Aquela executiva que vimos no início, interpretada por Demi Moore, acaba se tornando personagem chave mais tarde. Sem saber a quem recorrer, Sullivan fala com Rogers (Spacey). Sem saber também de muito ("Me explica em inglês claro!", diz ele após um dos cientificismos corriqueiros que o filme oferece), Rogers chama Cohen (Baker). Este que convoca a reunião geral que resolverá o problema por vir, com a chegada de John Tulid (Irons), o executivo-chefe da empresa. Á medida que essa hierarquia empresarial começa a aparecer, a película vai revelando sua verdadeira intenção: o de suspense cauteloso e baseado em atuações.

E nisso, Margin Call não decepciona. Kevin Spacey volta ás grandes atuações com uma segurança natural no papel de Rogers. Simon Baker diverte com seu cinismo, da mesma maneira que surpreende com sua competência; Zachary Quinto acaba anulado a partir do meio (o que abordarei a seguir), Demi Moore faz bem seu papel, Stanley Tucci encarna com destreza e serenidade seu Eric Dale. Mas é com Paul Bettany e Jeremy Irons que J. C. Chandor se demonstra um belo condutor de elenco. O primeiro, com a competência de seus trabalhos "artísticos", abraça a frieza cafajeste de um yuppie convicto ao passo que Irons, normalmente um ator que passa sem se abalar entre a absoluta competência e o risível caricato, acaba sendo reducionista em sua composição para esbanjar uma segurança que não costuma ter.

Chegando perto da resolução, porém, o filme perde um tanto de sua força. O ritmo naturalista, cadenciado, acaba sendo rígido com seus personagens e os torna coadjuvantes de suas próprias histórias. Não por acaso, o maior elo com o espectador, o personagem de Quinto, acaba sendo reprimido no final, por ser "fora da alçada profissional" do assunto a que trata. Não se engane: grandes projetos panorâmicos foram perfeitos em omitir algo de seus personagens, como Traffic, A Rede Social e Tropa de Elite 2. O problema é quando temos um indeciso paralelo entre o panorama rígido e o desenvolvimento de personagens. 



Preferindo dar ênfase em dramas menores (como a condição da cadela de Rogers), Chandor acaba vitimando a unidade de seu trabalho ao não dosar suas duas vertentes principais do roteiro: a ambientação e o desenvolvimento. Chandor não tem a habilidade de um Soderbergh em Contágio e, por isso, acaba condenando as grandes atuações e a tensão financeira a um projeto indeciso. Em síntese, o diretor faz um panorama que dá espaço demais para os personagens e um estudo que se preocupa demais em se ambientar.

O senso de urgência, o que em teoria seria o mais complicado de se fazer num filme sobre um evento alarmante, acaba sendo o que Margin Call tem de melhor. O desenvolvimento, o que é crucial em um filme essencialmente feito para os atores brilharem, acaba soando precário demais, reduzido demais, preguiçoso até. A ambientação é contagiante (com uma trilha precisa de Nathan Larson), a montagem clipada das cenas do comércio de ações é fabulosa (que nunca faz o barato projeto parecer pobre visualmente), as interações entre os inteligentes personagens são estimulantes. Porém, não sentir nada emocional por aqueles personagens (indo de encontro á proposta do diretor) acaba sendo ruim para quem queria ser mais que um belo retrato histórico da economia.

Preciso, complexo, urgente e cínico, Margin Call é bom em suas pretensões, mas fica perigosamente na superfície das emoções do período que retrata. E "competente" pra quem almeja ser "brilhante" não é a melhor das opções.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Noite de Ano Novo
(New Year's Eve, 2011)
Comédia/Romance - 118 min.

Direção: Garry Marshall
Roteiro: Katherine Fugate

Com: Michelle Pfeiffer, Zac Efron, Robert De Niro, Halle Berry, Jessica Biel, Katherine Heigl, Jon Bon Jovi, Sofia Vergara, Ashton Kutcher, Lea Michele, Sarah Jessica Parker, Abigail Breslin, Josh Duhamel, Hilary Swank e Hector Elizondo

De vez em quando a profissão exige certos sacrifícios. Muitos leitores talvez imaginem - e não tiro a razão de vocês em termos - que a profissão de crítico de cinema é fácil, afinal basta assistir a filmes e escrever sobre eles. Muitos "colegas" escrevem de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação com o conteúdo e ficam felizes apenas com os triviais "gostei" e "não gostei", sem perderem tempo tentando decifrar os porquês da coisa toda (essa é outra discussão longa que talvez mereça até uma publicação especial por aqui).

O que vocês talvez não saibam, é que ao mesmo tempo em que vemos os mais interessantes, fantásticos, bem realizados, bonitos e inteligentes filmes do ano, também somos "obrigados" a assistir as piores atrocidades cometidas todos os anos e que chegam as telas do cinema. Garanto a vocês, que o impulso de levantar da cadeira e sair andando sem olhar para atrás acontece com certa frequência, mas em geral, sempre consigo ver aqui e ali, algum detalhe ou interpretação que seguram esse impulso de sair correndo.

Porém, às vezes, a consulta ao relógio e o "pensamento paralelo" tomam conta da mente e do olhar, e nos fazem realmente ameaçar sair de certas sessões, que não fazemos por respeito aos profissionais das distribuidoras que gentilmente nos convidam, ao público que quer saber (acho/espero/gostaria de pensar que) suas impressões sobre determinado filme e por convicção profissional, afinal nem tudo são flores nessa vida.


Noite de Ano Novo se enquadra nessa última categoria, e é sem dúvida uma das piores experiências cinematográficas do ano, fazendo frente a outras pérolas e que dificilmente não estará presente na nossa lista anual (pelo menos a minha) de piores filmes do ano, já que consegue a proeza de não ser nem engraçada, nem romântica, nem cínica, nem divertida e nem uma boa realização cinematográfica.

A direção fraquíssima de Gary Marshall (do Cult Uma Linda Mulher) é burocrática e nem um pouco inspirada, se limitando a mostrar ao público todos os muitos astros e estrelas que fazem pontas no filme. Parece mais cobertura de tapete vermelho de premiação do que um trabalho sério de direção cinematográfica. Em 2010, o diretor havia reunido um elenco tão estelar quanto esse para criar o açucarado e bobinho, mais infinitamente superior a esse aqui, Idas e Vindas do Amor, que falava dos encontros e desencontros de um grupo de pessoas durante o dia dos namorados americano.

Talvez falte a inspiração de uma data claramente romântica aqui, já que esse Noite de Ano Novo, não apela apenas para o pseudo romantismo, mas tenta dar "lições de vida", apresentar moribundos, mulheres frustradas com sua vida, homens buscando encontrar seu lugar na vida, casais brigando por dinheiro pelo primeiro filho a nascer em um novo ano (sim, pois é), cantores pop em crise, jovens rabugentos que encontram razões para curtir o ano novo e é claro, muito amor politicamente correto PG-13/conto de fada com príncipe encantado feito para uma geração cada vez mais infantilizada e aborrecida.


É desnecessário listar os muitos (mesmo) plots da história e me limito a dizer que invariavelmente todos são fracos e óbvios. O que se salva desse mar de gente talentosa (ou não) é muito pouco. A história da mulher frustrada (Michelle Pfeiffer) é talvez a única que funcione em alguns momentos, já que a atriz está bem e seu par em cena (o teen star Zac Efron) também não compromete. Talvez , e se Marshall não fosse tão egocêntrico, essa historia simplesinha poderia apresentar todos os mesmos elementos que ele espalhou por dezenas de histórias ruins em apenas uma narrativa.

Outros destaques pinçados aqui e ali, vão para a voluptuosa Sofia Vergara que trás sua Glória da serie de tv Modern Family, para o ambiente do filme e para a dignidade que De Niro tenta dar ao seu papel. Por outro lado algumas escolhas realmente não funcionam, como a ideia de colocar em um mesmo plot, dois dos atores mais irritantes (apesar de extremamente famosos e populares) do momento: Ashton Kutcher e Lea Michele (que também canta para alegria dos fãs).

Mais o maior problema das muitas historia do filme está nas formulas pré-estabelecidas e que muito de vez em quando funcionam. Mesmo com a intenção clara de ser apenas uma diversão escapista, é preciso que o que se propõe funcione nos quesitos que julga importante para o desenvolvimento de sua narrativa. Pura e simples matemática.


A tal "auto-ajuda romântica" significa que o filme é petulante a ponto de apresentar histórias que são mostradas como soluções mágicas para seus problemas. No caso de Noite de Ano Novo, isso fica claro no discurso sobre a importância da data feita pela personagem de Swank. Apesar de mal escrita e cheia de lugares comuns, na realidade de personagens vazios e completamente imbecis ela serve de inspiração para uma mudança de vida. Basicamente é assim que o filme enxerga seu público: criaturas vazias, recheadas de pipoca e refrigerante que não conseguem resolver nenhum de seus problemas.

O romantismo puro e melado do filme por sua vez, também atende a formula hollywoodiana do amor perfeito, cheia de demonstrações publicas de carinho, frases bregas e (novamente) lugares comuns. No fundo, é apenas uma reunião que parece não ter fim de todos os clichês das comédias românticas americanas.

E antes que leitores e leitoras atirem suas pedras, me chamando de insensível e afins, digo que filme românticos (aqueles realmente bons) funcionam da mesma forma que um romance/namoro/casamento geralmente funciona: não são perfeitos. Tem problemas, discussões, e não são resolvidos com uma cantoria, um abandono de carreira ou um buque de flores. As coisas - assim como nos bons filmes - são resolvidas com naturalidade, com uma boa conversa e com o sentimento de que estamos vendo (ou vivendo) uma experiência verdadeira. Muito longe do que as comédias românticas enlatadas tendem a fazer. Nelas, tudo é simplista, óbvio e relaxante, como um fast food, feito para que as pessoas não se sintam verdadeiramente tocadas por aquele filme. O importante é desopilar o fígado e esperar pela próxima bobagem semana que vem, sem pensar em deixar marcas, em aprender alguma coisa ou modificar seu pensamento por que alguém te disse alguma coisa, ou você (na tela) acompanhou uma experiência intrigante e honesta.


É quase uma confissão de ruindade quando seu único momento de real prazer e alegria acompanhando o filme, venha dos créditos finais quando vemos o que os atores estavam fazendo fora das câmeras e que talvez não puderam fazer em frente às mesmas: divertir o público.

Noite de Ano Novo só não é o pior filme do ano, por que infelizmente em 2011, tive o desprazer de ver outros filmes, mas certamente é a pior comédia romântica do ano e uma vergonha para a carreira de todos os envolvidos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Gato de Botas

(Puss in Boots, 2011)
Aventura/Comédia - 90 min.

Direção: Chris Miller
Roteiro: Will Davies, Brian Lynch, David H. Steinberg, Tom Wheeler e Jon Zack

Com as vozes de: Antonio Banderas, Salma Hayek, Zach Galifianakis, Billy Bob Thornton e Amy Sedaris.

Mesmo depois dos pavorosos Shrek 3 e Shrek para Sempre, a Dreamworks continua apostando em sua "gansa dos ovos de ouro", agora com o spin off de Gato de Botas, o carismático personagem introduzido no segundo filme da série. Nesse prequel, conhecemos a origem do personagem, suas primeiras aventuras, seus aliados, família e inimigos.

O grande problema de Gato de Botas é que falta a ele a ousadia e o humor ácido que caracterizou os primeiros dois filmes da serie Shrek, ao mesmo tempo em que o longa investe em desnecessárias sequencias de dança e apresenta um vilão desinteressante e que atrapalha o heroísmo do Gato, que aqui está mais afetado, "libidinoso" e aventureiro do que nunca. Se na série Shrek, o personagem sempre surgia como o coadjuvante que roubava a cena, aqui ele tem de aparecer como grande herói e figura central do enredo, o que nem sempre é sinal de bons trabalhos (vide o péssimo Piratas do Caribe 4), mas que nesse caso não incomoda, já que o roteiro deixa de lado a atmosfera mais cínica/adulta/ácida do humor dos filmes do ogro verde para apostar na aventura infanto-juvenil com ligeiras pitadas de humor mais adulto.

Na história, vemos o Gato se reencontrar com seu "irmão de sangue", o também personagem clássico das histórias infantis Humpty Dumpty (que não é tão conhecido por aqui), um "homem" que é um ovo (enfim), após ter sua tentativa de roubo dos feijões mágicos ser frustradas por uma ladra conhecida como Kitty Patas Macias, que trabalha com o garoto ovo.


O filme então mostra o motivo para que Gato e Humpty tenham se distanciado, o que é pretexto para apresentar ao público em um flashback, a historia de origem do felpudo de botinas, que é óbvia, cheia de clichês, mas que não deixa de ser interessante.

Quando o filme retoma ao presente, Gato e Humpty acabam se reunindo para conseguirem encontrar os tais feijões, um velho sonho da dupla. Para quem não se recorda, os tais feijões mágicos são aqueles mesmos que João recebeu em troca de uma vaca e que davam acesso ao castelo do Gigante no céu, onde ele encontrou o ganso dos ovos de ouro. Mais uma vez, a Dreamworks aumenta o escopo de seu "mundo Shrek" incluindo outros seres encantados que até então não tinham feito suas estréias na serie.

Dizem, e eu concordo, que medimos o valor e importância de um herói, de acordo com a sensação de perigo que seu antagonista provoca no público. No caso de Gato de Botas esse é mais um elemento que enfraquece o filme, já que o personagem vive repleto de dúvidas e suas "mudanças de humor" apesar de justificadas pela historia, não soam razoáveis. Além do fato de que o público facilmente identifica o vilão, assim que ele surge em tela, talvez calejados por uma serie de filmes que apostam na mesma ideia.


Tentando ao máximo não estragar a diversão de quem vai assistir ao filme basta dizer que: se você imagina saber quem é o vilão de cara, sim, você acertou. Outro problema é que o filme parece muito mais longo do que a metragem indica (pouco mais de 80 minutos), graças ao ritmo inconstante da história, que começa lenta e explicativa - o interlúdio com a origem do Gato ajuda a dar essa sensação - para descambar em uma espiral de ação amparada por gansos gigantes, máquinas voadoras, destruição de cidades inteiras e uma história de amizade e amor felino.

Amor felino que surge do encontro do Gato e de Kitty e que começa em um duelo de dança (pois é), que faz mais mal do que bem a história, já que incomoda como número musical e poderia facilmente ser substituído pelo flerte e conquista de maneira menos "pseudo-erotica", como a própria Dreamworks tinha feito no primeiro Shrek. Mas a irregularidade do filme, faz o ritmo da produção mudar de forma abrupta, saindo de um início que apesar da ação (a ótima perseguição pelos telhados de San Ricardo, por exemplo) era mais contido, para a ação controlada (o grupo no pé de feijão e o encontro com os tesouros do gigante), finalizando em uma resolução apressada, que tenta apresentar uma conclusão para todas as historias paralelas (o amor felino, redenção de personagens, a ameaça do invasor gigante), sacrificando conclusões mais elaboradas.

Visualmente, Gato de Botas continua o bom trabalho da Dreamworks, e é um avanço visual na série Shrek, mas ainda fica longe do trabalho da Pixar (mesmo quando erra, visualmente continuam impecáveis), da Nickelodeon/Paramount com Rango e da Warner com a mais bonita entre todas as animações no ano, Happy Feet 2. As cenas de ação e as que precisam da dimensão monumental (como a escalada do pé de feijão) são muito boas, com ótimo uso de travellings, uma paleta de cores que se apóia nas cores primárias e ótimos efeitos de luz, que dão realismo as sequencias.


Mesmo assim, fica um gosto agridoce na boca. Uma premissa interessante, a criação de um anti-herói animado, um coadjuvante aparentemente interessante, mas que se complica com todas as ideias que pretende desenvolver, fazendo do terceiro ato uma correria desenfreada. Falta aquela acidez que fez dos dois primeiros Shreks obras que resistirão ao tempo (uma aposta minha), falta aquele deboche com o clima de conto de fadas. Gato de Botas é muito reverente com a ideia de aventura de ação e as poucas piadas que realmente funcionam são eclipsadas por números de dança e um macacão dourado.

Obs: o 3d é desnecessário, sendo apenas mais um desnecessário acréscimo ao preço do ingresso.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011


A grande diferença entre um grande clássico e um filme cult é simples: Cult é aquele filme que você gosta e não necessariamente é tão bom assim (alguns até são), mas que por algum motivo você adora, se diverte e indica aos amigos. O caso é que na ânsia de encaixar esses filmes em alguma sessão, o Fotograma resolveu criar essa nova sessão, onde aqueles filmes amados e cultuados serão aqui comentados. Sempre de maneira leve e divertida, como pede um filme cult.


Parceiros do Crime
(Cruising, 1980)



Se todo filme fosse uma banda, diria que esse longa com certeza seria o Queen. “Parceiros da Noite” (Cruising nos Estados Unidos, interessante trocadilho entre perseguição policial e "cruising in a gay bar") é um dos melhores filmes policiais do cinema americano, estrelando o lendário Al Pacino, na minha opinião, o maior ator americano de todos os tempos. 


O filme dirigido por William Friedkin (de O Exorcista), foi lançado em 1980 e retrata muito bem a cena gay de Nova York do fim dos anos 70. A história mostra a caçada de um detetive iniciante, Steve Burns (Al Pacino), em busca de um temido serial killer, que assassina apenas homossexuais, que ele seduz nas noitadas da cidade. Para achar o meliante, Burns se infiltra na cena gay da cidade nova iorquina, alugando um apartamento na cidade ao lado de Ted Bailey, interpretado por Don Scardino, um jovem homossexual que acaba estreitando uma amizade com o detetive. 


Logo essa vida dupla de Steve Burns acaba criando problemas em seu relacionamento com sua namorada Nancy, interpretada por Karen Willis, deixando a cabeça do detetive em um verdadeiro mar de confusão e dúvidas. Inclusive você terá muitas dúvidas no fim do filme, após a resolução desse mistério. Afinal William Friedkin deixa muitas perguntas no ar, o que é algo essencial para um filme como esse se tornar um verdadeiro clássico, fazer as pessoas pensarem e refletirem sobre a trama. Coisa que parece cada vez mais escassa no mundo, afinal quase todo mundo quer tudo mastigadinho e bonitinho.

A atuação de Al Pacino é simplesmente genial. Muito bem pensado todo o clima de dúvida que passa na cabeça do seu personagem e por parte do diretor a exploração dos elementos S&M de todo o filme. Durante as pesquisas para o longa, William Friedkin esteve em contato com muitos mafiosos que eram proprietários de bares gays e saunas em Nova York. 

A violência em algumas cenas, podem chocar alguns telespectadores, como aquela que alguns policiais despem um dos suspeitos pelo crime e além de bater e torturar, ainda obrigam ele a se masturbar na frente de todo mundo na delegacia. 

Outra cena emblemática é quando o personagem de Al Pacino vai até uma danceteria S&M tentar achar o serial killer, suas reações de espanto no início, com todo o clima do lugar onde todos homens estão caracterizados como "Freddie Mercury/Rob Halford em 1979" e a maneira em que ele entra no clima do ambiente, com direito a mordida na toalha de lança perfume com seu parceiro da noite. Essa cena mostra o quanto Pacino é um ator brilhante!

Na mesma cena da boate, um outro fato que merece destaque é a música que toca no lugar, é de uma obscura banda de rock chamada Rough Trade, o nome da música é Shakedown e me lembrou muito a sonoridade do Queen na época do The Game com todo aquele clima “Hell Bent for Leather”, onde não existia limites nem Aids. O resto da trilha também é muito interessante, no meio de tanta banda obscura tem até uma música do The Germs, ótima banda de Punk Rock de LA. Diria que é praticamente impossível encontrar essa trilha, mas recomendo ir atrás e conferir porque vale à pena.

Na época do lançamento o filme foi alvo de muitos protestos por parte da comunidade gay que achou que o filme retratou os homossexuais de maneira preconceituosa (Nota do Editor: se tiverem interesse, aconselho a irem atrás do documentário Celluloid Closet, onde essa polêmica é ilustrada)

Particularmente acho que isso é um exagero, afinal isso é apenas um filme que visa o entretenimento e nada mais! Apesar disso, a trama em geral é ótima, sendo um dos melhores filmes estrelando Al Pacino em atuação excelente. Corram atrás do DVD (que sai em Dezembro), ou até mesmo o VHS!


terça-feira, 6 de dezembro de 2011


Sim amigos, ressuscitamos os nossos velhos tops, que agora passaram a aparecer por aqui semanalmente sempre ligados a um dos lançamentos da semana. Nessa estreia, aproveitamos a deixa dada por Os Especialistas lançado na última semana, para prestarmos nossas singelas homenagens ao melhor (ou não) do cinema de ação dos anos 80. Não levem muito a sério, já que toda lista é complicada e sempre polêmica.

Rambo II

Se o primeiro Rambo tinha preocupações pseudo-sociais e um discurso contrário a guerra do Vietnã, o segundo filme assumiu a postura “homem de bazuca contra a humanidade”. Nele, nosso herói John Rambo, enfrenta metade do exército vietcongue para resgatar prisioneiros americanos presos durante a guerra. Em meio a eletrochoques, sanguessugas tiradas a faca em meio a poços de lama, Stallone alcança um novo nível de carnificina nunca antes visto na história do cinema brucutu. Infinitamente inferior ao primeiro, mas uma verdadeira aula de cinema tosqueira, ainda introduziu a famosa faixa vermelha e o ritual da “transformação” do personagem que resistiu as mudanças de mídia e acabou até na versão animada do personagem (quem lembra?)

Cobra

Falar que Cobra é um grande filme é uma bobagem colossal digna de punição severa, mas é impossível negar que todo o exagero, clichês, frases de efeito ruins, caracterização e a “interpretação” de Sylvester Stallone fizeram de Marion Cobretti, um personagem icônico nos anos 80. Aqueles que tiveram o prazer (ou não) de assistir ao filme certamente lembram de seu cadillac hot Rod preto rasgando a cidade em busca do serial killer obcecado pela Valquíria (e posteriormente esposa de Sly) Bridget Nielsen. Como não esquecer do café da manhã onde praticamente tudo se transforma um viscoso líquido consumido ferozmente por nosso herói, ou do bordão que resistiu ao tempo: “você é a doença e eu sou a cura”. 

Nico – Acima da Lei

É fato que hoje Steven Seagal mais parece um leão de chácara aposentado e que seus filmes de “ação” são invariavelmente lançados direto em DVD, mas, no final dos anos 80 e início de 90, Seagal chegou a rivalizar com a “santíssima trindade Brucutu” (leia-se Sly, Schwarza e Van Damme) como herói de ação favorito da moçada. Seu primeiro filme, que começa basicamente apresentando Seagal ao público (misturando sua historia pessoal a do personagem, com direito a fotos de infância e de seu treinamento em artes marciais no Japão), aposta da fórmula fácil do policial que busca justiça em meio ao mundo corrupto. Diferente de Stallone e Schwarzenneger que se empunham pela força física e por muito poderio armamentisciso, Seagal, assim como Van Damme, fazia de seus filmes um festival de lutas coreografas onde ele como astro, tinha a chance de mostrar sua técnica ao público. Continua marcante o visual rabo de cavalo, vestuário quase todo preto e a habilidade de vencer os adversários praticamente sem se mexer. Longe de ser um grande clássico do cinema, Nico – Acima da Lei é um retrato de sua época, onde o homem vencia o sistema sem se preocupar em explodi-lo se fosse necessário.

Braddock - O Super Comando

Falar de Chuck Norris – hoje – é quase como falar do Saci Pererê ou de Vampiros. Sabe-se lá por que, Norris adqiruiu uma aura quase sobrenatural, e no início da popularização da internet, transformou-se no Messias de uma geração. São históricas as listas de “coisas que o Chuck Norris faz”, indo desde destruir o sol com seu Roadhouse Kick, ao de curar o câncer apenas ameaçando o vírus com uma cara feia. O mais engraçado é notar que durante os anos 80, Norris foi sempre considerado um “patinho feio” dentre os heróis de ação, mesmo sendo um campeão de artes marciais (quem não lembra da luta entre Norris e Bruce Lee em Voo do Dragão) e tendo seguido a risca os passos do cinema de ação da época. Em Braddock – Super Comando, o coronel James Braddock (Norris) lidera uma equipe de resgate para trazer de volta para casa, soldados americanos presos durante a guerra do Vietnã. Esse talvez seja o maior dos exemplos do termo exército de um homem só, e mesmo que hoje esteja mais do que datado, é um representante mais do que adequado de uma época mais simplista e displicente.

Comando Delta

Dois anos depois de Braddock, Norris junta forças a um dos maiores atores americanos da história (o lendário Lee Marvin de A Queima Roupa, Inferno no Pacífico, Doze Condenados, Os Profissionais entre muitos outros, aqui em seu ultimo filme) para liderar uma equipe que tenta a todos os custos tomar o controle de um avião sequestrado por terroristas libaneses. Em uma época pré-onze de setembro e quando para os norte-americanos terroristas eram apenas mais uma curiosa forma de criminoso, a forma de agir da trupe liderada por Norris e Marvin reflete diretamente esse pensamento vigente. Atire primeiro pergunte depois, sem muita preocupação com os resultados diplomáticos, ONU, direitos humanos, motivações religiosas, críticas ao “império americano” e afins. Comando Delta deixou de ser um longa de ação poderoso, apesar de ainda causar certa tensão pelo ambiente em que se passa, e hoje funciona melhor como análise comportamental de uma época, que hoje jamais seria retratada da mesma forma.

O Grande Dragão Branco

O clássico de ação com Jean-Claude Van Damme foi lançado em 1988 como uma variação do “cinema de macho” que se instalou por toda essa década. No lugar dos anabolizados brucutus com suas armas gigantes, tínhamos um definido lutador, ex-bailarino, que contava uma história com ensinamentos marciais ligados a um torneio sangrento disputado nos confins undergrounds de um país exótico. O interessante do filme é justamente tomar de assalto a cultura oriental das lutas e encaixar numa trama tipicamente americana de filme de ação, com um protagonista irrepreensível, uma trama rasa até o fim e um vilão completamente odiável. Ao investir em coreografias elaboradas e o belga carismático como personagem principal, O Grande Dragão Branco acabou virando um Cult dessa geração. E com toda a razão, afinal até hoje a diversão presente no projeto não foi igualada por nenhum projeto do sub-gênero.

O Justiceiro

Muito mais um veículo para demonstração da virilidade de Dolph Lundgren do que uma adaptação respeitável ao emblemático personagem, a trasheira O Justiceiro foi lançada em 1989 na esteira do Batman de Tim Burton. Numa época em que a Marvel,á beira da crise, ainda não sabia do potencial financeiro que seus personagens tinham, os direitos eram vendidos para qualquer um. Não por acaso, o Quarteto Fantástico teve um filme em 1994 produzido pelo ícone trash Roger Corman. Com orçamento mínimo (9 milhões), roteirista de Karate Kid e o indispensável brucutu sueco, o filme foi uma bomba em todos os sentidos, mas se assumia de tal forma que virou um Cult de menor expressão em meio ás produções da época. Um bom exemplo do descontrole que o cinema machão pode causar.



Fuga de Nova York

O retrato contrastado de John Carpenter, mesclado entre o altamente estiloso e o distópico alarmante, atraiu o público da época com ação envolvente e a criação de um personagem carismático: Snake Plissken. Com a atuação do eterno canastrão Kurt Russel, o protagonista invocava os oponentes com seu tapa-olho característico e, eficiente e durão ao extremo, acabava sendo tão habilidoso e indestrutível quanto um Stallone, mas tinha um roteiro que calcava um tanto de sua atmosfera no crível, o que transformava Plissken em um ícone um tanto (mais não muito) mais verossímil que seus colegas de década. Assim como Predador, porém, Fuga de Nova York servia como exemplo do gênero oitentista mas contava com uma trama envolvente, não servindo apenas como palco para a masculinidade de seu protagonista, o que ocorreu tanto em Cobra quanto em Comando para Matar.

Predador

Ícone entre os filmes de Sci-fi, Predador era um filme fechado e impecável em suas pretensões antes de se tornar um monstro megalomaníaco gerador de franquias e derivados. Sendo um dos primeiros longas a utilizar a consagrada fórmula de “time de especialistas/mortos ambulantes que caçam o vilão”, que já se fez presente em The Thing, Doom e até no novo (e bacana) Predadores. O filme de John McTiernen contava com um bombado e carismático Schwarzenegger para tocar sua narrativa, ao lado de coadjuvantes simpáticos e dispensáveis como Carl Wheaters. Mesmo tendo um ato final que se concretizou como a gênese de diversos clichês do cinema de ação (como o herói escondido na lama), Predador é um raro veículo masculinizado que funcionaria mesmo sem seu brucutu protagonista, o que só eleva a qualidade do projeto que, mesmo com seu raso script, diverte até hoje.

Comando para Matar

Síntese máxima da ação anabolizada dessa época, Comando para Matar é um legítimo exemplar da era Reagen estadunidense: assexuado, hiper-violento, conservador e extremo adepto dos bons costumes, a besteira filmada diverte até hoje justamente pelos seus problemas. Os efeitos datados, a trama estúpida e a glamour máximo do action hero, Commando serviu como palco para a demonstração de virilidade do mais forte entre os heróis da época, o grande Schwarza. Vivendo John Matrix, que tinha a nobre causa de salvar sua filha e buscar vingança (numa das sinopses mais revolucionárias já feitas), Schwarza entrava com uma fúria retumbante, e munido de uma bazuca de quatro canos, no surtadíssimo clímax do filme, que extrapolava as doses de ação e violência ao trazer o Exército-de-um-homem-só massacrando a guarda pessoal do vilão. Ficou tão bacana e exagerado que motivou até o clipe de “Mirando”, do grupo Ratatat.



domingo, 4 de dezembro de 2011

Um Dia
(One Day, 2011)
Drama/Romance - 107 min.

Direção: Lone Scherfig
Roteiro: David Nicholls

Com: Anne Hathaway e Jim Sturgees

Dexter e Emma estão juntos em um quarto, em 1988. Felizes, ambos conversam de forma leve, tranquila, como se desfrutassem da personalidade de cada um, do coração de cada um. Falam sobre as ambições de vida, afinal acabaram de sair de suas formaturas. Ele, meio bêbado e despojado. Ela, retraída e desajeitada. Ambos se completam, querem ficar juntos, querem ir pra cama. Ensaia-se uma relação, mas nada se concretiza. E quando vai acontecer, não acontece.

Por 20 anos.

Um Dia, novo filme de Lone Scherfig, o primeiro depois da aclamação do superestimado Educação, trabalha com essas idas e vindas típicas das comédias românticas, mas as adapta para os dramas da vida, tanto profissional quanto pessoal. Essa incursão, seja por desonestidade ou por ignorância, acaba tornando mais bonita a roupagem do romance, mas não torna as falhas menos visíveis.




Baseado no livro de sua própria autoria, o roteiro de David Nicholls apresenta seus personagens de forma eficiente, mas acaba se beneficiando de estereótipos para essa eficiência. Não estranhe se achar um tanto familiar o casal protagonista; Dexter é o mulherengo convicto que quer aproveitar a vida, Emma é a freak de laboratório com problemas de auto-estima. O trabalho dos coadjuvantes é minimizado, com razão. Em um longa que demora vinte anos para se desenvolver, se focar no relacionamento é o mais prudente a se fazer. Porém, se a aproximação é válida, se aprofundar é perigoso. Na superfície, estereótipos podem ser assumidos (como em O Vencedor) ou satirizados (como na série Pânico). Os problemas começam quando o roteiro acredita no estereótipo que sequestrou. E Um Dia se sai pior do que o esperado justamente por acreditar e criticar, ao mesmo tempo, esse estereótipo.

Criticar, se entende, por quando o projeto toma de assalto a estrutura do romance e o encaixa na "vida real". Não estamos diante de exemplares leves como Nothing Hill e descompromissados como A Proposta. O drama sensível do filme o aproxima mais de exemplares como o fenômeno teen Um Amor para Recordar. Não se realiza uma crítica explícita a glamorização do romance, mas se entende. Principalmente pelo papel que a cultura da época faz no filme (o que debaterei á frente). E por contar uma história tão extensa, que perdura por duas décadas, o filme arruma um artifício para não se tornar enfadonho: contar um dia de cada um desses anos.

O que, em síntese, cria outro problema. Para um longa que demora um ano até caminhar para a próxima cena, Um Dia tem unidade demais. Nada parece ter acontecido nesse meio tempo; e o que aconteceu é contado de forma didática pelos personagens, fruto do engessamento promovido pela estratégia do "um dia por ano". Os encontros vão ocorrendo de forma natural, às vezes com uma distância enorme entre os personagens, mas pouca coisa muda. É sempre um Jim Sturgess, no terreno caricato que permeia sua limitação, sendo vítima da trasheira televisiva e da fama e uma Anne Hathaway triste e procurando fazer o que ama, mas sem sucesso.





E isso concretiza a ideia do estereótipo e nos apresenta a visão pouco amigável que o filme tem da própria época que se situa. Não é por mera proximidade com a época atual que o projeto se passa nos anos 90; Um Dia tenta justificar o fracasso de seus personagens devido ao tempo que vivem. Emma é inteligente demais para a cultura dispensável que se cria ali, Dexter é o produto que quer aproveitar a vida e perde o controle dela ao se aprofundar no ridículo do ambiente em que vive. É aquele tique de sempre das comédias pseudo-inteligente, fruto da geração Nick Hornby, de se referir a cultura pop a cada minuto para soar relevante. Em Um Dia, porém, o processo é inverso: a citação é pelo desapego á essa cultura, que pode ser tida como irrelevante para o filme. Pode até soar na verdade um amor a tudo que se fala, mas não se engane: é criticar o pano de fundo para tornar crível a tragédia retratada. Emma e Dexter são vítimas do tempo ali citado, o mesmo do romance idealizado e da televisão cheia de porcarias como programas de fofoca e de videogames. É injusto criar uma metáfora contra uma época que parece ter acolhido tão bem os diálogos do filme.

Mas não adianta. No fim, é a mesma história de sempre. Ao optar por fazer (ou tentar fazer) chorar, o filme denuncia a pretensão de querer ser bem mais inteligente do que é. Bicicletas, segundas chances e passeios na colina á parte, Um Dia é só uma comédia romântica que insiste no drama para fingir que não tem os três atos pertencentes ao gênero. Com direito á trilha bonitinha de Rachel Portman (que se sai bem na escolha das músicas da época, como a excelente Praise You) e tudo. O que difere as viradas idiotas de filmes como A Verdade Nua e Crua para o filme é o fato dos diversos anos que passam. Se Katherine Heigl fica chateada com seu amor por alguns dias para depois terminar com ele, Anne Hathaway demora uns dois anos ou três.

Scherfig, que parece demonstrar ser a mais elitista e moralista autora do movimento Dogma 95, consegue refletir boas escolhas técnicas á produção, como ângulos sempre bem compostos (ainda que através de uma decupagem clássica) e uma fotografia estonteante do sempre competente Benôit Delholmme. Ao ser um tanto sutil (mais que o roteiro) ao retratar Emma e Dexter como pessoas complementares ao colocá-los nos cantos opostos da tela, Scherfig torna evidente a competência estética que possui. Porém, ter um bom olho para composições (como o belo quadro aberto de Emma pulando na piscina) não basta. O moralismo já visto no desfecho covarde de Educação se exacerba aqui, ainda de forma não tão evidente. Dexter é um perdido na vida, que só consegue a redenção através de Emma. Por que criar uma reviravolta tão maniqueísta só para, paradoxalmente, soar realista? E não é apenas um mero defeito; se não fosse essa virada final, o projeto poderia até ser eficiente em sua superfície.



Há em Um Dia um longa dramático sobre a verossimilhança de um romance, um retrato "coming of age" para desmistificar o esquemático jogo de romances idealizados. Mas há, também, um chantagista e arrogante filme que se julga inteligente e acima das culturas irrelevantes, mas que na verdade é só um caça-níquel procurando as lágrimas de mulheres desiludidas. E ao ter a audácia de forçar o espectador para trazer uma saudade e nostalgia do casal, ao encaixar um dia distinto no início do relacionamento ao final da película só pra arrancar um choro a mais, se constata que o filme é quase tão maniqueísta quanto a mais vã comédia romântica. Muito bonitinho, claro. Muito mais racional nas situações (como o conflito da gravidez e com a mãe de Dexter), mas inocente em igual proporção no discurso.

O que Um Dia tem de mais evidente é a lastimável tentativa de acreditar naquilo que critica.