quinta-feira, 22 de setembro de 2011


Missão: Madrinha de Casamento
(Bridesmaids, 2011)
Comédia - 125 min.


Direção: Paul Feig
Roteiro: Kristen Wiig e Annie Mumolo


Com: Kristen Wiig, Maya Rudolph, Rose Byrne, Wendi McLendon-Covery, Ellie Kemper e Melissa McCarthy


Quando vamos falar de comédia, uma coisa já precisa ser deixada bem clara: de modo geral, aquelas voltadas ao público feminino - as famosas comédias românticas - são terrivelmente ruins. Pode parecer uma generalização, mas na verdade é pura estatística. A cada Diário de Bridget Jones lançado, temos hordas de mediocridades - vide A Proposta -  e também verdadeiros atentados terroristas á intelectualidade - consulte os trabalhos recentes de Katherine Heigl . Atualmente, não podemos dizer que a situação melhorou de forma agradável - a moda de filmes ''mulher bomba-relógio'', chegou até no Brasil, com desastres lamentáveis como Qualquer Gato Vira-Lata . Moda essa, aliás, que surgiu justamente dos longas protagonizados por Heigl.

Ironicamente, a atriz que cometeu pérolas como A Verdade Nua e Crua e Par Perfeito, foi revelada nas telonas justamente por um dos criadores mais inventivos e originais da atualidade: o aclamado Judd Apatow. Detentor de personagens verdadeiros e que roubam a atenção do espectador justamente por sua tridimensionalidade singular, - algo difícil de se encontrar no  mercado do cinema - Apatow mal sabia que estava trazendo ao mundo em Ligeiramente Grávidos uma atriz que viria a  produzir - e atuar - comédias femininas desprezíveis e imbecis. Com Bridesmaids, em 2011, o produtor parece vir trazer um pedido de desculpas, e também um desvio necessário ao fluxo que as comédias destinadas ás mulheres seguiam.


Escrito por Annie Mumolo e Kristen Wigg - esta também protagoniza a película - Bridesmaids trás um tema  mais que surrado, clássico de comédias destinadas ao público feminino, trabalhado anteriormente em diversas ocasiões: o dilema da mulher balzaquiana e o casamento. Justamente por estabelecer uma premissa já tão conhecida pelos espectadores, Bridesmaids trás desde sua concepção um espírito de subverter o gênero, ainda mais por contar com alguém do estilo de Apatow apadrinhando a produção. A trama, como já é de costume dos filmes de Judd Apatow, não representa grandes diferenciais na sua estrutura, mas ao revelar seus personagens e suas interações minuciosas, ganha grandeza.

Nela, conhecemos Annie (Kristen Wigg) uma mulher solteira de 30 e poucos anos, que não tem um relacionamento sério, e apenas é a ''peguete'' de Ted (Jon Hamm, em aparição hilária e não creditada). Ainda frustrada pela falência de sua loja de doces, Annie encontra felicidade na companhia da amiga de infância Lilian (Maya Rudolph). Tudo começa a mudar, entretanto, quando Lilian é pedida em casamento. Quando os preparativos começam, também se iniciam os pesadelos de Annie, que se entristece por não ter um namorado.  Helen (Rose Byrne) dondoca arrogante que preparará o casamento, vira  amiga inseparável de Lilian, gerando desgosto e ciúmes por parte de Annie. Então, entre reuniões para damas de honra e chás de panela, começam as gags.


Num cenário atual onde comédias para "macho" fazem sucesso de público e por ventura também de crítica  - Se Beber, Não Case! é o exemplo mais citado - entra em cena uma comédia destinada ao público feminino, mas que trás um bom humor e gags de qualidade tão elevada quanto às do filme de Todd Phillips. É explícito de onde Bridesmaids bebe da fonte. A cena emblemática: o grupo de mulheres que protagoniza o filme (a noiva e suas cinco damas de honra) anda em câmera lenta, unido, com uma música estilosa ao fundo. Sobra espaço até para a gordinha engraçada do grupo levar uma pochete cruzada na barriga - algo que o personagem de Zack Galifianakis já eternizou em Hangover. Além dessas referências claríssimas, é também muito interessante ver como um filme teoricamente ''feito pra mulher'' usa e abusa de palavrões sem pudor, otimizando todos para construções de ótimas gags. Há até humor escatológico bem utilizado - e sabemos a linha tênue que separa o hilário do estúpido, quando o assunto é "Gross humor" .

Mas o que nos faz comprar a idéia de Bridesmaids é sua verdade. Realismo que não encontramos em enlatados - os da TV e os do cinema. Não é a toa que Judd Apatow topou produzir o projeto. Seu olhar tridimensional ao retratar personagens encontra reflexo no roteiro do longa.  Por seus trunfos de criar personas cristalinas, o script de Bridesmaids só aumenta em comparação com similares. Só para tomar um exemplo, comparemos este filme com Sex and The City - e aqui me prenderei a avaliar apenas a obra cinematográfica, e não a série de TV. Ora, os dois produtos apresentam tramas semelhantes -  a ''já não tão balzaquiana'' Sarah Jessica Parker também estava à procura de um marido no longa de 2008 - mas desenvolvimentos completamente diferentes. Sex and The City se mostra extremamente superficial em duas vias: tanto naquela que se refere ao sexo, mas também naquela que trata de suas personagens - que, convenhamos, são meras peruas que não despertam muito além do que pena, por suas vidas fúteis. Em Bridesmaids, o elo criado com o espectador é mais fundo, pois a construção das personas é mais verdadeira. É possível perceber isso nos diversos diálogos sinceros entre as protagonistas. São toques sutis, mas muito significativos.


Só que nem tudo são flores,  em Bridesmaids. Apesar de, desde já, ser uma comédia importantíssima por subverter um gênero que andava muito mal das pernas, o roteiro é conduzido por uma estrada que não inventa, e demonstra ser um tanto quanto comum. Se na hora de desenvolver personagens há o sucesso, com atuações muito interessantes - destaque para  o talento de Kristen Wiig para a comédia - o mesmo brilho não surge na hora de prender cada gag e cada personagem numa história em si. Entre momentos hilariantes e  diálogos interessantes, há um vazio de história, que se baseia simplesmente na disputa entre duas mulheres pela amizade de uma terceira. Assim, o longa perde fôlego ao longo da exibição, se tornando uma obra mais modesta do que dava a impressão de ser.

Usando a linguagem de televisão desde o primeiro frame do filme, o diretor egresso dos seriados de TV, Paul Feig, consegue sucesso ao aplicar seu modo de dirigir séries como The Office, em diversas sequências de Bridesmaids. Afinal, em The Office a vergonha alheia dita as risadas, e aqui também funciona assim.


Nada de negativo, entretanto, tira a força simbólica que Bridesmaids tem. Em tempos onde há roteiristas cretinos fazendo humor fácil e babaca para encaixar no suposto '' gosto'' das mulheres em geral, é muito bom ver obras subvertendo gêneros e ganhando reconhecimento com isso - Bridesmaids faturou muito nos EUA, tanto em crítica, como em público. Em vez de preparar cotas para um tipo de comédia ''para mulheres'' no mercado do cinema, é muito melhor retratar o quanto de humor tipicamente masculino elas conseguem desenvolver por si próprias. Afinal, não é isso que é igualdade dos sexos?



quarta-feira, 21 de setembro de 2011


The Rum Diary




O inspirado trailer do filme baseado na obra do gênio Hunter S. Thompson já introduz seu surrealismo com um Johnny Depp com os olhos estourados, em seus primeiros momentos. O absurdo do jornalismo gonzo, que o escritor criou, é levado ao extremo, como nas aventuras de Paul Kemp (personagem de Depp) desbravando os locais de Porto Rico. A trilha sonora excelente, aliada á outros momentos de surrealismo absoluto (como a língua gigante e o boliche de Rum) tornam The Rum Diary como um sério candidato a comédia mais interessante do ano. Uma excelente prévia, para dar o primeiro gosto da nova incursão na mente genial de Thompson.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

J.Edgar



O formidável trailer do novo filme de Clint Eastwood apresenta, com um tom mesclando melancolia e respeito, a figura de John Edgar Hoover para o espectador. Com um Leonardo DiCaprio transformado para o papel (aparecendo inclusive sob quilos de maquiagem), a prévia conta com diversas transições temporais as grandes etapas da figura histórica, sejam elas pessoais (o relacionamento velado com Clyde Toulson) ou profissionais (como as brilhantes passagens no FBI e com o presidente Kennedy). O logo antigo da Warner dá a impressão certa de um filme mais clássico. Os takes surpreendentemente arrojados de Eastwood, vigorosos, dão uma expectativa á mais para esperar ansiosamente, já que aqui parecemos ter uma direção menos contida do octagenário gênio. A belíssima trilha, mesclada com a fotografia monocromática e estupenda de Tom Stern, dão ao trailer a qualidade que se espera de um projeto de tal magnitude. E, por incrível que pareça, é difícil ver o ritmo biográfico e a maquiagem de DiCaprio e não se lembrar de Charles Foster, o Cidadão Kane.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011


Informers - Geração Perdida
(The Informers, 2008)
Drama/Thriller - 98 min.


Direção: Gregor Jordan
Roteiro: Breat Easton Ellis e Nicholas Jarecki


Com: Jon Foster, Austin Nichols, Amber Heard, Billy Bob Thornton, Mickey Rourke, Kim Basinger, Winona Ryder e Rhys Ifans


Bret Easton Ellis é um escritor polêmico. Autor de um clássico da literatura de língua inglesa, Psicopata Americano, Ellis tem suas obras adaptadas para o Cinema com baixos orçamentos, justamente pelo teor provocativo e controverso. Roger Avery, parceiro de Quentin Tarantino em Pulp Fiction, adaptou com maestria (e fidelidade, nas palavras do próprio Easton Ellis) o livro Regras da Atração, uma comédia adolescente extremamente satírica e ácida, debatendo sobre o mundo jovem de uma maneira crua e sacana, como o próprio cartaz do filme sugeria na época (http://migre.me/5G76R). O slogan do filme, "Nós todos agimos por instinto", é perfeito para contextualizar todas as obras do autor. 

Em Psicopata Americano, Patrick Bateman agia por um impulso - impossível de conter - de matar. Em Regras da Atração, o sexo unia a todos, o exemplo máximo do instinto, o outro espectro das extremidades humanas. Portanto, nesse quesito, The Informers até mantém uma coerência com o resto da obra do autor, o que o belo cartaz demonstra, fazendo uma singela referência ao mundo "intocado" das aparências. As necessidades básicas de uma juventude fútil são o que move o filme desde a batida de carro até o take final. O problema de Informers não é a proposta no subtexto; é a decisão do diretor Gregor Jordan em criar uma narrativa fragmentada. 

O intuito inicial do roteiro de Nicholas Jarecki e do próprio Easton Ellis, era justamente criar uma sátira a esse mundo adolescente oitentista. No livro, temos personagens completamente distintos e um núcleo até sobrenatural. A moral desvirtuada da Geração Perdida era colocada em debate num tom extremamente irônico, bem característico de Ellis. Concebendo um texto absurdo (o que é perfeito, levando em conta o que é debatido) em sua abordagem, Ellis e Jarecki introduziram até mesmo o personagem vampiro do livro, escalando Brandon Routh para o papel. A questão principal é que a sátira inteligente e explosiva de 150 páginas foi cortada para 94 no roteiro final. E Jordan decidiu que o melhor a se fazer era um drama de tramas cruzadas, no melhor estilo Crash, deturpando totalmente a ideologia contida no material original. 



Mas quando os breves créditos iniciais terminam, o filme se apresenta muito bem. O letreiro apontando "Los Angeles - 1983" é até desnecessário. Estamos na Era das festas regadas á drogas, dos DJs orquestrando uma ode á psicodelia numa mansão dos ricos californianos. Ao fundo toca a excelente New Gold Dream do Simples Minds, que sustenta a sequência inteira, registrada apenas por imagens, sugestões. A melancolia presente na canção é perfeita no contexto histórico. Como canta a fabulosa letra, são os tempos perdidos que tanto assustaram o mundo, as mentes alienadas regadas a ecstasy. Estamos na concepção do que se entende sobre a AIDS, da promiscuidade sexual, da contracultura atingindo os mimados adolescentes revoltados, que se rebelam e ouvem punk rock ao mesmo tempo em que mantém seus Ray-Ban milimetricamente colocados nos olhos. Em suma, um palco perfeito para a escandalização irônica idealizada por Ellis. 

E em determinados pontos do filme, até mesmo após sua bela sequência inicial, essa proposta satírica é sentida. Após um contato direto com o sangue do amigo, logo após o mesmo ser atropelado, Graham (Jon Foster, competente) sente o baque, só para depois de uma boa noite de fumo e sexo com sua namorada, esquecer tudo e ir obrigado ao funeral. A rigidez dos diálogos entre os amigos após a cerimônia (assim como as risadas veladas durante a canção preferida do falecido) são interessantes por ensaiar a crônica social contra essa metonímia da Geração em foco. Algumas passagens completamente absurdas também ilustram o texto de Ellis perfeitamente, como a conversa de um produtor hollywoodiano, que quer um protagonista para uma imbecil ficção-científica, com um vocalista de banda. O cinema é citado com alguma freqüência no filme - e não é por acaso. A visão incisiva dos roteiristas sobre a cultura da época é algo presente nessas singelas passagens. E Ellis sempre foi mestre nisso, ao demonstrar, mesmo aqui, que não liga para seus personagens quando é preciso expor o modo de vida escandaloso dos mesmos. Quando for para levar o personagem ao inferno, Ellis não hesita. 

Porém, o foco não fica na pesadíssima ironia original. As tramas cruzadas diluem a mensagem da narrativa de forma fatal. Dependendo de uma montagem mais eficaz, o diretor acaba escolhendo o texto pelos motivos errados. Aproveitando o delicado tema para realizar uma trama arrogante, que se julga esperta por conectar pontas narrativas apenas pelas circunstâncias, Jordan acaba expondo as fraturas do roteiro retalhado. A presença da sub-trama do gângster vivido por Mickey Rourke é tão desnecessária que quando ela chega ao final, só conseguimos pensar no por que dela existir, já que é ligada á narrativa "principal" pelo personagem de Brad Renfro, o porteiro do prédio de Graham. A função para a história é nula, já que ideologicamente, o sub-plot só representa a violência perversa de um tipo criminoso. E já que esse tipo é atemporal, em nada ele ajuda numa história que exala "oitentismo". 



Atemporal, também, é a trama do marido que quer voltar para o casamento que largou por um amor passageiro. E Billy Bob Thornton, normalmente competente, parece perdido como William Sloan. Sempre com o olhar desfocado, ele parece não ligar para as emoções do projeto por não as detectar. Mas se Winona Ryder só está ali para ser um rosto bonito, os histrionismos da cada vez pior Kim Basinger só deixam o filme com menos unidade. Se a passagem de William dizendo que não tem certeza se ama a mulher é ótima, é atuada com certo desleixo. Esse segmento também pouco importa para o retrato da geração, já que se foca em produtos dos anos 60-70. Tendo apenas destaque para a relação conturbada com os filhos, a passagem da ala mais velha da família Sloan só não é um desastre maior porque, pelo menos, o possível (e digo possível porque o filme não deixa certeza) motivo da reconciliação proposta por William funciona esporadicamente para a mensagem, ainda que seja um conceito anacrônico de ganância - o que é ruim para um filme de período histórico. 

Procurando desesperadamente extrair emoções de seu fragmentado filme, Jordan ainda investe na relação de pai e filho de Les e Tim Price de maneira equivocada. A canalhice do pai, frente à conturbada mente do adolescente, é retratada de forma dramática, como se o pai quisesse se aproximar do filho e não tivesse ideia de como fazer. Isso até funcionaria na mensagem, já que apresentaria bem a criação discutível que tornou a geração daquele jeito, mas ao quase vitimizar o pai na sequência final dos dois, o filme parece voltar à culpa para o adolescente, que mesmo sem instrução alguma, deveria deixar o inescrupuloso pai se aproximar mais. De quebra, isso ainda torna o filme mais episódico do que ele já é. 

Não ajuda também a sutileza de um búfalo do diretor. Demonstrar a falta de tato com as garotas de Tim apenas sugerindo, é válido e correto, mas mostrar o pai dando em cima dessas mesmas garotas que o filho tem problemas é demais. Como acontece novamente na passagem, bem ridícula, do encontro á três no restaurante, para o pai ser garanhão não basta; tem que roubar a namorada do filho também. Criticar e ironizar a postura do pai, um convicto e característico Yuppie dos 80's, seria uma boa opção, mas Jordan prefere focar no drama do filho, que nada entende daquele mundo e não parece querer nada com nada. Como prova o implacável final desse segmento, Tim não liga para a relação com o pai, apenas querendo fumar sua maconha e ficar em paz. O problema desse segmento é justamente esse: ao retratar o filho como um garoto reprovável, fruto da geração perdida do subtítulo nacional, o roteiro parece dizer que a culpa não é do pai. A culpa, inteira, cabe ao padrão de vida daquele círculo de pessoas. 



Sendo assim, tudo conspira para a denúncia da horrível proposta de Gregor Jordan: criar um Babel de baixo orçamento, mas nos anos oitenta. Procurando contar episódios dramáticos sem função, o filme oscila de forma suicida entre os dramas de situação pseudo-inteligentes e o retrato repulsivo e fascinante de um período. 

Logo, os problemas de Informers não são baseados no que ele poderia ter sido, e sim baseados nos erros do novo roteiro. O filme não erra necessariamente porque precisava de outra abordagem; erra, sim, por desenvolver mal o seu já equivocado tratamento. 

Apenas ao se concentrar na filosófica discussão sobre a moral da época, como a meditação intensa de Graham nas partes finais, o filme cresce. E se tem algo que funciona perfeitamente em The Informers é a atmosfera intrigante dos 80's. A tentativa de Graham em melhorar é engolida pelo comodismo, como prova a interessante passagem final do filme. Vítima de seu tempo, Graham começa a nutrir certo sentimento por uma pessoa que simplesmente transa com todos os seus amigos. E o protagonista, por sua vez, também se enquadra nesse tipo, já que faz sexo com todas as suas amigas e até com os amigos. 



“She is your only friend until the ocean breaks", dizia a New Gold Dream. Quando Graham se torna sentimental e tem que se expressar, ele conhece exatamente essa máxima. E se torna um estranho ser. A metástase desse estranhamento se dá na enigmática passagem do carro, onde Graham diz que precisa de uma base para saber o que é certo e errado. Ao desvendar com sucesso a mente de todos os envolvidos, é focando em Graham que o longa acha respostas. 

Naquela elegante Los Angeles de 83, todos não são promíscuos e inconseqüentes por rebeldia; são inconseqüentes por não saber o que é consequência. 

Se o foco fosse inteiro em Graham, o filme não precisaria nem da ironia de Ellis para ser realmente bom. Se soubesse reconhecer isso na sua pífia narrativa (se já sabemos o papel das drogas naquela sociedade, pra quê serve o segmento do cantor de rock?), The Informers mereceria crédito. Como acerta apenas nesta, das muitas narrativas em questão, merece o ostracismo. 

Um interessante espelho mostrado á toda uma geração é quebrado pelos esforços de um incompetente diretor. 









domingo, 18 de setembro de 2011


The Raid




O promissor filme de ação indonésio, aplaudido por todos no Festival de Toronto, ganha seu primeiro trailer, montado em função da excelente recepção no Canadá. A prévia, que enfoca exclusivamente as cenas de ação, é contagiante justamente por se concentrar nessa ação, já que o longa aparentemente não parece haver uma trama que mereça atenção. Basicamente, The Raid fala sobre um esquadrão de elite que invade um prédio, infestado de bandidos, para matar todos ali dentro. O interessante do trailer é dar uma boa ideia do que esperar da estrutura, já que a prévia começa com uma infiltração calculada e termina numa pancadaria desenfreada. Aliando uma fotografia típica do cinema oriental mais barato, com os arrojados movimentos de câmera, The Raid promete ser o Ultimate Bad-Ass movie. E sempre é bom ver uma ação fora de Hollywood, sem besteiras como “apego aos personagens”. Quem erra um pouco só, já recebe uma enxurrada de tiros na cara.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011


We Bought a Zoo




O primeiro trailer do novo filme de Cameron Crowe, o primeiro desde 2005 (quando dirigiu Elizabethtown), apresenta um ritmo enérgico e emocionante, que aproxima o filme do trabalho mais feel-good de Crowe, Jerry Maguire. A sequência da demissão de Benjamin, o personagem de Matt Damon, é a que mais exemplifica isso. A trilha sonora, de Jónsi (vocalista do Sigur Rós), lembra muito os dois estilos de sua banda islandesa: o mais animado, utilizando instrumentos inusitados e o lado mais emocional, como prova a metade final da prévia. A trilha ainda impõe o ritmo do que se espera do filme, uma jornada espiritual curiosa, em busca da redenção. Tudo mesclando o drama leve e a comédia inteligente de situação. Vale a espera, principalmente pelo grande elenco envolvido, com destaque para o excelente Matt Damon e a segura Scarlett Johansson. Que seja uma boa volta de Crowe ao Cinema, depois de afundar em Elizabethtown.



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Conan, o Bárbaro
(Conan, The Barbarian, 2011)
Ação - 113 min.

Direção: Marcus Nispel
Roteiro: Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Sean Hood

Com: Jason Momoa, Stephen Lang, Rose McGowan, Ron Perlman e Rachel Nichols

De volta as telas depois de vinte e sete anos, Conan o guerreiro cimério criado por Robert E. Howard, é garantia de frases de efeito, sangue, suor, gritos de macho, decepamentos e uma grande quantidade de mulheres seminuas ou com pouca roupa.

Se o cardápio te agrada (ou não te ofende) Conan, o Bárbaro é um prato cheio. Longe de ser a definitiva versão de um filme sobre guerreiros bárbaros no cinema, o filme de Marcus Nispel (aquele mesmo dos horrendos Desbravadores e do remake de Sexta-Feira 13) é uma versão mais sangrenta do filme original dirigido com mão pesada por John Milius e que apresentou ao mundo um austríaco bombado chamado Arnold Schwarzenegger.

Isso quer dizer que o filme é bom? Não, apenas que entrega exatamente aquilo que parecia oferecer. Seqüências violentas (mesmo) entre guerreiros, uma profusão de sangue falso, uma história rasa e óbvia que serve apenas para unir as muitas seqüências de ação e personagens bi-dimensionais, como manda a cartilha do filme de ação genérico.


Apresentando um prólogo que introduz rapidamente - mas de forma eficiente - o background em que a história irá se passar, o filme logo parte para apresentar seu personagem principal, literalmente, desde o seu nascimento em um mar de sangue. Apostando na óbvia história do garoto folgado, mas brilhante que precisa provar sua capacidade antes de se transformar em um guerreiro, Conan - o Bárbaro, começa, apesar de extremamente óbvio, com um ótimo ritmo, com grandes seqüências de ação e aquela dose de comédia involuntária típica de produções assim.

Por isso é importante ressaltar a primeira sequencia de ação em que vemos o garoto Conan enfrentando uma horda de guerreiros quase bestiais, retratados como feras em busca de sangue. Destaque para os efeitos sonoros que transformam os adversários em legítimas feras, graças ao uso de urros de animais como forma de comunicação desses adversários. Assim como Zack Snyder fez em 300, Nispel também usa da metáfora do garoto largado na floresta que tem de enfrentar os lobos para provar que é homem. Diferente do filme dos espartanos, Nispel filme tudo de forma realista e não tem pudor em atirar o balde de sangue no rosto do espectador.

Infelizmente, após um primeiro ato bastante empolgante e que prometia muito mais, o filme cai na vala comum do filme de vingança, temperado pelo exótico mundo do guerreiro cimério. Também atrapalha, o fato de Jason Momoa ser um ator profundamente limitado, e que repete sem muito pudor as caras e bocas do personagem Khal Drogo de Game of Thrones. Porém, diferente de Schwarzenegger no filme original, o Conan de Nispel/Momoa é mais do que apenas um troglodita bebedor de hidromel. O personagem é capaz de criar uma estratégia de ataque/vingança interessante (apesar de profundamente óbvia) e até de se afeiçoar verdadeiramente por uma mulher.


Stephen Lang, vive o Tulsa Dum da vez. Khalar Zym é um homem obcecado pela vingança (como Conan) e que não mede esforços para  conseguir o que quer. Em suma, é a versão bárbara do coronel Miles de Avatar. Raso e vazio, como Tulsa também era, mas acompanhado de uma série de capangas que são igualmente patéticos e de visual quase orc.

O elenco feminino é todo muito fraco. Se Tamara (Rachel Nichols) transforma-se de monja sábia e contida em guerreira hábil com uma espada três vezes mais pesada que ela, Rose McGowan consegue o impossível. Consegue ser mais exagerada e patética do que o próprio Conan, surgindo aqui como uma feiticeira que parece ter muito menos poder do que acredita ter. Verdadeiramente, Marique parece ser uma eximia provadora de sangue humano, ser capaz de criar soldados de areia genéricos e que surgem na tela e somem sem deixar a menor marca e de ter roubado a luva - aqui transformada em garras/unhas - de Freddy Krueger.

O que poderia salvar Conan, de tal qual uma montanha russa, despencar ladeira abaixo, seriam as lutas, o tal barbarismo. A exceção da sequencia inicial já citada, todas as demais são mal fotografadas - Nispel parece não entender que precisamos ver aqueles personagens verdadeiramente lutando e não se esbarrando com as espadas - e cansativas. Prestem atenção na longuíssima cena que envolve os personagens lutando contra uma espécie de monstro marinho (que jamais é mostrado de forma convincente, para nos passar a sensação de medo ou tensão) e notem que no fim, o que Nispel fez foi nada diferente do que Príncipe da Pérsia, ou Fúria de Titãs remake, ou o pai desse tipo de sequencia de ação, Piratas do Caribe, já fez. Saltos no vazio, mudanças de posição nos cenários, a falta de credibilidade de que aqueles personagens podem realmente morrer, acrescidas aqui de sangue de mentira soando como uma fase perdida de God of War.


A direção de arte por sua vez, é inteligente ao não querer inventar a roda. Mistura uma série de características vistas em diversas civilizações para transformar cada um dos cenários visitados pelo filme em um lugar único. A aldeia de Conan parece saída de uma fantasia medieval - algo próximo de Coração Valente ou Highlander. A fotografia nessa primeira parte do filme auxilia a intenção do diretor em caracterizar a aldeia do personagem como um lugar sem luz, sem esperança e frio. Um lugar onde a espada e a batalha fazem parte do dia a dia do povo. O exército de Khalar Zym por outro lado, é uma mistura persa/romana. Khalar usa uma cimitarra dupla (que com o decorrer do filme descobrimos que são duas espadas) arma típica dos mouros, enquanto o exército tem armaduras e escudos que remetem aos romanos e capacetes que lembram os dos exércitos persas. O palácio do vilão também abusa da salada histórica. Colunas gregas, torres orientais e masmorras européias, tudo junto no mesmo ambiente.

O que poderia ser visto como uma falta de personalidade de quem é responsável pela direção de arte e design de produção, é na verdade, uma escolha inteligente que sedimenta o mundo de Conan na nossa própria historia, já que facilmente reconhecemos as referencias históricas utilizadas pela produção do filme.

Conan, o Bárbaro, é um longa genérico e óbvio. O espectador adivinha cada passo da aventura do guerreiro cimério desde o primeiro take da produção de Nispel. Em relação ao original, que envelheceu muito mal, ganha pontos por apresentar um personagem mais interessante e que não é apenas um ogro com uma espada, mas perde e muito, sem a trilha épica de Basil Pouledouris (substituída aqui por uma trilha óbvia de Tyler Bates) ou a capacidade de Milius para criar combates verdadeiramente épicos e grandiosos. Se o Conan/Schwarzenegger encontrasse o Conan/Momoa na rua, talvez lutariam até o fim dos tempos, sem jamais encontrarmos um vencedor.



quarta-feira, 14 de setembro de 2011


Inquietos/Restless





O novo filme de Gus Van Sant, o primeiro após a consagração por sua indicação em Milk, apresenta uma mistura curiosa dos dois tons das produções do diretor. Combinando a estética mais apurada de filmes como Gênio Indomável e a trama emocional tipicamente indie de Paranoid Park, Restless estreou em Cannes arrancando grandes elogios de vários críticos respeitados. Prometendo uma bela reflexão sobre a vida e a morte, o filme ainda parece usar com habilidade a fotografia dessaturada pra representar a frieza de seus personagens e insegurança perante o desconhecido, com atuações graciosas de Mia Wasikowska e Henry Hooper. Uma grande pedida para o circuito restrito em 2011, como Sleeping Beauty.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Turnê
(Tournée, 2010)
Comédia/Drama - 111 min.

Direção: Mathieu Almaric
Roteiro: Mathieu Almaric, Philippe Di Folco, Tom Frank, Marcelo Novais Teles e Raphaelle Valbrune

Com: Mathieu Almaric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Dirty Ramsey, Julie Atlas Muz e Angela de Lorenzo

Vencedor do prêmio de melhor direção no festival de Cannes de 2010, Tournê é o terceiro filme do também ator Matthieu Almaric, e sem dúvida o mais bem sucedido. Apostando em um roadie movie Cult e cheio de momentos de êxtase visual e sonoro, o filme conta a história de Joachim, um ex-produtor da tv francesa que organiza um grupo de dançarinas burlescas americanas em uma turnê por sua terra natal, em busca de sua própria identidade e de redenção.

Como em quase todo roadie movie, o roteiro peca pelo excesso de episódios que se ligam numa tentativa de criar uma história. Almaric, como diretor, tenta dar fluência ao emaranhado de pequenos eventos e de diversos personagens exóticos e interessantes que o filme apresenta.


O mais interessante desses personagens é interpretado pelo próprio Almaric. Joachim é um homem perdido entre um passado quase destruído, um presente confuso (abandonado pela família, com amigos que o desprezam e filhos que sentem sua falta) e um futuro previsivelmente triste e solitário. Embora esteja sobre a navalha, Joachim encontra forças para montar seu show e Almaric mantém-se sempre interpretando a ambiguidade encarnada. Tentando se esforçar para - aparentemente - melhorar como pessoa, mais lutando contra uma vida pregressa cheia de complicações, o personagem de Almaric vaga pela tela em busca de um caminho para sentir-se vivo.

Essa mesma sensação de falsa existência é compartilhada pela dançarina principal, Mimi Le Meaux (a voluptuosa e profundamente sexy dançarina na vida real Miranda Colclasure), que passa o filme procurando seu lugar na terra. As demais personagens femininas também são interpretadas por dançarinas reais o que confere credibilidade ao filme. Além de Miranda, Suzanne Ramsey, Dirty Martini, Julie Atlas Muz e a atriz Angela de Lorenzo interpretam as engraçadas e talentosas dançarinas do grupo de Joachim.


Os shows são um desbunde de criatividade, bom gosto e talento, além de serem responsáveis por grandes momentos da direção de Almaric e da trilha sonora. Os shows profundamente eróticos, mas igualmente engraçados de Dirty Martini (destaque para sua dança com a mão de borracha), ou quase mágicos de Suzanne Ramsay (e seu número dos lenços) ou os momentos sensuais de Mimi são os grandes destaques do filme, que não esquece também dos dançarinos masculinos (ao som de Louie Louie, um dos rapazes interpreta um afetado Rei Louis XVI de forma genial) e de montar os shows de forma a passarmos de forma orgânica dos bastidores a frente do palco e a visão do público. Tudo isso ainda conseguindo mostrar os shows de forma sensual e desenvolver os personagens.

Outro grande destaque são os créditos de abertura magnificamente construídos de forma a transformar o nome dos atores em um gigantesco luminoso que parece ter vindo de Las Vegas. A fotografia compra a ideia de Almaric e consegue transmitir urgência quando o filme assume seu lado roadie movie (muito close, muita câmera na mão) e ser enérgico e rígido quando mostra os shows, que surgem de forma diferente em cada uma das apresentações. Um grande trabalho de Christophe Beaucarne (de Mr. Nobody e Coco Antes de Chanel).


Turnê, no entanto, peca pelo mesmíssimo problema que aflige 99% dos road movies: a falta de coesão de seu roteiro. Os diversos acontecimentos não têm uma ligação entre si e vão se somando sem parecerem estar unidos por uma mesma história. Soma-se isso o fato de que por mais sensuais e interessantes que as dançarinas sejam, não são atrizes e estão interpretando a si mesmas, o que por um lado é positivo (já que transforma os diálogos em conversas informais e leves), mas por outro é extremamente negativo, pois impede um crescimento dramático daquelas personagens.

Almaric parece ter mão para "a coisa". Construiu um filme interessante, delicioso de se assistir, embora tenha os problemas típicos do gênero que abraça.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011


Coriolanus


O interessante trailer do primeiro filme de Ralph Fiennes tem em no tom sombrio a sua maior virtude. Contando a história de glória e ascenção escrita por William Shakespeare, com uma roupagem moderna e política, o roteiro de John Logan, famoso pelos roteiros épicos (como o trailer ressalta), parece trilhar para um caminho mais denso que o habitual, o que casa perfeitamente com a atuação declamatória de um monstruoso Fiennes como o personagem-título. A trilha pesada, mesclada com a sensação de urgência que os closes e a fotografia acinzentada dão á prévia, fazem de Coriolanus um filme com imenso potencial. Resta saber como Fiennes trabalhará a história, de um homem contra a Inglaterra toda, de maneira verossímel.


domingo, 11 de setembro de 2011


Arrietty



Não existem adjetivos para descrever cada uma das produções magníficas do estúdio Ghibli. Ricos em detalhes visuais únicos e com histórias magníficas, cada novo filme é um desbunde para olhos, ouvidos e alma. Arrietty conta a história de uma família de seres pequeninos e do envolvimento deles com o mundo humano. Arrietty é uma jovem garota que conhece e se afeiçoa (para não dizer se apaixona) por um garoto e pelo que o trailer mostra os dois partem em uma aventura para conhecer o mundo. Certeza de bom gosto, imagens de cair o queixo e trilha sonora do mais alto nível.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cowboys & Aliens
(Cowboys & Aliens, 2011)
Ação/Thriller/Sci-Fi - 118 min.

Direção: Jon Favreau
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Mark Fergus e Hawk Ostby

Com: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Paul Dano, Keith Carradine, Clancy Brown e Sam Rockwell

Jon Favreau conseguiu o que parecia impossível: transformou um filme que envolve cowboys, aliens, James Bond e Indiana Jones em uma produção sem nenhuma personalidade, sem charme, graça, e que não é nem mesmo divertida. Mesmo envolvendo dois gêneros estabelecidos (juntando-os em uma - esperada - terceira realidade, onde ambos consigam conviver em "paz"), o filme jamais decola. Favreau para aumentar ainda mais as expectativas quanto ao filme, ainda conseguiu Daniel Craig (Bond) e Harrison Ford (Indi.. ahh vocês sabem), para co-estrelar a produção. Um prato suculento e cheio até a boca para fãs sedentos da melhor diversão escapista da história da humanidade. Pelo menos, essa era a pretensa intensão do filme.

Cowboys & Aliens conta a história do pistoleiro amnésico Jake (Craig) que desperta no deserto, sozinho, sem nem sequer lembrar de quem é, e com um bracelete/pulseira estranho no braço direito. Vagando, ele chega até a cidade de Redemption, uma dessas minúsculas cidadezinhas americanas de Velho Oeste, que cansamos de ver nos filmes e games. Lá é ajudado pelo pastor Meacham (Clancy Brown) e descobre que tudo gira em torno da mão de ferro de Dollarhyde (Ford), o fazendeiro que dita às regras da cidade. Nesse ambiente inóspito, o filme apresenta seus coadjuvantes como o dono do bar Doc (Sam Rockwell), a bela e misteriosa Ella (Olivia Wilde), o xerife Taggart (Keith Carradine) e o mimado e apalermado filho de Dollarhyde, Percy (Dano) que é confrontado por Jake e acaba sendo preso.


Quando - de forma bisonha - o xerife descobre que Jake é um homem procurado, também o prende e enquanto Dolarhyde pai parte em busca da libertação do filho, e Jake tenta entender quem é, uma misteriosa luz surge na cidade que é sumariamente atacada por naves espaciais. O que poderia ser o sonho de qualquer moleque de 14 anos de idade, se mostra uma coleção sem coesão de clichês, com vilões fracos que não convencem por sua motivação e um desperdício absurdo de grandes atores.

Comecemos por esse último item. Cowboys reúne Craig, Ford, Rockwell, Dano, Brown, Carradine e a inexpressiva Olivia Wilde, um elenco repleto de nomes fortes para subutilizar boa parte dele. Rockwell passa o filme inteiro reclamando da vida, de seus medos e tenta ser o alívio cômico fracassado do filme. Dano, Brown e Carradine estão no filme, imagino, por serem caras "conhecidas" do publico, já que não podem fazer quase nada com seus personagens unidimensionais e vagos. Dano, como o garoto arrogante de voz afetada, chega a irritar, enquanto Brown serve como o pretenso guia moral da redenção de Jake e Carradine mais como motivador da busca do garoto Emmett (Noah Ringer, o péssimo Aang de Último Mestre do Ar).


E Wilde? Incrível constatar como as pessoas continuam entregando personagens importantes para essa atriz que demonstra, ser dotada de um número cada vez mais limitado de expressões e que tem um carisma menor do que o de uma formiga agonizante. Completamente fora de sintonia como a misteriosa mulher que diz conhecer os segredos sobre Jake e sobre os invasores alienígenas.

Craig estrela o filme tentando parecer uma mistura de Clint Eastwood e Charles Bronson, mas fica muito longe de qualquer um deles. Craig é um ator lacônico, que interpreta com a presença e o olhar, portanto seria fácil afirmar que Jake é um personagem feito na medida para o ator. De fato é, mas ao mesmo tempo, é alguém com quem o espectador tem dificuldade de se identificar, já que o personagem parece ser um tipo desprezível e por mais que Favreau e seu time de roteiristas (que inclui gente boa como Damon Lindelof da série LOST, Roberto Orci e Alex Kurtzman de Star Trek e Mark Fergus e Hawk Otsby de Filhos da Esperança) tentem amenizar a condição do personagem, Craig é um protagonista muito duro para que consigamos crer em qualquer tipo de suavidade em sua personagem.


Diferente de Ford, que muita gente crê interpretar a si mesmo em uma série de variações, que consegue sempre humanizar seus personagens, por mais vazios e rasos que os mesmos pareçam. Cheio de cacoetes típicos de todas as suas outras interpretações, Ford se não é brilhante, pelo menos dá dignidade ao seu personagem. Uma pena que quando atuam juntos, Craig e Ford - outra falha de Favreau - não consigam entregar sequer uma cena memorável. O mesmo vale para a falta de química entre Dano e Ford nas pouquíssimas cenas em que atuam juntos, como pai e filho.

Tecnicamente, Favreau comete mais um erro crasso em seu filme. Convidou o premiado e talentoso Matthew Libatique (conhecido da filmografia de Darren Aronofsky) para ser seu fotografo, que parece estar, como o diretor, perdido entre fazer um filme moderno e um western tradicional. Essa mistura estranha de estilos pode ser percebida pelas escolhas incomuns na forma de fotografar uma batalha a cavalo. Aqui, se foge dos grandes planos abertos, dos confrontos que são emoldurados pelo cenário, e prefere-se dar espaço ao combate direto, utilizando-se até de câmera de mão. E quando Craig surge em tela, trôpego e fugindo do covil alienígena, Favreau amarra ao ator uma steadycam nos moldes do que Danny Boyle adora fazer em seus filmes. Ao mesmo tempo, o filme é exageradamente escuro prejudicando a compreensão de algumas cenas importantes no filme.


Apesar de seguir uma típica estrutura dos westerns após o surgimento da ameaça alienígena (e aqui quem já viu qualquer western vai entender o que digo), o filme não segue exatamente esse rumo. Diferente do que acontece quando acompanhamos um grupo de pistoleiros no encalço de bandidos (um exemplo claro disso é o excelente Bravura Indômita, o remake, dos irmãos Coen), quando temos tempo para conhecer aqueles personagens, motivações, dramas pessoais e medos, Cowboys & Aliens, por precisar explicar a presença alienígena na Terra, opta por inserir a dissonante personagem de Olivia Wilde, quem vem se revelar como mais importante do que aparentava e é responsável por explicar os motivos absurdos e ridículos da presença alien na terra. Talvez se optasse por não explicar diretamente a presença dos seres no planeta, mas apenas conduzir essa aventura onde o papel dos vilões (quase sempre destinados aos índios) seria vivido pelos ETs, o filme se saísse muito melhor.

E quando tenta mostrar a ação, Favreau acaba com ela - em especial no clímax - quando monta seu filme de modo a apresentar todos os elementos do filme de uma vez, entrecortando e prejudicando seqüências de ação que poderiam tornar-se épicas e impactantes. Mesmo quando tenta criar tensão com o surgimento aqui e ali de alienígenas, não consegue fazer o espectador sequer piscar de medo.


Cowboys & Aliens começou a ser vendido com a salada mais gostosa do cinema. Misturaria dois gêneros consagrados e que jamais haviam de forma direta coabitado o mesmo filme. Infelizmente, Favreau se empolgou com seu brinquedo, esqueceu de fazer um faroeste interessante e de apresentar um sci-fi descente. A salada de Favreau não tem sal, azeite e vinagre, e no meio de tantos vegetais, alguns de gosto bastante duvidoso.