segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Contágio
(Contagion, 2011)
Drama/Thriller - 106 min.

Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns

Com: Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, John Hawkes, Marion Cotillard, Elliot Gould e Bryan Cranston

Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) está doente. Ela acha que está com Jet lag, mas parece permanecer com mal estar mesmo muito tempo depois. O mesmo se pode dizer de Li Fai, que achou que o mal estar não era nada grave. Isso até atravessar a rua sem olhar. Em Tóquio, um homem cai desesperado e se debatendo em um ônibus. Mas os problemas só começam quando percebemos que Beth tocou seu filho, Li Fai tocou sua irmã e o japonês tocou muitas pessoas no ônibus. Inicia-se o horror do apocalipse.

Steven Soderbergh, o excelente diretor de Onze Homens e Um Segredo, o novo Solaris e Traffic, conduz aqui um instigante panorama de como todos são afetados pelo fim do mundo. Interessado não apenas no lado emocional ou no lado político de um contágio, Soderbergh e o roteirista Scott Z. Burns mesclam todas as vertentes possíveis, dando um panorama completo sobre a infecção viral. Assim como Traffic funcionou para apresentar o esquema das drogas na América do Norte, Contágio vai além ao mostrar a reação do mundo inteiro.




Ágeis na medida certa, os 106 minutos de Contágio tem um trunfo imenso ao contar com uma montagem soberba de Stephen Mirrione (colaborador frequente de Soderbergh), que torna essa metragem mais longa do que parece. A novidade, porém, é que não é por falta de ritmo e sim pela quantidade exorbitante de informações agrupadas em tão pouco tempo. Sempre encontrando a melhor maneira de agrupar informações rápido, Soderbergh e o roteirista Burns colocam constantemente na tela, dados sobre a população das cidades em que o filme se passa. As pequenas cenas que mostram algum processo científico do contágio (a transmissão, a pesquisa para uma vacina, a reação do mundo a alguma descoberta, etc) também se destacam pela frieza com que são apresentadas, sempre embaladas pela ótima trilha eletro-minimalista de Cliff Martinez ao mostrar com um realismo chocante o que aconteceria se aquilo fosse verdade. Em comparação, os absurdos meteoros caindo do céu em 2012 não são nada perto do temor ao toque em Contágio.

A campanha publicitária do filme diz que: "Nada se espalha como o Medo". A frase é pertinente, mas não totalmente correta. A palavra se espalha tão ou mais que o medo. O que nos leva ao núcleo de Alan Krumwiede (Jude Law, á vontade), blogueiro mundialmente conhecido que tem que funcionar como mediador entre o governo e o público, ainda que tenha sérias dúvidas sobre a veracidade dos fatos ali apresentados pelas grandes empresas. No núcleo de Alan, temos algumas das melhores discussões do filme, como a brilhante cena da entrevista na TV, envolvendo Laurence Fishburne. Urgente e precisa, a cena ainda cita de diversas formas a esfera da internet, provando diversos fatos pelos comentários em redes sociais. Além de tornar a película ágil e cheia de informações, ainda torna o discurso atual e verossímil, o que é essencial para um filme que se propõe a dar um ultra-realista panorama para o apocalipse.




A boa organização das informações científicas, fruto da excelente edição de Mirrione, também consegue dar espaço para os dramas humanos, o que torna Contágio mais eficaz do que se havia proposto. Em tese, era provável termos um filme frio, técnico, mas que justamente por se assumir como tal, seria ótimo. Mas ao mostrar a dor e dilemas de cada um dos envolvidos, seja do núcleo do povo ou do núcleo científico, Contágio ganha emoção e verossimilhança no desenvolvimento dos personagens. Quando vemos Mitch (Matt Damon, seguro) sozinho, vendo fotos tristes, é tocante. Assim como quando acompanhamos Ellis (Fishburne) sozinho após uma trágica notícia (e Soderbergh ainda é eficaz ao afastar a câmera, dando a sensação de isolamento que é desesperadora em um apocalipse). 

Claro que os dramas pessoais não têm tanto espaço quanto as explicações científicas, mas é notável observar que o filme transita gêneros sem se abalar, indo do drama intimista (a passagem de Kate Winslet contando ao personagem de Matt Damon sobre a esposa é ótima) ao documentário científico, passando por uma eficaz subtrama policial, para a descoberta de onde foi o foco da doença. Tudo isso transitando entre fotografias, como Soderbergh fez em Traffic. No filme de 2000, a função das fotografias diferenciadas era mais pertinente, mas em Contágio torna os núcleos diferentes bem definidos e ainda dá uma estética arrojada ao projeto, que já tem nos criativos ângulos da câmera de Soderbergh (repare na cena do cassino, com Beth) uma beleza visual marcante.




Essa opção de "abraçar o mundo" poderia matar Contágio de dentro para fora, mas não chega nem perto. Nas mãos de outro diretor ou roteirista, teríamos um filme que muito almeja, passando por diversos gêneros, e ficando na superfície de tudo. Porém, Soderbergh e Burns são felizes ao conduzir o realismo desejado a um choque com o público, como a falta de atendimento médico devido a uma greve de enfermeiras ou o disk-doença, que introduz a absurda burocracia do nosso mundo atual em um cenário de desastre. E pensar que você pode perder um ente querido apenas por ter que responder inúteis perguntas é mais desesperador que qualquer objetivo aventuresco para salvar sua vida, como em O Dia depois de Amanhã. 

A progressão geométrica utilizada para medir o raio de contágio dá uma noção boa do desastre, sem precisar ser didático demais em certas passagens. O caráter político de diversas cenas, como o sequestro da personagem de Marion Cotillard, também é eficaz para abranger mais ainda a visão do filme.




Lembrando Ensaio sobre a Cegueira em sua abordagem da população, Contágio ganha em sua metade um novo horizonte interessante. É a partir dali que vemos a bem desenvolvida morte de um indivíduo importante, a população em desespero por uma vacina ou uma das interessantes passagens clipadas, que agora mostra grandes cidades e lugares (como um aeroporto) vazios, o que causa desespero notável. Os saques feitos nas casas de civis são previsíveis, por isso nem é tão necessário mostrá-los. Ao restringir-se a sugerir os saques em grande quantidade, Soderbergh demonstra sensibilidade ímpar no que seu filme deve passar.

Os contornos de filme de infecção, em teoria esquemáticos, nunca se sentem em Contágio. Não interessados apenas no fim da sociedade, Soderbergh e Burns contam o pré, o apocalipse e o pós-apocalipse. Nisso, Contágio perde um pouco de seu possível nível alarmante dos fatos, já que ao ser realista, não deixa brechas para um final apoteótico, assim como em Traffic não deixava. A análise e construção é muito mais importante do que meros atalhos para a ação. Ainda que escape aqui e ali algumas lições desnecessárias (como a indignação de Leonora ao descobrir os placebos), Contágio se firma como um dos melhores filmes de Soderbergh e o mais interessante dos filmes de infecção viral até hoje.

domingo, 9 de outubro de 2011


Brighton Rock
(Brighton Rock, 2010)
Drama/Thriller - 111 min.

Direção: Rowan Joffe
Roteiro: Rowan Joffe

Com: Sam Riley, Andrea Riseborough, John Hurt, Andy Serkis e Helen Mirren

Rowan Joffe é um exímio roteirista. Excelente criador de situações narrativas (como as cenas de perseguição em The American), Rowan também é versátil ao transitar bem entre diversos gêneros, indo do terror de ação (Extermínio 2) ao noir, nesse Brighton Rock. O filme, baseado em um livro de Graham Greene, apresenta uma forte história de crime, perseguição e ainda uma sensível história de amor. Porém, sobretudo, é uma história sobre a culpa relacionada a religião. Greene sempre teve seus trabalhos enraizados com temas religiosos. Brighton Rock é um deles. O mais interessante é ver que o roteirista (Joffe), em sua primeira viagem como diretor, mantém essa essência religiosa até o fim - e da forma que é feita, com méritos.

Um tom climático é estabelecido desde a primeira cena. O mar em câmera lenta, seguido pelo surgimento do imponente título do filme, é pontuado com uma trilha pesada, que impõe o tom grave que a história tomará desde o princípio. Joffe ainda é feliz em tornar o mar um símbolo de mudança em seu filme. Sempre que há um momento de mudança importante no filme, surge a imagem do mar. Não por acaso, após surgir o título, essa ideia de mudança é apresentada com a morte do chefão do bando de Pinkie Brown.

Pinkie, por sinal, começa não apenas uma nova etapa na sua vida criminal; começa a se tornar um homem mais maduro. Executar os crimes não é culpa para o inglês. Se for necessário trair um membro do bando porque ele sairá, ele o fará sem o menor remorso. Porém, após ter a necessidade de se aproximar de Rose para roubar um ticket que compromete a segurança de um dos membros do bando, Pinkie tem sua postura testada. Aí, a atuação de Sam Riley é testada, já que o jeito impulsivo, destemido e sisudo do protagonista deveria mudar. Porém, a mudança não chega, e é interessante notar que a postura fria do personagem, que se torna muito boa ao chegar no limite do verossímil, contribui para as interpretações emocionais da história. Apesar de implícito, não sabemos se Pinkie ama a encantadora Rose ou não. Isso tira um tanto de unidade do personagem, mas mesmo assim, torna a experiência válida ao deixar o espectador sentir o que o personagem sentiu.




Como estreante, era de se esperar pouco de Joffe. Mas o antigo roteirista surpreende. Ao trazer uma direção madura de atores, Joffe coordena um excelente elenco, que só tem a atuação dúbia de Riley como ponto questionável. Além disso, Joffe demonstra ser um bom compositor de cenas impactantes, ao dirigir ângulos imponentes e criar uma montagem eficaz, mesclando diversas situações para pontuar a tensão, como na conversa de Pinkie e Rose no campo ou nas badaladas do sino, que casam perfeitamente com a edição das imagens. Vale citar também o brilhante plano gêmeo em que Pinkie atira com uma .45 depois de conversar com Rose, o que representa o sentimento do protagonista e cria uma boa tensão em volta da ação. Ainda que tenha certos tiques visuais sem função narrativa ou visual (como pontuar a luta de Pinkie e Fred com as imagens de elementos diversos no parque), Joffe passa bem pelo teste de fogo que todo roteirista que almeja a direção passa.

O erro maior, porém, fica no exagero de certas situações. O tom de tragédia grega é válido, afinal, o crime nunca tornou a vida de ninguém mais fácil. O romance de Rose e Pinkie não é perigoso só ideologicamente; é também fisicamente (como mostra o brilhante plano dos dois enamorados se beijando a beira de um penhasco). Rose ainda é tida como um ser imaculado, iluminado, enquanto Pinkie é a representação do mal, das trevas, aquele que fica no canto escuro (atentem para a cena da igreja). Porém, se Ida (Helen Mirren) se torna suscetível ao diálogo no final, apesar de sua essência de femme fatale sem sentimentos, por que levar ao limite da vida a perseguição da mesma? Exagero. O final funciona muito bem, emociona até, mas minimiza a importância do momento catártico, que poderia até elevar o filme.

Um romance com bom ritmo, uma história noir forte e um conto moral contundente. Apesar de não inovar, Brighton Rock é eficiente em se estabelecer como um bom filme de crime.

Dublê do Diabo
(The Devil's Double, 2011)
Drama - 109 min.

Direção: Lee Tamahori
Roteiro: Michael Thomas e Latif Yahia

Com: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier e Raad Rawi

Lee Tamahori é um cineasta falho. Profundamente irregular, o neozelandês consegue ir do elogiado No Limite aos desastrosos Triplo X2, 007 - Um Novo Dia para Morrer e O Vidente. Por isso, o estabelecido diretor de aluguel dos menores blockbusters dos grandes estúdios não tenderia a ter como próximo projeto a cinebiografia de Latif Yahia, o antigo dublê de Uday Saddam Hussein, herdeiro do tirano iraquiano. Porém, surpreendentemente, Tamahori não só conduz o projeto com firmeza como demonstra ser um belo esteta, concebendo um filme plasticamente belíssimo e divertido em sua turbulenta narrativa, que ainda que esquemática, se torna eficaz por diversos elementos.

E desses elementos, 90% respondem por Dominic Cooper. O ator de Capitão América ganha aqui o papel de uma vida. Testado em todos os limites para um ator, desde a composição física até a dificuldade de criar dois personagens. Logo no início, quando vemos o ligeiramente transformado ator (com o bigodinho de Howard Stark), já dá para notar os trejeitos que o ator adotou. Um olhar mais sereno, mezzo perdido mezzo inocente, que ao longo da projeção vai se tornar cínico e contundente, após testemunhar as mais diferentes atrocidades. Como Latif, Dominic demonstra segurança e tem um imenso carisma, que ganha o espectador facilmente. Mas é como Uday que o ator se sobressai. Ao viver o desprezível Uday, Dominic consegue o improvável: fazê-lo com igual carisma, divertindo em diversas cenas, mostrando as excentricidades do filho do ditador. Porém, é só passar um tempo que essa diversão de acompanhar o abobalhado Uday acaba. Um lampejo de violência basta.

Esse mesmo esquema se aplica ao filme em geral, o que é curioso. Repare: se vemos um histrionismo de Uday, não tarda para vermos uma ação horrenda do monstro. Uma hora, os dentes separados do homem podem divertir, mas o mesmo não pode ser dito do atleta iraquiano torturado numa cama de eletros-choque. Alternando a violência e o humor, a primeira metade estabelece muito bem a natureza exótica do modo de vida banhado á ouro do herdeiro. O problema é quando o esquema fica claro. A sacada vira trucagem e o rumo que a história toma, mais humanista e que dá um "basta" no modo de vida de Uday, torna Dublê do Diabo mais sério do que deveria. O tom cinematográfico, reforçado pela espetacular fotografia estilizada de Sam McCurdy e a direção de arte apurada e propositalmente exagerada, acaba se diluindo levemente em meio aos ufanismos. O que antes era uma cinebiografia cheia de humor, ação e com contundentes dilemas morais, acaba se tornando um descompassado filme de vendetta espiritual.


Obviamente, Tamahori mantém o vigor do filme mesmo quando o roteiro parece desandar. É complicado criticar Dublê justamente pelo cuidado técnico que o enérgico projeto tem. O esquemático roteiro cria momentos tão memoráveis quanto genéricos - e isso cria um produto final imperfeito. A "glamorização" (como prova a música agitada ao fundo das imagens de arquivo da guerra), que tinha tudo para representar uma preconceituosa visão dos produtores, havia funcionado perfeitamente no contexto. Porém, o heroísmo toma conta da consciência coletiva e as incongruências, reais ou não, acabam incomodando. Não se propondo a entrar na psique do protagonista, o filme deveria mostrar os fatos da maneira mais fluida e sacana possível. Não importa alterar a história em prol da obra de arte; os problemas começam quando a alteração trai até mesmo o pré-estabelecido pelo filme.

Há problemas, mas o resultado final é satisfatório, muito pelo grande Dominic Cooper e pela estética estilosa. Mas seria mesmo melhor se o filme tivesse mais festas (com todo mundo nu) e tiros no saco (belo simbolismo) que cruzadas impossíveis á cavalo.



Take Shelter
(Take Shelter, 2011)
Drama - 120 min.


Direção: Jeff Nichols
Roteiro: Jeff Nichols

Com: Michael Shannon, Jessica Chastain e Shea Wingham

Gotas laranja. Curtis abre sua mão e só consegue ver os respingos alaranjados entrarem em contato com sua pele. Seu olhar cansado, conformado, vê aquilo com uma tristeza clara, mas parece ciente de seu destino, sabe o que vai acontecer. Tem fé naquilo. E vai levar até as últimas consequências. Ao olhar para o céu, Curtis vê uma tempestade. Mas, acima de tudo, vê mudança.

O problema é que ninguém mais vê.

Nessa soberba cena inicial, se sabe tudo que se precisa para entender o dilema que percorre toda a metragem de Take Shelter, segundo filme do promissor diretor e roteirista Jeff Nichols. À volta na direção do americano, diretor de Shotgun Stories, demonstra surpreendentemente a mão firme que Nichols tem para a direção de elenco e, principalmente, pela composição de atmosfera.


O campo do onírico é testado em todos os momentos da produção, que ganha intensidade visual quando Nichols compõe belíssimos quadros, como a vista da casa de Curtis, que transita entre o céu azulado, o centeio amarelado e a grama, muito verde. Esses contornos de sonhos (e, na maioria das vezes, pesadelo) que o filme ganha são essenciais para a já citada atmosfera bizarra que auxilia para criar a tensão desejada. Tensão essa que vai do suspense psicológico ao terror físico, o que causa no espectador uma sensação de desconforto crescente. Nichols ainda nos brinda com brilhantes transições de cena, como a do som do trovão que denuncia ser, na verdade, uma escavadeira. Ou a britadeira que corta para a máquina de costura, tudo uníssono.


A sensação de aflição em Curtis é o melhor que Take Shelter tem a oferecer. O ritmo cadenciado, onde cada delírio ocorre para um propósito narrativo, acaba ganhando momentos catárticos só no terceiro ato, o que pode afastar grande parte da audiência. Optar por um delírio psicológico, mental, que envolva muito pouco de físico, acaba criando um ritmo mais lento que o esperado. Porém, essa solução do diretor é a melhor possível, já que o filme ainda ganha contornos de estudo da esquizofrenia. Interessante ver que a tensão não é apenas dos delírios; é saber se Curtis está delirando ou não. O miolo do filme traz o questionamento sobre a própria realidade. E esse miolo do filme é o mais emblemático para o roteiro. Quando Curtis faz uma pergunta aparentemente banal para o amigo, ele ganha uma resposta. Quando Curtis vê um contêiner na rua, á venda, a cena corta. Mas as coisas se concretizam, porque aquilo só PARECIA banal. O que, em síntese, representa um micro-cosmo do que Take Shelter é.

O tal abrigo do título serve como um símbolo. Curtis, como homem mentalmente frágil, se contenta apenas com o simbólico para escapar. É a fuga da mente, é a fuga de seus sonhos. Não dormir é a solução. Triste ironia um homem que escava tanto a terra não poder adentrar melhor sua mente. A falta de respostas aos gigantescos questionamentos aflige não só ao homem, mas á todos. Curtis se pergunta se os delírios são premonições. Mas sua mulher também se pergunta o porquê do marido estar desse jeito. O que motivou isso? Como curar? A cena que antecede o clímax, brilhante, em que Curtis está no almoço coletivo, é fantástica por liberar a tensão para exacerbá-la minutos depois. O grito sufocado há dias na garganta de um homem que não aguenta mais. E Nichols não poderia ser melhor, ao só enfocar o rosto de Samantha por último, como a imagem definitiva da perplexidade.

E Michael Shannon vive Curtis com imensa competência, esbanjando presença em cada cena que participa. O homem atormentado médio, do subúrbio americano, é um verdadeiro palco para a exibição de força do ator. E Nichols capta essa essência ao dar para Curtis uma coadjuvante á altura, a excelente Jessica Chastain (tão linda como em Árvore da Vida), que compartilha os momentos de maior dor emocional com o marido.



Take Shelter chega ao fim com uma sensação de algo grande, mas que não é. É singelo, sutil, emocionante, justamente porque não é excessivamente pretensioso. É um filme que abraça o deus ex machina sem medo, que é corajoso ao optar pelo realismo fantástico do que pelo insosso. O estudo da esquizofrenia já havia se concretizado. Nada melhor que concretizar a mente de Curtis também.

Ao nos deixar perplexos com a tensão que toma os 20 minutos finais, o filme não só angustia como provoca e questiona.





sábado, 8 de outubro de 2011


Sleeping Beauty
(Sleeping Beauty, 2011)
Drama - 102 min.


Direção: Julia Leigh
Roteiro: Julia Leigh


Com: Emily Browning, Rachel Blake e Ewen Leslie


Lucy está indo a um laboratório. Ela está ali para fazer testes, para ganhar um dinheiro. Depois, ela vai para uma loja de fotocópias, com o mesmo objetivo. Trabalha num restaurante, visando lucro. Com tantos caminhos para o mesmo fim, não chega a ser estranho quando ela visita a casa de Clara.

Sleeping Beauty, primeiro filme da escritora australiana Julia Leigh, entra na cabeça da protagonista no primeiro momento e só sai no último. Uma jornada que transita entre o onírico e o absurdo, um estudo de personagem que se torna mais complexo pela maneira como é abordado. Ao adotar a forma fria de ver as coisas que a personagem principal tem, o filme abraça a frieza emocional e a narrativa majoritariamente visual para contar sua história.

O cuidado visual se instala desde o primeiro frame. A fotografia estupenda de Geoffrey Simpson opta pelos tons esbranquiçados e azuis, o que torna o filme moderno (ainda que livre, isso é uma releitura de um clássico, afinal) e elegante. Não apenas visual, a solução criada funciona maravilhosamente na narrativa, já que traz constante opressão. Essa atmosfera opressiva, funciona tanto para o roteiro quanto para a protagonista: em um mundo onde as aparências são as que mais contam, uma abordagem opaca vinda da protagonista não é de se espantar. Como na cena da entrevista, os serviços são inumanos de tão frios - e isso torna um mérito da narrativa à frieza.


O desinteresse constante de Lucy, interpretada segura e impecavelmente por Emily Browning, é o que modera o filme. Ao demonstrar ser uma pessoa vazia e sem esperanças, sem prazer ou emoção genuína, Lucy se torna uma protagonista perfeita para um filme que tenderia a total denúncia. Subvertendo a denúncia, aposta no desenvolvimento de personagens. E ao criar uma personagem que tem problemas crônicos de personalidade, fica difícil desenvolver de forma textual alguém assim. Porém, indo totalmente contra a lógica, a romancista Julia Leigh aposta numa abordagem visual e de atitudes, algo que não se faz presente nas trabalhadas palavras de um escritor. Se não bastasse o cuidado narrativo, Julia ainda demonstra ser uma segura diretora de elenco e uma habilidosa esteta, ao compor quadros milimetricamente planejados, lembrando os de Sofia Coppola em Somewhere e, se formos mais longe, os de Kubrick. O erro fica apenas no último take, que não tem muita função narrativa. Não foge da lógica, mas se fosse cortado, teríamos um produto mais redondo.

Estando na cabeça de Lucy, não é tão estranho questionar a veracidade de algumas situações. Seja a decoração de mulheres nuas ou a tela de uma garota em movimento, o onírico é flertado justamente pela falta de significados verossímeis naquilo que a protagonista está fazendo. Aliás, Sleeping Beauty é pesado, mas só seria um tour de force se Lucy desse a mínima atenção para o que está fazendo. A nossa Bela Adormecida é jovem e pura (ótima sacada a de Lucy portar um esfregão), mas é só uma casca. No fundo, ela é tão livre de emoções que não vê porque não declarar sua vontade de fazer sexo oral num homem que conheceu há um minuto. Apesar de ser a única de branco em um mundo de mulheres de preto, nada tem de pura a tal Bela.



Não há porque haver choque numa mulher tão desprovida de amarras as convenções emocionais. Ser abusada enquanto dorme não machuca tanto quanto ser abusada conscientemente. Decidir no cara e coroa o destino de seu "templo" (termo que gera uma risada da menina) é bem mais que ser uma marionete por uma ou duas horas. Ser livre desse jeito tem dessas coisas, nada impressiona, tudo é normal. E se tudo é normal, tudo tende a ser comum, sem unidade.

Mas a liberdade tem seu preço. Enquanto Lucy está indo ver seu amigo Birdmann, podemos conhecer um pouco mais de seu lado emocional. Não por acaso, a câmera de Leigh vai se aproximando lentamente (duas vezes, num brilhante plano gêmeo) de Emily, como se adentrasse a alma da personagem. Ali, ela vê uma segurança firme. Se for pra casar, Birdmann está ali. Porém, quando a segurança vai embora, o chão vai embora. O choro de Lucy é enigmático: estaria ela nutrindo o primeiro sentimento verdadeiro (de tristeza) ou estaria apenas sendo ainda mais egoísta ao temer sua provável vulnerabilidade futura? Sem a segurança, há apenas o desajeito social, a falta de tato humano. Quando tinha quem ouvisse um "casa comigo" bem, era fácil. Uma falsa ilusão de segurança. Mas não seria isso o necessário para alguém feito apenas de casca?



Como estudar a Bela é difícil verbalmente, opta-se pelo visual, como dito. Mas não por isso, Julia Leigh se esquece de falas romantizadas. Criativamente, Julia cita uma passagem de um conto sueco na boca de um dos clientes de Clara (Rachael Blake). Nela, o cliente fala de um homem cuja vida é triste pois não há mudanças. No final das contas, o homem fala do conto, mas fala de si mesmo e, sobretudo, de Lucy. E mesmo com mudanças abruptas, com o tempo nada muda. No final, há o choque de realidade, que serve para potencializar a virada na vida, tornando tudo mais bonito. O porém é que a Bela deveria ter aprendido que na vida, se você não se tocar, a queda é apenas uma queda, não o incentivo para a virada. Se nada aflige a oca Lucy, nada mais extremo que a morte.

E nada é pior que um choque de realidade.

Lucy sabia que era pelos fundos, o que acontecia. A menina saiu por lá. Os serviços são, em teoria, iguais. Mas quanto mais grave fica a situação, mais Julia nos mostra. Se antes o fade out corta nos primeiros segundos do serviço, no final temos acesso a tudo.


Assim, Sleeping Beauty se fecha perfeitamente, ao tornar complexas suas regras e executar exatamente o que se propôs. Julia Leigh tira leite de pedra e consegue responder as perguntas que fez de maneira criativa e brilhante. Se o estudo soa vazio, frio e anti-emocional, não é de todo errado. Mas o que seria de uma protagonista fria se ela estivesse num filme quente?

Podemos não saber do que Lucy é feita, mas pelo menos agora sabemos seu limite.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Capitães de Areia
(Capitães de Areia, 2011)
Drama 

Direção: Cecília Amado e Guy Gonçalves
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda

Com: Jean Luís Amorim, Ana Graciela Conceição, Robério Lima, Israel Gouveia de Souza, Paulo Abade e Jordan Mateus

Em determinado momento do filme a personagem Dora (Ana Graciela Conceição), acuada com a gangue dos Capitães de Areia, diz em alto e bom som ao seu assustado irmão: "Não se preocupe, é só um bando de menino". De fato, é isso que são os tais marginais de Capitães de Areia. E pior, é essa a impressão que as interpretações do filme me causaram: que via em ação "um bando de meninos" em frente à tela lendo descaradamente suas falas com nenhuma emoção e inflexão. Uma coisa robótica e sem graça.

Quase todo mundo ali é amador, ou semi, saído de ONGS e preparado em um processo semelhante ao que fez de Cidade de Deus um dos filmes mais intensos no começo do século. A mistura de personagens agudos e interpretações mais que naturais, fizeram o trabalho de Meirelles ainda melhor, ampliando a qualidade técnica empregada no filme.

Infelizmente, o oposto acontece por aqui. Os garotos claramente amadores e "verdes" são mais que artificiais, e isso não é culpa apenas deles. Culpa de quem os selecionou, de quem os instruiu e de quem os dirigiu. Em um filme como esse, em que os atores e as interpretações têm peso mais que fundamental na narrativa, se não nos convencemos com aqueles garotos, não nos convencemos do filme.


A história da gangue dos Capitães de Areia (para quem não leu o livro, meu caso) gira em torno de Pedro Bala (Jean Luis Amorim), o líder do bando e que junto de seus parceiros de crime vive de pequenos assaltos nas ruas de Salvador. Entre os integrantes do bando, destacam-se Professor (Robério Lima), Sem Pernas (Israel Gouveia de Souza), Gato (Paulo Abade) e Boa Vida (Jordan Mateus). A vida do bando é mudada quando a garota órfã Dora e seu irmão Zé Fuinha (Felipe Duarte), juntam-se aos garotos, criando conflitos e paixões entre os membros.

Como disse, jamais li Capitães de Areia. Jamais tive interesse pelas obras de Jorge Amado, embora reconheça sua força e importância. Sei por exemplo, que ele foi o primeiro (talvez não o primeiro, mais o mais reconhecido e consagrado) a mostrar sem pudores as mazelas, a vida suja e bandida de sua cidade, sempre ambientando suas historias nos bairros pobres, ligados as gangues, prostituição e a religiosidade. Jorge conseguiu mostrar ao Brasil e ao mundo, seu povo e sua realidade de forma marcante.

Isso não exime o filme de ser no fundo, um emaranhado de clichês cinematográficos apoiado pelas interpretações equivocadas de todo o elenco. Pedro Bala age como proto líder, mas não basta de um garoto assustado que vive se lamentando de sua sorte. Professor, um garoto talentoso para o desenho, não aceita a oportunidade dada por um estranho que ve seu talento por "ser apenas um bandido de rua". E o mais interessante deles Sem Pernas, que começa o filme dividido entre uma família estável e a certeza de que seu lugar não é aquele, transforma-se em um chatíssimo e inconveniente personagem. E a garoto Dora, que até surge interessante, também cai no lugar comum após se apaixonar.


As burrices e ingenuidades daqueles garotos (como tirar um determinado personagem de cuidados médicos para levá-lo para ser "curado" por uma mãe de santo) são amplamente defendidos pelo filme, que os encara com poesia e lirismo, deixando-os sem nenhum impacto emocional. Na realidade do filme, tudo que acontece com aqueles garotos não é por sua culpa, sempre existe um agente externo que os impede de alcançar a sonhada "liberdade". No fundo, são vítimas de sua condição.

Mais o principal problema do filme é o mal da exaltação da bandidagem. É muito difícil, ao se tratar de personagens marginalizados escapar dessa situação. Martin Scorsese, que formou sua carreira basicamente falando de parias da humanidade, sempre os enquadrou com zelo. Influenciado por sua "culpa católica", os mostrou sempre como bandidos, como pessoas vis e que no fim pagariam seu preço por suas escolhas. Ficando no Brasil, quando Babenco fez Pixote, usou do garoto de rua para falar da condição humana sem também julgar valor, e mais recentemente quando Cidade de Deus explodiu, Meirelles também teve o cuidado de não transformar as ações dos bandidos em algo digno de aplausos, inserindo um narrador, uma figura positiva e honesta no meio de tanta corrupção e violência. Ninguém sai do cinema crendo que Zé Pequeno é um rapaz em busca de "liberdade". Compreendem?

Capitães de Areia não aposta nisso. São pequenos bandidos exaltados como baluartes da liberdade e da verdadeira cara de uma cidade. O povo. Não sei até que ponto esse tipo de ideia é positiva, ou mesmo, até que ponto ela não ofende as pessoas. Por se tratar de um dito, clássico da literatura nacional, as pessoas tendem a ser condescendentes com a produção. Mas, nos coloquemos em outra situação. Se fosse adaptado um livro que exalta o heroísmo americano em qualquer conflito, não estaríamos todos aqui dizendo: "filme errado na hora errada" ou "hoje em dia, esse tipo de história não funciona mais"?


Qual a diferença então para uma história em que a bandidagem (por mais coitados e sem recursos que pareçam os garotos, isso não é justificativa para roubar) é exaltada? Apenas por retratar um período histórico diferente? Honestamente, me sinto cansado desse tipo de narrativa. Acho que o cinema nacional é muito maior do que a tríade "favela-pobreza-nudez", mesmo quando essa tríade é apresentada em períodos históricos diferentes.



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Hora do Espanto
(Fright Night, 2011)
Suspense - 106 min.

Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Marti Nixon

Com: Anton Yelchin, Colin Farrell, Toni Collette, David Tennant, Imogen Poots e Christopher Mintz-Plasse

Não me lembro de A Hora do Espanto dirigido por Tom Holland (que veio a dirigir Brinquedo Assassino e Fenda no Tempo também) em 1985. Certamente assisti, em algum momento da infância/adolescência, mas honestamente, não me lembro de sequer um frame do filme, por isso (e até de forma mais correta) vi o remake dirigido por Craig Gillespie (cujo trabalho mais conhecido é a direção de alguns episódios da série United States of Tara com Toni Collette) sem pré-conceitos ou ideias comparativas.

Ambientado em um distante e emocionalmente frio subúrbio de Las Vegas (nem sabia que Las Vegas tinha um subúrbio típico americano), já no primeiro frame somos apresentados a simetria geometricamente perfeita daquele mundo de casas iguais afastadas por uma estrada desértica do mundo de alegria e diversão que é a Las Vegas como popularmente conhecemos.

Nesse ambiente somos apresentados a Charley (Anton Yelchin), um garoto popular, boa gente e que namora com a deslumbrante e sexy Amy (Imogen Poots). Criado pela mãe Jane (Toni Collette), ele tem uma vida quase perfeita, tão perfeita que não repara quando diversos colegas de classe começam a sumir da escola sem deixar maiores rastros. Alertado pelo "ex-amigo" Ed (Christopher Mintz-Plasse), um nerd nível freak, de que um de seus melhores amigos havia sumido, acaba convencido a ir até a casa do suposto desaparecido e verificar o que acontece. Ed começa a dizer que os sumiços eram culpa de um vampiro infiltrado na cidade, que sistematicamente estava matando todos ao redor e que sua identidade era conhecida de Charley. O tal vampiro era seu novo vizinho, o misterioso Jerry (Colin Farrell) que encanta sua mãe e sua namorada. Negando a idéia - aparentemente absurda - Charley segue sua vida, até perceber que seu amigo também pode ter sido vitima de um sumiço misterioso. Ao encontrar anotações de Ed, se convence da idéia vampírica e parte em busca de ajuda.


Isso resume os primeiros vinte minutos do filme, que apresentam superficialmente todos os envolvidos na história, que não esconde ser um filme b e não tenta inventar a roda, mantendo-se simples e divertido, apesar de ser profundamente bem realizado.

Um dos problemas do filme é o fato de Yelchin e Poots não convencerem como garotos do high school. A idéia de utilizar atores mais velhos para interpretar adolescentes quase nunca dá certo e aqui também isso acontece. Apesar disso, existe uma química razoável entre o casal e Yelchin mostra versatilidade, sendo capaz de em sua até então curta carreira, ir do drama (como em sua ótima atuação em Um Novo Despertar) ao herói de ação (em Star Trek e aqui), mostrando ser capaz de fazer uma carreira longa no ramo.

Farell por sua vez, está mais canastrão do que nunca, e isso é absolutamente essencial e perfeito para o filme. Se Farell fizesse de Jerry, um ser em conflito, cheio de dúvidas e que brilhasse na luz (não posso perder a chance de cutucar, me desculpem) não funcionaria na história de Marti Nixon (uma veterana da tv, com créditos de produtora executiva em Private Practice, Grey's Anatomy, Buffy e Angel entre outros e como escritora nessas duas últimas entre outros) que tem em seu background a facilidade de transitar nesse mundo vampírico contemporâneo ao misturar o kitsch, o suspense, o drama e a comédia. Para o bem e para o mal, Hora do Espanto remake, lembra um episódio chique e muito bem cuidado de Buffy ou Angel.


Os coadjuvantes são o que fazem de Hora do Espanto especial e divertido. Mintz-Plasse cada vez mais McLovin (seu personagem símbolo de SuperBad), é exageradamente ridículo como Ed, o que também é ótimo para a proposta desencanada do filme. Toni Collette por sua vez deve ter embarcado na aventura por amizade ao diretor Gillespie que a dirigiu na série de Tara, a mulher com múltiplas personalidades.

Mas quem rouba todas as cenas em que aparece é o brilhante e engraçado David Tennant (o segundo Doutor na volta da série Dr. Who), aqui interpretando o especialista no oculto Peter Vincent, que no original era vivido por Roddy McDowell (da série Planeta dos Macacos). Peter é uma mistura de roqueiro gótico com mágico moderno, uma coisa meio Chris Angel encontra o vocalista da banda HIM e Russell Brand. Mas obviamente, tudo aquilo é montado e a cena em que Vincent se despe do figurino é hilária. Tennant é daqueles atores que consegue ser engraçado sem fazer esforço e seu sarcasmo tipicamente inglês é usado aqui a exaustão.

O filme ainda tem tempo de brincar com a musa Sofia Vergara, escalando sua irmã Sandra, como amante/namorada do mágico que quando abre a boca revela uma assustadora semelhança com a irmã. Sofia e Sandra gritam e esperneiam de maneira idêntica, então, se essa não foi uma brincadeira com a típica latina boazuda, é uma ótima piada involuntária. Homenagem mesmo é ao ator Chris Sarandon, que era o vampiro no original, e que aqui faz uma ponta de luxo que rende a melhor sequencia de ação do filme.


Sequencias essas que são muito bem fotografadas (apesar de estarem brutalmente escuras) por Javier Aguirresarobe que - olhem só como são as coisas - tem em seus créditos a fotografia de Lua Nova e Eclipse, além de Os Outros, Mar Adentro, A Estrada e Vicky Cristina Barcelona. Javier é um mestre nas sombras e faz do escuro Hora do Espanto, um deleite para quem gosta de filmes de vampiro "roots", onde os monstros sugadores de sangue são realmente ameaçadores. Aqui, mesmo na atmosfera mais leve típica de produções de Joe Dante, as sombras e o suspense dão o ar da graça.

Outro grande destaque é a trilha vigorosa e poderosa de Ramin Djawadi (Fúria de Titãs e Homem de Ferro entre outros) que mistura as idéias de Drácula de Coppola e cria um dos poucos temas assobiáveis do cinema recente. Um trabalho excelente.

Gillespie por sua vez conseguiu misturar o suspense com as situações exageradas e propositais, criando uma mistura típica dos anos 80 (que ainda renderam Garotos Perdidos na mesma linha) com os avanços técnicos e de linguagem do novo século.Talvez não faça o sucesso esperado, mas é divertido, bem realizado, com piadas e referencias pop aos montes e duas ótimas sequencias de ação.

Obs: o 3d é do tipo "coisas voando na tela" e não é utilizado para criar profundidade. No que se propõe realiza bem o trabalho.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011


The Guard


Num mundo tão politicamente correto chega a ser profundamente ousado produzir um filme como The Guard, que pelo que seu trailer indica carrega nas linhas de discussão sobre o racismo, mesmo que por meio da comédia. Brendan Gleeson, com um sotaque ofensivamente incompreensivel vive um policial de cidade pequena que precisa trabalhar com um investigador do FBI negro (Don Cheadle) enquanto dispara afirmações sobre a cor do novo parceiro. A mistura lembra (obviamente) Máquina Mortifera e o recente e hilário Chumbo Grosso. Destaque também para a trilha sonora que remete aos spaghetti western.

terça-feira, 4 de outubro de 2011


Margin Call - O Dia Antes do Fim






O excelente trailer do filme do estreante J.C. Chandor, que também cuida do roteiro, aposta num ritmo tenso e ágil para ilustrar bem a urgência do desespero que a Crise Econômica provocou no mundo. Interessante ver a visão de poucos homens de uma empresa para o início da quebra da Bolsa. Logo nessa prévia, já dá para vermos diálogos fabulosos como "Nenhuma dessas pessoas na rua tem ideia do que está acontencendo", disparados pelo afiado elenco estelar, que vai de Kevin Spacey a Zachary Quinto, o Spock do novo Star Trek, aqui também atuando como produtor. A tensão deve dar as cartas no agora esperado drama de suspense. A torcida fica para que o diretor saiba dosar o suspense, mesmo sendo estreante e aparentando registrar enquadramentos um tanto truncados, como a cena de Demi Moore e Simon Baker.