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sexta-feira, 11 de março de 2011

Deixe-me Entrar
(Let Me In, 2010)
Drama/Terror - 116 min.

Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves

Com: Kodi Smit-McPhee e Chloe Moretz



Remakes. Se você fizer uma pesquisa entre os cinéfilos do país (e talvez do mundo), vai perceber que a maioria (ou quase totalidade) despreza essa idéia de "adaptar", "apresentar a um novo público" que é vendida a cada novo remake que desembarca nas telas.


Quando o filme fez sucesso e foi reconhecido como grande trabalho a situação fica ainda pior. Quando esse filme é novo, a situação beira a ofensa. É o caso da idéia por trás do remake de Deixe Ela Entrar, filme sueco de 2008 - sucesso monumental de crítica - que misteriosamente não foi sequer lançado em dvd/blu-ray no Brasil. A história de amor trágica e gótica entre a menina vampira e o garoto que sofria de bullying, além de ter muito estilo era muito inteligente na condução de seus personagens.


Por isso quando Matthew Reeves (o mesmo de Cloverfield, um proto remake dos filmes de Godzilla, misturado com Bruxa de Blair) foi anunciado como o diretor do remake desse filme, obviamente as expectativas foram ao chão. Nada contra o diretor (acho Cloverfield bastante divertido), mas contra a idéia, de menos de dois anos depois do filme ser lançado, uma versão americana entrar em produção. É o mesmo caso de Quarentena (em relação à REC) e a versão americana de Os Homens que Não Amavam as Mulheres (em relação ao filme original sueco que adapta o primeiro livro da trilogia Millenium para as telas).



Narrativamente o filme é quase reverente ao original, sugerindo apenas pequenas mudanças. As mais importantes são que o detetive ganha mais destaque, a sequência dos gatos e toda a repercussão dos ataques vampíricos entre os vizinhos não existe, o filme também é mais gráfico, não "expõe" a "nudez" de sua atriz mirim em uma determinada cena, não mostra o pai do garoto (aqui chamado Owen) que aparentemente é homossexual e - a pior das decisões - mastiga e vomita na cara do espectador as respostas quanto à origem do homem que acompanha a menina, aqui chamada Abby.


No mais, se o espectador assistiu o original verá aqui uma cópia.


E qual é o problema que faz de Let me In um filme apenas razoável?



O mais óbvio é que se trata de um remake, ainda mais um remake tão reverente, o que entrega a intenção capitalista. "Vamos mudar a língua e lançar de novo, porque americano não le legenda" é o que surge de mais claro como comentário a respeito do filme. O original era baseado num livro, e talvez fosse mais interessante do ponto de visto artístico voltar a essa fonte para recriar o filme (como fez, por exemplo, Tim Burton com seu Planeta dos Macacos e Fantástica Fábrica de Chocolate, que méritos a parte, tem a qualidade de serem diferentes dos filmes originais), mas obviamente isso afastaria o que imaginavam que faria sucesso. Não deu certo, já que o filme foi um fracasso monumental, uma prova que o original sueco era um filme muito especifico e que também não teria força nesse mercado emburrecido e eternamente adolescente que é o americano.


Outro problema é que não temos como comparar a solidão e a melancolia de uma noite de inverno sueca com uma noite fria no Novo México. Na primeira você sente o congelar das pessoas e situações e a fotografia auxilia esse processo. Nesse você não enxerga os longos planos abertos em que cada personagem entra em tela e sai com a mesma precisão. Parece tudo mais corrido, ou, ao gosto do cliente - no caso - o americano que não tem (em geral) paciência para grandes planos e tempo de desenvolvimento de personagens.



Existe sim um destaque extremamente positivo na versão americana, que mantém o nível da versão sueca. Seus atores. Kodi Smit-McPhee visto e elogiado em A Estrada, repete a dose de competência, fazendo Owen menos frágil e infantil que o Oskar da versão original, talvez mais condizente com a idade do garoto (estou supondo). E Chloe Moretz é uma tremenda atriz podemos dizer sem dúvida. Se ela já havia surpreendido muita gente com sua Hit-Girl boca suja e que não leva desaforo para casa, sua Abby é uma criatura melancólica mas amorosa, e - isso ficou mais claro na versão americana - interessada no rapaz como um novo "protetor" e não como amante juvenil. Essa mistura de doçura e perversidade (que no fundo quer um novo humano para explorar) faz de seu personagem tão interessante quanto à fleumática e igualmente ingênua Eli, do filme original.

Matt Reeves é muito diferente de Tomas Alfredson, e isso não é demérito. Apesar de reverente ao texto visualmente o filme é diferente e mais "fácil" do que a versão sueca. A trilha de Giacchino mantém a qualidade de seus trabalhos anteriores e é um destaque.


Deixe-me Entrar é um remake descente (como disse no twitter) e decente. Desce em relação ao original muitos degraus da escada, mas dentre os exemplares do "gênero" remake, talvez seja o melhor.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Diário de um Banana
(Diary of a Wimpy Kid, 2010)
Comédia - 94 min.

Direção: Thor Freundenthal
Roteiro: Jackie Filgo, Jeff Filgo, Gabe Sachs e Jeff Judah

Com: Zachary Gordon, Robert Capron, Chloe Moretz, Rachel Harris e Steve Zahn

Existem filmes ruins e existem atrocidades.Filmes ruins são aqueles que não funcionam: que são mal feitos, que encontram no meio do caminho uma série de problemas ou que apresentam um resultado final extremamente infeliz.Já as atrocidades são aqueles filmes que lhe dão raiva. Assim, curto e grosso. Seus olhos não conseguem captar tamanha imbecilidade, e seu cérebro tenta não processar as informações que o "filme" apresenta.

Diário de um Banana (dirigido por Thor Freudenthal) infelizmente se enquadra na segunda categoria. Na tentativa de retratar o livro de Jeff Kinney, optou por apresentar uma jornada de "herói", com todos os ditos passos para a consolidação de personagem.O problema é que o personagem do garoto Greg (vivido pelo fraco e pedante Zachary Gordon) é um dos protagonistas mais fracos da década. Retratado como uma criança-adulta, chatíssima e cheia de neuroses (quero ser popular é a principal) é um erro do começo ao fim. A interpretação de Zachary não ajuda também, já que o ator mirim retrata as aventuras de seu personagem (que são o "roteiro" do filme) com grau de seriedade que não combina com o tom de tentativa de sátira que o filme apresenta.


Tentativa sim, pois no frigir dos ovos, Diário de um Banana é uma cópia sem nenhum gosto da série de TV Malcolm (que chegou a passar aqui) sem o mesmo humor anárquico e bizarro da série. No filme, tudo acontece como uma grande jornada de amadurecimento modorrenta, tendo como "guia" um pedaço de queijo apodrecido jogado num canto do pátio da escola do garoto. O diretor usa e abusa das passagens de tempo ilustradas pela "evolução" do queijo podre. Algo que Alfonso Cuarón (só pra ficar no universo pop) ilustrou com grande felicidade em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. No filme do bruxo era uma árvore que servia como "relógio". Em Diário, o mal encarnado (e principal "aventura" do filme) é o fato dos alunos não poderem tocar no tal pedaço de queijo, com a pena de serem tachados como párias sociais.

Duas coisas: sim, é uma obra pré-adolescente, mas imagino que os garotos e garotas dessa idade não sejam tão tacanhos a ponto de comprar esse tipo de mote narrativo. O outro problema é que o filme reforça os estereótipos da escola moderna. Um campo de batalha selvagem, onde todos devem ser invisíveis para atravessarem os perigos do dia a dia. Revela que no fundo - ou nem tão fundo assim - o filme diz mais aos adultos do que a molecada.


Somos nós que cultuamos essa idéia doente de que a escola é uma piada ambulante ou uma série de provas complexas que formam nossos traumas, medos e alegrias eternos. Nos Estados Unidos, e seu interminável culto ao "ser popular" isso ainda é mais evidente.
Se o filme tentasse usar a força do cinema para discutir de forma ácida esse problema seria um tremendo sucesso. Como o preguiçoso diretor optou por apresentar o pseudo-crescimento de seu "herói", o filme entrou - muito embaixo - na vala comum dos filmes ordinários.

Recheado de piadas sem um pingo de originalidade e graça, o filme só não é pior - se é que é possível ser - pois apresenta em alguns momentos os traços do próprio livro original para ilustrar algumas passagens.

Conversando com gente que leu - ou conhece a obra - ficou claro para mim que o sucesso da publicação deveu-se a seu formato. O livro é um diário que cobre acontecimentos do dia desse garoto. Freudenthal e sua equipe de quatro roteiristas (Jackie Filgo, Jeff Filgo, Gabe Sachs e Jeff Judah) transformou cada pequeno evento comum em um épico de proporções gigantescas. Tudo é exagerado e se a idéia era ser engraçado e brincar com isso, foi muito mal sucedido.


O filme, no máximo gera risos nervosos e de vergonha alheia pelas situações. Notem a seqüência de dança ao som de Intergalatic dos Beastie Boys e tentem entender a necessidade daquilo. Qual o objetivo? Retratar o personagem mostrado como uma criança completamente bobalhona? Qualquer que tenha sido a idéia, falhou.

Outra falha gritante e irritante é a caracterização dos personagens como estereótipos estúpidos. Novamente, se estivéssemos falando de um filme satírico de alguma qualidade (South Park, a série de TV faz isso muito bem por exemplo) seriam tiradas inteligentes e uma fonte de piadas. Mas como tudo se encaixa num ambiente real e embalado pela jornada angustiada, os estereótipos só reforçam a má qualidade do texto.

Estão lá desde o irmão mais velho raso e acéfalo, os pais preocupados mais desligados, a menina que quer ser popular a todo custo (e que usa até trancinhas), a garota inteligente e "cool", aparentando ser muito mais velha que os demais (essa vivida pela atriz sensação: Chloe Moretz), o estranho garoto com problema de higiene e o amigo que não cresceu, que numa análise mais profunda, representa o que nós, mais velhos, imaginamos como o ideal para uma criança daquela idade.


Explicando melhor: o filme trata de crianças de uns 10 ou 12 anos de idade. Nós, e isso é visível em qualquer programa de TV ou jornal, vivemos vociferando que a infância de hoje é "adulta" demais. Tem preocupações e faz coisas (incluindo sexo) que quando tínhamos a idade referida nem imaginávamos ter. O que o filme apresenta é justamente um personagem assim. Uma criança, com defeitos de criança e que deveria brincar e se divertir. O problema do filme é que o garoto é mostrado como um ideal, como o verdadeiro herói.

Mais uma prova da falha medonha do roteiro. Imaginar em plena era da informação que as crianças sejam como éramos é de uma infantilidade atroz. É um traço de moralismo bobo e que tenta catequizar os mais novos mostrando que no fundo, bom mesmo é ser bobalhão e nunca crescer. Não que concorde com garotos e garotas mini-adultos (irritantes e metidinhos) mas elas são reflexo de nossas sociedades ocidentais, e por conseqüência direta de nós mesmos.

Ao apresentar esse tipo de análise sobre o ideal infantil, caímos no golpe do julgamento de valores que nós mesmos sofremos quando tínhamos menos idade. Ou você acha que sua mãe, ou seu pai acham mesmo que sua infância foi melhor que a deles?


Diário de um Banana, no contexto, presta um desserviço em várias esferas. Não funciona como comédia rasgada ou mesmo irônica. Ainda apresenta estereótipos infelizes que só ajudam a reforçar preconceitos e que nem dão graça e por fim tenta cooptar para a causa as crianças de hoje.

Bom ou ruim, certo ou errado, mas faça a seguinte pergunta a uma criança de uns 12 anos. O que ela prefere: mexer no ipod ou no computador ou brincar na rua? A resposta da imensa maioria é meio óbvia, pena que o filme não percebeu essa obviedade e se adequou.


domingo, 20 de junho de 2010

Kick-Ass
(Kick-Ass, 2010)
Ação/Thriller - 117 min.

Direção: Mathew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman e Mathew Vaughn

Com: Aaron Johnson, Chloe Moritz, Nicolas Cage, Mark Strong

Mark Millar sempre foi um escritor extremamente polêmico. E competente. Desde trabalhos obscuros e irônicos como O Procurado até mega-blockbusters em páginas de quadrinhos, como Guerra Civil e Old Man Logan, Millar é um sucesso entre os críticos e os leitores, sendo sucesso de vendas. Ainda fez um clássico moderno pela Marvel, Os Supremos, que é tido como referência pra criação de Universo dos filmes Marvel. Em 2008, Millar resolveu escrever outra história. Dessa vez, rumava para o rumo irônico que se tronou sua marca. O tema: O que aconteceria se um fanático por quadrinhos virasse um super-herói? Juntando tudo ao gênio vivo chamado John Romita Jr. e temos Kick-Ass. A HQ fez muito sucesso e os fãs (eu entre eles, diga-se de passagem), aguardavam ansiosamente a conclusão dela (as 8 partes saíram de 2008 a 2010, com incrível atraso) e a adaptação cinematográfica. Cerca de 3 meses depois do melancólico final da HQ, surge o filme nos cinemas. E com censura 18 anos, o que torna evidente o fato da HQ ser ultra-violenta. E como ficou o resultado? Alucinantemente sensacional.

A trama gira em torno de 3 arcos principais. O de Dave Lizewski (Aaron Johnson), um adolescente de 16 anos, nerd fanático por HQs que quer se transformar em super-herói por não mais aguentar as pessoas nada fazerem pra combater o crime. O do mafioso Frank D'Amico (o cada vez mais genial Mark Strong), que quer descobrir quem é o tal super-herói que está matando seus homens e o de Big Daddy e Hit-Girl (Nicolas Cage e Chloe Moretz), dois super-heróis, pai e filha, que querem vingança contra D'Amico por ter feito sua esposa e mãe ter se matado. E ainda temos o filho de Frank, Chris (Christopher Mintz-Plasse), que vai completar 18 anos e quer ter um papel central na "família". A trama se extende até o meio com agilidade e muitas informações engraçadas e construção de personagens formidáveis.


Porém, se o espectador achar que é apenas um blockbuster comum, se chocará.

Kick-Ass tem doses cavalares de violência, que justificam uma censura R nos USA e tem palavrões a todo momento, sendo eles proferidos por um mafioso irado ou uma menininha de 11 anos. Essa, por sua vez, é a Hit-Girl, que esfacela criminosos ao longo de toda a película e com requintes de violência realmente extrema (mutilações, tiros na cabeça e até mesmo uma morte pelas costas, de uma mulher "indefesa"). Logo, se o espectador preza pela dignidade moral e acha repreensível comportamentos violentos, corra do filme. É um dos maiores e mais divertidos exemplos da glamurização da violência de toda a história do cinema. Tudo isso potencializa o fato de que Kick-Ass, como bom filme de nicho que é, se tornará um novo cult, a ser apreciados por cidadãos que prezam por uma boa história.

O roteiro de Jane Campion e Matthew Vaughn é simplesmente sensacional por transformar a, já difícil de digerir, HQ de Millar e Romita Jr. em uma película absurda e original ao extremo. Além de abusar dos clichês de todos os filmes de super-herói (o Big Daddy se veste como o Batman, Dave é um típico Peter Parker, as motivações dos heróis são todas chupadas de quadrinhos), o roteiro expõe uma excelente crítica a sociedade ridícula que tomou conta do mundo, áquela que nem liga em ter violência urbana nas ruas e esqueceu honra e respeito. Quando frases geniais como "Por que todos querem ser Paris Hilton e ninguém que ser o Homem-Aranha?" são proferidas, a verdadeira identidade da primeira metade do filme fica evidente. Segue á risca a aversão aos clichês (e deboche a eles).


Porém, na segunda metade do filme, ele se torna um filme mais sério, se tornando um filme de personagens e deixando os clichês, se distanciando da HQ. E, sinceramente, ficou bem melhor. O final da HQ seguia a linha de deboche aos clichês. Resumo: Dave terminava simplesmente acabado. Não conseguiu nada que queria, um desastre total. Já no filme, o roteiro visou mais um apego aos personagens e uma linha séria, o que só transformou o filme numa experiência soberba, irretocável. Mesmo que o distanciamento cronológico do que houve na HQ tenha ocorrido, nas telas Kick-Ass continuou extremo, alucinado e corajoso, sem ter amolecido ou reduzido a fortíssima mensagem (gráfica e mental) que a HQ pensava. Os ideais permaneceram, mas os personagens foram premiados por eles. Em síntese, o que se coloca em Kick-Ass no cinema é mais simples do que na obra original, despertando emoções mais verdadeiras e apego mais fácil e tangível à história, deixando assim toda a narrativa mais palatável ao espectador, sem tirar sua originalidade ou sua mensagem.

Tendo um roteiro fiel e bem adaptado, o que Matthew Vaughn faz na direção é acima da média, mas sem abusar demais (o que é bom no caso desse filme). Enquadra atores perfeitamente bem, diferente da maneira enlatada de Hollywood , e utiliza planos limpos e largos como o quadrinista John Romita Jr. fez na HQ . Quando abusa de cortes rápidos, eles não confundem o espectador, mas criam um dinamismo maior dos movimentos executados . Sem dúvidas, não perde o controle em momento nenhum, e permanece em sintonia com a proposta do filme. Para tanto, também precisou utilizar takes mais modernos (afinal o filme é modernidade pura) como a pistola indo na câmera e a divertida sequencia em primeira- pessoa de Hit-Girl.

Nas outras partes técnicas , Kick-Ass passa sem erros. A trilha sonora montada é uma colcha de retalhos de vários ritmos e canções, que no final combinam perfeitamente. As músicas entram com um propósito, tanto de criar uma ironia - como nas sequencias de mutilação de Hit-Girl - ou por puro estilo de fundo musical. Já a trilha original também consegue ter um espaço considerável, utilizando um estilo clássico a lá Hans Zimmer, tendo ritmos muito parecidos com o do último Batman. Mas a própria fotografia já deixa bem claro que Kick-Ass não é nada sombrio. Esse quesito, aliás , é importantíssimo para a compreensão final da mensagem da obra. Os quilos de violência do filme combinados com o toque colorido-vivo da fotografia , deixam bem claro que aquele não é uma película sombria, mas sim extremamente divertida, com alguns momentos non-sense e por fim, feel good.


Nas atuações, Kick-Ass também não erra. A escolha mais acertada parece ter sido da garota Chloe Moretz, que não só atua soberbamente mas também parece ter adorado e se divertido nas gravações. Encontrar uma garotinha de 11 anos que participasse de tantas cenas de violência gráfica não poderia ser fácil, e a equipe achou a menina certa. Todos os outros tem atuações competentes, e Nicolas Cage não erra como Big Daddy, e concretiza-se em dois trabalhos seguidos sem nenhum erro .

Com toda a sua violência e proposta de criar um shake de cultura pop e de super-herois, Kick-Ass cumpre o que promete, mas vai além. Não só adapta de maneira perfeita a parte inicial da HQ escrita por Mark Millar ,como também apara seus erros na reta final . É definitivamente, então, melhor que sua obra original. O Kick- Ass dos cinemas é mais do que um fã podia esperar.

Não se espantem se no futuro esse filme reverberar como um consagrado cult de nossa década. Ele merecerá - e merece- todos os elogios .

(Nota do Editor: Por que duas resenhas de Kick-Ass? Simples, acreditamos no potencial do filme e a segunda crítica foi realizada por nossa dupla de fãs neófitos por hq, o que trás uma abordagem diferente ao filme)

sábado, 19 de junho de 2010

Kick-Ass
(Kick-Ass, 2010)
Ação/Thriller - 117 min.

Direção: Mathew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman e Mathew Vaughn

Com: Aaron Johnson, Chloe Moritz, Nicolas Cage, Mark Strong

Posso pressentir as resenhas sobre Kick Ass que serão escritas pelos “velhos” críticos, muito mais preocupados em rolar sobre o próprio conhecimento do que em experimentar as novidades. Cunharão termos como: “absurdo”, “descerebrado”, “imbecil”, “ofensivo” entre outros adjetivos pouco gentis ao filme de Mathew Vaughn.

Permita-me estar no outro lado do ringue, com o protetor bucal, e luvas em punho e sacramentar sem a menor dúvida: Kick-Ass é um dos filmes mais divertidos que já vi.
Por que ? Simplesmente por não se importar nem um pouco com o que será dito e repercutido sobre sua completa subversão sobre o que é considerado aceitável na sociedade. Esqueça qualquer resquício de moralidade que ainda reste em você, pois Kick-Ass é um tiro bem no meio da testa de uma geração que, ou acorda e percebe que o que foi, um dia, sinônimo de diversão, hoje não funciona mais.


Hoje, os adolescentes pensam e agem de uma maneira mais acelerada e tem conhecimento de coisas com uma velocidade mil vezes mais intensa do que toda uma civilização que a procedeu. Reflexos de uma sociedade que nasceu mexendo no computador, ouvindo Mp3, tendo a sua disposição quilos de e-books e afins. Afinal, é impossível imaginar que em outro período histórico, um vídeo no YouTube geraria tamanha comoção, ou que um personagem que se transformaria em herói teria a sua disposição um site e uma revista em quadrinhos, como são mostrados no excelente roteiro de Jane Goldman e do próprio diretor Mathew Vaughn. A excelência do trabalho vai além da representação de uma geração, mas na sátira dela mesma e principalmente na “destruição” dos preceitos do objeto de culto. A diferença de Kick-Ass, para o outro grande trabalho que pensou nessa desconstrução é o tom. Se em Watchmen (a mais importante história em quadrinho da história), Alan Moore (o autor) quis retratar uma sociedade castrada e a beira de uma destruição moral e social e que havia destruído (fisica e simbolicamente) aqueles que um dia tentaram protegê-la, o filme (e imagino os quadrinhos) Kick-Ass imagina que essa sociedade já se foi. A moralidade já era, é coisa do passado, e os limites do ser humano hoje são muito mais permissivos, aceitando um tipo de “herói” inacreditavelmente falível, patético e violento. E tudo isso com uma dose gigantesca de cinismo, sarcasmo e bom humor.

Isso é bom? Não sei, mas sou um produto dessa sociedade e, portanto minha visão sobre ela é de alguém intrinsecamente ligado em seus movimentos “peristálticos”. Tratar de assuntos sérios com essa “leveza” e despojo são marcas de minha, e das gerações mais novas.


Por isso, me diverti imensamente com o filme de Matthew Vaughn, pois para minhas pupilas acostumadas aquele caleidoscópio de imagens, sons e cores, em vez de enxergar o horror e o ofensivo, viram uma sátira inacreditavelmente violenta e abusada em seus conceitos e que mesmo levando-se a sério (como conceito), entrega uma diversão de primeira.

Não, Kick Ass, não tem violência estilizada, tem sangue sim, e se você não estiver acostumado a subversões vai se incomodar, ainda mais quando a responsável por boa parte dele é uma garotinha de 11 anos.

Sim, leitor, 11 anos. Uma super-heroina badass, com apenas 11 primaveras intitulado Hit Girl (Chloe Moritz, espetacular durante todo o filme) , treinada desde que nasceu como uma máquina de lutar/ferir/matar por seu pai, um ex-policial em busca de vingança contra os assassinos de sua mulher.


De outro lado, temos o nerd bobo da vez, Aaron Johnson, vivendo o “herói” titulo do filme. Como está na moda, o rapaz é magrelo e tem aquele cabelo em formato de capacete, estilo Michael Cera ( de Juno e eternamente o nerd-mor dessa geração). Ele é apalermado com as meninas, ainda está passando pela mudança de voz e tem dois amigos (igualmente nerds) que passam as tardes numa comic shop. Um dia, de sopetão, num momento de lucidez diz: porque ninguém quis ser um super-herói e muitos querem ser Paris Hilton? Diante dessa pérola de sabedoria, resolve vestir a roupa colada e defender os fracos e oprimidos das garras da injustiça (poético não?).

Só pela descrição (necessária para explicar os motivos do choque de muita gente), boa parte do público já fez careta e desistiu de ver o filme. E fico feliz com isso, pois diferente de Lost (outra série de nicho que fez a “bobagem” de se tornar popular, agregando a sua base de fãs gente que não entendia bulhufas do que estava sendo dito), Kick Ass será um filme de poucos, e que fará um grande sucesso entre eles, assim como filmes de arte tchecos tem seu nicho e fãs por exemplo.


O filme é um primor técnico e artístico, em especial do uso da trilha sonora para ilustrar determinado momento ou sensação dos personagens. Cada pequeno “ato” funciona como uma “música” separada, tendo destaque especial e brilho próprio. A fotografia abusa dos clichês dos filmes de herói e das graphic novels com o uso do alto contraste sendo sua marca mais nítida, porém não querendo simular a realidade do quadrinho, mas representá-la e homenageá-la. A câmera lenta brigando por espaço em meio aos cortes ágeis (que graças a deus, não são do tipo “piscou-perdeu”) e a iluminação que adquire vida própria, (em especial numa sequencia de tortura, onde a única coisa que ilumina a cena são os tiros) são outros pontos estéticos muito interessantes. Sensacional.

Vaughn por sua vez, parece ter se divertido horrores na direção. Usando e abusando de referencias e auto-referências, transforma Kick-Ass num filme muito seu. Quem pode ver Layer Cake, com o então desconhecido Daniel Craig (pré-Bond) vai reconhecer a forma bem humorada com que o diretor trata os gangsters mostrados no filme. Diferente do “rei” dos gangsters ingleses, Guy Ritchie, Vaughn prefere ver seus personagens como pessoas normais que se envolvem em situações estranhas sempre com muito bom humor, enquanto o ex de Madonna os mostra como personagens estranhos e exóticos que estão simbioticamente ligados ao universo perturbado do diretor.


Outro que parece feliz em cada take, é o nerd de plantão Nicolas Cage, que parece viver um bom ano, depois do excelente Vicio Frenético, encarnando um herói bad-ass e perturbado (Big Daddy). Destaque para a história de origem do “herói” que é contada em quadrinhos e que funciona muito bem.

As sequencias de ação são as melhores do ano com folga. Diferente do que vemos atualmente, Vaughn prefere deixar a ação fluir e usar os cortes para mostrar ângulos, e possibilidades dramáticas. Observem a sequencia (embalada pela trilha de Ennio Morricone) em que uma garotinha coloca sua arma na boca do figurante de luxo Jason Flemyng (ator inglês de muitos papéis interessantes). Num momento vemos o personagem de costas encobrindo a garota e no take seguinte, nos é revelado o “segredinho” por trás da suposta inocência da garota. Muita gente já fez isso sim, mas com essa competência é difícil ver.


Mas o mais dicotômico, e que pode parecer absurdo a primeiro plano, é que apesar de estarmos vendo um filme assumidamente violento, em nenhum momento (apesar de se levar a sério e nos jogar dentro do universo dos personagens) ele deixa de ser divertido e até leve, o que é um feito notável.

Sem muito medo digo: Kick-Ass deverá ser um Cult movie dessa geração, e já é um dos mais divertidos filmes do ano.