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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Eu Vi -The World's End

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.



The World's End
(The World's End, 2013)
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Simon Pegg, Edgar Wright
com: Simon Pegg, Nick Frost, Paddy Considine, Martin Freeman, Eddie Marsan, Rosamund Pike, David Bradley, Pierce Brosnan 

Me recuso terminantemente a chamar essa comédia sensacional por seu medíocre título nacional (ele já deve estar saindo em home vídeo). A terceira parte da”trilogia do Cornetto” (complementada com "Todo Mundo Quase Morto" e "Chumbo Grosso") é a melhor comédia do ano. Misturando sem errar na dose a trama nostálgica sobre esses quarentões que desejam cumprir uma promessa dos tempos de moleque com os elementos sobrenaturais, o filme é sensacional.

Simon Pegg de novo mostra o porque é um dos atores mais divertidos da atualidade. Seus coadjuvantes todos acertam, incluindo ai seu eterno parceiro Nick Frost, o hoje famosíssimo Martin Freeman, o excelente Paddy Considine, Eddie Marsan, a linda Rosamund Pike, David Bradley e um Pierce Brosnan divertindo-se muito com a situação.

Quanto menos se falar sobre a trama é melhor, mas basicamente ela começa com esse grupo de sujeitos tentando vencer uma mítica corrida pelos pubs de sua cidadezinha natal. Ele precisam – em uma só noite – beber ao menos uma caneca de cerveja em cada um dos muitos pubs da cidade (se minha memória não falha são 12) culminando no mitológico World’s End, que dá titulo ao filme. Mas, como em todos os filmes desse excelente Edgar Wright existe algo mais por trás e as revelações são muito divertidas. No campo do cinema pop hoje, poucos são tão competentes quanto Edgar Wright, e aqui ele prova novamente.

De longe a comédia mais divertida do ano e que por incompetência dos responsáveis por seu lançamento por aqui, o brasileiro só vai poder curtir em casa. Merecia muito mais.

domingo, 16 de outubro de 2011

Tiranossauro
(Tyrannosaur, 2011)
Drama - 91 min.

Direção: Paddy Considine
Roteiro: Paddy Considine

Com: Peter Mullen, Olivia Colman e Eddie Marsan

Joseph anda amargurado. Os imigrantes destratam o irlandês de raiz, seu melhor amigo está morrendo e sua mulher o deixou há cinco anos. Encontrando refúgio apenas na bebida, não tarda para que Joseph desconte em alguém o seu sofrimento. Chutes são ouvidos. O pobre cachorro chora. Surge o título.

O longa de estréia de Paddy Considine, o competente ator inglês, se desdobra como o surgimento de uma luz no fim do túnel. Uma poesia romântica hardcore onde a maior salvação é a sobrevivência. Mas se os filmes pesados costumam unir o sexo e a amizade em prol da violenta redenção, Tiranossauro é mais sutil: é a palavra, o amor, que acaba encontrando unidade no poético mundo do caos. Encontrando um paralelo estrutural com o Contra a Parede de Fatih Akin, o filme inglês se sobressai ao utilizar o mundo cão de uma tragédia para estudar o retrato de um homem que, perdido na vida, encontra em outra perdição, a paz.

O protagonista tem na violência um modo de escapar de sua duríssima realidade emocional. Vê a injustiça no mundo, mas nada pode fazer. O pobre menino, que tem uma mãe passiva, acaba sofrendo com a autoridade exacerbada do namorado. Amigo do menino, Joseph quer fazer alguma coisa, mas a impotência que as regras impõem causa um mal-estar inigualável em Tiranossauro. Ação ganha reação. Não adianta Joseph procurar um pouco de paz no bar; a ameaça se consuma ás avessas, logo depois. E ao abrir seus vívidos olhos no chão, Joseph percebe que consertar o caos não dá muito certo. Um homem castigado percebe que o mar de seus belos olhos azuis não é suficiente. No final, se prosseguir na autodestruição, aqueles olhos só poderão contemplar o que contemplam na reação: o chão. Não dá para se isolar do mundo, mas dá para se esconder.




E nada melhor que se esconder por trás de um sorriso.

Hannah, vivida com sensibilidade por Olivia Colman, leva uma vida pacata. Tem sua pequena loja de roupas, é religiosa, se sente segura com o quadro de Jesus a observando. Um dia, Joseph adentra sua loja ferozmente. Quando começa a conversar, já despacha seus pensamentos pessimistas. O que torna a passagem emblemática é a forma como Hannah lida com tudo. Ao encostar na cabeça do protagonista, o rosto de Olivia se fecha. Uma sutileza que sacramenta a fé que aquela mulher tem. E se Joseph se esconde por trás dos cabides, Hannah se esconde na fé. Para ter uma noção do caos, tem que passar por ele. Como deriva da violência, o caos sem investigação deve-se apenas a análise visual. Não por acaso, só sabemos de tudo quando o olho aparece roxo.

Em certo ponto, pergunta-se a Joseph: "Por que está fazendo isso?". O semblante atmosférico de Peter Mullan não parece saber. Chutar o cachorro, destruir a vitrine, quebrar o retrato, socar um rosto. A violência não procura ser respondida por que ela é inevitável, porque é inexplicável. É uma ferramenta que só o caos impõe. O que diferencia Joseph e o marido de Hannah não são as boas ações; é a forma como a violência é usada. Para um, é um caminho prazeroso, irracional, de tomar o controle. Para o outro, é uma ferramenta de escape que serve para viver no mundo dos homens. Para Joseph, é muito mais uma questão de sobrevivência, enquanto o ameaçador marido (repare no fantasmagórico take em que Eddie Marsan passa a mão no pescoço) vê naquilo uma sensação de poder desprezível (como urinar em cima do sofá ou transar á força). Tiranossauro é excelente por essas e outras corajosas decisões. Não é qualquer filme que separa o protagonista do antagonista por uma linha tênue. E muito menos debater essa linha, mesmo que seja irrefreável ou incompreensível.




A disparidade entre as personalidades é visível. Joseph, com uma performance estarrecedora do fantástico Peter Mullan, sabe de seus erros, sabe que a maioria do que fez foi fruto de suas próprias ações (sejam boas ou não). Hannah, porém, é uma vítima de escolhas que eram difíceis de serem analisadas. Ainda hoje, sofre a consequência do que uma mente dissimulada pode executar. Quando vê aquela ingênua foto de casamento, Hannah (e o espectador) não acredita(m) no que aquilo se tornou. Tem fé, porque ali tem abrigo. Já Joseph entende o que acontece, sem falsos questionamentos. Não tem fé e não vê aquilo como um refúgio; vê apenas como um motivo para ficar ainda mais furioso. Uma é passiva, que estoura de uma vez só, perplexa. O outro é impulsivo, destrutivo, desconta na hora, mesmo que não seja em quem merece (o que nos traz de volta ao cachorro). Uma busca justificativas, o outro aceita os rumos e luta contra. Joseph sabe o monstro que é, mas destrói o galpão porque a dor impõe isso.

A principal diferença, porém, é que mesmo que ambos sejam capazes de agir de forma descontrolada, apenas Joseph sabe o que vai aguentar. Mesmo sabendo o que vai acontecer, ele pega o machado.

Mas as duas pessoas se entendem no meio da confusão mental e psicológica. Joseph sabe de seus erros, mas não consegue evitá-los. Hannah sabe o que sofre e parece não aguentar mais. Joseph sabe o que é ser perdido e Hannah sabe o que é a violência catártica. Os dois têm ciência de que ações descompassadas têm iguais reações. Entendem-se porque sofrem na pele o rumo errado que algo além do nosso alcance pode tomar. Seja nos descritivos detalhes sórdidos de um estuprador ou na vitrine quebrada de uma loja, o projeto deixa claro como é o fundo do poço - sem que isso se torne clichê. Diferente de um filme como Biutiful, onde a desgraça ocorre pela própria desgraça, sem motivo, Tiranossauro é ciente de seus objetivos e consegue (veja só) ser mais realista que o fraco longa de Iñarritu. Ao dar um por que aos pesados acontecimentos, o filme testa seus protagonistas para entender como um sentimento belo pode sair de um ambiente ruim. Tudo é um estudo da causa e efeito da violência (e de como o amor surge dela). Um estudo de personagens. Como disse a música da sensível trilha, "We are both Strong".




Ao ser sugestivo sem ser passivo, Considine pesa a mão no drama, mas mantém o pé no chão e controla as rédeas de seu filme. Em instantes tristes, a poesia flui fácil. Após o enterro de um bretão convicto, por que não ter música e bebidas? Algo tem que ser motivo de celebração - e comemorar como o falecido fazia é o necessário. E não há algo tão bonito quanto dois seres, calejados pelo tempo, pelo ambiente e pelas circunstâncias, se abraçarem. O sentimento puro, em meio a brutalidade, é tão incrível que nem eles mesmos acreditam.

Não é por ser ciente de uma força irreversível que Joseph passa a ser mais forte. Os dois demonstram ser fortes porque tem um ao outro. Tem que ser um titã para confrontar a realidade. Em certo ponto, o protagonista até nos explica o título. Mas no final, o Tiranossauro é uma união. O que o torna fascinante é saber que até mesmo um Tiranossauro só se torna completo ao juntar suas mãos com alguém.

Andar para o desconhecido sabendo que têm alguém que valha a pena gostar é o mais bonito dos poemas caóticos.