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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Encontrarás Dragões - Sem Proteção



Encontrarás Dragões
(There Be Dragons, 2011)
Drama/Guerra - 122 min.

Direção: Roland Joffé

Roteiro: Roland Joffé

com: Charlie Cox, Wes Bentley, Dougray Scott, Rodrigo Santoro, Jordi Molà, Derek Jacobi, Geraldine Chaplin, Olga Kurylenko


Roland Joffé, diretor dos importantes A Missão e Os Gritos do Silêncio, parece possuir uma predileção pelos épicos. Mesmo que nos últimos anos o diretor tenha conseguido pouco financiamento e exposição para seus filmes (os últimos sucessos de Joffé foram justamente Missão e Gritos), essa iniciativa não muda. Com exceção dos desastrosos Captivity e You and I, a filmografia do inglês tem um predileção pelos grandes temas históricos. Com There Be Dragons, seu filme de 2011 que chega agora ao grande circuito no mundo todo, não é diferente. Porém, aqui, essa predileção alcança níveis absurdos.

Iniciando a obra com uma cena de impacto, que culmina em um close no rosto do protagonista, Joffé já adota uma narração em off expositiva que tenta obter uma atmosfera eficaz. Os takes de grua, a fotografia envolta em sombras e os flashbacks constantes se apresentam como os recursos de Joffé para dar relevância á sua história. Os problemas são muitos, mas a gênese deles se dá quando o diretor segue o manual de roteiro histórico tão bem que copia até os erros dos épicos frouxos: as elipses espaçadas em excesso.

Em toda a narrativa, fica a impressão que cenas são teatrais demais (atente para a cena final de Oriol e Ildiko) e que muito do desenvolvimento dos personagens poderia ser melhor trabalhado. Afinal, outro fator incômodo de Encontrarás Dragões é a caracterização rasa dos homens em tela. Diversas figuras, apresentadas como complexas, se revelam apenas estereótipos. Manolo é invejoso, então em todas as cenas do personagem deve demonstrar isso. Escribá, o dito, mas não eleito protagonista, é altruísta e admirável, então toda vez que Charlie Cox aparece em tela, é para fazer alguma boa ação ou recitar uma frase extraordinária. Oriol é o revolucionário, ou seja, só se resume a discursar. E por aí vai. Se esses personagens com mais relevância são explorados dessa forma, não é preciso ir muito longe pra saber a função nula dos coadjuvantes.





E como Joffé não é conhecido por arrancar atuações memoráveis, os arquétipos só pioram. Rodrigo Santoro faz o que pode, mas atua no limite da urgência e exagero em todas as suas cenas; Charlie Cox compõe Escribá com tanta economia que se sai inexpressivo a ponto de fazer o espectador questionar o porquê de o padre ser protagonista; Dougray Scott e Olga Kurylenko fazem o que podem pra segurar suas reviravoltas dramáticas irrelevantes; e Wes Bentley, coitado, obrigado ainda a se submeter a uma péssima maquiagem de envelhecimento, acaba ganhando no grito. Os dilemas morais acabam nas costas de seu Manolo Torres. E Bentley aparece tão caricato que acaba roubando a cena dos inexpressivos ao seu redor.

Se levando muito (mas muito mesmo) mais a sério do que deveria, o filme ainda inclui temas de conhecimento universal para ganhar uma importância que, obviamente, não fez por merecer: a Guerra Civil é triste e mantém todos em estado de pressão, só o amor pode vencer a guerra, participar de um movimento ideológico ("Fazer parte de uma multidão é incrível, mesmo não concordando com ela"), a traição trágica que implanta a discórdia no eixo do Bem, o melodrama em busca da liberdade etc. Tudo isso embalado por takes grandiloquentes de grua e por uma trilha intrusiva, repetitiva e que não parece parar nunca.

Ainda que acredite contar uma história SOBRE Josemaría Escribá, Encontrarás Dragões se revela mais um conto COM Escribá. A narrativa se apóia muito mais no fictício Manolo Torres, que acaba se mostrando mais interessante justamente por ser levado pelo roteiro (como diz a legenda final) como o homem comum na História, mesmo que ele seja um traidor mal-caráter arrogante e invejoso. O fato de o roteiro querer fazer acreditar que a amizade de Torres e Escribá permaneceu forte após tudo o que aconteceu (mesmo sem ela nunca ter realmente acontecido) ainda torna o tom épico da produção mais absurdo ainda.




Pelo menos, a recriação da época está impecável e as cenas de batalha são bem intensas. Porque se depender de emoções dos personagens, Encontrarás Dragões está perdido.

Um Wes Bentley de látex e moribundo não é a mais épica das figuras.


Sem Proteção
(The Company You Keep, 2012)
Thriller - 125 min.

Direção: Robert Redford
Roteiro: Lem Dobbs

com: Robert Redford, Shia LaBeouf, Julie Christie, Susan Sarandon, Sam Elliott, Jackie Evancho, Brendan Gleeson, Terrence Howard, Richard Jenkins, Anna Kendrick, Stanley Tucci, Nick Nolte, Chris Cooper

No atual mercado hollywoodiano, um produto costuma ter a assinatura de seu tempo. Mesmo os blockbusters mais abrangentes (Transformers, Battleship), que visam todo o tipo de público, acabam tomando uma postura sobre sua época, ainda que mais maquiada. Porém, em termos políticos, é raro ver um realizador engajado como Robert Redford. Tanto ele quanto George Clooney espalham seus pensamentos democratas por seus trabalhos de uma forma que os façam encaixar com coerência na narrativa. Porém, se Clooney se cerca de belos roteiros (Boa Noite, Boa Sorte, Tudo pelo Poder) para espalhar seus ideiais, Redford acaba soando mais panfletário, como em Leões e Cordeiros e Conspiração Americana. 

Em seu novo trabalho, Sem Proteção, Redford consegue ser mais equilibrado entre discurso e estrutura por algum tempo, mas ainda assim peca pela falta de história para segurar seu subtexto.

O roteiro, do competente Lem Dobbs (colaborador frequente de Steven Soderbergh), começa com uma montagem sobre conflitos ideológicos e protestos nos anos 70. Após o título, testemunhamos à entrega da personagem de Susan Sarandon e acompanhamos o jornalista Ben Shepard, vivido por Shia LaBeouf, cobrir o caso. Nesse início, a investigação se desenrola de maneira interessante, sempre com mistérios soltos, o que mantém a atenção do espectador. A cada informação captada por Ben, a trama vai um pouco à frente, o que tenderia a algo promissor. 




Dobbs, aliás, não foge do quase inevitável erro dos filmes de perseguição: a maioria em tela é mera fonte de informação. Provavelmente, o grupo revolucionário era bem disperso em comunicação. O que não põe dúvidas de que a visão do filme é a partir de Ben. 

A ideia de Ben sobre jornalismo é posta em cheque e quanto mais se explora o assunto, mais rasa a estrutura fica. Porém, quando Jim, interpretado por Redford, entra com mais afinco na trama, a ideologia antiga dos envolvidos no crime se torna essencial ao desenvolvimento de todos os que habitam a narrativa. O que chama atenção são as cenas bem orquestradas (como a de Redford e Julie Christie e a de Redford e Richard Jenkins), mas que pouco tem para avançar a trama. O que, em contraste com a concisão do início, acaba por frear o ritmo. 

Isso seria apenas um problema corriqueiro de Redford como realizador, mas acaba por tornar levemente convoluto o já engessado roteiro. Como o entra e sai de personagens já confere um caráter literário ao filme (não é por acaso: o roteiro de Dobbs é inspirado no livro de Neil Gordon), tirar a zona de conforto da estrutura ao debater os temas propostos pela mesma é uma solução teoricamente interessante. No entanto, Redford apenas consegue solucionar seu debate ao recuar em nome da responsabilidade. Ao mesmo tempo em que dá sinais de manter sua chama radical acesa ("Violência? Violência é não tomar partido"; pregar que o jornalismo é a fonte da verdade), o diretor-ator demonstra sinais de acomodação (achar que o jornalista seria mais velho; ter a ideia de que amadurecer seria, na visão de Jim, abandonar a causa).

 Não que seja algo inverossímil para o personagem, claro. Apenas é uma prova concreta de que o envelhecimento pesou para Redford. 

De sobra, Sem Proteção acaba se demonstrando um thriller tradicional, embalado por um inspirada e contida trilha de Cliff Martinez, com bom planejamento dos mistérios e um assunto relevante. Ainda que acabe se arrastando além do necessário ao se transformar em um mero filme de fuga, o roteiro faz mais pontos corretos que negativos e entrega uma narrativa, ao menos, coerente. Comum e completamente sem surpresas, mas, ainda assim, coerente. 

A certa altura, algum personagem diz: "Não tenho mais segredos, já posso ir embora". Mais sinceridade a um filme de conspirações, impossível.




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Bastardos Inglórios
(Inglorious Basterds, 2009)
Drama/Guerra - 153 min.

Diretor: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

Com: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Bruhl, Til Schwiger

No mundo cinematográfico de hoje em dia, com produções saindo pelo ladrão e falta de originalidade pairando sobre todos, é bem difícil achar algum diretor com estilo próprio. Brett Ratners da vida ganham espaço fazendo trabalhos fracos a produtores que visam lucro e assim segue boa parte das produções hollywoodianas. Entretanto, ainda temos esperança se a questão é personalidade. Nomes que vem a cabeça são poucos, mas um deles sem a menor dúvida é Quentin Tarantino. Já mostrou a todos seu estilo, sem medo de ser extremamente violento ou saudosista. Kill Bill, sendo visto como uma experiência completa, é uma dupla homenagem: aos filmes de Faroeste e Kung Fu.


Em Bastardos Inglórios, Tarantino mexe no terreno da II Guerra Mundial encrementando personagens, situações e elementos nunca existentes. O filme nada mais é , que uma clara homenagem a tudo que já foi feito no cinema, e, acima de tudo, uma obra de ''auto -homenagem'' pois mostra a II Guerra pelos pensamentos insanos e divertidos de Tarantino.

Logo de início, o filme tem o logotipo de Tarantino, com os créditos iniciais ao som de uma música que nos remente a Kill Bill, e letras que o cineasta usa como sempre em seus trabalhos. Com a divisão de capítulos de sempre, o filme conta a história de um grupo de soldados liderados pelo tenente Aldo Raine( Brad Pitt), que têm um objetivo apenas: matar nazistas e arrancar seus escalpos (e acreditem, essa última parte é mostrada de maneira bem explícita =D). Em outro hemisfério da trama, gira o plano de vingança de Shosanna Dreyfus, dona de um cinema(Mélanie Laurent), que assistiu a família ser morta pelo ''Caçador de Judeus" Coronel Hans Landa(Christoph Waltz), e planeja sua vingança . Esses dois hemisférios seguem numa rota de encontro, que o filme se encarrega de contar. E conta muito bem. Todo o caminho que o roteiro traça para que suas duas horas e meia se completem não é demorado ou complicado. As cenas, em si, não são muitas, porém longas,mas nem um pouco cansativas.


O roteiro, aliás, é um dos mais corajosos já feitos no que diz respeito a ''respeito aos fatos ocorridos''. Como dito no início desse texto, é preciso ter muita personalidade, coragem e criatividade para fazer um filme como esse surgir. Tratar de temas tão famosos como o nazismo e a Guerra de maneira particular é coisa de gênio. O filme não se inibe, por exemplo, em mostrar várias vezes, a figura de Hitler, como personagem, o que geralmente não se faz em filmes, livros ou quadrinhos que tratam o tema nazismo. O maior trunfo deste filme portanto é o roteiro, que reescreve muitas páginas da História à moda de Tarantino, como um nerd gostaria de ver.Por falar em nerd, aliás, o diretor honra sua nerdice, e faz referências incessantes ao cinema. As soluções, os motivos ,as desculpas, tudo tem um esbarrão cinematográfico. Quando um personagem diz ser quem não é, por exemplo, usa como desculpa '' eu participei do filme tal...você não viu?". Todas essa referencias incomodariam se fossem colocadas por um outro realizador, mas sendo colocadas de maneira jeitosa e divertida, elas ajudam o filme a ficar muito mais cool.

A direção de Tarantino também já tem suas marca registradas. Uma delas é o modo caricato e seco como mostra cenas de violência e mutilação. Outro ponto que já conhecemos de sua direção mas que não nos cansamos de ver são os closes nos personagens. Não fica aquela coisa artificial. Toda a cena que os closes são empregado são de ápice dramático, e esse ''truque'' de direção simples e antigo funciona muito bem, principalmente nos filmes desse diretor. O diretor também consegue instigar o espectador ao máximo com seu suspense. Há cenas em que se sabe que algo brutal vai acontecer, e por isso, como um sádico, Tarantino deixa as cenas mais e mais extensas, sem muitos movimentos de câmera, para que no clímax, ocorra o que se esperava.


Outro ponto mais que positivo do filme foram as escolhas de atores. Brad Pitt foge do seu papel comum de galã, e faz um personagem caricato e sensasionalmente engraçado. São em papéis assim que os atores honram seus nomes já feitos. Outro que rouba as cenas que participa é Christoph Waltz. Impressionante sua intepretação do vilão Hanz Landa. Mostra como um nazista matador de judeus consegue manter sua classe, pompa, bom humor e crueldade todos em uma só persona.Digno de Oscar.(vamos prestar atenção na premiação do ano que vem) Uma grande atriz também é colocada em evidência, não só pela sua beleza estonteante. Ela é Mélanie Laurent, que tem muita carga dramática no filme, e leva o trabalho com uma seriedade e talento únicos. É mais uma que agora tem um destaque maior, e merece receber mais chances pois tem talento. O resto do elenco também é sensasional, e são fundamentais no filme.


Analisando todos os pontos afinal, não encontro defeitos visíveis a Bastardos Inglórios, um dos melhores filmes do ano com certeza. E com todo o seu contexto e coragem, pode ser definido como a obra-prima de Quentin Tarantino (superando inclusive Kill Bill.). E ser a obra - prima de alguém como ele, não é pouca coisa.









Se tem uma coisa perfeitamente correta é afirmar que mais cineastas deviam aprender o porque de Tarantino ser grande: ele assiste filmes. Ele aprende com eles, vendo o que pode melhorar e o que ele pode usar naquilo para se aperfeiçoar. Quando ele vendeu dois de seus roteiros, True Romance e Natural Born Killers, consegui financiamento para dirigir o cult-classic Cães de Aluguel. Logo depois, esses roteiros viraram filmes de Tony Scott e o cultuado Oliver Stone, respectivamente. E foi vendo cinema e lendo muita literatura pulp que o nerd Tarantino escreveu Pulp Fiction, em 1994. E, desde então, ele foi aperfeiçoando sua maneira de contar histórias, que agora tem identidade própria: Violência extrema, roteiro com referências nerds e incrivelmente depurado, tramas amalucadas e amarradas, fazendo todo o sentido e, principalmente, fazendo homenagens. Em Kill Bill Vol. 1, ele homenageou os filmes de vingança japoneses. E nele incluiu sua violência, suas referências nerds e suas tramas únicas. Uma enorme dessas referências é o nome do forjador das espadas, Hattori Hanzo, que era um grande herói de seriado medieval japonês. Em Kill Bill Vol. 2, ele homenageou os faroestes, com um olhar moderno, mas com a mesma sede de vingança de um legítimo pistoleiro.Agora, com Inglourious Basterds, ele resolve levar seu mundo para a Segunda Guerra Mundial, criando uma trama totalmente nova. E isso é ótimo, pois o permite ter liberdade sobre os personagens e situações, sem preocupação com fidelidade histórica.



E é nesse terreno que Tarantino se sente á vontade: impondo sua identidade, sem se importar com a audiência. Como Steven Soderbergh, o negócio é ele gostar do filme. Se a platéia gostou, ok.


Inglourious Basterds é um projeto ambicioso de Tarantino desde o início. Com o roteiro dele pronto, vários outros filmes dele foram cancelados e o antes filme de 2007, estréia em 2009.

A trama conta várias histórias, com diferentes personagens principais, como num ensemble cast, como Crash. A trama central enfoca em Shoshanna Dreyfus(Mélanie Laurent), uma judia que teve sua família fuzilada pelo Coronel Hans Landa(Christoph Waltz, Oscar á vista), conhecido como Caçador de Judeus e planeja uma vingança contra ele e seu batalhão. Cruzando com o Coronel, temos a trama dos Bastardos Inglórios do título, o time de soldados judeus comandados por Aldo Raine(Brad Pitt). Em seu time, tem dos mais contidos, como o psicótico-silencioso Hugo Splitz(Til Schweiger), aos mais amalucados bastardos, como Donny Donowitz(Eli Roth, alucinado). Além disso, ainda tem a trama dos ingleses, a do herói de guerra alemão Frederick Zoller(Daniel Brühl, competentíssimo) e a trama da atriz e espiã alemã Brigdet Von Hammersmark(Diane Kruger). Toda essa trama pode parecer confusa, mas toda a desconfiança se esvai quando o desenvolvimento de personagens aparece. Todos são colocadas na tela de forma harmoniosa, com diálogos enormes, pontuando o que cada personagem pensa. Se em Senhor das Armas conhecíamos os 4 protagonistas como a palma da nossa mão, aqui conhecemos os 20 protagonistas como ninguém. Definitivamente, esse é o melhor filme de Tarantino em desenvolvimento de roteiro.


O roteiro de Tarantino é perfeito em desenvolvimento, mas não só isso. Suas situações são mais verossímeis que nunca, criando algo verdadeiramente possível para a Segunda Guerra. Não tendo esse comprometimento com a História Mundial, Tarantino tem sua liberdade realçada a algo muito maior que simples talento. Ele amadureceu. Criou um roteiro adulto, demonstrando que continua o mesmo nerd de sempre, mas agora cria tensão de verdade, sem deixar o lado cômico pra escanteio. Situações, como a primeira do filme, o diálogo do fazendeiro LaPadite com o Coronel Landa, são espetaculares. É soberbo a forma com que vemos que o ator Denis Menochet não deixa a competência de Christoph Waltz te ofuscar. Ele atua de forma emocionanete. E o melhor: o roteiro de Tarantino impõe uma tensão enorme envolvendo o cinismo e sagacidade de Landa com a fragilidade bruta de LaPadite. Algo emocionante de se ver e apontando que o roteiro não tem pontas soltas.

As atuações do filme são surpreendentemente perfeitas. Não há falhas. Brad Pitt está engraçadíssimo e muito á vontade, transbordando seu talento habitual. Mélanie Laurent está lindíssima e atuando soberbamente. Sua personagem é de uma veracidade assustadora. Apesar do clima do filme ser um tanto cômico, a angústia de Shoshanna é relatada com maestria pelos olhos lindos, fortes e cheios de garra de Mélanie. Eli Roth entrou nesse filme para festejar. Só assim para explicar como ele se encaixou impressionantemente no papel de Donny. Atuando bem e de forma psicótica, Eli também mostra pelos seus olhos seu sentimento dominante: loucura. Til Schweiger também está atuando como Eli, mas contido. Seu Hugo Splitz é assustador pela sua aura negra, não por diálogos ou frases de efeito. Ele é foda e pronto. Matou 13 nazistas. Daniel Brühl também está ótimo, com um papel bem mais forte do que ele já tinha feito antes. Perto disso, só seu papel em Adeus, Lênin. Mas o destaque do filme é um merecedor de Oscar: Christoph Waltz. Seu Hans Landa é o personagem mais profundo de todo o filme. Apesar dele ser um matador de Judeus, um cara muito cruel e ser coronel nazista, ele é um ser carismático ao extremo, cool demais, com possibilidades até de adoração a ele, coisa que pode ser muito criticado pelos puritanos que assistirem esse filme.


Outro fator que deve ser criticado é a violência tarantinesca, mas isso sempre é. Apesar de estar na identidade do cineasta, que é adorado pelos críticos, nem todos se acostumam a ver escalpos sendo retirados.


Tecnicamente, o filme não deixa pra menos. A direção de Tarantino é ótima e a sua melhor captura de atores e cenários. Nos planos fechados, ele abusa de conversas longas com sua câmera calma, mas nos planos abertos ou de ação, ele faz um trabalho impecável. O balé dos coreógrafos figurantes e dos atores é notável e um dos melhores executados na história do cinema. Além de tudo, Tarantino escalou uma equipe simplesmente matadora. A fotografia de Robert Richardson é linda, capturando o clima antigo da Segunda Guerra melhor do que muito fotógrafo experiente. Meio saturada, meio sépia, sua fotografia também é soberba. A edição de Sally Menke também é perfeita. Sempre atendendo ao necessário, ela dá agilidade na ação, calma nas cenas de drama e cortes incrivelmente rápidos nas cenas de humor. E é um fato que algumas dessas cenas fazem melhor efeito justamente pela edição, como quando Aldo Raine é pego. Outros dois fatores ótimos são a direção de arte e figurino. O cuidado que a equipe do filme teve com cenários e roupas antigas é obsessivo, até. Até mesmo quando é preciso retratar o glamour da Segunda Guerra, o figurino retrata nas roupas de Brigdet Von Hammersmark. Mas o que mais chama a atenção técnica do filme é a trilha sonora, escolhida por Tarantino. Toda montada, sem composições autorais, a trilha é fantástica. Vai de Ennio Morricone a David Bowie(?!). Mais uma das inúmeras homenagens dele. Esplêndida, reflete bem o clima com o filme e condiz muito bem com o teor da história.


Além de tudo, o roteiro ainda consegue se organizar com todos os itens técnicos e cria um clímax simplesmente espetacular, empolgante e alucinado ao extremo, cheio de adrenalina. Nada fica apressado, tudo se resolve e como num pelo tecido, não há pontas soltas, tudo foi feito com um esmero carinhoso.


Depois de anos de espera, esse projeto do grande diretor saiu do papel. E ninguém mais tem dúvida que ele amadureceu e conseguiu fazer seu trabalho mais sério, mas sem perder sua personalidade. Mais diretores deviam ser como Tarantino, ou melhor, mereciam ser Tarantino.


Que ele continue nos contemplando com maravilhas cinematográficas como essas, criando histórias realmente criativas e malucas, mas sem perder o sentido ou a vergonha.


Tarantino, aqui, se consolida como um dos novos gênios modernos do cinema mundial. Reconheçamos então, um diretor cult-artístico e um novo clássico moderno.

TRAILER:


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Katyn
(Ktyn, 2007)
118 min. - Guerra

Direção: Andrzej Wajda

Roteiro: Przemyslaw Nowakowski, Wladyslaw Pasiloski e Andrzej Wajda

Com: Artur Zmijewski, Maja Ostaszewska, Andrzej Chyra



Sinopse: Em 1939, após a invasão da Polônia pelos nazistas, tropas russas ocupam o leste do país. Milhares de oficiais poloneses são mantidos sob custódia e enviados a campos de concentração. Entre eles está Andrzej, que se recusa a fugir com sua esposa Anna, para honrar seu compromisso com o exército. Assim como inúmeras outras mulheres, Anna aguarda ansiosamente o retorno do marido e recebe com total descrença as evidências de que ele tenha sido assassinado. Até que, em 1943, são descobertas grandes covas coletivas na floresta de Katyn.


Confesso que a única coisa que me chateia nesses filmes com atores desconhecidos é o cansaço mental depois de assistir, principalmente em filme de guerra, onde TODO mundo é parecido.


Coitada da Polônia na 2ª Guerra, se fodeu literalmente na 2ª Guerra, de um lado fronteira com Alemanha, de outro a extinta União Soviética. E é no meio deste fogo cruzado que a historia se desenvolve.


O filme foca 3 vertentes, caso em que podemos dividir o filme em 3 partes: 1) A própria guerra se desenvolvendo dentro da Polônia com a invasão alemã e russa, esta segunda que aprisiona os oficiais do exército polonês. 2) A angústia dos familiares poloneses em saber o que está acontecendo com seu país e principalmente sobre obter noticia dos oficiais presos. 3) Polônia pós-guerra.


A partir desse ponto podemos compreender melhor o filme, que conta com boas interpretações, que nos fazem sentir empatia e confusão perante a situação. Geralmente quem “está de fora” consegue entender melhor a situação, entretanto também fica-se confuso ao ver o filme, o que faz pensar: Imagine então quem vivenciou aquela realidade.


Um fator que enobrece o filme são as caracterização dos povos, onde têm 3 línguas predominantes no filme: Os Poloneses falam polonês, Russos falam russo e Alemães falam alemão, coisa que deixa o filme mais real e principalmente faz prestar atenção.


Para quem gosta do tema 2ª Guerra, esse filme é imprescindível. Alerto que quem tem estomago fraco não assista, principalmente pelas cenas referentes ao massacre, pois inteligentemente na maioria das cenas são utilizados os arquivos jornalísticos da época, imagens realmente fortes.


Outro ponto a destacar-se é de como a propaganda à época teve importância enorme para a lavagem cerebral das pessoas que estavam abaladas (propaganda que é uma arma crucial e utilizada principalmente pela Alemanha, mas este tema já é outra história.), tendo em vista que o massacre foi realizado pelos russos contra os poloneses, que nem se quer estavam na guerra, porém fora divulgado que o massacre foi realizado pelo exército alemão, que posteriormente perderia a guerra, ou seja, imagine a cabeça do povo.


Os familiares dos oficiais poloneses, bem como os oficiais que não foram mortos, sabem da verdade, mas como a Rússia faz parte do time que ganhou a guerra, eles são os mocinhos, desde logo, incapazes de cometer uma atrocidade dessas (segundo o resto da população oprimida pela guerra).


É foda. E é neste clima pesado, frio e confuso que a trama faz valer a pena. Assista, se não entender assista novamente. Até ficar claro que nem sempre os mocinhos são 100% bondade.

TRAILER:
Bruno Gonçalves
Estudante de Direito e Arauto do Caos

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Operação Valquíria
(Valkyrie, 2008)
121 min. - Drama/Guerra

Direção: Brian Synger
Roteiro: Chritopher McQuarrie e Nathan Alexander

Com: Tom Cruise, Kenneth Branagh, Bill Nighy, Tom Wilkinson

Sinopse: 2ª Guerra Mundial. Claus von Stauffenberg (Tom Cruise) é um coronel que retorna à Alemanha gravemente ferido, devido à guerra na África. Ao chegar ele se envolve em uma conspiração para acabar com o governo local, que tem por objetivo matar Adolph Hitler (David Bamber). O objetivo do grupo é pôr em prática a Operação Valquíria, um plano já existente que prevê a implementação de um governo que conduza a Alemanha após a morte de seu líder. Aos poucos o coronel Claus ganha destaque na organização, sendo encarregado para que cometa o assassinato de Hitler.


Vamos lá.


Pra quem gosta de história das guerras, como eu, estava ansioso para saber como foi contado esse fato importante da história. Mas logo de cara a primeira grande decepção, não me conformo como os americanos conseguem ser tão mesquinhos e preguiçosos.
Uma história passada com soldados alemães e TODO MUNDO (inclusive Hitler!!!!) fala inglês!!! Total desnecessário e desapontador.


A história segue jogada, sem muita explicação até +ou- 40 minutos de filme, quando começa a se falar da operação e tem aquela cena auto explicativa ao mesmo tempo da fala.



A partir desse ponto começa a “ação” que você não sente nenhum interesse em acompanhar. Não há suspense, não há ansiedade. Tom Cruise péssimo, não passa a convicção de ser o “salvador da pátria”. Sem contar com o resto do elenco que é fraquíssimo.


Com uma história maravilhosa, o roteiro poderia ser muito mais bem explorado, mas a preguiça é tanta, que saiu esta porcaria. Sem contar ao final do filme que termina com aquele discurso patriótico tipicamente americano. Totalmente ridículo!


Direção de Bryan Singer não se pode esperar muita coisa. Tudo que vem dele é ruim! (X Men / X Men II / Superman o Retorno). Sem condições.


Filme ruim, diretor ruim, com roteiro ruim, atuações péssimas. Pra quem gosta de cinema, é um perca de tempo.
Somente recomendado para leigos que querem “conhecer” um pouco mais de história.

TRAILER:





Bruno Gonçalves
Estudante de Direito e Arauto do Caos