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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Velozes e Furiosos 6


Velozes e Furiosos 6
(Fast & Furious 6, 2013)
Ação/Thriller - 130 min.

Direção: Justin Lin
Roteiro: Chris Morgan

com: Vin Diesel, Dwayne Johnson, Paul Walker, Michelle Rodriguez, Luke Evans, Ludacris, Tyrese Gibson, Gina Carano, Sung Kang, Gal Gadot, Elza Pataky, Jordana Brewster

A abertura do filme já entrega: Velozes e Furiosos 6 podia ser uma serie de televisão. E uma boa serie de televisão, que fique claro, nos moldes do saudoso Esquadrão Classe A, onde um grupo de militares foras da lei partia para as missões mais perigosas e que ninguém mais aceitava. Muito parecido com a trama dessa sexta historia da franquia que começa com o resultado de um assalto que teve como alvo um aparato militar que pode ser usado na construção de uma espécie de bomba que inutiliza os aparelhos eletrônicos.

Na captura desse bando está o agente Hobbs (Dwayne Johnson) que recebe a companhia da belíssima Riley (Gina Carano) e percebe que pelo modus operandi da equipe de assaltantes, apenas outro grupo de bandidos poderá encontrá-los. Ele recorre a Dominic Toretto (Vin Diesel) e toda sua equipe que está de volta quase que completa: seu cunhado Brian (Paul Walker), o especialista em tecnologia Tej (Ludacris), assim como Roman (Tyrese Gibson), e o casal Han (Sung Kang) e Gisele (Gal Gadot), que se unem aos policiais para enfrentar a gangue. E como eles são convencidos a isso? Perdão total pelos crimes cometidos até então e a chance de re-encontrar Letty (Michelle Rodriguez) que parecia ter morrido no quarto filme da franquia (e como a cena extra do quinto filme já nos dizia está viva). Movido pelo amor ainda latente pela garota, Dom e os demais aceitam o desafio.

O inimigo da vez é o ardiloso e inteligente Shaw (Luke Evans), que também tem uma equipe formada por figuras exóticas, que funcionam como nemesis da equipe de Dom. Além disso, o vilão tem treinamento militar e acesso a  uma infinidade de armas de grosso calibre, fazendo do desafio ainda maior. E para piorar, ainda usa uma mistura de carro de corrida com o Batmóvel dos últimos filmes do Batman, extremamente rápido e aerodinâmico e que usa sua carenagem esguia como rampa para impulsionar e consequentemente destruir outros carros (sério?).



Vale um registro importante: o filme trás de volta uma serie de personagens que já fizeram parte da serie em diversos outros momentos da mesma. Portanto, é interessante para o espectador antes de assistir ao sexto filme da franquia, que assista aos anteriores, em especial o primeiro (que dá as bases do "mundo" de Velozes e Furiosos), o terceiro (que, eu sei, é fraquinho, mas é importante no desfecho da trama) e o último (já que posiciona os personagens de Diesel e Walker e apresenta Dwayne Johnson). Mas, mesmo sem assistir aos anteriores, a diversão - fator fundamental do filme - não fica prejudicada,  já que a trama é bem simples - até simplória - e o foco são mesmo as sequências de ação.

Sequências essas que são excelentes, e duas delas estão certamente no topo das mais impressionantes do ano. A primeira e mais forte, tem de tudo que o bom cinema de ação tenta atingir. É tensa, visualmente impactante, acerta ao criar pequenos clímax durante os acontecimentos e termina de forma absurda em termos visuais. Uma daquelas sequências em que a física é completamente ignorada em prol da fantasia e de uma ótima cena. É definitivamente o ponto alto do filme e das sequências de ação do ano - até aqui - de longe, a melhor.

Velozes 6, só não é mais divertido que o quinto filme pois sua trama é simplória. O filme tenta encontrar uma solução para o ressurgimento de Michelle Rodriguez que é o mais óbvio possível, assim como tenta criar um pequeno drama sobre os sentimentos de Dom, ou dar espaço para o casalzinho formado por Han e Gisele. Entendo que é necessário que exista alguma coisa que segure a história além das muitas sequências de ação, mas ao tentar ser "profundo" o filme fracassa. Isso não chega a derrubar o filme, mas é incomodo acompanhar uma serie de atores medianos tentando extrair emoção de um roteiro que não se acerta nisso.



Vin Diesel continua carismático, Dwayne Johnson cada vez mais fisicamente inumano e Paul Walker não compromete. O vilão de Luke Evans (um ator que não acho grande coisa) funciona e Michelle Rodriguez é um bem vindo retorno a serie. E Gina Carano, além de linda, é tão fisicamente impressionante quanto Dwayne, arriscando até um Roadhouse Kick (movimento imortalizado por Chuck Norris) em versão juvenil e ainda luta de forma competente quando é exigida. Ela já merece sua franquia de ação.

As lutas que nunca foram o foco do filme, aqui ganham impacto com direito a combates dentro de metrôs, aviões e tiroteios constantes. Tudo bem realizado, o que mostra que Justin Lin sabe de fato dirigir muito bem esse tipo de sequência. Em compensação, ele tenta criar uma dinâmica desnecessária em sequências de conversa, lembrando os excessos de Michael Bay e sua mania de girar o eixo da câmera o tempo todo.

E os carros? São muitos e praticamente de todo o tipo. Bastou ter quatro rodas (ou mais) que a produção deu um jeito de incorporar a um trecho da história. Dos tipos mais básicos e modernos, até os "tunados", os construídos, os "muscle cars" americanos dos anos setenta e mesmo um tanque de guerra (porque não?) fazem parte do menu do filme.



Velozes e Furiosos 6 não chega a ser o melhor filme da franquia (fico com o original e o quinto) mas é bastante divertido com todos aqueles exageros típicos dos bons filmes de ação. Mesmo com uma trama simplória e revelações facilmente adivinhadas, o filme acerta no que se propõe: pouco mais de duas horas de carros, perseguições e testosterona.

(Obs. importante: NÃO saia da sala quando os créditos começarem a rolar. Existe uma EXCELENTE cena ao final do filme)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Resident Evil 5: Retribuição


Resident Evil 5: Retribuição
(Resident Evil: Retribution, 2012)
Ação/Sci-Fi - 95 min.

Direção: Paul W.S. Anderson
Roteiro: Paul W.S. Anderson

com: Milla Jovovich, Sienna Guillory, Michelle Rodriguez, Bingbing Li, Boris Kodje, Johann Urb, Aryanna Engineer, Kevin Durand.

Em 2010, quando o 3D estava começando a se estabelecer no mercado após o lançamento de Avatar, Paul W. S. Anderson dirigiu seu Resident Evil 4 com as famosas câmeras desenvolvidas por James Cameron e Vincent Pace, indo contra a tendência dos estúdios em converter o filme para o formato na pós-produção. Surpreendentemente, Anderson se revelou um cineasta com bom domínio sobre a linguagem. Se anteriormente, em desastres como Corrida Mortal e Alien vs. Predador, ele não conseguia elaborar um visual interessante para as produções, em RE4, Anderson criou um coerente espetáculo de design: com ambientes assépticos, efeitos especiais decentes, uma noção de profundidade bem organizada e a iniciativa de encher a tela de elementos fluidos (como água e vidro), o americano conseguiu empolgar, ainda que pontualmente, com um filme que possuía um roteiro estúpido. E até a chegada do magistral Hugo Cabret, RE4 fora o filme que melhor utilizou o formato tridimensional (sim, melhor que Avatar). Após o final do filme anterior, que conseguia dar um gancho maior que a inverosimilhança do filme, a sequência pedia para ser anunciada. 

E é justamente no final do quarto capítulo que tem início Resident Evil: Retribuição. Após a bela visão de Alice submersa (que dá surgimento ao título), o filme apresenta uma estilosa sequência de créditos iniciais, em câmera lenta e reversa. A conhecida narração em off de Alice já começa a aparecer nesse começo e uma irritantemente expositiva introdução explica absolutamente tudo que ocorreu na franquia até hoje. A boa notícia, porém, é que a produção é a mais despojada de todas, mantendo um tom sóbrio sem, necessariamente, se levar a sério. W.S. Anderson volta ao esquema do filme original para construir uma ação ininterrupta, herança dos games recentes da série. A todo o momento, uma atmosfera de jogo se tem no filme. E a falta de estrutura narrativa é o que mais deixa evidente que só faltou mesmo darem um controle de PS3 na entrada da sala.

Após mostrar Alice brincando de casinha com o marido e filha, e a chegada do apocalipse zumbi copiado descontroladamente de Madrugada dos Mortos (até a fuga é igual, o que só pode provar que estamos vendo uma sátira), o filme adentra as instalações da Umbrella Corporation, onde nossa heroína fora presa (Anderson não sabe como, muito menos eu) e iniciada em uma tortura, vestindo apenas duas folhas de papel (sim). Uma providencial ajuda surge para que Milla Jovovich saia e então, Alice começa a revisitar diversas locações, incluindo o interessante ataque a Tóquio que abriu o filme anterior. A inquietante atmosfera (por que tudo estava acontecendo novamente? Seria aquilo real?), realçada pela cara de desesperada que Milla Jovovich sabe fazer, instiga. A ação volta a acontecer após o(s) já frenético(s) prólogo(s) e Anderson usa tanta câmera lenta que fica a impressão de que a película teria 2 minutos iniciais em tempo real. Ao menos as lutas são decentes e a direção de arte continua esplêndida, o que não deixa o ritmo cair antes de revelar o segredo anterior.




Mas quando se tem a resposta do mistério, espera-se um nível maior de ambição para o roteiro - e o que Anderson mais faz nesse filme é desperdiçar oportunidades. O conceito apresentado para explicar a revisita a essas locações poderia render discussões até sobre realidade simulada, o que poderia fechar com elegância a franquia inteira. O problema é que Anderson estrutura seu roteiro sem... estrutura. A partir do minuto 20, começa uma ação que seguirá até o fim da projeção, com 90 minutos. Não é uma hipérbole: estamos falando de uma narrativa que tem, literalmente, um tempo cronometrado para terminar.

E nisso, a aproximação com jogos (os comuns de tiro, diga-se de passagem) se torna mais evidente. O marketing do filme diz, nos belos cartazes, que "O Mal se tornou Global". Pode até ser, mas o espectador só tem a dimensão real da destruição perto do final da projeção. Afinal, do início ao clímax, o filme se passa dentro da Umbrella.

No entanto, Anderson teve boas ideias para variar os ambientes de sua limitada estrutura. Usando as zonas de teste da Umbrella como locações, o diretor tem a possibilidade de brincar com diversos visuais diferentes, indo de Moscou a Nova York em poucos minutos. Além do mais, ao utilizar um mapa digital que atravessa toda a facilitação da companhia, Anderson agiliza o ritmo, lança mão de um belo visual e aproxima ainda mais a estética videogame do filme. E para o formato, o diretor arrisca ambientações mais variadas, que contrastam bem com o branco e cinza predominantes do filme anterior. E para não tornar chuva e vidro como elementos principais do 3D e cair na repetição, agora o americano os substitui por balas e neve.




Além do mais, criar um filme todo só sobre a ação dentro de um local quase ilusório possibilita Anderson a conceber detalhes narrativos que funcionam para criar absurdos e voltar com personagens antigos, sem que isso incomode. A presença dos clones, por exemplo, gera boas passagens (as envolvendo Michelle Rodriguez são as melhores).

Mas obviamente, como roteirista, Anderson continua a provar sua incapacidade de alçar voos maiores. Chris e Claire Redfield somem do nada, Jill aparece quase imortal, o desenvolvimento de personagens é restrito a capacidade de cada um na hora da porrada, Alice continua unidimensional. A ciência de sua limitação, porém, é o que torna Resident Evil 5 um filme até agradável. É um universo que finalmente, após quatro filmes, abraça sua origem dos games. Rain surge como uma exterminadora após uma cena que parece uma cutscene, Jill se movimenta em um collant roxo que só não é mais irreal que sua voz (parece dublada de tão robótica), a luta final parece um quick-time events digno de algum hack 'n' slash como God of War e as motivações de Wesker remetem as megalomanias (Corrida armamentista?) de títulos igualmente rasos como Vanquish e o próprio Resident Evil 5 (o jogo).

A busca pelo estilo é tão exacerbada que até Anderson faz piada disso ("por que está com essa roupa sadomasoquista?"); o diretor dá um jeito de destruir todas as metrópoles, sem que os personagens ao menos as visitem realmente; os chefes de fase (o Destruidor, o bichão com o cérebro de fora) surgem aos montes, sempre de forma eficiente; a ação, mesmo que ininterrupta e embalada por uma surtada trilha tecno do duo Tomandandy, mantém a qualidade (diferente de um Battle L.A.); e o plano final remete ao final do quarto filme, que impressiona pela larga escala.



Já que se assume como exercício visual e adaptação frenética de videogame, Retribuição surge como boa surpresa. Seguindo os passos de Doom, o filme constrói um dos melhores esforços baseados na mídia (o que diz muito sobre a maneira porca com que os jogos são tratados em Hollywood). O visual interessante (obra do competente fotógrafo Glen McPhearson), o ritmo explosivo e uma falta de historia que gera descompromisso só ajuda Anderson a conseguir conceber o melhor filme da série. E mesmo que pedante e desesperado por continuações, a produção vale a visita. 

Agora, que é notável que Anderson gaste um filme inteiro de 95 minutos para retratar uma FUGA que duraria uns 20 (sendo bem generoso), é. Com o mesmo tempo, daria pra finalizar a franquia.

Antes da sessão, vi que o filme possuía uma novelização. Considero humanamente impossível a adaptação de uma narrativa de um ato em 300 páginas.


quarta-feira, 30 de março de 2011

Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles
(Battle: Los Angeles, 2011)
Ação/Sci Fi - 116 min.

Direção: Jonathan Liebesman
Roteiro: Christopher Bertolini

Com: Aaron Eckhart e Michelle Rodriguez

Antes mesmo do logo da Columbia Pictures desaparecer no fade-out que precede o primeiro fotograma de Batalha de Los Angeles , já escutamos aquele som típico dos longas de Rolland Emmerich: algum jornalista alegando um desastre sem precedentes em algumas regiões do planeta. Então, quando o filme de Jonathan Liebesman realmente começa, somos jogados em um redemoinho de imagens tremidas, dentro do foco do desastre, para depois sermos enviados ao arco que interessa ao filme - um helicóptero recheado de marines que sobrevoa uma área onde naves alienígenas caem aos montes. Gerando uma tensão interessante, o título aparece em tela numa imagem aérea épica e desoladora. Tudo fica preto. Então o filme começa de fato. E não demora mais que um minuto para ter-se idéia da hecatombe nuclear que Batalha de Los Angeles realmente é.



Dentro desses poucos minutos de filmagem interessante e agressiva, fomos claramente enganados, mas talvez seja apenas uma dose irrelevante de enganação comparada a daqueles que aguardavam euforicamente pelo filme - criando um hype que se revela obviamente falso - devido aos trailers bem montados e cartazes no mínimo criativos. Perante a película, porém, não há como ser enganado - a babaquice de níveis estrondosos que essa produção mostra ser, não pode se esconder de ninguém. Um erro em cima do outro, tudo que poderia implodir qualquer filme, foi introduzido á mistura, e o mínimo que poderia dar certo, foi elevado a níveis de uma overdose fatal.



Explico. Batalha de Los Angeles utiliza uma trama extremamente simples - dignas de filmes de Michael Bay ou Rolland Emmerich - mas extrapola qualquer ponto, não usa nenhuma medida para estacionar sua cotação em apenas ''ruim'', não controla qualquer perímetro de qualquer que seja o aspecto, resultando numa verdadeira catástrofe. Os clichês de Bay e sua excitação com o exército americano - o diretor de Armaggedon deveria ter sido um pseudo-personagem tipo Tio Sam, e não um cineasta - se fazem presente de maneira exponencial, e Jonatahn Liebesman mostra seu apreço incondicional ao ridículo. A máxima antológica do sargento batendo continência em frente à bandeira americana, é, acreditem, uma das passagens patrióticas mais leves do filme. A saudação aos marines é intensa, sufocante, angustiante de tão inflada. Assim como outros pontos do filme, esse nacionalismo inchado, que em dosagem baixa pode até ser engraçadinho, se torna nocivo com o passar do tempo de exibição .


E se Jonathan Liebesman tem um amor incondicional ao exército americano - mesmo sendo sul-africano - parece não possuir tanto apreço a materiais básicos e essenciais para a vida de qualquer cineasta - como um mero tripé, por exemplo. É a única explicação para tamanho descaso e desuso de qualquer apoio ou sustentação de sua câmera. Talvez seja mais fácil encontrar diálogos decentes no filme - e olha que esta é uma tarefa árdua e complexa - do que apontar um take estático que seja. Nada contra a câmera na mão. Quando bem usada, é fundamental para a respiração de um filme, como na urgência brilhante da câmera de Lee Daniels em Precious, para citar algum exemplo mais recente . Mas aqui, Liebesman exacerba. Demais.



Não é mera implicância, o projeto de diretor faz Michael Bay parecer cauteloso em seus cortes se comparado ao seu modo de filmagem em Batalha de Los Angeles. A urgência em alguns pontos é adequado. Usar o leve tremor da câmera e zooms intimistas em conversas descontraídas e nada importantes é, no mínimo, inadmissível. Sem falar que esses mesmos zooms intimistas acabam proporcionando um ar documental - e nem preciso dizer que tentar enxergar algo documental no exagero maniqueísta que Batalha de Los Angeles é simplesmente estapafúrdio. Pra encurtar, Liebesman usa câmera na mão o filme todo, perde qualquer potencial dessa técnica ao empregá-la durante modorrentos 116 minutos, e ainda de quebra deixa seus espectadores com dor nos olhos .


Mas se havia algum ponto que poderia dar certo no longa, talvez fosse a diversão de um filme de pancadaria entre aliens e humanos. Entra em cena aí, então, o outro carrasco de Batalha de Los Angeles : Christopher Bertolini. O cidadão que criou o script do filme - não acho que chamá-lo de roteirista seja prudente - deve possuir sérios danos mentais ou então fez o roteiro (roteiro?) para curtir com a cara do sagaz espectador. Aposto numa terceira opção, a pura falta de compreensão do que é bom, do que é ruim, e do que é desastroso. O último adjetivo, aliás, é perfeito para caracterizar o... Err... Hmm... roteiro, de Bertolini. Como um adolescente com ejaculação precoce, Bertolini inicia a pancadaria sem fim com uns 20 minutos - se muito - de filme. Pelos meus cálculos, tirando créditos, são mais de 95 minutos de pura ação, correria, tiroteio, explosões, etc.



Obviamente, em 20 minutos ele não explora adequadamente os personagens - e pelo o que o filme se propõe, isso nem era necessário - mas faz questão de colocar letreiros com nomes das personas quando elas aparecem - tomando a inteligência do espectador pela burrice que apodera sua mente. E no que se refere a esse espaço de pancadaria que toma conta da maioria do filme, deve-se dizer que, mais uma vez, há o claro exagero. Mesmo aquele que é mais aficionado por ação, achará Batalha de Los Angeles insuportável. Até determinado ponto, a loucura da batalha sem fim parece palatável, mas a partir de um determinado momento - principalmente nos 40 minutos finais - tudo começa a ficar extremamente enfadonho, cansativo, repetitivo e sem a menor graça. Ter sono nessa parte, e se sentir perdido, sem foco e sem atenção, não é difícil.


Tomando exagero e extrapolação como palavras de ordem básicas, Batalha de Los Angeles vai além de qualquer limite que qualquer cineasta ruim já teve. E se vai além no aspecto do absurdo, da ruindade, não tem nem a vergonha na cara de ser escrachado - como Michael Bay e Rolland Emmerich tantas vezes fazem. Não tem aquele ar de descontração dos filmes de Bay, por exemplo. Leva-se a sério, e isso culmina com uma sensação perversa, mas verdadeira: a de que estamos assistindo a uma sátira de filmes de guerra , no estilo Trovão Tropical.



Não se espante se não perceber o quão ofensivo é o filme enquanto o está assistindo. O teor exacerbado é tanto, que só adquirimos consciência de seu ultraje a nossas mentes quando ele se encerra. Catarticamente, percebemos o terror que assistimos de maneira hipnótica. A sensação é de ter sido estuprado, não por um alien, mas por todo um pelotão americano patriótico. Agora, não sou eu que estou exagerando. É só o resultado do crime de Jonathan Liebesman, um verdadeiro violentador de mentes e de qualquer senso de sanidade intelectual.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Machete
(Machete, 2010)
Ação - 105 min.

Direção: Robert Rodriguez e Ethan Maniquis
Roteiro: Robert Rodriguez e Álvaro Rodríguez

Com: Danny Trejo, Jessica Alba, Robert De Niro, Steven Seagal, Don Johnson, Michelle Rodriguez, Jeff Fahey, Lindsay Lohan, Cheech Marin, Tom Savini

Robert Rodriguez não deve ser levado a sério. Em sua carreira, o diretor mezzo chicano, mezzo texano nunca tentou fazer nada que fosse digno de premiação ou de elogios efusivos de crítica. Sua praia sempre foi a diversão descompromissada. Sua filmografia é quase um paralelo chicano com Woody Allen (não me xinguem ainda fãs) que também situou a imensa maioria de suas histórias em seu quintal, falando sobre quem conhecia e sobre si mesmo. Rodriguez, muito longe de ter o talento e a sagacidade de Allen, tenta fazer o mesmo desde sua estréia com El Mariachi. Mesmo quando saiu da fronteira Estados Unidos/México, aventurando-se em Sin City e na fantasia dos Pequenos Espiões sempre guardou alguns fetiches e elementos comuns a seus demais filmes. Em Sin City por exemplo, a violência cartunesca do quadrinho é ideal para um cineasta que construiu sua carreira sobre a "casadinha": violência explícita e humor negro, e em Pequenos Espiões estão alguns atores fetiches do diretor: Banderas e Danny Trejo (que segundo li interpreta um envelhecido Machete num dos longas da série).


Em seus demais filmes Rodriguez parece não saber - ou não querer - sair da zona de conforto e inovar ou ousar em alguma coisa diferente. Seria interessante ver o cineasta fugindo da paisagem arenosa e da bebida barata e se aventurando em outras freguesias.


Por enquanto, Rodriguez parece feliz e continua interessado em revisitar - novamente - sua "mitologia". Em Machete é a vez da história do ex-policial mexicano que após ser traído se vê perseguido por policiais corruptos, matadores de aluguel e senadores psicopatas.

O problema de Machete é que ele se leva a sério demais, e talvez por isso Quentin Tarantino - que tem um gosto para cinema bastante peculiar - tenha conseguido "enfiar" o filme no festival de Veneza. Tendo a desculpa de que por baixo de todo sangue, tripas e peitinhos havia uma discussão sobre o preconceito com os imigrantes na fronteira dos Estados Unidos.

Ao se levar a sério demais, o filme perde a chance de ser divertido ou, ao menos, exibir algumas seqüências violentas e sem o menor compromisso em serem plausíveis, em suma, em manter o clima de El Mariachi, Desperado, Drink no Inferno e em menor grau Era uma Vez no México.


Machete se perde também ao não conseguir segurar o ritmo alucinante - e mentiroso - de seus primeiros quinze minutos. Nessa abertura imunda, vemos a primeira das duas traições que nosso herói sofre. Nele estão presentes os elementos mais esperados pelos fãs e por aqueles que não conseguem enxergar Rodriguez como um cineasta com "algo a dizer". Estão lá, a técnica propositalmente tosca, diálogos canhestros, nudez e sexismo gratuitos, violência explícita e humor negro. Se Machete mantivesse o ritmo de sua abertura teríamos um dos filmes mais divertidos do ano, sem a menor dúvida.

Rodriguez no entanto, talvez seduzido pelo elenco estelar, tenta dar algo a dizer a todos os personagens minimamente importantes no filme. Isso acarreta num festival sem graça de diálogos risíveis, de atores atuando - ou não - com o carisma amarrados por um fiapo de roteiro que apesar de não ser confuso é frágil e tem desfecho irregular e enfadonho.

Rodriguez ainda peca ao não apresentar o que o trailer falso de Grindhouse indicava. Danny Trejo, no trailer, aparecia como o maior dos bad-asses que mutila e transa com a mesmíssima habilidade. A exceção de uma bizarra e hilariante sequencia que envolve intestino delgado, Machete parece uma variação de outros personagens criados e interpretados por Stallone, Chuck Norris e afins. No quesito nudez gratuita, a exceção da cena de abertura já citada, tudo é muito "American Pie". Um peitinho aqui, uma camuflagem digital ali e nada mais.


Machete é filmado como um filme b, apesar de orçamento razoável, tem créditos de abertura muito interessantes e trilha sonora (da banda Chingon) que amplifica o clima de imundice da história.

Os atores - uma seleção de gente interessante ou falida - são heterogêneos assim como o resultado de suas aparições em tela. Se Don Johnson está excepcionalmente caricato como o policial doentio Von Johnson, Jeff Fahey é medíocre (tendo direito a uma das piores frases de efeito da história: "Eu odeio é a queda de lucros"), De Niro se esforça para ser ainda pior do que seu papel e Michele Rodriguez repete pela enésima vez o mesmo papel de vigilante masculinizada (dessa vez de tapa olho). Jessica Alba - virtualmente pelada - tenta fazer alguma coisa sendo a única personagem razoavelmente realista na fauna de personagens bizarros de Rodriguez, sendo dela o papel de ser a ligação entre o espectador e o filme. Não consegue, sabotada pelo acumulo de personagens e de atores que precisam dizer alguma frase de efeito infeliz para a câmera.


São os casos de Lindsay Lohan - como todos sabem, interpretando quase a si mesma -, Steven Seagal, que além de limitado por seu físico não consegue convencer ninguém de que um dia foi o monstro que impressionou a todos em clássicos da força bruta como Marcado para a Morte, Fúria Mortal, Nico - Acima da Lei, A Força em Alerta, Difícil de Matar entre alguns outros, Tom Savini (uma das figuras do underground mais interessantes) que não tem tempo para fazer muita coisa e Cheech Marin, que é figurinha fácil nos filmes de Rodriguez, mas que é um ator limitado e que sempre é lembrado por Cheech e Chong (se não viu, corra e procure).

E Danny Trejo?

Pessoalmente sempre achei Trejo uma figura sensacional. Medonho, com seu bigodinho cafajeste e seus cabelos de vocalista de metal melódico e uma quantidade insana de tatuagens de cadeia, o ator (que já comeu o pão que o diabo amassou) é um dos mais prolíficos na profissão, com cerca de duzentas participações como ator (contando ai pontas) em diversos filmes variando de Fogo contra Fogo (do mestre Michael Mann), Desejo de Matar 4, Marcado para a Morte entre muitos e muitos outros.


Machete é a coroação merecida. E ele está muitíssimo à vontade no papel, criado para ele por seu chapa Rodriguez e talvez seja por isso que Machete não é insuportável de ser visto. Uma pena que o "chapa" maltrate seu herói, transformando-o em mais um personagem a partir da metade da narrativa, fazendo a batalha de um homem só se transformar numa infeliz guerra de cowboys contra "índios".

Muito longe de ser um exemplar legitimo - ou mesmo inspirado em - exploitation, o filme parece ter sido feito como medida para os adolescentes revoltadinhos americanos. A esses recomendo irem a fonte original da devassidão e imoralidade em pérolas como a trilogia de Ilsa, os filmes do blaxploitation, Cannibal Holocaust e dezenas de outros que entregam aquilo que prometiam: violência, sexo e diversão escapista.