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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Mestres do Universo

Mestres do Universo

(Masters of the Universe, 2026)


Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee
com: Nicholas Galitzine, Jared Leto, Idris Elba, Camila Mendes, Jóhannes Haukur Jóhanneson, Jon Xue Zhang, Alison Brie, Sam C. Wilson, Charlotte Ridley, James Purefoy, Morena Baccarin Christiaan Bettridge e Kristen Wiig. 

O melhor blockbuster de 2026 não fez sucesso nas bilheterias, mas felizmente, parece ter encontrado o público no streaming. Dá pra entender um pouco o "fracasso" de bilheteria se levarmos em consideração que a divulgação do filme foi um tanto bipolar. Hora parecia "séria e adulta", hora parecia "colorida e leve". Talvez isso tenha confundido o público? Ou talvez os interessados nessa trama são velhos-cansados-que-preferem-ver-em-casa-do-que-encarar-uma-sessão-de-cinema-cheia-de-gente-chata? 

Seja uma coisa ou outra (ou até mesmo uma terceira opção), o fato é que Mestres do Universo é muito feliz em praticamente tudo que se propõe. Entende claramente o que quer fazer e consegue ser autocrítico, sagaz, levemente profundo e divertido. 

O filme não esquece que é baseado numa linha de brinquedos que gerou um desenho cujo objetivo era vender e gerar lucro. Isso é fundamental para que a leitura da obra seja precisa: ela sabe que é uma bobagem, ela abraça essa cafonice e não ter vergonha em momento algum dela. Sejam pela inúmeras frases de efeito com múltiplos sentidos, seja pela fotografia colorida, seja pelo tom dos personagens que em momento algum se levam a sério. 

Mesmo o protagonista, que passa por um jornada de auto descobrimento e de compreensão de seu papel como homem no mundo, entendendo que sua masculinidade não é medida pelos músculos, mas que às vezes, eles são a única resposta contra o mal verdadeiro, não é lá muito sério. 

Desde já a sequência em que o vilão Esqueleto entra na cabeça do He-Man já é cinematograficamente histórica, com dezenas de camadas de interpretação que podem sugerir desde uma psicose do protagonista, a uma leitura óbvia e não por isso errada, do mote clássico do personagem, a tal da eu tenho a força. 

O filme perde bastante tempo nessa construção do que é a tal da força e mesmo em um blockbuster claramente leve, ainda sim levanta algumas boas discussões sobre masculinidade. 

Todo o elenco está bem, com destaques óbvios para Nicolas como He-Man, Idris Elba como Mentor e o cancelado Jared Leto que numa performance quase imperceptível e despojada de ego , constrói um Esqueleto no tom exato. Canalha, malvado, idiota, um típico ditador bufão que fala muito e por ter muito poder ganha força pelo medo embora na verdade ninguém respeite, leve a sério. 

Esqueleto é o contraponto de masculinidade que He-Man apresenta. Enquanto o herói parte do "vamos conversar primeiro" e em sua jornada encontra o equilíbrio entre "teoria e prática" , o vilão é o macho típico: idiota, brutalhão, com péssimo humor e nada inteligente. Não é difícil imaginar em quem o Esqueleto votou, digamos assim. 

Já o Mentor é talvez a representação mais honesta da crise de masculinidade que passamos. Ele tem um jeito de ver, agir e compreender o mundo, porém, durante o filme começa a perceber que o mundo mudou e que ele não precisa mais seguir certos dogmas que pareciam escritos a ferro em sua mente. Como exemplos disso, a primeira sequência de ação tem Mentor dizendo a Teela, que é claro que ele vai vencer enquanto na última ele simplesmente fala que "fará o seu melhor e mesmo com medo vai lutar". Percebe a diferença? Ele continua agindo, mas se no primeiro momento ele escondia o que de fato sentia com medo de um julgamento emocional, no segundo momento ele simplesmente não precisa mais fingir uma pose heroica para ser herói. 

E tudo isso é dito com muito humor, sem parecer palestrinha e com ótimos momentos de ação, toneladas de fan service para quem conhece o lore de He-Man e momentos de emocionar.

Como uma cria oitentista que consumiu He-Man com enorme voracidade quando criança confesso que me emocionei em alguns momentos. A primeira transformação, o discurso da Feiticeira sobre a força, o final apoteótico, tudo isso funciona muito bem.

Tecnicamente é um filme muito competente. A construção de Eternia é eficiente, realista na medida certa e nunca cai para o "realismo dark Zack Snyder'. Como disse, o filme sabe que é um filme de hominho e essa percepção é a grande chave para a qualidade do filme.

Contar com Brian May do Queen para criar o tema de Eternia (saído dos anos 80) e a inclusão de Princess of the Universe da mesma banda em um outro momento do filme, fez clicar a semelhança dessa produção com a injustiçada - e que parece estar sendo redescoberta e entendida - versão de Flash Gordon dos anos 80, que fez basicamente a mesma coisa. Entendia que essa história de hominho não era tão séria assim.

Fico com pena de quem não entendeu o tom do filme e queria ver "um Conan muito macho com sua longa espada poderosa" e não entendeu que o He-Man nunca foi isso, mas uma autoparódia tão eficiente que ao mesmo tempo em que divertia as crianças nos dava uma bizarra lição de moral todo fim de episódio. Essa era a força. E ela continua muito poderosa. 





terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Eu Vi - Clube de Compras Dallas

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Clube de Compras Dallas
(Dallas Buyers Club, 2013)
Direção: Jean-Marc Valée
Roteiro: Craig Borten e Melissa Wallack
com: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner

Que intensidade! Que porrada! Que interpretações! Terminei de ver "Clube de Compras Dallas" emocionado e impressionado com a ousadia em transformar uma história que tinha tudo para ser um melodrama dos mais chatos em filme denúncia. Acho que os méritos aqui devem ser divididos entre o diretor Jean-Marc Valée, seus roteiristas Craig Borten e Melissa Wallack e seus interpretes principais, Matthew McConaughey e Jared Leto. 

A história começa em 1985 com o vaqueiro e eletricista Ron Woodroof, um sujeito preconceituoso, irascível e de personalidade forte, o que se pode entender como o estereótipo do típico texano. Depois de um acidente em seu trabalho, acaba hospitalizado e descubre ser portador do vírus da AIDS. Primeiramente sente-se chocado, incrédulo e ao receber o diagnóstico que tem apenas 30 dias de vida, decide - depois de um porre homérico - descobrir mais sobre a doença e encontrar uma solução. E é aí que o filme ganha dimensões mais interessantes.

Em vez de apostar em uma trama melodramática, onde veríamos o protagonista se desfazer doente na nossa frente, Valée fala sobre o problema dos remédios nos Estados Unidos. Quando Ron faz sua pesquisa, descobre que existem uma serie de remédios fora do país que estavam sendo testados, mas nenhum deles eram permitido pelos orgãos de saúde americano. O hospital onde ele se trata serve como exemplo de como as empresas de medicamentos faziam lobby e ofereciam seus produtos para o tratamento, o que era apoiado por médicos, ansiosos por encontrar uma cura para a doença. O problema é que o medicamento atacava o vírus e não os sintomas, o que fazia da vida de quem tomasse o tal remédio infernal. Ron parte para a clandestinidade desesperado por encontrar soluções que tratassem a doença e lhe dessem algum conforto. 

O filme então assume um tom de protesto contra a indústria farmacêutica, apontando dedos para a perseguição que ele sofreu na tentativa de encontrar soluções de tratamento alternativa aos doentes. Matthew McConaughey que vem numa espiral ascendente maravilhosa, nos impressiona - obviamente - pela transformação física passada pelo ator, mas auxiliada pela ótima interpretação, cheia de nuances que em momento algum o transforma em um herói, mas em um sujeito interessado em se ajudar e que no processo encontra uma forma de ganhar dinheiro. Seu Clube de Compras surge assim, e o personagem tem uma curva dramática muito intensa e ao final da projeção, realmente é um homem mudado e que fez de seus problemas uma força para seguir em frente. Jared Leto como o travesti Rayon é outro grande destaque. Diferente de Ron, é muito menos regrado e encara sua condição como irremediável, mas cria um laço de amizade muito curioso com esse sujeito que antes parecia tão preconceituoso. Outro trabalho de transfiguração que ganha críticas daqueles que apenas enxergam esse aspecto e esquecem-se de notar as sutilezas do ator. Assim como McConaughey, as transformações não são muletas, mas elementos da interpretação, mas que nunca ofuscam os trabalhos dos atores. 

Clube de Compras Dallas é um dos melhores filmes de 2013 por conseguir romper a barreira do "filme de doença" e misturá-lo a denúncia social apoiado por um texto enxuto e interpretes em estado de graça.

sábado, 9 de outubro de 2010

Mr. Nobody
(Mr. Nobody, 2009)
Drama/Fantasia/Ficção Científica/Romance - 138 min.

Direção: Jaco Van Dormael
Roteiro: Jaco Van Dormael

Com: Jared Leto, Sarah Polley, Diane Kruger, Linh Dam Pham, Rhys Ifans, Natasha Little, Toby Regbo e Juno Temple

(Nota: Leia essa crítica caso tenha visto o filme, já que ela é tão complexa e "difícil" de entender quanto o filme, já que esse que escreve se absteve de dar spoilers durante a escrita da mesma, transformando seu texto num emaranhado de palavras que só farão total sentido se forem deglutidas com o filme analisado)

De tempos em tempos surge - geralmente do "nada" - um filme complexo e que faz o espectador e o crítico refletirem sobre o que viram e sobre as reais intenções do mesmo por horas a fio. Darren Aronofsky, diretor de obras como Fonte da Vida, Réquiem para um Sonho entre outros - so para exemplificar - é um dos baluartes dessa "estética" complexa e que pretende dizer mais do que mostra a primeira vista.

Mr. Nobody, do diretor e roteirista Jaco Van Dormael segue a "escola". Complexo até dizer chega, cheio de idas e vindas do roteiro e com mensagens pipocando pela narrativa. Mais acima de tudo isso, um triunfo por conseguir no meio de toda a complexidade apresentada manter o foco e conduzir o espectador a uma experiência audiovisual muito interessante.


A história gira em torno de Nemo Nobody, um homem de 118 anos que é o mais velho ser humano numa sociedade distópica onde todas as "alegrias" dos seres humanos foram castradas. Sem sexo, sem carne, o paraíso dos politicamente corretos de plantão. Nessa sociedade, que aboliu cientificamente a morte por velhice, Nemo é um fóssil de uma época em que vivíamos mais intensamente. Van Dormael no entanto não quer parar no óbvio e criticar as distopias absurdas que seguimos dia após dia em nosso caminhar rumo à mediocridade, mas quer discutir os motivos para que caminhemos para a perfeição e felicidade ou a profunda tristeza e incapacidade. Nemo tem visões de seu passado, onde ela tem uma esposa linda (Sarah Polley) e outra , igualmente interessante (Linh-Dam Pham) e ainda um amor profundo por uma terceira (Diane Kruger). Como isso é possível, pergunta o leitor?

Três diferentes histórias, que surgem no mesmo período de vida do personagem sendo cada uma completamente diferente da anterior? Como? Isso, somente acompanhando a história complexa de Mr. Nobody o espectador vai descobrir.

O grande triunfo do diretor é que ao mesmo tempo em que ele mantém o nível de complexidade lá no alto, inserindo dados científicos sobre tempo/espaço e mais uma "pancada" de idéias sobre física, ele é inteligente o suficiente para transformar Nemo (ou seriam Nemos ?) em um personagem muito interessante, em todas as suas muitas encarnações. Seja quando ele aborda a infância do personagem (com um humor herdado da escola Jeunet), na adolescência (com um lirismo que mistura 2046 com Brilho Eterno...) e na fase adulta quando podemos ver os ecos de Matadouro Cinco, Efeito Borboleta e até da idéia (veja bem, idéia) de Benjamin Button.

Tudo isso ancorado por interpretações poderosas de todo o elenco. Fabuloso notar como Jared Leto mostra cada vez mais ser um ator de grandes recursos, transformando o Nemo adulto e idoso em personagens diferentes mais que guardam a mesma raiz. Ou seja, por mais que a complexidade do roteiro aponte os caminhos diferentes da narrativa, Leto consegue impor o mesmo tom aos personagens, relacionando-os ao mesmo indivíduo-base, digamos assim.


Os interpretes do pequeno e do jovem Nemo também são muito talentosos. O pequeno Thomas Byrne tem a inocência e a melancolia ideais pra construir uma criança em meio a uma complexa "guerra" de amor e ódio. O jovem Toby Regbo, construindo o Ying e o Yang de seu personagem vai mais além, e mostra Nemo como um bichinho assustado e raivoso e triste, amargurado e internamente a beira de uma explosão.

Interessante notar que todos os coadjuvantes têm tempo e apresentam belas interpretações, o que é mais um indício que por baixo da camada científica, Jaco quis contar a história daquele homem e sua vida.

As mulheres da vida de Nemo são todas, além de personagens interessantes, completamente diferentes entre si, bastante fortes e mereciam atrizes que sustentassem a carga. Sarah Polley, que faz Elise tem talvez o trabalho mais - teoricamente - fácil, já que seu personagem (no período em que é mostrada) é tomada de uma profunda depressão, e seus diálogos e expressões só reforçam essa idéia. Diane Kruger - quem diria, era achincalhada em Tróia - desfila em tela, fazendo de Anna a mais interessante de todas as personagens coadjuvantes. Cheia de medos, complexos e culpas é um cachorrinho perdido em busca do dono. E Linh-Dam Pham, vivendo Jean, apesar de ter menos tempo que as demais, se mostra insegura e dependente de um insensível e quase doente Nemo. Destaque também para Juno Temple que encarna Anna mais nova com muita sensibilidade e muita química com o garoto Regbo. Além da semelhança física entre os dois que aumenta essa sensação - imagino que pensada - de simbiose.


Rhys Ifans vive o pai de Nemo em momentos diferentes e também é marcante, apenas Natasha Little, que vive a mãe incomoda um pouco, por estar sempre interpretando a mesma cena, digamos assim. Automatizada ela apresenta a mesma cara de tensão, o mesmo sofrimento contido e a mesma idéia de que talvez ela não consiga ser feliz. Uma pena, já que as cenas em que ela está envolvida perdem um pouco do impacto.

Isso nos leva ao que realmente vai impressionar o espectador de imediato. A beleza impressionante com que tudo é retratado. Desde o futuro, repleto de brancos e transparências - nada muito novo, é verdade - até a recriação dos anos 70/80 com destaque para todo o design de produção que faz cada cenário individualmente diferente dos demais, o que reforça essa questão de "vidas paralelas". O mesmo vale para os figurinos que acertam na época, e diferem cada personagem - em especial o protagonista - de acordo com o que é pedido pelo roteiro. Leto surge como pai dedicado, filhote do grunge, alguém marcado por uma tragédia, perdido na vida, mais um "robô" numa linha de montagem e explorador do desconhecido.


Outro triunfo é a "casadinha" efeitos visuais e fotografia. Os efeitos (do FlyStudios e Modus FX) são certinhos, e apresentam qualidade maior do que a que deve ter sido destinada a produção do longa.- que segundo o IMDB, saiu por 47 milhões - que só em comparação é quase o mesmo valor gasto na série Crepúsculo que tem efeito visuais bem piores. A fotografia de Christophe Beaucarne é deslumbrante, e acerta em cada frame. Quando precisa ser lúgubre, quando vemos luz, quando a inocência precisa ser enfatizada, quando o diretor pede que se destaque certas cores ou nuances. Um trabalho visualmente impecável e digno de figurar numa lista de melhores do ano. Assim como a maquiagem que faz de Jared Leto, uma quase múmia de cento e muitos anos. Apesar de não vermos nada de revolucionário, é bastante eficiente e impecável dentro da proposta.

Tecnicamente brilhante e narrativamente instigante, com todas as discussões sobre escolhas e as conseqüências delas, Mr. Nobody é um filme a ser visto com atenção, carinho e que vai deixar marcas em que ver. Seja pela beleza de suas imagens, ou pelo conceito - que parece complexo - mas que fala diretamente ao espectador sobre algo muito humano e atemporal: nossos sonhos, medos e caminhos percorridos.