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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Poder Paranormal


Poder Paranormal
(Red Lights, 2012)
Suspense - 113 min.

Direção: Rodrigo Cortés
Roteiro: Rodrigo Cortés

com: Cillian Murphy, Robert DeNiro, Sigourney Weaver, Elizabeth Olsen

Poder Paranormal é um suspense B, simples, tenso em boa parte da projeção, mas que tem problemas de roteiro e alguns excessos durante o desenrolar da história. A grande atração da produção é a presença de Robert DeNiro de volta aos personagens sombrios. Seu último flerte com o macabro aconteceu no - hoje - longínquo ano de 1994, quando interpretou a criatura de Frankenstein. Porém, mais representativo do que seu ótimo desempenho como o monstro, o grande trabalho de DeNiro com o mundo sobrenatural é sua interpretação (como Louis Cyphre) no seminal Coração Satânico.

Sendo um ator versátil, DeNiro transitou por muitos gêneros, mas é notório que os últimos anos foram cruéis com o ator, que vem acumulando filmes medianos ou fracos ano após ano. Infelizmente, Poder Paranormal é mais para a lista desses "fracassos", embora este não seja de todo mal, já que por mais irregular que ele seja, consegue manter o espectador tenso em busca de respostas.

A trama parte em duas frentes. A principal acompanha o físico Tom Buckley (Cillian Murphy) que é o parceiro da firme e decidida doutora Margaret Matheson (Sigourney Weaver) investigadores paranormais, que - no melhor estilo Ghost Hunters (popular seriado do Discovery Channel) - procuram explicações lógicas para fenômenos encontrados por uma serie de pessoas apavoradas com a perspectiva de estarem presenciando a ação do paranormal.


Tom e Margaret desmistificam sem o menor constrangimento todos os casos em que são chamados. Até o início do filme, nunca encontraram nada que não pudessem explicar de forma racional. Rodrigo Cortés, diretor do bem sucedido Enterrado Vivo, assina a direção e o roteiro do filme, que não faz cerimônia para apresentar essas conclusões logo nas primeiras cenas do filme, em que vemos a doutora Matheson explicando objetivamente essas conclusões. Ela é uma cética e como tal, não crê naquilo que não consegue ver e provar. Já Tom é um mistério, um sujeito sem motivação pra seguir a doutora, e que em sua apaixonada busca por charlatões deixa claro que talvez esconda alguma explicação secreta.

A segunda frente mostra o personagem de DeNiro, o místico Simon Silver, que está afastado do mundo dos espetáculos ao vivo a mais de trinta anos. Quando o filme começa, o paranormal cego está de volta ao showbiz e diante de um passado misterioso, que envolve a morte de um jornalista que o acusava de charlatanismo durante um espetáculo, causa comoção popular.

A trama então acompanha Tom em suas tentativas de investigar Simon, sendo prontamente negadas por uma tensa Margaret. Os motivos para sua negação resultam no momento mais tocante do longa e garantem um ótimo momento para sua interprete. Já DeNiro também tem seu momento de glória, em um poderoso monólogo no palco já na parte final da projeção.


Em produções como essa, a amarração dos fatos é essencial para que a suspensão de descrença seja mantida por toda a duração. Como disse, Poder Paranormal até consegue fazer isso, mantendo o espectador tenso, muito graças a recursos óbvios do cinema de suspense, mas que quando são utilizados com competência rendem bons sustos, como o uso da trilha sonora de forma intensa e a montagem que alterna o ritmo do filme, misturando uma sequência lenta e expositiva com um evento rápido e de impacto visual.

Porém, e piso em ovos para não revelar detalhes da trama, o plot twist que acontece nos minutos finais da obra parece colocar em cheque muito do que foi visto até ali. Uma explicação a respeito da veracidade das ações paranormais de DeNiro além de ser apresentada de forma absurdamente confusa, é marcada por uma mudança na perspectiva de todos os fatos ate ali. Isso enfraquece a proposta do longa, embora seja mais "poética" em sua resolução.

Apesar de manter o público (e esse que escreve) tenso durante quase toda a projeção, Rodrigo Cortés peca quando cria diversos detalhes a respeito da paranormalidade do filme, para nesses momentos finais nos querer fazer crer que a consciência de um dos personagens é incapaz de separar a realidade da imaginação.


Cheio de boas intenções, atmosfera de filme b, atores competentes - e que certamente foram seduzidos pelo trabalho anterior de Rodrigo e, portanto embarcaram nessa produção - e bons sustos, Poder Paranormal poderia ser um ótimo "suspense-pipoca", mas ao tentar dar significados mais profundos e passar uma mensagem (não fuja daquilo que é de verdade), escorrega feio, deixando diversos buracos na amarração da historia e na percepção do público sobre o que viu.

Tecnicamente bem realizado, Cortés tem domínio sobre o gênero abraçado, e mesmo quando apela para algumas soluções for dummies (mostrar DeNiro em sua primeiríssima cena no filme tirando seus óculos para mostrar ao publico que é cego, ou colocar Weaver dizendo textualmente que nunca encontrou um "fenômeno" que não pudesse explicar) mantém o espectador interessado naquele clima de suspense, em busca de respostas. Porém, quando Cortés resolve as dar, praticamente apaga a lógica de seu filme até ali, o que enfraquece demais a produção.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Casa Silenciosa


A Casa Silenciosa
(Silent House, 2011)
Terror/Suspense - 85 min.

Direção: Chris Kentis, Laura Lau
Roteiro: Laura Lau e Gustavo Hernández

Com: Elizabeth Olsen, Adam Trese, Eric Sheffer Stevens

Ano passado estreou com algum barulho um longa metragem vindo do Uruguai, chamado A Casa. A ideia deste longa sul-americano era muito interessante: acompanhar "em tempo real e sem cortes", uma legitima historia de casa assombrada, ou algo assim. Infelizmente, a magia incensada e desejada pelo realizador Gustavo Hernández, viu ruir-se diante de um trabalho técnico questionável (além da câmera de mão que acompanha a ação causar vertigens, o filme apresentava cortes sim, já que o tempo real em que o filme se passa é muito mais extenso do que o tempo de cena) e de um texto que abusa de um exagero quase hermético em um gênero com uma proposta que mais confunde do que ajuda o espectador.

Como parece praxe, e um atestado cruel de falta de criatividade, os americanos logo pensaram em - por que não - criarem uma adaptação para a língua inglesa (afinal, o publico americano não sabe ler e é ignorante mesmo, é o que parecem dizer os muitos produtores desse tipo de remake). Essa é dirigida por Chris Kentis e Laura Lau e tem como estrela Elizabeth Olsen (do ainda inédito por aqui, mas muito elogiado Martha May Marcy Marlene). Curiosamente, o roteiro dessa produção - assim como em O Grito - tem o dedo do diretor e um dos roteiristas do filme original, o já citado Gustavo Hernández.

Apesar de não ser nenhuma grande produção do gênero, esse remake, consegue (surpreendentemente) ser um pouco superior ao filme original. Além da qualidade técnica deste ser infinitamente melhor (apesar da câmera nunca parar, o filme consegue achar ângulos em que o espectador consegue acompanhar a trama sem, no entanto precisar adivinhar o que vê na tela), consegue manter a sensação do "tempo real" mais crível, ao focar-se em período muito mais curto de tempo (praticamente os mesmos oitenta e cinco minutos e duração do filme em si) e ter em Elizabeth Olsen uma interprete muito mais segura do que Florencia Colucci, o era no filme original.


Existem algumas alterações na trama, especialmente para tornar a desse remake mais "palatável" para o gosto do consumidor americano, muito menos afeito a mensagens cifradas especialmente em filmes com essa temática assumidamente comercial.

A subversão de gêneros, que já acontecia no filme original, mas que levava o espectador há pensar um pouco mais e talvez parecesse exagerada em seus conceitos, aqui é mais "pé no chão", mais próxima de um filme de horror mais comum. Explicações acabam sendo dadas em uma dose muito maior do que acontecia no filme uruguaio, mas de outro lado, o impacto das revelações na personagem de Olsen é muito mais intenso.

Olsen é uma atriz muito interessante, e que consegue transmitir muita naturalidade no papel de uma garota que se vê diante de um mal que não consegue enxergar nem compreender. Suas reações, apesar de esbarrarem nos clichês, são críveis e a atriz consegue dar veracidade a situação que vive.


Esbarrando no óbvio demérito de ser um remake (e esse é assumidamente um remake, que não tem medo nem de copiar alguns planos e estrutura narrativa), A Casa Silenciosa não é um fracasso como em geral são essas adaptações. Não assusta tanto quando o original (que era mais aterrador, principalmente pela atmosfera amadora e imunda do cenário), mas é mais bem resolvido e conta sua historia sem pretensões, sabendo que é apenas mais um filme de terror. Aposta em uma técnica "ousada"? Aposta, mas no fundo é a subversão de gêneros e o plot twist final que são as armas do filme.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Chernobyl


Chernobyl
(Chernobyl Diaries, 2012)
Suspense/Terror - 86 min.

Direção: Bradley Parker
Roteiro: Oren Peli, Carey Van Dyke e Shane Van Dyke

Com: Olivia Dudley, Jesse McCartney, Devin Kelley, Nathan Phillips, Jonathan Sadowski e Ingrid Bolso Berdal, Dimitri Diatchenko

Chernobyl é daqueles filmes que faz o espectador questionar a sanidade mental de seus "colegas" seres humanos. Pois só com muita, mas muita compreensão é que dá para entender o que leva um grupo de jovens que depois de passear por lugares incríveis na Europa, decidem se aventurar em uma cidade próxima ao desastre nuclear de Chernobyl.

O que se passa na cabeça desse pessoal? Esse é o tipo de turismo que eu realmente não consigo entender. Mas enfim, Chernobyl coloca meia dúzia de sujeitos em uma excursão rumo ao desastre atômico soviético. Quatro desses turistas se conhecem. Chris (Jesse McCartney) e Natalie (Olivia Dudley) namoram e o rapaz está prestes a pedir a namorada em casamento. Paul (Jonathan Sadowski) é irmão de Chris enquanto Amanda (Devin Kelley) é a amiga de Natalie. Juntam-se aos quatro, o casal Michael (Nathan Phillips) e Zoe (Ingrid Berdal), que estão juntos há um mês, mas estão em lua de mel (vai entender). Todos são guiados por Uri (Dimitri Diatchenko), o ex-militar da vez que serve de guia pela região.

Chernobyl é dirigido por Bradley Parker que estreia no comando de uma produção, tendo vindo do mercado de efeitos visuais. O nome mais conhecido nos créditos do filme é o de Oren Peli, criador da franquia de sucesso Atividade Paranormal, que ao lado dos Van Dyke (Carey e Shane, atores e roteiristas das produções picaretas da produtora Asylum que parodia blockbusters para ganhar uns trocados) assina o roteiro.


Uma brincadeira que Chernobyl faz é a de subverter a expectativa do publico que imagina ver mais um "found fottage", devido principalmente aos créditos anteriores de Peli. O filme começa com uma legitima filmagem amadora do grupo de amigos apresentando sua viagem na Europa. Quando nos acostumamos com aquela estética, o filme nos mostra que tudo aquilo que víamos até então, era um vídeo dentro do filme. Uma pequena colagem dos momentos da viagem até então, que um dos personagens mostra para outro.

Embora o found fottage não seja utilizado, a forma como Chernobyl é fotografado e montado emula a sensação de estarmos acompanhando um exemplar do "gênero". Muita câmera na mão e quase sempre em movimento, ausência de trilha sonora e até mesmo alguns fades quase caseiros fazem da experiência de assistir Chernobyl muito próxima da de acompanhar uma produção que apela para essa ideia.

O conceito da historia é interessante a principio: colocar um bando de americanos em meio ao vazio das cidades atingidas pelo vazamento dos resíduos nucleares, que claro, escondem um segredo. O problema é que - de saída - o diretor Parker e os roteiristas precisam dar uma pequena aula de historia para o público que se imagina sabe o que foi Chernobyl. Mas, como infelizmente o mundo real é tão obscurecido como os céus pós-acidente nuclear, o público - em geral mais novo - não faz mais ideia do que foi Chernobyl.


Depois da aula de historia e da tentativa frustrada de entrarem na cidade pela entrada normal (protegida por guardas armados) o grupo decide continuar sua aventura e entrar de qualquer jeito na cidade, passando por um lago que abriga peixes muito "exóticos" até chegarem ao centro do que abrigava uma cidade dos trabalhadores da usina. Os cenários são muito bons, realmente dando a impressão de estarmos vendo um mundo abandonado. Segundo as informações do filme, as locações foram encontradas na Sérvia e na Hungria e realmente merecem um destaque especial. Tanto os cenários externos, que apesar de não serem originais, funcionam perfeitamente para ilustrar a desolação do ambiente, quanto para os ambientes internos que "exalam" mofo, atulhados de coisas, praticamente sem nenhuma iluminação, um criadouro das tais criaturas estranhas que habitam a cidade.

Claro que nesse tipo de produção, o clima é responsável por noventa por cento da graça do filme, já que o interessante (se é que podemos chamar assim) de produções assim é acompanhar a contagem de corpos subindo com o passar do tempo, já que o desenvolvimento dos personagens sempre fica prejudicado. Aqui não há nada de novo, e os personagens continuam sendo estereótipos: o bondoso, a garota apaixonada, o inquieto, a garota forte mais introspectiva, entre outros.

Quando as coisas dão errado e os personagens precisam sobreviver, a trama se prende aos clichês do gênero e o filme cai bastante. Apesar de contar com alguns bons sustos, e a presença das tais misteriosas figuras (que tem uma origem bastante plausível e cruel) o filme é genérico, embora pelo menos não caia no hall do found fottage, embora use o recurso de maneira breve durante o filme. Porém, embora o efeito visual seja interessante, a "motivação" para o uso da técnica é infeliz e não faz sentido algum para a narrativa.


Apesar de não ser nenhuma tragédia, a ideia interessante e os bons cenários chegam a iludir o espectador, que até imagina encontrar uma historia que se diferencie de tantos outros filmes do gênero. No entanto, Chernobyl apesar de fugir da piada pronta (não é nenhuma calamidade atômica), está longe de estar na lista dos grandes trabalhos do gênero. Pelo menos, Oren Peli mostra que pode escrever algo além do que os fantasmas mal filmados de Atividade Paranormal.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres


Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
(The Girl with the Dragon Tattoo, 2011)
Suspense/Drama - 158 min.


Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian


Com: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson e Yorick van Wageningen

Fazer de um remake uma obra pessoal e com assinatura é um caso raro. Na história do cinema, pouquíssimos filmes conseguiram a proeza de serem tão, ou até mesmo melhores do que a obra original que inspiraram. São os casos de Onze Homens e um Segredo, Scarface (que empata com o original de Howard Hawks em 32), Ben-Hur, Nosferatu (a versão de 1979), O Enigma de Outro Mundo, A Mosca, Fogo contra Fogo (que é a versão para o cinema de um filme para tv), Falcão Maltês (a versão de 1941 dirigida por John Huston é um remake de outro filme de mesmo título lançado em 31), O Homem que Sabia Demais (caso raríssimo de um remake produzido pelo mesmo autor do original, no caso, ninguém menos que Alfred Hitchcock), Os Dez Mandamentos (cuja primeira versão é de 1923) entre alguns outros que conseguiram a proeza de alcançarem um patamar de excelência que os permite caminhar com as próprias pernas sem comparações constantes com a obra original.

David Fincher pode colocar seu filme nessa lista. Seu Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres é uma obra que reverencia o texto original, tem respeito ao filme sueco e mesmo assim é uma obra profundamente pessoal, com os dedos de Fincher por todo o filme.

Desde a sua preocupação conhecida com a fotografia e o design de produção, que deixam seus filmes (a exceção de Benjamin Button que era um drama histórico e muito mais leve do que sua produção "normal") com um ar de mundo decadente, sujo e apocalíptico (e que aqui é perfeito para a história a ser contada), passando pela trilha sonora que (novamente excetuando-se Button, que é o pior filme do diretor) opta pelo atonalismo, pela robustez de temas e pelo generoso uso de recursos modernos, seguindo pela criatividade dos planos e principalmente para as soluções visuais encontradas para impressionar o espectador (como a já clássica sequencia de abertura do filme, que mistura video-arte com conceitos a serem vistos no filme e a famosa versão para Immigrant Song de autoria de Trent Reznor) e a habilidade do diretor em encaixar atores em situações até então desconhecidas para eles (exemplos não faltam: Forest Whitaker em Quarto do Pânico, Brad Pitt e Helena Botam Carter em Clube da Luta, Jesse Eisenberg em Rede Social, Morgan Freeman em Seven e aqui Daniel Craig e Rooney Mara) obtendo resultados quase sempre excelentes.


Porém, Fincher parece mais maduro aqui. Quem teve a chance de ver o filme original sueco (leia nossa crítica aqui) sabe que um dos momentos mais importantes da trama é mostrado com extrema violência, um voyeurismo quase sádico, e aqui Fincher, apesar de mostrar a situação da forma descrita nos livros, tem alguns pudores e inteligência suficiente para perceber o momento certo e o que mostrar. Outra questão que nos livros fica mais clara e que no filme, Fincher preferiu aliviar, é a questão do relacionamento entre seu personagem masculino principal e sua amante, que nos livros vive em um casamento aberto, com seu marido sabendo exatamente onde e com quem ela está, enquanto aqui a situação é camuflada.

Outra alteração tanto em relação ao livro quanto ao filme original, é seu final, que aqui muda a identidade de um personagem importante transformando o desfecho da história, tornando-a mais redonda e evitando um maior excesso de personagens, além de inserir (também para dar um encerramento a todas as pontas soltas) trechos do segundo livro.

Personagens esses que estão envolvidos na história do jornalista Mikael Blomqvist (Daniel Craig), que acaba de ser condenado pela justiça sueca a pagar uma substancial quantia para um industrial importante que foi acusado sem provas na publicação para qual trabalha (a revista Millenium). Ao mesmo tempo o industrial Henrik Vanger (Christopher Plummer) há quarenta anos recebe todos os anos uma flor emoldurada que o relembra do misterioso sumiço de sua sobrinha Harriet, ocorrida em sua própria casa, uma afastada ilha no norte da Suécia. Henrik pede uma investigação sobre Mikael, tentando cooptá-lo a assumir uma pretensa investigação sobre o caso, para de uma vez por todas chegar a uma conclusão sobre o sumiço da garota. Para isso, contrata uma empresa que prepara um dossiê sobre o jornalista. Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma hacker de visual agressivo, inquieta e que não leva desaforo para casa entra em cena. Em determinado momento da trama (evitando os spoilers aqui) Lisbeth e Mikael passam a trabalhar juntos para encontrar a verdade por trás da história.


Fincher consegue caminhar por três linhas narrativas diferentes com tranquilidade, apesar da longa duração do filme, conseguindo explorar a situação de Mikael e seus problemas com a justiça, a vida de Lisbeth Salander e ainda a investigação sobre o sumiço de Harriet que acaba resvalando em temas espinhosos.

Mikael, aqui vívido por Daniel Craig, é o herói do filme, apesar de seu comportamento não indicar que ele é um sujeito bonzinho e dócil. Craig não é o herói de ação dos filmes de Bond e até encaixa aqui e ali algumas piadas, tornando-se o elo do espectador com o filme, em especial quando está em companhia de Lisbeth.

Essa por sinal, é brilhantemente vivida por Rooney Mara, de forma diferente do original sueco. Se Noomi Rapace fez de Lisbeth uma figura sombria e que era indecifrável, Mara fez de Lisbeth uma garota igualmente complicada mas que está tentando encontrar ligações com a humanidade, apesar de ter uma história de vida complicada. Outra mudança é que Rapace era mais seca e seu envolvimento com Mikael é direto e objetivo, enquanto Mara apesar de seca tem em seu olhar uma característica mais compreensiva e mais humanizada em relação ao filme original. De qualquer forma, Mara tanto por sua transformação física (auxiliada por uma ótima maquiagem que incluí tatuagens, piercings e um corte de cabelo ousado) quanto por sua ousadia em se apresentar de forma tão "lavada" no filme, merece sim os elogios dados pela imprensa internacional.


Os demais coadjuvantes (muito bem escolhidos) não comprometem. Plummer, um ator que voltou a ganhar seguidos papéis depois de idoso, faz de Henrik um sujeito apaixonado pela vida e por sua sobrinha desaparecida, enquanto Stellan Skarsgard faz de Martin, o CEO da empresa Vanger, um sujeito divertido e boa praça, sempre pronto a ajudar Mikael, o que obviamente gera desconfianças do público, assim como as atitudes do advogado da empresa Gert Frode (Steven Berkoff) que surge cauteloso quanto à importância de Mikael. 


Entre as mulheres Robin Wright como a amante de Mikael e dona da revista Millenium, Erika Berger, tem pouco tempo de tela, já que se torna personagem realmente importante nos livros dois e três. Joely Richardson é outra que tem pouco tempo de tela mas sua Anita vem a se tornar peça fundamental na história. O único ponto negativo, é a forma com que o ator holandês Yorick van Wageningen construiu o personagem de Bjurman (o tutor de Lisbeth). Nos livros e no filme original, Bjurman exalava sujeira e era até viscoso. Aqui, Fincher opta por apresentar o personagem como um sujeito duro, mas que aos poucos vai se revelando um canalha. Uma opção que talvez se apóie na ideia de que os monstros estão bem camuflados em nossa sociedade, mas que para o filme faz do personagem mais fraco do que ele deveria ser.

Fincher está em grande fase. Vindo dos ótimos Zodíaco e Rede Social (Button é mesmo um acidente em sua carreira) firma-se ainda mais como um dos poucos autores no cinema comercial americano. Um sujeito que pega seu material de origem e faz de seu filme, um projeto com assinatura própria, com suas marcas e qualidades únicas. Aproveitando-se do gélido ambiente de sua história, Fincher constrói aqui mais um excelente exemplar dos filmes de serial killer, não tão intenso e visceral quanto Seven, mas sem dúvida,  merecedor de elogios e de figurar no panteão dos grandes trabalhos sobre o tema.

domingo, 30 de outubro de 2011

Stake Land - Anoitecer Violento
(Stake Land, 2010)
Terror/Suspense - 98 min.

Direção: Jim Mickle
Roteiro: Nick Damici e Jim Mickle

Com: Nick Damici, Connor Paolo e Kelly McGillis

Zumbis estão na moda. Desde o revival iniciado pelo famigerado Zack Snyder em seu remake do clássico de George Romero Madrugada dos Mortos, o mundo vem concebendo os mais variados trabalhos relacionados aos mortos vivos, desde livros, HQs, filmes e até séries de TV.

Stake Land - dirigido por Jim Mickle e escrito pelo próprio Mickle e pela estrela do filme Nick Damici - coloca os sugadores de sangue, tão vilipendiados com histórias adolescentes românticas e brilharecos em florestas e luas de mel na praia, em um ambiente pós-apocaliptico típico dos filmes de zumbi, ou mesmo de recentes sucessos de crítica como o excelente A Estrada. Estão presentes todos os elementos importantes e tradicionais das histórias ambientadas nesse mundo: extremismos vindos dos inimigos, a dificuldade para lidar com o ambiente inóspito, gente regredindo ao primitivismo, intimidade intensa em virtude da falta de gente, a sensação de solidão e de que o fim está sempre espreitando na próxima esquina.

Soma-se a isso o acréscimo das figuras vampirescas, mais agressivas, ágeis e inteligentes que os mortos vivos e você têm um suspense tenso e poderoso que funciona por quase toda a projeção.


Stake Land, ou Terra da Estaca, fala da relação entre o jovem Martin, solitário depois da morte dos pais (que é apresentada na primeira cena e que dá o tom do filme, cru, naturalista até os limites possíveis, ágil e bem montado) e o misterioso Mister, um andarilho especializado em caçar e eliminar os sugadores de sangue que se espalham pelos Estados Unidos tomados pela praga vampiresca.

A relação dos dois é similar a dos personagens de Woody Harrelson e Jason Eisenberg em Zumbilândia, obviamente mais adulta e séria, já que o tom de Stake Land não é - definitivamente - leve e satírico como a comédia dos zumbis.

Outra característica interessante de Stake Land reside no fato, de além de falar dos vampiros, o filme ainda toca na questão do fanatismo religioso, aqui apresentado por uma seita doentia que usa dos vampiros para eliminar aqueles que contestam sua suposta conexão direta com Deus. Nada diferente do que vemos hoje em dia, nas mais variadas religiões que clamam ser a "única verdade". Jim Mickle parece dizer que quando o apocalipse chegar (literal ou metaforicamente) essa questão ficará ainda mais pungente, já que apenas os mais fortes e - segundo a lógica do filme - ignorantes, sobreviverão ao massacre, o que dará início a uma era de extremismos e violência desmedida.


O elenco é basicamente composto de desconhecidos, o que auxilia a credibilidade do filme e amplia a sensação de urgência daqueles personagens. Embora Martin e Mister sejam os personagens principais, por diversas vezes nos questionamos se aqueles dois conseguirão chegar até o final do filme ilesos (e não, não contarei se chegam).

Nick Damici, faz de Mister um sujeito calado e que como macho alfa da situação, não tem tempo, nem paciência para conversa fiada e momentos de depressão pensando nos amigos e família caídos. Um típico valentão de coração mole, Mister é aquilo que se espera de um personagem como esse, largado em um ambiente como o do filme. Poucas palavras, muita ação e a constatação de que esse tipo de personagem parece cada vez mais esquecido no cinema. Já Connor Paolo (que interpretou os jovens Sean Penn e Colin Farrell em Sobre Meninos e Lobos e Alexandre respectivamente) é o típico garoto assustado que precisa encontrar uma forma de lidar com uma situação de extremo desamparo.

Como a estrutura do filme é um road movie que como em 11 de 10 filmes apocalípticos se apóia na busca de um oásis protegido da praga/monstros da vez, diversos coadjuvantes vão se juntando no caminho dos dois personagens. A mais significativa é a Freira (intitulada apenas assim) que tenta incutir um pouco de humanidade na cabeça dos personagens. Kelly McGillis (ela mesma de Top Gun, Acusados, A Testemunha entre outros) surge muito diferente da imagem que o público talvez mantenha dela. Parecendo muito envelhecida - também ajudada pelo papel que a coloca como uma mulher sem nenhuma vaidade e ainda num ambiente de trevas - Kelly em poucos momentos de tela, mostra que apesar do visual "chocante", continua eficiente.


A vilania religiosa citada é representada por Jebedia Leven (Michael Cerveris da série Fringe), um psicopata que mantém o poder através da fé cega de um grupo de ignorantes tementes a Deus que também servem como seu exercito particular.

Apesar de apostar no Road movie, os muitos cenários e personagens que cruzam o caminho dos personagens (que também incluem uma jovem grávida que serve de interesse amoroso de Martin, um caminhoneiro e até uma jovem boa de tiro e uma cidade perdida no meio da guerra religiosa) o filme não perde ritmo, embora em seu terceiro ato, apresente alguns pequenos problemas em concluir a história, que vinha sendo conduzida de forma intensa e com acontecimentos inesperados. Mickle prefere ser mais contido e encerrar sua história de forma mais óbvia e que todos os filmes do gênero costumam terminar.

Stake Land não pretende ser o filme definitivo sobre o tema, mais é uma lufada de ar fresco na filmografia vampírica, que anda sendo transformada em pastiche na ultima década. Por seu visual cru, interpretações corretas e respeito aos conceitos do mundo que abraça, a produção merecia uma sorte melhor do que ser mais um simples lançamento direto para vídeo. E pensar que Dylan Dog teve sua chance no cinema...


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Hora do Espanto
(Fright Night, 2011)
Suspense - 106 min.

Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Marti Nixon

Com: Anton Yelchin, Colin Farrell, Toni Collette, David Tennant, Imogen Poots e Christopher Mintz-Plasse

Não me lembro de A Hora do Espanto dirigido por Tom Holland (que veio a dirigir Brinquedo Assassino e Fenda no Tempo também) em 1985. Certamente assisti, em algum momento da infância/adolescência, mas honestamente, não me lembro de sequer um frame do filme, por isso (e até de forma mais correta) vi o remake dirigido por Craig Gillespie (cujo trabalho mais conhecido é a direção de alguns episódios da série United States of Tara com Toni Collette) sem pré-conceitos ou ideias comparativas.

Ambientado em um distante e emocionalmente frio subúrbio de Las Vegas (nem sabia que Las Vegas tinha um subúrbio típico americano), já no primeiro frame somos apresentados a simetria geometricamente perfeita daquele mundo de casas iguais afastadas por uma estrada desértica do mundo de alegria e diversão que é a Las Vegas como popularmente conhecemos.

Nesse ambiente somos apresentados a Charley (Anton Yelchin), um garoto popular, boa gente e que namora com a deslumbrante e sexy Amy (Imogen Poots). Criado pela mãe Jane (Toni Collette), ele tem uma vida quase perfeita, tão perfeita que não repara quando diversos colegas de classe começam a sumir da escola sem deixar maiores rastros. Alertado pelo "ex-amigo" Ed (Christopher Mintz-Plasse), um nerd nível freak, de que um de seus melhores amigos havia sumido, acaba convencido a ir até a casa do suposto desaparecido e verificar o que acontece. Ed começa a dizer que os sumiços eram culpa de um vampiro infiltrado na cidade, que sistematicamente estava matando todos ao redor e que sua identidade era conhecida de Charley. O tal vampiro era seu novo vizinho, o misterioso Jerry (Colin Farrell) que encanta sua mãe e sua namorada. Negando a idéia - aparentemente absurda - Charley segue sua vida, até perceber que seu amigo também pode ter sido vitima de um sumiço misterioso. Ao encontrar anotações de Ed, se convence da idéia vampírica e parte em busca de ajuda.


Isso resume os primeiros vinte minutos do filme, que apresentam superficialmente todos os envolvidos na história, que não esconde ser um filme b e não tenta inventar a roda, mantendo-se simples e divertido, apesar de ser profundamente bem realizado.

Um dos problemas do filme é o fato de Yelchin e Poots não convencerem como garotos do high school. A idéia de utilizar atores mais velhos para interpretar adolescentes quase nunca dá certo e aqui também isso acontece. Apesar disso, existe uma química razoável entre o casal e Yelchin mostra versatilidade, sendo capaz de em sua até então curta carreira, ir do drama (como em sua ótima atuação em Um Novo Despertar) ao herói de ação (em Star Trek e aqui), mostrando ser capaz de fazer uma carreira longa no ramo.

Farell por sua vez, está mais canastrão do que nunca, e isso é absolutamente essencial e perfeito para o filme. Se Farell fizesse de Jerry, um ser em conflito, cheio de dúvidas e que brilhasse na luz (não posso perder a chance de cutucar, me desculpem) não funcionaria na história de Marti Nixon (uma veterana da tv, com créditos de produtora executiva em Private Practice, Grey's Anatomy, Buffy e Angel entre outros e como escritora nessas duas últimas entre outros) que tem em seu background a facilidade de transitar nesse mundo vampírico contemporâneo ao misturar o kitsch, o suspense, o drama e a comédia. Para o bem e para o mal, Hora do Espanto remake, lembra um episódio chique e muito bem cuidado de Buffy ou Angel.


Os coadjuvantes são o que fazem de Hora do Espanto especial e divertido. Mintz-Plasse cada vez mais McLovin (seu personagem símbolo de SuperBad), é exageradamente ridículo como Ed, o que também é ótimo para a proposta desencanada do filme. Toni Collette por sua vez deve ter embarcado na aventura por amizade ao diretor Gillespie que a dirigiu na série de Tara, a mulher com múltiplas personalidades.

Mas quem rouba todas as cenas em que aparece é o brilhante e engraçado David Tennant (o segundo Doutor na volta da série Dr. Who), aqui interpretando o especialista no oculto Peter Vincent, que no original era vivido por Roddy McDowell (da série Planeta dos Macacos). Peter é uma mistura de roqueiro gótico com mágico moderno, uma coisa meio Chris Angel encontra o vocalista da banda HIM e Russell Brand. Mas obviamente, tudo aquilo é montado e a cena em que Vincent se despe do figurino é hilária. Tennant é daqueles atores que consegue ser engraçado sem fazer esforço e seu sarcasmo tipicamente inglês é usado aqui a exaustão.

O filme ainda tem tempo de brincar com a musa Sofia Vergara, escalando sua irmã Sandra, como amante/namorada do mágico que quando abre a boca revela uma assustadora semelhança com a irmã. Sofia e Sandra gritam e esperneiam de maneira idêntica, então, se essa não foi uma brincadeira com a típica latina boazuda, é uma ótima piada involuntária. Homenagem mesmo é ao ator Chris Sarandon, que era o vampiro no original, e que aqui faz uma ponta de luxo que rende a melhor sequencia de ação do filme.


Sequencias essas que são muito bem fotografadas (apesar de estarem brutalmente escuras) por Javier Aguirresarobe que - olhem só como são as coisas - tem em seus créditos a fotografia de Lua Nova e Eclipse, além de Os Outros, Mar Adentro, A Estrada e Vicky Cristina Barcelona. Javier é um mestre nas sombras e faz do escuro Hora do Espanto, um deleite para quem gosta de filmes de vampiro "roots", onde os monstros sugadores de sangue são realmente ameaçadores. Aqui, mesmo na atmosfera mais leve típica de produções de Joe Dante, as sombras e o suspense dão o ar da graça.

Outro grande destaque é a trilha vigorosa e poderosa de Ramin Djawadi (Fúria de Titãs e Homem de Ferro entre outros) que mistura as idéias de Drácula de Coppola e cria um dos poucos temas assobiáveis do cinema recente. Um trabalho excelente.

Gillespie por sua vez conseguiu misturar o suspense com as situações exageradas e propositais, criando uma mistura típica dos anos 80 (que ainda renderam Garotos Perdidos na mesma linha) com os avanços técnicos e de linguagem do novo século.Talvez não faça o sucesso esperado, mas é divertido, bem realizado, com piadas e referencias pop aos montes e duas ótimas sequencias de ação.

Obs: o 3d é do tipo "coisas voando na tela" e não é utilizado para criar profundidade. No que se propõe realiza bem o trabalho.



segunda-feira, 25 de julho de 2011

Aterrorizada
(The Ward, 2011)
Suspense/Thriller - 88 min.

Direção: John Carpenter
Roteiro: Michael Rasmussen e Shawn Rasmussen

Com: Amber Heard, Mamie Gummer, Daniele Panabaker, Lyndsy Fonseca e Jared Harris



Chegando apenas em home vídeo no Brasil, The Ward marca o retorno do mestre (esse merece o título com honras) John Carpenter ao cinema. Listar suas obras mais importantes é como passear por um museu das grandes realizações do cinema de terror e suspense do século XX. A exceção de suas duas últimas produções: Vampiros e Fantasmas de Marte, quase todos os filmes do "carpinteiro" são obras inteligentes, marcantes e dotadas de personagens e situações que permanecem na retina do espectador.


The Ward fala de uma garota (Kirsten) que quando o filme começa está queimando uma velha casa de madeira incrustada no meio do nada, em uma típica paisagem do interior norte-americano. Ela é presa e enviada a um sanatório onde é mantida em uma espécie de tratamento (que nunca é explicado especificamente) junto a quatro outras meninas, igualmente presas e que também não sabem os motivos de estarem por lá. Aos poucos Kirsten conhece as garotas e descobre que a antiga moradora de seu quarto morreu de forma misteriosa.


Carpenter mistura Ilha do Medo (manicômio/mistério/personagens confusos perdidos) com Sucker Punch (garotas bonitas enfrentando um mal maior) e ainda recheia o filme com um serial killer que pode ser mais do que aparenta. O diretor ainda consegue criar tensão e desenvolver uma história que mantém o espectador ligado em seus movimentos, por mais óbvio que pareça o filme. E sim, o filme não esconde com grande capacidade suas intenções, e se o espectador for um pouco perspicaz mata a charada do mistério por trás do filme.



O filme apresenta quatro belas atrizes, mas que interpretam estereótipos em produções do gênero. Além da protagonista Kirsten (Amber Heard de Fúria sobre Rodas) que é forte, segura e decidida a descobrir os mistérios do lugar onde se encontra presa, fazem parte do elenco: Mammie Gummer como a hiperativa e "moleca" Emily, Danielle Panabaker (da série Shark e de A Epidemia) como a desinibida e sexy Sarah, Laura-Leigh como a infantilizada Zoey e Lyndsy Fonseca (Kick Ass) como a inteligente e talentosa Iris.


Não se sabe os motivos daquela instituição estar lá, e o roteiro mergulha os personagens e o espectador em uma espiral de mistérios que ao final fazem sentido, em especial na forma com que Carpenter apresenta sua história. Pouca coisa é realmente "mostrada", já que nossa perspectiva é a mesma da de Kirsten e nossa visão de mundo é a dela. Tudo é muito subjetivo e isso ajuda a manter o filme em constante estado de tensão.


Tecnicamente, o "carpinteiro" continua a criar como poucas seqüências de suspense utilizando-se de som, montagem e da atmosfera construída pelos personagens. Notem como a partir de um clichê primário do cinema de horror (a noite chuvosa e os relâmpagos) Carpenter cria a atmosfera que será perceptível por todo o longa. Sempre que o filme apresenta os relâmpagos, sabemos instintivamente (por já termos visto isso em diversos outros filmes) que algo de ruim vai acontecer aos personagens. Mesmo assim, o diretor consegue programar suas seqüências e encontrar os sustos necessários e a tensão esperada.



Evidentemente que um filme apoiado em clichês do gênero, tem dificuldade para se sobressair frente aos outros exemplares da categoria. Além de apelar para um serial killer com aspecto semelhante a uma dezena de outros filmes, o mesmo ainda é retratado com qualidade duvidosa, devido à maquiagem datada e em certos momentos mal realizada. Em compensação, os efeitos práticos - realizados com pouco dinheiro como fica claro em alguns momentos do filme - são funcionais.


Ainda não foi dessa vez que Carpenter conseguiu alcançar a excelência de seus lançamentos do passado, mas The Ward é o primeiro passo para seu retorno aos bons tempos, quando o diretor nos apresentou Michael Myers e Snake Plissen, o enigma do outro mundo, o carro assassino...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Inquilina
(The Resident, 2011)
Suspense - 91 min.

Direção: Antti Jokinen
Roteiro: Antti Jokinen e Robert Orr

Com: Hillary Swank, Jeffrey Dean Morgan e Christopher Lee



Hillary Swank parece viver no limbo eterno entre elogiosas atuações. A cada Garotos Não Choram e Menina de Ouro, Swank entrega O Núcleo, Amélia, Colheita do Mal entre outros. Essa irregularidade em sua carreira é que a mina (mesmo tendo dois carecas na estante) de ser sempre incluída na lista das estrelas de sua geração. A Inquilina não mudará essa impressão já que não passa da versão Hammer (censurada) do clássico Psicose.


A Hammer Films que ressuscitou nos últimos anos com o remake de Deixe Ela Entrar, Wake Wood e que em 2012 lançará The Woman in Black (um conto de horror estrelado por Daniel Radcliffe), é a mais tradicional produtora/distribuidora de filmes de gênero do planeta. Foi responsável pela catequização de uma geração de cinéfilos com suas versões recheadas de sensualidade e de horror de monstros clássicos como Frankenstein e Drácula.


Psicose é o maior filme sobre voyeurismo e um dos mais importantes filmes sobre serial killers do cinema mundial. Imortalizado por suas cenas intensas, personagens que povoam o imaginário popular, sua montagem inteligente, soluções criativas e por subverter a expectativa do espectador matando sua protagonista com menos da metade do filme.



A Inquilina tenta misturar essas duas escolas em uma mesma narrativa, com resultados medianos. O filme apresenta Juliet, uma médica que decide encontrar um novo apartamento após ter pego "no flagra" o namorado e outra em sua cama. Isso a leva até Max (Jeffrey Dean Morgan) um senhorio que cuida do tio adoentado August (Christopher Lee) e que tem um de seus apartamentos locado pela personagem de Swank. Obviamente a relação dos dois torna-se obsessiva e Hitchcock se revira no túmulo pelas semelhanças na forma de contar à história que Antti Jokinen (egresso dos vídeos musicais e da tv finlandesa) coloca em seu filme.


A fotografia é óbvia e os enquadramentos e a atitude do personagem de Morgan são mais que semelhanças ou homenagens. Parecem ser cópias "suecadas" do clássico suspense. Para quem não conhece, o termo "suecada" vem do filme Rebobine, Por Favor quando após uma confusão que deleta o acervo de uma locadora de vídeos, dois caras resolvem re-filmar todos os filmes em versões caseiras e paupérrimas.


Não chega a tanto em termos de produção. O filme é bem feito, apesar de profundamente óbvio, mas é na forma como ele é construído e em suas "idéias" que as "suecadas" estão presentes. Temos o perturbado homem que se apaixona pela mulher e se torna obcecado. Gradativamente o foco do filme muda dela para ele, e é sua historia que se torna mais interessante de ser acompanhada. O voyeurismo dá lugar a ação que faz o personagem (olha a "grande" diferença para o filme de Hitch) tentar conquistar a garota em apuros.



Isso sem mencionar as obviedades do gênero, que funcionam quando vem embaladas por algo diferente, uma grande performance ou mesmo é apresentado de maneira convincente. Não é o caso de Inquilina que além de ser derivado, força a barra ao tentar transformar em uma deusa sexy uma atriz que não tem perfil físico para tal coisa. Existem longas seqüências de banho de Swank, com pouca roupa e até mesmo se masturbando (sem qualquer sentido narrativo, apenas para ilustrar talvez a obsessão do personagem psicopata que observa tudo). Personagem esse que abusa dos clichês (chegando à comédia involuntária) quando usa a escova de dente e reproduz o ato da personagem de Swank na banheira, talvez tentando entrar em "comunhão" com a garota.


Swank não está mal, mas também não a muito mais o que fazer em uma história tão óbvia. Existe um grande momento no filme, mas que é mal montado e que tem a ver com a revelação do personagem obcecado por ela (que o público conhece já que o filme subverte o "eixo" narrativo, nos dando conhecimento sobre a identidade do mesmo). Ao invés de apostar na reflexão sobre sua descoberta e na emoção da mesma, Jokinen entra numa espiral óbvia de perseguição gato e rato por túneis avermelhados (e vermelho aqui significa luxuria e sexo, já que o voyeur se esconde em ambientes iluminados por essa cor) que culminam em um final previsto por todos os espectadores.


A Inquilina é um exemplar óbvio do cinema - dito - de suspense das ultimas décadas. Não assusta, não prende a atenção, brinca com filmes melhores e mais bem realizados e tenta chocar com o sexo pudico e com personagens estranhos. Só não é pior, por que apesar da sexualidade exagerada e não funcional de sua personagem, Swank não é (muito pelo contrário) uma atriz ruim, e Dean Morgan parece divertir-se em seu papel, funcionando como casal em tela. Pena que todo o contorno seja tão repleto de clichês reciclados.