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sábado, 11 de setembro de 2010

Escritor Fantasma
(The Ghost Writer, 2010)
Thriller/Drama - 128 min.

Direção: Roman Polanski
Roteiro: Robert Harris e Roman Polanski

Com: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Catrall e Tom Wilkinson

Escritor Fantasma pretende ser muitas coisas. Podemos vê-lo como um belo exemplo de thriller de suspense, uma homenagem ao mestre Hitchcock (que usava o plot do homem inocente acusado injustamente) e uma forma de expulsar os demônios interiores de Polanski por meio da ligação óbvia entre sua história pessoal e a do primeiro ministro Adam Lang

Lang, assim como Polanski, é um homem assombrado por seu passado que tenta viver uma vida normal apesar dos inúmeros problemas que enfrenta. Em determinado ponto da história, o ministro fica em uma espécie de prisão domiciliar o que é uma óbvia referência ao fato do próprio diretor ter estado nessa situação durante a produção desse filme.

Se Polanski merece a punição não interessa nesse momento, mas ele usa seu personagem para fazer essa pergunta ao espectador ao mesmo tempo em que envolve todos os elementos numa atmosfera de tensão e mistério como um grande exemplar do gênero.


A trama básica fala desse "escritor fantasma" que é o responsável por escrever as memórias do ex primeiro ministro da Inglaterra (o já citado Adam Lang) em meio a acusações de tortura que podem levar Lang a prisão. Ao mesmo tempo, em que o escritor passa a ser perseguido e se vê envolvido numa trilha de mentiras, traições e dúvidas (como todo grande thriller).

Escritor Fantasma funciona deliciosamente bem por conseguir inserir seus personagens e situações de forma orgânica dentro dessa atmosfera de idas e vindas, plot twists e personagens nebulosos. Muito disso é mérito de Polanski que consegue transformar uma história, que nas mãos de um Ron Howard da vida, tinha tudo para ser insossa e sem a menor graça em um dos grandes exemplares do gênero no século vinte um.

Polanski está em cada frame do filme, usando e abusando de sua inesgotável capacidade de re-invenção artística e de estilo (notem as seqüências de caminhada na praia, o início do filme com o carro abandonado e a seqüência tensa e visceral que envolve o passar de um bilhete) e a capacidade de não confundir o espectador com as viradas da trama e sem usar recursos "idiotizantes". Ele trata seu espectador com inteligência e julga que quem assistir seu filme tem a capacidade necessária para compreender aquilo que ele quer.


Sem revelar muita coisa, Polanski ainda se referencia (com muita classe) ao usar o mesmo tipo de final que foi visto em Chinatown, o que deixa o espectador boquiaberto e faz com que o filme tenha aquele burburinho pós-sessão que sempre indica que a obra mexeu (de alguma forma) com quem vê.

Polanski ainda transforma seu filme americano - passado nessa ilha americana - num thriller com cheiro e gosto europeus. O diretor faz de cada cenário americano uma ode ao cinzento, ao nevoeiro e ao negativismo. Tudo é sombra, tudo é gélido e tudo é misterioso. Palmas efusivas ao fotografo Pawel Edelman (o mesmo de O Pianista e Ray) que conseguiu de forma sutil deixar o clima do filme mais propício a história narrada. O clima lúgubre das imagens auxilia de forma clara o texto de Robert Harris (baseado em seu próprio livro) e do próprio Polanski, que é quase perfeito. Talvez uma determinada seqüência num café pudesse ser um pouco mais lenta e a seqüência do avião de Lang pudesse ser mais "esticada", mas no geral as pontas soltas são amarradas e a suspensão de crença não precisa ser evocada, já que aqueles elementos e história não carecem de desprendimento da realidade do espectador.


Outro grande exemplo da caracterização dos cenários e fotografia é a casa de Lang, encravada nessa ilha silenciosa. Translúcida e moderna, cheia de quartos robustos, é a personificação de uma fortaleza que está alijada do contato externo, funcionando bem como uma prisão. Destaque para o design de produção de Albrecht Konrad e harmonizando com o clima de todo o filme, os figurinos sóbrios de Dinah Collin.

Parece "frescura" citar esses elementos num filme que não é de época ou mesmo que não dá grande atenção a eles, deixando-os a margem de primeiras interpretações, mas para mim é necessário jogar luz sobre eles para demonstrar como cada detalhe da produção foi pensado para amplificar a história contada e inserir de forma objetiva o cinéfilo naquela realidade. Uma vez que todos esses elementos funcionam, o espectador está apto a "comprar" aquela idéia.

Quem compra a idéia com grande prazer são os interpretes do filme. Impossível não começar citando Pierce Brosnan que constrói um de seus melhores personagens com sua visão do "proto-Tony Blair". Seguro de si, ao mesmo tempo em que demonstra o charme que já era marca registrada na cine-série 007, o ator inglês talvez tenha aqui seu grande momento nos últimos anos (rivalizando com a auto-paródia de O Grande Matador).


McGregor, um ator que dificilmente embarca em projetos furados, é ao mesmo tempo o elo de ligação entre o espectador e o filme, como funciona como narrador e objeto de estudo da produção. Apesar de Lang ser sempre colocado em primeiro plano quando é visto, é no escritor que as mudanças e a "jornada" terão impacto. Nesse intento McGregor se sai muito bem, e mantém a qualidade habitual vista em outros trabalhos do ator. Contido a principio, assim como seu personagem, o ator parece que se desprende da persona cinematográfica e adentra a mente desse homem que parece sempre estar procurando algo (física e metaforicamente). Alguém que parece não se adequar a realidade que vive e talvez por isso opte por ser um "fantasma".

Os coadjuvantes estão todos em grandes momentos. A bela Olivia Williams é o retrato da fúria contida e da depressão. Sua personagem, Ruth - a mulher de Adam - parece remoer seu passado e suas escolhas. Uma personagem intrigante e que após surgir como uma insuportável mulher mimada, vai revelando ser muito mais importante para Adam e para a narrativa. Kim Catrall, tendo chance de ser mais do que a fútil Samantha da série Sex & the City, é a rocha emocional de Lang, a rival pelo afeto para Ruth e a grande "roda" que faz as engrenagens da equipe do ministro funcionar. Fechando os coadjuvantes de peso, temos Tom Wilkinson, outro ator que dificilmente erra, que mesmo com pouco tempo de tela (e na verdade apenas uma cena relevante) desfila sua competência e consegue inserir no público o sentimento de dubiedade que seu personagem quer passar. Em nenhum momento duvidamos que aquele homem sabe mais do que diz, mas também não conseguimos dizer exatamente o que isso possa significar.


É uma pena então comprovar que Robert Pugh (que vive Rycart, uma espécie de antagonista de Lang) não consegue apresentar o mesmo trabalho de Wilkinson. Talvez por surgir em tela quando as peças do jogo já estão no tabuleiro, seu personagem é quase um narrador que surge para informar e sai de cena. Queria ver mais do envolvimento desse personagem e a repercussão disso.

Ainda sobre personagens, interessante notar o sumido Timothy Hutton e um quase irreconhecível James Belushi entre a "fauna" dos demais coadjuvantes.

Polanski demonstra com Escritor Fantasma que apesar de sua vida pessoal ser um prato cheio para todo tipo de análise continua sabendo como poucos (cada vez menos, infelizmente) saber contar uma bela história, entreter o espectador e ainda ter conteúdo para estimular uma discussão mais "cabeça". Predicados mais do que suficientes para fazer Escritor Fantasma um dos grandes filmes de 2010.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Peppermint Candy
(Bakha satang, 1999)
Drama - 130 min.

Direção: Chang-dong Lee
Roteiro: Chang-dong Lee

Com: Kyung-gu Sol e Yeo-jin Kim

Um homem surge na beirada de um rio, vestindo um terno cinzento bem cortado. Ele caminha em direção a um grupo que faz um piquenique. Descobrimos então que aquele homem é Yong-Ho e que aquelas pessoas comemoravam os vinte anos da última reunião do grupo que pertenciam. Por uma coincidência - ou não - Yong-Ho também fazia parte daquele grupo. Yong-Ho aparenta instabilidade e embriaguez. No momento de maior insanidade, o homem parte para a linha do trem e lá aguarda até ser atropelado.

Esses são os primeiros cinco minutos do filme sul-coreano Peppermint Candy, do diretor e roteirista Chang-dong Lee (o mesmo de Oasis) que em flashbacks poéticos e com muita sensibilidade busca contar a história de vida desse homem, e o que o levou a essa decisão extrema.

Ao mesmo tempo, o diretor/roteirista insere o personagem durante diversos acontecimentos importantes na vida de seu país e mostra como a história foi moldando o caráter desse homem. Ao final da obra, a conclusão mais clara que podemos chegar é que Chang dong-Lee quis contar a história de uma vida que murcha ou apodrece ao entrar em contato com a realidade dolorosa do mundo a seu redor. No caso, a história da Coréia do Sul e como os diversos eventos políticos e sociais que o país passou influenciaram o homem e seu destino.


Quando o filme começa Yong-Ho é um homem triste e infeliz que aparece sendo seguidamente "pisado" pelo seu ambiente e sem saber como reagir aos problemas que enfrenta.

Chang-dong Lee mostra a passagem do tempo pelas inserções poéticas do trilho do trem sempre seguindo rumo ao desconhecido, enquanto tudo ao seu redor é mostrado indo para trás. É como se estivéssemos dentro de um túnel, onde o diretor pretende mostrar - poeticamente - que o tempo transformou-o no que ele é hoje. Gaspar Noé, com muito mais agressividade, tentou o mesmo em Irreversível, por exemplo. Contar uma história do fim para o começo tentando apresentar motivações para os atos de seus personagens. No caso do filme de Noé, a passagem de tempo era fluida, no caso de Peppermint ela acontece com a inserção de vinhetas com título e data indicando o que o espectador verá.

Não são todas que funcionam bem, é verdade. Em especial, as duas primeiras soam lentas e muito arrastadas em seu ritmo, porém a história de Yong-Ho é interessante a ponto de nem essa sonolência narrativa impedir que o espectador fique interessado em saber os motivos que o levaram ao suicídio.


E durante esse caminho é que vamos descobrindo e relacionando o que vemos a realidade. Desde o crash dos países asiáticos no final do século XX, passando pelo crescimento violento da economia do país na metade dos anos noventa, a ditadura do general Park Chung-hee nos anos setenta, o período de instabilidade política dos anos 80, a revolta dos estudantes em 1987 - brilhantemente retratada no melhor dos flashbacks. Elementos narrativos que influenciariam qualquer um de nós, e que Chang-dong Lee gosta de mostrar, como se ele quisesse mostrar o que um "cara comum" sofreria - em termos de transformações, quanto a seus gostos, sonhos, ideais e personalidade - se tivesse envolvido em tantos eventos.

Ao mesmo tempo, Chang-dong Lee usa e abusa da poesia visual que é característica dos filmes asiáticos para dar essas respostas, que nunca vem de forma mecanizada mas em forma de beleza e compreensão. Os silêncios e a trilha sonora auxiliam o diretor a conseguir esse efeito.


O diretor demonstra um cuidado especial com a fotografia, que não surge gratuita, nem pedante. Os elementos mostrados em quadro são elementos da narração, e os personagens que cruzam o filme vão ser revisitados com importância - a maioria - no futuro/passado. Destaque para a seqüência no início dos anos noventa que se interliga diretamente pela frase "a vida é bonita" com elementos cruéis no final dos anos oitenta vividos pelo protagonista.

E não existe melhor forma para encerrar sua tour pela transformação humana, do que o final elíptico e complexo e cheio de interpretações posteriores que ele nos dá. Além da óbvia sensação de nostalgia e de pena que sentimos pelos personagens, as coisas ditas e mostradas fazem o espectador pensar em diversas possibilidades ainda mais se as relacionamos a seqüência inicial.

Infelizmente Peppermint Candy - título inglês interessante - não vai agradar a todos os públicos. Além da história que funciona como pano de fundo não ter a universalidade que as produções mainstrem "pedem", a condução é pausada e o silêncio é valorizado, mesmo durante as falas dos personagens. As palavras ditas têm um peso menor do que a compreensão que os interlocutores têm da conversa, as imagens dos rostos e as ações que surgem a partir dos diálogos. Se junta a isso o fato do filme ser recheado de inserções musicais dos personagens, que cantam em bares, karaokês, em volta de fogueiras, em família e afins, o que causa mais estranheza a quem não está acostumado ao cinema oriental. E finalmente seu protagonista.


O ator Kyung-gu Sol retratou Yong Ho como um homem que vai sendo fracionado pelas situações que enfrenta. Não é difícil que o espectador desgoste dele, ou em determinado ponto, o deteste. Geralmente o público não consegue "entrar" na história, quando seu protagonista - e elo entre aquela realidade apresentada e o espectador - não inspira admiração, carinho, respeito, amor ou ódio. Yong Ho inspira pena e sua vida tola e cheia de falhas é o maior trunfo do filme. Ao usar um homem partido e morto - tanto física quanto espiritualmente - o diretor teve liberdade suficiente para explorar cada espaço da mente desse homem, compondo os motivos para que o público tenha essa sensação de desgosto por seu "guia". Proposital é verdade, mas para o público ocidental, acostumado com protagonistas vibrantes e que transformam a narrativa em uma jornada, acompanhar esse homem fraco é complicado. Nossa percepção é diferente - por razões culturais óbvias - da coreana, ou mesmo asiática.

Isso se reflete em outras manifestações culturais, que não são bem aceitas pelo grande público, entrando ai filmes de arte japoneses (Ozu, Oshima, Mizoguchi, Teshigahara entre muitos outros), a cultura do mangá e do anime (de mestres como Tesuka, Miyazaki, Oshii, Otomo entre outros), do tokusatsu, da música produzida por lá (seja o k-pop ou o j-pop) e mesmo quando grandes artistas conseguem reconhecimento, como Bruce Lee, Akira Kurosawa e o já citado Hayao Miyazaki, somente suas obras "ocidentalizadas" são conhecidas por aqui.


Por isso, além do filme de dong-Lee não ser de fácil compreensão, Peppermint Candy é mais uma daquelas jóias do cinema que ficam escondidas por ai. Quando, e se, tiver acesso, aproveite a sensibilidade desse grande realizador.

 





terça-feira, 13 de julho de 2010

Genova
(Genova, 2008)
Drama - 94 min.

Direção: Michael Winterbottom
Roteiro: Michael Winterbottom e Laurence Coriat

Com: Colin Firth, Perla Haney-Jardine, Willa Holland, Catherine Keener

A irregularidade de Michael Winterbottom (dos excelentes: Festa que Nunca Termina, Bem Vindo a Sarajevo, Código 46 e dos fracos ou medianos, Estrada para Guantánamo, 9 Canções e O Preço da Coragem) fica mais uma vez clara nesse pequeno filme de 2008, intitulado Genova.

Um misto estranho de filme de agência de viagens com análise psicológica rasa sobre traumas com toques metafísicos e levemente sobrenaturais é um Frankenstein desgovernado com muito estilo e pouco conteúdo.

Nele acompanhamos Joe (Colin Firth) um homem que sofre uma tragédia pessoal que faz com que aceite um cargo numa universidade da cidade italiana de Genova, levando a tiracolo suas duas filhas : Kelly (Willa Holland) e Mary (Perla-Haney Jardine).


E é só. As três linhas acima resumem basicamente sobre o que - e o leitor mais inteligente já imagina o que vai acontecer - Winterbottom (também roteirista com auxílio de Laurence Coriat) quer tratar. Superação, aprendizado, descoberta e tudo o que todos os filmes com o plot básico "estrangeiro muda-se para lugar estranho a seus olhos" já mostraram.

Nesse, Winterbottom acrescentou ao molho seus maneirismos estéticos e sua tradicional habilidade para diálogos naturais e infalível capacidade de encerrar seus filmes antes da hora.

Narrativamente o filme apresenta alguns problemas claros e incômodos. A obviedade dos acontecimentos, resultado de uma falta de sutileza impressionante faz com que o espectador telegrafe com razoável acuidade os acontecimentos vindouros. Durante a projeção Bottom reforça a cada segundo possível a sensação de lugar desconhecido e dificuldade de compreensão em sua totalidade daquele ambiente estranho aos seus personagens.


Se anteriormente disse que o diretor é um brilhante criador de diálogos naturais que auxiliam a credibilidade de seus atores para com o público, nesse ele escorrega quando tenta inserir um que espiritualista desnecessário e brega, causando uma quebra clara entre os diálogos "reais" e os - dito - imaginários.

Outro problema da narrativa é a falta de - na falta de palavra melhor - conceito e sentido. O que Bottom quer realmente contar? Uma história de superação? Crescimento? Amadurecimento? Fetiche pela cidade de Genova? Tudo isso junto e misturado?

A opção mais óbvia seria um misto de fetichismo quase pornográfico pelas belezas e mistérios da cidade, com direito a quilos de diálogos irrelevantes para a história, que servem apenas para demonstrar que os personagens, e obviamente quem escreveu, pesquisou sobre a cidade e suas conquistas e personalidades importantes e uma tentativa muito juvenil de a partir dessa viagem apresentar o momento de amadurecimento daqueles personagens. Isso tudo ainda tentando ser pop e inserindo pequenos eventos que tentam causar algum grau de tensão, mas que causam apenas desconforto.


Os personagens sofrem com essa falta de foco. O professor Joe é um estereótipo de inglês, apesar de não o ser. Todos os defeitos que foram estereotipados sobre a fleuma e a capacidade desse povo em não demonstrar seus sentimentos, amores e medos estão aqui. Um personagem assimétrico, que tende a ser confundido com um "banana", tal sua falta de capacidade de ação. Um observador se formos delicados, ou um completo pamonha se quisermos ser mais contundentes. Firth tenta o possível, mas a "persona" cinematográfica do ator é vislumbrada a cada take o que enfraquece qualquer tentativa de indentificação do espectador com o personagem ou mesmo um trabalho mais profundo.

As meninas Kelly e Mary são espelhos dos arquétipos representativos as suas respectivas idades. Kelly é um adolescente descobrindo a vida e seus prazeres e Mary é a pré-adolescente curiosa e impertinente que - para ajudar - sofre com um profundo trauma que a acompanha, e motiva alguns eventos, durante o filme.

Kelly é interpretada por Tom Holland, lindíssima mas muito limitada. Apesar de seu personagem não ser só a adolescente rebelde sem causa, a atriz encanta por sua beleza e só. Os belos olhos claros não transmitem emoção, tristeza ou qualquer outro sentimento além da completa apatia. Mesmo quando ela começa a se envolver com a "fauna" local fica claro que tudo surge muito artificialmente e que a atriz não sabe muito bem o que está fazendo.


Já a menina Mary, interpretada por Perla Haney-Jardine, apesar de ser o personagem mais denso e complicado dos três principais é a que se sai melhor. A pequena Perla já havia mostrado em Kill Bill (sim ela é a pequena filha da "Noiva" do filme de Tarantino) que tinha condições de crescer e aqui essa impressão só se amplificou. Muito segura em suas ações, e principalmente em suas reações emocionais a menina é o achado do filme e quase toda a força do irregular filme de Winterbottom.

O filme ainda conta com a talentosa atriz Catherine Keener, que teve a ingrata tarefa de ser a porta voz das tais informações de guia de viagens que o diretor enfiou goela abaixo de seu filme. Porém, quando foge desse papel infeliz ela apresenta sua habitual competência. Nada de extraordinário é verdade, mas com naturalidade e sensibilidade suficiente para não cair nos clichês.


Os clichês permeiam a parte técnica do filme. Winterbottom se referencia a cada tomada, o que é um perigo já que a abordagem urbana e moderna do diretor não combina com um drama familiar sem grandes momentos que pedem sua habitual câmera tremida, mudanças de foco durante a ação, cortes secos e "estúpidos" entrecortando ações dissonantes entre outras características. Mas estão todas lá, infelizes escolhas para um filme que pedia calma e observação.

O que se observa com extrema facilidade é o cuidado em retratar a bela cidade de Genova com toda a pompa que ela tem - ou não - direito. Desde os créditos de abertura com uma tomada aérea muito bonita mostrando o litoral e as casas tradicionais, como construções de Lego sobrepostas na paisagem, passando pelo retrato das ruas e vielas da cidade numa tradução narrativa dos perigos daquele lugar novo, que pode ser descrito como rotas do desconhecido para seus personagens estrangeiros ou como as veias que fazem correr a cidade para os habitantes locais. São personagens tão importantes quanto os atores do filme. Excelente trabalho de Marcel Zyskind.


Outro ponto sempre importante nos filmes de Winterbottom é a trilha sonora. Sempre com cuidado especial, a trilha original de Melissa Parmenter é eficiente e minimalista nas suas intenções enquanto as canções pop que o diretor escolhe tentam aproximar o status de cool do diretor da proposta mais tradicional que o filme abraça. A edição de Paul Monaghan também é eficiente e é outro que tenta juntar o tema com o estilo do diretor.

Genova é um amalgama distorcido que é mais uma nota de rodapé da carreira de Winterbottom, Firth e Keener. Apenas a pequena Perla conseguiu se sobressair em mais um passo em falso do diretor inglês.

(Obs: alguém mais notou as óbvias referências ao fabuloso Inverno de Sangue em Veneza no filme? Aquelas perseguições nas ruelas foram copiadas sem dó pelo diretor).


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Agora
(Agora, 2009)
Drama - 127 min.

Direção: Alejandro Amenábar
Roteiro: Alejandro Amenábar

Com: Rachel Weisz

É muito claro para mim os motivos para que Agora tenha sido um completo fracasso nos Estados Unidos e até mesmo na Europa. Agora é dos filmes mais anticristãos que eu já vi. Não vou entrar aqui no mérito do que está certo e errado, embora quem tenha lido minha crítica para Criação saiba que não sou cristão e a cada dia descubro como minha escolha - de não seguir a nenhuma dita religião - é certa, pelo menos para mim.

Agora lida diretamente com o conflito - eterno e insolúvel - entre fé e ciência, dessa vez ambientado num período em que os radicalismos eram ainda mais notáveis, o princípio da chamada Era Cristã, que abrange os primeiros séculos desde o calendário romano segue o cristianismo. Nesse período histórico, os cristãos antes jogados aos leões como diversão imbecil para os igualmente imbecis romanos, começam a ter poder e a serem admitidos como cidadãos pelas então cidades pagãs. Alexandria, onde se ambienta o filme, conhecida como um dos berços da sabedoria clássica da humanidade vive esse período de mudança. De um lado, a elite intelectual que homenageia seus deuses, pensa em astronomia, filosofia e tem diversos escravos. De outro os cristãos, populistas, distribuindo comida aos pobres - como forma de angariar fiéis que fique claro - e ligados a idéia de que Deus tudo sabe e tudo entende.


Nesse turbilhão está Hypatia (Rachel Weisz) uma das mais importantes matemáticas e cientistas de sua época (para maiores informações sobre a figura histórica, visitem esse link  ou procurem Google afora) que leciona numa espécie de universidade ou escola preparatória da época para um grupo de jovens, entre eles Orestes (Oscar Isaac) e Sinesius (Rupert Evans), pagão e cristão respectivamente. Junto a ela em toda a aula e em quase todos os momentos, seu escravo Davus (Max Minghella) que nutre uma paixão secreta por sua "mestra".

O filme mostra essa transição violenta, suja e traiçoeira que fez dos cristãos a força mais importante da região. Em um exemplo o diretor quis ilustrar como o cristianismo conquistou o mundo.

Pois bem, Alejandro Amenábar (o mesmo diretor dos excelentes Os Outros, Mar Adentro, Abra los Ojos e Tesis) aponta sua câmera e mente - já que também é autor do roteiro - para essa questão cada vez mais pertinente. Por que o homem se deixa aprisionar, sem questionar, pela tal fé religiosa? Por que o homem uma vez tomado por essa fúria, tende sempre a querer mais poder e a mostrar a todos que apenas a sua verdade é a que deve ser ouvida? Será que realmente - caso exista um - Deus fala por meio das chamadas sagradas escrituras? 


Questões importantes a serem debatidas, ainda mais num país como o nosso, que finge ser moderno, mas que ainda sofre com a castração intelectual todos os dias. O que difere os bispos mostrados em Agora que incentivam seus fiéis a atos de discriminação e violência, dos pastores e padres que pregam contra homossexuais, contra o uso de preservativos, contra outras formas organizadas de religião, entre outras?

Nada, meus caros. Absolutamente nada. Amenábar parece ter escolhido o momento ideal para apresentar essa história. Vivemos num período em que a liberdade do indivíduo é cada vez mais vigiada, em que o criacionismo ganha força (inclusive aqui com certos candidatos defendendo seu ensino nas escolas), a constante escalada de violência entre judeus, muçulmanos, cristãos mundo afora.  Agora, faz esse cruel paralelo entre o ontem e o hoje. Em um determinado ponto da trama esse paralelo chega a ser até - talvez tentando atingir até mesmo o mais tolo dos que assistiram ao filme - claro demais. Um dos líderes cristãos diretamente diz que os judeus - que viram alvos após a "conversação" dos pagãos - não terão terra eternamente, pois foram amaldiçoados por deus. Mude o líder cristão para o líder muçulmano e sim, temos o mesmíssimo discurso sendo proferido por uma voz diferente.

Como diz aquele ditado chulo. Mudam-se as moscas mais a m..... é a mesma.


Porém ao defender sua tese, Amenábar enfraquece seus personagens, em especial o escravo Davus, que - obviamente "ajudado" pela atuação de Minghella - é raso como um pires. Ao não ser, digamos atendido, entra num frenesi de violência sem sentido. Os demais coadjuvantes também não ajudam em nada: Orestes é visto como um fraco sem nenhuma força para administrar seus problemas e profundamente obcecado por Hypatia. E Sinesius que aparentava ser o cristão moderado, muda 180º no terceiro ato do filme, mostrando-se, em palavras simples, um canalha. 

O "esquezofrenismo" do filme não para ai. A história apresenta um juvenil interlúdio que divide categoricamente o filme em duas metades distintas, incluindo ai um dispensável letreiro explicativo. Fraco estética e narrativamente. 

Outra falha grosseira é a insistente utilização de imagens da terra sendo vista do espaço, como que para provar que as teorias de Hypatia estavam no fim corretas. O filme usa e abusa do "Google Earth" a cada vinte minutos causando incomodo e mostrando que Amenábar não pensou bem em cortes ou mesmo na ligação entre os elementos que faziam parte de sua história.


Além das imagens da terra vista do espaço, talvez como tentativa de mostrar como a direção de arte era fabulosa e grandiloqüente, vemos diversas tomadas aéreas que tentam aumentar o escopo do filme. Na maioria das vezes são desnecessárias e apenas servem a um fetiche do diretor, mas existe uma bastante interessante, em que usando de velocidade acelerada Amenábar e seu fotógrafo Xavi Giménez transformam os invasores cristãos em grupos de moscas sobre carniça. Uma idéia que condiz com tudo com que o diretor apresentava em seu texto.

Giménez usa e abusa das cores quentes intensificando o deserto e aplacando as noites. As noites em Agora não são escuras e gélidas, mas sombrias e misteriosas. Noites onde as estrelas são visíveis e a lua se esconde.

Num filme de época a direção de arte sempre deve ser analisada com mais cuidado, já que depende dela a crença do espectador naquele ambiente em que o filme o introduz. Em Agora o trabalho de Frank Walsh e equipe é funcional, mas bastante conservador em sua abordagem. Walsh preferiu abordar o período da forma mais comum e óbvia da mesma maneira que já mostrada em diversos outras filmes sobre a época. As mesmas estátuas de adoração, os mesmos portões de madeira, as mesmas reproduções do período, que se historicamente são corretas, artisticamente não vão além do trivial.


Os figurinos também são importantes, e assim como a direção de arte parte para um pot-pourri de outros filmes épicos e afins. A equipe de Gabriella Pescucci mostrou os judeus de Paixão de Cristo, as togas romanas de Gladiador a mulher independente que não se conforma em usar tons pastéis e que precisa ser diferenciada até mesmo na roupa que veste entre outros.

Esteticamente apesar do filme ser muito funcional, é deverás insosso e comum. Amenábar, que sempre foi um diretor interessante e inventivo, parece também ter entrado na onda, e refém de sua tese, peca muito nos aspectos técnicos e mesmo narrativos. A tal passagem de ato é mal elucubrada e parece ter sido pensada em cima da hora, já que o ato inicial termina de maneira vazia e emocionalmente rasa, o que é mais um indicio da falta de capricho no desenvolvimento dos personagens e suas relações. Mesmo a tentativa de criar tensão sexual e amorosa entre Hypatia e seus pretendentes, digamos assim, é infeliz, pois não existe uma gota de química entre Weisz (que está correta no filme e nada mais) e os respectivos atores, além de - especificamente no caso do escravo Davus - Weisz aparentar ter pelo menos quinze anos a mais do que o personagem, o que dificulta uma compreensão dos reais sentimentos dele por ela. Será tesão? Um sentimento de adoração? Amor de verdade? 

Na parte técnica, apesar de um orçamento razoável para um filme de época, Amenábar parece que não conseguiu dimensionar em termos físicos sua tentativa de recriar o passado. O filme mostra os mesmos quatro cenários e quando foge deles apela para as tais cenas aéreas citadas. Teriam gasto o orçamento nas cenas do espaço e faltou grana para a montagem física das instalações?


Agora é um filme de tese, e como geralmente acontece em filmes com esse viés, esqueceu do que realmente prende a atenção do espectador: a história. Apesar de baseado num momento histórico real, com personagens reais e ter um grau de contestação saudável, não funcionou como poderia ter funcionado como peça cinematográfica.

E a aqueles que ficaram horrorizados por terem visto suas crenças serem ofendidas pelo filme, fico com uma das poucas frases realmente instigantes do roteiro: "Se não se questiona o que se acredita, não se pode acreditar".


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Vigaristas
(The Brothers Bloom, 2008)
Comédia/Aventura - 114 min.

Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson

Com: Adrian Brody, Mark Ruffalo, Rachel Weisz, Rinko Kikuchi

Dois garotos problemáticos sem qualquer capacidade de adequação frente ao mundo, unidos apenas por seus laços sanguíneos e talentosos em apenas uma coisa: trapacear. Esses são os Irmãos Bloom, apresentados como bons vivants que curtem cada segundo de cada golpe. Ou será que isso é apenas a casca ?

Rian Johnson - diretor e roteirista - aponta suas lentes e palavras para discutir de forma muito sutil a capacidade do homem em encontrar-se. Encontrar seu lugar, suas verdades e aprender com seus erros. E para isso ele aposta na quase fábula dos dois irmãos. Um deles, Stephen - vívido com habitual competência por Mark Ruffalo - é a mente por trás de todos os golpes que a dupla praticou, remontando desde a infância (mostrada de forma breve como um prequel de origem da dupla). É completamente seguro e consciente de quem é e de "seu papel no mundo". Ele é um golpista, alguém inteligente o suficiente para trapacear todos sem que o fato seja sequer notado. Do outro lado, temos Bloom - Adrian Brody em boa atuação - o rapaz introvertido, temeroso quanto a seus ideais e que sempre foi de certa forma guiado para os golpes pela influencia de seu irmão.


Bloom está cansado dessa tal vida de crime e num último esforço aceita o chamado último golpe forjado por Stephen. O clichê óbvio e recorrente em filmes de golpistas ajunta-se organicamente a jornada do herói. Temos um herói vacilante (Bloom) cheio de problemas e defeitos que tem que superar adversidades, crescer e encontrar redenção. Ao mesmo tempo temos um "mea-culpa" de Stephen, uma quase confissão de que talvez devesse ter deixado seu irmão mais solto e a vontade para escolher seu caminho na vida.

O tal golpe envolve uma mulher, Penélope - outra obviedade, que como é igualmente óbvio envolve-se com nosso "herói" - vívida quase como uma criança curiosa pela belíssima Rachel Weisz. Sem entrar em grandes detalhes e nas intermináveis reviravoltas do filme, paremos por aqui. O que o leitor calejado de produções sobre golpistas deve saber é que "nem tudo é o que parece".

Johnson, seguindo a cartilha vencedora da série dos homens e seus segredos, aposta na comédia de aventura, o que tenta disfarçar os sempre presentes furos no roteiro de produções desse tipo. Por nos manter entretido numa atmosfera que sempre tanta parecer "cool" ele consegue camuflar as tais falhas e o roteiro passa quase incólume aos crivos dos mais exigentes.


Essa sensação de "feel good" foi transmitida aos atores que transformam eventuais crises existenciais em uma correria que poderia prejudicá-los caso o trio de protagonistas não fosse competente. Ruffalo inclusive recebeu uma indicação ao Satellite Awards como melhor ator cômico por seu papel. As idas e vindas não comprometem o material e causam sorrisos habituais pelas desventuras dos irmãos e sua companheira, a muda Bang Bang, vívida por Rinko Kikuchi , mais conhecida por seu papel em Babel, curiosamente onde também vive uma personagem muda.

Johnson ainda transformou os figurinos e trilha sonora em mais elementos que reforçam esse charme nostálgico que os "gatunos" conseguiram em nossa sociedade que vangloria os Billy - the Kids, Lampiões, Robin Hoods, Bonnyes e Clydes entre outros. Sem entrar no mérito sociologico, econômico e antropológico da coisa, mas concordamos que valorizamos os fora-da-lei, como heróis, ou anti-heróis. Sujeitos que conseguem passar por cima das regras vigentes e ainda se dão bem - quase sempre - no final.


A trilha (Nathan Johnson) tenta colocar os personagens naquele clima cinquentista nostálgico que o figurino (Beatrix Aruna Pasztor) também reforça. Curiosamente essa idéia do diretor é constantemente contrabalanceada pelo fato do filme ser contemporâneo. Enquanto, por exemplo, os irmãos iniciam um determinado golpe com um deles rolando morro abaixo munido de óculos de aviador de segunda guerra e montado numa bicicleta antiga, o "objeto" do golpe dirige uma invocada Lamborghini. Essa contradição é direta e parece apontar (novamente) para a idéia implícita de que o período dos bandidos românticos não combina com a modernidade dos dias de hoje.

No próprio roteiro isso é reforçado, pois em nenhum momento os irmãos apelam para bugigangas tecnológicas e afins. É tudo feito na base da tapeação direta (olho no olho) e em artifícios mais tradicionais.

Fotograficamente o filme é bem resolvido, graças à competência de Steve Yedlin que aposta numa paleta mais naturalista, mesmo quando os flashbacks do início do filme aparecem. Um dos grandes trunfos do filme está em sua edição, num excelente trabalho de Gabriel Wrye. Numa tabelinha bastante entrosada com seu diretor, Wrye captou perfeitamente toda a tentativa de produzir um "feel good movie" e reproduziu isso em cada corte. Simples, mas perfeitamente integrado aquilo que os atores e diretor quiseram mostrar.


Vigaristas só não têm conceito maior, pois os tais furos de roteiro se intensificam a cada reviravolta nova. Em especial no terceiro ato, onde o público fica perdido entre tantas informações novas e relevantes que são mostradas. A aparição de um coadjuvante importante na metade do filme também não ajuda em nada. É mais um elemento - dessa vez muito mal explorado - que não acrescenta nada e que se mostra no final muito importante ao contexto.

Johnson buscou como seus personagens o golpe perfeito, mas não conseguiu dessa vez. Um pouco mais de treino e prática e na próxima, quem sabe, ele nos "engana" com mais precisão.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Daybreakers
(Daybreakers, 2009)
Terror/Suspense - 98 min.

Direção: The Spiering Brothers
Roteiro: The Spiering Brothers

Com: Ethan Hawke, Sam Neill, Willem Dafoe, Audrey Bennett

A filmografia vampírica talvez seja a mais extensa da história do cinema. Desde Vampyr de Dreyer, passando pelo seminal Nosferatu, Drácula, o período da Hammer, a reinvenção oitentista pop comandada por Joel Schumacher em seu Garotos Perdidos e - hoje oscarizada - Kathryn Bigelow e seu Near Dark, Coppola e sua versão quase acadêmica do livro de Stoker, Entrevista com Vampiro de Neil Jordan, os filmes matrixianos da série Anjos da Noite, os russos de Timur Bekmambetov, a adaptação quadrinística de 30 Dias de Noite culminando no vampiro que brilha da série (e não saga) Crepúsculo. Isso sem contar os filmes de Polanski, a produção hispânica, italiana, oriental e afins. Vampiro é um tema tão extenso que até enciclopédia têm. Um calhamaço de mais de mil páginas que esmiúça diversas produções culturais (desde peças, livros, poemas, série de TV e filmes) e origens do mito em diversos lugares do mundo.

Tal apelo é facilmente explicado pelo que o ser das trevas conquistou durante esse século que se foi. Retratado de quase todas as maneiras possíveis e imagináveis, o Vampiro é o maior dos "monstros" e a cada ano novas produções são apresentadas ao público.


É o caso de Daybreakers, filme com roteiro e direção dos irmãos Spiering, que passou despercebido pelas telas brasileiras e americanas. Em casos como esse se costuma de imediato (falamos de um pretenso blockbuster) questionar a qualidade da obra, já que nem seu público, dito alvo, conseguiu comprar a idéia da produção. Trocando em miúdos, o filme tem um grande potencial de ser uma "bomba".

Surpreendentemente Daybreakers passa longe de ser uma porcaria, mas não é também uma obra que entrara no hall das grandes produções do gênero.

O melhor em Daybreakers é sua ambientação e sua "mitologia". Daybreakers se passa em 2019, após uma peste desconhecida ter transformado a maioria da população em vampiros. Diferentemente do que 99% de outras produções (como Eu sou a Lenda,por exemplo) fizeram, os vampiros não se transformaram em monstros horrendos. São "pessoas" comuns, como eu ou você, com a peculiar diferença de tomarem sangue. Os vampiros - e isso é mostrado na seqüência inicial com um recurso bastante comum, recortes de jornal - tentam uma espécie de acordo com os humanos que restaram. Com a recusa, os humanos passam a ser caçados e servem de comedouros para os vampiros, que mantém essas pessoas vivas retirando seu sangue, até que eventualmente, esses capturados morrem.


Isso tudo nos é apresentado nos primeiros dez minutos, quando conhecemos o personagem de Ethan Hawke (Edward Dalton) um hematologista que está em busca de um substituto ao sangue humano, já que - obviamente - a caçada dos vampiros fez minguarem a quase zero a população dos não vampiros.

O interessante é que os irmãos Spiering conseguiram se antecipar a diversas supostas perguntas sobre aquele mundo, nos entregando algumas respostas por meio de anúncios de TV e conversas paralelas de alguns personagens. Por exemplo: embaixo das casas vampiricas (que tem uma espécie de protetor de raios ultravioleta) corre um labirinto que liga as casas - como ruas subterrâneas - onde os vampiros podem circular durante o dia. O mesmo vale para os carros, que recebem uma película protetora contra o sol.

Essa ambientação vende o filme e faz o espectador comprar a idéia daquele lugar, personagens e plot narrativo. Plot esse que apresenta um problema a ser resolvido pelos envolvidos: com a falta de sangue, alguns vampiros passam a se comportar de forma animalesca, retrocedendo a algo próximo do que podemos identificar como "Nosferatus genéricos". Uma espécie de vampiro animalesco que contrabalanceia o estilo "Annericeano" do restante dos personagens vampíricos.


Parece promissor não? Vampiros tentando não tomar sangue humano, enquanto a natureza de suas "almas" prega que sem o sangue, apenas a bestialidade os espera.

O filme ainda tem pelo menos um personagem que tem alguns conflitos - clichês, mas conflitos - emocionais. O Dr. Dalton (Hawke) é alguém que claramente não gosta de sua condição vampírica e que luta com todas as suas forças para não ser vítima da sede por sangue humano. O restante da fauna de personagens , infelizmente, é estereotipado. Sam Neill (Charles Bromley, o dono da empresa em que Hawke trabalha), Willem Dafoe (Lionel Cormac, um ex-mecânico que tem um segredo que é a mola propulsora da virada do roteiro), Audrey Bennett (Claudia Karvan, a rebelde humana em fuga) e Michael Dorman (Frankie Dalton, o irmão militar de Hawke) são alguns desses arquétipos que os irmãos apresentam como personagens.

A impressão que dá é que os Spierings se preocuparam tanto com o grau de credibilidade de seu mundo que esqueceram que era preciso recheá-lo de personagens interessantes e que causariam algum impacto em quem assiste. Isso eles não conseguem, ainda mais quando a virada que o personagem de Dafoe apresenta é revelada. Nem com a tal suspensão de crença - que nada mais é do que abstrair-se da sua compreensão de realidade e embarcar na realidade mostrada pelo objeto - em níveis estratosféricos é satisfatório acompanhar o ato final. Confuso, infeliz desde sua concepção e com um final óbvio e até certo ponto aborrecido e enfadonho, quase destrói todos os méritos que o filme mostrava em sua primeira parte.



Tecnicamente os Spiering realmente demonstram muita qualidade. Em algumas seqüências de ação inclusive conseguem "pintar" grandes quadros apenas sabendo posicionar a câmera e contando com a competência do diretor de fotografia para ilustrar suas idéias. Simples mas muito eficiente.

A fotografia (Ben Nott) é muito interessante, apesar de ser "chupada" de outros filmes de suspense e horror. Como quase todo ele se passa durante a noite, a paleta de cores é mínima (tons de cinza, azuis fortes, vermelho escuro, vinho) e o uso de alto contraste ajuda ainda mais a enfatizar o ambiente úmido, sombrio e decadente que o filme apresenta. Já a edição (Matt Villa) segue a bem vinda tentativa de fugir do "piscou-perdeu" que parece ser uma tendência de filmes de horror e suspense mais artísticos (o que Daybreakers, visualmente tenta).

Apesar de tecnicamente bom, Daybreakers tem ainda problemas sérios de interpretação. Ancorar seu filme em um ator mediano como Ethan Hawke é um risco. Hawke fez coisas muito interessantes é verdade, mas sempre que se exige dele que fuja da zona de conforto, ele apresenta trabalhos medianos ou medíocres. No caso desse filme, mediano. Dafoe é caricato ao extremo, dá a impressão de ter lido o roteiro na véspera e ter entrado "pra curtir". Sam Neill repete pela milionésima vez os mesmos olhares e trejeitos que ele vem apresentando desde Profecia 3. Os Spierings são jovens e tem chance de evoluir nesse quesito que é fundamental na criação de qualquer peça cinematográfica: direção de atores.



Os problemas de roteiro (que obviamente não vou contar) quase destroem o que o filme construiu em uma hora de projeção. A tal virada dos atos - que Hollywood adora fazer - é constrangedora e transforma uma bela idéia num monte de risadas involuntárias.

Melhor do que a expectativa prévia mostrava, mas uma pena por ter começado tão bem e terminado de forma tão infeliz e opaca.