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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Os Suspeitos

Os Suspeitos
(Prisoners, 2013)
Thriller/Drama - 153 min.

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Aaron Guzikowski

com: Hugh Jackman, Jake Gylenhaal, Viola Davis, Maria Bello, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano

Denis Villeneuve me impressionou positivamente com "Incêndios", um dos filmes mais intensos que vi em 2012. Antes disso ele também foi muito elogiado por "Politécnica", produção que vergonhosamente ainda não consegui ver. Portanto, havia uma expectativa para sua estreia no mercado americano e com dois filmes de uma vez: o suspense Enemy e o filme analisado aqui, Os Suspeitos.

Confesso que vendo a divulgação do filme, especialmente o trailer apresentado, e a sinopse da produção me questionei se o canadense não estaria estreando com um projeto "sem assinatura", onde seria controlado pelo estúdio em busca de um veículo para Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal. Porém, além da presença dos dois atores, o elenco ainda apresentava Maria Bello, Terrence Howard, Viola Davis, Paul Dano e Melissa Leo. Todos os atores com indicações ao Oscar e com talento. Passou-se algum tempo e o filme estreou em diversos festivais e foi muito bem recebido. Opa, talvez existisse alguma coisa ali, talvez eu tivesse sido tomado pelo ranço do trailer expositivo e óbvio. Ou, talvez existisse uma predisposição dos colegas em gostar do filme pelo pedigree de seu condutor. Dúvidas que só poderiam ser respondidas quando assistisse a produção.

Durante "Os Suspeitos" fui percebendo que não conseguia piscar. Não era - felizmente - um problema físico, mas a excelência da trama mostrada por Villeneuve. Utilizou-se dos clichês do suspense a seu favor e criou uma trama em formato de quebra-cabeça (ou de labirinto, elemento fundamental na trama) em que cada peça da trama nos é apresentada, mas sem a incomoda sensação de que os realizadores do filme consideram os espectadores incapazes de compreender a trama. Em resumo: Suspeitos é um thriller de trama intrincada com detalhes que precisam ganhar a atenção do espectador, sem, no entanto, apelar para recordatórios, discursos explicativos e outros recursos "for dummies" comuns no cinemão americano.


A história começa quando a família Dover visita seus vizinhos (os Birch) para celebrar o dia de Ação de Graças. Keller e Grace tem dois filhos, o garoto Ralph e garotinha Anna, assim como seus amigos Franklin e Nancy, que também tem dois filhos, as meninas Eliza e Joy, praticamente da mesma idade dos filhos de seus amigos. Em teoria são famílias espelhadas apenas com a diferença de raça para diferenciá-los. Depois dos comes e bebes, as duas garotinhas decidem irem até a casa dos Dover para encontrar o apito perdido da loirinha Anna. E daí somem. A partir daí a trama se divide na perseguição de Keller ao principal suspeito que a investigação do detetive Loki não consegue manter preso por falta de provas, e o detetive tentando solucionar o caso.

Denis Villeneuve usa uma situação - infelizmente - bastante comum para criar seu quebra-cabeça muito tenso que não busca apenas a solução do thriller, mas também tem a intenção de falar sobre a vingança e os limites de onde o sujeito pode ir para conseguir seu objetivo. Cada peça do quebra-cabeça é importante e merece uma atenção especial do espectador e vai se revelando um novo elemento de uma trama cada vez maior.

A fotografia lúgubre do filme só ajuda a reforçar um ambiente que vai se entristecendo, se corrompendo  e tornando-se claustrofóbico em frente aos nossos olhos. A atmosfera calorosa - apesar do frio - da casa dos Birch no começo do filme é radicalmente diferente do que o filme nos vai mostrando com o decorrer do tempo. As sombras se apossam dos personagens e da vida daquela família. O roteiro da produção é igualmente inteligente nos conduzindo por alguns caminhos que parecem tão precisos e que vão se revelando não tão certeiros assim, ao mesmo tempo em que são corretos dentro da intenção do filme. A religiosidade, tema fundamental na trama, é outro elemento muito bem utilizado e desde - literalmente - o primeiro plano, colocando a fé e a ausência da mesma como mola propulsoras da trama.


O elenco está todo muito bem. Keller e o detetive Loki são os protagonistas, cada um num espectro da investigação. Hugh Jackman e Jake Gylenhaal que vivem os dois citados respectivamente estão muito bem na produção. Esse talvez seja o personagem mais intenso e assustador do ator em sua carreira (certamente o é dentre seus personagens nos Estados Unidos). Keller é um pai de personalidade forte e que não mede as consequências de seus atos, embora não encontre prazer em momento algum com o que tem de fazer, destituindo-o na alcunha de sádico e afins. Loki beira o comportamento passivo-agressivo, tendo de manter o controle da situação em meio a muita pressão dos pais das garotas sumidas, da própria investigação, os problemas da policia e traumas pessoais. Seu trabalho contido, revela um sujeito metódico, inteligente e que em sua racionalidade consegue resolver as arestas da intrincada produção.

Ao lado dos dois lados dessa moeda, os coadjuvantes também tem seu momento de brilhar, cada um com um "solo", um momento em que podem demonstrar o talento que tem. Franklin (Terrence Howard) vai se fragilizando a cada nova situação enfrentada e vive em conflito sobre suas ações até desabar em uma cena emocionante. Grace (Maria Bello) entra em estado de negação e se mantém entorpecida diante de suas suspeitas de que o pior acontecera com sua filha e a amiguinha. Nancy (Viola Davis) guarda para si suas impressões e dor, mas as deixa florescer em uma cena maravilhosa e intensa, onde é impossível não se deixar emocionar pela composição da atriz e nos chocar com suas conclusões sobre as ações de seu marido. Paul Dano e Melissa Leo são outros que conseguem entregar interpretações tão intensas quanto à dos dois casais protagonistas. Dano faz de Alex um garoto de fala mansa e fragilidade perturbadora, que nos faz caminhar entre a compaixão e medo. E Melissa parece desde a primeira aparição uma mulher machucada pela vida e a interpretação da atriz nos indica esse caminho.

Os Suspeitos é uma belíssima estreia em território ianque do canadense Villeneuve. Angustiante, tenso, desagradável de ser acompanhado consegue nos inserir naquele ambiente sombrio e cheio de relações com a vida real. Extremamente competente como thriller e intrigante na proposta de não apoiar a posição do "olho por olho, dente por dente" é dos casos raros de entretenimento para adultos. Maduro, inteligente e sem muitas concessões.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Marcados para Morrer


Marcados para Morrer
(End of Watch, 2012)
Thriller/Drama - 109 min.

Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer

com: Jake Gyllenhaal, Michael Peña, Anna Kendrick

Às vezes, todas as boas intenções acabam não sendo suficientes quando aqueles responsáveis por realizar uma obra cinematográfica decidem sabotar o esforço de produtores, atores e roteiristas (quando estes não estão envolvidos no ato "terrorista", o que então caracterizaria a produção como auto-sabotagem) destruindo uma historia funcional em detrimento de um estilo, ou linguagem.

Marcados para Morrer (título genérico de filme de ação B que vai direto pra vídeo) conta a historia de dois policiais que trabalham na zona de confronto mais complicada e perigosa de Los Angeles. São eles, Brian (Jake Gyllenhaal) e Mike (Michael Peña), parceiros e amigos muito próximos que dividem histórias, amizade e o risco diário de acabarem mortos em uma zona de guerra não oficializada.

O mais interessante na produção é a química inegável conseguida entre Gyllenhaal e Peña, que parece autêntica. As muitas cenas que acompanham os dois atores dentro de um carro de polícia conversando sobre a vida, o universo e tudo mais, são de longe as mais funcionais do filme. O que não chega a ser um elogio já que a produção recheia sua historia com diversas sequências de ação.


Embora o esforço dos protagonistas seja notório, e que o roteiro seja bastante claro com a historia que pretende contar, o diretor (que curiosamente também o roteirista) David Ayer destrói completamente seu próprio filme quando sofre uma crise aguda de falta de bom senso, inserindo uma intenção fajuta de ser "realista", apostando no risível found fottage. Pior, ao invés de apresentar seu filme inteiramente com essa "linguagem", que apesar de destruir qualquer trabalho estético na concepção das cenas, tem lá seu impacto emocional, mistura sem nenhuma explicação linguagens diferentes apenas prejudicando a compreensão daquilo tudo.

Explico: o filme começa com Gyllenhaal dizendo que está gravando tudo para um projeto em sua faculdade de cinema (oi?), já que como ele gostaria de fazer direito, mas precisaria de créditos a mais para conseguir seu intento, optou por outra qualquer (faz algum sentido para vocês?). Pois bem, mesmo com essa explicação trágica, vamos comprar a ideia de acompanharmos Gyllenhaal e sua câmera de mão, somadas as duas micro-câmeras colocadas nas fardas dele e de seu parceiro e das câmeras, essas sim reais, que ficam dentro do carro da polícia (três para ser exato: uma no console do carro, uma que filma a parte de trás da viatura e outra na frente - aquela que é comumente usada em vídeos policiais). O problema acontece quando ao film da primeira sequência que envolve essa linguagem, Ayer insere uma panorâmica pela cidade de Los Angeles que é seguida por uma longa conversa entre os bandidos da vez. Quando a malandragem termina de conversar, um deles olha diretamente para a câmera e pede que a mesma seja desligada. Ou seja, como é possível que o found fottage, que claramente indica que aquela filmagem foi encontrada e/ou editada por alguém ter sido captada com os bandidos? Será que eles cederam suas imagens? Esse tipo de problema de linguagem atrapalha consideravelmente a credibilidade da obra, já que o filme nos engana ao afirmar que veremos o filme por um ponto de vista único, para depois subverter, sem nenhum resultado prático essa intenção.

Outro problema desse tipo de linguagem é a dificuldade de compreender o que acontece em uma sequência mais tensa ou de ação, como a que envolve um incêndio que os dois policiais acabam se envolvendo. Dificilmente o espectador vai conseguir compreender o que está vendo.


O roteiro como disse não é ruim e apesar de se basear em um conceito absolutamente frágil (policiais enfrentam a vida dura das ruas) ainda acrescenta uma historia de amadurecimento, sacrifício e amizade, nada brilhante, mas que funciona tranquilamente.

Se a direção de David Ayer não fosse tão transloucada querendo mostrar oitenta mil linguagens cinematográficas em um mesmo filme, Marcados para Morrer seria até uma diversão competente, uma reunião de dois policiais "casca grossa", mas honestos (coisa rara de se ver no cinema) enfrentando os vilões genéricos e realmente malvados (os traficantes "chicanos" são de uma canastrice impagável). Esse é um caso de estudo: teria Ayer muita raiva de seu próprio trabalho a ponto de tentar sabotá-lo?



quinta-feira, 29 de setembro de 2011


Contra o Tempo
(Source Code, 2011)
Sci Fi/Drama - 93 min.


Direção: Duncan Jones
Roteiro: Ben Ripley

Com: Jake Gyllenhaal, Vera Farmiga, Michelle Monaghan e Jeffrey Wright  

O primeiro passo é sempre o mais complexo. Para o filho de David Bowie, foi mais difícil ainda. Ainda que tendo o apoio do pai e a Sony como distribuidora, Duncan Jones tinha apenas 5 milhões para realizar uma ficção-científica existencial. Mesmo com todos os problemas de distribuição mundial, relegando o filme ao home video aqui no Brasil, Moon viu a luz do dia e se consagrou como um dos sci-fi mais instigantes e criativos do século XXI. Já com um BAFTA de Melhor Estreante na lareira, Jones obviamente ganhou mais crédito para com as produtores. A Summit Entertainment, com os cofres cheios recentemente após realizar a "Saga" Crepúsculo, agora começou a apostar em novos projetos, menores, mas com um bom potencial comercial. Precisando de novos diretores, baratos, para tocar seus projetos, a Summit viu em Jones um diretor para rodar o roteiro de Ben Ripley. Era a escolha óbvia do inglês, portanto, ser um mero diretor de aluguel para o projeto. Porém, contrariando a lógica e demonstrando personalidade, Duncan Jones deu seu toque de autor para o roteiro e transformou o filme dos produtores da Summit em "Um Filme de Duncan Jones".




Os créditos iniciais são registrados da visão de cima. Chicago, labiríntica e desafiadora, retrata bem o espírito da produção. Sendo preciso ao registrar a cidade dessa maneira, Jones já introduz Source Code de forma elegante. O take que se aproxima com agilidade no trem, marcado pela movimentação do pato na água, é o que dá partida para a jornada de Colter Stevens (e é o que nos liga com as transições Código-Fonte/Trem).Jornada essa, bem complicada. Assim que acorda abruptamente no trem, o capitão vivido com imenso carisma por Jake Gyllenhaal se vê completamente perdido. A mulher à sua frente parece o conhecer e conversa normalmente com ele. Parecendo assustado com cada movimento estranho, Colter já investiga tudo só no olhar, mesmo confuso e sem saber como foi parar ali. Gyllenhaal capta com perfeição esses trejeitos de investigador, demonstrando para o espectador a capacidade inegável de Colter mesmo antes de a trama começar. A coisa piora quando Christina, a mulher da frente, começa a chamá-lo de Sean. E depois de se ver no espelho, comprovando não estar no seu próprio corpo, uma explosão chega.

O mistério dá as cartas desde o princípio. Sendo direto, o filme tenderia a sair perdendo por não apostar em um desenvolvimento de personagens. Porém, quando se entende a proposta de Ripley com seu roteiro, é inegável a admiração pelo trabalho. Quando Colter pergunta o que está havendo, ele ganha as explicações, nem sempre fáceis. Assim como o espectador. Ao optar por revelar cada peça do quebra-cabeça tanto para o protagonista quanto para quem assiste, Source Code se revela mentalmente estimulante. Utiliza celulares, conversas com os especialistas e até meras observações para investigar. Cientificamente simples, sem utilizar muitos termos técnicos (Dr. Rutledge explica de maneira bem concisa o conceito do Código-Fonte para Colter), o filme procura utilizar a ficção-científica como um meio para contar sua história, não o tema principal. O foco do filme é na tensão da investigação e, mais que isso, é no desdobramento das relações de Colter, tanto com Christina quanto com si mesmo. E é satisfatório falar que o filme é absolutamente brilhante nas duas tarefas.





Apostando nas duas vertentes, a de ação e a da emoção, Source Code assim se assemelha a Inception, recente obra-prima de Christopher Nolan. Se as relações de Cobb com seu passado eram angustiantes, as de Colter são potencializadas ao desenrolar da trama. Utilizando o mesmo esquema de solução dos mistérios, o roteiro entrega para o público o mesmo que entrega para Colter. E a cada nova descoberta intrigante sobre a bomba no trem, temos uma descoberta espetacular sobre o capitão. A distância entra as duas obras fica no grau das emoções. Se Inception utiliza as regras da ficção para realizar a sua complexa ação, Source Code tem regras menos complicadas e descomplica-as, se focando na tensão do perigo iminente e na emocionante relação com os passageiros do trem, principalmente Colter e Christina. E isso é mais um acerto de Source Code.


O desenvolvimento de personagens é fundamental. Ao criar situações críveis e emoções genuínas nos rostos de Gyllenhaal e Michelle Monaghan, o filme toma o espectador de assalto, tanto intelectualmente quanto emocionalmente. Os laços afetivos que criamos com os personagens já começam no princípio do filme, mas ao encontrar o lado humano no meio do thriller, o trabalho de Duncan Jones só cresce. As atuações genuinamente boas, fruto do excelente diretor de atores que Jones é (lembrem-se do soberbo Sam Rockwell em Moon), só aumenta essa identificação do espectador com os personagens. Enquanto o competente Gyllenhaal demonstra carisma, Monaghan aposta nas composições físicas para atuar. O roteiro faz metade do desenvolvimento e o olhar sereno de Monaghan faz o resto. O fato de a atriz estar divinamente bela e apaixonante no filme entra na equação, já que torna mais verossímil o interesse de Colter em Christina.



Essas emoções que o filme aposta só aumentam gradativamente. Nisso, o genérico título Contra o Tempo se dilui mais fácil ainda. Sugerindo uma trama apenas de perseguição, o título brasileiro só aponta um segmento do roteiro do filme. A tradução Código-Fonte seria muito mais eficaz já que, além de dar uma aura cult ao projeto, exploraria o mecanismo tanto científico quanto emotivo da produção. O tal Source Code é a porta tanto para a realidade do trem quanto para a confusa mente de Colter. Já Contra o Tempo aproxima Source Code de filmes como Ponto de Vista. E diferente do repetitivo filme de 2008, Source Code nunca soa forçado ou cansativo, sendo tenso e brilhante a cada segundo. Mesmo voltando constantemente para a mesma situação, Colter leva com bom humor as passagens repetidas (antecipando alguns movimentos) e procura, racionalmente, resolver cada peça a cada vez que volta, o que é ótimo para a fluidez do projeto.


O clímax, vale notar, é preciso ao finalizar com perfeição um dos segmentos do filme e ainda oferecer um angustiante "epílogo", com um sentimento que deriva justamente da ligação profunda que Jones e Ripley criaram com seus personagens. É complicado explicar sem spoilers, mas vale apenas dizer que em certo ponto, quando Colter olha para uma sorridente Christina, a emoção é contagiante. E a ótima fotografia de Don Burgess, em conjunto com a correta trilha de Chris Bacon, ajudam a contar momentos de puro brilhantismo, como uma passagem em que a câmera passeia pelo vagão num instante singelo e extremamente simbólico.



Não satisfeito em acertar nos dois lados da alma do ser humano, Source Code ainda cria conceitos extremamente interessantes para uma ficção-científica. Ripley se diverte ao apresentar explicações sobre subsolos de realidade e vias espaciais alternativas. Despretensioso e feel-good, Source Code é perfeito nas suas escolhas e se apresenta como um dos melhores filmes do ano até aqui. Ao continuar respeitando as escolhas dos clássicos de ficção, Duncan Jones acerta em cheio em seu segundo trabalho absurdamente memorável. Caminhando a largos passos para se tornar um dos grandes do Cinema recente, Jones ainda se demonstra versátil ao criar projetos racionais em conceito mas focados no drama humano. Em Moon, Sam Bell tinha crise de identidade por ser um clone. Em Source Code, Colter Stevens tem uma crise justamente por não se reconhecer ao olhar no espelho, literalmente.


E depois de tantos sentimentos envolvidos nos ágeis 92 minutos, é revigorante saber que esse era exatamente o lugar que Colter devia estar. Momentos como o vagão sorridente, são eternos.


Para nós e para Colter. Assim como toda informação que é mostrada nesse excepcional Source Code.




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amor e Outras Drogas
(Love and Other Drugs, 2010)
Comédia/Romance - 112 min.

Direção: Edward Zwick
Roteiro: Charles Randolph, Edward Zwick e Marshall Herkovitz

Com: Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Oliver Platt e Hank Azaria

Comédias românticas em geral têm fases na indústria cinematográfica. Há épocas em que as mocinhas são as encalhadas, épocas nas quais casais interagem em filmes de ação. Talvez a fase da safra atual seja a do sexo sem compromisso. O filme No Strings Attached - traduzido no Brasil justamente como '' Sexo Sem Compromisso'' - ainda não estreou, mas já possui na sua sinopse essa temática de um casal que só quer se relacionar pelo sexo, não estando dispostos a ter um relacionamento propriamente dito, e se livrar das amarras e frustrações que um namoro de verdade pode ocasionar. Invariavelmente, os dois se apaixonam, e precisam lidar com isso.



Amor e Outras Drogas é um exemplo desse tipo de filme . Mas não se foca nessa temática, como o filme de Natalie Portman e Ashton Kutcher deve vir a fazer. Existe a exploração, vista já no seu título, da indústria farmacêutica em geral, de uma perspectiva cômica, e também como um drama relacionado a uma doença - no caso, o mal de Parkinson. Essas temáticas múltiplas, que acabam tendo até uma unidade, ao final, não são problemas algum, ao contrário. O problema do novo filme de Edward Zwick é o seu script esquemático, previsível em cada detalhe, e que, devido a isso, não consegue fugir do clichê.



A história do filme começa do ponto de vista do vendedor de eletro-eletrônicos Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) que se empregou na loja para contrariar o pai, que queria que ele seguisse a carreira de médico . Devido ao seu estilo mulherengo, ele acaba sendo despedido, e na busca por um novo emprego, adentra nas fileiras dos representantes da indústria farmacêutica, mais exatamente na gigante Pfizer. Um dia, acompanhando um médico, ele conhece uma paciente, chamada Maggie Montgomery (Anne Hathaway). Depois de chamá-la para sair, eles constroem um acordo de apenas se encontrar para transar, sem nenhum compromisso. Lógico que eles acabam se envolvendo mais que isso, e têm que lidar com o amor e também com o mal de Parkinson de Maggie, que já tem a doença degenerativa com apenas 26 anos.


A introdução do filme é bem construída para mostrar alguns pormenores que o público não conhece das gigantes empresas farmacêuticas . Os métodos pouco ortodoxos que os vendedores bolam para passar as amostras do seu produto e não as amostras do concorrente, a chatice que os representantes proporcionam perseguindo os médicos, etc. Claro que isso é tudo alegoria e serve apenas de tempero para a história do casal protagonista. Mas são alegorias até interessantes e que produzem bons momentos - a descoberta do Viagra e a verdadeira revolução que o produto gerou é um ponto alto, afinal, o personagem de Gyllenhaal é uma verdadeira pílula azul ambulante, e combina como vendedor bonachão.



O núcleo da história que interessa - o romance entre Jamie e Maggie - era previsível desde o trailer , mas até aí , não temos um erro . O clichê por si só não é um deslize imperdoável, e alguns filmes simplesmente não conseguem fugir dele, mas, por possuírem uma execução bem fundamentada, conseguem agradar. O problema começa quando vemos na nossa frente à esquematização do roteiro. Uma coisa é você ter noção de qual vai ser o final de um filme, mas ter prazer em ver informações novas até lá, a outra é você saber exatamente qual arco está sendo apresentado no momento, e ter já conhecimento das curvas que a trama vai fazer até os créditos finais. Exemplos disso: Tron Legacy e Avatar, respectivamente. E fica complicado não comentar da esquematização escancarada de Amor e Outras Drogas , quando , em um momento, temos quase um vilão -imbecil - no filme. Fora isso, os quatro arcos clássicos dos filmes românticos são respeitados â risca , e temos, vejam só , uma quase ''cena de aeroporto '' . Aí fica difícil.


De inovador, porém ,podemos indicar a o arco da doença de Maggie - que é pelo menos ''incomum'' em filmes do gênero em geral - e a própria temática farmacêutica em si . Essas ''alegorias '' acabam por fazer sentido juntas, numa unidade, afinal. Mas o que mais pode se aproveitar em Amor e Outras Drogas são as atuações de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway. Os personagens são acima da média - principalmente a personagem de Hathaway - e as interpretações dos protagonistas são definitivamente superiores ás que podemos encontrar em filmes similares. E o melhor é que eles combinam, existe uma química interessante que deixam as cenas da dupla mais orgânicas, e talvez isso seja mérito também do diretor Edward Zwick. Apesar de aqui ele não mostrar muitos arroubos no manuseio das câmeras - faz o feijão com arroz com qualidade mínima necessária - ele tem competência suficiente para deixar os dois atores muito à vontade e extrair deles atuações muito eficientes.


O que é duro de engolir mesmo é a esquematização extrema do roteiro . Isso passa com dificuldade pela garganta, mas a performance de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway são a bebida que ajuda a descer. O desfecho piegas dá uma sensação desgostosa, assim como todo o chavão presente do filme também faz. Mas, sendo um produto inofensivo, não é preciso fazer nenhuma propaganda contra - mas também não farei a favor.


domingo, 14 de fevereiro de 2010

Entre Irmãos (Brothers, 2009)
Drama - 104 min.

Direção: Jim Sheridan
Roteiro: David Benioff

Com: Tobey Maguire, Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Sam Shepard

(Observação: essa resenha, precisa ser contada com o auxílio de spoilers... mínimos, mas importantes, já que eles são mostrados até no trailer)

Parece que virou moda, e não é uma moda recente, descrever os problemas e as insanidades da guerra no cinema. Só nos últimos anos (se esqueci algum, perdoem minha memória), tivemos Guerra ao Terror, Soldado Anônimo, No Vale das Sombras, O Mensageiro e Entre Leões e Cordeiros. Todos eles, de formas mais ou menos diretas focando-se nas questão dos traumas, e nas imbecilidades da guerra. Entre Irmãos, remake de uma produção dinamarquesa intitulada Brode (estrelada por Connie Nielsen, mais conhecida de Gladiador e Advogado do Diabo), é dirigido pelo competente Jim Sheridan (de Em Nome do Pai, Meu Pé Esquerdo e In America) é o mais novo exemplo desse tipo de filme.

Versa sobre a família Cahill, formada pelo Capitão Sam Cahill (Tobey Maguire), sua esposa Grace (Natalie Portman), seu irmão Tommy (Jake Gyllenhaal), as filhas do casal Isabelle e Maggie (Bailee Madison e Taylor Geare respectivamente), o pai dos irmãos Cahill, Hank (Sam Shepard) e sua esposa Elsie (Mare Winningham).


A história começa com o eminente embarque de Sam para o Afeganistão, e a saída da prisão de Tommy. Tommy e Sam, apesar de irmãos e próximos, são completamente diferentes. Amam-se mas são opostos. O cerne dessa disputa concentra-se a principio na relação conflituosa do personagem de Gyllenhaal com seu pai (Sam Shepard, fazendo o feijão com arroz). O pai, um antigo militar reformado não aceita os problemas e falhas do filho e questiona suas escolhas. Os dias seguem e a virada na história ocorre quando o helicóptero de Sam é abatido e ele é dado como morto. Tommy, quase que instintivamente “adota” a família do irmão e pouco a pouco cria laços poderosos com as sobrinhas e a cunhada.

Enquanto isso (spoiler alert) descobre-se que Sam não morreu, e a narrativa se divide entre o cotidiano da família nos Estados Unidos e as agruras no Afeganistão.

O filme discute então, até que ponto nossas escolhas, quais quer que sejam, afetam não somente a nós, mas principalmente aos a nossa volta. As vezes, tais escolhas são tão complexas que o resultado delas é “levado” em nossa consciência para sempre. Discute-se o fato de Tommy ter se envolvido com o crime, que afetou diretamente suas possibilidades de construir uma família, e se as escolhas de Sam realmente vão poder o trazer de volta “inteiro” para casa.


Sheridan é parcialmente feliz em suas escolhas. Erra quando divide a narrativa em suas partes, não exatamente pela idéia, que já funcionou brilhantemente em dezenas de outras produções, mas no tom. Todas as sequencias nos Estados Unidos, apesar de relevantes para a narrativa do filme, soaram para mim, estéreis. Não me senti tocado por aquela família, por aqueles momentos e apenas desgastou e impediu que a sequencia na guerra tivesse maior impacto emocional. Já essa sequencia no Afeganistão é bastante interessante, e apesar de curta resolve-se bem. Mostra os incidentes, conseqüências imediatas e abre espaço para a grande interpretação da vida de Tobey Maguire.

Maguire faz de seu personagem uma enorme bomba relógio, aparentemente inofensiva, mas com um timer girando a mil quilômetros por hora, louca pra explodir. E quando tal explosão acontece é um desbunde de talento. Se alguém duvidava da capacidade de Maguire na construção de personagens reais, bem longe da caricatura de Homem Aranha, assistam a esse filme e talvez mudem (eu mudei) a impressão do rapaz.


Gyllenhaal, que por metade do filme parece ser o personagem mais interessante, faz nessa primeira parte um trabalho bastante competente, mas não brilhante. A partir do momento em que Maguire “assume” o protagonismo, Gyllenhaal parece desistir da briga e relega seu personagem ao segundo plano.

Portman, excelente atriz, faz seu habitual, ou seja, competência+segurança+carisma. Ela da uma enorme carga de tridimensionalidade a sua personagem; já Shepard resume-se a interpretar o mesmo tipo que faz a anos: o velho militar durão mezzo grosseiro mezzo doce.

Sheridan, tecnicamente, também é outro que faz o simples. Não quer “criar a roda”, e limita-se a “botar os caras na frente da câmera e dizer ação”. Claro, que o faz com competência, mas esse não é um filme de tomadas marcantes ou de trabalho de direção para a história. É um filme sobre essas pessoas, esses personagens, e principalmente sobre essa situação.


O filme tem boa fotografia, a cargo de Frederick Elmes (que fez Hulk, Sobre Café e Cigarros, Sinedoque, Guerra das Noivas, Flores Partidas, Kinsey) e uma trilha sonora bastante eficiente (Thomas Newman de WALL-E, Soldado Anônimo, Foi Apenas Um Sonho, Desventuras em Série, Procurando Nemo, Luta Pela Esperança entre muitos outros), com uma música feita pelo The Edge do U2 que encerra o filme.

A real graça do filme, é o que acontece em sua metade final. É onde Sheridan finalmente acerta na mosca (e que fez ganhar uns pontos comigo), e quase faz esquecer a primeira hora irregular. Entre mortos e feridos ele escapa, mas por pouco.


Confiram pelo trio de atores (muito bons) e pelo tema, que apesar de batido nos últimos anos, ainda é eficiente e relevante

TRAILER: