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quinta-feira, 31 de março de 2011


Charlie Chaplin


Ele simplesmente parou o mundo sem proferir, na tela, uma única palavra. Charles Spencer Chaplin, o menino prodígio de Londres, fruto de um lar em frangalhos (os pais se divorciaram quando ele tinha apenas três anos de idade, motivado ora pelas crises emocionais da mãe ora pelo alcoolismo desenfreado do pai), viu sua vida mudar aos cinco anos, quando subiu ao palco pela primeira vez para cantar Jack Jones. Com a internação da mãe no asilo Cane Hill, o garoto é mandado - pela amante do pai - para a Archbishop Temples Boys School. Após seu internato por lá veio a admiração pelo music hall onde, junto com o irmão, iniciou uma carreira lendária no show business.


Sua primeira turnê se dá na trupe de Fred Karno na década de 1910 onde, entre seus intergrantes, constava o comediante Stan Laurel, da futura dupla cômica O Gordo e o Magro. Foi da atuação nesse companhia que surgiu o convite de Mack Sennett para que ele ingressasse na Keystone Film Company (onde estreia no cinema com Making a living). Na Keystone, Chaplin criou o que se tornaria um dos maiores personagens da história do cinema mundial: o vagabundo Carlitos, um andarilho pobretão das ruas que, no entanto, possui todos os requintes e elegâncias de um membro da elite inglesa. Abriam-se ali as portas para um pioneiro do que as artes cinematográficas se tornariam.


Falar de sua filmografia seria assunto para muitas teses de doutorado ou livros comerciais, tendo em vista que Chaplin retratou, em suas películas, o melhor e o pior da Inglaterra e, em justa medida, do continente europeu. Entre suas inúmeras produções bem sucedidas - Luzes da Ribalta, O Circo, Tempos Modernos, Luzes da Cidade, O Garoto, Em busca do ouro perdido, Monsieur Verdux, O Grande ditador, fora os curtametragens antológicos do início da carreira - percebe-se a preocupação do ator, produtor, diretor, roteirista e compositor (sim, pois muitas das canções que se ouvem em seus filmes são de sua própria autoria!) de denunciar as mazelas e arbitrariedades dos poderosos, o que acabou levando a um interesse ferrenho do artista em montar sua própria produtora e manter, com isso, o controle criativo de seus trabalhos. Algo que seria alcançado com a criação da United Artists, junto com Douglas Fairbanks e outros atores da época).


Em 1992 o diretor Richard Attenborough dirigiu Chaplin, uma cinebiografia interessantíssima sobre o mestre do cinema mudo, tendo como protagonista o genial Robert Downey Jr. numa recriação de época exuberante. Uma película que eu recomendo em gênero, número e grau para aqueles que desejam entender um pouco da mente irascível e fascinante do eterno Carlitos. Outra fonte de informações excelente é a autobiografia do próprio Chaplin, Minha Vida, trazendo relatos fortes de sua carreira e de sua vida pessoal, dentre eles a derrota nos tribunais por um caso de paternidade não-confirmada, em que o ator não pôde usar o exame de DNA como prova para se defender.









Chaplin foi pop, reacionário, brilhante, brigão, contestador, gostava de ter a última palavra em tudo que trabalhava (sua discussão com Marlon Brando nos sets do filme A Condessa de Hong Kong já se tornaram parte da mística contraditória que envolve a sua genialidade) e, muito por conta disso, construiu muitas inimizades dentro da indústria cinematográfica. Porém, por mais que seus detratores queiram negar, o que seria do cinema como obra de arte não fosse o toque magistral e a inquietude desse dínamo da câmera e da arte de atuar? Gostem ou não, cinema sempre será classificado em antes e depois de Charlie Chaplin.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011



Kate Winslet

Aos cinco anos estreou no palco no papel de Virgem Maria, aos 11 já estudava teatro, com 13 começou a dar as caras na TV, em seu primeiro papel já como profissional encarava cenas lésbicas com a naturalidade de uma veterana e antes de completar 31 já havia sido indicada ao Oscar cinco vezes. Essa menina prodígio é Kate Elizabeth Winslet. Atuar, para ela, sempre foi como uma segunda pele (afinal de contas, os pais eram atores e os avós gestores de teatro, o que só contribuiu para que a menina desinibisse ainda mais). Para aqueles que costumam se afastar dos cinemas quando a beleza de uma atriz é evidente demais e costumam achar que isso é sinônimo de falta de talento, vão se surpreender com Kate. No caso dela, beleza e talento andam de mãos dadas a serviço de uma carreira das mais inventivas.

Seu começo em Hollywood não poderia ser mais arrasador: aconteceu em 1994, na pele da nada inocente Juliet Marion Hulme de Almas Gêmeas, um dos primeiros filmes do então desconhecido diretor neozelandês Peter Jackson, onde a menina já deixava claro ao público quais eram suas intenções artísticas. No ano seguinte envereda pelo mundo literário - algo que faria bastante ao longo da carreira - da escritora Jane Austen como a passional Marianne Dashwood de Razão e Sensibilidade, belíssima adaptação da atriz Emma Thompson com direção do cineasta Ang Lee. Em 1996, convencida pelo ator/diretor Kenneth Branagh encara a Ofélia da belíssima versão feita por ele de Hamlet, porém só passaria a ser realmente reconhecida ao redor do mundo depois de viver a Rose Dewitt de Titanic, o arrasa-quarteirão dirigido por James Cameron em 1997.

Em Almas Gêmeas, filme que a "revelou" e mostrou que seu diretor (Peter Jackson) fazia mais do que filmes trash
Em Razão e Sensibilidade de Ang Lee
Passadas algumas produções de pouco destaque (seja de público ou crítica), volta a marcar presença em 2000, dessa vez como Madeleine, a confidente do escritor libertino, em Contos Proibidos do Marquês de Sade, belíssima produção de Phillip Kaufman. Outro papel de destaque em sua filmografia nessa época é o da jornalista Bitsy Bloom em A Vida de David Gale, drama investigativo de Alan Parker. Em 2004 uma nova retomada com o excepcional Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michel Gondry, dessa vez como Clementine, interesse romântico do protagonista vivido pelo comediante Jim Carrey.


Após uma entressafra, em que participa de Em Busca da Terra do Nunca, cinebiografia do escritor e dramaturgo James M. Barrie, criador do personagem Peter Pan (e interpretado pelo ator Johnny Depp) e do musical sarcástico dirigido pelo ator John Turturro Romance e Cigarros, sua carreira volta à ascendente com o drama social Pecados Íntimos, de Todd Field, onde interpreta a esposa reprimida Sarah Pierce. Seus últimos trabalhos de destaque foram o drama de holocausto O Leitor, de Stephen Daldry (que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz) e o mais conservador Foi apenas um Sonho, dirigido pelo seu então marido Sam Mendes, onde reedita a parceria com Leonardo Dicaprio nos papeis principais.

Como Clementine em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças"

No papel de Hanna Schmitz, que lhe rendeu um Oscar de melhor atriz, por O Leitor

No incrível sucesso de público "Titanic"
Atualmente filma Contagion, filme-catástrofe sobre um vírus mortal, sob a direção de Steven Soderbergh, além de constar entre seus próximos projetos participação no elenco de God of Carnage, próximo longa a ser rodado por Roman Polanski, além de negociar um papel (conforme informação captada no site IMDB) para participar do filme Americana, a ser dirigido pelo cineasta brasileiro Paulo Morelli. Difícil precisar até onde um talento desses pode ir, principalmente quando nas mãos de um diretor de peito, mas o fato é que é fácil entender o fascínio que Kate exerce sobre o público: é bonita, inteligente, sabe conduzir sua carreira como poucas em sua geração, encara qualquer desafio e, diferentemente de uma série de artistas vazios que andam em voga atualmente, veio para ficar. E os fãs só têm a agradecer!



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


Martin Scorsese

Se Martin Scorsese tivesse se tornado padre como queria e era interesse de seus pais, será que teria sido um grande clérigo? Dúvidas à parte, a grande verdade é que sua cinematografia nunca deixou de render homenagens (ou críticas) ao modelo religioso que conheceu quando criança lá pelos idos da década de 50. O menino que conviveu num bairro onde criminosos, punguistas e prostitutas eram parte do cartão-postal do lugar e que estudou na Escola de Cinema de Nova York, aprendeu realmente a fazer filmes quando realizou a película Boxcar Bertha - lançado no Brasil como Sexy e Marginal - trabalho em que decifrou os segredos de se filmar rápido e gastando muito pouco. E verdade seja dita esse aprendizado aliado a paixão pelo Neo-Realismo italiano e a amizade com Brian de Palma (que lhe apresentou o ator Robert de Niro, ator-assinatura definitivo de seus principais filmes) marcaram definitivamente sua carreira.



Seu início se dá com Quem bate à minha porta?, em 1968, mas a glória e o reconhecimento só começariam a despontar realmente cinco anos depois com Caminhos Perigosos, onde começa sua parceria com De Niro, e com o antológico Taxi Driver, que trazia uma pequenina Jodie Foster começando a carreira ainda na pele de uma prostituta. Em 1977 o primeiro fracasso: o musical New York, New York, que quase foi a tampa no caixão de uma carreira até então bem sucedida. O resultado do filme foi tão abaixo das expectativas que Scorsese entrou numa depressão nervosa e teve de se afastar dos sets por três anos. Contudo, sua volta foi gloriosa com Touro Indomável, onde retrata a saga do pugilista irracional Jake La Motta. Uma produção até hoje considerada injustiçada, na opinião de vários críticos de renome, por não ter levado o Oscar de Melhor Filme na época.



Entre 1983 e 1985 Scorsese envereda pelo humor (de viés negro, é bem verdade!) e faz dois de seus melhores filmes menores: o anárquico O Rei da Comédia (com participação do humorista Jerry Lewis) e Depois de Horas (uma pequena obra-prima urbana até hoje subestimada pela crítica). Passada essa fase realiza duas produções que poderiam ter rendido melhores comentários e bilheterias, mas que acabaram compondo dentro da filmografia de Scorsese sem muito brilho: A Cor do Dinheiro (que contou com a dupla de astros Paul Newman e Tom Cruise) e a adaptação do polêmico romance bíblico de Nikos Kazantzakis A Última Tentação de Cristo (com Willem Dafoe como protagonista). Chegam aos anos 90 e o diretor volta aos dramas de máfia com Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995), ambos baseados em romances de Nicholas Pillegi, além de fazer sua primeira incursão no suspense com Cabo do Medo, outra produção que sofreu críticas severas no período em que foi lançada.



Depois dos inexpressivos Kundun (que contava a história do Dalai Lama) e Vivendo no Limite (com Nicolas Cage na pele de um motorista de ambulância que ouve e vê os pacientes mortos que compõem a sua rotina diária), o diretor se volta para seu projeto mais ambicioso: o épico Gangues de Nova York, em gestação por mais de duas décadas, e apresenta a Hollywood o seu novo pupilo, o jovem e talentoso Leonardo Dicaprio (que lhe foi apresentado por De Niro, que trabalhou com o rapaz no filme O Despertar de um Homem). Com ele também realiza O Aviador, baseado na vida do milionário Howard Hughes, Os Infiltrados e o recente suspense penitenciário Ilha do Medo, adaptação do romance Paciente 67 do escritor Dennis Lehane.



Atualmente o cineasta divide sua atenção entre inúmeras tarefas: a pós-produção de seu mais novo longa, dessa vez estreando no gênero infantil, A Invenção de Hugo Cabret (com presença de Jude Law e Ben Kingsley no elenco), a finalização de seu mais novo documentário sobre a vida do Beatle George Harrison, administrando sua Film Foundation, uma organização não lucrativa criada por ele e dedicada á preservação de filmes mudos e ainda arranja tempo para produzir para o canal a cabo HBO a série televisiva Boardwalk Empire, sobre o período da Lei Seca, sucesso de crítica e audiência. Entre seus próximos projetos constam uma cinebiografia do cantor Frank Sinatra e um projeto que tem tudo para ser o grande filme do século XXI: The Irishman, filme de gângster que reunirá o trio Al Pacino, Robert de Niro e Joe Pesci.



O que mais a mente sórdida, analítica e perfeccionista de Scorsese aprontará para o público sedento por suas tramas cheias de corrupção e malícia? O que poderemos esperar desse menino que quase virou católico fervoroso? O tempo dirá. Mas que deixará a plateia de boca aberta, disso não há a menor dúvida.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011



Francis Ford Coppola


Uma das coisas que mais me atrai em cinema é a visão pessoal dos diretores (isso para os que são realmente diretores de cinema e não meros fabricantes de blockbusters, como tenho visto com mais frequência nos últimos anos). E isso Francis Ford Coppola sempre teve, desde sua estreia cinematográfica em 1963 dirigindo o curta Dementia 13, uma obra simples e aterradora, bem ao estilo dos grandes realizadores hollywoodianos que, concomitantemente, viram sucesso na terra das oportunidades. Ele sempre foi o homem dos projetos audaciosos e grandiosos e, mesmo que muitas vezes tenha esbarrado nos limites impostos pelo regime castrador das produtoras, tendo de abortar muitos de seus projetos mais queridos, ainda assim ele imprimiu uma marca única na história do cinema. E não à toa fez de sua obra-prima em duas partes uma lenda na premiação do Oscar.


Francis Ford Coppola nasceu em 7 de abril de 1939. O filho de Carmine Coppola, músico e compositor, não teve vida fácil desde pequeno (aos 9 anos de idade teve poliomielite, o que quase arruinou sua vida e tirou do público o contato com um grande gênio das câmeras). Após uma formação universitária na UCLA, ganhou a vida no começo da carreira escrevendo roteiros e produzindo películas de baixo orçamento, algumas delas de cunho erótico, ao lado do parceiro e também diretor Roger Corman, até seu primeiro contato com a câmera na década de 1960. Porém, seu sucesso consagrador só ocorreria realmente em 1972, quando do lançamento de sua obra-prima O Poderoso Chefão, adaptação para as telas do romance do escritor Mario Puzo, que contava a saga da família Corleone e sua escalada rumo ao poder. Sucesso esse que se repetiria dois anos depois na continuação, que trazia a juventude do patriarca dessa família, Don Vito Corleone. Ambos os filmes foram consagrados com o Oscar de Melhor Filme (Coppola também ganharia o prêmio de melhor diretor e roteiro pela segunda parte da saga e o de roteiro original pelo filme Patton: rebelde ou herói).




À parte o megasucesso da obra-prima gângster, o diretor sairia-se melhor produzindo para outros cineastas, dentre eles alguns velhos parceiros do tempo de faculdade, como foram as produções THX 1138 e American Graffiti (de George Lucas), Kagemusha (de Akira Kurosawa) e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (de Tim Burton). Contudo, ainda teve fôlego - resguardados alguns problemas de produção, ego dos artistas e falta de apoio de algumas distribuidoras - para realizar o fantástico filme de espionagem A Conversação (com Gene Hackman na pele de um araponga que acaba caindo numa grave crise de consciência) e arrebatar plateias em 1979 com seu majestoso épico de guerra Apocalipse Now, baseado na clássica obra literária de Joseph Conrad, e vencedora da Palma de Ouro em Cannes. Um produção, entretanto, que foi pautada por todos os tipos de excessos, como o enfarte de Martin Sheen durante as filmagens e a decisão de dirigir Marlon Brando em planos fechados e escuros para ocultar sua obesidade mórbida que já dava sinais mais do que evidentes.




No mais, Coppola oscilou entre retratos da rebeldia e da juventude perdida (como O Selvagem da Motocicleta, Jovens sem Rumo e Peggy Sue: seu passado a espera, onde trabalhou com seu sobrinho Nicolas Cage em início de carreira), a paixão por automóveis (Tucker: um homem e seu sonho), musicais mal sucedidos (o interessante Cotton Club, com majestosa performance do dançarino Gregory Hines, e o até hoje incompreendido Do Fundo do Coração, com Raul Julia e Nastassja Kinski) e uma parceria inusitada com o astro pop Michael Jackson (Capitain EO), até hoje considerada uma das produções mais caras de todos os tempos, feita para um dos parques da Disney. O sucesso de fato só bateria às portas novamente com o clássico de terror Drácula de Bram Stoker, por muitos críticos considerado o seu último filme autoral. Em 2000 ausenta-se do cenário cinematográfico para cultivar em seus vinhedos, hoje sua maior paixão.






Provavelmente os maiores interesses de Coppola na indústria do cinema atualmente sejam a filha prodígio Sofia Coppola, que vem se especializando em dramas humanos - como Encontros e Desencontros e As Virgens Suicidas - e na produtora American Zoetrope onde atualmente está envolvido na produção do filme On the Road, obra máxima da Beat Generation de autoria do escritor Jack Kerouac, a ser dirigido pelo brasileiro Walter Salles. Seus últimos dois filmes (Youth without Youth e Tetro) passaram despercebidos pelo circuito e ele ainda arrisca uma nova produção, voltando ao gênero horror em Twixt now and Sunrise, que contará com Val Kilmer e Elle Fanning no elenco. Para os mais saudosistas pode parecer pouco (e realmente é, se levarmos em consideração a grandiosidade de seus melhores projetos), mas Coppola simplesmente não se incomoda mais com isso. De alguma forma ela sabe que seu tempo áureo já passou e a única coisa que deseja é sombra e vinho fresco. "O resto", sempre dizem os gigantes da sétima arte quando estão praticamente aposentados, "é pura nostalgia".







terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Provavelmente o ditado mais famoso do mundo é aquele que diz que "beleza não pôe mesa". As pessoas, de forma geral, estão sempre tentando afastar estética e talento, como se ambas andarem lado a lado fosse uma tarefa impossível. Aqueles que dizem isso certamente não conhecem a nossa musa de hoje: a atriz sul-africana Charlize Theron. De modelo aos 16 anos, após ganhar um concurso em sua cidade natal (indo trabalhar para a agência Pauline's) e uma prematura carreira como dançarina, interrompida por uma lesão no joelho aos 19 anos, a hoje mensageira da paz das Nações Unidas foi um longo percurso cheio de reviravoltas. Porém, sua grande chance como artista viria mesmo após fazer uma cena diante de um caixa de banco quando foi descontar um cheque, logo atraindo a atenção de um descobridor de talentos.

O ativismo e a polêmica sempre fizeram parte de sua vida: seja por presenciar a mãe matando (em legítima defesa) o pai, que a agredia constantemente, seja envolvida em organizações em defesa dos direitos da mulher, na luta pró-aborto, em favor do casamento gay e como membro ativa do PETA (de defesa aos animais). Sua estreia no cinema em 1985 - com míseros 10 anos - num filme B chamado Children of the corn III, mesmo numa participação sem fala e por poucos segundos, foi o necessário para agradar os produtores de hollywood, o que lhe renderia papeis nos filmes Contrato de Risco, de John Herzfeld e The Wonders: o sonho não acabou, de Tom Hanks.

No início da carreira em Contrato de Risco
Meu primeiro contato com um filme em que trabalhou foi, em 1997, no misto de suspense e ação O Advogado do Diabo, de Taylor Hackford, em que faz a esposa do personagem protagonista cujo pai é nada menos do que o diabólico Lúcifer, interpretado pelo ator Keanu Reeves. Entre 1998 e 2002, participa de uma série de longas de aventura e dramas pessoais, onde destaco o romântico Regras da Vida, de Lasse Hallstrom (fazendo par com Tobey Maguire), Homens de Honra, de George Tillman Jr, onde acaba ofuscada pelo duelo de atuações entre os atores Cuba Gooding Jr e Robert de Niro e o comovente e profundo Doce Novembro, de Pat O'connor, quando realmente começou a chamar minha atenção em papeis mais pesados e de construção narrativa mais pesada, na pele de uma mulher marcada por uma doença incurável e relacionamentos de curta duração em demasia.

Com Keanu Reeves, em cena do sexy e excelente Advogado do Diabo
Em Regras da Vida, com Tobey Maguire
Cuba Gooding Jr. e Charlize em Homens de Honra
Em cena em Doce Novembro
O ano de 2003 seria o início de sua apoteose com o Oscar de melhor atriz ganho por sua interpretação da serial killer Aileen Wournos no filme Monster: desejo assassino, de Patty Jenkins. Nos anos seguintes, se destacaria como Britt Ekland em A vida e a morte de Peter Sellers, de Stephen Hopkins (com belíssimo trabalho de Geofrey Rush no papel-título) e como Josey Ames, primeira mulher a vencer um processo por assédio sexual nos EUA em Terra Fria, de Niki Caro. Seus últimos personagens, a heroína Mary de Hancock, sátira de Peter Berg, a fútil Sylvia de Vidas que Cruzam, de Guillermo Arriaga e a quase inexistente aparição na ficção-científica A Estrada, de John Hillcoat, não lhe renderam boas críticas, o que vem gerando comentários nos tablóides de que é hora de mudar os rumos de sua carreira.

Em Monster, o filme que lhe rendeu um Oscar
Em Vida e Morte de Peter Sellers
Seu último projeto finalizado é a animação Astroboy e está cotada para participar de Mad Max: Fury Road, reboot da clássica franquia eternizada no cinema pela dupla Mel Gibson e George Miller. Um projeto que vem sofrendo com sucessivos atrasos e cancelamentos os mais diversos. Além disso, rumores atestam que Charlize pode vir a compor o elenco do terceiro longametragem de Batman, dirigido por Christopher Nolan, na pele de uma soçialite. Entre altos e baixos, ninguém nega o talento (e a beleza, é lógico!) de Charlize Theron. Uma prova mais do que viva de que aquele ditado que começou esse texto muitas vezes não está com nada. Em algumas ocasiões (como esta, por exemplo) ele até atrapalha.





sexta-feira, 22 de outubro de 2010


A grande diferença entre um grande clássico e um filme cult é simples: Cult é aquele filme que você gosta e não necessariamente é tão bom assim (alguns até são), mas que por algum motivo você adora, se diverte e indica aos amigos. O caso é que na ânsia de encaixar esses filmes em alguma sessão, o Fotograma resolveu criar essa nova sessão, onde aqueles filmes amados e cultuados serão aqui comentados. Sempre de maneira leve e divertida, como pede um filme cult.

Matinê: Uma Sessão Muito Louca
(Matinee, 1993)

Imagino o sufoco de cineastas ancestrais em produzir efeitos de qualidade para prender a atenção do público. "Como foi feita a cena em que Moisés, vivido por Charlton Heston, abre o Mar Vermelho para a passagem de milhares de judeus na mega produção de Cecil B. Demille Os Dez Mandamentos?" é uma pergunta que já se tornou clichê no universo dos efeitos especiais. De lá pra cá muita coisa mudou (e pra bem melhor), mas se banalizou muita coisa também. E esse ramo começou por conta dos esforços de diretores pioneiros que arriscaram quando ninguém queria saber de nada além do óbvio. Diretores como Lawrence Woolsey (John Goodman em atuação fantástica), o visionário filmmaker de Matinê: uma sessão muito louca, nostálgica película do mestre Joe Dante.

Tudo se passa em Key West, pequena cidade do estado da Flórida, em plena era da crise dos mísseis e da luta Kennedy X Fidel em 1962. Os ãnimos da população mudavam como quem muda de roupa, pois havia uma incerteza quanto ao futuro: estaremos aqui amanhã ou seremos abatidos à tarde? Todo um clima de paranóia generalizada se instaurava nas ruas, as crianças filhas dos militares sequer podiam sair das bases e conhecer o aroma das ruas. E nesse cenário desolador Woosley, mestre do sensacionalismo decide tirar proveito disso. Como? Produzindo a maior revolução cinematográfica da história, o filme Mant! sobre um homem que sofre uma terrível mutação após uma tragédia nuclear e acaba virando uma simbiose entre homem e formiga. Ardiloso e louco na mesma medida, o diretor convence o dono da sala de cinema da cidade a utilizar a sua tecnologia inovadora, prometendo uma plateia jamais vista na região. O resultado é simplesmente arrebatador!

Fazendo uso de efeitos baratos, a maioria deles através de roldanas e mecanismos arcaicos, o filme toma a plateia de susto e transforma o pacato vilarejo no cartão-postal do cinema moderno. A fotografia de magníficos planos abertos de John Hora associada ao roteiro debochado de Jerico e Charles Hass, que foca principalmente nos duelos familiares e no clima de tensão do período, prendem a atenção do público até o arremate final (no caso, a sessão de Mant!). Impossivel não guardar lembranças as mais positivas de uma época em que o cinema não se escorava em excessivas tecnologias e aparatos para gerar bilheterias vultosas.

Pensar o sucesso de Matinê na época em que foi produzido é, em poucas palavras, pensar a necessidade da sétima arte voltar a ser simples para encantar as plateias (hoje carentes de ídolos e de boas histórias). Ver os olhinhos grudados dos espectadores a cada surpresa, objeto ou inseto estilizado que atravessava seu caminho a cada 10 minutos de filme numa sucessão de reveses que faziam a sessão de cinema parecer um passeio no trem-fantasma do melhor parque de diversões do mundo é, acima de tudo, deixar registrado o respeito dos realizadores daquele tempo pelo público, diferentemente de hoje em que se recorre a qualquer 3D, Imax ou outro suporte para encarecer o preço do ingresso e, muitas vezes, só servindo para estragar o divertimento e fazer as pessoas (quase) pedirem de volta o dinheiro na bilheteria.

Um filme para ser admirado - certamente Tim Burton e Guillermo del Toro beberam dessa fonte como inspiração para seus longas Marte Ataca e O Labirinto de Fauno - e, principalmente, resgatado pelas novas gerações. Quem sabe depois de acompanhar esse exemplar genial eles não entendam de uma vez por todas que cinema é isso aqui: dar alegria às pessoas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010


Assim que me mudei para meu atual endereço conheci um camarada, numa dessas associações esportivas de bairro, que jogava basquete – esporte do qual sempre fui um grande admirador – com uma galera que mais parecia aquele desenho dos Globe-Trotters que passava na Rede Manchete nos anos 80 (aquele que os jogadores viravam o homem-macarrão, o homem-mola etc... Lembram?). E ele sempre me dizia em nossos bate-papos que “ter como vizinha uma mulher bonita demais sempre é um problema porque a imagem daquela beleza fica entranhada dentro da sua mente pro resto da sua vida, não importa pra onde você se mude”. Anos depois tive uma vizinha exatamente desse jeito, de nome Jéssica, e até hoje me lembro dela, de seus microshorts, de seu sorriso sedutor, de suas pernas torneadas, de uma maneira que só fui me lembrar posteriormente quando vi pela primeira vez a atriz italiana Monica Bellucci. A bela ragazza parece isso: aquela vizinha proibida que você fica olhando furtivamente, sem deixar ela perceber (vai que ela é casada!). O problema é quando simplesmente não se consegue mais parar de olhar pra ela.



Bellucci no polêmio em genial "Irreversível"

Belluci, na década de 80, era uma estudante de direito da Universidade de Perúgia. Enfim: uma mulher bonita – certamente já deveria ser quando adolescente – que queria enfrentar o crime ou, ao menos, ajudar os menos favorecidos. Muito motivada, obviamente, pelo universo mórbido que abrangia sua escolha, abandona tudo para ingressar numa carreira de modelo, aonde chegou a fazer parte do catálogo da Elite Models, uma das mais prestigiadas do mercado, e trabalhou com estilistas de renome mundial como Dolce & Gabbana, além de posar para capas de revistas conceituadas como Elle e GQ bem como na polêmica foto que fez grávida e nua para a revista Vanity Fair, que escandalizou o Vaticano, que disse tratar-se de uma blasfêmia. Contudo, havia algo maior a ser conquistado. E esse algo se chamava Hollywood.

A "polêmica" capa que escandalizou o Vaticano
Dividindo a tela com Gene Hackman no suspense "Sob Suspeita"
A atriz começou até bem na fita, fazendo uma ponta como uma das amantes do conde da Transilvânia (vivido por Gary Oldman) no clássico de terror Drácula, dirigido pelo mestre Francis Ford Coppola, em 1992. Porém, o sucesso, muito por conta de sua beleza esfuziante, só começaria a despontar verdadeiramente oito anos depois quando interpretou Malèna, protagonista do filme homônimo de Giuseppe Tornatore. E desde já confesso que aqui foi o momento crucial em que me encantei por aqueles olhos penetrantes, muito similares aos da “cigana oblíqua e dissimulada” Capitu, de Machado de Assis. No mesmo ano, faz um papel de pouca expressão no drama Sob Suspeita, de Stephen Hopkins, em que contracenava ao lado de duas lendas do cinema: Gene Hackman e Morgan Freeman.
Em cena, como a sensual Malena
Nos três anos seguintes, já consagrada entre as mulheres mais bonitas do cinema atual, atua em duas produções francesas – o extraordinário Pacto dos Lobos, de Christophe Gans e o polêmico Irreversível, de Gaspar Noe, que chocou a plateia do Festival de Cannes por conta da forte cena de estupro envolvendo a personagem da atriz – e como a médica que faz de tudo para salvar seus pacientes em Lágrimas do Sol, do diretor Antoine Fuqua. Até a chegada do visionário projeto Matrix, dividido em três partes, da dupla Andy e Larry Wachowsky, no qual interpreta a personagem Perséfone.

Com Bruce Willis, no filme de guerra "Lágrimas do Sol"
"Sexy as hell" como Perséfone na série Matrix

Em "Pacto dos Lobos"
 Após a revolução matrixiana que invadiu os cinemas, mais um papel polêmico: na pele de Maria Madalena da controversa produção A Paixão de Cristo, de Mel Gibson (e aqui uma curiosidade: no mesmo ano a atriz foi eleita, pela revista Maxim’s, aos 40 anos de idade, a melhor mais bonita do mundo). De 2005 em diante sua imagem vem perdendo o fôlego por conta de suas participações em projetos medianos ou totalmente equivocados, como é o caso de Os Irmãos Grimm, projeto de Terry Gilliam, em que conta a história dos célebres criadores de contos de fadas, na pele da prostituta Donna Quintano em Mandando Bala, de Michael Davis, uma comédia de ação das mais surreais dos últimos anos e em A Vida Íntima de Pippa Lee, da cineasta Rebecca Miller, esposa do astro Daniel Day-Lewis (um projeto que poderia - se melhor executado - ter rendido grandes resultados à equipe).

Maria Madalena nunca foi tão sexy..

...nem a bruxa malvada dos contos dos Irmãos Grimm


Em cena na comédia "Vida Íntima de Pippa Lee"
Minha última experiência com um filme em que trabalhou ela praticamente quase não atua: trata-se de Aprendiz de Feiticeiro, de Jon Turteltab, cujo único mérito – pelo menos para a crítica, que o detestou – é mostrar que seu protagonista, Nicolas Cage, está numa rota de colisão com o fracasso e precisa abrir os olhos com os projetos nos quais se envolve. Se o futuro promete a bela Monica ares mais auspiciosos, só o tempo dirá. Eu, confesso, acho difícil levando-se em consideração que esse mundo cinematográfico sempre dá prazo de validade (leia-se: idade) às pessoas. E no caso de Bellucci, pesa um agravante: não se trata de uma esplêndida atriz essa moça, mas dificilmente os fãs conseguirão negar que estão diante de uma das mulheres mais bonitas do planeta. Aquele que discordar, que profira a primeira crítica.