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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Django Livre


Django Livre
(Django Unchained, 2012)
Western - 165 min.

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

com: Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Kerry Washington

Reclamar de "tarantinisses" em um filme do próprio é bobagem. Por isso, aviso que não entrarei no coro dos que não veem "realismo histórico", "veracidade nos fatos", "desvirtuamento de valores" e tudo mais que foi dito há quatro anos atrás quando o diretor brincou de guerra em seu Bastardos Inglórios. Prefiro me ater ao fato de que é inacreditável perceber que mesmo criando as obras mais cheias de referências que um cineasta pode produzir, e, portanto, deixando "de lado" a originalidade, Quentin Tarantino assina a ferro e fogo cada uma de suas obras com uma contundência impar. Bastam muito poucos frames de exibição para notarmos que estamos no "mundo mágico" de Tarantino, onde referências e misturas exóticas permeiam o caminho.

Django Livre não é exceção, de fato, acho que nem mesmo em Kill Bill as transgressões cinematográficas foram tão agudas quanto aqui. Se no filme da Noiva, ele usou dos filmes de kung fu B para tratar de vingança, aqui ele é ainda mais ousado, usando um spaghetti western para transformar um escravo negro em "herói" e maior assassino do Oeste.

Nos Estados Unidos o filme foi acusado de racista pelo uso da apalavra nigger (que a gente pode traduzir livremente como "crioulo"), que é verborragicamente dita durante boa parte do filme. Aqui faço uma defesa de Quentin. Acho, ou melhor, tenho quase a certeza de que aqueles que acusam o filme de ser racista não o assistiram, pois se assistissem somente aos primeiros dez minutos notariam exatamente o oposto disso. Explico: ao som do tema de Django (o mesmo composto na década de sessenta para o filme original italiano), vemos uma fila de escravos caminhando seminus pelas "estradas" de pedra e terra embaixo de sol, chuva e frio, sendo escoltados por seus donos. A noite cai, e vemos uma carroça com um ridículo dente preso ao seu teto parar e após apresentações, conhecemos o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) que está à procura de escravos que moraram em uma determinada fazenda. Após uma ligeira conversa, Schultz revela ser muito mais do que um sujeito empolado de fala mansa e "dentista" como acusava sua carroça, é também um matador que leva um dos escravos (o nosso herói Django) que havia dito que conhecerá a fazenda e seus moradores. Pois bem, e ai a coisa fica perigosa para os amantes da história "esse filme é racista". Waltz dá duas opções aos escravos ali presos. Levar um dos homens atingidos pela fúria de Schultz (como eu disse ele é um matador) até um médico e voltar ao cabresto ou... acho que entenderam. Liberando a fúria homicida de anos de abusos e flagelos, o que fazem os escravos? Acho que vocês podem imaginar.


Talvez, no contexto histórico e social americano, o uso excessivo da palavra realmente funcione como gatilho racista, mas, por favor, vamos entender a historia envolvida. Todos aqueles que usam a palavra nigger são mostrados como salafrários, bandidos, canalhas, estúpidos e que não merecem viver. Tarantino não glorifica a palavra, apenas mostra que por meio dela podemos exemplificar a ignorância de que a profere com tanta virulência.

Django Livre acompanha a dupla mais insólita de caçadores de recompensa (a "profissão" adotada pelo imigrante alemão vivido por Christoph Waltz) que se afeiçoa ao parceiro Django e decide ajudá-lo em seu plano de vingança, o que leva o filme muito próximo das suas origens italianas. Longe de ser um western sobre redenção humana, ou com comentários sociais (apesar da sacada de fazer do herói um escravo é ótima), Django é um romance, por mais torto que pareça. Django quer encontrar Brunhilda (Kerry Washington) sua esposa, que foi separada dele e hoje permanece perdida. Brunhilda, a valquíria de ébano que fala alemão fluente e que tem a personalidade forte como a de uma besta nórdica.

E é nesse clima irônico e violento que Django segue, com suas escravas que falam alemão, fazendeiros brancos que discutem pela dificuldade de enxergarem com sacos de pano mal costurados sobre os rostos (na cena mais engraçada do filme, e das mais engraçadas da carreira de Tarantino), um herói vestido de valete renascentista andando a cavalo, uma luta entre escravos sobre o chão de madeira, um ataque de cachorros a um pobre coitado que tentou fugir de sua condição e é claro, tiroteios, explosões e tudo mais.


Django tem problemas, no entanto, especialmente em seu segundo ato quando parece que Tarantino quis esticar ao máximo a sensação de suspense (que não é eficiente), tornando muito longos certos diálogos, embora elas sejam estilisticamente muito bem realizadas. É o caso da citada cena dos capuzes, que é longa demais, embora muito boa.

Jamie Foxx é um Django digno. Um homem que aprende um ofício e se transforma em um verdadeiro azougue no que se propõe a fazer. Foxx está intenso, fisicamente impecável e acertando até em detalhes de composição muito sutis como sua constante sensação de tensão, que só é deixada de lado no glorioso ato final. Já Christoph Waltz, embora seja impossível negar seus acertos como o calhorda polido e talentoso, parece demais uma versão mais velha (dado o momento histórico em que o filme se passa) de seu coronel Landa de Bastardos Inglórios. Certas sutilezas de interpretação, a constante polidez de suas palavras, a sua educação cirurgicamente pensada e sua frieza em executar seus inimigos são a mesma do brilhante vilão do filme de 2009.

Quem rouba a cena é a dupla Samuel L. Jackson e Leonardo DiCaprio, como um - aparentemente - velho escravo bajulador e um fazendeiro sádico, respectivamente. Jackson, brilhantemente caracterizado é impagável como o cruel e hilário senhor sem papas na língua, chocado por ver um negro em posição diferente do que a de escravo, mas que durante a produção vai se revelando um líder, amargo e violento. E DiCaprio, segue a linha de Waltz, só que sem a aura de "nobreza" que o Dr. Schultz transparece. Sua personagem é sedutora, aparentemente gentil, mas raivosa em sua essência e isso fica muito claro quando sua paciência se encerra.


Django é uma aula de estilo, embora ele não tente emocionar o público, mas sim entretê-lo, diverti-lo com seus excessos e mesmo com seus erros. Tarantino é uma auto-referência humana, um sujeito verborrágico que fez de seu cinema seu agradecimento àqueles que o inspiraram, tornando difícil imaginar um filme tarantinesco em que nos sintamos tocados emocionalmente por uma história (embora isso acabe acontecendo em Bastardos Inglórios e em Kill Bill).

Isso não impede de que uma produção do diretor seja uma experiência cinematográfica satisfatória. Se ele não atinge o público pela emoção, o faz pelo humor, já que é impossível não se divertir em Django Livre. Além das atuações que estão perfeitas para o clima do filme, ele ainda é inteligente em suas homenagens (Franco Nero, o Django original faz uma ponta) e no uso sempre certeiro da trilha sonora. Afinal, só em um western de Tarantino veríamos soul music e hip hop quando uma procissão cavalga pelas estradas do sul dos Estados Unidos.

Django Livre não é um remake de Django, nem um faroeste histórico ou uma denúncia social contra o racismo, mas outra brincadeira de Tarantino com sua enorme biblioteca de referências. Um pouquinho arrastado demais, com um roteiro que estica demais certos momentos, mas uma aula de estilo e de criatividade visual. Que venha seu filme sobre alienígenas, fantasmas ou qualquer coisa do gênero.










O maior fã de Cinema presente em Hollywood, Quentin Tarantino se afastou dos policiais do início de carreira para homenagear os grandes filmes da indústria. Se sua celebração ocorrera pelos clássicos Cães de Aluguel e Pulp Fiction, o primeiro risco veio em Jackie Brown, que ao adaptar Elmore Leonard, fugiu um pouco do terreno comum do diretor. Porém, foi em Kill Bill que o ex-gerente de locadora começou a visitar diferentes gêneros: da ação japonesa e duelo espadachim dos dois filmes sobre a Noiva até a guerra mundial de Bastardos Inglórios, passando pelo manifesto grindhouse À Prova de Morte. Até que Tarantino, fã incondicional de Sergio Leone resolve se aventurar com seu primeiro Western. E em Django Livre, o diretor volta ao passado do spaghetti western para contar uma fábula distorcida.

(Kill Bill vol. 2 é, em essência, um faroeste [e dos bons], mas é aqui que o americano faz um western no sentido literal).

Como fez com a Universal em Bastardos, Tarantino já inicia seu filme com reverência, ao projetar o logo antigo da Columbia Pictures. As paisagens áridas dignas dos clássicos do gênero preenchem a tela logo no primeiro take, sempre ressaltadas pela fotografia. Entretanto, como um elemento intruso, um grupo de escravos anda por ali. O western sempre situou suas tramas longe do Sul norte-americano a fim de evitar temas polêmicos como a escravidão, o que causa a subversão da imagem bem interessante no contexto. E se isso traz uma questão tipicamente “tarantinesca” (um conceito estabelecido, mas modificado à sua maneira) de uma maneira mais séria, é logo após, na cena de introdução de King Schultz, que o conhecido despojo do diretor se nota. Muitos diálogos divertidos e uma explosão de violência depois, o Django alforriado do título e o ex-dentista já se fazem presentes de forma grandiosa na tela. Tarantino se reafirma como um marcante criador de mundos/personagens, mas são em outros quesitos que o filme surpreende, seja de maneira positiva ou negativa.


O roteiro, novamente escrito pelo diretor, salta de uma referência a outro para contar uma envolvente história de formação de mito, maior até que a formação de herói, uma (re)criação de gênero. Se o exemplo mais fácil se dá pelo escravo cowboy, o diretor vai além ao criar o Dr. Schultz como um legítimo lorde inglês. Desde seus trejeitos, sua cadenciada retórica e seu cavalheirismo até a disciplina diante de um alvo, o caçador de recompensas alemão é encaixado na trama como um digno esgrimista dos livros clássicos da literatura. Até mesmo seu cavalo, Fritz, é educado a ponto de responder ao ser chamado (!).

Logo, o revisionismo de Django Livre é um pouco mais complexo do que o de westerns mais recentes, como Os Imperdoáveis. É um filme que revisita não apenas os faroestes, mas todos os gêneros, para reuni-los. Utiliza um alemão e um afro-americano para contar sobre a formação da cultura negra, dentro de uma trama fabulesca do folclore europeu em forma de faroeste. É a mesma exploração cinéfila presente em Kill Bill e À Prova de Morte, mas com muito mais maturidade e ambição.

Mesmo na estética, as variações se refletem. Os planos de contemplação absoluta do deserto se juntam aos exagerados zooms rápidos do gênero. Nas cenas da tortura de Django e sua esposa, Tarantino usa de uma fotografia grindhouse para registrar Bruce Dern; nas cenas de travessia (não são poucas, mais a frente), a câmera registra o brilhante pôr-do-sol; nas cenas de diálogo no deserto noturno, a granulação fica visível no bonito ambiente azulado. O arrojo de Tarantino aparece em belas cenas: os ângulos que o diretor concebe são muito bonitos, a tensão criada para um duelo é precisa, e o domínio de close que demonstra aqui é coisa de mestre (repare o imponente close em Leonardo DiCaprio quando o mesmo acende seu cigarro), mas é notável que essa separação torne o filme mais volátil. É o mais solene dos trabalhos do diretor em temática e técnica (toca Dies Irae, de Verdi) – mas também o mais blaxpoitation de todos.


Um reflexo dessa dualidade ocorre no entendimento do diretor do serviço que em uma cena pode prestar à narrativa e ao subtexto. Passagens essencialmente narrativas chegam desnecessárias (como o encontro com um caçador, que oferece abrigo para a dupla) ou meramente convencionais (a montagem de Django aprendendo a ser caçador). Já a cena do Ku Kux Klan debochando de suas máscaras surge exclusivamente para tirar um sarro com a temática séria, sem função alguma para a história (por mais que, isolada, a cena seja ótima).

Nisso, o roteiro se mostra impreciso. Django é um filme ambicioso em temática e procura reunir muita informação em seus 165 minutos. Com os já citados contrastes, o filme se revela oscilante. Ora brilhante (o estupendo clímax), ora corriqueiro (desentendimento dramático consagrado entre os protagonistas é algo novo na obra do diretor). O montador Fred Raskin, antes assistente da falecida Sally Menke (colaboradora de Tarantino em todos os projetos), faz um trabalho digno da sua antiga companheira, ao dosar bem o ritmo do filme e tentar organizar a empreitada temática proporcionada por Quentin, mantendo a energia da obra.

Diferente do calibrado roteiro de Bastardos Inglórios (onde todas as cenas estavam no lugar certo), a narrativa de Django segue muito menos uma estrutura coesa. A reunião do tributo ao western acaba tresloucada, justamente por trabalhar com uma abrangente escala de referências. Se em Bastardos tínhamos uma narrativa que incluía passagens sobre os temas que o diretor admira, em Django temos diversas passagens sobre os temas que o diretor admira que incluem uma narrativa. Tudo o que era calculado em Bastardos, tende ao caótico em alguns momentos de Django – e isso não é um demérito dado à qualidade da temática que o diretor impõe a seu script.


Há excessivas travessias no filme, o ritmo até a chegada a Candyland não é tão consistente quanto o irretocável primeiro ato, a salada de culturas talvez não agrade a todos. Mas a quem reconhece ambiciosas incursões estilísticas em territórios desconhecidos, Django Livre será um longa marcante dentro da própria carreira do diretor, que já inclui diversas obras ímpares. Se aqui se fazem presentes as primeiras evidentes falhas em uma estrutura de Tarantino, não é por um motivo banal.

E mesmo com isso, a qualidade do diretor como narrador aparece em boa parte da película, criando uma coleção de cenas que já nascem expressivas, com um elenco à vontade e uma fotografia deslumbrante de Robert Richardson. Toda a excelente passagem do jantar em Candyland remete à cena da taverna em Bastardos Inglórios; a violência brutal da luta de escravos é chocante; a cena do escravo D’Artagnan é precisa ao caracterizar tanto tema quanto personagens; o último ato remete a um faroeste de raiz (sombras, beijo no contraluz, cowboy correndo com o rifle pra cima), ainda que com o upgrade de Tarantino; todas as frases de efeito de Foxx; o monólogo arrepiante de Calvin sobre um crânio. E, claro, a epítome da revisão: o clímax surtado e sensacional, que mistura clássico e novo, catarse com estilo, câmera lenta com faroeste, hip-hop com soul, Ennio Morricone com Jamie Foxx. Se não ressaltei com todas as letras o clímax, vale lembrar: é um banho de sangue estilosíssimo de Tarantino, que deixa até o de Kill Bill levemente pálido.

E com surpresas, surpreendentes ou frustrantes, a narrativa do afiado roteiro vai se consolidando. Se não se pode esperar solidez na narrativa, ao menos Django vale cada futura visita para simplesmente observar o talento de Tarantino em transitar entre gêneros, homenagens revisionistas e obsessões de uma maneira explosiva, afirmativa, talentosa. Pontualmente perfeito, o longa ganha bastante por sua maneira de estudar as culturas que está lidando. Se termina imperfeito, se recupera em outros aspectos. Não é um passo adiante na carreira do diretor como foi Bastardos, mas sem dúvida um exercício empolgante.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Os Vingadores


Os Vingadores - The Avengers
(The Avengers, 2012)
Ação/Aventura - 142 min.

Direção: Joss Whedon
Roteiro: Joss Whedon

Com: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Chris Pine, Mark Ruffalo, Jeremy Renner, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Tom Hiddlestone, Clark Gregg

Ano passado a Marvel apresentou dois filmes quase simultaneamente nas telas mundo afora. As origens de Capitão América e Thor foram contadas em gloriosas aventuras ano passado com resultados bastante irregulares. Se o filme do Capitão Bandeira era funcional e conseguiu a grande proeza de não "americanizar" ainda mais o personagem, tornando-o interessante para o público em geral, o filme do Deus do Trovão tentou atingir um público ainda mais amplo e se deu mal, em sua mistura de comédia romântica (ruim) e mitologia de boteco.

Pois bem, esse ano a Marvel aponta seu canhão em apenas uma direção. O júbilo de toda a criação de um "universo" que faz salivar fanboys e garotos crescidos que ainda acham Stan Lee, uma espécie de Deus, chega às telas do mundo inteiro com o portentoso e épico Vingadores.

O filme começa a partir do plot visto nos créditos finais de Thor (sim, se você não viu as cenas pós-créditos de Thor, veja), quando somos apresentados a um cubo de energia, capaz de romper as dimensões. O mesmo cubo que o Caveira Vermelha detinha em Capitão América, o que já cria a primeira ligação da franquia. Quando o filme começa,  vemos Loki reunindo-se com uma raça alienígena e planejando o roubo do artefato, que transformaria o deus nórdico em regente do planeta e daria abertura para que os alienígenas explorassem todo o cosmo (mais quadrinhos impossível). Uma vez que - claro - o artefato é roubado, cabe ao bad ass Nick Fury reunir um grupo de "cidadãos notáveis" para recuperar o objeto e impedir Loki de dominar o mundo. Simples e objetivo.


Reunindo todos os personagens que já haviam sido apresentados em cada um dos filmes individuais, Vingadores têm uma qualidade inquestionável: sabe a quem atingir e é cúmplice de seu público, deixando claro com um bom humor cristalino o que Joss Whedon (o capitão sem patente da nau "marvética") tentou resgatar dos filmes mais bem sucedidos do estúdio. Whedon sabiamente seguiu o caminho da "quase" paródia presente nos filmes de Homem de Ferro, misturando-o com um plot que não poderia ter saído de outro lugar senão dos quadrinhos. Conseguir misturar a "seriedade" com esse deboche é um triunfo, o que faz do filme realmente funcionar quando mostra suas armas. Em suma, Whedon sabe o que está filmando, e entende que para fazer funcionar uma história que versa sobre um grupo de superseres enfrentando uma ameaça desconhecida, não poderia apresentar seu filme como um tratado de filosofia e de análise de comportamento dos homens e mulheres da equipe, mas, como uma deliciosa sessão pipoca.

Outra qualidade do filme, e que parecia praticamente impossível de conceber, é conseguir transformar a produção em mais do que "Homem de Ferro e seus Amigos", como parecia ser diante dos trailers divulgados. Apesar de Tony Stark ser de longe a figura mais bem desenvolvida (graças, é claro, a dois filmes já realizados) não é o milionário que é o foco do filme. Whedon consegue, por exemplo, dar importância aos humanos da trama. Gavião Arqueiro, que aparece de relance em Thor, tem todo um arco importante sobre sua personagem, enquanto a Viúva Negra é mostrada em uma missão solo e tentando convencer o outro personagem "desconhecido" no filme, o Hulk.

Aqui abro um parêntese: o Gigante Esmeralda jamais foi bem mostrado no cinema, que me perdoem as viúvas do filme de Ang Lee, ou da ação dos morros de Louis Leterrier. Em ambos os filmes, o personagem Hulk e principalmente Bruce Banner sofreram na mão de roteiros medianos e histórias que eram sempre conduzidas para uma explosão de fúria do personagem que culmina em uma batalha e etc. Nunca Banner foi tão importante quanto o monstro, e o que os Vingadores fazem é - pela primeira vez - dar tanto espaço ao cientista Banner (e realmente mostrar o quanto ele é inteligente) quanto ao monstro. Visualmente impecável e estupidamente violento (para os padrões da censura do filme, sejamos claros), o monstro de CG finalmente funciona na tela. Seu alter-ego, o insosso Bruce Banner, é muito bem construído por Mark Ruffalo, como um homem cínico que sabe que está atado a uma bomba relógio prestar a explodir.


No entanto, existe um problema grave no Hulk. Durante o filme nos é pregado que o monstro é implacável, incontrolável e impossível de ser contido. Porém, quando o Hulk "vai pro pau", vemos um personagem contido pelo homem, uma fera domada, o que vai de encontro a tudo que o roteiro dizia até então.

Quanto aos humanos, essa é a grande "mágica" de Whedon, acostumado a dirigir equipes em seus projetos. Tanto em Buffy, quanto em sua obra prima e clássico da ficção científica Firefly, o - aqui - diretor conseguia dar espaço e fluência a todos os personagens, fazendo cada um ter seu momento de brilho, e é isso que até mesmo os coadjuvantes Viúva Negra e Gavião Arqueiro conseguem. Sem querer soltar spoilers, é preciso dizer que o Gavião Arqueiro é uma mistura de Legolas com Robin Hood anabolizada, enquanto a Viúva é a uma máquina sexy de matar.

Os demais personagens - para a Marvel - já foram suficientemente explorados em seus respectivos filmes. Capitão América, um soldado acima de tudo, continua em sua "tour-de-force" pelo mundo moderno, dessa vez tendo Chris Evans mais seguro do que faz. E também é bom vermos o que faz do supersoldado uma máquina de guerra tão eficiente. Já o Thor...


Bem, Chris Hemsworth é um ator fraco, porém é um sujeito que tem presença de tela (ou, o que a mulherada diria: "é gato") e para o papel não é um desastre, embora seu surgimento na trama seja completamente absurdo e inexplicável. Outro problema no personagem - sem dúvida o elo mais fraco do filme - é que ele ainda mantém as mesmas dúvidas em relação à Loki mostradas em seu filme solo. Para ele, não bastou o irmão ter exilado-o na Terra, tentando matar-lo, destruir a ponte que o levaria a Terra (o que amplia ainda a sensação de "como ele chegou aqui?"; e que nunca é explicada no filme de forma inteligente) para que ele concluísse que o sujeito não presta. A inesgotável paciência do personagem incomoda e o enfraquece.

Robert Downey Jr. manda no filme. Absolutamente seguro em uma persona que fundamentou sua carreira pós-drogas, é o responsável por dar ritmo ao filme, e consegue se integrar muito bem a narrativa de time, principalmente em suas cenas com Mark Ruffalo e Chris Evans. Dono das melhores piadas do filme é muito bom ver Downey Jr. bem e sem os exageros que o acometeram em Sherlock Holmes.

Já Tom Hiddlestone continua num crescendo como Loki. Se mesmo na bagunça que era Thor, conseguiu delinear o personagem e tentou transformá-lo em uma criatura tridimensional, aqui esquece um pouco dessa questão, para aprofundar-se como um criador de caso, um sujeito capaz de bagunçar a cabeça dos heróis e do espectador.


Joss Whedon não é um diretor de cinema. Falta a ele um maior cuidado com o tamanho da aventura que quer contar. Peca por excessos típicos da televisão, como o excesso de closes, mas tem ao seu lado uma noção muito boa de ritmo e de como lidar com muita gente em tela. Mesmo engessado pela fórmula - claramente produzida com mão de ferro pela Marvel - que o impede de tentar ousar um milímetro sequer, constrói um terceiro ato saído diretamente das paginas dos quadrinhos, com tudo que o leitor - mesmo aquele eventual - sempre imaginou ver quando pensa num grupo de heróis em combate.

Está lá, a formação em equipe para o fã gritar no cinema, um plano seqüência muito bem feito que - mesmo rápido - dá espaço a todos os personagens brilharem e principalmente a sensação de enormidade, de destruição em massa que um filme com essa premissa deveria ter.

Os Vingadores é o melhor blockbuster de 2012 até agora (o que sinceramente não é grande coisa diante da concorrência) e uma tremenda diversão mesmo com seus problemas. Uma ode ao garotinho de 13 anos dentro de cada um de nós.

PS: NÃO SAIA DO CINEMA antes dos créditos finais acabarem. Uma cena muito legal - especialmente para fãs dos quadrinhos - te aguarda.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Homem de Ferro 2
(Iron Man 2, 2010)
Ação/Aventura - 124 min.

Direção: Jon Favreau
Roteiro: Justin Theroux

Com: Robert Downey Jr., Don Cheadle, Scarlett Johansson, Gwyneth Paltrow, Sam Rockwell, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson

Em 2008, A Marvel Studios surgiu , lançando nos cinemas seu primeiro longa metragem : Homem de Ferro. Tratando-se de um herói Marvel difícil de lidar – afinal Tony Stark não era o perfil esquematizado de super herói – a recém criada produtora surpreendeu muitos com a qualidade elevadíssima do longa que preparou . Tudo deu certo no primeiro filme : os efeitos de primeira linha, um elenco muito bem preparado (Robert Downey Jr é mais Tony Stark do que qualquer um poderia esperar) um diretor com categoria e, principalmente, um roteiro bem feito, que dava uma base sensacional para uma história de origem fidelíssima aos quadrinhos criados por Stan Lee, dosando ação e desenvolvimento de personagens. Devido ao seu sucesso, uma seqüência era inevitável, e necessária , para os planos de união de universos de personagens do estúdio.


Em 2010, Homem de Ferro 2 é lançado, custando 200 milhões de dólares, feito em um período de tempo curto, e gerando muita expectativa. Diante de todos os problemas citados anteriormente, a equipe já sabia por onde trilhar o caminho das pedras- os atores, a trilha, a direção, o tom que dar ao filme – mas o perigo morava no roteiro, a sempre perigosa trama de continuação. Se fosse para um lado de Michael Bay e Cia – aumentar as explosões e piadas e diminuir a história – o filme poderia ser um fracasso. Sendo ele um blockbuster então, a apreensão aumentava. Seria Homem de Ferro 2 um “mais do mesmo” metido a engraçadinho? Não. Definitivamente.


Se o primeiro filme é uma história de origem bem contada, a seqüência é um outro viés do personagem que o introduz num universo maior, tanto dos personagens a sua volta e do seu próprio “mundo” – seus próprios vilões e aliados - quanto do mundo da Marvel em si . A trama começa 6 meses depois da declaração de Tony Stark dizendo que era o Homem de Ferro, com ele à frente de um tribunal que o pressiona para tornar a tecnologia de sua armadura propriedade do governo. A sua grande exposição na mídia mundial recente fez o russo Ivan Vanko (Mickey Rourke), antigo rival da família Stark , sedento de vingança , começar a preparar suas armas para realizá-la . Ao saber da existência de Ivan, o líder das Indústrias Hammer ( Sam Rockwell), concorrente das Indústrias Stark, decide aliar-se a ele, com interesses de dominar e superar a tecnologia do Homem de Ferro original, com a ajuda do russo. Stark precisa superar suas ameaças externas, mas também uma ameaça interna, já que a tecnologia que o mantém vivo começa a intoxicá-lo, a um ponto que pode ser fatal.

O grande prodígio do roteiro muito bem criado por Justin Theroux é se basear nos acertos do filme anterior. Não há uma mudança de clima de um filme para o outro, e não há banalidades. O texto não visa criar ação e pancadaria com uma trama sem identidade, como a de um Transformers 2 .Desde o princípio, o filme segue a mesma linha que até mesmo Christopher Nolan criou em seu último Batman. Depois de uma história de introdução, de origem, o segundo filme serve para demonstrar a evolução do herói, e seguir uma trama própria com seu protagonista já firmado no seu álter-ego. Partindo desse ponto, o filme toma uma constância incrível, sem pontos baixos, durante toda a exibição. Não há partes "inúteis", e toda a luta presente tem um porquê, e não há exageros. Tratando assim suas cenas de ação muito bem filmadas, o filme se torna único, com momentos únicos, tirando qualquer possibilidade do estressante “mais do mesmo” que se vê por aí.


Há também uma melhora inevitável em uma das características do primeiro filme : um ritmo mais acelerado. No primeiro Homem de Ferro, a introdução deixava algumas seqüências mais monótonas, mesmo assim não tirando as qualidades do filme. No 2, o ritmo acelera sem perder os seus significados, sem perder sua essência . O embalo no filme é tamanho, a constância de sua narrativa é tão precisa, sem altos nem baixos, que o final até parece chegar de repente, tamanha a imersão que o filme dispõe aos espectadores. Imersão não criada por efeitos especiais, mas por seu belíssimo desenvolvimento de personagens, situações, e, é claro, ação bem executada.

Mas o filme não seria o mesmo sem – afinal é isso o que, entre outras coisas, mais se esperava do filme- as suas homenagens e referencias aos quadrinhos. A maleta que Tony Stark carregava nos primeiros quadrinhos continha uma armadura dobrável e flexível. Ora, no filme, a própria maleta se desdobra para se transformar na armadura. Hoje em dia, nos quadrinhos mensais, o brilho no meio da armadura é triangular. Pois no filme também se achou um modo de colocar isso, acrescentando por conta uma carga dramática no filme essencial para o personagem, em um momento desacreditado da película. E , é claro, também há uma das particularidades Marvel: a menção aos crossovers. A Shield é um fato relevante na trama. A existência de outros heróis é explícita e as evidências do mesmo, mais ainda. Tudo isso combinado serve para dar o tom do filme dos Vingadores , e essa é uma das funções de Homem de Ferro 2.


Jon Favreau também ajuda muito. Sua direção consegue registrar tudo de maneira eficiente, sem apresentar um estilo próprio, é claro, mas com maneirismos – como a câmera na mão em primeira pessoa , ou os vários zooms a lá J.J. Abrams , já presentes no primeiro filme – que contribuem muito para o estilo e beleza do filme. Somando a isso os efeitos geniais e uma trilha sonora montada que continua com músicas de rock oitentistas – mesmo tendo gasto boa parte delas da primeira vez – e Homem de Ferro 2 não deve nada tecnicamente ao seu predecessor.

É de se notar e portanto, precisa ser dito, que esse é um filme superior ao primeiro , principalmente pelo seu roteiro,que além de ser melhor , cumpre tudo o que promete sem exagerar, construindo seus conceitos de maneira balanceada, e logo, muito interessantes de se ver. Uma continuação que respeite as bases e siga o tom do primeiro filme não é fácil de se encontrar hoje em dia. E se Homem de Ferro é excelente , sua continuação é melhor ainda. Não diria que Homem de Ferro 2 é irretocável, mas que ele chega muito perto desse conceito, com certeza ele chega.