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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Homem de Ferro 3


Homem de Ferro 3
(Iron Man 3, 2013)
Aventura - 130 min.

Direção: Shane Black
Roteiro: Drew Pearce e Shane Black

com: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Ben Kingsley, Guy Pearce, Don Cheadle, Jon Favreau

A maldição da expectativa. Se existem filmes que sofrem desse mal, alguns sequer sobrevivem sem o arfar no cangote de fãs alucinando a cada nova imagem, trailer e pôster divulgado. Fazendo aqui um mea culpa, muito dessa loucura causada por quem divulga (eu, por exemplo) cada nova ação de marketing dos filmes. Mas, espera-se que em pleno século XXI, os fãs (e os curiosos) percebam que tudo é uma estratégia para deixar o espectador salivando por aquilo, e que não é porque o pôster é incrível, as fotos te animam e o trailer te fez arrepiar que o filme vai ser bom. Ou melhor, mesmo com tanta propaganda não o julguem por isso, mas por seus próprios méritos.

Dito isso, vamos a Homem de Ferro 3, um desses exemplos mais claros de filmes fadados a serem consumidos meses antes de sua estreia. Sem Jon Favreau no comando, e com Shane Black (roteirista da serie Máquina Mortífera, O Último Grande Herói e diretor do bom Beijos e Tiros) assumindo a responsabilidade de lidar com o personagem mais rentável e popular da Marvel Studios. A pergunta que todos vocês fazem é: E aí, é bom?

Sim, Homem de Ferro 3 é divertido, mas paremos por aí. Não "explode cabeças", tem problemas diversos na estrutura da narrativa, um excesso de humor que surge em momentos onde ela simplesmente não deveria existir, uma pretensa "seriedade" que soa galhofa demais e alguns elementos que farão os fãs de quadrinho xiita xingarem até a décima geração de Shane Black.



Vamos por partes: Shane Black pega Tony Stark após os eventos vistos em Vingadores e o transforma em um sujeito que não dorme, obcecado na construção de uma infinidade de armaduras e que sofre de uma espécie de ataque de pânico que é repetido a exaustão durante a produção. Stark também se vê mudado pelos eventos do filme citado e questionando sua força, sua real importância como herói e em ultima instancia seu passado, responsável direto pelos acontecimentos desse terceiro filme.

Sem me ater a spoilers, basta dizer que nessa terceira aventura, um Stark pré-filme original comete um erro e o resultado desse erro (de caráter) vem bater a sua porta. Soma-se a uma dificuldade de relacionamento de Tony e Pepper e o cenário está criado para os problemas enfrentados nesse filme.

Shane Black assina o filme de verdade. Diferente do que poderia parecer, Black não age aqui como diretor de aluguel, mas trás seu humor cortante para a produção de forma bastante aguda. Isso quer dizer que o Homem de Ferro usa e verdadeiramente abusa de piadas por todo o tempo. Em comparação direta com os outros filmes, é de longe o filme mais engraçado e que talvez funcione melhor para um público mais multifacetado sem tanto interesse em quadrinhos (e aqui especulo de forma arrogante, admito).



O primeiro Homem de Ferro (de longe o melhor filme da Marvel Studios até aqui, seguido de perto por Vingadores) tem um saudável equilíbrio entre o bom humor - especialmente na figura e na personalidade de Tony Stark, e ótimas sequências de ação, que dão credibilidade aos desafios do personagem em ver-se livre do mal que suas empresas produziam e enfrentam a traição no seio de sua companhia.

Já no segundo, esse elemento de bom humor ainda existe, mas foi suplantado por uma preocupação maior na criação de um vilão - Ivan Vanko/Mickey Rourke - que não é carismático e rumina suas frases sem causar qualquer tipo de impacto. Se tínhamos Sam Rockwell como o outro vilão (mais interessante e carismático) ele acabou sendo deixado de lado, e acrescido ao surgimento do Máquina de Combate e da Viúva Negra, o filme padeceu dos problemas que sempre acabam acometendo filmes com excesso de gente em tela: mau desenvolvimento dos mesmos. Que pese que o filme mantém a qualidade de ação, é um passo atrás em relação aos muitos acertos (de tom principalmente) do filme original.

Já a terceira aventura, como disse é a mais engraçada das três. Tirando inclusive o impacto de diversas cenas de ação com essa mania de a cada segundo precisar justificar a personalidade de Tony Stark. Sabemos que ele é um gozador, sabemos que ele é um sujeito sarcástico e que não se leva a sério (esse é seu charme e grande diferencial em relação a todos os heróis de quadrinhos que o cinema mostrou até aqui), mas precisamos ser lembrados disso a cada cinco minutos? É plausível que em meio a uma batalha, o sujeito simplesmente faça uma piada segundos depois de imaginar que alguém que ele verdadeiramente se importa acaba de morrer? É plausível que cada capanga dos vilões da vez sejam excelente humoristas? É plausível que mesmo nas situações em que o filme tenta criar uma crise (seja de consciência ou simplesmente um evento que precisa ser evitado), sempre exista uma tirada engraçadinha?


Voltemos aos filmes anteriores. Quando Tony era espancado por Obadiah no final do primeiro filme ele fazia piadinhas? Quando foi espancado em Monte Carlo por Vanko, ele saiu-se com uma anedota? Não. Então Black exagera aqui, fazendo do Tony Stark uma versão de armadura de uma comediante. Os traços da personalidade de Stark não justificam esse excesso, principalmente quando essas ideias prejudicam o andamento e tiram o impacto das sequências de ação.

E os problemas de estrutura? Não existe um real impacto na trama. Seguindo o mal da maioria dos quadrinhos de heróis, nada de fato muda. Black brinca de cubo mágico aqui. Pega a estrutura pronta de Favreau/Whedon (diretor de Vingadores), muda as peças de lugar e inverte as cores para no fim, de fato, mudar quase nada. Sim, existe aqui um sentimento de final de trilogia, e me pergunto por quê? Seria Downey Jr. dando adeus ao personagem? Emulando os quadrinhos, esse seria o fim de um arco? Se formos pensar assim, porque ignorarmos elementos plantados ali no primeiro filme? A tal irmandade dos 10 anéis, que era tão poderosa no primeiro Homem de Ferro, ressurge aqui nas mãos do vilão Mandarim, mas de uma forma completamente distorcida, por exemplo.

As cenas finais do filme (não se preocupem, não vou contar) explicitam essa intenção quase Batman de Christopher Nolan de passar o bastão, para nos momentos finais mudar de ideia. Então para que seguir por esse caminho? Como disse, Black pega seu cubo mágico,  gira, mexe e remexe e no fim deixa-o como encontramos antes. Todo o mal perpetrado enfim, não serve de muita coisa. Nem mesmo as ideias que ele mesmo planta (o tal surto de ansiedade) tem um final digno.


E chegamos àquilo que deve (de novo, me dou o direito de especular aqui) irritar os fãs mais xiitas do Homem de Ferro. Na mitologia do herói, o Mandarim é seu nêmesis. Seu Coringa, seu Lex Luthor, seu Doutor Octopus (ou Duende Verde), seu Loki, enfim... aquele sujeito que realmente dá trabalho ao herói.

Falando do ponto de vista quadrinhístico, e aqui confesso não ser um leitor do personagem, mas conheço um pouco sua mitologia, Black faz algo parecido com o que Joel Schumacher fez com Duas Caras em Batman Eternamente (pra ficar num exemplo). Deu medo né? Mas calma, apesar do Mandarim que vemos em tela não ser exatamente aquele que o público imagina, ele funciona muito bem. Isso me leva ao questionamento que fiz no inicio desse texto sobre expectativa. Durante todos os trailers e pôsteres, a figura do Mandarim de Ben Kingsley serviu como símbolo do poder e do mal. O departamento de marketing da Marvel agiu de forma brilhante aqui, e assim como acontece na trama do filme, despistou completamente os fãs (e leigos) sobre o que de fato é sua trama e de que forma o Mandarim funciona na produção e isso leva a reflexão do ponto de vista cinematográfico. Nesse sentido, o Mandarim é maravilhoso, talvez a grande sacada do estúdio Marvel até aqui. Uma ideia tirada da cartola que o aproxima do mundo real e cria uma discussão curiosa e bastante válida em uma produção com interesses meramente escapistas (não é um demérito tá gente, é só uma constatação, afinal ninguém vai ver um filme do Homem de Ferro esperando uma discussão sobre o universo, não é?). Estou verdadeiramente curioso para ver (e ler) as reações do público em relação a esse personagem. De minha parte, fica o aplauso a ousadia da equipe do filme.

Downey Jr. conhece o personagem como ninguém (usando um lugar comum). Por isso, dizer que ele novamente acerta em cheio como aquele playboy redimido cheio de marra é chover no molhado. Ben Kingsley como o citado Mandarim está no mesmo nível de Downey Jr., divertindo-se com os elementos visuais e com o uso da linguagem por seu personagem. Guy Pearce faz de Aldrich Killian, um Tony Stark sem charme, o que para a historia contada é funcional, enquanto Don Cheadle volta à carga como um Rhodes menos sisudo. Enquanto Gwyneth Paltrow tem mais destaque emocional, sendo a real motivação para quase tudo que Stark faz na trama.


Em termos de ação, a coisa funciona novamente muito bem. Que pese a quantidade inacreditável de armaduras (que a gente sabe servem para vender toneladas de brinquedos) e que de fato só acabam sendo usadas de forma efetiva em uma cena, a antecipada cena de destruição da mansão de Stark é muito boa, assim como (minha favorita) a que envolve um salvamento de uma serie de pessoas em pleno ar. Como em todo filme de quadrinho que se preze, uma gigantesca sequência final aqui também se faz presente e ela é divertida, explosiva e repleta de gadgets (no caso armaduras). Tudo bem construído, fugindo do "piscou-perdeu" embora envolva uma quantidade obscena de personagens e uma montagem frenética. O mesmo vale para a citada sequência do avião, onde o sentido de urgência é evidenciado pela dificuldade em executar o salvamento.

Homem de Ferro 3 é uma aventura divertida e só. Talvez seja na medida do que de fato esse tipo de produção deva ser, mas diante de um primeiro filme impactante e vindo do mega sucesso de Vingadores, era de se esperar que Tony Stark tivesse seu primeiro arco no cinema (se é que se pode dizer assim) melhor arrematado. Diverte, entretém, faz rir, mas está longe do que o personagem e a Marvel mostraram poder fazer com o herói.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Contágio
(Contagion, 2011)
Drama/Thriller - 106 min.

Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns

Com: Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, John Hawkes, Marion Cotillard, Elliot Gould e Bryan Cranston

Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) está doente. Ela acha que está com Jet lag, mas parece permanecer com mal estar mesmo muito tempo depois. O mesmo se pode dizer de Li Fai, que achou que o mal estar não era nada grave. Isso até atravessar a rua sem olhar. Em Tóquio, um homem cai desesperado e se debatendo em um ônibus. Mas os problemas só começam quando percebemos que Beth tocou seu filho, Li Fai tocou sua irmã e o japonês tocou muitas pessoas no ônibus. Inicia-se o horror do apocalipse.

Steven Soderbergh, o excelente diretor de Onze Homens e Um Segredo, o novo Solaris e Traffic, conduz aqui um instigante panorama de como todos são afetados pelo fim do mundo. Interessado não apenas no lado emocional ou no lado político de um contágio, Soderbergh e o roteirista Scott Z. Burns mesclam todas as vertentes possíveis, dando um panorama completo sobre a infecção viral. Assim como Traffic funcionou para apresentar o esquema das drogas na América do Norte, Contágio vai além ao mostrar a reação do mundo inteiro.




Ágeis na medida certa, os 106 minutos de Contágio tem um trunfo imenso ao contar com uma montagem soberba de Stephen Mirrione (colaborador frequente de Soderbergh), que torna essa metragem mais longa do que parece. A novidade, porém, é que não é por falta de ritmo e sim pela quantidade exorbitante de informações agrupadas em tão pouco tempo. Sempre encontrando a melhor maneira de agrupar informações rápido, Soderbergh e o roteirista Burns colocam constantemente na tela, dados sobre a população das cidades em que o filme se passa. As pequenas cenas que mostram algum processo científico do contágio (a transmissão, a pesquisa para uma vacina, a reação do mundo a alguma descoberta, etc) também se destacam pela frieza com que são apresentadas, sempre embaladas pela ótima trilha eletro-minimalista de Cliff Martinez ao mostrar com um realismo chocante o que aconteceria se aquilo fosse verdade. Em comparação, os absurdos meteoros caindo do céu em 2012 não são nada perto do temor ao toque em Contágio.

A campanha publicitária do filme diz que: "Nada se espalha como o Medo". A frase é pertinente, mas não totalmente correta. A palavra se espalha tão ou mais que o medo. O que nos leva ao núcleo de Alan Krumwiede (Jude Law, á vontade), blogueiro mundialmente conhecido que tem que funcionar como mediador entre o governo e o público, ainda que tenha sérias dúvidas sobre a veracidade dos fatos ali apresentados pelas grandes empresas. No núcleo de Alan, temos algumas das melhores discussões do filme, como a brilhante cena da entrevista na TV, envolvendo Laurence Fishburne. Urgente e precisa, a cena ainda cita de diversas formas a esfera da internet, provando diversos fatos pelos comentários em redes sociais. Além de tornar a película ágil e cheia de informações, ainda torna o discurso atual e verossímil, o que é essencial para um filme que se propõe a dar um ultra-realista panorama para o apocalipse.




A boa organização das informações científicas, fruto da excelente edição de Mirrione, também consegue dar espaço para os dramas humanos, o que torna Contágio mais eficaz do que se havia proposto. Em tese, era provável termos um filme frio, técnico, mas que justamente por se assumir como tal, seria ótimo. Mas ao mostrar a dor e dilemas de cada um dos envolvidos, seja do núcleo do povo ou do núcleo científico, Contágio ganha emoção e verossimilhança no desenvolvimento dos personagens. Quando vemos Mitch (Matt Damon, seguro) sozinho, vendo fotos tristes, é tocante. Assim como quando acompanhamos Ellis (Fishburne) sozinho após uma trágica notícia (e Soderbergh ainda é eficaz ao afastar a câmera, dando a sensação de isolamento que é desesperadora em um apocalipse). 

Claro que os dramas pessoais não têm tanto espaço quanto as explicações científicas, mas é notável observar que o filme transita gêneros sem se abalar, indo do drama intimista (a passagem de Kate Winslet contando ao personagem de Matt Damon sobre a esposa é ótima) ao documentário científico, passando por uma eficaz subtrama policial, para a descoberta de onde foi o foco da doença. Tudo isso transitando entre fotografias, como Soderbergh fez em Traffic. No filme de 2000, a função das fotografias diferenciadas era mais pertinente, mas em Contágio torna os núcleos diferentes bem definidos e ainda dá uma estética arrojada ao projeto, que já tem nos criativos ângulos da câmera de Soderbergh (repare na cena do cassino, com Beth) uma beleza visual marcante.




Essa opção de "abraçar o mundo" poderia matar Contágio de dentro para fora, mas não chega nem perto. Nas mãos de outro diretor ou roteirista, teríamos um filme que muito almeja, passando por diversos gêneros, e ficando na superfície de tudo. Porém, Soderbergh e Burns são felizes ao conduzir o realismo desejado a um choque com o público, como a falta de atendimento médico devido a uma greve de enfermeiras ou o disk-doença, que introduz a absurda burocracia do nosso mundo atual em um cenário de desastre. E pensar que você pode perder um ente querido apenas por ter que responder inúteis perguntas é mais desesperador que qualquer objetivo aventuresco para salvar sua vida, como em O Dia depois de Amanhã. 

A progressão geométrica utilizada para medir o raio de contágio dá uma noção boa do desastre, sem precisar ser didático demais em certas passagens. O caráter político de diversas cenas, como o sequestro da personagem de Marion Cotillard, também é eficaz para abranger mais ainda a visão do filme.




Lembrando Ensaio sobre a Cegueira em sua abordagem da população, Contágio ganha em sua metade um novo horizonte interessante. É a partir dali que vemos a bem desenvolvida morte de um indivíduo importante, a população em desespero por uma vacina ou uma das interessantes passagens clipadas, que agora mostra grandes cidades e lugares (como um aeroporto) vazios, o que causa desespero notável. Os saques feitos nas casas de civis são previsíveis, por isso nem é tão necessário mostrá-los. Ao restringir-se a sugerir os saques em grande quantidade, Soderbergh demonstra sensibilidade ímpar no que seu filme deve passar.

Os contornos de filme de infecção, em teoria esquemáticos, nunca se sentem em Contágio. Não interessados apenas no fim da sociedade, Soderbergh e Burns contam o pré, o apocalipse e o pós-apocalipse. Nisso, Contágio perde um pouco de seu possível nível alarmante dos fatos, já que ao ser realista, não deixa brechas para um final apoteótico, assim como em Traffic não deixava. A análise e construção é muito mais importante do que meros atalhos para a ação. Ainda que escape aqui e ali algumas lições desnecessárias (como a indignação de Leonora ao descobrir os placebos), Contágio se firma como um dos melhores filmes de Soderbergh e o mais interessante dos filmes de infecção viral até hoje.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Homem de Ferro 2
(Iron Man 2, 2010)
Ação/Aventura - 124 min.

Direção: Jon Favreau
Roteiro: Justin Theroux

Com: Robert Downey Jr., Don Cheadle, Scarlett Johansson, Gwyneth Paltrow, Sam Rockwell, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson

Em 2008, A Marvel Studios surgiu , lançando nos cinemas seu primeiro longa metragem : Homem de Ferro. Tratando-se de um herói Marvel difícil de lidar – afinal Tony Stark não era o perfil esquematizado de super herói – a recém criada produtora surpreendeu muitos com a qualidade elevadíssima do longa que preparou . Tudo deu certo no primeiro filme : os efeitos de primeira linha, um elenco muito bem preparado (Robert Downey Jr é mais Tony Stark do que qualquer um poderia esperar) um diretor com categoria e, principalmente, um roteiro bem feito, que dava uma base sensacional para uma história de origem fidelíssima aos quadrinhos criados por Stan Lee, dosando ação e desenvolvimento de personagens. Devido ao seu sucesso, uma seqüência era inevitável, e necessária , para os planos de união de universos de personagens do estúdio.


Em 2010, Homem de Ferro 2 é lançado, custando 200 milhões de dólares, feito em um período de tempo curto, e gerando muita expectativa. Diante de todos os problemas citados anteriormente, a equipe já sabia por onde trilhar o caminho das pedras- os atores, a trilha, a direção, o tom que dar ao filme – mas o perigo morava no roteiro, a sempre perigosa trama de continuação. Se fosse para um lado de Michael Bay e Cia – aumentar as explosões e piadas e diminuir a história – o filme poderia ser um fracasso. Sendo ele um blockbuster então, a apreensão aumentava. Seria Homem de Ferro 2 um “mais do mesmo” metido a engraçadinho? Não. Definitivamente.


Se o primeiro filme é uma história de origem bem contada, a seqüência é um outro viés do personagem que o introduz num universo maior, tanto dos personagens a sua volta e do seu próprio “mundo” – seus próprios vilões e aliados - quanto do mundo da Marvel em si . A trama começa 6 meses depois da declaração de Tony Stark dizendo que era o Homem de Ferro, com ele à frente de um tribunal que o pressiona para tornar a tecnologia de sua armadura propriedade do governo. A sua grande exposição na mídia mundial recente fez o russo Ivan Vanko (Mickey Rourke), antigo rival da família Stark , sedento de vingança , começar a preparar suas armas para realizá-la . Ao saber da existência de Ivan, o líder das Indústrias Hammer ( Sam Rockwell), concorrente das Indústrias Stark, decide aliar-se a ele, com interesses de dominar e superar a tecnologia do Homem de Ferro original, com a ajuda do russo. Stark precisa superar suas ameaças externas, mas também uma ameaça interna, já que a tecnologia que o mantém vivo começa a intoxicá-lo, a um ponto que pode ser fatal.

O grande prodígio do roteiro muito bem criado por Justin Theroux é se basear nos acertos do filme anterior. Não há uma mudança de clima de um filme para o outro, e não há banalidades. O texto não visa criar ação e pancadaria com uma trama sem identidade, como a de um Transformers 2 .Desde o princípio, o filme segue a mesma linha que até mesmo Christopher Nolan criou em seu último Batman. Depois de uma história de introdução, de origem, o segundo filme serve para demonstrar a evolução do herói, e seguir uma trama própria com seu protagonista já firmado no seu álter-ego. Partindo desse ponto, o filme toma uma constância incrível, sem pontos baixos, durante toda a exibição. Não há partes "inúteis", e toda a luta presente tem um porquê, e não há exageros. Tratando assim suas cenas de ação muito bem filmadas, o filme se torna único, com momentos únicos, tirando qualquer possibilidade do estressante “mais do mesmo” que se vê por aí.


Há também uma melhora inevitável em uma das características do primeiro filme : um ritmo mais acelerado. No primeiro Homem de Ferro, a introdução deixava algumas seqüências mais monótonas, mesmo assim não tirando as qualidades do filme. No 2, o ritmo acelera sem perder os seus significados, sem perder sua essência . O embalo no filme é tamanho, a constância de sua narrativa é tão precisa, sem altos nem baixos, que o final até parece chegar de repente, tamanha a imersão que o filme dispõe aos espectadores. Imersão não criada por efeitos especiais, mas por seu belíssimo desenvolvimento de personagens, situações, e, é claro, ação bem executada.

Mas o filme não seria o mesmo sem – afinal é isso o que, entre outras coisas, mais se esperava do filme- as suas homenagens e referencias aos quadrinhos. A maleta que Tony Stark carregava nos primeiros quadrinhos continha uma armadura dobrável e flexível. Ora, no filme, a própria maleta se desdobra para se transformar na armadura. Hoje em dia, nos quadrinhos mensais, o brilho no meio da armadura é triangular. Pois no filme também se achou um modo de colocar isso, acrescentando por conta uma carga dramática no filme essencial para o personagem, em um momento desacreditado da película. E , é claro, também há uma das particularidades Marvel: a menção aos crossovers. A Shield é um fato relevante na trama. A existência de outros heróis é explícita e as evidências do mesmo, mais ainda. Tudo isso combinado serve para dar o tom do filme dos Vingadores , e essa é uma das funções de Homem de Ferro 2.


Jon Favreau também ajuda muito. Sua direção consegue registrar tudo de maneira eficiente, sem apresentar um estilo próprio, é claro, mas com maneirismos – como a câmera na mão em primeira pessoa , ou os vários zooms a lá J.J. Abrams , já presentes no primeiro filme – que contribuem muito para o estilo e beleza do filme. Somando a isso os efeitos geniais e uma trilha sonora montada que continua com músicas de rock oitentistas – mesmo tendo gasto boa parte delas da primeira vez – e Homem de Ferro 2 não deve nada tecnicamente ao seu predecessor.

É de se notar e portanto, precisa ser dito, que esse é um filme superior ao primeiro , principalmente pelo seu roteiro,que além de ser melhor , cumpre tudo o que promete sem exagerar, construindo seus conceitos de maneira balanceada, e logo, muito interessantes de se ver. Uma continuação que respeite as bases e siga o tom do primeiro filme não é fácil de se encontrar hoje em dia. E se Homem de Ferro é excelente , sua continuação é melhor ainda. Não diria que Homem de Ferro 2 é irretocável, mas que ele chega muito perto desse conceito, com certeza ele chega.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Amantes
(Two Lovers, 2008)
110 min. - Drama

Direção: James Gray
Roteiro: James Gray e Ric Menello

Com: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw

Indicado a Palma de Ouro em Cannes (James Gray)

Quando James Grey anuncia algum novo filme, é sempre de se esperar aquele esquema: Temática familiar, fotografia pesada e com tons de noir e uma direção que trata os protagonistas como pessoas normais diante da situação do filme.Juntando o romance na moda com sua trama familiar, James Grey se consolida como ótimo diretor de drama.


Ele põe todos os seus fatores rotineiros e coloca com eles um roteiro sincero, com situações possíveis, diálogos ágeis e muito clima pesado, típico dos problemas familiares.Leonard(Joaquin Phoenix) é um homem que ainda vive com os pais e trabalha na tinturaria deles. Ele está extremamente infeliz, como se vê no primeiro frame(uma cena delicada de ser interpretada, que causa estranheza inicial).


Logo depois, descobrimos que toda essa tristeza é causada pelo amor, principalmente o de sua noiva que o largou.Mas Leonard vê uma oportunidade do amor retornar em sua vida quando ele conhece Sandra(Vinissa Shaw) em uma reunião familiar dos pais deles.


A partir daí, se descobre que Sandra está gostando de Leonard e quer que ele recupere a alegria. Caminhando para essa relação, Leonard então conhece Michelle(Gwyneth Paltrow), sua vizinha. O jeito novo, liberal e descompromissado dela o encanta e ele aí fica em dúvida sobre o que ele irá fazer.Para esse denso drama, Grey escalou um elenco soberbo. Joaquin Phoenix, em seu possível último trabalho, encarna com maestria o abobado Leonard. Leonard é tão esquisito que alguns no filme chegam a cogitar se ele tem sanidade mental ou não. Méritos para Phoenix, ator muito acima da média.


Gwyneth Paltrow dá tudo de si para interpretar a intensa Michelle. Sua personagem é complicada, triste, determinada e, definitivamente, não consegue saber o que quer. Gwyneth faz tudo isso parecer normal.


A desconhecida Vinissa Shaw atua com uma naturalidade enorme, passando tudo o que está sentindo para todos. Diferente de Michelle, Sandra é segura, feliz e é fácil de entender.Todos os coadjuvantes atuam bem, mas são ofuscados pelos ótimos protagonistas, o que é normal aqui, tamanha a qualidade do elenco.Nos quesitos técnicos, Grey "exagera" na qualidade de direção.


Ele filma os atores com closes constantes, o que deixa o filme perturbador em alguns pontos. A agonia dos personagens é transmitida para o público de forma sutil. A direção de fotografia de Joaquin Baca-Asay é precisa e com os tons de noir conhecidos dos filmes de Grey. Mas aqui o noir não é relacionado ao cinema de crimes, de suspense. Aqui o noir é mostrado para demonstrar diferentes reações dos personagens, principalmente de Leonard. Quando ele está no telhado, com Michelle, a fotografia é mais clara, com posições de câmera em ângulos abertos, retratando a liberdade.


Quando ele está com Sandra, o clima é escuro, com a câmera registrando o ambiente de forma sufocante, retratando a limitação do local, como se Leonard estivesse preso á aquilo. A edição de John Axelrad é boa, dando um ritmo nada apressado a trama.


O roteiro, de Grey e Richard Menello, é um achado. Com diálogos pesados, arrastados e cheios de culpa, o roteiro se sobressai da maioria, criando algo realmente único. É raro ver situações e diálogos sendo retratados de forma tão honesta e real. Situações, como a que Leonard sai da boate com Michelle, são bonitas de se ver. Quando Michelle chora ao retratar a sua realidade, fica evidente que Grey tomou cuidado em dar rumos ousados á sua trama. O próprio final representa essa ousadia.


Com Two Lovers, Grey não quis fazer o convencional. Ele resolveu ir contra a maioria, ávida por comédias-românticas. Ele resolveu voltar as raízes do romance bem executado e cativante. As cenas amorosas são bonitas e muito mais críveis que numa comédia romântica.


A partir de Two Lovers, eu irei confiante a qualquer sessão de filmes de James Grey e, principalmente, eu irei querer mais romance competentes como esse.

TRAILER: