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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ameaça Profunda

Ameaça Profunda

(Underwater, 2020)

Direção: William Eubank
Roteiro: Brian Duffield e Adam Cozad

com: Kristen Stewart, Vincent Cassel, T.J. Miller, Jessica Henwick, John Gallagher Jr, Mamoudou Athie

A expressão "guilty pleasure" é daquelas expressões complicadas de realmente explicar. Muita coisa classificada pela maioria, como boa ou mesmo excelente, acaba entrando nessa categoria, quando de fato, o tal "prazer culposo" é muito mais relacionado a obras que você como espectador/leitor tem uma ligeira (ou total) consciência de que não e lá grande coisa. A história pode não prender, os personagens podem ser odiáveis, o ritmo com mais lombada que as ruas perto de casa, ou simplesmente não ser tudo isso. Não dá para um filme nessa categoria ser aclamado por público e crítica. Ele precisa estar sob o radar, navegando incólume a atenção das pessoas. 

É o caso desse Ameaça Profunda, filme de 2020 lançado ali na pandemia e que passou batido, pouca gente viu, menos ainda falou sobre e foi derramado ai nos streamings na vida (hoje está no Disney+). 

E o que faz dele pra mim. um guilty pleasure?

A mistura desbalanceada, mas divertida entre ser um sub-Alien e uma história lovercraftiana.
A trama acompanha a personagem da Kristen Stewart (Norah) e mais um grupo de marinheiros que trabalham numa estação abaixo do mar (mas assim, muito abaixo do mar, quase roçando o fundo do fundo) e sofrem um acidente e precisam sobreviver. 

No começo tudo parece um acidente causado por falha mecânica ou algum fator explicável pela mente humana, porém com o decorrer a trama a coisa vira o tal sub-alien lovercraftiano. 

O filme é bem tenso, deverás escuro, com efeitos espertos e que se aproveitam demais do ambiente sombrio para serem efetivos. Os personagens não tem lá muito tempo de desenvolvimento, uma vez que o ritmo da história é de um Fórmula 1 em plena reta, sendo intenso do inicio ao fim. Kristen Stewart que protagoniza o filme entra bem no estilo "poucas palavras-muita ação" uma vez que ela está sempre precisando resolver alguma coisa ou consertar algo ou salvar a vida de alguém. 

O que não torna o filme inesquecível é que essa fórmula é conhecidíssima e se você já viu Alien ou qualquer slasher dos anos 80, já entende que você tem ali o estereótipo de final girl, os sacrifícios necessários e a vilanização da corporação sem rosto. Isso faz da experiência bastante previsível de sua metade em diante, o que não tira o brilho da boa execução, tirando ai o fato do filme ser escuro demais, o que incomoda em alguns momentos. 

A gente tá muito acostumado, principalmente pelo preço dos ingressos, a usar muito o fígado para "julgar" arte. Ou ela precisa ser brilhante ou ela é uma porcaria. Isso cria uma floresta de filmes medianos, divertidinhos e que não comprometem a experiência meio que abandonados. Sorte que, diferente de quando esse blog publicou sua última crítica, tem uns duzentos streamings para que esses filmes possam ser vistos.




quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Eu vi - Sobrenatural 2

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.


Sobrenatural 2
(Insidious: Chapter 2, 2013)
Direção: James Wan
Roteiro: Leigh Whannell
com: Patrick Wilson, Rose Byrne, Ty Simpkins, Barbara Hershey

O primeiro Sobrenatural foi um dos filmes de terror mais interessantes dos últimos anos. Certamente, até o lançamento de "The Conjuring", o mais bacana realizado em terras americanas e que ganhou distribuição nos cinemas de uma forma mais massiva. A trama onde um garoto é atormentado por essa entidade bizarra e que levava seu pai a entrar no mundo dos sonhos (ou algo assim) para resgatar sua alma funcionou muito bem justamente por não tentar inventar a roda e manter-se seguro na "zona de conforto" do gênero.

A segunda história começa exatamente onde o primeiro terminou. Sim, é bem importante que o espectador tenha visto, ou veja, o primeiro antes de partir para essa sequência. Sem dar muitos spoilers, digo que o final da trama do primeiro filme é o mote dessa segunda. O que de fato aconteceu nesse mundo de sonhos? A partir dai o roteiro de Leigh Whannell e a direção de James Wan vão e voltam no tempo explicando o presente e o passado de alguns personagens numa tentativa de racionalizar toda aquela experiência (com o perdão do trocadilho infâme) sobrenatural.

Funciona em alguns momentos, mas o filme força a barra quando tenta criar paradoxos temporais e dar uma profundidade muito grande a tudo aquilo. Por outro lado, subverte as expectativas quanto ao vilão da primeira história o que garante algumas surpresas. O clima soturno continua marcando presença embora o ar de investigação dê ao filme uma dimensão maior e que por vezes, atrapalha o clima de terror. James Wan acertou três produções em sequência, e por mais que os filmes não sejam revolucionários e afins, divertem e conseguem atingir os objetivos primordiais do gênero.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Festival do Rio: Sapi


Sapi
(Sapi, 2013)
Terror - 102 min.

Direção: Brillante Mendoza
Roteiro: Henry Burgos

com: Dennis Trillo, Meryll Soriano, Baron Geisler

Brillante Mendoza foi premiado por diversos festivais. Já ganhou Palma de Ouro, inclusive. Com a credibilidade de diretor das Filipinas mais conhecido internacionalmente (junto à Lav Diaz), Mendoza se aventurou pela primeira vez em um filme de horror. A direção focada em câmera na mão, com muito naturalismo e tentativa de emular o documental, já é conhecida em sua carreira. Porém, aqui o trabalho de câmera gradativamente se revela primário - e a boa (ou má) notícia é que, pelo menos, o roteiro é igualmente abominável.

Sapi começa envolvente. A atmosfera sombria, capturada por um digital feio e sem cores vivas, concede um teor documental forte para onde o filme se passa o que casa com o duelo jornalístico que moverá a trama. Mendoza se esforça para encaixar os primeiros traços fora do comum naquele ambiente, como a cobra no estúdio ou a violenta chuva constante, o que agrada na introdução. O filme mostra Manila como uma cidade caótica, suja e super populosa, casando bem com a proposta.

E quando o roteiro de Henry Burgos começa a revelar sua estrutura, e Sapi se transforma num intragável filme de horror, que soa esdrúxulo a cada virada de trama. A estética, antes moderadamente condizente com a proposta, vai se afetando cada vez mais. O filipino parece ter contratado um diretor de fotografia amador, que mal consegue enquadrar atores direito, beirando a sátira em diversas passagens. As cenas de possessão são criadas com tamanha falta de criatividade que qualquer um que tenha assistido um terror barato na vida já consegue prever os rumos da cena. Não adianta nada Mendoza tratar o sobrenatural como algo comum no noticiário se, durante o ato em si, vai florear seu trabalho de câmera até torná-lo incompreensível.




Quando a desgraça toma conta, e a realidade é plenamente afetada pelo Mal, Burgos abandona qualquer coerência estrutural. O roteiro já parecia desfocado demais (Sapi fala sobre possessões ou os "perigos do jornalismo"?) no início, mas seu segundo ato generaliza a bagunça. Basicamente, o roteiro se propõe apenas a mostrar seus personagens, por uns quarenta minutos, sofrendo diversos sustos pregados por quem-se-importa. Mendoza resolve apostar na tensão filmada que mesmo Atividade Paranormal já usava como clichê: portas se abrem barulhos estranhos pela casa, virada dramática do protagonista para a câmera; é o mesmo fantasma estúpido da cinessérie, que parece muito concentrado na tarefa de bater as portas dos cômodos.

Estourando o som sempre que pode, exagerando na pavorosa trilha sonora, Mendoza ainda faz parecer que Sapi é algum especial de TV tosco, com seus inúmeros (infinitos) establishment shots na emissora e noção nula de mise-en-scene (a mesa se consertou sozinha? Flores estava na cena da demissão?).

Um apanhado de cenas desconexas, procurando choque em humor involuntário (cobra entre as pernas), usando até mesmo o som de maneira preguiçosa. Grosseiro e inexplicavelmente sisudo. 


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Invocação do Mal

Invocação do Mal
(The Conjuring, 2013)
Terror/Thriller - 112 min.

Direção: James Wan
Roteiro: Chad Hayes e Carey Hayes

com: Vera Farmiga, Lili Taylor, Patrick Wilson, Ron Livingstone

Incensado (com razão) graças ao ótimo trabalho realizado em Sobrenatural, o diretor James Wan, vive um momento bastante feliz em sua carreira. Responsável pelo primeiro -e melhor - dos Jogos Mortais, o diretor tem a sequência de Sobrenatural estreando em breve mundo afora e o controle sobre a franquia Velozes e Furiosos que se mostra assustadoramente assertiva e lucrativa. Wan está caminhando para se consolidar com um dos poucos diretores do mainstream americano que assinam suas obras com características únicas.

Invocação do Mal prova seu talento para o gênero. Baseado em uma história real acontecida em 1971, o roteiro dos irmãos Chad e Carey Hayes acompanha a família Perron que acaba de se mudar para uma casa em meio à zona rural do estado americano de Rhode Island. Ao mesmo tempo, também apresenta os investigadores sobrenaturais Ed e Lorraine, um casal que ganha a vida descobrindo fraudes sobrenaturais ou enfrentando ameaças do além. O grande acerto do filme é de não ignorar um mínimo de lógica em suas ações mesmo lidando com um gênero em que a suspensão de descrença é fundamental. Ao apostar em duas linhas narrativas paralelas, o filme amplia seu foco, e dá destaque tanto aos moradores da casa amaldiçoada como aos caçadores, sem se esquecer de não fazer perguntas às quais não conseguiria uma resposta minimamente convincente.

James Wan tem completo domínio sobre a história que quer contar. É capaz de numa mesma produção ir do suspense psicológico típico de produções do subgênero "casa assombrada", com uso do som e das sombras para infligir medo no espectador, sem esquecer de apresentar cenas de impacto gráfico com alguma constância. Essa dificuldade de previsão que o público tem diante de uma produção que consegue com grande competência transitar pelo terror mais gráfico e o mais subjetivo é o que fez com que a produção ganhasse a comparação - a meu ver justa - com produções setentistas que mesmo com recursos financeiros muito menores, não tinham medo de "chocar" o espectador quando viam a necessidade. Ao mesmo tempo em que construíam um clima de tensão constante que pregava o espectador na cadeira, ansioso pela resolução da trama.



Durante quase toda a projeção é esse sentimento que Invocação do Mal nos faz sentir. Com pouquíssimo espaço para o público recobrar o fôlego, o filme embarca em uma espiral de constante tensão apesar de sua trama não ter legitimamente nenhuma novidade. Mistura casa mal assombrada, investigação parapsicológica, objetos amaldiçoados, fantasmas, crianças macabras, serial killers, médiuns e ainda arruma espaço para incutir traumas nos personagens principais. E milagrosamente nada parece fora do eixo.

Mas, Invocação do Mal não é perfeito. Incomoda-me a resolução que opta por um simplismo incomodo, não em relação às respostas dadas pelo filme aos seus questionamentos, mas a forma acelerada demais com que Wan os resolve. Por outro lado, é impossível não sentir-se impressionado com o visual e o acerto na construção dessas referidas cenas finais.

Como também é impossível não se sentir impressionado com a reconstrução de época (já que o filme é supostamente baseado em fatos reais) e nos objetos de cena. O que nos leva a macabra boneca Annabelle, um daquelas "personagens" que já estão no hall de criaturas inesquecíveis do cinema, ao lado do boneco Chucky, por exemplo. A curiosidade macabra me leva a querer saber mais "aventuras" com a misteriosa boneca. De onde ela veio? Quem teria sido seu primeiro dono?



Assim como a boneca impressiona, todo o porão dos Warren, onde uma centena de objetos do tipo está guardada poderia gerar uma infinidade de sequências, somente focando-se nas aventuras do casal de investigadores. Teria, James Wan encontrado uma nova franquia? E se sim, por onde começar? Com outras histórias do casal real? As possibilidades são infinitas.

Vera Farmiga e Lili Taylor roubam a cena como as reais protagonistas do filme. Se a médium de Vera é uma mulher essencialmente enfraquecida por suas escolhas de vida e que ela considera uma verdadeira missão, Lili é uma mãe em busca de soluções para os problemas em sua casa. Patrick Wilson tenta de todas as formas tirar o peso das costas de sua mulher e funciona como apoio racional da trama, enquanto o personagem de Ron Livingstone, o pai da família, é coadjuvante dentro da própria casa, tomado por sua mulher e suas muitas filhas, aliás uma ideia inteligente e bastante pertinente em um mundo machista como o nosso: dar força e fazer das personagens femininas fundamentais para a trama funcionar. Além de Farmiga e Lili Taylor, a filha do casal de investigadores (Judy/Sterling Jerins) e Christine (uma das muitas filhas dos Perron), que se transforma no elo entre os eventos fantasmagóricos e a realidade.

Invocação do Mal não me causou o mesmo frio na espinha que Sobrenatural havia me causado, mas, acho-o mais competente que o filme citado e mais polido. Wan melhorou como contador de histórias e o roteiro que tem em mãos apresenta maiores nuances e personagens mais bem desenvolvidos e com arcos mais bem definidos. Se não "assusta" como o seu filme anterior tem uma história melhor que mistura terror setentista (pelo clima e ambientação) com técnicas modernas conseguindo criar uma ilusão de suspense constante e energética.


sábado, 7 de setembro de 2013

O Segredo da Cabana
(Cabin in the Woods, 2012)
Terror - 95 min.

Direção: Drew Goddard
Roteiro: Joss Whedon, Drew Goddard

com: Chris Hemsworth, Richard Jenkins, Bradley Whitford, Kristen Connolly

É quase um acontecimento cósmico. Um filme de terror feito nos Estados Unidos, que não é um remake, não se parece com outros cinquenta outros e que é bastante divertido e original. Apesar de não ser a "última bolacha do pacote", O Segredo da Cabana é muito eficiente e principalmente, bastante surpreendente.

Partindo de um conceito muito bom e que parece ter saído de um quadrinho da Vertigo ou afins, a ideia de Joss Whedon e Drew Goddard é criar toda uma historia por trás da historia, criando uma mitologia para aquilo que a principio parece muito simples na tela. E para tal, usam como bode expiatório, o cinema de terror, mas especificamente a trama dos garotos cheios de hormônio numa cabana na floresta.

Os grandes astros do filme são Richard Jenkins e Brad Whitford, sensacionais como "deuses" de um mundo de mentira. É complicado contar sobre o que versa Segredo da Cabana, que diversos coleginhas vão pixar e dizer que se vale apenas de uma piada sendo contada a repetição. De fato, o que faz o filme ser interessante é toda essa questão farsesca, que - se por um lado - destrói os "possíveis" choques causados pela história na cabana, transforma cada nova cena em uma possibilidade nova para os criadores brincarem com a trama que tem em mãos.



É curioso notar como, o que poderia ser detestável em uma produção comum do gênero acaba ajudando na concepção do clima da historia. O "canastrismo" dos atores jovens que vivem os adolescentes na tal cabana é perfeito para os titeteiros brincarem com sua condição emocional. Numa metalinguagem exacerbada, o filme se propõe a explicar comportamentos óbvios de personagens de diversas produções do gênero de forma sempre bem humorada, que bebe no humor sarcástico e negro das produções de terror de Sam Raimi, em especial na catarse coletiva que marca o último ato da produção.

Visualmente o filme é muito bem realizado, tanto no quesito filme de terror óbvio, quanto em toda a bagunça armada nesse já citado ato final, que parece uma gigantesca homenagem a tudo que o gênero pode produzir, apresentando zumbis, morcegos gigantes, múmias, zumbis, crianças fantasmas e até mesmo um Pinhead genérico e assustador. Tudo é claro, com aquela dose generosa de catchup espirrando na tela, numa verdadeira ode aos slasher movies só que protagonizados por uma gama sem fim de criaturas diversas.

A direção de Drew Goddard é contida, e deixa-se levar pelo roteiro que já é suficientemente bom para não precisar de nenhuma grande trucagem visual para deixá-lo mais intrigante. Por outro lado, esse é um filme em que a montagem é fundamental, por que estamos vendo aos poucos a desconstrução de um mistério. Como acompanhamos duas narrativas diferentes que a princípio sabemos que estão ligadas, mas não de que forma, e principalmente por que, uma montagem infeliz poderia derrubar todo o clima de mistério. O trabalho de Lisa Lassek é muito bom, mantendo o espectador pelos pouco menos de 90 minutos preso a expectativa de revelações. A motivação para todo aquele circo, que poderia remeter a uma serie de analises posteriores, desde a nossa obsessão pelo macabro e mórbido até a comprovação da dificuldade do ser humano em se chocar com sua própria condição no planeta, é outra que também é subvertida.



Ou seja, além de subverter a ação, o roteiro tenta subverter a reflexão, alterando - já na parte final, embora vá dando muitas pistas no decorrer do filme - a real razão para tudo aquilo. Tudo isso embalado por interpretações suficientes engraçadas e canastras, na medida do possível.

O grande trunfo de Cabana é que ele surge no momento certo e para a platéia certa. Ao lado dos demais exemplares do gênero resplandece como o sol matutino, por sua ousadia de fugir do lugar comum e pelo humor cáustico e sem pudores. E funciona para uma platéia interconectada de múltiplos gostos e que procura sempre a última novidade. Apesar de talvez não se sustentar em uma revisão, Segredo da Cabana é um dos filmes mais originais dos últimos tempos produzidos nos Estados Unidos, mesmo sendo criado a partir de múltiplas referências.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Massacre da Serra Elétrica 3D


O Massacre da Serra Elétrica 3D - A Lenda Continua
(Texas Chainsaw 3D, 2013)
Terror - 92 min.

Direção: John Luessenhop
Roteiro: Adam Marcus, Debra Sullivan e Kirsten Elms

com: Alexandra Daddario, Dan Yeager, Trey Songz, Scott Eastwood

Reboots. Remakes. Re-imaginações. Estão na moda, e por ano três, quatro novos filmes visitam universos já explorados pelo cinema. O caso do Massacre da Serra Elétrica - A Lenda Continua é curioso, já que ele não se apóia no remake de 2003 dirigido por Marcus Nispel, mas no original de Tobe Hooper. O filme começa com um retorno àquela realidade de 1974, quando os canibais da família Sawyer atacaram um grupo de jovens. A trama imagina uma eventual sequência ao chocante final da historia original, quando o inesquecível Leatherface surge brandindo sua moto serra enquanto uma das jovens consegue fugir.

Na trama dessa "continuação", a família decide entregar o mais famoso de seus integrantes, após serem cercados pela polícia. Porém, um grupo de rednecks vingativos os ataca deixando-os todos mortos, exceto por uma garotinha (ainda bebê) que é levada por um casal de atacantes. Anos depois a garota é uma jovem "meio desajustada" (já que ela usa roupas escuras, um dos maiores clichês do cinema americano: para mostrar que alguém é "diferente" coloque-o usando preto) e recebe uma carta dizendo que sua avó havia falecido e lhe deixou uma herança. A garota não sabia sequer que era adotada e parte com seu namorado e um casal de amigos em busca de seu passado, ganhando no caminho a companhia de um caroneiro (outro clichê do gênero).

Descobre-se que a tal herança era uma mansão muito bem cuidada, mas que parece uma daquelas saídas de filmes de terror. Enorme, cheia de quartos, construída de madeira escura o que cria um ambiente ao mesmo tempo acolhedor e assustador (dependendo da fotografia e iluminação utilizada). Como exemplo disso dá pra citar os primeiros momentos da chegada dos garotos a casa, onde as portas vão sendo abertas e apesar da percepção de que estamos diante de um ambiente antiquado, notamos um ambiente caloroso. Em uma sequência posterior - logo após a revelação do paradeiro de nosso serial killer favorito - o grupo retorna a casa e a fotografia é lúgubre, as paredes parecem menores e a sensação de amplo espaço é deixada de lado: aquela casa esconde alguma coisa que vai tentar pegar essa molecada.



Apesar desses acertos nos cenários e na criação de um clima que dá estofo ao retorno de Leatherface, de fato a produção é simplória. Bastante previsível, visualmente até pobre - diante do que o gênero já produziu - mas menos "grosseira" na forma de retratar seus momentos nojentos na tela. Em comparação óbvia com o igualmente recente Evil Dead, Massacre é uma produção mais "leve" embora não faltam alguns desmembramentos aqui e ali. Porém, existe certo pudor em escancarar a violência, o que deixa a cargo das reviravoltas da trama e da caracterização dos personagens o peso de fazer a historia funcionar, o que infelizmente é um problema. Com personagens coadjuvantes bem limitados aos estereótipos do gênero que vão desde a amiga "fácil", o namorado bobalhão, o amigo prestativo e o caroneiro canalha, passando pelos habitantes da cidade, com seu xerife que talvez seja o único sujeito equilibrado do local e os demais "donos" do lugarejo que agem como defensores da lei, tudo já foi apresentado em diversos outros filmes.

A protagonista no entanto, revela-se surpreendentemente interessante, passando de garota perdida, a mulher forte e decidida quando descobre "seu lugar no mundo" e seu envolvimento com Leatherface. Mas, tudo isso diante das limitações que o filme se coloca. É uma trama rasa e óbvia, sobre vingança e o retorno de um personagem icônico do cinema de horror. Porém, não se enxerga como mais do que isso, ou mesmo tenta produzir momentos de impacto emocional onde não existe necessidade. É um slasher com pudores e paramos por aí.

Massacre é uma experiência saudosista para os fãs da mitologia criada por Tobe Hooper, mas como produção do gênero slasher parece um tanto datada, apesar de se elegante na abordagem da violência. Falta um cuidado com os personagens (que funcionam apenas como carne para ser fatiada) e num acúmulo desnecessário deles (o que acontece com o filho do prefeito por exemplo ou com o advogado da protagonista), fazem da produção esticada demais para os seus pouco mais de noventa minutos, o que não é um bom sinal em um gênero que pretende sempre manter-se enxuto.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Morte do Demônio


A Morte do Demônio
(Evil Dead, 2013)
Terror - 91 min.

Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez e Rodo Sayagues

com: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci, Jessica Lucas, Elizabeth Blackmore

O primeiro Evil Dead, no longínquo ano de 1981, fez muito sucesso e virou cult imediato, pois conseguia a proeza de em uma história aparentemente sanguinolenta, atrair a atenção de um público muito mais amplo. Qual a mágica? O uso sem pudor do humor negro, que garantia aquela historia absurda uma cara de quadrinhos de terror e gerava simpatia em quem não tinha a menor inclinação a curtir produções recheadas de mutilações ou bruxaria.

A serie como a imensa maioria de vocês sabe (eu acho, pelo menos) ganhou mais duas sequências e fez de Bruce Campbell (seu protagonista) uma figura marcante na cultura pop. Avançamos para a contemporaneidade, nessa releitura dos temas de Evil Dead. Acho que releitura cabe melhor a produção do que remake, já que se mudam os personagens, a desculpa para que um grupo de adolescentes tenha se enfiado em uma cabana no meio do nada e principalmente, o tom da história.

Essa não é uma história que abraça o humor negro, pelo contrário. Evil Dead 2013 é um slasher movie, daqueles bem crus, com nenhum pudor em despedaçar (literalmente) seus protagonistas sem procurar concessões bem humoradas. E isso é um problema sério.



Não que tramas de terror ou gore precisem ter humor, não é esse o ponto, principalmente se levarmos em consideração outras produções do gênero que são bem sucedidas apostando apenas no slasher, sobrenatural e afins. O problema é quando ela se leva a sério demais, ou realmente acha que sua historia é boa e suficiente para levar noventa minutos de filme em frente. Sem querer comparar, apenas como dado para explicar minha observação, no original dos anos 80 o grupo de adolescentes vai para aquela cabana - que ninguém conhece, se minha memória não falha - para se divertirem. Nesse, a seriedade é implícita desde a saída. Em busca de um refugio para tratar da dependência química de Mia, interpretada por Jane Levy, o grupo de amigos - que inclui o irmão da garota - resolve se refugiar na velha cabana da família da menina.

Entenderam? Sai a diversão descabida cheia de excessos, entra a seriedade do século 21, onde tudo precisa ter uma explicação metafísica para ser comprada pela audiência. Sim, garotos numa cabana no meio do nada é um clichê e hoje funciona muito melhor como paródia (Cabin in the Woods que o diga). O que nos levaria a inevitável pergunta do "por que então se fazer um remake". Mas, enfim, essa é uma pergunta de resposta óbvia e que vocês aí do outro lado da tela devem imaginar qual seja. Apesar dessas mudanças fundamentais, o destino daqueles jovens como os do filme original é mantido. Eles também encontram um livro macabro, liberam um demônio e essa entidade passa a persegui-los.

Saindo de uma trama que quer ser séria, a produção tem até um desnecessário prólogo para explicar alguns elementos que os protagonistas vão acabar encontrando escondido na cabana, especialmente o famigerado Livro dos Mortos. O filme se enfia na caverna sem fundo dos clichês do filme ruim de terror, como personagens que demoram a perceber que existe algo realmente errado nas crises de Mia. O fato dela estar sofrendo com a abstinência das drogas é a forma como o pavoroso roteiro de Alvarez e Sayagues tem para justificar a ação dos personagens que não percebem que ela de fato pode estar sofrendo de outra coisa. Morte do Demônio também tem entre seus personagens aquele sujeito que encontra um livro em meio ao caos e imundice - coberto de arames pra deixar ainda mais claro que aquilo não deve ser lido - e simplesmente o lê, além de uma serie de clichês que uma audiência mais esperta já viu tantas vezes que até nem tem mais ânimo para "reclamar com a tela" chamando aqueles personagens de burros e afins. Isso sem citar a óbvia questão de que aquelas pessoas jamais devem ter visto um filme de terror, mas relevemos porque aí isso acabaria virando uma tese.



Os personagens - todos, sem exceção - são bem ruins. Se a garota em recuperação até tenta esboçar alguma coisa já que é quem tem "uma jornada" na historia, esbarra nos excessos e no over-acting. Os demais são realmente pavorosos. O jovem Shiloh Fernandes que serve como protagonista masculino da trama e que vive o irmão da garota, é tão fraco que não deve ter convencido nem mesmo sua mãe. É um daqueles casos em que se pergunta se o diretor de casting foi de fato pago por essa contratação, já que o garoto não consegue acertar em nenhum aspecto. Não tem carisma para levar a trama, não convence como herói acidental e muito menos nas decisivas e fundamentais cenas de emoção. O hippie perdido, Eric (Lou Taylor Pucci) faz o tipo cético e reclamão e de fato é o catalisador da trama por sua arrogância típica dos personagens metidos a inteligentes em filmes de terror. Existe ainda a presença da loira "muda" que é a namorada de Fernandez e da enfermeira "eu sei o que fazer para curar qualquer pessoa" que de saída parece ser a líder da turma, mas que se amedronta e perde a aura de liderança quando a coisa começa a complicar.

Mas o filme tem elementos positivos também. Como filme slasher ele funciona. O diretor Fede Alvarez tem controle sobre a violência mostrada na tela e até consegue criar tensão em diversos momentos, como a que revela o destino de uma das mulheres da trama. Essa sequência é muito bem construída, e me fez criar uma expectativa sobre seu destino cruel e violento. Talvez com uma história menos fajuta o diretor pudesse se sair melhor, pois demonstra com um material fraco que consegue dirigir sequências de ação com qualidade. Também não tem medo de mostrar os resultados da violência e aí vale uma deferência ao espetacular trabalho de próteses e maquiagem do filme. Realmente muito, muito bom e ao lado de bons efeitos visuais fazem a credibilidade das ações violentas do filme parecerem reais, o que é objetivo do filme, sejamos honestos. Nenhum slasher funciona se o público não sentir asco ou sentir-se atingido por aquelas situações na tela, e nisso esse remake de Evil Dead acerta em cheio. Ele realmente consegue fazer vocês sentir-se mal, realizando algumas sequências verdadeiramente grosseiras e "estúpidas".

Os fãs do original vão reconhecer algumas homenagens ao filme de Sam Raimi como a presença da floresta funcionando como torturadora, a natureza conspirando para que os jovens não consigam ir embora, a câmera acelerada que "corre" pela floresta, a prisão da garota possuída num porão entre outros detalhes. Claro que se nos anos 80 isso era abordado de uma forma quase fabulesca e cheia de exageros, aqui é tudo mostrado de forma "séria e adulta". O humor do filme é involuntário, graças aos diálogos primários e evolução da trama que cria um absurdo ato final que só está ali para justificar duas cenas de gore muito boas, já que são tão ridículas que geram risos involuntários, em momentos em que a trama tenta ser dramática e séria.



Essa releitura do cult oitentista é uma versão sem graça e sem a mistura de humor e terror que funcionou duas décadas atrás. Tem acertos por sua construção do gore e dos elementos do slasher movie, mas isso não salva uma trama tão estúpida, personagens ruins e pretensão dramática exagerada.


Logo na campanha de divulgação, o novo Evil Dead apostou em usar os créditos de Sam Raimi como produtor do novo filme. Não é pra menos: a cultuada cinessérie, que rendeu três excelentes filmes, desenvolveu uma legião de fãs aficionados. Com sua estética caseira, dose cavalar de gore, um senso de humor bizarro e a presença de Bruce Campbell, mito máximo do cinema de horror oitentista, Evil Dead já demonstrava o bom olho de Raimi para a construção de uma intrigante atmosfera e uma coerente mitologia, sempre com muita concisão. Não por acaso, os dois primeiros filmes da trilogia Aranha do diretor têm uma identidade tão forte, oscilando com perfeição entre a homenagem e a consciência do espírito do personagem. Ao incluir Raimi nos créditos, haveria uma expectativa mais abrangente por parte dos fãs. 

E, de fato, A Morte do Demônio é um bom reinício pra saga. Ainda que não invista no humor que tanto marcou a série no passado, o filme cria um tenso horror de cabana que se destaca diante do subgênero através de marcas criativas semelhantes às vistas no próprio Evil Dead original. 

Para dirigir o projeto, Raimi honrou suas origens e contratou um novato que tenha gosto pelo gênero. Fede Alvarez, egresso dos comerciais e do curta Ataque de Pânico, hit da internet, elabora diversas técnicas mecânicas para filmar o espetáculo sangrento do projeto, remetendo à própria estratégia utilizada por Raimi no passado, quando esse não tinha orçamento suficiente para ir além da praticidade mambembe. A caricatura continua presente, já que objetos de cena (como o cortador de frango e o galão de gasolina) estão sempre à mão para o objetivo necessário, mas sem tirar a gravidade de certas situações. A falta do humor no filme, portanto, não impede o mesmo de possuir certa irreverência e descompromisso com o verossímil. 


Os benefícios do roteiro, escrito por Alvarez e Rodo Sayagues, residem justamente ao explorar as limitações do gênero. Sem ter muito o que inovar na estrutura trivial do terror-de-cabana, os roteiristas criam previsíveis interações entre os jovens e os alucinados pelo Mal que está por perto. É compreensível, portanto, que o início do filme seja o maior problema dele. Ao desenvolver os personagens da maneira predominantemente desleixada no subgênero, o roteiro empalidece ao focar em seus clichês e demora certo tempo para engrenar seu ritmo. O drama baseado no vício de Mia é simplório e definitivamente não se apresenta como um bom motivo para nos importarmos com a personagem; o protagonista masculino, vivido pelo fraquíssimo Shiloh Fernandez, evoca os jovens idiotas que vivem habitando os filmes de terror (o que representa também sua namorada); o geek, que entende tudo de bruxaria, é o arquétipo do nerd, por mais que desenvolva mais carisma que o próprio Shiloh; a adolescente responsável, que exala uma responsabilidade que some assim que é conveniente. 

No entanto, desde o início há uma certa presença da boa mão de Alvarez e Sayagues. A criação do clima assustador da película é ressaltado pela dessaturada fotografia de Aaron Morton e por decisões acertadas de roteiro, como a de isolar a cabana através da cheia do rio (o que rende um belo take). A própria cena onde o corpo é tomado pelo demônio é cheia de truques eficazes (os galhos se mexendo de maneira rastejante), o que gera desconforto sem muito esforço. E quando se há uma consciência geral do espírito slasher da produção e de sua simplicidade, A Morte do Demônio cresce. Interessado no gore, Alvarez exacerba o desconforto criado pela violência ao dar atenção especial aos detalhes de cada desmembramento sofrido pelos personagens. Desde os fluidos nojentíssimos, que espirram na cara dos personagens volta e meia, até os instantes de aliança da tensão com a tortura (como a excepcional cena que envolve o cortador de frango e um braço), a construção do puro gore de Evil Dead se adequa perfeitamente à proposta, se destacando ainda ao conciliar o banho de sangue com um legítimo horror. 

Indo além, através de cuidadoso trabalho de decupagem, o diretor filma instantes expressivos e que evocam o opressivo clima do original. O travelling acelerado de fora da cabana até a porta causa uma tensão marcante, auxiliado pelo forte design de som (que teve o gênio Ren Klyce como supervisor). A partir da prisão do corpo tomado, o uruguaio usa muito de zooms lentos e planos-detalhe no sótão para ressaltar a expectativa (ou ojeriza) do espectador acerca dos eventos, o que culmina em bons sustos, como o da namorada e do demônio no subsolo. E apesar da pontualmente intrusiva trilha de Roque Baños, Alvarez compõe cenas que dependem apenas do silêncio para se fazer tensas, o que sempre é bem-vindo num gênero que geralmente depende de música alta e súbitos sustos baratos.


Para a mitologia característica da série, o filme funciona ainda mais, já que dá consideráveis dicas de que é um reboot que também serve de continuação. Todo o cuidado visual com o livro maldito é notório e os métodos nele descritos funcionam como elementos de horror, sejam eles bruxarias ou antídotos. A desconfortável mutilação facial, contida no livro, é presente em mais de um momento, o que em conjunto com os citados planos-detalhe de Alvarez, rendem algumas cenas onde os com menos estômago irão desviar o olhar (a do prego entranhado próximo ao olho é minha preferida). E o exorcismo, de três formas diferentes, que funciona igualmente para a atmosfera. 

Demonstrando força como narrador, Fede Alvarez concebe um poderoso terceiro ato, que investe menos nas fracas interações entre os personagens, se focando mais na solidão claustrofóbica do local e em surpresas baseadas nas pistas que plantou ao longo do segundo ato. Empolgante, o clímax ainda apresenta a melhor sacada visual de Alvarez: uma bela chuva de sangue, plástica e dramaticamente excelente, que dura o final inteiro. E as mutilações tomam conta da ação, como um verdadeiro descarregamento de adrenalina. 

Obviamente, é uma obra imperfeita, diferente do curioso e ainda relevante Evil Dead oitentista, mas se fecha com louvor em sua empreitada, sendo uma boa prova que a franquia pode sobreviver sem seu humor peculiar. Ao deixar pontas soltas e eventos em aberto (sem que isso sacrifique a concisão da obra, vale lembrar), o novo filme da série é muito bom tanto para revelar o talento de Fede Alvarez quanto para revitalizar (e apresentar para uma nova geração) a série querida de todo boa fã de gore, slasher, terror-de-cabana e do velho "terrir”. do o humor negro nos próximos.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mama


Mama
(Mama, 2013)
Terror - 100 min.

Direção: Andrés Muschietti
Roteiro: Neil Cross, Andrés Muschietti, Barbara Muschietti

com: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier, Isabelle Nélisse

Volto a tocar num ponto que parece inevitável toda vez que se fala de algum novo filme de terror: a dificuldade para encontrar uma produção que funcione como seu gênero pede. Tramas insossas, efeitos visuais exagerados, sustos previsíveis ou até mesmo um excesso de violência desnecessária a trama, tudo pode comprometer a experiência assustadora que o filme pretende ter.

Porém, às vezes, mesmo contando com uma serie desses elementos que dariam descrédito a qualquer produção, a coisa funciona. É o caso de Mama. Méritos a equipe do filme que usa dos clichês a seu favor, e diante de uma trama batida de fantasmas e crianças ligadas ao macabro consegue encontrar uma forma de acertar no clima, com bons atores e soluções óbvias e eficientes.

Primeiro com uma trama que cria tensão em duas frentes, já que de saída apresenta o sobrenatural ao colocar um pai perturbado - que acabará de chacinar colegas de trabalho e sua mulher - levando suas duas filhas para o meio da floresta e sendo morto por alguma coisa estranhíssima que nunca fica visível ao público. O filme então avança cinco anos no tempo e apresenta seus reais protagonistas, um jovem casal moderno que o público alvo do filme consegue se relacionar de saída. Nikolaj Coster-Walden (o galã Jaimie Lannister de Game of Thrones) é o irmão gêmeo do tal pai maluco e passou todo esse tempo em busca do irmão e das sobrinhas. Ele vive com a namorada, Annabel (a linda e talentosa Jessica Chastain em versão "garotinha rock'n'roll') baixista de uma banda e que não tem grande vontade de ser mãe. Depois de muitos gastos com a busca, as garotas são encontradas e o filme ganha sua segunda frente de interesse: "como é que essas meninas sobreviveram e mais ainda, como é que elas estão cinco anos depois de serem largadas sem nada no meio da floresta?"



O segundo motivo para Mama funcionar bem é seu elenco. Se a já citada Jessica Chastain dá credibilidade a uma personagem que tinha tudo para ser mas um esqueleto vazio e sem força nas mãos de uma atriz com tendência maior ao escândalo, as jovens Megan Charpentier e Isabelle Nélisse (especialmente a primeira) estão no mesmo tom de Chastain buscando encontrar emoções genuínas na interpretação dessas garotas que vão se transformando de pequenas selvagens em garotas "normais". Por outro lado, o galã Nikolaj tem um papel ingrato já que sua importância na trama é sumariamente diminuída, deixando claro que esse é um jogo para garotas e que as "Mamas" é que são as estrelas da companhia.

Isso leva aos clichês do gênero que aqui estão todos representados. Temos aqueles sustos óbvios com o auxílio da trilha sonora, aqueles vultos que atravessam a tela, barulhos sinistros e até mesmo as - hoje populares - manchas escuras na parede e insetos que simbolizam a podridão. Mas, mesmo assim, a direção de Andrés Muschietti é eficiente e consegue manter o espectador preso com alguns momentos visuais realmente bons, como a curta sequência que envolve uma brincadeira entre as duas irmãs no quarto, vista em um ângulo que divide a tela em três quadrantes. Na esquerda, temos a visão do corredor da casa e uma escada que liga o patamar do alto (onde a sequência se passa) ao piso inferior. No centro a divisão dos batentes entre as duas ações. E na direita uma visão do quarto. Mas Muschietti é inteligente e nos mostra apenas uma fração do quarto, e quando vemos a pequena Lilly (Nélisse) se divertindo e tentando se soltar de um lençol, somos sutil e assustadoramente surpresos. O diretor usa dos clichês para criar uma experiência muito convincente e divertida, especialmente se você é um fã do gênero e identifica esses símbolos.

E a tal Mama? Os méritos vão para a escolha do estranhíssimo Javier Botet, que por baixo de uma boa maquiagem e efeitos visuais que auxiliam os voos e outras aparições fantasmagóricas, realmente convence como essa criatura macabra e com uma linguagem corporal que desafia as leis da física. Muschietti é corajoso ao temer expor de forma direta sua personagem principalmente na parte final do longa, o que demonstrar ainda mais confiança na caracterização de Javier que consegue criar asco e simpatia na mesma personagem.



Se não é uma grandiosa produção, com inovações e etc, Mama é ótimo no que se propõe a fazer. Uma historia de fantasma simples, direta ao ponto, com suas convenções e clichês, o que já é muita coisa em um período bastante complicado para o gênero. Que bom, que ainda existam produções que não tentem surpreender o espectador de qualquer jeito, mas que se atenha ao "arroz com feijão" que quando bem temperado, sempre será suculento.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Casa Silenciosa


A Casa Silenciosa
(Silent House, 2011)
Terror/Suspense - 85 min.

Direção: Chris Kentis, Laura Lau
Roteiro: Laura Lau e Gustavo Hernández

Com: Elizabeth Olsen, Adam Trese, Eric Sheffer Stevens

Ano passado estreou com algum barulho um longa metragem vindo do Uruguai, chamado A Casa. A ideia deste longa sul-americano era muito interessante: acompanhar "em tempo real e sem cortes", uma legitima historia de casa assombrada, ou algo assim. Infelizmente, a magia incensada e desejada pelo realizador Gustavo Hernández, viu ruir-se diante de um trabalho técnico questionável (além da câmera de mão que acompanha a ação causar vertigens, o filme apresentava cortes sim, já que o tempo real em que o filme se passa é muito mais extenso do que o tempo de cena) e de um texto que abusa de um exagero quase hermético em um gênero com uma proposta que mais confunde do que ajuda o espectador.

Como parece praxe, e um atestado cruel de falta de criatividade, os americanos logo pensaram em - por que não - criarem uma adaptação para a língua inglesa (afinal, o publico americano não sabe ler e é ignorante mesmo, é o que parecem dizer os muitos produtores desse tipo de remake). Essa é dirigida por Chris Kentis e Laura Lau e tem como estrela Elizabeth Olsen (do ainda inédito por aqui, mas muito elogiado Martha May Marcy Marlene). Curiosamente, o roteiro dessa produção - assim como em O Grito - tem o dedo do diretor e um dos roteiristas do filme original, o já citado Gustavo Hernández.

Apesar de não ser nenhuma grande produção do gênero, esse remake, consegue (surpreendentemente) ser um pouco superior ao filme original. Além da qualidade técnica deste ser infinitamente melhor (apesar da câmera nunca parar, o filme consegue achar ângulos em que o espectador consegue acompanhar a trama sem, no entanto precisar adivinhar o que vê na tela), consegue manter a sensação do "tempo real" mais crível, ao focar-se em período muito mais curto de tempo (praticamente os mesmos oitenta e cinco minutos e duração do filme em si) e ter em Elizabeth Olsen uma interprete muito mais segura do que Florencia Colucci, o era no filme original.


Existem algumas alterações na trama, especialmente para tornar a desse remake mais "palatável" para o gosto do consumidor americano, muito menos afeito a mensagens cifradas especialmente em filmes com essa temática assumidamente comercial.

A subversão de gêneros, que já acontecia no filme original, mas que levava o espectador há pensar um pouco mais e talvez parecesse exagerada em seus conceitos, aqui é mais "pé no chão", mais próxima de um filme de horror mais comum. Explicações acabam sendo dadas em uma dose muito maior do que acontecia no filme uruguaio, mas de outro lado, o impacto das revelações na personagem de Olsen é muito mais intenso.

Olsen é uma atriz muito interessante, e que consegue transmitir muita naturalidade no papel de uma garota que se vê diante de um mal que não consegue enxergar nem compreender. Suas reações, apesar de esbarrarem nos clichês, são críveis e a atriz consegue dar veracidade a situação que vive.


Esbarrando no óbvio demérito de ser um remake (e esse é assumidamente um remake, que não tem medo nem de copiar alguns planos e estrutura narrativa), A Casa Silenciosa não é um fracasso como em geral são essas adaptações. Não assusta tanto quando o original (que era mais aterrador, principalmente pela atmosfera amadora e imunda do cenário), mas é mais bem resolvido e conta sua historia sem pretensões, sabendo que é apenas mais um filme de terror. Aposta em uma técnica "ousada"? Aposta, mas no fundo é a subversão de gêneros e o plot twist final que são as armas do filme.