quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um retorno

Depois de quase um ano sem nenhuma postagem nova (embora tenha descoberto que tenho mais de 20 textos parados para serem publicados e que eu nem me lembrava) é hora de voltar a brincar com esse negócio de cinema.

A abordagem vai ser a mesma de quem conhece o blog: não tentar parecer aquele camarada chato que odeio tudo ou coisa que o valha, mas não deixando de escrever o que penso sobre aquilo que vejo e esperando que isso possa servir para aqueles que gostam de ler as coisas por aqui.

Depois de várias tentativas de vídeos/áudios e afins que tentei em 2014 (e não descartei ainda) vou voltar primeiramente aos velhos textos. Sem me preocupar muito em escrever 50 parágrafos sobre cada filme, já que eu sei que por mais que você leitor tenha interesse, não vai ter muita paciência em ler, Isso é ruim? Não sei. Vocês vão gostar? Espero que sim.

Vou tentar abordar tanto os lançamentos de circuito, quanto filmes que você consegue encontrar em home video (alguém ainda aluga filmes?) e nos milhares de ótimos serviços de VOD (pra quem não sabe, Video On Demand, tipo Netflix) e que cada vez mais são fundamentais para aqueles filmes menores encontrarem seu público. Não sei ainda a periodicidade desses textos, nem a quantidade deles por semana/mês. Vou tentar (e é tentar mesmo, por isso não me cobrem) manter um texto/mínimo por semana no blog. Se vou conseguir, aí é outra história.

Bom, é isso.

Essa foi só pra tirar as teias de aranha. Vem aí, listinhas de melhores e piores do ano (sim, consegui ver umas coisas no cinema e outras tirei o atraso no fim de ano).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Eu Vi - Walt nos Bastidores de Mary Poppins

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins
(Saving Mr. Banks, 2013)
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: Kelly Marcel, Sue Smith
com: Emma Thompson, Tom Hanks, Paul Giamatti, Colin Farrell, Ruth Wilson

Uma das histórias de bastidores mais saborosas de Hollywood é a intensa e longa corte feita por Walt Disney sobre a autora de Mary Poppins, P.L. Travers. Os relatos apontam que o criador do império da animação levou mais de vinte anos para conseguir tirar do papel sua ideia de um filme sobre o famoso livro. 

O filme (com um dos títulos nacionais mais auto-explicativos que já vi) conta essa história focando-se na personagem interpretada por Emma Thompson, mostrando-a no presente do filme - quando ela chega a Hollywood para finalmente acompanhar o início da produção e dar seus pitacos - e seu passado, quando nos é explicado o que aconteceu para que o livro tomasse forma. 

A personagem de Thompson é muito, mas muito chata. Daquelas pessoas que nada satisfaz, tudo é indigno de sua atenção e nada emociona. Tudo é problema, e isso imediatamente impõe uma barreira gigante entre o público e sua protagonista. É claro que vamos acompanhar os motivos de sua personalidade (quase) detestável ter sido formada, mas em geral seu personagem é um problema no filme. Outro é a transformarçnao de Walt Disney no sujeito mais legal do mundo. Não é nenhum segredo que apesar de seu trabalho ter sido fantástico e suas criações maravilhosas, sua personalidade não era tão dócil assim, mas essa visão do criador é comprensível, devido a produção ser - obviamente - do estúdio que ganhou seu nome.

Walt é um filme "bacaninha". Daquelas historinhas água com açucar que não ofende ninguém, que vai encontrar um público ávido por esse tipo de trama, mas que em geral, não vai a fundo no que e propõe. P.L. Travers é uma senhora irritante e traumatizada e Walt, um quase santo ancorado por uma promessa aos filhos. E só. Muito pouco para uma cinebiografia que coloca como protagonistas duas figuras tão importantes como Disney e Travers.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Eu Vi - The Past

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.



The Past
(Le Passe, 2013)
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
com: Bérénice Bejo, Ali Mostaffa, Tahar Rahim

Asghar Farhadi se destacou ano passado para um público mais abrangente, graças ao laureado "A Separação", que falava sobre um casamento iraniano em crise. Em Le Passe/The Past, o diretor continua a falar sobre a dificuldade de comunicação entre casais e os traumas que relacionamentos encerrados de forma abrupta provocam. A trama gira em torno da visita de Ahmad (Ali Mostaffa) um iraniano que vem até a França para se separar oficialmente de sua esposa Marie (Bérénice Bejo), uma francesa que já tinha dois filhos e que está se relacionando com um outro imigrante árabe que por sua vez também tem um filho, fruto de um relacionamento interrompido por circunstancias traumáticas.

A trama é intrigante e angustiante já que nos leva a descobrir coisas a respeito desses personagens que os mesmos faziam de tudo para esconder. Nos moldes do que "A Caça" fez, o foco está nas crianças e nos jovens, muito suscetíveis a rompantes de amor e ódio. 

A interpretação de Bejo é devastadora. Nunca transformando sua personagem em heroína ou em uma mulher repleta de virtudes, essa mãe vê seus segredos sendo devassados pela presença de seu ex-marido auxiliado por sua filha mais velha, que mantinha uma relação de companheirismo e amizade muito forte. O jovem Tahar Rahim, que vive seu novo namorado tem um papel ingrato, já que precisa criar a credibilidade de que é um sujeito bom, já que Ahmad é definitivamente – e o filme não se exime de dizer que o fracasso do relacionamento dele e Marie é culpa dele – um sujeito mudado, pronto para ajudar e sem (não notei) interesses amorosos em sua ex. 

A dinâmica entre esse “triangulo”, move o melodrama que se assume como tal e não se furta em tentar emocionar e chocar o espectador com relevações bombásticas tiradas do melhor que o sub-gênero pode oferecer. Porém, felizmente, não descamba para o absurdo ao tentar tocar o público mantendo a trama semi investigativa em ritmo pausado o que ajuda os personagens a ganharem mais força e a a historia a fluir melhor. Falado todo em francês, Farhadi fez sua estreia fora de seu pais de forma muito consistente. Flertando com a tragédia e ainda sim apostando em deixar sua trama com gosto agridoce, The Past/Le Passe foi um dos grandes filmes do ano de 2013.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Eu Vi -The World's End

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.



The World's End
(The World's End, 2013)
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Simon Pegg, Edgar Wright
com: Simon Pegg, Nick Frost, Paddy Considine, Martin Freeman, Eddie Marsan, Rosamund Pike, David Bradley, Pierce Brosnan 

Me recuso terminantemente a chamar essa comédia sensacional por seu medíocre título nacional (ele já deve estar saindo em home vídeo). A terceira parte da”trilogia do Cornetto” (complementada com "Todo Mundo Quase Morto" e "Chumbo Grosso") é a melhor comédia do ano. Misturando sem errar na dose a trama nostálgica sobre esses quarentões que desejam cumprir uma promessa dos tempos de moleque com os elementos sobrenaturais, o filme é sensacional.

Simon Pegg de novo mostra o porque é um dos atores mais divertidos da atualidade. Seus coadjuvantes todos acertam, incluindo ai seu eterno parceiro Nick Frost, o hoje famosíssimo Martin Freeman, o excelente Paddy Considine, Eddie Marsan, a linda Rosamund Pike, David Bradley e um Pierce Brosnan divertindo-se muito com a situação.

Quanto menos se falar sobre a trama é melhor, mas basicamente ela começa com esse grupo de sujeitos tentando vencer uma mítica corrida pelos pubs de sua cidadezinha natal. Ele precisam – em uma só noite – beber ao menos uma caneca de cerveja em cada um dos muitos pubs da cidade (se minha memória não falha são 12) culminando no mitológico World’s End, que dá titulo ao filme. Mas, como em todos os filmes desse excelente Edgar Wright existe algo mais por trás e as revelações são muito divertidas. No campo do cinema pop hoje, poucos são tão competentes quanto Edgar Wright, e aqui ele prova novamente.

De longe a comédia mais divertida do ano e que por incompetência dos responsáveis por seu lançamento por aqui, o brasileiro só vai poder curtir em casa. Merecia muito mais.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Eu Vi - Até o Fim

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Até o Fim
(All is Lost, 2013)
Direção: J.C. Chandor
Roteiro: J.C. Chandor
com: Robert Redford

Um homem, o mar e a solidão. Praticamente mudo, "All is Lost" nova produção do jovem e talentoso J.C. Chandor, roteirista e diretor de "Margin Call" é a revisão do tema do homem enfrentando a natureza para sobreviver. Ano passado, Ang Lee propôs o mesmo argumento, misturando-o a discussão religiosa e afins, com uma linguagem fabulesca e fantasiosa. Anos atrás, Robert Zemeckis em seu "Náufrago" utilizou-se do drama para contar a mesma trama. 

J.C. Chandor é mais "realista". Não existe um personagem orelha para ouvir as dúvidas do protagonista, seja um tigre ou uma bola de vôlei. Aqui, o homem está perdido e resta a ele a dura existência solitária e a luta pela sobrevivência. Por que ele está lá? Pouco importa, não é esse o recorte que o filme propõe. Ele propõe ao público acompanhar essa situação extrema e nos coloca como voyeurs, torcendo e imaginando soluções que o protagonista possa encontrar.

Robert Redford atua com o peso da idade de um senhor de mais de sessenta anos. Não existem momentos heróicos, soluções mirabolantes, apenas um sujeito enfrentando o desespero da morte iminente e agindo para evitá-la. Chandor cria aqui um filme silencioso, dando destaque ao som quando a natureza surge para desafiar o protagonista. Talvez esse clima trágico seja prejudicado com os últimos minutos da projeção, mas, depois de tanta tensão, me parece merecido uma singela recompensa. 



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Eu Vi - O Lobo de Wall Street

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

O Lobo de Wall Street
(The Wolf of Wall Street, 2013)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter
com: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Rob Reiner

Acho muito saudável que passando dos setenta anos de idade, um sujeito com a importância de Martin Scorsese, que podia - se quisesse - estar aposentado, apresentar uma história tão surtada e ousada, que boa parte dos diretores mais jovens sequer teria coragem de propor. Mas, é importante dizer: "O Lobo de Wall Street" requer que o espectador esteja interessado em comprar aquele mundo de muitos excessos, gente "maluca" e atuações sempre em modo "overacted".

A trama, baseada em fatos reais (não sei quanto tem de real aí) fala sobre a ascensão e queda do perturbado personagem interpretado por Leonardo DiCaprio, talvez no momento mais maluco de sua carreira. Ele chega a Wall Street e encontra maneira nada lícitas de conseguir ficar milionário, levando na aba uma serie de coadjuvantes igualmente malucos, como Donnie, interpretado por um Jonah Hill que atua como seu personagem em Anjos da Lei sob os efeitos de drogas. Os excessos de drogas, estupidez e nudez se encaixam perfeitamente naquele retrato satírico de uma época. Onde mais veríamos uma reunião com os principais corretores de uma empresa discutindo sobre como arremessar um anão em um alvo? Ou uma sequência inteira onde um sujeito se arrasta pelo chão sob o efeito de drogas pesadas? Scorsese aqui não pinta com cores benéficas o uso e os excessos, mas as mostra para que o público ria de tanta bobagem realizada por aqueles caras. E, se quisesse não demonizar esses excessos, seria um direito dele já que a arte não é código moral e nem deve levantar "questões" se não tiver vontade.

Existe uma referência ao trabalho anterior do diretor, especialmente "Os Bons Companheiros". Se no filme citado, Ray Lliota passava por uma sequência pilhado e cheio de cocaína achando que estava sendo perseguido, em Lobo ele amplia essa situação por todo o filme. É uma produção longa (três horas) e que tem pequenos momentos em que sente-se uma queda de ritmo, especialmente no começo. Mas Scorsese é um mestre em nos manter chafurdado na lama e ainda conseguir que o público veja seus bandidos com um ar de carinho. Não agrada a todos, muito pelo contrário. Lí por aí muita gente que respeito (e que entende muito mais de cinema do que eu um dia vou saber) descendo a porrada no filme. Entendo todos os argumentos, mas continuo pensando que "O Lobo de Wall Street" é tão bom exatamente por isso. Não é perfeito, não é pretensioso e não tem a intenção de inventar a roda. É apenas o trabalho de um sujeito que ama cinema, não importa o quão grosseiro esse cinema seja.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Eu Vi - Clube de Compras Dallas

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Clube de Compras Dallas
(Dallas Buyers Club, 2013)
Direção: Jean-Marc Valée
Roteiro: Craig Borten e Melissa Wallack
com: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner

Que intensidade! Que porrada! Que interpretações! Terminei de ver "Clube de Compras Dallas" emocionado e impressionado com a ousadia em transformar uma história que tinha tudo para ser um melodrama dos mais chatos em filme denúncia. Acho que os méritos aqui devem ser divididos entre o diretor Jean-Marc Valée, seus roteiristas Craig Borten e Melissa Wallack e seus interpretes principais, Matthew McConaughey e Jared Leto. 

A história começa em 1985 com o vaqueiro e eletricista Ron Woodroof, um sujeito preconceituoso, irascível e de personalidade forte, o que se pode entender como o estereótipo do típico texano. Depois de um acidente em seu trabalho, acaba hospitalizado e descubre ser portador do vírus da AIDS. Primeiramente sente-se chocado, incrédulo e ao receber o diagnóstico que tem apenas 30 dias de vida, decide - depois de um porre homérico - descobrir mais sobre a doença e encontrar uma solução. E é aí que o filme ganha dimensões mais interessantes.

Em vez de apostar em uma trama melodramática, onde veríamos o protagonista se desfazer doente na nossa frente, Valée fala sobre o problema dos remédios nos Estados Unidos. Quando Ron faz sua pesquisa, descobre que existem uma serie de remédios fora do país que estavam sendo testados, mas nenhum deles eram permitido pelos orgãos de saúde americano. O hospital onde ele se trata serve como exemplo de como as empresas de medicamentos faziam lobby e ofereciam seus produtos para o tratamento, o que era apoiado por médicos, ansiosos por encontrar uma cura para a doença. O problema é que o medicamento atacava o vírus e não os sintomas, o que fazia da vida de quem tomasse o tal remédio infernal. Ron parte para a clandestinidade desesperado por encontrar soluções que tratassem a doença e lhe dessem algum conforto. 

O filme então assume um tom de protesto contra a indústria farmacêutica, apontando dedos para a perseguição que ele sofreu na tentativa de encontrar soluções de tratamento alternativa aos doentes. Matthew McConaughey que vem numa espiral ascendente maravilhosa, nos impressiona - obviamente - pela transformação física passada pelo ator, mas auxiliada pela ótima interpretação, cheia de nuances que em momento algum o transforma em um herói, mas em um sujeito interessado em se ajudar e que no processo encontra uma forma de ganhar dinheiro. Seu Clube de Compras surge assim, e o personagem tem uma curva dramática muito intensa e ao final da projeção, realmente é um homem mudado e que fez de seus problemas uma força para seguir em frente. Jared Leto como o travesti Rayon é outro grande destaque. Diferente de Ron, é muito menos regrado e encara sua condição como irremediável, mas cria um laço de amizade muito curioso com esse sujeito que antes parecia tão preconceituoso. Outro trabalho de transfiguração que ganha críticas daqueles que apenas enxergam esse aspecto e esquecem-se de notar as sutilezas do ator. Assim como McConaughey, as transformações não são muletas, mas elementos da interpretação, mas que nunca ofuscam os trabalhos dos atores. 

Clube de Compras Dallas é um dos melhores filmes de 2013 por conseguir romper a barreira do "filme de doença" e misturá-lo a denúncia social apoiado por um texto enxuto e interpretes em estado de graça.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Eu Vi - Trapaça

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Trapaça
(American Hustle, 2013)
Direção: David O. Russell
Roteiro: Eric Warren Singer e David O. Russell
com: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner

Queria saber qual o feitiço que David O. Russell usou. Quais são as palavras mágicas que ele calmamente aprendeu para conseguir seguidamente o apreço de boa parte da crítica e dos votantes que elevaram seus três últimos filmes a indicações ao Oscar. E mais, levou o próprio diretor a sua terceira indicação seguida também. Isso sem contar, que no caso de American Hustle conseguiu cravar a indicação dos seus quatro protagonistas, com chances reais de uma delas (Jennifer Lawrence) ser premiada.

E por que começo o texto desse jeito? Por que esse "Trapaça", está longe de ser uma porcaria, mas está mais longe ainda de ser essa fantástica produção que vem sendo vendida. A trama é reciclada de outros filmes de assaltos/golpes e os protagonistas apesar de visualmente serem muito bem caracterizados sofrem com a história já citada, embora Russell tenha o jeito para dirigir atores. Ele realmente consegue fazer seus interpretes acertarem. A tal "Trapaça" que dá título em português ao filme, é a tentativa de um ganancioso agente do FBI (Bradley Cooper) em pegar figurões do governo em tramóias corruptas. Para isso, ele conta com a ajuda do malandro personagem vivido por Christian Bale e de sua comparsa e amante interpretada por Amy Adams. Uma vez que o agente acaba os prendendo, lhes dá uma saída: ou ajudam ou acabam presos. Junta-se ao entourage, a mulher de Irving (Bale), Rosalyn (Jennifer Lawrence), uma alcoólatra surtada que serve mais como problema do que como auxílio. 

Apesar do quarteto estar realmente bem, me passa a sensação de estar vendo mais um filme "bacana, mas que será facilmente esquecível, o mesmo problema que muitos colegas e espectadores notaram no igualmente laureado "O Lado Bom da Vida". Se ali, eu consegui enxergar uma química interessante entre Lawrence e Cooper e uma trama de fundo bastante convincente, o que me fez relevar os excessos fabulescos da história, aqui essa sensação inexiste. Temos uma história divertida é verdade (as participações especiais são ótimas, especialmente a de Louis C.K.) mas que não tem um grande momento, uma grande frase ou mesmo algo que realmente tenha conseguido me emocionar. Salva-se - com muitos méritos - os figurinos, cabelos e design de produção que retratam perfeitamente uma época e a excelente seleção musical. Me parece muito pouco pra tanta comoção.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Eu Vi - 12 Anos de Escravidão

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

12 Anos de Escravidão
(12 Years a Slave, 2013)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: John Ridley
com? Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong'o, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Brad Pitt

Essa é uma daquelas histórias tão inacreditáveis que parece mentira. Solomon Northup era um músico na cidade de Nova Iorque, casado, com dois filhos e que vivia em uma cidade que - aparentemente - aceitava-o como membro de sua comunidade, sem questionar sua cor. Vale lembrar que no período em que o filme se passa, a escravidão ainda era uma nefasta realidade nos Estados Unidos e que Solomon era uma exceção. A trama mostra os doze anos em que esse homem foi sequestrado, vendido e trabalhou como escravo em fazendas no sul do país. 

Solomon encontra personagens com as mais diferentes morais, incluindo escravos que pensam apenas em si mesmo (como julgar?), donos de escravos que aparentemente são bondosos (porque, olha que bondade, não os tratam como animais) e o verdadeiro antagonista, o insano Edwin Epps, um cruel, amargurado e colérico dono de escravos com uma paixão obsessiva por uma de suas escravas. Mas, engana-se quem espera que o filme abusa do melodrama para contar sua história. Steve McQueen (diretor dos excelentes "Hunger" e "Shame") usa da solidão como forma de aprofundar a discussão sobre o tema. Quando o homem é alijado de sua liberdade e forçado a viver em condições sub-humanas, como conseguir forças para manter-se são e otimista? E principalmente, como não sucumbir e acreditar na mentira que o mantém preso? 

É um tema clássico e que o cinema já explorou. McQueen mesmo, em sua estreia ("Hunger") já foi mais graficamente ousado em mostrar o desespero da prisão. Aqui, ele opta por deixar a questão psicologicamente mais intensa e é auxiliado por um elenco muito inspirado. Como coadjuvantes, Benedict Cumberbatch é o "bom vilão", aquele sujeito que talvez seja mais prejudicial ao personagem principal do que aquele vilão insano e quase caricatural, já que ele mantém o status quo com educação e pequenos mimos, como - no caso do personagem, que é músico - um violino. Já Brad Pitt, tem uma aparição curta e fundamental para o ato final da produção. Embora possa se ver aqui uma crítica ao "negro que precisa da ajuda de um branco para conseguir vencer", nesse caso ela me parece tola. Na situação do filme, seria impossível qualquer outra solução. Michael Fassbender beira o caricato em alguns momentos, mas sua psique deturpada em que se prende a um casamento absolutamente falido e mantém um tesão monstruoso e doentio por sua escrava favorita o faz um vilão insano, capaz de "qualquer coisa". E por fim, Lupita Nyong'o, um fenômeno. Doce e melancólica, é facilmente o personagem mais vulnerável da trama, com sua timidez e dificuldade em lidar com os problemas.

E Chiwetel Ejiofor que estrela a produção caminha pelo conflito. Ele sabe que vive uma injustiça, mas precisa manter-se são e portanto se ocupar. Em alguns momentos, parece que Solomon esquece de sua situação e desiste de uma fuga, tentando de fato apenas sobreviver. O ator vai da intensidade e revolta no começo, a apatia, ao sonho e a resignação em uma interpretação realmente muito boa. McQueen não fez aqui seu filme mais impressionante (acho "Shame" seu melhor trabalho), mas o mais importante, o que melhor se relaciona com a audiência. E por isso, o sucesso alcançado. Um dos ótimos filmes de 2013, e que mesmo com falha pontuais (a passagem de tempo é truncada, por exemplo) é verdadeiramente acima da média.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Eu Vi - Fruitvale Station

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

Fruitvale Station
(Fruitvale Station, 2013)
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
com: Michael B. Jordan, Octavia Spencer, Melonie Diaz

Antes de começar, um lembrete. O Gabriel Papaléo já escreveu sobre esse filme durante sua cobertura do Festival do Rio do ano passado. Quem quiser ler, segue link aqui.

Pois bem, esse foi o último filme que assisti em 2013. Não foi intencional. Assisti esse e estava querendo ver alguns outros, mas fiquei tão "mexido" com o que acompanhei nessa pedrada que ficou bem difícil conseguir seguir em frente na maratona. A história - baseada em fatos reais - é bastante comum a quem mora em qualquer grande cidade grande: acompanhamos a história do jovem Oscar Grant (Michael B. Jordan) que está tentando se equilibrar na vida depois de anos de delinquencia e "vida loka". Ele tem uma namorada e uma filhinha e acaba de ser demitido de seu emprego em um supermercado. Durante um dia, o último do ano de 2008, vamos ver seus encontros com uma serie de personagens e algumas resoluções sobre seu futuro. 

O filme é muito inteligente em já preparar o espectador para o que vem a seguir, mostrando em sua primeira cena, algo que vai nos fazer acompanhar toda a produção com a sensação de estarmos vendo uma tragédia anunciada. Na tal cena, vemos alguns garotos deitados de barriga pra baixo e a ação absolutamente exagerada dos seguranças de uma estação do metrô. A cena termina com um estampido e gritos. O que terá acontecido? 

Automaticamente vamos acompanhar aquele dia, já com aquela imagem na cabeça de que alguma coisa muito ruim vai acontecer. Por isso, acompanhar o jovem Oscar tentar mudar e melhorar parece ainda mais melancólico e difícil, e todo seu esforço acaba ganhando dimensões ainda mais intensas. Seu desejo de mudar e melhorar pode até parecer exagerado, mas diante do que o filme parece nos querer dizer, nos cria simpatia por aquele garoto que não é - e nem pretende ser - um herói. Cheio de falhas, problemas em casa, envolvimento com drogas, Oscar é um ser humano, e antes que a "tia conservadora" dentro de você ataque, basta dizer que esse realismo faz do personagem ainda mais admirável, já que ele demonstra força pra tentar sair dessa situação. A interpretação de Jordan é excelente e ao lado de Octavia Spencer (que vive sua mãe) são as âncoras do filme. Octavia emociona o espectador especialmente na última meia hora com uma naturalidade que impressiona. É difícil não se deixar levar e sentir-se ligado a essa realidade, tão - infelizmente - comum.

Fruitvale é - de longe - um dos filmes mais intensos de 2013 e merecia uma porrada de prêmios e principalmente, a sua atenção.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Eu Vi - Azul é a Cor Mais Quente

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.


Azul é a Cor Mais Quente
(La Vie d'Adèle, 2013)
Direção: Abdellatif Kechiche
Roteiro: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix
com: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux

O primeiro filme baseado em uma história em quadrinhos a ganhar uma Palma de Ouro, também ganhou os noticiários não apenas por suas evidentes qualidades como produção cinematográfica, mas pelas polêmicas envolvendo a alta quantidade de cenas de sexo e o disque me disque entre o diretor Abdellatif Kechiche e as estrelas do filmes, as belas e talentosas Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Sem me estender demais, a confusão entre o alegado pulso firme demais do diretor e a dificuldade das atrizes em se sentirem a vontade em meio a tanto sexo em tela, deve ficar à parte em detrimento a obra apresentada, que é de fato, muito acima da média. Como os desmentidos rolaram de lado a lado, acho que os ânimos acabaram se exaltando hoje parece que todos voltaram a "ser amigos" e tudo mais. 

A trama é simples e nessa simplicidade é que o filme acerta. A jovem Adèle é uma colegial normal, sem nenhuma grande qualidade ou falha de carater que está em dúvida quanto a sua sexualidade. Acidentalmente conhece a misteriosa Emma e a partir dai um romance tórrido surge. Nos moldes do que o igualmente excelente "Ferrugem e Osso" fez, esse é um daqueles "romances pé no chão", onde os personagens agem de forma crível e os conflitos emocionam o espectador pela proximidade com situações que podemos enfrentar.

Porém, enquanto Ferrugem era uma quase fábula de superação, Azul não se preocupa em manter o espectador feliz, mas em apresentar uma curva absolutamente comum em todo relacionamento, que diferente do que acontece na maioria dos romances do cinema (especialmente americano) é imperfeito com problemas acontecendo a todo o momento. Melancólico, as atrizes protagonizam cenas intensas - tanto fisicamente, nas já citadas sequências sexuais - quanto emocionais, em discussões e afins. Léa já é conhecida do público e mostra mais uma vez seu talento, mas a inexperiente Adèle (que numa coincidência incrível, tem o mesmo nome da personagem que interpreta) é quem rouba a cena, com um desempenho maravilhoso, cheia de nuances interpretativos, auxiliada pelos excessos (um problema do filme) de closes que seu diretor utiliza, nos faz compreender suas intenções apenas com seu olhar. 

Mas, será que o filme de fato fala de amor? Ou de obsessão? Fiquei com essa dúvida ao fim do filme, e depois que li o quadrinho, percebo que seu diretor abusou da sexualidade para - pra mim - reforçar essa intenção do retrato da obsessão. É uma questão dúbia e que o espectador poderá responder quando der a chance ao filme. O que é unânime (parece, ao menos) é que aqui acompanhamos uma atriz intensa e econômica que estrela essa a produção de grande qualidade.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Eu Vi - A Grande Beleza

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.


A Grande Beleza
(La Grande Bellezza, 2013)
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
com: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso

Gosto muito do cinema de Paolo Sorrentino. O diretor italiano é responsável por alguns dos filmes mais bacanas que vi recentemente como "Aqui é meu Lugar" com Sean Penn e o excelente "Il Divo" com o mesmo Toni Servillo que protagoniza o filme comentado aqui. A partir de personagens exóticos como o cantor decadente ou o excêntrico político italiano, o diretor desfilou sua técnica apurada, domínio sobre a narrativa e direção de atores de forma muito eficiente.

A Grande Beleza é tudo isso alguns passos a frente. A trama apresenta uma forte dose de onirismo e as influências de Fellini são notáveis. O próprio protagonista Jep Gambardella, lembra o personagem de Marcello Mastroianni em A Doce Vida. Ambos são "boa-vida", ambos são jornalistas - um de cultura e o outro de fofoca/celebridades - e ambos estão passando por momentos em que questionam sua vida. 

Apesar de parecer chato e pedante, a forma com que Sorrentino apresenta sua trama é extremamente divertida e a fauna de personagem que fazem parte desse universo é mais uma referência ao trabalho da lenda Federico Fellini. Figuras como o filho de uma amiga que é obcecado pela morte, sua editora que sofre de nanismo, a stripper - linda - quarentona, a amiga cheia de problemas com seu marido e a impagável freira que chega para ser canonizada são alguns desses personagens geniais. Uma homenagem a capital italiana e ao mestre Fellini, A Grande Beleza foi um dos grandes filmes de 2013.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Eu vi - O Hobbit: A Desolação de Smaug

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Resenhas (e não mais crítica longas) diretas ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.

O Hobbit: A Desolação de Smaug
(The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013)
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro
com: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O'Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Adam Brown, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Mikael Persbrandt, Sylvester McCoy, Luke Evans, Stephen Fry 


O que dá pra esperar de uma sequência de um filme longíssimo cujo material fonte é um livro leve e divertido transformado em um épico de fantasia? Muito provavelmente o mesmo que vemos aqui nesse Hobbit: A Desolação de Smaug, que da prosseguimento a aventura do hobbit Bilbo e da trupe de anões em busca de sua morada tomada por um dragão temível.

Disse isso quando escrevi sobre o primeiro filme: o exagero de Peter Jackson em transformar seu Hobbit em um longo apêndice de tudo que J.R.R. Tolkien já escreveu incomoda pela enorme barriga. Felizmente, ela é mais enxuta do que a vista no primeiro filme. Esse road movie (no fundo é isso que o filme é) pontua mais as discussões enfadonhas e os traumas de seus protagonistas (que continuam parecendo versões "menores" dos protagonistas da saga dos Senhor dos Anéis) com inúmeras sequências de ação que são bacanas, mas que parecem apenas atrasar a trama que continua arrastada.

A grande expectativa era ver o Smaug em pixels e cores. A contratação de Benedict Cumberbatch como voz do bicho foi interessante e o ator tem de fato um tom de voz grave que funcionou bem para o personagem (com o auxílio de um monte de filtros). Continuo achando Martin Freeman o melhor hobbit já mostrado no cinema e achando que Richard Armitrage tem o papel mais ingrato da trilogia. Seu Thorin é irritante de tão chato e nunca parece feliz com absolutamente nada, vivendo em conflitos eternos. Os demais anões, com a exceção de Kili, que tem uma ligação especial com a elfa (personagem bacana) interpretada pela linda Evangeline Lilly, continuam sem ter personalidade e ainda ganham a companhia de um novo personagem humano (Bard, que é o anti-herói da vez), do retorno de Legolas (e mais manobras mirabolantes pra mostrar como o sujeito é bom de briga) e da desnecessária revelação óbvia da identidade do misterioso Necromante, que tanto preocupava Gandalf no primeiro filme.

Em resumo, Peter Jackson continua seu surto megalomaniaco e não me parece que vai mudar. O terceiro filme parece ser a última visita do diretor ao mundo de Tolkien, mas não me assustaria se em alguns anos, Jackson voltar a esse mundo para contar (mais) sobre o mundo do autor britânico. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Eu vi - Sobrenatural 2

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.


Sobrenatural 2
(Insidious: Chapter 2, 2013)
Direção: James Wan
Roteiro: Leigh Whannell
com: Patrick Wilson, Rose Byrne, Ty Simpkins, Barbara Hershey

O primeiro Sobrenatural foi um dos filmes de terror mais interessantes dos últimos anos. Certamente, até o lançamento de "The Conjuring", o mais bacana realizado em terras americanas e que ganhou distribuição nos cinemas de uma forma mais massiva. A trama onde um garoto é atormentado por essa entidade bizarra e que levava seu pai a entrar no mundo dos sonhos (ou algo assim) para resgatar sua alma funcionou muito bem justamente por não tentar inventar a roda e manter-se seguro na "zona de conforto" do gênero.

A segunda história começa exatamente onde o primeiro terminou. Sim, é bem importante que o espectador tenha visto, ou veja, o primeiro antes de partir para essa sequência. Sem dar muitos spoilers, digo que o final da trama do primeiro filme é o mote dessa segunda. O que de fato aconteceu nesse mundo de sonhos? A partir dai o roteiro de Leigh Whannell e a direção de James Wan vão e voltam no tempo explicando o presente e o passado de alguns personagens numa tentativa de racionalizar toda aquela experiência (com o perdão do trocadilho infâme) sobrenatural.

Funciona em alguns momentos, mas o filme força a barra quando tenta criar paradoxos temporais e dar uma profundidade muito grande a tudo aquilo. Por outro lado, subverte as expectativas quanto ao vilão da primeira história o que garante algumas surpresas. O clima soturno continua marcando presença embora o ar de investigação dê ao filme uma dimensão maior e que por vezes, atrapalha o clima de terror. James Wan acertou três produções em sequência, e por mais que os filmes não sejam revolucionários e afins, divertem e conseguem atingir os objetivos primordiais do gênero.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Eu Vi - Capitão Phillips

tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".



PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.


Capitão Phillips
(Captain Phillips, 2013)
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Billy Ray
com: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali

Tenso demais esse thriller dirigido pelo especialista no gênero, Paul Greengrass. Talvez na mão de um sujeito que carregasse mais no dramalhão, o filme ficasse insuportável, devido a seu ato final em que o belicissismo americano dá o tom.

Ao preferir apostar na tensão que o capitão de um navio mercante americano (ao tal Capitão Phillips que dá título ao filme) sofre ao ver sua embarcação ser sequestrada por piratas somalis, o filme prende o espectador na cadeira e eleva o filme a ser um dos mais interessantes lançados no ano de 2013. Tom Hanks acerta em cheio na composição do sujeito de meia idade que nada tem de herói, mas que é profundamente capaz e acredita no valor do trabalho e quer a todo custo proteger sua tripulação. Já Barkhad Abdi - que deve ganhar indicação ao Oscar como coadjuvante - vive o sinistro líder pirata, com um ar ora seguro, ora desesperado, ora ingênuo o que o deixa ainda mais ameaçador, pois não conseguimos antecipar seus movimentos.

Com uma hora final assustadora, uma montagem inteligente e que cria tensão com a situação enfrentada, sem precisar apelar para elementos externos e capacidade de manter a produção enxuta e fugindo dos clichês mesmo diante de uma resolução das mais previsíveis. Uma aula de como fazer um thriller.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Eu Vi - Thor: O Mundo Sombrio

O tempo para ver as estreias rarearam, mas continuo vendo filmes (e até algumas estreias porque não?). E quem quiser continuar lendo está convidado a acompanhar essa "nova fase" do blog. Textos (e não mais crítica longas) direto ao ponto, sobre o que "andei vendo".

PS: vou tentar manter esse tipo de publicação constante.



Thor: O Mundo Sombrio
(Thor: The Dark World, 2013)
Direção: Alan Taylor
Roteiro: Christopher Yost, Christopher Markus e Stephen McFeely
com: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Natalie Portman, Christopher Eccleston, Anthony Hopkins, Idris Elba, Rene Russo

Tenho uma serie de problemas com o primeiro Thor. Acho-o vazio, com sensação de urgência (fundamental nesse tipo de trama que apela para situações que precisam ser resolvidas ou “o mundo acaba”) nula e um casting bem discutível. A localização do primeiro filme, que se passa parte em uma Asgard semi-morta e parte em uma daquelas cidadezinhas minúsculas com duas ruas, não ajuda nem um pouco.

Parece que alguém ouviu as reclamações gerais (que não foram apenas minhas) e essa sequência melhora bastante. Asgard parece uma cidade real, e vemos outros habitantes além daquela meia dúzia de deuses de plantão. Existe uma trama mais ágil nessa sequência, menos interessada em criar paralelos rasos com Hamlet e outros textos shakesperianos, e mais atenta a produzir uma aventura divertida. Aqui, a história é mais simples, apostando tudo nas costas daquele que é disparado o melhor personagem da franquia (e talvez da Marvel Studios): Loki. É sobre ele que a aventura gira, que começa o filme preso – já que o filme segue a risca a deixa de "Os Vingadores" – e vai se transformar em um aliado inesperado, sempre pronto a surpreender o espectador (de diversas formas). Temos um novo vilão, que serve muito  mais de escada e “inimigo da vez” para Loki, do que como ameaça verdadeiramente aterradora. Que pese o plano maligno ter a magnitude que faltara na primeira historia é nas relações entre os personagens que o filme ganha mais pontos.

Longe da perfeição, Thor é muito mais divertido do que seu antecessor. Chris Hemsworth finalmente acerta o tom do protagonista, Natalie Portman surge mais ativa do que a típica mocinha encantada do primeiro filme, assim como os excessos da personagem de Kat Dennings estão muito mais contidos. O humor é dividido dessa vez entre o sueco Stellan Skarsgaard, que funciona muito bem como alívio cômico, e um inspiradíssimo Tom Hiddleston, que rouba cada cena. De fato, seu Loki é icônico.

Engraçado sem resvalar nos excessos de Homem de Ferro 3, Thor 2 é um legitimo ponto de saída para a tal “segunda fase” da Marvel Studios, com direito a cena pós-créditos que introduz o conceito do novo filme dos caras.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Falando de "Conselheiro do Crime"


C de Conselheiro

No dia 24 de outubro, estreou nos cinemas brasileiros o novo filme de Ridley Scott, O Conselheiro do Crime. Ainda que a filmografia irregular do diretor atenue a expectativa sobre seus trabalhos, o filme atraiu o público cinéfilo desde o anúncio: o roteiro seria escrito por Cormac McCarthy, autor ganhador do Pulitzer e criador do livro que deu origem a Onde os Fracos não tem Vez – vencedor do Oscar em 2007. O estrelado elenco também empolgou, com os formidáveis Michael Fassbender, Javier Bardem, Brad Pitt e Penélope Cruz, formando toda a expectativa que circulou o trabalho até a estreia.

No entanto, logo na estreia, The Counselor foi duramente criticado pelos profissionais americanos. Críticos consagrados como James Berardinelli (do Reelviews) e Peter Travers (da Rolling Stone) falavam do quão ineptos eram o roteiro de McCarthy e a direção de Scott; a Variety, por exemplo, classificou o filme como “o pior já feito na História”. Espantoso ver um autor prestigiado refém de pesadas críticas.

E quando a estrutura de Conselheiro do Crime vai se revelando aos poucos, entende-se a frustração por parte de quem esperava um thriller criminoso nos moldes. Sombrio, complexo e profundamente teórico, o filme se demonstra um exercício de pensamento, quase um filme-ensaio, um “F for Fake” de Welles.


Em vez de construir o roteiro por situações, o escritor americano investe em diálogos operísticos que revelam menos uma narrativa que uma reflexão sobre a corrupção da moral do Homem. Os personagens se movem através de conversas, e não situações. Servem como avatares, meras representações da proposta da narrativa. Poderiam ser até classificados como arquétipos, mas para isso seria necessário partir do princípio que o filme tenta estabelecer ligação emocional com os envolvidos ali – o que não é verdade. A uni-dimensão, aqui, faz parte da linha de raciocínio.

Há ecos da série Breaking Bad (o ator Dean Norris até aparece – e como traficante), tratando de uma mesma jornada consciente do protagonista até a total corrosão ética, mas o paralelo claro do filme é com a própria obra de McCarthy. Em Meridiano de Sangue, seu melhor romance, o americano constrói um denso retrato panorâmico de uma região estadounidense no fim do século XIX. É um faroeste que exige atenção na leitura; não apenas por um setting intrincado, mas pelos dilemas morais nos quais os personagens são submetidos ao longo da (até simples) narrativa. Similar, o romance A Estrada também lida com as provações éticas que o protagonista sofre, solitário com o filho em um mundo pós-apocalíptico. O mesmo se aplica ao mais famoso dos livros do autor, Onde os Velhos não têm Vez, e assim se estende o assunto em toda a sua bibliografia.

Logo, McCarthy não patina em um assunto que rendeu a obra de sua vida. O Conselheiro do Crime retrabalha os temas caros ao escritor, mas em uma mídia diferente. Não por acaso, o ritmo do filme soa tão distante do que é realizado no gênero em Hollywood: é um longa que se forma pela conversa teatral, que elabora cada uma das cenas introdutórias com total privilégio ao que quer dizer, estabelecendo bem o que acontece, mas sem se importar de fato com aquilo. Qualquer situação que acontece a serviço da narrativa, e não da reflexão, é visivelmente inevitável. O roteiro é sobre subtexto, e não texto; sobre dissertação, não ação.




Após a volta à série Alien, no frustrante Prometheus, é surpreendente como Scott trabalha a serviço do pensamento de McCarthy, traduzindo para as telas o que as palavras do escritor passam à história. Na primeira conversa entre o conselheiro e o traficante vivido por Javier Bardem, o diretor estabelece um background visual (literal, nesse caso) para a atmosfera dali: o advogado é filmado com paredes claras e pontos de fuga diversos atrás dele, enquanto o traficante tem uma enorme parede roxa – cor universal da morte – como fundo de seu enquadramento. A fotografia de Darius Khodji funciona na forte saturação e granulação constante, que não só constrói a aridez corriqueira dos trabalhos de McCarthy como reflete o sufocante ambiente no qual aqueles personagens estão inseridos.

E os simbolismos também vão movendo o fluxo de consciência da violência: o conselheiro transa com a namorada em lençóis brancos, etéreos, como se eternizasse aquele momento para o que virá a seguir; as duas chitas, diante da selvageria do Homem, nada fazem; a poderosa traficante divaga sobre a nostalgia de manter a caça sob controle, com violência elegante e amoral, sem as inquietantes consequências que os homens sofrem; após a conversa com o intermediário, toda nas sombras, o advogado recebe um ultimato sobre a entrada no mundo do crime com um fundo branco, como o último sinal de uma vida decente (e que remete ao início com a namorada).

Sendo assim, não dá pra condenar tanto uma discutível previsibilidade em Conselheiro do Crime. McCarthy é habilidoso na hora de usar sua “Arma de Tchekov”: quando surge uma detalhada descrição de uma morte, o escritor implanta duas histórias sobre outras formas de execução para não deixar evidente para o espectador qual delas vai usar. Mesmo assim, discutir isso é um pormenor estilístico, porque é sobre incursão, e não sobre surpresa, que McCarthy trata. Os rumos da narrativa são delineados desde o princípio, e a graça é ver como Scott lida com o panorama do cartel em prol da desmoralização do advogado vivido por Fassbender.




McCarthy, porém, não é perfeito. Cenas como a da confissão com o padre de nada servem para o subtexto – e discutir o que serve para texto no filme seria mínimo. A constante profusão de temas em cima do mesmo tópico não funciona em todas as cenas, já que a conversa do conselheiro com o vendedor de diamantes só conclui que a narrativa está interessada na imperfeição, o que não deixa de ser óbvio. Mas num apanhado geral, o empenho do escritor para se expressar com fúria sobre as marcas da violência é bem identificado por Ridley Scott, e o filme termina sendo um coerente exemplar do cinema de discussão moral, como os recentes O Voo e A Caça.

Obviamente, Cinema não é Literatura – e construir um ensaio dissertativo que suprima qualquer tipo de ação nem sempre é bem visto. De certa forma, vai até contra a ideia de Cinema em sua gênese. Por mais articulado e arrojado que o filme seja, talvez McCarthy tenha escolhido a mídia errada pra se expressar. É o trunfo e limitação d’O Conselheiro do Crime.