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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Jogo da Imitação

O Jogo da Imitação
(The Imitation Game, 2014)

Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore

com: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Charles Dance, Mark Strong

Um personagem enigmático, transtornado, cheio de segredos e brilhante. Alan Turing foi tudo isso e talvez por ser tão complexo merecia uma produção que fizesse juz a ele. "O Jogo da Imitação" é terno, professoral, emotivo (beirando os excessos melodramáticos) mas falha na tentativa de compreender de fato a genialidade de seu biografado.

Sim, ele aborda as dificuldades de relacionamento que Turing tinha com o mundo ao redor, e sua sexualidade reprimida e é bastante feliz em nos minutos finais da projeção ser irônico quanto ao destino do personagem, porém falta exemplificar os insights geniais, ou de onde vem suas conquistas, problemas bem parecidos com outro indicado ao Oscar desse ano, "Teoria de Tudo". Parece ser um problema crônico em cinebiografias (sendo generalista): ou se apela para a "chapa branca" e transforma-se o biografado em um santo ou foca-se em um aspecto de sua personalidade sem abordar o todo, o que faz dos seres humanos complexos.

Cumberbatch está bem, mas ainda acho que "Sherlock" e "O Espião que Sabia Demais" são suas duas interpretações mais eficientes. Benedict acerta ao fazer de Turing um sujeito que parece sempre estar engasgado pelas palavras e que fez de sua vida uma espiral de controle, resignação e apatia. Em sua vida, não existe espaço para nada além do que seu proposito e amor: a matemática. Amor esse, forjado pela dor de uma perda que o transformou e o manteve em um estado de inércia. A vida passava ao seu lado e ele não conseguia expressar-se.

Isso até envolver-se com o projeto que desvendou os segredos da comunicação nazista e que fez com que sua vida mudasse, abrindo sua percepção para as pessoas ao seu redor e utilizando seus traumas para construir uma máquina que salvou dezenas de milhares.

Os méritos de levantar - mais uma vez - o nome de Turing e dar visibilidade ao seu trabalho e principalmente o de chocar o público com o fato de que um país civilizado a menos de 100 anos condenava a prisão pessoas simplesmente porque estas eram homossexuais compensam os problemas do filme, embora ache que o biografado merecesse mais.


★★★

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura


A Hora mais Escura
(Zero Dark Thirty, 2012)
Ação/Drama - 157 min.

Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal

com: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, James Gandolfini, Mark Strong, Joel Edgerton

Em 2008 Kathryn Bigelow fez um filme pequeno que mal conseguiu ser vendido e que ninguém apostava, mas que virou o mais amado entre os críticos, que o elevaram a condição de obra prima. Quatro anos depois, a mesma Bigelow conta em Hora mais Escura o outro lado da "guerra ao terror" americano. A que se passa nos corredores da CIA, entre analistas obcecados, torturas escondidas, paciência e a sensação constante de frustração.

Maya (Jessica Chastain) é nossa protagonista. Uma mulher que não tem vida, apenas uma rotina quase robótica de estudo e atenção na tentativa de encontrar Osama Bin Laden. Ela não tem uma motivação especial para estar lá, ela simplesmente está. Não existe um trauma ou uma historia pessoal envolvida, ela é apenas uma patriota, por mais risível que esse termo possa soar na atualidade.

A estrutura episódica de Hora mais Escura prejudica o apego aos personagens e quando esses saem de tela - já que a intenção é ser factual abordando episódios que se imaginam serem próximos da realidade, mesmo que isso vá prejudicar a questão narrativa - não sentimos falta desses homens e mulheres.


O filme ganhou ares de polemico em virtude de suas cenas de tortura que acontecem no início do filme. Não são torturas "gore", com gente sendo espancada, olho pulando, sangue espirrando e tudo mais. A coisa é mais sutil, mas igualmente perturbadora, com foco na destruição psíquica e emocional do interrogado. Pois bem, muitos acusam o filme de ser mentiroso quanto às torturas praticadas pelos americanos, dizendo que nada daquilo mostrado de fato aconteceu, enquanto outros defendem que falta um discurso moral mais claro quanto à posição do filme em relação a pratica de tortura.

Sem me estender demais sobre polêmicas, dou aqui minha impressão da coisa: em relação ao fato de aquilo ser real ou não, não sei dizer, não trabalho na CIA, nem tenho conhecimento a respeito, embora não seja a primeira obra a abordar essa possibilidade. Em relação à segunda questão, me parece ainda mais absurda, já que pretende julgar valor em uma obra de ficção que não precisa tomar partido, principalmente quando sua protagonista é uma mulher absolutamente obcecada e que durante o filme nada faz além de tentar desesperadamente cumprir seu trabalho. Logo, ela é partidária da ideia de que "os fins justificam os meios" e, portanto, uma tentativa de amenizar a situação só enfraqueceria o único aspecto plenamente desenvolvido da personagem.

Jessica Chastain é uma atriz talentosa. Vem numa fase muito bem sucedida misturando sucessos de crítica e público, mesmo em filmes que não são tão bons assim. Porém, me parece apenas correta em Zero Dark. Muito por causa da unidimensionalidade da personagem, que me parece proposital. Ela é seu trabalho e nada além, e suas únicas emoções e momentos de alegria têm a ver com uma missão bem sucedida. Além disso, seus métodos e forma de agir não causam empatia, principalmente por sua dificuldade de convencer-se de que sua jornada é complicada e difícil e talvez seja necessário um pouquinho de relaxamento.


Bigelow parece dizer que uma mulher forte e decidida pode mudar o mundo, o que é uma mensagem incrível e digna de aplausos, mas erra a mão ao transformá-la em uma caricatura, um ser robotizado que não sente nada além de frustração, tensão e ira.

Isso leva a questão do filme ser superestimado. Quando se usa essa palavra, não quer necessariamente dizer que o filme seja ruim ou não valha a pena ser visto (mesmo porque encaro o que faço não como guia de consumo, mas como uma analise sobre as produções, deixando sempre a cargo do espectador o que ele deve ou não deve ver). Encaro a questão de ser superestimado como um excesso de elogios a alguma coisa que de fato "não é tudo isso".

As sequências de ação são de fato muito boas, e Bigelow é uma diretora com muito talento para montar esse tipo de produção. Em especial a que mostra em imagens tudo aquilo que o mundo ficou sabendo apenas pelos depoimentos dos envolvidos, a captura de Bin Laden. Misturando câmera de mão com iluminação praticamente inexistente, com go-pros acopladas aos capacetes dos soldados, a sequência é longa, muito bem montada e funciona perfeitamente. O som também é utilizado com enorme competência, substituindo a imagem como forma de transmitir ao espectador o que a sequência está mostrando.


Por outro lado, essa é a repetição da formula de Guerra ao Terror, com o ônus de não conseguirmos nos afeiçoar a ninguém da produção, mesmo diante de um "desfile de astros e estrelas" (Faustão feelings) pela tela do cinema. Desde ligeiras pontas, como é o caso do britânico John Barrowman (da serie Torchwood e Doctor Who), do americano Harold Perrineau (o eterno Michael de Lost), do excelente Edgar Ramirez (do filme/serie Carlos), até coadjuvantes de luxo e que tem pouco a fazer, casos de Mark Strong, James Gandolfini, Joel Edgerton e Kyle Chandler. Mesmo Jason Clarke, que a principio pareceria o co-astro, é deixado de lado, muito em função da ideia de que Maya é tão anti-social que todos ao seu redor vão aos poucos a deixando.

Hora mais Escura é vendida como denúncia e como uma transposição da realidade sobre os meandros da captura do mais famigerado terrorista do planeta. Como denúncia é eficiente, embora pareça "pregar para os convertidos", já que não apresenta muita coisa realmente nova a quem tenha um mínimo de interesse sobre o assunto. Resta o público leigo aguentar uma protagonista irritante para entender as ideias de suas diretora, que consegue realmente nos fazer questionar a obsessão de Maya por sua missão, principalmente nos últimos planos do filme, de uma ironia excelente.

Dizendo assim, parece que o filme é uma porcaria mais não é, pois a historia sendo contada é intrigante e mesmo com todos os problemas da protagonista, para essa historia, ela é perfeita. Contada com curiosa amoralidade, Hora mais Escura é um relato sem pudor sobre a obsessão por seu trabalho, sobre uma relação bastante controvertida dos setores da política americana com a prisão de terroristas e a forma com que esse caminho é tomado.


Mesmo com a sensação de repetição, é um trabalho de exceção e de coragem, principalmente ao colocar na tela (literalmente) o "messias liberal" dizendo que seu país não comete tortura, sendo observado com extrema frieza por Maya. Ir contra o lugar comum e abordar o mundo perfeito pós-Bush como algo igualmente complexo e "sujo", talvez seja o grande mérito da produção e por sua coragem, merece ser visto, mesmo com todos os problemas citados aqui.

domingo, 15 de abril de 2012

Príncipe do Deserto

Príncipe do Deserto
(Black Gold, 2011)
Drama - 130 min.

Direção: Jean-Jacques Annaud
Roteiro: Menno Meyjes

Com: Tahar Rahim, Mark Strong, Antonio Banderas, Freida Pinto

Qual deve ser a sensação de um diretor ao terminar um filme e notar - imediatamente espero - que produziu um filme datado e ruim? Meses - ou anos - de preparo e produção para constatar que seu filme está pelo menos 20 anos atrasado na curva do tempo.

É o caso do cineasta Jean-Jacques Annaud, responsável por títulos importantes como O Nome da Rosa e Guerra do Fogo, que apresenta o fraco e insosso Príncipe do Deserto, uma coleção de clichês pseudo epicos, amparados por uma historinha água com açúcar da pior qualidade.

Príncipe do Deserto conta a historia do Príncipe Auda, um jovem herdeiro, que após ver seu pai, o Sultão Amar perder a guerra para o Emir Necib, é entregue aos cuidados do mesmo, ao lado do irmão como forma de encerrar as disputas políticas da região. Necib é progressista, deseja o desenvolvimento de seu país, enquanto Amar é apegado as muitas tradições de seu povo. Logo, o conflito além de envolver terra, envolve ideologias dissonantes.


O filme salta no tempo, e vemos o jovem Auda como um "nerd" árabe, com o nariz sempre enfurnado nos mais diferentes livros, enquanto seu irmão Ali é um líder em potencial, sempre ao lado de seu falcão de estimação e metido nos assuntos de Estado. Completa o elenco de personagens principais, a bela Princesa Leyla, filha legítima de Necib e que está prometida a Ali.

E todos viveriam suas vidinhas simples e tranquilas, entre dunas e camelos, se não fosse à chegada de um grupo de americanos que interpelam Necib com a ideia de que por baixo daquele deserto abandonado (que segundo um tratado pós-guerra, não deveria ser ocupado por mais ninguém, mantendo-se como uma espécie de "zona neutra" entre as terras dos dois influentes chefes de estado da região) reside uma quantidade muito generoso de petróleo, que até então era usada pelos árabes de maneira inocente.

Necib percebendo que o petróleo poderia ajudar seu plano de transformar sua cidade em uma metrópole digna dos países europeus invade a zona neutra e começa a perfurar a terra a atrás do "ouro negro". Claro que Amar discorda dessa posição e ameaça ir à guerra caso Necib não deixe de perfurar a terra.


E a partir desse ponto que Auda ganha espaço, graças a uma combinação de acidentes trágicos, inveja de seus semelhantes e astúcia de seu "protetor". Antes da metade do filme, o príncipe da biblioteca se vê como emissário de paz e peça fundamental na tentativa de se evitar uma guerra.

Tudo muito lindo e tudo muito chato. Já que o filme não consegue em momento algum ser uma divertida aventura épica, nem uma análise sobre a condição do árabe diante da guerra do petróleo e muito menos uma crônica familiar eficiente.

O filme tem uma serie de problemas sérios que fazem dele um dos grandes fiascos a chegarem aos cinemas brasileiros em 2012. Comecemos pelos atores: Antonio Banderas vive o Emir Necib, parecendo saído de uma novela ruim, cheio de trejeitos exagerados, uma entonação que complica a compreensão de suas frases e uma constante intenção de parecer engraçado, ou cool. No fundo, é mais uma performance de Banderas no automático, canastrão até o último fio de cabelo.


Mark Strong está um pouco (porém nem tanto) melhor que seu colega espanhol. O britânico vive o Sultão Amar como mais um de seus oitocentos e trinta e dois papeis vilanescos que o ator costuma fazer por ano. Não que Amar seja o vilão do filme (e nem vejo Necib dessa forma), mas Amar tem características dos papeis mais famosos de Strong, amparadas pela sabedoria de livro de auto-ajuda.

Tahar Rahim, do ótimo O Profeta, tem a dificílima tarefa de tentar salvar alguma coisa desse fraco épico de meia tigela. Como Auda, precisa passar de estudioso a herói, e se sai razoavelmente bem, principalmente quando se torna um estrategista. Já sua companheira, a bela Freida Pinto, tem muito pouco a fazer, além de observar os personagens pelas frestas em suas janelas, rezar e chorar.

Príncipe do Deserto comete os mesmos erros de todo e qualquer filme que vê os árabes por um prisma que margeia perigosamente o preconceito. Quando não são vistos como radicais estúpidos e grosseiros, fanáticos tacanhos ou ignorantes, são vistos como sábios perfeitos donos das grandes frases de sabedoria e momentos de reflexão a cada segundo. É absurdo, mas tentem notar a quantidade de cenas que são encerradas com algum personagem proferindo alguma frase edificante ou grandiloquente.


E o principal problema: o que afinal quer Príncipe do Deserto? Quer levantar alguma bandeira? Falar sobre como os americanos incutiram na mente dos habitantes da região que o petróleo poderia salvar suas vidas? Ou de apenas falar sobre a jornada de um homem que sai da completa desconfiança para a liderança de um povo? Ou mesmo sobre as dificuldades em mudar o status quo em uma sociedade tão amarrada aos seus dogmas?

Todos esses assuntos são abordados durante o filme, mas infelizmente todos, sem exceção de forma profundamente rasa e sem nenhum impacto. E mesmo quando o filme esboça uma epicidade em sua parte final (que inclui uma peregrinação extenuante de muitos personagens) nunca parece honesto, mas "atirado" em cima da hora numa tentativa desesperada de se destacar a qualquer custo.

Mesmo contando com um visual muito bonito, e muita grana na criação do filme (todo ele vindo dos próprios árabes, o que chega a ser assustador, já que o filme claramente não auxilia em nada a "causa") Príncipe do Deserto é uma coleção quase sem fim de clichês, indo do garoto ingênuo que vira líder, ao romance quase impossível, a batalhas em campo aberto e a trilha sonora que assim como o filme tenta ser algo que jamais conseguirá: contemporâneo e ressonante.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Espião que Sabia Demais


O Espião que Sabia Demais
(Tinker, Tailor, Soldier, Spy, 2011)
Drama/Thriller - 127 min.


Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: Bridget O'Connor e Peter Straughton


Com: Gary Oldman, Colin Firth, Mark Strong, John Hurt, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Tom Hardy


A Espionagem em geral sempre foi um terreno fértil no Cinema. Desde os tensos thrillers realistas como O Alfaiate do Panamá e O Dia do Chacal até os engenhosos blockbusters como Jogos Patrióticos e Missão Impossível, passando pela cine-série de James Bond, o gênero encontrava nos fãs de ação um público fiel, ainda que fossem competentes o suficiente para agradar os cinéfilos. Assim como Ian Fleming, John Le Carré foi um mestre desse gênero na literatura, construindo densas narrativas e povoando-as com excepcionais personagens. Porém, se Fleming se baseava em uma vertente mais pop da espionagem, com suas intrigas e reviravoltas como palco para a ação e charme de seu 007, Le Carré era mais cru, verossimilhante. Seus espiões não tinham o mesmo glamour e a famosa licença para matar, mas eram claramente mais complexos e inteligentes.


E em uma análise básica, é exatamente sobre isso que é O Espião que Sabia Demais, novo trabalho do diretor sueco Tomas Alfredson. Sombrio, tenaz, intrincado e extremamente impessoal, o projeto encanta por suas ousadas escolhas narrativas e seu desenvolvimento impecável de personagens, ainda que enfoque melhor a rotina da espionagem em geral.

Jim Pridoux (Mark Strong) está na Hungria. Ele acaba de receber uma informação de seu chefe, Control, que continha a evidência de um espião infiltrado no alto escalão britânico, o Circus. Porém, algo dá errado. O trabalho, árduo, perdia seu principal analista. O correto então seria reconsiderar o emprego do maior deles. George Smiley (Gary Oldman) então ajeita seus óculos, volta para seu trabalho e tenta achar o traidor interno.




Como disse o Alfaiate,  um dos cinco suspeitos, "nada parecer ser como realmente é". Esse pensamento não poderia estar mais correto. Pridoux começa sua conversa com seu informante e atenta para todos os lugares. Nessa cena pré-créditos, uma das melhores sequências da nova década, a natureza fria e pesada dos espiões se percebe como um soco. A grávida na cena e o olhar desesperado de Mark Strong dão o tom da gravidade da situação. Logo, é interessante enxergar em Espião um filme atmosférico. Não só pela granulação da estupenda fotografia chiaroscura de Hoyte van Hoytema, mas pela impessoalidade com que o roteiro de Peter Straughan e Bridget O'Conner trata seus personagens e situações, privilegiando o estudo da espionagem.

Cada take, engrandecido por uma perfeccionista direção de arte, exala a década de 70. Mas mesmo assim, um visual incrível não causaria uma imersão tão expressiva como o jogo de intrigas a que somos submetidos no filme.

A tensão dá as cartas desde o princípio. Em Budapeste, o silêncio predominava em relação aos diálogos. Pridoux olhava para todos com um ar desconfiado. Essa angústia é o que toma a narrativa de assalto, ao impor sempre dualidade em suas cenas, onde todos desconfiam de todos. O teor da atmosfera é medido pelas lentes de Alfredson com destreza. A imponente troca de foco, que revela John Hurt na sala de reuniões no início, dá o ritmo paciente que o filme toma, sempre analisando com cuidado tudo o que vê. Apresentando com cuidado todos os envolvidos sem que isso os torne menos suspeitos (o que os créditos iniciais e a conversa de Oldman e Cumberbatch fazem com primor), o roteiro demonstra um domínio pleno sobre o gênero, entregando uma obra que observa e questiona.




O registro preciso das ações, obviamente, é o que se mais espera em uma película que investe tanto no estudo (seja de personagens ou situações). Alfredson, como bom cineasta europeu, vai na contramão dos diretores de suspense e abre mão de uma interferência maior como narrador em prol de uma brilhante lógica visual. Ao enfocar as ações em planos subjetivos, a meia distância e munido de zooms milimetricamente calculados, Alfredson examina a espionagem como um verdadeiro espião, encaixando as situações e decifrando os mistérios enquanto realiza seu panorama da tensa época da Guerra Fria. Trabalhando com close-ups somente quando se é necessário extrair alguma informação do personagem (seja ela literal ou uma investigação emocional de alguém como Smiley), o diretor sueco impressiona pelo cuidado e ousadia com sua abordagem técnica. E, como bom espião, desconfia até mesmo do registro da sua imagem, o que impressiona pela proposta. Não temos um narrador ditador, nem um espião passivo. Temos um diretor-espião.

Roteiro e direção em sintonia, portanto. A força de Espião, além da fidelidade ao estudo da espionagem, é seu roteiro complexo, onde a tensão não diminui por um minuto sequer. Uma abordagem essencialmente visual para a narrativa, afinal, é o que um filme como esse teria mais dificuldade de obter. Mesmo obras excelentes, como o Inception de Christopher Nolan, se rendiam ao falatório para verbalizar suas complexas escolhas de roteiro. Espião, porém, vai além. Alfredson, ciente da capacidade analítica de seu público (e de si mesmo), liga seu quebra-cabeça por pequenas sacadas. A intrigante montagem, que mal nos deixa saber em que tempo estamos (fundamental para um exemplar de espionagem), é auxiliada por Alfredson, que estabelece o óculos de Smiley como mediador oculto do tempo. Sabemos que aquela festa, esfumaçada por Hoytema, se passa no passado porque nosso protagonista foi ao oculista mudar suas lentes nos créditos iniciais. E conceber elegantes transições como aquela mediada pelo trilho do trem é notável.

Impessoalidade, aliás, que não nos impede de ter uma relativa ligação com os personagens. Gary Oldman, digno de Oscar, entrega uma segurança impecável a seu personagem (e Alfredson é perfeito ao introduzi-lo por pequenas ações, que retratam a personalidade do inglês). Ricki Tarr, vivido por um preciso Tom Hardy, é impulsivo e é conhecido pelo espectador logo nas sombras, numa sutil referência á natureza "black-ops" das ações de seu trabalho. Logo depois, somos informados de seus impulsos emocionais, o que o tornam a peça mais vulnerável do tabuleiro. Colin Firth e Toby Jones entregam uma competência habitual, enquanto Benedict Cumberbatch e Mark Strong impressionam por suas presenças únicas em cena. Esse último, aliás, merece tantos prêmios quanto Oldman, em um elenco magistralmente preparado por Jina Jay.




E quando vemos uma cena extremamente tensa ter uma música da época como fundo, enxergamos que pode ter algo acontecendo ali. Cumberbatch olha tenso para os lugares. Será que estão me observando? Será que havia escutas? Nem tudo é o que parece. Por que o meu investigador está cantarolando sobre o tal senhor Wu?

O jogo de intrigas se exacerba. Nesse meio, qualquer coisa pode ter segundas intenções. Até mesmo os amores e casos extraconjugais são parte de algo maior. A exaustão causada pelo intrigante e desafiador modo de analisar seus antigos colegas toma vias extremas. Nada pessoal, obviamente. Afinal, um espião tem que ser frio e observador, inteligente e racional (assim como o filme, em geral). Para alguém tão focado e centralizado em seu ofício, não há beleza maior que encontrar uma epifania. A emoção não vem de descobrirmos que é o traidor. Alfredson é fantástico em tornar a descoberta de Smiley, na outra cena da escuta, o motivo de maior catarse. É o estudo que está em questão, afinal. O traidor é só mais um mistério, perto de vários apresentados.

E, em teoria, não há nada mais angustiante que uma tortura desesperada, com um som ensurdecedor nos ouvidos. Mas talvez ver um amigo ser ameaçado a sofrer exatamente a mesma coisa pode ser pior. Ou, quem sabe, não exista algo mais desesperador que ser descoberto. Aquela lágrima, sem dúvida, foi por compaixão. Mas o tiro foi por isso ou por uma auto-proteção de uma possível segunda personalidade? Espiões e suas infinitas possibilidades.



O Espião que Sabia Demais é perfeito pelo seu engenhoso roteiro e cuidadoso planejamento de personagens, mas transcende qualquer competência ao tratar seu público como um ser inteligente, adulto e maduro. Como um receptor de informações fornecidas pelo espião Tomas Alfredson.

Porque um filme tão confiante em quem está do outro lado da tela, que transforma o esquema "diretor-espectador" em "espião-informado", merece ser visto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Red State
(Red State, 2011)
Terror/Thriller - 88 min.

Direção: Kevin Smith
Roteiro: Kevin Smith

Com: Michael Parks, John Goodman e Melissa Leo

Falar sobre fanatismo religioso e condená-lo é mais fácil do que empurrar bêbado da ladeira. Quando misturado a uma pretensa denúncia e ancorado pelo dublê de diretor Kevin Smith, Red State se transforma em uma espiral sem fim de constrangimentos, momentos desnecessários e uma seriedade que faz frente ao melhor que os trolls da internet conseguem fazer.

Amparado em uma narrativa pobre e que atira para todos os lados, Smith começa Red State, indicando que irá falar sobre adolescentes tarados que se dão mal ao serem enganados pelos tais fanáticos religiosos. Ao mesmo tempo, insere o personagem do xerife, que passa o tempo chorando com vergonha/medo de assumir que é homossexual, mas que acaba servindo para essa ideia de historia ao personagem de John Goodman, um investigador que é enviado para acabar com a organização/igreja.

Pois bem, tentando dar alguma profundidade aos fanáticos, durante o filme Smith ainda faz surgir a loirinha angelical que tenta salvar as crianças inocentes, enquanto Goodman precisa enfrentar ordens extremas de seus superiores. Smith aqui tenta subverter as expectativas do publico, incluindo além da critica aos crentes doentes, outra aos governantes intrusivos e corruptos. Muitas boas intenções em temas dolorosos e complexos, que são tratados de maneira infantil e sem profundidade.



O texto de Smith (como em quase todos os seus filmes, o roteiro é seu) não consegue ser reflexivo, não consegue criar tensão e sua câmera não sabe o que mostrar, nem como o fazer. O espectador também é obrigado a aguentar dois monólogos muito mais longos do que o bom senso aguenta, nas vozes de Michael Parks (que lidera a tal seita religiosa) e de John Goodman.

Apesar de servir para apresentar claramente ao espectador toda a insanidade de Parks, o discurso pode até ter ficado bom no papel, mas é profundamente cansativo e enfadonho na tela, já que Smith não sabe muito bem o que fazer com a câmera. Ele não sabe como cortar e estica a conversa além do necessário para sua pretensa proposta, além de não servir a nada, já que ele se dirige aos convertidos, que imagino, já devam conhecer aquela ladainha decorada. E o discurso de Goodman, apesar de criativo na ideia (vejam bem na ideia) substitui o clímax do filme, também, de forma insatisfatória, já que tudo aquilo que é dito seria mais interessante se fosse visto. Talvez Smith tenha percebido que não teria capacidade para encerrar seu filme visualmente, e tenha apelado para a conversinha fiada.

Soma-se a isso uma quantidade grande de diálogos fracos (em especial vindos de Melissa Leo que falaremos a seguir) e na falta de compreensão do gênero que pretende mostrar já que Smith não sabe como apresentar as cenas de ação. Notório diretor de pseudo-dramas e comedias flatulentas e com muita cultura pop, quando precisa mostrar um garoto levando um tiro dos policias - por exemplo - não consegue criar uma imagem que: a) identifique de onde vem o disparo e b) onde está o corpo. Noções de campo visual, que continuam sendo estupradas quando um tiroteio eclode no filme. São muitas balas voando sem nenhum objetivo ou sem nenhum escopo. Quando Smith mostra o grupo de policiais na entrada da casa da igreja, notamos que existem cerca de vinte pessoas por ali. Quando o tiroteio começa essa noção de quantidade é subvertida e a impressão é que existem mais de cinqüenta policiais por ali, tamanho é o desperdício de cartuchos na sequencia.



Ora, se Smith aumentou o numero de oficiais da lei (chegaram reforços, por exemplo) em momento algum existe referencia a isso. Smith prefere mostrar Melissa Leo no seu "Oscar Mode" atirando desesperada, e quando prepara a invasão pela policia, aquele tiroteio absurdo é apresentado como fruto da troca de tiros com meia dúzia de "tiras", incluindo um John Goodman profundamente fora de forma, mal conseguindo andar de forma mais rápida. Não dá para comprar essa ideia.

Quando tenta ser profundo e discutir a sociedade problemática que infla os desejos revoltosos de uma minoria doente, falha clamorosamente. A análise é vazia quanto às motivações dos personagens. Os crentes são insanos porque seguem um homem "louco"? Por quê? Leu demais a bíblia? Interpretou errado? Ou, como possivelmente Smith deve pensar: "está subentendido". Não está. Abin (Parks) é apenas um maluco perturbado como tantos seriais killers do cinema. Não tem frescor algum, charme, ou mesmo se destaca por ser mais sádico que os outros. A questão religiosa é só um chamariz modernoso. O mesmo vale para as questões de "limpeza" do governo americano. São pinceladas, não aprofundadas e depois justificadas de maneira, como é comum a Smith, infantilóide, recheada de palavrões e comentários digno do pior dos livros de auto-ajuda (a analogia do cachorro é impagável).

Completam o pacote, atuações previsíveis e assustadoramente ruins. O trio de jovens tarados (definamo-los assim) é fraco, e serve apenas como desculpa para a história funcionar. Quem é triste de ver é a oscarizada e insuportável, Melissa Leo, quebrando os recordes da concepção de overacting. Surgindo desleixada e suja, apresenta-se como uma fanática lunática que grita demais e convence de menos. Nem quando um personagem importante para a personagem morre, é possível sentir-se convencido pela atriz.



Smith aqui demonstra ser mais uma vez o que todos com bom senso sempre desconfiaram: um engodo. Mas pelo menos, ele tenta sair do trinômio: maconha-nerdismos-sexo, o que é um avanço. Pena que quis agarrar muito mais do que suas mãos gorduchas e sem talento conseguem segurar.




O Guarda
(The Guard, 2011)
Comédia/Thriller - 96 min.

Direção: John Michael McDonaugh
Roteiro: John Michael McDonaugh

Com: Brendan Gleeson, Don Cheadle, Liam Cunningham e Mark Strong

Fazer rir é uma das coisas mais difíceis que um ser humano pode fazer, tão difícil quanto aprender búlgaro, andar na corda bamba, convencer uma mula empacada a se mexer e a tentar convencer fãs de Crepúsculo que vampiros não brilham.

Fazer rir e ainda ser politicamente incorreto é ainda mais difícil, vide a onda de "humoristas" brasileiros que fazem (mesmo?) rir à custa de ofensas gratuitas e da exaltação do palavrão. Ou seja, o humor desse pessoal não vem da observação da sociedade, ou de uma sátira a esses costumes, mas da "trollagem" pura e objetiva. Dane-se se faz algum sentido, o importante é agredir. É dizer que quero transar com a grávida ou que o político é um bandido, só por "chocar". Falta essa perspicácia e inteligência (por que não?) para fazer do humor uma forma de crítica ao que acontece ao seu redor.

Esse talvez seja o maior mérito da comédia The Guard, dirigida pelo estreante John Michael McDonaugh, que a partir da figura exótica e quase surreal do sargento Gerry Boyle, cria uma brilhante sátira da cidade pequena ao mesmo tempo em que nos faz gostar de um policial aparentemente bronco, azedo e racista. Saber caminhar na tênue linha entre o ofensivo e a comédia é a grande sacada de McDonaugh (que também assina o roteiro), que faz das ofensas racistas de Boyle tão absurdas (apesar de não duvidar que muita gente concorda com o personagem) que não conseguimos realmente encará-las como ofensas, mas sim como observações sobre a cultura local. E mesmo assim, as tais observações - tão utilizadas no trailer do filme - não são tão comuns quanto pareciam ser.



A história é mais uma mistura de comedia de parceiros com observações típicas da comedia britânica. O protagonista (um grande trabalho de Gleeson, cada vez melhor) é um policial de uma cidade pequena irlandesa, rabugento e impaciente que começa a investigar um bizarro assassinato, ao mesmo tempo em que um oficial do FBI (Don Cheadle) chega à minúscula cidade para investigar um cartel de drogas. Logo, o assassinato bizarro e a investigação sobre drogas se unem e ambos precisam trabalhar juntos, embora sejam tão compatíveis quanto água e óleo.

McDonaugh não tenta transformar Boyle em um herói, mas transformá-lo em um sujeito muito eficiente, capaz de resistir a subornos, enganar os bandidos e ainda ficar com a mulherada. Um Shaft ruivo e irlandês. Talvez inspirado pelo irmão Martin McDonaugh que dirigiu Gleeson em Na Mira do Chefe, outra ótima comédia de humor negro, lançada em 2008, faz do policial um sujeito potencialmente estúpido, mas que (minha visão) é um camarada profundamente inteligente e que talvez usasse do racismo apenas para "provocar" o oficial americano.

Os vilões são outra grande sacada de The Guard. Os diálogos envolvendo o trio Sheehy (Liam Cunningham de Fúria de Titãs, Harry Brown entre outros), O'Leary (David Wilmot) e Cornell (Mark Strong, o inglês favorito de Hollywood), são recheados de humor negro na melhor tradição da comédia britânica e de referências a cultura pop e literária (onde mais você veria um bando de traficantes dentro de um carro fazendo citações de Nietzsche e conversando sobre poetas ingleses).



The Guard ainda tem uma ótima trilha sonora que remete claramente aos westerns spaghetti e uma fotografia contrastante que faz da pequena cidade de Connemara ainda mais bucólica. A produção não esquece também de - sempre que possível - cutucar os vizinhos ingleses, referindo-se aos súditos mais próximos da rainha com expressões que não cabem nesse espaço (mas que o espectador vai se divertir lendo/ouvindo).

Uma estréia divertida de McDonaugh como diretor, que apesar de não subverter o gênero ou ter grande originalidade (mais uma historia sobre policiais que não se entendem unidos para enfrentar uma ameaça comum) faz o que se espera de uma boa comédia: diverte e ainda consegue criticar e satirizar a sociedade.

As Quatro Voltas
(Le Quattro Volte, 2010)
Drama - 88 min.

Direção: Michelangelo Frammartino
Roteiro: Michelangelo Frammartino

Com: Giuseppe Fuda, Bruno Timpano e Nazareno Timpano


Um cachorro tira a pedra que prendia a roda do carro. Uma cabra olha, serena, o seu ambiente. Uma árvore simplesmente contempla o tempo mudar, junto com as estações. A fumaça branca viaja pelo ar enquanto o círculo negro é preparado. Um homem mexe na panela de comida, na sua casa. A mesa de madeira está ali, dando suporte para a panela. Mal sabe ela que, em breve, ela servirá de suporte para uma... outra cabra.


As Quatro Voltas, filme do italiano Michelangelo Frammartino, um dos melhores trabalhos do Festival do Rio, é uma contemplação da vida no estado mais bruto, natural. Lento, paciente, tranquilo, inocente, o filme trata com sensibilidade os processos do ciclo da existência. É com beleza, lágrimas nos olhos até, que acompanhamos o nascimento de uma cabra, a breve vida de um homem, a reestruturação de uma árvore ou uma mera fumaça saindo da chaminé. A proposta do italiano demora a ser percebida, mas quando se capta a projeção dos fatos, o filme se estabelece como uma experiência sensorial como pouquíssimas.

A falta de estrutura torna a jornada mais instigante. Superficialmente, As Quatro Voltas é uma comédia de situação. Uma comicidade que se deve a passagens que divertem pelo absurdo, como a conclusão da cena extensa, em plano único, do cachorro encrenqueiro. Ainda eficaz ao aliar essa graça com a estrutura do longa (essa mesma cena proporciona a abertura do ato mais interessante do filme), o roteiro de Frammartino encanta por esses pequenos toques de inteligência, mas principalmente por não temer ao ter uma incursão numa viagem visual.


Mas se não há uma trama ou narrativa propriamente dita, há um tom de território inexplorado em As Quatro Voltas. Frammartino nos apresenta a vida daqueles seres vivos como algo trivial, mas tudo se desdobra com um minimalismo estranhamente épico que tudo ali parece novidadeiro. Quando vemos a pequena cabra caindo no chão, é como se ali estivesse à gênese da Vida como conceito. Por isso, o nascimento da árvore não é necessário de ser visto, nem o do homem. O conceito já foi estabelecido.

Os elementos cênicos da vida filmada, vivos ou não, parecem ter um brilho próprio. O cachorro parece gritar "Vão!" ao libertar as cabras. A árvore parece pacífica, mesmo na mudança contrastante do tempo. Os olhos tristes e solitários da pequena cabra parecem observar algo a mais. A cabra medita tranquilamente para o aparente nada, contemplando o céu. A vila está em movimento contínuo, mesmo estando estática. Nada para - porque nada nunca para na vida. O flerte com o absurdo se dá por isso. O caixão do homem sai de forma abrupta. Não há nada mais inesperado que a vida ou a morte. Apenas o ciclo, a Volta.

Sutil, As Quatro Voltas ainda consegue ser vitorioso ao ter o poder de, apenas pelas suas imagens contemplativas, se sustentar. O desbunde visual e emocional é tamanho, que provoca um impacto certo em quem se liberta das amarras do Cinema convencional. O incrível do filme, porém, é que mesmo tendo um pleno domínio sobre o visual, o estrutural é privilegiado, criando um filme poderoso no subtexto brilhante que trabalha.


Nome apropriado, o desse magnífico ensaio. Obviamente, o projeto fala de ciclos, círculos e transições. A árvore auxilia o funcionamento de uma oca gigante, um círculo negro que assusta pela sua imponência. As estações mudam sem serem notadas. As quatro. As cabras mais velhas saem quando o pastor as chama, e são as mais novas que entram. Uma mudança necessária e vital, afinal. O supracitado cão volta, após perseguir a passeata. A fumaça, claro, era água. E vai virar chuva. Vai voltar.

E como maestro dessa linda orquestra visual, Frammartino é preciso. O que eram duas cruzes, viram três em apenas um take. A coordenação da misé-en-scene é calculada, fantástica. Os atores parecem participar de algo maior que esse simples plano físico, estão diante de algo mais. Como em A Árvore da Vida, por exemplo. As elipses também são privilegiadas. São ciclos, mesmo que não-filmados, no final das contas. E a preciosidade da vida é o que melhor se enfoca em As Quatro Voltas. Quando a árvore cai, os pedaços do tronco são o foco mesmo no ambiente mais inóspito. E numa análise, nada deve ser desperdiçado. A cabra está no canto mais obscuro da tela, mas nunca a perdemos de foco.

A brilhante metáfora para a vida, do planeta e do ser mais desconhecido e inusitado possível, é registrada com amor. Com carinho incomensurável. E quando uma quarta volta se torna inesperada ou oculta, não há o que se pensar. Nunca o sentido da obra interpretativa foi elevado a um nível tão alto. A celebração de uma força incompreensível no poder, seja Deus (o catolicismo é recorrente na religiosa vila) ou quem for, é mágica. E seja numa trilha aberta ou num rebanho perdido, você pode até estar sozinho, mas isso faz parte do espetáculo que é estar aqui.

E por espetáculo e carinho, se entende um abraço. E sou eternamente grato por receber um tão forte de As Quatro Voltas.





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Lanterna Verde
(Green Lantern, 2011)
Ação/Fantasia - 114 min.

Direção: Martin Campbell
Roteiro: Greg Berlanti, Michael Green, Marc Guggenheim e Michael Goldenberg

Com: Ryan Reynolds, Blake Lively, Mark Strong, Peter Sarsgaard, Tim Robbins

Massacrado pela grande maioria dos críticos mundo afora, Lanterna Verde apresenta ao grande público o personagem da DC Comics que tem a mais complexa e vasta galeria de personagens, aventuras e escopo da editora. Afinal, o Lanterna Verde (ou melhor, Hal Jordan UM DOS Lanternas Verdes) faz parte de uma força policial que toma conta de todo o universo. Sim, de todo o universo. Só essa idéia, já faz pensar na quantidade inconcebível de histórias, personagens e aventuras que os personagens, conhecidos como a Tropa dos Lanternas Verdes poderiam se envolver.

O filme, infelizmente, não consegue traduzir esse escopo, sendo mais um na lista de blockbusters baseados em quadrinhos que funcionam apenas como uma diversão passageira, não deixando marcas em quem o vê. Deixando de lado muito dessa idéia de policia espacial, o filme de Martin Campbell (Goldeneye, Fim da Escuridão) abraça sem piedade o mal fadado filme de origem, um mal necessário para apresentar ao público o personagem, seus coadjuvantes, um antagonista a altura de nosso herói e toda a gama de informações necessárias para a compreensão de um mundo novo e até então inexplorado.


Ryan Reynolds é Hal Jordan, um piloto de avião falastrão, irresponsável e sem respeito algum pelas regras, em suma, um bad boy. Ao mesmo tempo, o filme (precariamente) apresenta em um forçado flashback, seus problemas em relação à morte de seu pai, que serve tanto para dar alguma profundidade ao personagem quanto para dizer ao público que embora Hal seja um maluco que não respeita as regras, no fundo, ele é um bom rapaz.

Seguindo em paralelo, o filme mostra brevemente o mundo dos Guardiões (uma raça de seres talvez tão antigos quanto o universo e criadores da Tropa dos Lanternas Verdes), Oa, um lugar aparentemente bucólico e de arquitetura praticamente pré-histórica, cheio de curvas, picos e prédios de profunda assimetria. Bem feito, mas profundamente óbvio. O grande destaque na construção desse mundo único é a estrutura de uma espécie de salão de reunião, onde os guardiões recebem os Lanternas para conferencias, planejamento de suas ações entre outras coisas. O grande vilão do filme também surge aqui: Parallax. Originalmente sendo visto como um guardião que tentou comandar uma força maior do que deveria, foi preso em um planeta perdido no meio de uma galáxia abandonada (ou algo assim). Quando um grupo de alienígenas surge em seu habitat, acidentalmente despertam a fúria do ser responsável por comandar o medo.


Parallax é uma entidade, uma força sombria que deveria ser representado como algo tão imponente quanto força dos guardiões, mas me lembrou um inimigo qualquer de desenho animado de segunda, com direito a rosto ameaçador surgindo de uma "misteriosa" fumaça e aquela tradicional e óbvia voz gutural e profunda. Não sou um conhecedor dos quadrinhos do Lanterna e muito menos do personagem citado, mas deixo claro aqui, que caso Parallax seja - no material original - tão risível quanto surge nesse filme, é desde já um personagem a ser incluído na lista dos vilões mais fajutos da história.

Quando penso na representação do medo, jamais consigo imaginar uma forma física, mas uma espécie de vírus, algo intangível ao ser humano. Mesmo que houvesse a necessidade de uma representação física do Medo, ou de alguém que controla o medo, a produção poderia ter pensado em alguma coisa mais eficiente e assustadora do que uma cabeça surgindo entre uma fumaça sinistra.


Por outro lado a maquiagem que tem de causar asco e admiração é muito bem realizada. Sinestro (Mark Strong) com sua pele púrpura é ao mesmo tempo severo e nobre, nos causando só por seu visual a dubiedade que é condizente com o que filme diz de seu personagem. A maquiagem de Abin Sur (Temuera Morrison) também nos espanta ao mesmo tempo em que nos faz pensar no caráter daquele personagem, quando ele surge pela primeira vez em frente a Hal Jordan. Mas, a grande maquiagem em Lanterna Verde é a destinada ao vilão humano Hector Hammond, que passa por uma transformação física durante o filme. Apesar de não ser uma maquiagem inovadora é muito bem realizada e parece integrada ao ator, não surgindo como um apêndice deslocado.

Infelizmente as tão antecipadas e recheadas de expectativas roupas dos Lanternas surgem aqui brutalmente artificiais. A ideia de um traje que fosse uma extensão do pensamento do personagem é interessante em teoria, mas a realização dessa ideia é mediana. As roupas surgem artificiais e claramente produzidas com auxilio da computação gráfica o que resulta em um figurino que não faz jus a ideia dos realizadores.


A montagem do filme tenta dar ritmo a história. Em especial na sequencia em que vemos o "nascimento" do vilão Hammond, quando intercala sua mutação com uma espécie de exame médico a que Hal é submetido em Oa.

O elenco é bom, mas pouco pode avançar além da mordaça juvenil que o texto de Greg Berlanti, Michael Green, Marc Guggenheim e Michael Goldberg impõe. Ryan Reynolds é um protagonista carismático ainda que mantenha alguns cacoetes de suas inúmeras comédias românticas. Longe de ser uma falha, mas demonstra que a construção de Hal Jordan foi realmente açucarada, já que Reynolds solta aqui e ali uma série de piadinhas (como as vistas no trailer, por exemplo). Apesar disso, Ryan - que teve um desempenho matador em Enterrado Vivo - é um ator com talento para manter-se entre o irônico e o caricato, e é dessa forma (para o bem e para o mal) que Hal Jordan surge no filme.


Os coadjuvantes vão bem, em especial Mark Strong (o vilão favorito de Hollywood) que faz de Sinestro um personagem interessante. Auxiliado pela ótima maquiagem, constrói um personagem de características vilanescas embora isso não fique claro para o grande público, que talvez enxergue Sinestro apenas como um camarada nervoso e rígido. Já Peter Sarsgaard tem o melhor desempenho de todo o elenco. Fazendo de Hector Hammond um vilão cínico, falível e bastante humano (apesar de na parte final parecer mais estúpido do que a maioria de nós humanos) seria um vilão digno a produção se a idéia do filme fosse algo mais sério e menos cartunesco.

Explico: Lanterna Verde aposta nas piadinhas, em simplismos para explicar suas situações e em soluções narrativas apressadas, que parecem terem saído de um episódio de um desenho animado juvenil. Nada contra, se o resultado fosse interessante e bem realizado. O clima "sessão da tarde" é divertido, mas se enrola na hora de apresentar os antagonistas e encerrar o filme. Como já disse na crítica, Parallax é um inimigo de proporções tão exageradas que usá-lo como vilão de um filme de origem, nos faz pensar em quanto os produtores terão de trabalhar para encontrar um novo vilão tão gigantesco como o desse filme (porque obviamente o herói vence o vilão, ou vocês acham que ele perderia?).


Isso leva a outra reflexão a cerca do final do filme. Sem revelar o que e como, basta dizer que falta amplitude na sequência, deixando a impressão que a ameaça enfrentada não é tão grandiosa como o filme insiste em dizer, já que as soluções para encontrar a vitória são exageradamente simples. Em suma: o vilão não é páreo para o nosso herói, o que é uma pena. Hal não precisa "suar a camisa" para enfrentar seus antagonistas. O clima levemente açucarado atrapalha a ação e a aventura, e parece ter sido resolvido de última hora.

Lanterna Verde é o herói com maior potencial de se transformar em febre, dentre os do "panteão" da DC Comics, para acompanhar os já universalmente famosos Batman, Superman e Mulher Maravilha. Uma pena que para a editora, a escolha para tal intento tenha sido o de apostar em uma simplificação exagerada de conflitos e personagens, que em Lanterna (o filme) são tão bi-dimensionais como uma revista em quadrinho.


PS: Existe uma cena pós-créditos - para os fãs - mais que é brutalmente deslocada do restante do filme.