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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall


007 - Operação Skyfall
(Skyfall, 2012)
Ação/Aventura - 143 min.

Direção: Sam Mendes
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan

com: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomi Harris

Em Skyfall, James Bond (Daniel Craig) não é mais o mesmo. Se em Cassino Royale ele perseguia a pé por quilômetros (e fazendo parkour durante o caminho) um inimigo, no mais recente filme da franquia o agente tem dificuldades para completar uma simples rotina de exercícios físicos, tem sua mira prejudicada e reflexos mais lentos. Em resumo, Skyfall apresenta um 007 quase veterano, marcado por muitas missões e ferido física e psicologicamente por cada uma delas.

O diretor Sam Mendes - o mais famoso diretor a dirigir uma aventura do agente secreto - coloca esse agente cansado em uma trama que o leva o mais próximo possível de sua casa, tanto em termos literais quanto metaforicamente, em relação aos exemplares mais antigos da série. Mendes pega o esqueleto construído por Martin Campbell em Cassino Royale (ignoremos Quantum os Solace, que é apenas mediano) com um agente bronco, imundo, que resolve muita coisa na base da bordoada e nunca termina uma missão sem uns hematomas e machucados no rosto e mistura com a verve clássica do agente secreto e todo o mundo de requinte, galanteios, martinis batido e não mexido, gadgets, smokings e Walther PPKs. Mendes encontra aqui um equilíbrio entre a noção "realista" de um agente secreto no século XXI e as aventuras escapistas do agente de sua majestade que conquistaram o mundo.

Isso não significa que o filme seja perfeito. Aliás, quais filmes são perfeitos, e ainda mais, qual aventura de Bond era perfeita? Esse abraço apertado no absurdo, essa noção de quase super-heroísmo do agente com permissão para matar é que faziam as gafes e o estilo quase kitsch em muitos momentos, se transformarem em triunfo.


Os problemas aqui são pontuais e dizem respeito diretamente ao desenvolvimento do argumento. Explicações apressadas e a tal lógica que acaba subvertida em detrimento do andamento da ação e que deve incomodar o pessoal que não consegue entender a diferença entre basear um filme em questões reais e o realismo.

A trama começa - e o trailer do filme já nos conta isso - quando Bond é dado como morto e retorna a ação depois de um atentado vitimar seus colegas do MI6. M, novamente vivida por Judi Dench, enfrenta um grande desafio que lhe atinge pessoalmente, enquanto Bond - como disse no começo da análise - precisa de alguma forma encontrar seu lugar. Dessa vez ele recebe auxílio de novos parceiros como Eve, vivida por Naomi Harris (a Tia Dalma da série dos Piratas do Caribe) e do armeiro Q (uma das muitas referências à série clássica que o filme apresenta), e que é vivido por Ben Whishaw, ator irregular de trabalhos como Perfume e Não Estou Lá, mas que aqui é um canal de humor importante para a historia. Se junta ao elenco a figura do burocrata vivido por Ralph Fiennes, que tem desempenho seguro, embora não se destaque.

Gosto de pensar, que filmes de ação e aventura (e até alguns dramas) podem ser julgados pela força de seus vilões. Em uma entrevista recente Sam Mendes disse que se inspirou no clima "real" que Christopher Nolan deu aos seus filmes de Batman, em especial ao segundo filme da franquia, o excepcional O Cavaleiro das Trevas. Essas semelhanças são possíveis de compreender na questão visual do filme, que apesar de não apostar tanto assim nos tons típicos de Nolan, tem escopo e grandiosidade o suficiente para colocar a fantasia dentro de um lugar comum, o grande mérito dos filmes de Nolan, nos colocar em um mundo que poderia existir de verdade com um sujeito vestido de morcego a tira-colo. Porém, é impossível lembrar de Cavaleiro das Trevas sem lembrarmos de Heath Ledger e seu Coringa.


Embora o vilão de Javier Bardem não seja anárquico como o Coringa de Ledger e nem tenha uma motivação tão imprevisível como simplesmente ver o circo pegar fogo, é um sujeito que é igualmente mortífero, perturbado e intenso. A cena em que o personagem encontra o agente James Bond pela primeira vez é fabulosa, de uma variação dramática magnífica e que vai do humor britânico em estado puro, ao medo e a tensão muito facilmente. Bardem consegue dar alma a um personagem que talvez fosse mais um vilão genérico de Bond se não tivesse sido interpretado por um ator tão talentoso.

Judi Dench por sua vez nunca foi tão exigida em um filme de Bond como é nesse Skyfall. Funcionando quase como a bond girl da vez, M é uma mulher que não suporta o fracasso e que precisa dar um norte a sua organização em um mundo cada vez mais cinzento, onde - e o filme nos diz isso - o inimigo não tem uma cara, nem mesmo uma nação. Dench se não tem um daqueles desempenhos fantásticos, concebe humanidade a personagem, fundamental a uma trama que lhe cala tão pessoalmente.

E Daniel Craig parece ter achado um tom confortável para seu Bond. Longe de ser aquele Bond maníaco e brutamontes que tanto chocou aos fãs xiitas da velha guarda do agente secreto, incapaz de beber um Martini e de mal usar um smoking, o James Bond de Skyfall é uma mistura do charme e "classismo" de Sean Connery em seu smoking e irônicos sorrisos e muito poder de sedução com aquela leve galhofa e bom humor que podia ser visto nos filmes estrelados por Roger Moore e que também se assemelha um pouco ao que Pierce Brosnan fez na sua era como o agente 007.


Tecnicamente sem nenhuma grande novidade, Skyfall abraça um pouco o que a franquia já construiu (nem precisaria ser diferente), sendo eficiente em suas sequências de ação, com uma montagem enérgica que consegue criar tensão e fazer-se compreensível para o espectador. Além disso, a trilha é funcional, utilizando o tema de Bond pela primeira vez em um momento que fará os saudosistas vibrarem, além de elevar o nível das canções tema da franquia depois da mediana música de Quantum of Solace (embora os viúvos de revista cancelada continuarem a reclamar).

007 - Operação Skyfall é um belo presente de aniversário do agente aos fãs que acompanham suas aventuras há 50 anos. Combina o que de melhor o agente já fez em suas aventuras: um bom vilão com um plano intrigante, mas que não é confuso ou enfadonho, coadjuvantes carismáticos, bom humor eventual e que sempre funciona e um protagonista que conseguiu encontrar uma maneira de fazer do personagem algo seu, trazendo o que de melhor cada um dos outros interpretes trouxeram ao agente misturado a suas próprias ideias e interpretações do papel. Sam Mendes acerta e os fãs do cinema agradecem.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres


Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
(The Girl with the Dragon Tattoo, 2011)
Suspense/Drama - 158 min.


Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian


Com: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson e Yorick van Wageningen

Fazer de um remake uma obra pessoal e com assinatura é um caso raro. Na história do cinema, pouquíssimos filmes conseguiram a proeza de serem tão, ou até mesmo melhores do que a obra original que inspiraram. São os casos de Onze Homens e um Segredo, Scarface (que empata com o original de Howard Hawks em 32), Ben-Hur, Nosferatu (a versão de 1979), O Enigma de Outro Mundo, A Mosca, Fogo contra Fogo (que é a versão para o cinema de um filme para tv), Falcão Maltês (a versão de 1941 dirigida por John Huston é um remake de outro filme de mesmo título lançado em 31), O Homem que Sabia Demais (caso raríssimo de um remake produzido pelo mesmo autor do original, no caso, ninguém menos que Alfred Hitchcock), Os Dez Mandamentos (cuja primeira versão é de 1923) entre alguns outros que conseguiram a proeza de alcançarem um patamar de excelência que os permite caminhar com as próprias pernas sem comparações constantes com a obra original.

David Fincher pode colocar seu filme nessa lista. Seu Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres é uma obra que reverencia o texto original, tem respeito ao filme sueco e mesmo assim é uma obra profundamente pessoal, com os dedos de Fincher por todo o filme.

Desde a sua preocupação conhecida com a fotografia e o design de produção, que deixam seus filmes (a exceção de Benjamin Button que era um drama histórico e muito mais leve do que sua produção "normal") com um ar de mundo decadente, sujo e apocalíptico (e que aqui é perfeito para a história a ser contada), passando pela trilha sonora que (novamente excetuando-se Button, que é o pior filme do diretor) opta pelo atonalismo, pela robustez de temas e pelo generoso uso de recursos modernos, seguindo pela criatividade dos planos e principalmente para as soluções visuais encontradas para impressionar o espectador (como a já clássica sequencia de abertura do filme, que mistura video-arte com conceitos a serem vistos no filme e a famosa versão para Immigrant Song de autoria de Trent Reznor) e a habilidade do diretor em encaixar atores em situações até então desconhecidas para eles (exemplos não faltam: Forest Whitaker em Quarto do Pânico, Brad Pitt e Helena Botam Carter em Clube da Luta, Jesse Eisenberg em Rede Social, Morgan Freeman em Seven e aqui Daniel Craig e Rooney Mara) obtendo resultados quase sempre excelentes.


Porém, Fincher parece mais maduro aqui. Quem teve a chance de ver o filme original sueco (leia nossa crítica aqui) sabe que um dos momentos mais importantes da trama é mostrado com extrema violência, um voyeurismo quase sádico, e aqui Fincher, apesar de mostrar a situação da forma descrita nos livros, tem alguns pudores e inteligência suficiente para perceber o momento certo e o que mostrar. Outra questão que nos livros fica mais clara e que no filme, Fincher preferiu aliviar, é a questão do relacionamento entre seu personagem masculino principal e sua amante, que nos livros vive em um casamento aberto, com seu marido sabendo exatamente onde e com quem ela está, enquanto aqui a situação é camuflada.

Outra alteração tanto em relação ao livro quanto ao filme original, é seu final, que aqui muda a identidade de um personagem importante transformando o desfecho da história, tornando-a mais redonda e evitando um maior excesso de personagens, além de inserir (também para dar um encerramento a todas as pontas soltas) trechos do segundo livro.

Personagens esses que estão envolvidos na história do jornalista Mikael Blomqvist (Daniel Craig), que acaba de ser condenado pela justiça sueca a pagar uma substancial quantia para um industrial importante que foi acusado sem provas na publicação para qual trabalha (a revista Millenium). Ao mesmo tempo o industrial Henrik Vanger (Christopher Plummer) há quarenta anos recebe todos os anos uma flor emoldurada que o relembra do misterioso sumiço de sua sobrinha Harriet, ocorrida em sua própria casa, uma afastada ilha no norte da Suécia. Henrik pede uma investigação sobre Mikael, tentando cooptá-lo a assumir uma pretensa investigação sobre o caso, para de uma vez por todas chegar a uma conclusão sobre o sumiço da garota. Para isso, contrata uma empresa que prepara um dossiê sobre o jornalista. Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma hacker de visual agressivo, inquieta e que não leva desaforo para casa entra em cena. Em determinado momento da trama (evitando os spoilers aqui) Lisbeth e Mikael passam a trabalhar juntos para encontrar a verdade por trás da história.


Fincher consegue caminhar por três linhas narrativas diferentes com tranquilidade, apesar da longa duração do filme, conseguindo explorar a situação de Mikael e seus problemas com a justiça, a vida de Lisbeth Salander e ainda a investigação sobre o sumiço de Harriet que acaba resvalando em temas espinhosos.

Mikael, aqui vívido por Daniel Craig, é o herói do filme, apesar de seu comportamento não indicar que ele é um sujeito bonzinho e dócil. Craig não é o herói de ação dos filmes de Bond e até encaixa aqui e ali algumas piadas, tornando-se o elo do espectador com o filme, em especial quando está em companhia de Lisbeth.

Essa por sinal, é brilhantemente vivida por Rooney Mara, de forma diferente do original sueco. Se Noomi Rapace fez de Lisbeth uma figura sombria e que era indecifrável, Mara fez de Lisbeth uma garota igualmente complicada mas que está tentando encontrar ligações com a humanidade, apesar de ter uma história de vida complicada. Outra mudança é que Rapace era mais seca e seu envolvimento com Mikael é direto e objetivo, enquanto Mara apesar de seca tem em seu olhar uma característica mais compreensiva e mais humanizada em relação ao filme original. De qualquer forma, Mara tanto por sua transformação física (auxiliada por uma ótima maquiagem que incluí tatuagens, piercings e um corte de cabelo ousado) quanto por sua ousadia em se apresentar de forma tão "lavada" no filme, merece sim os elogios dados pela imprensa internacional.


Os demais coadjuvantes (muito bem escolhidos) não comprometem. Plummer, um ator que voltou a ganhar seguidos papéis depois de idoso, faz de Henrik um sujeito apaixonado pela vida e por sua sobrinha desaparecida, enquanto Stellan Skarsgard faz de Martin, o CEO da empresa Vanger, um sujeito divertido e boa praça, sempre pronto a ajudar Mikael, o que obviamente gera desconfianças do público, assim como as atitudes do advogado da empresa Gert Frode (Steven Berkoff) que surge cauteloso quanto à importância de Mikael. 


Entre as mulheres Robin Wright como a amante de Mikael e dona da revista Millenium, Erika Berger, tem pouco tempo de tela, já que se torna personagem realmente importante nos livros dois e três. Joely Richardson é outra que tem pouco tempo de tela mas sua Anita vem a se tornar peça fundamental na história. O único ponto negativo, é a forma com que o ator holandês Yorick van Wageningen construiu o personagem de Bjurman (o tutor de Lisbeth). Nos livros e no filme original, Bjurman exalava sujeira e era até viscoso. Aqui, Fincher opta por apresentar o personagem como um sujeito duro, mas que aos poucos vai se revelando um canalha. Uma opção que talvez se apóie na ideia de que os monstros estão bem camuflados em nossa sociedade, mas que para o filme faz do personagem mais fraco do que ele deveria ser.

Fincher está em grande fase. Vindo dos ótimos Zodíaco e Rede Social (Button é mesmo um acidente em sua carreira) firma-se ainda mais como um dos poucos autores no cinema comercial americano. Um sujeito que pega seu material de origem e faz de seu filme, um projeto com assinatura própria, com suas marcas e qualidades únicas. Aproveitando-se do gélido ambiente de sua história, Fincher constrói aqui mais um excelente exemplar dos filmes de serial killer, não tão intenso e visceral quanto Seven, mas sem dúvida,  merecedor de elogios e de figurar no panteão dos grandes trabalhos sobre o tema.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintin

As Aventuras de Tintin
(The Adventures of Tintin, 2011)
Ação/Aventura - 101 min.

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish

Com as vozes e performances de: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost e Simon Pegg

2012 começa muito agitado para o mais conhecido diretor de cinema do planeta. Depois de anos afastado da cadeira de direção (Indiana 4 é tão fraco que ignoro sua existência), Spielberg voltou com dois projetos novos e completamente diferentes, tanto em sua proposta narrativa, quanto em seu clima e energia.

Se o Cavalo de Guerra era um modorrento e previsível dramalhão destinado ao aumento do número das vendas dos lencinhos de papel no mundo, As Aventuras de Tintin é o melhor do escapismo "spielberguiano", como há anos o diretor não conseguia fazer. Desde o fantástico Jurassic Park, no paleológico ano de 1992, um blockbuster com sua assinatura não funcionava tão bem. Também marca a primeira incursão do diretor pela até então fracassada técnica da performance capture (que transfere as interpretações dos atores com sensores grudados ao corpo e em frente a uma tela verde para um computador, onde essa performance dá vida a um personagem animado, que por sua vez pode ter a aparência que o diretor quiser) com resultados fabulosos.

Nada melhor do que entregar um "brinquedo novo" a alguém que sabe brincar direito. Robert Zemeckis, o principal lobista dessa técnica e responsável por O Expresso Polar, Beowulf e Fantasma de Scrooge, apesar de ser um diretor competente (afinal um camarada que dirige a trilogia De Volta para o Futuro e Contato não pode ser ruim) não tem nem um décimo do talento de Spielberg. Por isso, é quase "mágico" acompanhar as soluções visuais encontradas pelo diretor para utilizar essa técnica, que pela primeira vez, é realmente bem utilizada.


Spielberg consegue caminhar com grande competência entre o cartunesco e o realismo, assim como a obra original de Hergé, notória pelo trabalho que tinha ao unir a ação típica das tirinhas de quadrinho com uma preocupação estética e histórica na retratação dos cenários onde as aventuras do intrépido repórter aconteciam, como nenhuma outra em seu tempo. Spielberg segue essa cartilha, pois ao mesmo tempo em que vemos deslumbrantes cenários criados pela equipe de animadores (a fantástica cidade portuária no Marrocos é o grande destaque) a ação é tipicamente dos quadrinhos, com pequenos detalhes e "inside jokes" colocadas aqui e ali para divertir o espectador, como por exemplo uma sequencia curta em que um batedor de carteiras perseguido pela polícia tromba na rua com outra pessoa e sobre sua cabeça uma série de canários amarelos surgem voando, para segundos depois, serem resgatados pela dona da loja de animais que fica em frente à ação acontecida.

Spielberg recheou seu filme com essas pequenas piadas e homenagens ao quadrinho original, desde sua abertura, quando um desenhista de rua (talvez o próprio Hergé) faz um retrato de Tintin que é igual ao traço do quadrinista belga. Quando o plano abre vemos uma série de outros personagens também mostrados em retratos com o mesmo traço típico de Hergé. Adiante na projeção, o diretor recheia a sala de Tintin de uma série de recortes de jornal que mostram outras aventuras famosas dos quadrinhos (reconheci duas de saída: O Cetro de Otokar e As Múmias do Faraó). São detalhes que mostram a reverência e o cuidado que o filme foi concebido.

Mas é nas sequencias de ação que Tintin entrega todo o seu potencial. Ficam claros os motivos para que Spielberg tenha optado em criar seu filme com essa técnica, já que seria impossível apresentar sequencias tão energéticas e até cansativas aos olhos - já que muita coisa acontece ao mesmo tempo - caso o filme tivesse sido realizado com as técnicas cinematográficas "comuns". A sequencia de perseguição entre Tintin, o vilão Sakharine e um tanque de guerra é impressionante, de um escopo monstruoso e de uma realização estética impecável. Mas não é só. Mesmo quando precisa diminuir o ritmo, Spielberg o faz com grande competência. Existe toda uma sequencia no deserto que ao mesmo tempo em que desacelera a ação incessante até então, e usada para explicar a história de todo o complô que envolve a história.


História essa, que para quem conhece o quadrinho (ou mesmo a série animada de tv) é muito fiel, apesar de misturar duas histórias diferentes de Hergé. O filme tem o subtítulo de "O Segredo do Unicórnio", obra famosa do autor belga e também trás diversos elementos (em especial no segundo ato, que introduz o personagem de Haddock) de outra obra do quadrinista: O caranguejo das Tenazes de Ouro. Nessa mistura a história começa quando Tintin compra um barco em miniatura que está ligado a um antigo tesouro que era disputado entre o pirata Rakham, o Terrível e o capitão a serviço da coroa inglesa François Haddock. Entra em cena, o misterioso Sakharine que quer a todo jeito o tal barco, já que escondido nele está uma das pistas que leva ao tesouro escondido. Ao mesmo tempo, o coadjuvante mais famoso das histórias de Tintin também aparece por aqui, o famoso Capitão Haddock, um descendente do famoso capitão britânico e um bêbado inveterado, que é famoso por sua incrível habilidade de construir xingamentos inusitados e por seu temperamento explosivo.

A perfeição só não atingida por problemas encontrados na própria historia original, que foi concebida como uma historia em quadrinho ágil, onde alguns acontecimentos são auxiliados por uma mistura de coincidências, acaso e pura sorte, como a própria revelação da pista escondida pelo barco de Tintin. Lembro-me que quando Segredo do Unicórnio foi adaptado para a animação, os dois episódios somavam cerca de quarenta minutos em seu total. O filme de Spielberg tem mais de 100, ou seja, muitas e muitas sequencias de ação foram ampliadas, o que incomoda um pouco, já que o filme tem muito pouco "respiro", seguindo em uma espiral de aventura (de ótima qualidade é verdade), sem tempo para conhecermos melhor nosso protagonista por exemplo.

Essa foi outra saída inteligente dos roteiristas (Steven Moffat produtor executivo de Doctor Who e criador da série Sherlock, Edgar Wright de Scott Pilgrim, Chumbo Grosso e Todo Mundo Quase Morto e Joe Cornish de Chumbo Grosso e Ataque do Bloco) que inteligentemente não optaram por uma história de origem, mas um conto solto no tempo sobre o repórter, assim como os quadrinhos de Hergé. Por outro lado, mesmo em uma aventura solta, pouco nos é revelado sobre a personalidade de Tintin, além de que ele é curioso e muitíssimo inteligente. Quem rouba todas as cenas no entanto, é o Capitão Haddock, um personagem engraçado, espirituoso, cheio de defeitos e impagável. O vilão da trama, o misterioso Sakharine também cumpre o papel de vilão da vez com competência, assim como os detetives mais atrapalhados do planeta, Dupont e Dupont.


Por trás da animação e da movimentação de cada personagem estão atores competentes e um gênio. Jamie Bell (o eterno Billy Elliot e que também esteve em King Kong do produtor Peter Jackson) vive Tintin com a petulância dos quadrinhos e a curiosidade incessante do repórter. Daniel Craig (Bond, James Bond) é Sakharine, e dá ao vilão um misto de charme britânico e a sensação de perigo e astúcia típicas de um bom vilão de quadrinhos. A dupla Dupont e Dupont é interpretada pela dupla número um do mundo, os ótimos Nick Frost e Simon Pegg, repetindo a parceria de Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Paul.

Mas o grande destaque do filme é Andy Serkis. Já passou da hora de alguém olhar para o trabalho que esse talentoso ator realiza em cada filme que faz e perceber o brilhantismo de cada inflexão de voz, cada movimento realizado e notar que muito mais do que um transmorfo virtual, Serkis é um ator da mais alta qualidade. Seu Capitão Haddock é impecável, grosseiro, mal humorado e engraçadíssimo.

Aventuras de Tintin é o verdadeiro retorno de Spielberg. Leve, escapista até o tutano dos ossos, previsível e profundamente divertido. O primeiro - espero que de muitos - blockbuster de qualidade que chega aos cinemas brasileiros em 2012. Que venha o próximo, quando Peter "Hobbit" Jackson assumirá a cadeira de diretor.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Casa dos Sonhos
(Dream House, 2011)
Drama/Thriller - 91 min.

Direção: Jim Sheridan
Roteiro: David Loucka

Com: Daniel Craig, Naomi Watts e Rachel Weisz

Jim Sheridan é um diretor premiado. Tendo em sua carreira filmes muito elogiados como Em Nome do Pai, In America e sua primeira incursão na direção, Meu Pé Esquerdo, o irlandês demonstra ter um talento firme para dramas, ainda que invista errado sua experiência em alguns esforços como Fique Rico ou Morra Tentando e Entre Irmãos. Após um intrigante trailer, ainda que lembrasse demais Ilha do Medo, tinha uma atmosfera intensa e sugeria uma jornada difícil pela mente de um homem. O trailer, porém, entregava um grande mistério, um plot twist. Já que uma mera prévia revelou isso, por que se julgaria que essa informação seria tão relevante para a trama?

Pois é. O trailer entrega o maior mistério do filme. E esse maior mistério, que vinha sido construído com certa segurança, quando é revelado pela metade do filme, dá o início para uma sucessão de erros notável, o que transforma o até ali aceitável Casa dos Sonhos em uma experiência desastrosa.

O escritor Will Atenton acaba de largar seu emprego. Ele quer se dedicar á família e trabalhar em casa. A partir dali, ele vai até sua nova casa, a casa perfeita. A atmosfera etérea, devido à fotografia do mestre Caleb Deschanel, dá um tom interessante ao prólogo. Parece se ensaiar algo instigante.




Porém, nunca o belo prólogo e o cartaz, com as duas irmãs quase iguais de mãos dadas, fazem jus ao suspense ali apresentado. Apontando tudo para uma inspiração no terror classicista (o diretor Sheridan é veterano dos dramas, afinal), o projeto não consegue desenvolver sua intrigante premissa de maneira fluida. Se não bastasse a maior virada da trama já ser conhecida para quem viu o trailer, o desenvolvimento para ela ainda compromete o envolvimento do espectador. Ao apelar para os clichês mais batidos do gênero (o vizinho misterioso, o culto satânico, as visões perturbadas), o roteiro de David Loucka despreza qualquer senso do que se entende por tensão emocional. Ainda assim, o início intrigava porque, pelo menos, Loucka sabe que (surpresa!) um filme de suspense precisa de peças fragmentadas para criar um mistério.

Mas quando o problemático roteiro demonstra sua intenção, os problemas começam a aparecer demais. O maior evento da trama é revelado com pressa e, de quebra, da maneira mais didática possível. Já que estamos falando de um thriller psicológico, o mais provável era mesmo que tudo se resolvesse... em um centro psiquiátrico. O doutor, pronto para dar maiores explicações, explica de forma estúpida toda a trama. Ainda apelando para mistérios que se julgam erroneamente inteligentes (8-10-10?), Loucka dá a pá de cal em seu, antes promissor e ambicioso plot twist, ao fazer o protagonista insistir no delírio mesmo sabendo CLARAMENTE qual é a verdade. Se um homem toma um choque de realidade, ou ele não suporta e volta á ignorância ou se amargura e volta para o plano físico normal. Em Casa dos Sonhos, aparentemente um homem pode reunir os dois.

Sheridan quis retirar seu nome dos créditos, Craig e Weisz se recusaram a promover o filme, o filme não foi exibido para a imprensa americana. Claramente, Casa dos Sonhos estava errado e o diretor, que já havia brigado com um produtor da Morgan Creek Pictures, ainda teve que contar com esse trabalho tipicamente alugado na linha de sua carreira. Montado com descaso, tomado por uma trilha genérica e sem saber resolver com precisão sua trama a partir da metade, o filme lembrou muito a iniciativa estúpida da narrativa de um dos 10 piores filmes de 2010, Salt. Resolvendo o principal até o minuto 50, ainda faltavam 40 para concluir. A estrutura, dependente de um único motivo, acaba não suportando bem e, o revelando cedo, tem que concluir com uma série de reviravoltas de roteiro, por mais idiotas e hilárias que sejam.




No caso de Casa dos Sonhos, o caso é triste. Ao passar o início todo numa tensa atmosfera que, mesmo que não funcionasse completamente ainda causava certo impacto, o roteiro resolve se auto-sabotar ao dar importância a personagens que pareciam estar só de passagem, sem saber o que é desenvolvimento. O mistério se torna vago quando a solução não é surpreendente ou bem realizada. Ao transitar abruptamente do filme-delírio para o pastiche trouxa de suspense detetivesco, o projeto termina opaco, obsoleto, datado e mal realizado. Se não fosse Sheridan e Caleb Deschanel, aliás, Casa dos Sonhos seria muito pior. Acabaria parecendo um filme de gênero de baixo orçamento, fruto de produtoras paupérrimas como a cretina Asylum. Ao menos aqui, a idiotice do roteiro é disfarçada com uma técnica interessante. As cenas de delírio funcionam e Sheridan demonstra ser arrojado, mesmo que o corte final do filme tire a tensão de forma brusca nesses momentos.

Mas nenhuma boa técnica faz um filme bom. A trama com potencial implode de forma fatal. A tentativa pavorosa de tentar humanizar o "assassino" ao final, entregando a culpa para outra pessoa (o que rende um dos piores clímaces que presenciei esse ano), acaba tirando o mínimo de apego emocional que o filme ainda carregava, muito em função da atuação forte de Rachel Weisz (muito melhor aqui do que no similar Olhar do Paraíso). Daniel Craig acaba perdido, fruto do personagem vazio que lhe foi dado. E é raro ser tão visível a briga de um estúdio ganancioso contra um diretor autoral na metragem final. Casa dos Sonhos poderia se dividir entre dois filmes, mas acaba tendo unidade na mediocridade. O que Sheridan pode, ele faz. E se em Ilha do Medo, Scorsese salvou o mediano plot, aqui Sheridan até tenta, mas é sabotado justamente pelo plot ser tão pavoroso.

E quando percebemos que um terror comportamental utiliza o clichê do escritor que ganha inspiração no final de até filmes como a comédia Duplex, se percebe que a projeção não foi das melhores.


Attack of the Block
(Attack of the Block, 2011)
Ação/Comédia/Sci-Fi - 88 min.

Direção: Joe Cornish
Roteiro: Joe Cornish

Com: John Boyega, Jodie Whittaker, Alex Ismail e Nick Frost


Quando Left 4 Dead se juntou aos aliens num GTA inglês.

 “Eu deveria ter voltado pra casa e ter jogado FIFA". Quando em certo momento, um dos cinco gângsteres juvenis de um bloco na cidade de Londres, diz isso, se instala claramente qual é o objetivo desse pequeno, barato e surpreendente filme inglês.

O primeiro filme do comediante Joe Cornish, um dos três responsáveis pelo roteiro do Tintin de Spielberg, empolga por sua simplicidade em surpreender com essas falas, despretensiosas e carregadas de cultura pop. Surtado em seu ritmo frenético ao longo dos ágeis 88 minutos, Attack the Block poderia facilmente observar em Zumbilândia um paralelo cinematográfico fácil, já que pega um subgênero da ficção-científica consagrado e introduz uma roupagem moderna e enxuta.

Quando os meninos cercam a enfermeira Sam (Jodie Whittaker, de Vênus), se ensaia o desenvolvimento de personagens. De forma rápida, clara, já identificamos bem cada um, ainda que a conversa tenha basicamente os mesmos tópicos: jogos, futebol, furtos, armas, alienígenas. As sacadas nos diálogos, que sustentam as cenas estáticas (que servem perfeitamente para contrapor ás cenas explosivas), são fabulosas e as referências pops surgem sem grande esforço. Tudo vira comentário cômico. O alien ("Parece saído do Gears of War!"), o maconheiro certinho (o carro do pai é o alvo do meteoro), a mulher adulta ("Está gostando da professora de matemática?"). É raro ver algo estrutural no filme, como o feromônio, mas é nos ágeis diálogos que o filme ganha pontos consideráveis.


Brevemente, em certas passagens (que nem alteram o resultado final), Attack the Block se mostra frágil. Criando uma estúpida relação da resistência do salto de um garoto para, após, obviamente ele superar o medo, o filme demonstra que é feliz ao não se levar á sério, já que se levasse, teria graves problemas. Além disso, parece flertar com a condição social precária dos garotos, algo que se anula devido à brilhante passagem em que todos passam em casa para pegar armas para o combate. Todos ali têm pais e uma moradia regular, não tem porque tentar achar respostas para os atos criminosos. Felizmente, essas falhas ficam na superfície e mantém Attack the Block num patamar descompromissado, o que é a regra.

E Cornish se recupera desses errinhos e cria tensão a partir de pouca coisa, como na cena do estacionamento e na excelente passagem do caminhão da polícia. Ao saber mexer com os elementos de terror que promete na premissa, o inglês é objetivo. A variação de combates, geralmente com armas brancas, é também uma experiência divertidíssima e válida, o que é outro claro elemento egresso dos jogos. Não por acaso, esse jogo de referências aos games se finaliza na metástase visual: quando os meninos clamam pela vinda do último aliado, fugindo dos aliens atrás dele, eles falam de uma porta semelhante á de Left 4 Dead. Quando ele chega, não adianta negar; eles estão na Safehouse.

Não tarda para que até Nick Frost apareça, numa hilária participação. O cinema do britânico Edgar Wright tem influência forte aqui (e é fácil comparar essa produção a Shaun of the Dead). A relação satírica com o gênero, que funciona perfeitamente no longa de 2004, se nota com menos frequência aqui, ainda que esteja na alma do filme. Uma ironia com a invasão é estabelecida á todo momento ("Os aliens tem 1 metro e vinte, até crianças batem neles!"). Fora isso, a falta de glamour na invasão alienígena é percebida desde o princípio, já que o único ponto de vista que temos é dos próprios moradores do Bloco.


Para Cornish, o mais importante é ver como o traficante Hi-Hatz irá reagir aos fatos do que a população. O exército é citado, mas mal aparece (como em Shaun). Não vemos nenhum noticiário. Afinal, quem importa está na tela.

Além disso, a maneira com que Cornish esquematiza seu filmes para em nenhum momento perder o foco é notável. Nada é problemático, tudo é conveniente, justamente para não se perder um segundo. Se um personagem se machuca gravemente, não há problema, pois Sam é enfermeira. Se um lugar seguro não é achado, o apartamento das amigas tem um portão de ferro. Se não há saída na rua sem saída, sempre tem uma lata de lixo intransponível aos aliens. E nesse esquema de agilidade, Cornish ganha bastante. O que poderia soar esquemático acaba sendo uma bela saída do roteiro, já que Attack the Block não se leva a sério nem nas mortes importantes. Parece que de tão acostumados com as mortes nos videogames, os delinquentes juvenis já entendem que numa guerra sempre há baixas.

Por isso, vale ressaltar: o surtado Attack the Block vale a visita por diversos motivos, mas é encontrando em dois maconheiros os personagens mais sensatos, que a coisa se torna divertida.





sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cowboys & Aliens
(Cowboys & Aliens, 2011)
Ação/Thriller/Sci-Fi - 118 min.

Direção: Jon Favreau
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Mark Fergus e Hawk Ostby

Com: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Paul Dano, Keith Carradine, Clancy Brown e Sam Rockwell

Jon Favreau conseguiu o que parecia impossível: transformou um filme que envolve cowboys, aliens, James Bond e Indiana Jones em uma produção sem nenhuma personalidade, sem charme, graça, e que não é nem mesmo divertida. Mesmo envolvendo dois gêneros estabelecidos (juntando-os em uma - esperada - terceira realidade, onde ambos consigam conviver em "paz"), o filme jamais decola. Favreau para aumentar ainda mais as expectativas quanto ao filme, ainda conseguiu Daniel Craig (Bond) e Harrison Ford (Indi.. ahh vocês sabem), para co-estrelar a produção. Um prato suculento e cheio até a boca para fãs sedentos da melhor diversão escapista da história da humanidade. Pelo menos, essa era a pretensa intensão do filme.

Cowboys & Aliens conta a história do pistoleiro amnésico Jake (Craig) que desperta no deserto, sozinho, sem nem sequer lembrar de quem é, e com um bracelete/pulseira estranho no braço direito. Vagando, ele chega até a cidade de Redemption, uma dessas minúsculas cidadezinhas americanas de Velho Oeste, que cansamos de ver nos filmes e games. Lá é ajudado pelo pastor Meacham (Clancy Brown) e descobre que tudo gira em torno da mão de ferro de Dollarhyde (Ford), o fazendeiro que dita às regras da cidade. Nesse ambiente inóspito, o filme apresenta seus coadjuvantes como o dono do bar Doc (Sam Rockwell), a bela e misteriosa Ella (Olivia Wilde), o xerife Taggart (Keith Carradine) e o mimado e apalermado filho de Dollarhyde, Percy (Dano) que é confrontado por Jake e acaba sendo preso.


Quando - de forma bisonha - o xerife descobre que Jake é um homem procurado, também o prende e enquanto Dolarhyde pai parte em busca da libertação do filho, e Jake tenta entender quem é, uma misteriosa luz surge na cidade que é sumariamente atacada por naves espaciais. O que poderia ser o sonho de qualquer moleque de 14 anos de idade, se mostra uma coleção sem coesão de clichês, com vilões fracos que não convencem por sua motivação e um desperdício absurdo de grandes atores.

Comecemos por esse último item. Cowboys reúne Craig, Ford, Rockwell, Dano, Brown, Carradine e a inexpressiva Olivia Wilde, um elenco repleto de nomes fortes para subutilizar boa parte dele. Rockwell passa o filme inteiro reclamando da vida, de seus medos e tenta ser o alívio cômico fracassado do filme. Dano, Brown e Carradine estão no filme, imagino, por serem caras "conhecidas" do publico, já que não podem fazer quase nada com seus personagens unidimensionais e vagos. Dano, como o garoto arrogante de voz afetada, chega a irritar, enquanto Brown serve como o pretenso guia moral da redenção de Jake e Carradine mais como motivador da busca do garoto Emmett (Noah Ringer, o péssimo Aang de Último Mestre do Ar).


E Wilde? Incrível constatar como as pessoas continuam entregando personagens importantes para essa atriz que demonstra, ser dotada de um número cada vez mais limitado de expressões e que tem um carisma menor do que o de uma formiga agonizante. Completamente fora de sintonia como a misteriosa mulher que diz conhecer os segredos sobre Jake e sobre os invasores alienígenas.

Craig estrela o filme tentando parecer uma mistura de Clint Eastwood e Charles Bronson, mas fica muito longe de qualquer um deles. Craig é um ator lacônico, que interpreta com a presença e o olhar, portanto seria fácil afirmar que Jake é um personagem feito na medida para o ator. De fato é, mas ao mesmo tempo, é alguém com quem o espectador tem dificuldade de se identificar, já que o personagem parece ser um tipo desprezível e por mais que Favreau e seu time de roteiristas (que inclui gente boa como Damon Lindelof da série LOST, Roberto Orci e Alex Kurtzman de Star Trek e Mark Fergus e Hawk Otsby de Filhos da Esperança) tentem amenizar a condição do personagem, Craig é um protagonista muito duro para que consigamos crer em qualquer tipo de suavidade em sua personagem.


Diferente de Ford, que muita gente crê interpretar a si mesmo em uma série de variações, que consegue sempre humanizar seus personagens, por mais vazios e rasos que os mesmos pareçam. Cheio de cacoetes típicos de todas as suas outras interpretações, Ford se não é brilhante, pelo menos dá dignidade ao seu personagem. Uma pena que quando atuam juntos, Craig e Ford - outra falha de Favreau - não consigam entregar sequer uma cena memorável. O mesmo vale para a falta de química entre Dano e Ford nas pouquíssimas cenas em que atuam juntos, como pai e filho.

Tecnicamente, Favreau comete mais um erro crasso em seu filme. Convidou o premiado e talentoso Matthew Libatique (conhecido da filmografia de Darren Aronofsky) para ser seu fotografo, que parece estar, como o diretor, perdido entre fazer um filme moderno e um western tradicional. Essa mistura estranha de estilos pode ser percebida pelas escolhas incomuns na forma de fotografar uma batalha a cavalo. Aqui, se foge dos grandes planos abertos, dos confrontos que são emoldurados pelo cenário, e prefere-se dar espaço ao combate direto, utilizando-se até de câmera de mão. E quando Craig surge em tela, trôpego e fugindo do covil alienígena, Favreau amarra ao ator uma steadycam nos moldes do que Danny Boyle adora fazer em seus filmes. Ao mesmo tempo, o filme é exageradamente escuro prejudicando a compreensão de algumas cenas importantes no filme.


Apesar de seguir uma típica estrutura dos westerns após o surgimento da ameaça alienígena (e aqui quem já viu qualquer western vai entender o que digo), o filme não segue exatamente esse rumo. Diferente do que acontece quando acompanhamos um grupo de pistoleiros no encalço de bandidos (um exemplo claro disso é o excelente Bravura Indômita, o remake, dos irmãos Coen), quando temos tempo para conhecer aqueles personagens, motivações, dramas pessoais e medos, Cowboys & Aliens, por precisar explicar a presença alienígena na Terra, opta por inserir a dissonante personagem de Olivia Wilde, quem vem se revelar como mais importante do que aparentava e é responsável por explicar os motivos absurdos e ridículos da presença alien na terra. Talvez se optasse por não explicar diretamente a presença dos seres no planeta, mas apenas conduzir essa aventura onde o papel dos vilões (quase sempre destinados aos índios) seria vivido pelos ETs, o filme se saísse muito melhor.

E quando tenta mostrar a ação, Favreau acaba com ela - em especial no clímax - quando monta seu filme de modo a apresentar todos os elementos do filme de uma vez, entrecortando e prejudicando seqüências de ação que poderiam tornar-se épicas e impactantes. Mesmo quando tenta criar tensão com o surgimento aqui e ali de alienígenas, não consegue fazer o espectador sequer piscar de medo.


Cowboys & Aliens começou a ser vendido com a salada mais gostosa do cinema. Misturaria dois gêneros consagrados e que jamais haviam de forma direta coabitado o mesmo filme. Infelizmente, Favreau se empolgou com seu brinquedo, esqueceu de fazer um faroeste interessante e de apresentar um sci-fi descente. A salada de Favreau não tem sal, azeite e vinagre, e no meio de tantos vegetais, alguns de gosto bastante duvidoso.