sexta-feira, 6 de maio de 2011

Burke & Hare
(Burke & Hare, 2010)
Comédia - 91 min.

Direção: John Landis
Roteiro: Piers Ashworth e Nick Moorcroft

Com: Simon Pegg, Andy Serkis, Tom Wilkinson, Isla Fischer, Jessica Hynes e Tim Curry



É um grande prazer rever John Landis (o mesmo de pérolas como: Innocent Blood, Trocando as Bolas, Um Lobisomem Americano em Londres, Blues Brothers, Clube dos Cafajestes entre outros) de volta a mistura infalível do "terrir", cheio de boas sacadas, brincadeiras com a ciência, cinema e figuras reais.


De saída o filme já faz sua primeira piada ao enunciar em tomo solene: "essa história é real", para em seguida gozar da própria cara com o acréscimo de "exceto tudo que é mentira". Esse clima permeia todo o filme que tem um elenco sensacional cheio de talentos conhecidos do público e alguns sumidos que tem momentos de grande inspiração.


O filme começa de maneira muito bem humorada com um narrador se dirigindo diretamente ao público, tal como um menestrel que contará uma fábula, com a peculiaridade de que o nosso notável apresentador é o carrasco da cidade.



A história narrada pelo carrasco é a dos amigos Burke (Simon Pegg, de Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Star Trek) e Hare (Andy Serkis da trilogia Senhor dos Anéis, King Kong e De Repente 30), dois camaradas falidos que na Escócia do século XIX estão sempre atrás de dinheiro fácil e de uma nova e fantástica idéia que os deixará ricos. Ao mesmo tempo o filme apresenta dois médicos rivais que competem pela soberania da profissão na cidade de Edimburgo, onde a história de passa. O doutor Knox (Tom Wilkinson, de Entre Quatro Paredes, Conduta de Risco, Ou Tudo ou Nada entre muitos outros) um presunçoso e talentoso cirurgião que usa cadáveres para suas aulas de anatomia. De outro lado, temos o antiquado (palavras do próprio filme) Doutor Monro (o sumido Tim Curry de Rocky Horror Pícture Show e Esqueceram de Mim 2) que luta com Knox pelo monopólio dos cadáveres para seus estudos.


Utilizando seu prestigio Monro consegue influenciar os poderosos governantes da cidade a promulgar uma lei que de a ele a exclusividade dos cadáveres para suas experiências. Durante uma conversa de bar, Burke & Hare ficam sabendo da situação e começam a ver o "negócio" como uma forma lucrativa de viver a vida.


O filme então acompanha os dois amigos e suas desventuras recheando a história com piadas pontuais sobre a ciência (e a incompetência para definir as "causas mortis" dos cadáveres), sobre a criação da fotografia (que tem papel importante na trama) e até uma ligeira mais engraçada piada com o criador do refrescante bucal Listerine.



O que se destaca é a sintonia imediata entre Serkis e Pegg que funcionam muito bem juntos. Burke em sua ingenuidade e bom coração logo se encanta por uma intensa e vivida atriz (a bela Isla Fisher de Becky Bloom e Penetras Bons de Bico) enquanto Hare é casado com a hilária Lucky (Jessica Hynes) e funciona como o gênio do mal da dupla. As trocas rápidas de diálogos e a linguagem corporal da dupla são muito eficientes e são o maior destaque do filme.


Landis parece a vontade com o tema e passa sem grande problema dos corpos cortados pelos médicos para as piadas e situações exageradas e burlescas.


Infelizmente o fôlego inicial de Burke & Hare não é mantido durante todo o filme. A segunda parte (quando novos personagens surgem na trama e ela fica mias "séria) é arrastada e as poucas piadas não compensam o desconforto com o caminho mais "real" que o filme toma. Tentando dar um tom de fábula ao filme, Landis escorrega em sua conclusão que é doce demais para sua história irônica e ácida e que vinha apresentando grandes momentos e seqüências inspiradas.



Se esse foi o aquecimento de Landis para sua volta (espero) ao cinema com força total é uma boa - apesar de curta - amostra de como seu senso de humor continua afiado e sua câmera ainda continua sabendo misturar como poucos o gore e o humor de forma sutil e divertida.

quinta-feira, 5 de maio de 2011


Grandes Mães do Cinema

Mãe. Essa "entidade" que todos temos, algumas ainda vivas, outras que já nos deixaram. O cinema já mostrou-nos todo tipo de mãe, das virtuosas às canalhas. E essa lista apresenta algumas das mais importantes retratadas no cinema.

MA JOAD (Janne Darwell) em Vinhas da Ira, 1940
dir: John Ford

A espinha dorsal da família Joad, o apoio seguro para seus entes queridos não desmontem após a Grande Depressão.

MILDRED PIERCE (Joan Crawford) em Alma em Suplício, 1945
dir: Michael Curtiz


Abrindo mão de tudo (inclusive de sua dignidade) para conseguir o que quer na vida.

MARIA (Julie Andrews) em A Noviça Rebelde, 1965
dir: Robert Wise


A mãe do coração, que mesmo não sendo a progenitora, adota os Von Trapp como sua família.

ZUZU ANGEL (Patricia Pillar) em Zuzu Angel, 2006
dir: Sergio Rezende


Aquela que nunca desistiu de seu filho, mesmo quando a luta parecia impossível de vencer.

J.C. WIATT (Diane Keaton) em Presente de Grego, 1987
dir: Charles Shyer


A mãe "acidental", que diante de uma novidade consegue encontrar as forças para manter sua vida e descobrir o amor.

ALICE HYATT (Ellen Burstyn) em Alice Não Mora Mais Aqui, 1974
dir: Martin Scorsese


Diante da tragédia encontra seu caminho ao percorrer a longa estrada do sucesso, ao lado de um filho pequeno e um amor inesperado.

ROSEMARY WOODHOUSE (Mia Farrow) em O Bebê de Rosemary, 1968
dir: Roman Polanski


Amor incondicional, mesmo diante do pior dos futuros.

ÁUREA (Fernanda Montenegro e Fernanda Torres) em Casa de Areia, 2005
dir: Andrucha Waddington


A disputa emocional entre duas mulheres tão parecidas (não por acaso vividas pelas mesmas atrizes) que se debatem em busca de uma saída de uma tragédia que não parece ter fim.

MANUELA (Cecilia Roth) em Tudo Sobre Minha Mãe, 1999
dir: Pedro Almodovar


Mesmo com a pior das notícias, vai atrás dos sonhos de seu filho, mesmo que precise remexer em antigas feridas.

A NOIVA (Uma Thurman) em Kill Bill vol. 1 e Kill Bill vol.2, 2003 e 2004
dir: Quentin Tarantino


A vingança que a move é a vingança de uma mãe que teve seus sonhos (literalmente) arrancados de seu ventre.

JACKIE HARRISON (Susan Sarandon) em Lado a Lado, 1998
dir: Chris Columbus


O sacrifício e a doação daquela que sabe que sua vida é curta.

MÃE (Hye-Ja Kim) em Mother, 2009
dir: Joon-ho Bong


Mais um exemplo de amor extremo que move céu e inferno para encontrar as verdades sobre seu filho.

ERIN BROCKOVICH (Julia Roberts) em Erin Brockovich, 2000
dir: Steven Soderbergh


Moderna. Ativa. Sem papas na língua, um dos melhores exemplos da tal "mulher moderna" que o cinema conseguiu retratar.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Freakonomics
(Freakonomics, 2010)
Documentário - 93 min.

Direção: Seth Gordon, Morgan Spurlock, Alex Gibney, Eugene Jarecki, Heidi Ewing e Rachel Grady

Roteiro: Seth Gordon, Jeremy Chilnick, Morgan Spurlock, Peter Bull, Alex Gibney, Eugene Jarecki, Heidi Ewing e Rachel Grady




Freakonomics é uma colagem de vários mini-documentários baseados no livro de Steven Levitt e Stephen Dubner (que eu nunca li) que propõe um uso "real" da estatística e da economia para encontrar as respostas por trás das coisas.


Estranho não? Pois é. A introdução do filme, com os dois autores tentando mostrar a audiência como são geniais e brilhantes e como suas idéias são as mais fabulosas da história das idéias, além de não esclarecer o espectador ainda parece auto-indulgente.


Mas, felizmente quando o filme verdadeiramente começa é divertido, questionador, polêmico e melodramático. Um verdadeiro Frankenstein graças à colagem e os diferentes estilos de cada documentarista que a partir de temas diferentes desenvolveu documentários separados e que podem e talvez devam, ser analisados de forma individual.



O primeiro é "A Roshanda by Any Other Name" é dirigido por Morgan Spurlock (de Super Size Me) e tem a cara de seu realizador. Leve, mais entretenimento do que uma verdadeira investigação sobre o tema, funciona bem para o tema mais "descontraído" do filme: o nome que você dá ao seu filho, influencia seu futuro? Trocando em miúdos chamar seu filho de (exemplo) Roberval ou Antonio mudará as chances dele de "ser alguém"? Fico espantado como existam pessoas que realmente pesquisam esse tipo de dado e chocado em como nossa sociedade (no caso, a americana que é a estudada) é tão canalha a ponto de pensar nesse tipo de coisa ao dar um nome a uma criança. É claro que ninguém imagina (espero que os leitores também pensem assim) em dar ao filho/filha algum nome que os fará se sentirem humilhados, mas dai a imaginar um nome de maior "credibilidade social" é o fim. Spurlock - e isso é inerente a seus filmes - não se define entre análise e séria e grande chacota da situação, o que faz do segmento o mais dúbio e confuso de se analisar.



O segundo segmento é "Pure Corruption" dirigido por Alex Gibney (Taxi to the Dark Side e Enron: os Mais Espertos da Classe) e é o mais "sério". Partindo do estudo de caso do sumô, o filme apresenta o conceito de que a maior das purezas pode esconder a pura corrupção, seja ela econômica, política ou social. De longe o segmento mais interessante, e grande responsável pela nota alta da cotação do filme, o segmento de Bulle (roteirista) e Gibney apresenta um estudo estatístico bastante interessante sobre como se foi possível entender como os lutadores de sumô arranjavam suas lutas, ao mesmo tempo em que o filme traça um paralelo entre a pureza do esporte (profundamente ligado ao xintoísmo e cercado de rituais) e a dita pureza dos lideres da economia mundial, responsáveis pelos grandes escândalos econômicos do mundo. Em pouco mais de quinze minutos, Pure Corruption é mais interessante (como narrativa) do que o incensado The Inside Job conseguiu com seu enfadonho falatório.



O terceiro segmento é intitulado "It's Not a Wonderful Life" dirigido por Eugene Jarecki (de Razões para a Guerra) e usando de muitos grafismos e da excelente sacada do uso do clássico de Frank Capra, Felicidade Não se Compra aponta o mais polemico dos conceitos do livro. Tenta explicar o porquê a violência nas grandes cidades americanas, após uma incrível ascensão, passou a diminuir a partir dos anos 90. O livro/filme analisa os fatores mais apontados como responsáveis pela imprensa e chega à conclusão que todos eles são responsáveis por apenas metade da equação. A outra metade é polêmica, e apesar disso, faz sentido quando analisada no contexto. Não chega a ser tão interessante quanto o segmento numero dois, mas pelo tempo apertado em que as informações e revelações surgem do que pela direção interessante e criativa de Jarecki.



O segmento final é o mais fraco e se parece demais com Waiting for Superman, que também acompanha crianças (aqui mais velhas) e suas famílias em busca de uma melhoria em sua educação. "Can a Ninth Grader be Bribed to Succeed?" é dirigido por Heidi Ewing e Rachel Grady (de Jesus Camp) e conta a experiência da Universidade de Chicago em premiar os estudantes do ultimo ano do ensino médio com 50 dólares caso suas notas (todas) tivessem conceitos acima ou igual a C. A idéia era provar se o estimulo financeiro poderia mover os estudantes mais a frente, dando-os incentivo para melhorar suas notas e continuar na escola. O problema do segmento é que ele é arrastado, apesar do pouco tempo e melodramático ao escolher dois personagens que não parecem tão interessantes.; De todo modo, serve como um espelho interessante para mostrar a falta completa de perspectiva de uma porcentagem da juventude do país.



Freakonomics - dono do pôster mais cool de 2010 - não procura dar respostas sobre nenhuma tipo de questão, mas (como os autores dizem) fazer o espectador/leitor questionar as coisas por outro ponto de vista, tentando vislumbrar outras respostas as mesmas perguntas. Por esse lado é brutalmente valido, em uma sociedade cada vez mais pasteurizada e mumificada, mas por outro surge como uma tentativa de "pseudo-culto" a genialidade dos economistas responsáveis por todas as respostas do mundo. A divisão em segmentos não atrapalha o filme já que fica claro que cada um dos segmentos por mais diferente que sejam partem do mesmo principio: ver as questões por outros ângulos. Infelizmente o último segmento esbarra no excesso de melodrama e o primeiro na auto-paródia, deixando o filme irregular como um todo.


Talvez investir nas duas questões mais palpitantes do filme (Corrupção e criminalidade) poderia ter colocado o filme na lista dos grandes documentários do ano passado. Como não fez, ganha apenas a medalha de ouro e os 500 dólares pelo pôster genial e pelos grafismos divertidos.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Thor
(Thor, 2011)
Ação/Aventura - 114 min.

Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Don Payne, J. Michael Straczynski e Mark Protosevich

Com: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Stellan Skasgard

Depois de Blade, lançado em 1998, Hollywood percebeu que o público poderia se entreter novamente com super-heróis, após o declínio do gênero após Batman & Robin e a ausência de Superman nas telas. O rio de adaptações que vieram depois não foi totalmente saudável para as histórias em quadrinhos. Se Homem Aranha veio como um das mais belas adaptações do gênero, A Liga Extraordinária e Do Inferno assassinaram a obra de Alan Moore. A Marvel havia entrado na onda dos filmes já com Blade e após isso, desesperada pela crise econômica na empresa, vendeu seus direitos de personagem por preços baixos para a Sony e a Fox. Enquanto a primeira realizou a lucrativa franquia do Cabeça de Teia, a segunda lançou os competentes X-Men e os limitados Quarteto Fantástico e Demolidor. Porém, a Marvel ainda tinha muitos heróis para serem adaptados. E se a DC tinha controle sobre suas obras (em virtude da mesma ser uma divisão da Warner, que as adapta pras telonas) porque a Marvel não poderia também? Nenhum dos Vingadores havia sido trazido a vida. Lançou-se o Marvel Studios.



A iniciativa é espetacular. Diferente dos filmes meramente lucrativos e fechados das distribuidoras, a Marvel tinha controle criativo sobre os roteiros, sem ter que ver seus melhores personagens virarem meros blockbusters de verão nas mãos hollywoodianas. A bela estratégia de criar um Universo inteiro só da Casa de Ideias nas telas é maravilhosa e teve seu primeiro passo com Homem de Ferro, o excelente hit de 2008.



Após o filme do Hulk e a sequência do ferroso, o Universo deveria expandir. E a decisão de lançar Thor agora é ousadíssima, já que é hábil em abrir os horizontes do Universo e ainda introduz o mundo mágico da editora nos cinemas, coisa que os científicos filmes de 2008 e 2010 não eram. Protagonizado por desconhecidos (Chris Hemsworth e Tom Hiddleton), o projeto é um passo no escuro para o bem-sucedido comercialmente estúdio. O desnecessário 3D nada mais é que uma garantia maior de lucros. E é bom ver que se Homem de Ferro e Hulk foram bem sucedidos ao apresentar bem os personagens ao público e manterem suas características pros fãs, Thor cria um boa lógica pra se adaptar aos desejos comerciais e aumentar o Universo Marvel introduzindo muito bem o personagem mais complicado da editora. O problema principal do filme, porém, é justamente essa lógica.


Em termos de adaptação, os fãs podem ficar tranquilos. Thor é vivido com grande presença por Hemsworth e tem seu espírito e essência idênticos ás HQs, com uma construção formidável no excelente início do filme. Algumas passagens ecoam o visual e narrativa das histórias mais originais de Stan Lee, o que é um tremendo acerto. O visual de Asgard, aliás, está fidelíssimo ao material de origem e cria um belíssimo espetáculo nas sequências fantasiosas. As tomadas aéreas do lugar são de tirar o fôlego, com uma direção de arte impecável ao retratar o cenário com tons fortes, desde o vermelho ao dourado, esse último uma constante na riquíssima Asgard. As internas do local são ótimas também, com tons escuros e que ostentam uma oportuna nobreza.



Já os grandiosos salões, dourados e sempre recheados com os habitantes da cidade(vestidos com os lindos figurinos), são o palco pras melhores partes do filme. A interação entre Odin, Thor e Loki é emocionante por abordar com precisão a energia carregada de culpa que a conturbada relação entre pai e filhos leva. A boa performance de Hemsworth e as inspiradas atuações de Hiddleton e Hopkins só potencializam essa emoção que os realizadores almejavam. Ao investir numa temática shakespeariana, captada com precisão pelas lentes tortas (falarei disso adiante) do especialista no assunto Kenneth Branagh, o roteiro de Ashley Edward Miller, Zack Stentz e Don Payne é extremamente feliz ao criar esses laços de sangue e o que eles geram no governo de Asgard. Sempre que a cidade fantástica entra em tela, a admiração pelo trabalho da Marvel cresce mais ainda. Construída com parcimônia, a mitologia em torno da cidade e os seres que a governam é o ponto alto da produção, que cria esses belos instantes que transcendem o cinemão pipoca, como a melhor cena do filme, a que Odin deserda Thor com rasgantes berros melancólicos.


Porém, se em Asgard a narrativa, os diálogos e a construção de personagens são fantásticos, nas cenas terráqueas a coisa desanda (e feio). A precariedade dos personagens é crucial pra narrativa naqueles momentos. Após a excelente cena que abre o filme, que a montagem de Paul Rubell mescla bem Terra e Asgard, as cenas com Jane Foster (Natalie Portman), Eric Selvig (Stellan Skaarsgard) e Darcy (Kat Dennings) ficam fracas. Tratados de forma ridiculamente simplória, visando uma maior identificação com o público leigo em Thor, os personagens são reduzidos a um par de adjetivos. Jane é a mera cientista interesse romântico do herói, que senão fosse vivida com tanto talento por Natalie, seria uma pateta. Eric é o doutor preocupado em demasia, a contraparte controlada da destemperada Jane. Darcy é a "besta"e alívio cômico. Isso atrapalha bastante o interesse do espectador atento em ver os personagens percorrerem a trama, mas facilita a vida do público médio em conhecer o Universo de forma mais mastigada. Aí que se percebe pela primeira vez as fraturas da lógica comercial criada, que pode até ser eficiente pras massas, mas é falha como arte.



E se o filme oscila nessa balança perigosa do ótimo e do fraco, o roteiro apresenta a sua carta na manga: a criação do Universo Marvel, baseada em referências. Confesso que é emocionante pra um fã ver o Gavião Arqueiro em cena pela primeira vez ou ver uma espetacular luta no planeta de Laufey ou até mesmo a Ponte de Asgard que leva a outras dimensões. Além das ótimas referências aos quadrinhos, as citações ao vindouro Os Vingadores são excelentes e servem bastante para o propósito da criação. A SHIELD, representada pelo Agente Coulson (o bom Clark Gregg), está tão presente quanto em Homem de Ferro 2 e o esquema montado pela organização em torno do Mjolnir caído no deserto rende uma cena de ação das mais empolgantes. Interessante constatar, então, que Thor é um filme de origem como Homem de Ferro mas, é bom para o propósito geral do estúdio, como é Homem de Ferro 2. Na teoria, isso seria perfeito, porém a supra-citada lógica comercial freia o filme de alçar voos maiores. Se Tony Stark é um personagem que o público irá se identificar tranquilamente por ser mais palatável (anti-heróis estão na moda...), Thor é complexo e suas relações familiares são emocionalmente intrincadas. Ferro não precisou ser abrandado pra se encaixar no interesse das massas, mas Thor é diferente. E paga o preço por isso.


Na ação, porém, Thor em nada fica devendo a Homem de Ferro. A pancadaria é das mais empolgantes e Kenneth Branagh é preciso ao captá-la de maneira fluente, sem cortes rápidos. Ainda dirigindo de maneira competente as partes dramáticas, Branagh tem um bom cuidado técnico, ainda que visivelmente não queira passar nada a mais com seus enquadramentos. A grande síntese disso é seu modo torto de enquadramento, o ângulo holandês, uma constante na produção. Esse tipo de ângulo é utilizado pra ilustrar o desconforto do personagem em cena. Mas diferente de Tom Hooper, que enquadrou Colin Firth no canto da tela tentando causar desconforto e se perdeu ao enquadrar todo mundo assim, Branagh não tenta passar nada ao empregar o holandês. É estranho e chega a ser engraçado em alguns pontos, mas o enquadramento é meramente estilístico, o que não diminui a força da direção, o que quase condenou O Discurso do Rei.



O uso da câmera lenta pelo diretor é fantástico também, sem arroubos e determinando com competência momentos de emoção, como a linda parte em que Thor tenta retirar o Mjolnir da pedra (a chuva aumenta a carga dramática de uma bela maneira). Ainda que o 3D (quem puder, fuja dele) deixe mais escura a imagem, é inegável perceber a beleza da fotografia de Haris Zambarloukos, que contribui pra deixar Asgard mais austera, a Terra mais dessaturada (o filme se passa no Novo México) e as batalhas, balanceadas em suas transições de cores. Bonita, a fotografia encontra unidade até mesmo ao filmar a Ponte colorida de Asgard e produz belas imagens, como Jane, Eric e Darcy apenas nas sombras com o céu azul e laranja ao fundo, registrado em contra-plongée por Branagh.


Sendo imperfeito em suas transições ambiciosas entre Terra e Asgard, Thor termina com dignidade e consegue se sagrar como um bom filme, sendo impossibilitado apenas por contrastar tanto sua natureza fantasiosa e o apego excessivo ao público. Se enrolando em funcionar apenas como filme de origem, Thor investe no pano de fundo de ambientação no Universo super-heróico para abrir o caminho pro vindouro Vingadores com destreza, mas nos lembra de que isso, afinal, não era uma abordagem densa á um deus emocionante e sim um filme de super-herói descompromissado. Ás vezes, os super-heróis tem que ser menos pipoca e mais arte...


Não há como negar que o bom Thor é interessante e divertido, mas funciona mais pros Vingadores do que pra ele mesmo.


segunda-feira, 2 de maio de 2011


Kaboom

(Kaboom, 2010)
Comédia/Terror - 86 min.


Direção: Gregg Araki
Roteiro: Gregg Araki


Com: Haley Bennett, Thomas Dekker, James Duval, Andy Fischer-Price, Brandy Futch

Conhecido por seus filmes de temas fortes e exagerados, além de sempre apresentar um subtexto gay, Gregg Araki tem uma carreira diversificada, ainda que trabalhe sempre com os mesmos temas. Nos últimos 3 filmes, porém, Araki tem feito filmes ainda mais diferentes, como o bizarro Mistérios da Carne e a sua comédia de aluguel, Smiley Face. Mesmo que Mistérios contenha a temática gay, a produção se baseia muito mais na estranhíssima trama do protagonista vivido por Joseph Gordon-Levitt, com tons de ficção. E agora em Kaboom, Araki funde seus temas numa trama que tira sarro do sci-fi. Porém, muito mais que apenas uma sátira ao gênero, Kaboom ainda pega os temas recorrentes de seu criador e os usa pra desmantelar as bobas comédias besteirol adolescentes "coming-of-age" e os seriados de TV.


Desde a segunda cena, Araki já inicia sua inteligente sacada satírica. Usando uma fotografia excessivamente azul, o diretor já mostra o quarto com mobília precária, parecendo mesmo um OC, com uma direção de arte feita às pressas. E a construção da trama se mescla com o tom irônico logo nessa cena, quando Smith deseja sexualmente seu colega de quarto. A narração em off de Smith é outra prova dessa mescla que Kaboom realiza com facilidade: serve tanto para apresentar melhor os pensamentos do personagem quanto para fazer escárnio das narrações que permeiam as séries. E a própria construção de personagens justifica essa visão sobre o filme, já que Araki descreve Smith como um homem popular, amálgama humano cercado de todos os diferentes tipos. Interessante notar a criatividade de Araki ao montar todos os personagens sendo distintos, ligados apenas pelo fator que é, no final das contas, o centro do filme: o sexo.


Sexo esse que é sempre contado de maneira preguiçosa na TV, que restringe as séries juvenis ao sexo debaixo do cobertor, cheio de máscaras. Nesse ponto, Kaboom se revela mais original que propriamente satírico, ao escancarar o sexo de maneira muito natural, sendo presente em 80% do filme. Araki sabe do caráter libertador de seu filme através das diversas relações sexuais e é excelente perceber que, além de filmar com uma crua elegância, o diretor encaixa as cenas de maneira brilhante a narrativa, soando orgânica como poucas. Smith, como a síntese de tudo a sua volta, não poderia não ser eclético também em sua opção sexual. Mesmo que não goste de rótulos, como ele mesmo (e todos em tela) diz (em), se relacionar tanto com mulheres tanto com homens é sinal disso. O ápice dessa definição é a cena em que o protagonista fala sobre o papel do cinema na sociedade. Ele o considera anacrônico, porque o cinema de hoje pode não ser o cinema de amanhã. Somando isso aos enquadramentos sempre frontais que Araki faz em Thomas Dekker, emulando um espelho, temos a constatação definitiva do ser transitório que Smith é.



Já na carpintaria narrativa, o sexo serve de caráter transformador e mediador. Sua melhor amiga Stella (Haley Bennett, espetacular) é lésbica e London, vivida esplendorosamente por Juno Temple, é promíscua em sua heterossexualidade. Não por acaso, Smith só volta a se sentir bem em sua condição sexual quando conhece London, a antítese de Stella. Essa é uma das grandes sacadas de originalidade em Kaboom. Araki usa a construção não só para nos tornar identificados com os personagens quanto para justificar elementos narrativos. Em sua cabeça, Smith só se sente completo com os dois lados de uma questão, o que só reforça o fato dele ser um amálgama.


A própria direção de Araki trabalha com essa mistura satírica/sexual. O sexo é, sim, fator principal da transição de cenas mas o humor, até aí é sentido: para situar o espectador, Araki filma a fachada dos prédios nos quais a ação se passa, um vício recorrente das séries. Já os encontros, que acontecem a todo o momento nas séries, sustentam a trama enquanto nada científico acontece. Tanto encontros heterossexuais, como as transas com London, quanto homossexuais, como a van na praia.


Até aí, Kaboom conseguiria se sustentar entre os aspectos cômicos e criativos. O porém da narrativa, e o que a torna tão estranha, é que Smith e seus amigos estão numa trama sci-fi envolvendo o fim do mundo, aspectos místicos, referências á Bíblia e as reviravoltas tão conhecidas desses filmes. E é nisso que o filme começa a tender mais ainda para a sátira. Aliás, o roteiro deixa de lado a originalidade e se concentra na oscilação entre o sarcasmo ao sci-fi e á TV. E nisso, Araki despiroca de vez. Trilha fajuta de perseguição ao fundo, seus personagens fogem, filmados com um filtro cretino de câmera, de homens mascarados de animais. Tudo registrado com uma direção propositalmente truncadíssima. A sacada de Araki é tornar isso algo vital a narrativa e dirigir os atores como se aquela situação fosse séria mesmo, potencializando a piada. Mesmo nas partes mais sérias da história, como a drogada ruiva no banheiro ou a primeira cena do filme, o tom é conduzido de forma leve. A estranheza de Smith ao ver aquelas pessoas no corredor da abertura tem uma trilha meio divina ao fundo, enquanto na cena do banheiro a trilha puxa pro lado do suspense, escrachando o clima.



O filme então vai se dividindo em 3 unidades narrativas. As idéias originais de Araki já estavam implantadas com o sexo e só voltariam na última cena. A sátira sci-fi acabará apenas quando o filme terminar de fato. Resta a Araki, então, antecipar o final de sua série psicodélica de TV. E após várias experiências meramente sexuais, que ironicamente vão de encontro ás lições de vida aprendidas nos Glee da vida, chega o clímax, o "season finale". Após ficar tão em dúvida sobre sua felicidade sexual, Smith termina ganhando de presente de aniversário um ménage-á-trois, com o amigo de Thor e com London. Então, quando o epílogo da sátira chega, não poderia ser de outra forma senão... Um show de banda de rock-pop. Mais impecável, impossível.


Temporada terminada, o sci-fi entra no jogo e toma a trama de assalto. E as reviravoltas que Araki orquestra são excelentes numa sátira por serem tão previsíveis quanto absurdas, por mais paradoxal que isso possa representar. A justificativa deriva da cena hilária que Thor, personagem de Chris Zylka, tenta uma auto-felação. Aquele é o gatilho para o que está por vir. Vendo essa cena, que apenas parece um elemento cômico, o espectador já fica pronto para a bizarrice de Kaboom, esperando até mesmo o inesperado. Os colegas que se revelam apenas fantoches, ser o filho escolhido, encontrar seitas fanáticas, instituições que tem como membros alguns ex-membros da seita principal e até mesmo poderes psíquicos. Tudo de estranho acontece com Smith. E isso tudo encaixado de forma neural e divertidíssima na história.



Kaboom então termina assim, harmonioso entre suas transições de gênero. Extremamente bem sucedido em sua tarefa, o filme não alcança uma cotação maior por não exigir nada além de descompromisso, terminando irretocável em suas modestas pretensões. Voltando ainda á originalidade no seu excelente final deus ex machina, Araki se consagra em sua tarefa e cria um pequeno grande filme.

Uma pequena pérola. E nada mais. Nada de rótulos mais elaborados. Rótulos são a antítese de Araki, Smith, London, Stella e, sobretudo, de Kaboom.










domingo, 1 de maio de 2011

Poesia
(Shi, 2010)
Drama - 139 min.

Direção: Chang-dong Lee
Roteiro: Chang-dong Lee

Com: Jeong-hie Yun, Da-wit Lee e Nae-sang Ahn



Poesia guarda muitos paralelos com Mother, também coreano, por suas linhas narrativas semelhantes. Ambos têm jovens ou adolescentes retraídos e cheios de segredos e mulheres fortes que tentam compreendê-los e lidar com as dificuldades que as atitudes que esses jovens são acusados de tomar.


Mother falava de uma mãe que faz de tudo para ajudar seu filho, e Poesia fala de uma avó (Mija) que cuida do neto adolescente e que tenta seguir sua vida como empregada de um idoso com problemas de saúde. Enquanto esperava o ônibus em seu ponto, descobre um curso de poesia e resolve participar. Durante quase uma hora acompanhamos a rotineira vida da personagem, entre seus afazeres com a casa, seu trabalho, sua tentativa de escrever uma poesia e sua relação com um adolescente fútil, banal e desrespeitoso.


Um fato - tratado com naturalidade pelos envolvidos - muda sua rotina e a personagem passa a correr contra o tempo para ajudar seu neto envolvido em uma tragédia. O diretor Chang-dong Lee é muito sutil ao revelar as impressões de Mija sobre o fato, mas não alivia ao apresentar todos os envolvidos como interesseiros e problemáticos homens insensíveis e motivados a apenas em manter as aparências.


Um triunfo ao conseguir sobressaltar o espectador da cadeira que acompanha uma hora de vertigem - ao modo oriental, que fique claro - em que torcemos com dubiedade para que a sensível e amorosa avó consiga ajudar seu neto, que fica cada vez mais claro ao espectador - outro acerto do diretor - não merece ser ajudado.



A questão da poesia é apresentada de forma tão bela e natural e em nenhum momento torna moroso o filme. Poesia é deslumbrante fotograficamente, em especial nas seqüências que tem como plano de fundo o interior do páis, com pastos e plantações verdes. Lá, o diretor abusa das belas imagens para - talvez - contrastar com as impressões que tem de sua personagem, uma mulher dolorida e em dúvida entre seguir sua consciência e ajudar seu ente mais querido.


Ao mesmo tempo, o filme também fala da dificuldade da relação entre gerações - aqui se utilizando da poesia, gênero literário zumbificado - e na forma com que agimos de forma natural diante de situações absurdas e que deveriam chocar uma sociedade.



A cena em que se revela a trama macabra que envolve o filme é um exemplo poderoso dessa crítica do diretor Chang dong-Lee a sociedade. Notem a revolta contida e a vergonha e embaraço com que a personagem de Jeong-hie Yun recebe as notícias enquanto seus companheiros de mesa bebem e tratam da situação com enorme tranqüilidade.


A interpretação da atriz é muito interessante, sabendo mesclar uma graciosa ingenuidade com uma amargura e desapontamento. Há meia hora final do filme é recheada por momentos como esse, onde a atriz mostra-se fragilizada pelas situações a seu redor e sem saber como agir diante das dolorosas conseqüências de seus atos.



Poesia é dramático sem apelar para o melodrama e consegue ser intenso e (er...) poético sem apelar para o intelectualismo barato, tem grande interpretação de sua atriz principal e uma história que mistura a delicadeza com a mágoa em doses iguais criando um filme delicioso e poderoso. Forte candidato a entrar em uma lista de melhores do ano.