sábado, 21 de agosto de 2010


O Filmes para ver antes de Morrer nunca tentou - e nem vai tentar - criticar ou analisar uma obra que por motivos óbvios está no panteão das maiores (na opinião da equipe) já produzidas pela sétima arte, por isso o espaço aqui é para relembrarmos, homenagearmos e apresentarmos a quem não viu, grandes filmes da história do cinema.

Traffic
(Traffic, 2000)


Porque ninguém sai limpo.


O diretor Steven Soderbergh também começou de baixo, como diretor independente. Um dos mais influentes diretores do circuito americano, fez em 89 um filme chamado Sexo, Mentiras e Videotape. A arrebatadora estreia rendou fama para o diretor e ainda rendeu uma Palma de Ouro em Cannes. Porém, o diretor perdeu um pouco de seu prestígio com o passar dos anos e só conseguiu uma certa visão depois em 1998, quando lançou o mediano filme de romance e roubo Irresistível Paixão, com George Clooney (hoje seu sócio na Section Eight, sua produtora) e Jennifer Lopez, uma adaptação do romance de Elmord Leonard. Voltando finalmente á superfície do mundo do cinema, Soderbergh resolveu dirigir, depois do elogiado The Limey, dois filmes no ano 2000: Traffic e Erin Brockovich.

A sua iniciativa deu resultado, afinal, os dois filmes foram indicados ao Oscar, Soderbergh concorreu contra si mesmo na disputa de melhor diretor, feito raro. E, definitivamente, a volta triunfal do diretor valeu a pena. E até mesmo nesse ano ficou evidente a opção do diretor em alternar produtos comerciais (A trilogia dos homens e os segredos) e independentes (Bubble). Logo, Erin e Traffic são filmes bem diferentes; o primeiro é um filme mais comercial, mais de personagem, quase feito pra Julia Roberts ganhar o Oscar.

Já Traffic é outra história. É um panorama impressionante sobre as drogas, envolvendo a fronteira Estados Unidos-México de forma interessantíssima. Seus personagens também são envolventes e extremamente críveis, interpretado por um time de profissionais competentes que devem ter esquecido de certos privilégios pra atuar nessa estupenda e ousada película. Definitvamente, Soderbergh venceu seu Oscar com louros merecidos.


A trama, que se desenvolve paralelamente por vários núcleos, segue os 3 protagonistas do filme: Javier Rodriguez (Benicio del Toro), Robert Wakefield (Michael Douglas) e Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones). Javier é um policial incorruptível que, junto com seu parceiro Sanchez (Jacob Vargas), são chamados pra trabalhar numa força tarefa do General Arturo Salazar (Tomás Milián), o grande chefe anti-drogas do país. Robert é um juíz que é chamado pra ser o Czar das Drogas americano, o posto de Salazar no México, e Helena é a mulher de Carlos Ayala (Steven Bauer), o maior distribuidor de drogas do Cartel Obregón nos Estados Unidos. Mas tudo dá errado quando problemas atingem os 3: Javier não sabe mais qual é o verdadeiro propósito de sua missão, Robert tem problemas pessoais com sua mulher e a filha problemática e Helena se vê entrando num mundo desconhecido apenas para descobrir o ramo que seu marido trabalhava quando ele é preso. Porém, as histórias nunca se cruzam diretamente, sendo ligada apenas por coadjuvantes como os agentes do FBI, Gordon (Don Cheadle) e Castro (Luís Guzmán), que investigam Ayala; o matador dos Obregón, Francisco Flores (Clifton Collins Jr.) e o próprio General Salazar.


A história parece extremamente difícil de acompanhar, porém é fácil detectar as pequenas peças que colam todo o grande panorama que é Traffic. Complexa sim, pois é intricada a ponto de uma ação á milhares de quilômetros influenciar um juíz de Ohio, mas não difícil. Até porque Stephen Gaghan, o habilidoso roteirista, tem cuidado em colocar o público no meio do mundo do tráfico, apresentando informações, que os personagens citam, que até parecem irrelevantes mas são fundamentais na hora de entender o panorama que o escritor idealizou. Fora isso, o roteirista parece entender os problemas dos envolvidos no tráfico muito bem, criando situações de risco críveis e que a todo momento testam o caráter dos personagens. Um claro exemplo é a saída encontrada por Helena ao descobrir que ele é um traficante dos pesados. Sem dúvida, sua decisão entra na história como uma das mais corajosas vistas no cinema recente. Mas além dela, Rodriguez e Wakefield também são testados de forma angustiante e que faz eles repensarem seu caráter e até mesmo se há espaço pra hipocrisia nesse mundo (coisa que se potencializa com o final do arco do Juiz).

Além da realidade das ações dos protagonistas, ainda temos um time de coadjuvantes sensacional. As melhores cenas ficam entre os agentes do FBI, que se vêem num mundo que a cada dia que passa fica mais desconhecido pra eles. Destaque para seus debates sobre como eles fracassam tanto contra esses traficantes, o que gera um sentimento até maior de respeito a esses agentes. No núcleo deles, ainda temos o matador Flores, que aparece pouco, mas marca presença com estilo. Porém, se o roteiro poderia soar um tanto limitado em se aprofundar tanto em personagens e esquecer de ligar as tramas (o que poderia implodir fatalmente um filme de panorama), Gaghan ainda cria passagens antológicas, como a conversa de Helena com o traficante ou a conversa de Robert com o amigo de sua filha, interpretado por Topher Grace. Mais que isso, ele cria um universo riquíssimo em detalhes, escrevendo passagens de tempo e espaço com uma fluidez pouco vista. E tudo isso em 146 minutos, o que soa quase irreal até, tamanha a quantidade de informações embasadas ali colocadas. Se algumas decisões de roteiro, como o rápido aprendizado de Helena sobre drogas ou a sorte como fator decisivo em uma cena de tiroteio seguido por bomba num carro, soam um tanto forçadas, elas são eclipsadas pela verdadeira aula de tráfico e roteiro que Traffic representa. E ainda tem um fator brilhante: Os mexicanos de Traffic falam espanhol o filme todo! Sim, um filme americano falado em espanhol em 25% da película.

Tecnicamente, Traffic tinha uma responsabilidade enorme, ao transcrever o maravilhoso e quase-perfeito roteiro de Gaghan. Porém, tudo é suprido. A direção de Soderbergh é a melhor de sua carreira, talvez até melhor que a direção soberba de Solaris. Seus takes conseguem enquadrar com maestria, filmar de forma crua e ainda impor um tom documental em certos pontos do filme. Direção criativa ao extremo, com a devida coroação. Auxiliando ainda a narrativa, temos uma fotografia de Peter Andrews (é o Soderbergh, disfarçado, com pseudônimo), primorosa desde o primeiro frame. Ao pontuar de forma clara cada parte da trama, a fotografia entra no filme como uma inteligente solução visual para representar o que é cada núcleo. No México, temos um ambiente feio, quente, árido, com um filtro de câmera amarelado que privilegia o deserto. Nos Estados Unidos, com Robert, temos um filtro azul, que retrata um ambiente comum e gélido, onde as aparências importam mais. Já no núcleo Ayala, temos uma fotografia pesada, contrastada, que esquenta a cada minuto. Fantástica e genial, a fotografia oscarizada mereceu o prêmio. Poucas vezes se viu uma fotografia participar tanto de um filme como aqui.

Ainda em quesitos Oscarizados, temos um fator esquisito e curioso. A edição de Stephen Mirrione é muito boa, sim, dá ritmo ao filme muito bem. Porém, fica explícita a predileção da Academia por edições de cortes abruptos, que beiram a falha de continuidade. Já é a segunda vez que um editor (a primeira foi com Thelma Schoomaker, dos filmes do Scorsese) que corta rápido demais ganha o Oscar. Por isso, se você leitor quiser virar editor, corte a mesma cena duas vezes pra dar ideia de que houve edição. O Oscar virá. A trilha sonora de Cliff Martinez é a cereja do bolo. Colaborador antigo de Soderbergh (fez esse, Sexo Mentiras, Schizopolis, Kafka e mais outros, mas parou em Solaris) o compositor independente se firmou ainda mais como um compositor diferenciado. Com notas minimalistas, simples, com sons que vão do leve e calmo ao leve e extremamente tenso, a trilha impõe muito bem o tom do filme, a cada momento. Fora o sensacional Leitmotif do filme, que é uma graça aos ouvidos.

As atuações de Traffic são, também, bem acima da média. Michael Douglas, em muitas oportunidades um cara caricato e em outras um ás da atuação, faz um papel da segunda opção aqui. Robert Wakefield é um personagem difícil mas que é encarnado com a devida competência de um inspirado Douglas. Robert é tridimensional e isso é o maior elogio que posso falar para Douglas. Benicio del Toro, que ganhou o Oscar de coadjuvante aqui, faz jus a sua estatueta. Falando espanhol o filme todo, com uma atuação monstruosa e hipnótica, Del Toro faz todos os olhares de Rodriguez parecerem reais. Um pouco abaixo dos dois primeiros temos Zeta-Jones, que atua muito bem (de forma genial, considerando seu nível como atriz) e convence. Nos coadjuvantes, temos destaque pra Don Cheadle, que pode até encarnar um personagem que parece arquetípico, mas tem densidade dramática suficiente pra carregar suas cenas. E destaque pra Erika Christensen, numa atuação embasbacante como a filha de Robert. Suas cenas como drogada são algumas das melhores do filme.

Traffic é uma película arrasadora. Igualmente ambicioso e competente, o filme não só é um exemplo como narrativa como é um deleite aos olhos, sendo tecnicamente impecável. Aqui, temos Soderbergh em sua melhor fase, que infelizmente começou a cair, mudando até mesmo seu estilo de direção. Um dos grandes vencedores do Oscar 2001 é, sem dúvida arrebatador. E se Gaghan escorrega em alguns pequenos elementos que dependem da suspensão de crença, problema controlado. Afinal, não é todo dia que podemos ver um tecelão com pleno controle de sua costura, que pode até ter um ou dois pontos mal bordados, mas que é lindíssimo como um todo. Uma pena Soderbergh ter mudado seu estilo. Apesar de continuar realizando bons filmes como O Desinformante, ele poderia estar realizando algumas contemporâneas obras-primas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Runaways
(The Runaways, 2010)
Drama - 105 min.

Direção: Floria Sigismondi
Roteiro: Floria Sigismondi

Com: Dakota Fanning, Kristen Stewart e Michael Shannon

Runaways pode ser analisado como um rito de passagem para as duas atrizes protagonistas (Dakota Fanning e Kristen Stewart), como mais uma cine biografia sobre os excessos de uma década e um trabalho razoável da egressa dos vídeos-clipe Floria Sigismondi.

A história, como todos devem imaginar, fala da formação da The Runaways, a mais importante banda feminina da história do rock. Por suas fileiras estiveram duas lendas do rock'n'roll: Joan Jett e Lita Ford.

Lita no filme é um fantasma, mostrada como uma megera sem alma e extremamente sem graça. Culpa também da inexpressiva Scout Taylor-Compton, que transformou sua personagem numa menina chata e que vive aos berros.


Joan Jett, imortalizada pelo hit "I Love Rock'n'Roll" é um dos "guias" do filme. Por seus olhos e pelos olhos da vocalista original da banda Cherrie Currie, vulgo Cherry Bomb, é que o filme é contado. Uma escolha óbvia da roteirista (também diretora), já que Jett foi uma das produtoras e o roteiro (também de Flora) é baseado no livro de Cherrie "Neon Angel".

Outro personagem importantíssimo abordado pelo filme é o produtor Kim Fowley, retratado como um capataz sanguinário, sempre em busca do sucesso a qualquer preço.

Falemos do filme em si: o que nele funciona com enorme sucesso é seu conjunto de atores principais. Michael Shannon surge visceral e imundo, olhar injetado, como se tivesse atuando sob efeitos de narcóticos compondo um produtor obcecado, que trata suas "meninas" como um sádico coronel, com direito até a um "treinamento de guerra". Ainda sobre Shannon e seu personagem é preciso destacar que a falsa libertação sexual promovida pela banda, no filme é retratada como um plano ardiloso de seu mentor.Em nenhum momento o filme entende que o visual e a atitude são obra das Runaways. A transformação gradual da banda em fetiche é obra de Fowley, e as garotas embebidas pelo sucesso fácil e rápido embarcam sem muito pensar.


O quanto disso reflete a realidade é algo que pessoalmente não sei, mas que combinou com a proposta do filme em ser um retrato de um grupo de garotas perdidas e que acham um "norte" ao fundarem a banda.

E a dupla de protagonista que tanto é famosa e amada e odiada em proporções quase iguais? Sai-se muitíssimo bem, e conseguem transformar seus personagens em dois lados da mesma moeda do rock.

De um lado Dakota Fanning compõe Cherrie como uma garota comum, mas que sempre quis ser mais do que via a sua frente em suas oportunidades. Quando surge como Cherry Bomb, o alter-ego, é uma explosão de sexualidade. A menina "come" a câmera com seus olhos azuis (que a diretora faz questão de ressaltar) e convence como mulher. Veremos Dakota com outros olhos agora.


No outro corner , o amálgama da roqueira sexy: a roqueira de atitude. Além de fisicamente Kristen e Joan serem realmente parecidas, a garota abre mão da persona "crepuscular" e apresenta seu personagem como um bichinho selvagem e agressivo, alguém que não conseguiria ser outra coisa caso não empunhasse uma guitarra elétrica.

O problema é que Floria constrói um arco dramático raso com passagens infelizes e onde tudo acontece de maneira mágica e muito rápida. Perde-se um tempo considerável com "viagens"´narcóticas e uma tensão sexual que não passa de uma curiosidade (pelo menos na tela) e não se aprofunda personagens ou transforma o plot principal em uma história realmente interessante. Não nos importamos com aquelas meninas que apesar de bem caracterizadas são atiradas numa trama que não sai do lugar.

Tudo é muito raso e a exceção das duas protagonistas, o restante da banda poderia ser substituído por cones que não fariam a menor diferença. Uma falha grosseira, que filmes como Doors e até mesmo a bobagem chamada Rockstar tiveram um pouco mais de cuidado. No primeiro, ouve um ligeiro aprofundamento em todos, e no segundo todo mundo era raso o que evitava esse declive nas atuações.


Floria pelo menos teve a inteligência de não inventar na fotografia (Benoit Debie de Vinyan é o responsável), que é inteligente e muito boa. Mostra trechos de shows (uma pena não termos uma música inteira no filme) que são reproduções felizes da realidade - em especial no show no Japão - e uma seleção musical inspirada- o que também é uma obrigação dada à temática do filme.

As meninas - falando em trilha - convencem razoavelmente cantando. Dakota sai-se melhor, mas Kristen, e seu tom grave não chega a fazer feio. Dizem que elas tiveram aula com as verdadeiras interpretadas, o que pôde talvez, aumentar a similaridade entre as atrizes e seus personagens.

O que será de Kristen Stewart e Dakota Fanning daqui para frente? Kristen deve repetir Bella nos próximos dois filmes da série Crepúsculo, e tem um drama com James Gandolfini bem elogiado. Além disso estará em On the Road sobre Jack Kerouac. Ou seja, tenta desvincular sua imagem da série de vampiros brilhantes e buscar seu espaço como atriz de mais de um papel. Dakota por sua vez foi uma atriz mirim de grande sucesso, e assim como sua companheira estará nos dois últimos filmes de vampiro. Depois disso uma incógnita. Tem dois projetos em desenvolvimento mas sem grandes detalhes ventilados até então.


Pelo menos, o irregular Runaways serviu para o planeta perceber que: as meninas crescem e fazem coisas pervertidas (como nós) e que as duas atrizes juvenis (agora mulheres) têm condições de irem além de suas personas estabelecidas até então.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

É Proibido Fumar
(É Proibido Fumar, 2009)
Drama/Romance/Comédia - 86 min.

Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert

Com: Glória Pires e Paulo Miklos


Proibido Fumar guarda semelhanças com o filme anterior de Anna Muylaert (Durval Discos). Ambos guardam dentro de suas cascas muito mais do que uma comédia dramática sobre costumes das cidades brasileiras. São histórias com camadas emocionais mais profundas e que optam pelo silêncio e pela exposição dos fatos. Eles estão lá, e o espectador é um montador e junta os pedaços e elabora a figura.

Sensações emocionais são tratadas de forma angustiada. Elas não fluem como numa história comum com happy end, mas truncada como um filme independente. E seus personagens são vivos e tem conflitos humanos, ansiedades, desejos, "sujeira" e amor. Como agente.

No "barco" se junta uma dupla de protagonistas que entendeu o que a diretora - e roteirista - queria contar e o resultado é que temos um filme que merecia muito mais espaço nas salas de cinema do país.


Glória Pires, em uma composição muito feliz, é Baby uma mulher solitária por opção e sem aspirações na vida. Medrosa e devotada ao vício no cigarro que serve como apoio e âncora simbólica de seu "atraso mental". Vive de dar aulas de violão a pessoas desinteressantes, assistir a programas fúteis, a cultivar uma nada sadia obsessão por um sofá velho e a fumar.

Sua vida é chacoalhada, como a maioria de nossas vidas, com a chegada de um objeto estranho a seu meio. No caso Max - em mais uma beleza de trabalho de Paulo Miklos, revelando-se cada vez melhor - um músico quarentão que com sua postura laid-back cativa a solitária Baby.

O filme então trabalha esse casal como um esboço da realidade suburbana da cidade de São Paulo. Cheio de neuroses, com picos de agonia, tristeza e inseguranças.


Como disse acima, o filme guarda uma virada muito orgânica e que remete diretamente a opção da diretora em usar o cigarro como condutor das neuroses da vida moderna. É nele - e por ele - que a personagem de Glória (despida de qualquer vaidade) atravessa sua curva dramática enquanto Max surge desde sempre com dubiedade deixando mais óbvio seus eventuais problemas.

O filme peca nesse excesso. Não havia necessidade de obviedade em seu personagem, e mesmo que acerte na resolução - sutil - ainda assim tem que entregar ao espectador uma dica mais óbvia do que acontecia a seu redor. Talvez com receio de que seu filme fosse incompreendido pela maioria, Muylaert decidiu entregar mais ao público. Apesar de dar resultados óbvios amarrando o elo emocional dos personagens, é desnecessário vendo o tom adotado pela produção até então.

Desnecessário, mas divertido para os neófitos, é a seqüência em que os personagens se esquivam de sentarem no mesmo sofá. De aproveitamento narrativo questionável, mas divertido quanto à montagem e as marcações cênicas.


A fotografia funciona bem (Jacob Solitrenick) e é muito criativa ao usar as imagens das "câmeras de segurança" como elementos narrativos importantes. A trilha sonora de Marcio Nigro é inteligente ao usar o violão (objeto de adoração do casal) na construção de toda a paisagem sonora observada.

Proibido Fumar é um filme interessante mas que podia ser melhor, e que deve agradar principalmente aqueles que estão acostumados a vociferar que o cinema nacional é uma mistura de favela, sacanagem e violência.

Nós que sabemos que esse clichê não corresponde a verdade aproveitamos menos.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Noite Fora de Série
(Date Night, 2010)
Comédia - 88 min.

Direção: Shawn Levy
Roteiro: Josh Klausner

Com: Steve Carrel, Tina Fey, Mark Wahlberg, James Franco, Mila Kunis e Ray Liotta

A receita parecia, de saída vencedora: pegue dois comediantes no auge de sua popularidade e esbanjando talento, coloque-os numa montanha russa de situações embaraçosas, engraçadas e dê espaço - muito - para os improvisos dos dois "magos". Resultado: um espetáculo, certo?

Não. Uma Noite Fora de Série, seria - e deveria - um veículo para comprovar que Tina Fey e Steve Carrel são o melhor que o humor americano poderia criar. Afinal são donos de carreiras vitoriosas por onde passaram. Carell após anos perambulando por produções menores e shows de TV, foi notado em Todo Poderoso, engatando O Ancora, Virgem de 40 Anos, Feiticeira, Pequena Miss Sunshine, o trabalho de dublagem em Os Sem Floresta e a versão para o cinema da série Agente 86. Mas foi com a série The Office que Carrel definitivamente entrou para o panteão de grandes astros cômicos do novo século. Seguidamente indicado ao Emmy e ao Globo de Ouro como melhor ator cômico, tornou-se uma figura popular e opção clara para bons papéis no gênero.


Já a deslumbrante Tina Fey - musa mor do editor do Fotograma Digital - é cria da máquina de revelar talentos, chamado Saturday Night Live. Além de atriz, escrevia boa parte dos shows. Teve uma tentativa de inserção no mundo do cinema - e não foi bem sucedida - mas ainda entregou uma boa comédia adolescente intitulada Meninas Malvadas. Mas só lhe foi outorgado o valor merecido quando "pariu" a série 30 Rock, que lhe valeu dois Globos de Ouro e uma série de Emmys.
Currículos invejáveis dirigidos pelo insosso Shawn Levy de "obras" como: Noite no Museu 1 e 2, Pantera cor de Rosa, Recém Casados e Doze é Demais. Ou seja, um diretor "so-so" que não trazia nada a mais para apimentar a força criativa da dupla. E o roteirista? Josh Klausner foi o responsável pelo medíocre Shrek 3 e pelo aceitável Shrek 4.

O que nos leva a pensar que o filme deveria ter sido "dado" aos dois atores, para que com seu talento e capacidade pudessem brincar como quisessem. Outro erro.


Os dois, apesar de apresentarem uma ou outra boa piada, estão presos a história bobinha do casal que ao fingirem serem outras pessoas num restaurante, são perseguidos pela máfia, policia e afins.

O filme começa brincando com os estereótipos do casamento frustrado americano. Rotina, tédio, falta de emoção e filhos são a causa para uma relação - seguindo o filme - cair no marasmo. O filme defende que é necessária uma sacudida para que a relação saia do lugar comum. Isso é uma constatação óbvia, que o roteiro eleva a enésima potência, quando inclui o plot da máfia que gera a montanha russa de situações que o casal enfrenta.

O problema é que o espectador telegrafa com muita antecedência os movimentos que o filme faz. É claro que estamos falando de uma comédia inofensiva, sem muita - ou nenhuma - pretensão além de ser um passatempo esquecível, mas é necessário que o espectador ao menos se envolva com aquele pessoal. E isso não acontece. Todos são rasos e chatos. O que se salva, e muito por estar brincando com sua persona é Mark Wahlberg, que passa o filme todo sem camisa, rendendo as melhores - e talvez únicas - piadas do filme.


Os demais coadjuvantes (todos de peso) não fazem nada digno de nota: Ray Liotta tenta reprisar (em censura PG-13) seu papel em Os Bons Companheiros, James Franco e Mila Kunis entram e saem - literalmente - pela janela e os protagonistas, mesmo extremamente talentosos, não conseguem fugir do embaraço do roteiro. Carell se sai um pouco melhor, talvez por estar mais acostumado a lidar com roteiros fracos criados apenas para capitalizar com a fama dos seus astros e consegue uma ou duas piadas. Já Tina Fey, apesar de linda, não está acostumada a lidar com roteiros que não vieram de sua mente privilegiada, portanto naufraga totalmente, reduzindo sua personagem a uma sucessão de momentos sem graça.

Nem mesmo na conclusão o filme arranca risos da platéia, em especial numa medonha aparição do casal numa casa de strip-tease. Ok, a situação por si só é absurda, mas somente risadas - poucas - amarelas são geradas pela seqüência.

Shawn Levy não tem jeito, deve continuar sua carreira no nicho das comédias "para a toda a família" e ganhará seu pão com isso. Que seja feliz. Mas Tina Fey e Steve Carell merecem projetos muito mais interessantes para demonstrarem na tela grande toda a sua competência que é visto na televisão toda a semana.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Como Treinar seu Dragão
(How to Train Your Dragon, 2010)
Animação/Aventura - 98 min.

Direção: Dean DeBois e Chris Sanders
Roteiro: William Davies, Dean DuBois e Chris Sanders

Com as vozes de: Jay Baruchel, Gerard Butler, America Ferreira, Jonah Hill, Craig Ferguson e Christopher Mintz-Plasse


A Dreamworks tem como tradição, a criação de animações divertidas mas com pouco - ou nada - a dizer. Funciona como diversão escapista, tem animais falantes, referências mil no mundo pop, mas não se sustenta como grande cinema. É leve, um passatempo e nada mais.

Como Treinar seu Dragão é a antítese de tudo isso. Apesar de estampar Dreamworks na fuça é muito mais "casa do rato" do que qualquer outra coisa. A começar pela equipe responsável por trazer a vida essa história divertida, com boa ação e que ainda consegue ser emocionante, sem esbarrar na pieguice.

Chris Sanders é o roteirista de Mulan, um dos criadores da história de Bela e a Fera, Rei Leão e Aladdin e o diretor de Lilo & Stitch. Precisa mais. Dean DeBois também dirigiu Lilo & Stitch, e também foi um dos cabeças do roteiro de Mulan. Nota-se ai o dedo do "tio Walt" na história do filme de Soluço e seu dragão Banguela.


Soluço é o garoto viking desajustado, inadequado ao que o pensamento comum de sua aldeia deseja e espera de um guerreiro. Franzino, meio bobalhão e absolutamente deslocado em seu ambiente. Deseja ser um guerreiro mas não deveria ser, ou melhor, não pode ser. Por que sua natureza grita na sua orelha: você é diferente disso. Você é outra coisa. Não precisa seguir o rebanho.

É claro que isso não é fácil. Muitas pessoas passam a vida sem saber exatamente quem são e por onde devem caminhar, e o glorioso cinema já recontou essa história sobre "aceitar quem você é" zilhões de vezes.

Às vezes, no entanto, esse clichê ambulante funciona. No caso do filme da Dreamworks por exemplo. O garoto querendo provar que pode ser aquilo que não é - e que no fundo ainda não sabe que não quer - cria um dispositivo e acerta um famigerado dragão Fúria da Noite, considerado o mais terrível de todos os dragões. O que acontece é que o garoto acaba criando uma amizade com o bicho e passa a entendê-lo e por conseqüência a entender o comportamento de todas as outras espécies de dragão.


O que comem, o que não comem, o que temem, como podemos controlá-los, treiná-los, agradá-los e por que não amá-los. Durante essa descoberta ele questiona o livro dos Dragões, uma mistura de livro de RPG com a literatura de JK Rowling que indica os diferentes tipos e características dos dragões. Todos descritos como feras violentas e que precisam ser mortas.

Ao conviver com o Banguela ele percebe que a história não funciona bem assim. Existe algo a mais em cada dragão e em especial no que faz amizade com ele.
Banguela é uma mistura de diversos animais domésticos. Tem postura de cachorro, se move como um gato e pode ser montado como um cavalo. E influenciado pela Disney, lembra muito Stitch em seu visual. A Disney old school ainda é referenciada num passeio a dois em cima de um dragão que é quase igual ao passeio de tapete em Aladdin, mas que é ajudado pela beleza do filme.


Tudo é muito bem construído e apesar dos personagens serem cartunescos, ainda sim tem excelente trabalho de expressões faciais e na composição das vozes. Jay Baruchel faz a voz de Soluço, e lembra uma mistura de Kiefer Sutherland com gripe forte e Jack Black com sono, o que é uma boa composição para o "nerd" viking. Gerard Butler, usando todo seu forte sotaque escocês vive o pai do garoto, Stoick, e mistura um bêbado escocês com o rei Leônidas de 300, resultado num arquétipo de "macho". O filme ainda conta com as vozes de America Ferreira (a Ugly Betty americana), Jonah Hill (o "gordinho" de Superbad) e Christopher Mintz-Plasse (o eterno McLovin).

A Dreamworks acerta ainda no seu magnífico trabalho visual que faz de Como Treinar seu Dragão, o mais belo dos trabalhos do estúdio. Detalhes como as folhas na floresta, o lago que é parte fundamental da narrativa e mesmo efeitos de fogo ou pedras sendo esmagadas, também estão no mais alto nível.

Uma excelente surpresa vinda da Dreamworks, que agora pode ser definida como uma empresa que - às vezes - também quer contar uma boa história.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Os Mercenários
(The Expendables, 2010)
Ação - 103 min.

Direção: Sylvester Stallone
Roteiro: Dave Callaham e Sylvester Stallone

Com: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié, Charisma Carpenter, Mickey Rourke, Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis

Em meados da década de 80, Hollywood começou a ser completamente governada pelos blockbusters. Boa partes desses , pertenciam ao gênero do “herói brucutu”, onde o mocinho principal era simplesmente invencível, e capaz de arrasar exércitos inteiros de inimigos desleais, fossem eles latinos ou coreanos, traficantes ou sequestradores. Filmes como Rambo, Comando Para Matar e Duro de Matar faziam sucesso com suas tramas parecidas e incrivelmente explosivas. As motivações dos protagonistas, sempre as mesmas – agente especial que precisa desbaratinar um exército rebelde, oficial da marinha que busca vingança pessoal, policial lutando contra narcotraficantes, etc .

Entretanto, depois de atingir seu auge, o sub-gênero foi perdendo força gradativamente ao lono dos anos 90 . Afinal, tudo que é mais do mesmo acaba cansando, e o público foi deixando de lado tais tipos de produção, que acabaram sendo marginalizadas do mundo do cinema. Hoje em dia, o mais próximo que você vai chegar de produções recém lançadas deste tipo são nas locadoras, com filmes direto em vídeo de Steven Seagal e Wesley Snipes da vida.



Entretanto, o gênero de ação descerebrada deixou “órfãos” muitos atores oitentistas. Alguns, como Schwarzenegger, seguiram com sua carreira e hoje vivem bem (virou até gorvernador). Outros porém, não tiveram tanta sorte e hoje vievem do mercado das locadoras. Sendo um bom saudosista que foi marcado na sua essencia com os filmes do gênero, Sylvester Stallone não poderia dar as costas para suas origens e sua nostalgia por seus filmes de ação o levaram a trazer, duas décadas depois do seu auge, mais um filme de ação de “exército de um homem só”. No caso de Os Mercenários, o exército não é de um só, mas de vários. O intento de Stallone com seu novo filme – o qual co-roteiriza, dirige e estrela – era de unir todos os astros do cinema blockbuster, bater no liquidificador das explosões e tiroteios, e ver o bicho que dá. E podemos dizer que as homenagens e explosões são satisfatórias, mas que o filme não consegue fazer muito mais que isso.

A trama – tão exagerada e rasa quanto seu casting pedia – mostra o grupo de mercenários de Barney Ross ( Sylvester Stallone) sendo contratado para derrubar o ditador de uma ilha latina chamada Vilena. Na primeira investida que Ross faz lá com seu parceiro, Christmas(Jason Statham) eles conhecem uma bela rebelde chamada Sandra (Gisele Itié). Ao irem embora, não a resgatam, pois a moça decide ficar e lutar. Então, Ross decide voltar á ilha com seus soldados, sendo motivado por um sentimento de redenção antes deconhecido.



A história de Os Mercenários é simples, batida e extremamente saudosista a todos os filmes de ação da década de oitenta. Se em alguns projetos tinhamos a trama de vingança, e em outros a necessidade de destroçar inimigos do “american way of life”, aqui temos a mistura dos dois. O real diferencial do filme de Stallone, afinal, não está na sua originalidade de roteiro – até porque ela não existe - mas sim no potencial simbólico que ele tem. Não é negócio para o diretor criar uma história original, mas sim unir tudo que já foi feito no sub-gênero e dar vida a um gigante no terreno da ação descerebrada. Essa é , acima de tudo, a proposta do filme em si. E, encarando assim, ele até funciona . A ação não soa repetida, entretém e faz o filme passar rápido . Se você sentar na poltrona, e, depois do fim da exibição, não achar que se passaram mais que 35 minutos, não estranhe .

Os Mercenários passa num tiro, consegue prender a atenção do espectador durante todos seus 103 minutos e satisfaz perfeitamente quem só procura uma diversão passageira e sanguinolenta.O filme se assume assim, e tem compromisso em não se levar a sério - sem cair para o lado da sátira, no entanto.


Entretanto, não pode-se fechar os olhos para o fato do filme ter uma história dispensável, e que, se ele passa numa velocidade gigantesca em frente aos nosso olhos, também passa rápido pela nossa cabeça, sem deixar muitos marcos ou lembranças maiores. De fato, é até admissível que sua trama seja rasa, contudo, o filme não consegue se sobressair nos outros aspectos do roteiro, como na criação de situações – todas muito convecionais- ou de personagens –idem. É basicamente o que aconteceu com o projeto Grindhouse. Enquanto Tarantino homengeou o trash com um roteiro repleto de situações e personagens originalíssimos, Rodriguez acabou fazendo apenas mais um filme digno da Grindhouse. Dá pra se dizer que Os Mercenários acabou sendo só mais um filme de ação explosiva, e que não subiu um patamar além – até porque, Stallone não é nenhum Tarantino.

É possível dizer que este é o tipo de filme que abraça mais quantidade do que qualidade . Quanto mais atores musculosos e pirotecnias forem colocadas, melhor. O que foi cotado para fazer a diferença no filme é a quantidade de estrelas colocadas em cena, e não a cena em si.O retrato disso é o fato do filme ser pensado em função de seus atores, e não o contrário. Infelizmente, um filme desses nunca vai emergir completamente da superficialidade , mas pode ser encarado como diversão acima da média, como o filme mesmo tende a propor.


Já uma parte muito positiva neste projeto é a direção de Stallone. Seu modo de coordenar o set é preciso para esse filme. Os cortes rápidos típicos da década de 80 estão presentes nas cenas de tiroteio e explosão, mas dessa vez combinados com o estilo mais atual de jogo câmera, onde há os efeitos de tremor, e takes mais ousados e plásticos . Já nas cenas iniciais, Stallone joga um pouco com o estilo documental, mostrando que pode fazer além do trivial por trás das câmeras. Na frente delas, aliás, Stallone está bem como sempre, e deixa seus atores a vontade para atuar, apesar de alguns deles – como Steve Austin e Dolph Lundgren – estarem mais canastrões do que nunca.

No geral, Os Mercenários acerta na boa condução de sua ação e nas boas homenagens ao gênero tão querido por tantos. Isso não impede, no entanto, que o filme fique na simples superfície do que vem sendo feito há 20 anos , e não se diferencie muito dos outros filmes do gênero. Basicamente, a única real diferença entre este e tantos outros, é a sua grandeza – afinal, essa película une quase todos os heróis brutamontes que já passaram pelas telas, mas não faz nada muito mais relevante que isso. Pelo menos todos eles juntos divertem, explodem e matam, um pouco mais do que separados.


domingo, 15 de agosto de 2010


O Filmes para ver antes de Morrer nunca tentou - e nem vai tentar - criticar ou analisar uma obra que por motivos óbvios está no panteão das maiores (na opinião da equipe) já produzidas pela sétima arte, por isso o espaço aqui é para relembrarmos, homenagearmos e apresentarmos a quem não viu, grandes filmes da história do cinema.

Mulher Sob Influência 
(Women Under the Influence, 1974)

O que é a loucura?

John Cassavettes era um dos grandes diretores - talvez o maior - independentes do mundo. Sabia como poucos criar situações e deixava seus atores soltos o suficiente para que eles guiassem a narrativa e o filme. Seus filmes eram improvisados, no melhor dos sentidos, e os atores sempre saiam-se bem com essa escolha do diretor.

Em Uma Mulher Sob Suspeita, Cassavettes versa sobre a loucura e o impacto dela nos que com ela convivem. Seu objeto de estudo é Mabel, vivida com extrema competencia pela brilhante atriz Gena Rownlads, que apresenta desde o início do filme sinais claros de que sua saúde mental não anda muito boa. O filme é muito feliz quando insere uma enorme quantidade de eventos em que aqueles ao seu lado sofrem com sua instabilidade.

Durante sua viagem ao mundo da loucura , Mabel cria "cenas" em quase todo evento que participa. Em especial durante um almoço com os amigos do marido, em que o desconforto é tão grande que  espectador consegue ao mesmo tempo se solidarizar com os problemas da mulher e entender o "pisar em ovos" que seu marido (Peter Falk) passa.

O personagem de Falk é outro que influencia a "loucura" de sua mulher. Esse aliás é uma constatação bastante interessante sobre o título. Tanto em português quanto em inglês ele diz o mesmo: a mulher está sob influência. De que, o leitor pergunta? Segundo Cassavettes, infuenciada pelo marido e seus rompantes agudos de histrionismo, por sua família igualmente problemática e seus amigos que são igualmente perturbados a sua maneira.

É o caso de percebermos, o que segundo o diretor, é a loucura. Seria mesmo sensato julgarmos Mabel como louca e ignorarmos tudo a sua volta? Será que a insanidade não pode ser provocada pelo meio?

Não sei o que os psiquiatras e psicologos teriam a dizer sobre isso, mas no mundo "Cassavetiano" esses elementos influenciam sim e agravam a condição de alguém já debilitado.

O filme é recheado desses pequenos questionamentos, como a sequencia de Falk com as crianças na praia, que envolve um pai enfurecido com a vida, transformando-se em negligente e até - para o padrões politicamente corretos desse século carola - imoral.

Tudo isso adornado com os diálogos quase "non-sense", totalmente libertários e improvisados , mas com enorme competência, que permeiam todo o filme. É impossivel não notar, o quanto cineastas independente modernos como Steven Soderbergh (pela temática e a montagem) e Quentin Tarantino (na questão dos diálogos como peça fundamental de seus filmes) foram influenciados - mesmo que indiretamente - pelo maior de todos os independentes.

 

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Repo Men - Os Coletores
(Repo Men, 2010)
Ficção Científica/Ação - 111 min.

Direção: Miguel Sapochnik
Roteiro: Eric Garcia e Garrett Lerner

Com: Jude Law, Forest Whitaker, Liev Schreiber e Alice Braga


Esse é mais um caso de um filme razoavelmente interessante que não vai chegar aos cinemas nacionais, que apostam - com alguma razão mercadológica - em Marmadukes, comédias de Jennifer Aniston, animações quaisquer e filmes de terror baratos e risíveis. Mais o caso é que Repo Men é um filme redondinho que poderia encontrar seu público no cinema, e que merecia uma chance numa semana mais fraca de lançamentos.

O filme do diretor Miguel Sapochnik é um sci-fi com um pé e meio cravado na realidade sobre esse grupo de caras - os tais Repo Men, ou Coletores - que trabalham para uma empresa (A União) que comercializa órgãos artificiais.

E onde entram os Coletores? Eles funcionam como os cobradores bancários. Ou seja, não pagou seu fígado, eles vão lá e arrancam de você. Literalmente.
 

O diretor, percebendo a trasheira que isso poderia virar, recheou seu filme de um humor cáustico que beira o doentio para amenizar a idéia perturbadora e, por que não, plausível.
Se hoje os órgãos artificiais - marca-passos por exemplo - são uma quase realidade, num futuro não tão distante não seria estranho que uma empresa privatize esses inventos e por conseqüência lucre com eles. Assim como hoje se vendem carros e casas, no mundo de Repo Men os órgãos também são vendidos - por crediário, o que causa divida já que o preço é alto e abusivo - e numa eventual falta de pagamento, coletados.

Os Repo Men funcionam como uma espécie de anjos da morte, que circulam sua presa e amedrontam os devedores somente com sua presença. O filme usa e abusa dessa idéia.
O tal humor já fica claro na abertura que combina uma ação extremamente violenta com a trilha sonora latina contrabalanceando o que é visto na tela.
 

O filme apresenta algumas opções narrativas na primeira metade interessantes, o que faz o filme crescer para quem assiste. Ao inserir um "conflito em casa" para o personagem principal e ao transformá-lo em vilão (com direito a uma passagem violenta de um massacre liderado pelo Coletor) o filme ganha alguma - pouca - originalidade e se afasta do festival de referências que o filme é.

Uma mistureba de: Eu Robô, Blade Runner (na ambientação), O Fugitivo, Quinto Elemento (no humor non-sense) e até Oldboy, que tem uma de suas seqüências mais famosas copiada sem dó pelo filme.

Um detalhe neófito, porém muito interessante, é a inserção de um pequeno - menos de cinco segundos - trecho de O Sentido da Vida de Monty Python, exatamente a seqüência em que os coletores visitam a casa de uma família para recolher os órgãos não pagos.Imediatamente a referência fica clara e a homenagem é bastante válida.
 

Assim como em Daybreakers - que criticamos aqui anteriormente - o filme também aposta na explicação para seu ambiente de forma orgânica, dentro da narrativa, por meio de anúncios publicitários ou na fala de personagens que funcionam como guias para a história.
Jude Law encabeça o elenco, ele vive Remy, o coletor que se transforma em herói. Não é uma atuação digna de prêmios, mas Law parece à vontade no papel. O restante do elenco conta com um Liev Schreiber cartunesco abraçando o humor do filme, Forest Whitaker se divertindo muito como o parceiro valentão e sem escrúpulos e Alice Braga - cada vez com mais currículo internacional - vivendo uma cantora cheia de órgãos substituídos que é responsável pelos piores momentos do filme. Não, a culpa não é dela, que faz o papel direitinho, mas da falta de imaginação dos roteiristas Eric Garcia e Garrett Lerner que optaram pela solução mais manjada e ao mesmo tempo mais infeliz para usar a personagem de Alice.

O segundo ato do filme - quando o caçador se torna caça - é bastante equivocado em termos narrativos. As motivações dos personagens surgem desencontradas e - no bom português - não fazem sentido. O uso da esposa do personagem de Law é estúpido e o filme caminha para um banho de sangue final, que apesar de divertido e bem montado, é grosseiro e não causa nenhuma comoção.
 

O filme ainda tem um plot twist agressivo nos minutos finais, que é interessante sim, mas pode causar ódio nos espectadores, pois ele subverte o que vínhamos vendo durante a projeção. Uma opção arriscada e que transforma o filme num conto agridoce.
A parte técnica e estilística do filme é razoável com destaque absoluto para a trilha sonora de Marco Beltrami e as canções - todas boas - selecionadas. A fotografia e edição (Enrique Chediak e Richard Francis-Bruce respectivamente) não saem do "feijão com arroz". Chediak cai na vala comum dos imitadores de Blade Runner na concepção da cidade à noite, cheia de outdoors gigantescos e muito neon.

O diretor Sapochnik - um desconhecido para mim - sai-se bem em algumas seqüências de ação (a última em especial, realmente empolgante apesar de "inspirada" em um grande filme) e não confunde o espectador com idas e vindas do roteiro. Ele ainda é "generoso" ao inserir uma pista durante a segunda metade do filme que indica o plot twist final. No restante não inventa e mantém as rédeas do filme. Opta por transformar um filme que poderia caminhar para o existencialismo de botequim em um bom thriller de perseguição.
 

Porém essa mudança, narrativamente, é truncada e não agrada. Parece que tudo foi pensado as pressas e falta química aos protagonistas e a óbvia referência a um determinado produto da The Union, incomoda e minimiza o "final surpresa" preparado.

Entre mortos e feridos, Repo Men se salva. Difere de boa parte dos sci-fis por evitar ser sisudo e encarar sua realidade com bom humor e tranqüilidade, mesmo quando o sangue espirra na lente.