terça-feira, 6 de julho de 2010

Daybreakers
(Daybreakers, 2009)
Terror/Suspense - 98 min.

Direção: The Spiering Brothers
Roteiro: The Spiering Brothers

Com: Ethan Hawke, Sam Neill, Willem Dafoe, Audrey Bennett

A filmografia vampírica talvez seja a mais extensa da história do cinema. Desde Vampyr de Dreyer, passando pelo seminal Nosferatu, Drácula, o período da Hammer, a reinvenção oitentista pop comandada por Joel Schumacher em seu Garotos Perdidos e - hoje oscarizada - Kathryn Bigelow e seu Near Dark, Coppola e sua versão quase acadêmica do livro de Stoker, Entrevista com Vampiro de Neil Jordan, os filmes matrixianos da série Anjos da Noite, os russos de Timur Bekmambetov, a adaptação quadrinística de 30 Dias de Noite culminando no vampiro que brilha da série (e não saga) Crepúsculo. Isso sem contar os filmes de Polanski, a produção hispânica, italiana, oriental e afins. Vampiro é um tema tão extenso que até enciclopédia têm. Um calhamaço de mais de mil páginas que esmiúça diversas produções culturais (desde peças, livros, poemas, série de TV e filmes) e origens do mito em diversos lugares do mundo.

Tal apelo é facilmente explicado pelo que o ser das trevas conquistou durante esse século que se foi. Retratado de quase todas as maneiras possíveis e imagináveis, o Vampiro é o maior dos "monstros" e a cada ano novas produções são apresentadas ao público.


É o caso de Daybreakers, filme com roteiro e direção dos irmãos Spiering, que passou despercebido pelas telas brasileiras e americanas. Em casos como esse se costuma de imediato (falamos de um pretenso blockbuster) questionar a qualidade da obra, já que nem seu público, dito alvo, conseguiu comprar a idéia da produção. Trocando em miúdos, o filme tem um grande potencial de ser uma "bomba".

Surpreendentemente Daybreakers passa longe de ser uma porcaria, mas não é também uma obra que entrara no hall das grandes produções do gênero.

O melhor em Daybreakers é sua ambientação e sua "mitologia". Daybreakers se passa em 2019, após uma peste desconhecida ter transformado a maioria da população em vampiros. Diferentemente do que 99% de outras produções (como Eu sou a Lenda,por exemplo) fizeram, os vampiros não se transformaram em monstros horrendos. São "pessoas" comuns, como eu ou você, com a peculiar diferença de tomarem sangue. Os vampiros - e isso é mostrado na seqüência inicial com um recurso bastante comum, recortes de jornal - tentam uma espécie de acordo com os humanos que restaram. Com a recusa, os humanos passam a ser caçados e servem de comedouros para os vampiros, que mantém essas pessoas vivas retirando seu sangue, até que eventualmente, esses capturados morrem.


Isso tudo nos é apresentado nos primeiros dez minutos, quando conhecemos o personagem de Ethan Hawke (Edward Dalton) um hematologista que está em busca de um substituto ao sangue humano, já que - obviamente - a caçada dos vampiros fez minguarem a quase zero a população dos não vampiros.

O interessante é que os irmãos Spiering conseguiram se antecipar a diversas supostas perguntas sobre aquele mundo, nos entregando algumas respostas por meio de anúncios de TV e conversas paralelas de alguns personagens. Por exemplo: embaixo das casas vampiricas (que tem uma espécie de protetor de raios ultravioleta) corre um labirinto que liga as casas - como ruas subterrâneas - onde os vampiros podem circular durante o dia. O mesmo vale para os carros, que recebem uma película protetora contra o sol.

Essa ambientação vende o filme e faz o espectador comprar a idéia daquele lugar, personagens e plot narrativo. Plot esse que apresenta um problema a ser resolvido pelos envolvidos: com a falta de sangue, alguns vampiros passam a se comportar de forma animalesca, retrocedendo a algo próximo do que podemos identificar como "Nosferatus genéricos". Uma espécie de vampiro animalesco que contrabalanceia o estilo "Annericeano" do restante dos personagens vampíricos.


Parece promissor não? Vampiros tentando não tomar sangue humano, enquanto a natureza de suas "almas" prega que sem o sangue, apenas a bestialidade os espera.

O filme ainda tem pelo menos um personagem que tem alguns conflitos - clichês, mas conflitos - emocionais. O Dr. Dalton (Hawke) é alguém que claramente não gosta de sua condição vampírica e que luta com todas as suas forças para não ser vítima da sede por sangue humano. O restante da fauna de personagens , infelizmente, é estereotipado. Sam Neill (Charles Bromley, o dono da empresa em que Hawke trabalha), Willem Dafoe (Lionel Cormac, um ex-mecânico que tem um segredo que é a mola propulsora da virada do roteiro), Audrey Bennett (Claudia Karvan, a rebelde humana em fuga) e Michael Dorman (Frankie Dalton, o irmão militar de Hawke) são alguns desses arquétipos que os irmãos apresentam como personagens.

A impressão que dá é que os Spierings se preocuparam tanto com o grau de credibilidade de seu mundo que esqueceram que era preciso recheá-lo de personagens interessantes e que causariam algum impacto em quem assiste. Isso eles não conseguem, ainda mais quando a virada que o personagem de Dafoe apresenta é revelada. Nem com a tal suspensão de crença - que nada mais é do que abstrair-se da sua compreensão de realidade e embarcar na realidade mostrada pelo objeto - em níveis estratosféricos é satisfatório acompanhar o ato final. Confuso, infeliz desde sua concepção e com um final óbvio e até certo ponto aborrecido e enfadonho, quase destrói todos os méritos que o filme mostrava em sua primeira parte.



Tecnicamente os Spiering realmente demonstram muita qualidade. Em algumas seqüências de ação inclusive conseguem "pintar" grandes quadros apenas sabendo posicionar a câmera e contando com a competência do diretor de fotografia para ilustrar suas idéias. Simples mas muito eficiente.

A fotografia (Ben Nott) é muito interessante, apesar de ser "chupada" de outros filmes de suspense e horror. Como quase todo ele se passa durante a noite, a paleta de cores é mínima (tons de cinza, azuis fortes, vermelho escuro, vinho) e o uso de alto contraste ajuda ainda mais a enfatizar o ambiente úmido, sombrio e decadente que o filme apresenta. Já a edição (Matt Villa) segue a bem vinda tentativa de fugir do "piscou-perdeu" que parece ser uma tendência de filmes de horror e suspense mais artísticos (o que Daybreakers, visualmente tenta).

Apesar de tecnicamente bom, Daybreakers tem ainda problemas sérios de interpretação. Ancorar seu filme em um ator mediano como Ethan Hawke é um risco. Hawke fez coisas muito interessantes é verdade, mas sempre que se exige dele que fuja da zona de conforto, ele apresenta trabalhos medianos ou medíocres. No caso desse filme, mediano. Dafoe é caricato ao extremo, dá a impressão de ter lido o roteiro na véspera e ter entrado "pra curtir". Sam Neill repete pela milionésima vez os mesmos olhares e trejeitos que ele vem apresentando desde Profecia 3. Os Spierings são jovens e tem chance de evoluir nesse quesito que é fundamental na criação de qualquer peça cinematográfica: direção de atores.



Os problemas de roteiro (que obviamente não vou contar) quase destroem o que o filme construiu em uma hora de projeção. A tal virada dos atos - que Hollywood adora fazer - é constrangedora e transforma uma bela idéia num monte de risadas involuntárias.

Melhor do que a expectativa prévia mostrava, mas uma pena por ter começado tão bem e terminado de forma tão infeliz e opaca.


segunda-feira, 5 de julho de 2010



Em clima de "Saga" Crepúsculo (quelle merde), vou fugir dessa baboseira e falar de uma saga muito mais interessante, a saga do maior serial killer fictício de todos os tempos. Um personagem excêntrico, cruel, frio, porém com muita classe. Estou falando do psiquiatra canibal, Dr. Hannibal Lecter, grande estrela dos livros de Thomas Harris, que obviamente foram adaptados para o cinema, entre eles "Hannibal Rising", "Silêncio dos Inocentes", "Dragão Vermelho" e do próprio "Hannibal", que é a peça que será comentada aqui hoje.

Personagem criado pelo autor Thomas Harris, inspirado em um assassino do Mississipi chamado William Coyne, que além de matar comia a carne de suas vítimas. Dr Hannibal Lecter (imortalizado nos cinemas por Anthony Hopkins) é um homem muito inteligente e profundo conhecedor da parte mais degradante da mente humana. Devido a certos traumas na sua juventude, Hannibal acabou construindo um grande ódio pela humanidade em geral, devido o trauma que teve durante a guerra com 8 anos de idade ao ver sua irmã ser morta e servir de alimento para um soldado faminto.


No filme, "Dragão Vemrelho" (primeira parte da série na fase adulta de Hannibal, porém último filme a ser lançado, saiu em 2002) Hannibal é preso no início do filme, capturado por um agente do FBI. Após sua prisão, um detetive pede o auxílio da mente genial e criminosa de Hannibal para capturar o serial killer Francis Dolarhyde.
Em "O Silêncio dos Inocentes", lançado em 1991, Hannibal é requisitado pela agente do FBI, Clarice Starling, para ajudar na captura do serial killer Buffalo Bill. A dedicada agente Clarice acaba criando um certo fascínio pela figura de Hannibal Lecter, que toca em pontos sensíveis na vida de Clarice que jamais foram tocados antes, praticamente como se encontrasse uma espécie de ponto G da sua mente. Hannibal era um verdadeiro expert nesse aspecto.
Na sequência Hannibal, de 2001, o filme gira em torno da interessante figura de Hannibal. Neste filme ele é a caça!

Após sua fuga da prisão onde despistou um forte esquema de segurança de maneira inacreditável, Hannibal foi morar na Europa, mais precisamente em Florença na Itália. Levava uma vida, supostamente pacata, onde se tornou um curador da grande biblioteca da cidade. Na Itália, sem ser reconhecido, acabou sendo admirado por muitos intelectuais pela sua grande inteligência, sua capacidade de decorar grandes poesias clássicas, especialmente o trabalho de Dante Alighiere.
Mas como nem tudo é um mar de rosas para o anti-herói Lecter, o inspetor italiano Rinaldo Pazzi surge em seu caminho durante uma das reuniões na biblioteca, no qual Pazzi acaba reconhecendo Lecter. Então ele começa a planejar uma maneira de capturar Hannibal para conseguir a milionária recompensa de 3 milhões de dólares. Mas a vida de Pazzi acaba sendo muito complicada pois ele está lidando com o maior gênio do crime.
Nessa história Clarice Starling enfrentando problemas com o FBI continua com sua busca e obsessão pela genialidade de Hannibal Lecter. Logo seus caminhos acabam se cruzando.


E paralelo a isso o filme ainda mostra uma relação que Hannibal teve com um milionário, pedófilo e sádico Mason Verger, que no passado foi obrigado a buscar ajuda psiquiátrica com Hannibal Lecter, porém acabou sendo mais uma de suas vítimas numa situação um tanto quanto bizarra. Hannibal aproveitou o sadismo de Mason e pediu para que ele demonstrasse sua auto asfixia enquanto se masturbava. Hannibal, aproveitando o momento de prazer de sua vítima acabou dopando Mason e pediu para que o mesmo mutilasse seu próprio rosto e depois desse de comida para seus cachorros....e foi o que Mason acabou fazendo. Anos depois, Mason é retratado de uma maneira totalmente deplorável, no qual ele se encontra numa cadeira de rodas e com o rosto completamente desfigurado. Incrível que ele conseguiu sobreviver ao terrível ataque de Hannibal.
Enfim, na minha opinião Hannibal é o filme mais interessante de todos inspirados nas histórias de Thomas Harris, obviamente pelo fato de girar em torno da mente esquisita de Hannibal Lecter. Mas também acho fascinante a classe e os diálogos que Hannibal tem com as pessoas ao seu redor. Nesse filme ele se destaca, principalmente nas cenas no qual ele cita Dante Alighiere para Rinaldo Pazzi e também quando ele fala sobre o ancestral de Rinaldo, no caso Francesco Pazzi, que morreu enforcado há muitos anos atrás. As cenas desse filme são provavelmente as mais grotescas da série o que faz com que o filme fique muito interessante e de certa forma perturbador.


Um filme excelente que eu recomendo todos assistirem imediatamente. Nota 10 para o filme, para Thomas Harris e por fim para Anthony Hopkins que interpretou o personagem com uma maestria ímpar!!!
Sim sim, tem esse pequeno detalhe que deixei para o final....não existe Hannibal Lecter sem Anthony Hopkins!




(Nota do Editor: o Fotograma também poderá ser lido no Cinema Total a partir de hoje. Lá, algumas resenhas antigas para aguçar quem não nos conhece no site, e em breve um material exclusivo para os que nos leem por aqui. Divulguem: www.cinematotal.com/fotograma )

domingo, 4 de julho de 2010

Esquadrão Classe A
(The A-Team, 2010)
Thriller/Ação - 117 min.

Direção: Joe Carnahan
Roteiro: Joe Carnahan, Brian Bloom e Skip Woods

Com: Liam Neeson, Bradley Cooper, Jessica Biel, Quinton "Rampage" Jackson, Sharlto Copley, Patrick Wilson

A Série Esquadrão Classe-A é grande conhecida de uma geração de adultos. Uma série descompromissada e cheia de ação que tinha personagens carismáticos, episódios divertidos e um nível técnico acima da média. E ainda tinha Mr. T., engraçado e bad-ass em um papel que fez parte de uma geração e que deu evidência ainda maior para o astro. E, como todo grande sucesso da TV, a série atraiu os olhos hollywoodianos, ávidos por novas franquias, mesmo que isso nunca tenha rendido um ótimo filme nas telas. Para cada As Panteras, temos dois Sou Espião. Porém, com o tempo, o filme dos 4 especialistas no absurdo tomou forma e com uma excelente parte técnica. Liam Neeson tinha abraçado o projeto, o elenco estava ótimo, o estiloso Joe Carnahan assumia a direção e até mesmo haviam arrumado um cara parecido com o Mr. T.

Enfim, o resultado visto nas telonas é recompensador. O filme tem seus defeitos, que não são poucos, mas agrada demais. Diversão garantida e que respeita o espectador, entrando no cinema com méritos. Ao público antigo, old-school, fã da série, temos um filme respeitoso e que flerta com novos horizontes, servindo como um prelúdio da série, um A-Team Begins, não só modernizando os personagens como mantendo o espírito de cada um deles. As situações inverossímeis da série também estão aqui e só estão presentes para divertir ainda mais. Aos não-iniciados na série, temos um legítimo produto feito pra entreter por 110 minutos, que só tem a agradar mais quando visto pela segunda vez e que consegue algo que é raro e emocionante hoje em dia: cria um interesse em conhecer mais a série antiga.


A trama, assumidamente rasa, acompanha um time de soldados especiais que se encontram pela primeira vez 8 anos antes do filme. Nesse primeiro encontro, descobrimos que dois desses soldados são Hannibal (Liam Neeson) e Cara-de-Pau (Bradley Cooper) e que Hannibal está tentando salvar Cara-de-Pau de uma gangue. Porém, Hannibal precisa de um furgão. E Bosco Barracus (Quinton Jackson) está na cidade com seu furgão e encontra Hannibal no meio do deserto. Uma operação absurda depois, incluindo uma divertidíssima sequência de helicóptero, pilotado pelo insano Murdock (Sharlto Copley), e o time está formado. Porém, 8 anos depois, o grupo é acusado de traição pelo roubo de formas de dinheiro no Iraque. Presos, eles recebem a ajuda de Lynch (Patrick Wilson) e tem que provar sua inocência.

O roteiro, escrito por Briam Bloom, Joe Carnaham e o irregular Skip Woods, agrada bastante pela consciência do que ele representa. É um roteiro previsível, cheio de situações arquetípicas, mas recheadas de humor e que se assumem divertidos, sem grandes ambições. Entretenimento é a chave segundo os escritores e isso é ótimo. Em tempos de ambiciosos remakes épicos e pancadaria descompassada de robôs, Esquadrão Classe A encontra um espaço. Por mais inverossímeis que sejam as situações (a sequência do tanque é insana), elas fazem sentido e não ofendem. E a construção de personagens, uma especialidade da série e essencial pra uma possível franquia, é excelente e só ajuda o filme. Sem contar a fidelidade á série. Hannibal continua genial, Cara-de-Pau continua irresponsável, B.A continua sendo um brutamontes sensível e Murdock está mais maluco que nunca. Falando em Murdock, suas tiradas de humor são fantásticas, abrangendo de Blue Man Group até mesmo a nacionalidade de Sharlto Copley.


Nas partes técnicas, o filme também agrada. A direção de Joe Carnahan não tem a marca assinada e estilo esbanjado como em Narc e A Última Cartada, mas tem bons enquadramentos e fluidez nas cenas de ação. Acompanhando a direção, temos uma edição igualmente fluente. A fotografia do oscarizado Mauro Fiore faz uma boa homenagem á série, com tons desérticos e insiste na mania atual de retratar o Bem com tonalidades azuis e o Mal com tonalidades laranjas. Apesar de clichê, serve e é mediana. A trilha sonora de Alan Silvestri também homenageia a série e cria uma trilha tipicamente americana e com tons patrióticos, bem de exército.

Nas atuações, pontos a mais, apesar de um enorme incômodo. Liam Neeson está no limite do caricato, o que funciona. Não espere ver uma magistral atuação do ator e todos sairão satisfeitos. Bradley Cooper também segue esse ritmo, mas por estar em início de carreira, já dá pra ter um panorama maior dela. Atingindo o ápice do action guy aqui, o ator se concretiza como um ator de blockbuster acima da média, sendo engraçado quando pedido (Se Beber não case!) e tendo carisma quando pedido (como aqui). Quinton Jackson tinha a tarefa mas árdua do elenco, mas capta perfeitamente o carisma e o bom coração de B.A. Ainda mais no final, quando seu lado brutamontes entra em evidência. E, a melhor atuação, Sharlto Copley. O excelente ator de Distrito 9 já provou que tem densidade dramática, mas aqui ele mostra seu lado cômico. São dele as melhores tiradas do filme e até nas sequências de ação, suas tiradas insanas servem. Não só pra entreter, mas também pra construir o personagem como um cara insano. Jessica Biel, no papel da Agente Sosa, só serve pra ser um colírio e não compromete.



Porém, existe o tal incômodo já citado. E ele responde por Patrick Wilson. Estranho pensar que o competente ator de Watchmen e Pecados Íntimos tenha feito um personagem tão estúpido e ridículo como Lynch. Quando tem que ser engraçado, ele exagera na dose e quem dá as cartas é a vergonha alheia. Quando tenta fazer algo mais sério, tenta fazer a caricatura do vilão. Tão esdrúxulo que só faltava ele pedir pro mocinho passar para o lado dele no final. Enfim, suas cenas são tão fracas que o filme até perde ritmo, incomodando um pouco.

Apesar de Wilson, Esquadrão Classe A flui muito bem e aposta nas cartas certas, provando que entretenimento puro e divertido pode render bons filmes, sem incomodar a crítica. Apesar de não ser relevante artísticamente, vale a pena gastar dinheiro com o filme. Joe Carnahan, apesar de ter acabado com seu lado autoral e ter se rendido aos caprichos de estúdio com esse blockbuster, consegue criar um universo divertido e interessante, apesar da densidade dramática zero. Agora fica a torcida pro filme arrecadar bastante, pra que haja uma sequência tão frenética quanto essa.


sábado, 3 de julho de 2010

Harry Brown
(Harry Brown, 2009)
Thriller - 103 min.

Direção: Daniel Barber
Roteiro: Gary Young

Com: Michael Caine, Emily Mortimer


Quando vi o trailer de Harry Brown, a primeira imagem que me veio a cabeça - e pelo que li internet afora não foi uma impressão somente minha - é que Michael Caine faria o seu Desejo de Matar. Como o cinéfilo sabe a série de quatro filmes citada era sobre um homem comum que se via numa posição de revanche contra aqueles que lhe faziam mal. O vigilantismo pregado pelo personagem de Bronson, inspirou - e imagino não tenha sido o primeiro a fazer isso - dezenas de outros filmes. A imensa maioria sem um pingo de qualidade ou carisma que o genial Charles Bronson tinha nesse e em diversos outros papéis durante sua longa e subestimada carreira.

Harry Brown era uma gigantesca oportunidade para o vigilantismo ser novamente bem representado em tela. Tinhamos uma história simples - que não era mostrada no trailer - , o que eu particularmente sempre prefiro e Sir Michael Caine. A geração mais nova talvez não saiba, mas durante muitos anos Caine foi sinônimo de filme policial com The Italian Job (original), Carter-O Vingador, Jogo Mortal entre outros. Caine era o símbolo do filme policial britânico e se hoje usualmente o vemos como o "velhinho" simpático e inofensivo, é muito em função de sua (óbvia) idade. Caine é dos mais completos atores vivos (se não for o maior). Um mestre e um dos mais precisos em cada filme que apresenta.


E é quase que exclusivamente por Caine que Harry Brown sobrevive. Sua interpretação carregada de reflexões sobre sua própria finitude é um achado - um dos poucos - do filme do diretor Daniel Barber. Muito mais um estudo sobre a passividade da sociedade do que propriamente um filme de vingança Harry Brown começa lento e claudicante, não sabendo se acompanha Brown, ou se estuda a sociedade. Se tivesse permanecido apenas em Brown as comparações antecipadas com os filmes de Bronson caberiam melhor. Mas Brown não é mostrado como um homem comum, mas sim como um homem a beira do abismo. Totalmente destruído por sua própria vida e fragilizado e passivo em sua velhice e nos derradeiros passos para o fim. Essa passividade é o reflexo do que Barber e seu roteirista Gary Young vislumbram de sua sociedade. Um povo encolhido e medroso frente ao inimigo que mora ao lado.

O inimigo por sua vez é mostrado como alguém sem causas e sem ideiais - exemplificado em um diálogo do próprio personagem de Caine no filme - uma massa acerebrada e que lida com a violência como um jogo, como uma diversão ligeira.

É uma pena que a discussão sobre a violência que o filme ensaia fazer fique apenas na intenção, pois as lentes do diretor voltam-se para a vingança - esperada é verdade - do homem contra o meio. E ao optar por essa saída perde-se um possível diferencial frente a outras obras. Harry Brown torna-se mais um filme policial mediano e sem graça em muitos momentos.


O ritmo talvez seja o principal inimigo do filme. Apesar de ter inacreditáveis 103 minutos, o filme parece sofrer de algum complexo sobrenatural, já que sua primeira meia hora é "gorda", repleta de informações interessantes que prendem a atenção e transformam trinta minutos em duas horas, tal quantidade de situações relevantes que são apresentadas. Depois disso o marasmo toma conta e o restante dos minutos voa e o espectador se pergunta: "o que eu perdi?" A resposta é cortante e objetiva: "Absolutamente nada". A excessão de uma tentativa de sequência de matança na metade do filme e de um ataque do nosso "herói" a dois traficantes, nada de mais acontece. Nem mesmo os dez minutos finais, que tradicionalmente são cercados de adrenalina e visceralidade conseguem convencer. Tudo é muito esteril e ainda ousa machucar quem assiste com uma revelação inoportuna - para ser delicado.

Nem tecnicamente Brown consegue sair do marasmo narrativo. Trilha (de Ruth Barrett e Martin Philips) mediana, edição (Joe Walker) e estilo de direção clássico e fotografia (Martin Ruhe) que apenas tenta ampliar os cenários, tranformando-os em grandes quadros. O problema é que estamos num filme urbano, cinzento e escuro e esse recurso não funciona tão bem. Talvez uma aposta mais "suja" funcionasse melhor.


Harry Brown tinha muito potencial. A dupla Caine/filme policial já foi brilhante. Uma pena que esse não será lembrado como um dos trabalhos a se juntar na galeria do grande ator inglês.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Amigos fotogramicos é com grande prazer que apresento dois novos colaboradores (espero que eternos) do nosso espaço cinematográfico, são eles Ana Carolina e Luiz Gustavo. Sim, um casal, unido por gostos, talento e amor (que coisa linda). Ambos são criadores do mais interessante e sensacional site/blog sobre tokusatsu do país, o Senpuu . E a partir de hoje também fazendo parte do Fotograma Digital.

Abaixo, os pombinhos fizeram sua apresentação ao pessoal daqui:

"Ana Carolina e Luiz Gustavo são um casal nerd, fascinado por cinema, séries de TV, vídeo game, internet, mídias sociais e comunicação. Além disso, uma paixão especial se tornou site e podcast: o tokusatsu. É, aquelas séries japonesas que as pessoas lembram com nostalgia ou desprezo. Estamos a 1 ano da formatura em jornalismo e publicidade e agora, mais do que nunca, produzindo conteúdos sobre o que gostamos".



OS DIFERENTES PAÍSES DA MARAVILHA



Ângulos distintos para um mesmo conto infantil
A arte de contar histórias é milenar. Desde os mitos para reforçar a socialização até os livros digitais, as narrativas já tiveram funções e formas bem distintas. Usando do método de narrar histórias, foi no improviso que Charles Lutwidge Dodson (depois conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll), inventou a história de uma menina que cai no buraco de um coelho e é transportada para o País das Maravilhas.

Depois de a história ter sido transformada em livro de autoria do próprio Carroll, Alice ganhou sua versão mais popular com a animação feita por Walt Disney em 1951 e, no ano de 2010, ganha um remake cinematográfico dirigido por Tim Burton, também financiado pelos estúdios Disney.


Por serem plataformas diferentes, as obras literárias e os longa metragens acabam por ter algumas divergências, mesmo ao contar a mesma história. A questão estética pode ser considerada o maior diferencial, conforme destaca o jornalista e professor universitário Nísio Teixeira: “acho as adaptações interessantes e válidas, embora não possamos, às vezes, cobrar do cinema uma fidelidade extrema, pois, afinal, são duas propostas estéticas diferentes.”

O escritor e doutor em literatura comparada, Ricardo Benevides, ressalta a diversidade entre as duas expressões e enfatiza que versões cinematográficas podem ser feitas com qualidade, sem necessariamente precisarem “competir” com a obra literária original. “Acho inteiramente possível que bons cineastas produzam boas adaptações de obras literárias para o cinema. A questão da fidelidade radical ao original é que nem sempre é possível, por se tratar de suportes tão diferentes.”, afirma.


Para Nísio Teixeira, a mudança de foco das duas representações pode ser considerada positiva devido à apropriação de uma obra com a proposta de um novo olhar estético. Já uma desvantagem das adaptações, para o professor é a busca de uma fidelidade impossível de ser alcançada, descaracterizando cada linguagem específica: “recorrer sempre a um narrador em off, que conta a história para o espectador como se a gente estivesse lendo o mesmo narrador no livro. Já que é pra fazer cinema com o livro, então é melhor fazer cinema do que uma representação visual do que foi lido.”, ressalta o jornalista.

Por fazer parte do gênero literário nonsense, “Alice no País das Maravilhas” pode até ser considerada uma história propícia para a linguagem do cinema. Benevides ressalta que o enredo tem muitas reviravoltas, com obstáculos para a personagem a todo momento: “este fato, por si só, contribui para que o roteirista produza pequenos clímaces ao longo da narrativa, de modo a prender o espectador. Há também nesse cenário - o do país das maravilhas - uma quantidade enorme de elementos adequados à representação sob a forma da imagem, algo que já estava nítido nas primeiras edições do livro, com ilustrações do John Tenniel.”, diz o escritor.


Mesmo sem ainda ter visto a versão mais recente, Benevides destaca a estética trabalhada por Tim Burton: “estou curiosíssimo, já vi o trailer, fotos, figurinos e cenários. E, sem ver o filme, essas imagens confirmam minha impressão sobre a exploração sob o ponto de vista da representação. Se o filme é capaz de prender o público, entreter, mantendo-se minimamente fiel à obra do Carroll, aí já é outra história.”

EFEITOS ESPECIAIS – As animações em stop-motion são freqüentes na filmografia de Tim Burton, podendo ser destacados “O estranho mundo de Jack” (1993) e “A noiva cadáver” (2005). Além disso, o diretor e produtor usa efeitos especiais de todos os tipos em suas produções.



Ricardo Sousa, bacharel em animação pela UFMG, comenta que no mundo da animação já foram feitas várias adaptações da história de Alice: “Walt Disney, em 1923 já utilizava a técnica para colocar a atriz Virginia Davis no papel de Alice em um mundo fantástico de possibilidades descabidas. Colocar uma atriz de verdade num mundo de animação mostrava a versatilidade da técnica em ligar os diferentes aspectos estéticos ás diferentes formas de linguagem.”

Sousa lembra ainda da versão mais famosa da produtora americana e fala sobre uso de outras técnicas para representar o País das Maravilhas: “No longa metragem de 1951, Disney criou um mundo psicodélico, mas limitado pela bi dimensionalidade. Já o artista surrealista Jan Svankmajer, mesclou live-action com stop-motion, técnica em que é especialista, usufruindo da tridimensionalidade de técnica.”


O bacharel em animação, que assistiu ao novo longa metragem no cinema, lembra que atualmente o avanço por parte da computação gráfica nos efeitos visuais torna difícil distinguir o que é live-action do que é animação. Personagens e cenários criados inteiramente no computador mesclam com perfeição com atores reais.

Ele lembra ainda que as possibilidades geradas pela tecnologia de hoje, no campo dos efeitos visuais, ajudam a aumentar o universo de opções criativas para o diretor e suas possibilidades de surpreender o espectador, mas ressalta: “nada supera a criatividade de cada autor. As primeiras animações baseadas na obra literária não perdem em nada em termos visuais para lançamento recente dirigido pelo Tim Burton, que utiliza das novas possibilidades que a computação gráfica oferece.”, diz.


PÚBLICO – Apesar das críticas, a nova versão de “Alice no País das Maravilhas” obteve a maior bilheteria de abertura da Disney no Brasil. A estreia do longa arrecadou R$ 10,6 milhões e levou mais de 876 mil pessoas aos cinemas. Críticos de cinema como Maurício Saldanha e Pablo Villaça, consideraram o filme com enredo fraco, apesar de ser “visualmente eficiente”, conforme descreveu Villaça.

A ideia de trazer a personagem principal mais velha, retornando ao mundo imaginário, não foi muito bem vista por alguns. A opinião do público, no entanto, parece ser diferente. A fisioterapeuta Gabriela Alencar foi ao cinema acompanhar a versão 3D da história e conseguiu associar o enredo com a obra literária: “em ambas as versões, a personagem tenta ‘fugir’ de uma realidade da qual se sente entediada e desestimulada. Na versão de 1951, Alice, ainda criança, acessa o país das maravilhas no momento em que tinha aulas monótonas de história. Na versão atual, Alice, já adolescente, ao se deparar com a possibilidade de um casamento entediante, novamente transporta-se para aquele mundo.”, compara.



Quanto aos personagens, a estudante do curso de administração, Renata Rocha, sentiu falta de algumas cenas clássicas da primeira animação da Disney: “O filme é muito interessante, abusa dos efeitos visuais. Senti mesmo falta da antológica cena em que, Alice está perdida e, de repente, vê no alto da árvore o gato. Ela olha para cima e, ao dizer que não sabe para onde pois está perdida, escuta a resposta ‘Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve’.", ressalta.

Admirador da obra de Carroll e do trabalho de Tim Burton, o estudante do ensino fundamental Victor Mendonça destaca que gostou dos personagens da nova versão e diz que: “apesar de alguns problemas gerados pela inexperiência do diretor com o 3D – que acaba sendo menos utilizado do que deveria -; a falta de ritmo e de estrutura do roteiro e a batalha final que não convence, ainda vale a pena assistir Alice no País das Maravilhas.”


CONHEÇA ALICE

A primeira adaptação cinematográfica de “Alice no País das Maravilhas” é datada de 1903 e está disponível no Youtube. A BFI National Archive restaurou a imagem e o som do curta, que foi disponibilizado na internet. Originalmente com 12 minutos de duração, a estética foi baseada nas ilustrações originais do livro e o filme foi lançado apenas 37 anos após a primeira publicação da história de Lewis Carroll. Um dos diretores, Cecil Hepworth, escalou sua esposa para interpretar a Rainha Vermelha e ele mesmo atuou como “Frog Footman”. O gato de estimação da família fez o papel do Gato de Cheshire.

Desde 1923, Walt Disney desejava lançar um filme relacionado com os livros de Alice de Lewis Carroll. A ideia era lançar uma combinação de atores reais com cenário animado, o que foi deixado de lado após o lançamento de uma versão live-action da história pela Paramount. Embora o filme tenha sido um fracasso de bilheteria quando lançado nos cinemas em 1951, depois de alguns anos se tornou o filme Disney mais requisitado para cópias de locação para universidades e escolas. Em 1974, o estúdio relançou o filme nacionalmente nos cinemas. Inicialmente negligenciado por público e crítica, passou a ser admirado como um “filme cabeça” por uma nova geração por suas imagens coloridas e psicodélicas.





O mais novo remake da história de Alice foi dirigido por Tim Burton, que traz a personagem principal como uma jovem mais velha, que não quer se casar e por isso retorna ao País das Maravilhas. Desesperada, ela foge seguindo um coelho branco, e vai parar novamente no mundo fictício que já havia visitado quando criança. Com personagens representados por atores, e efeitos especiais para as roupas e cenários, Burton segue sua linha estética para dar sua versão da obra literária. O mundo imaginário particular do diretor traz Alice para um universo mais obscuro e diferente. Os personagens continuam excêntricos, usam de humor negro e ácido, além de encherem o mundo de imaginação já existente no enredo com suas peculiaridades criadas por Burton.

Além de filmes baseados diretamente na obra de Lewis Carroll, existe também o drama “Phoebe in Wonderland” (2008). O enredo mostra a vontade de Phoebe Lichten (Elle Fanning) em participar da peça “Alice no País das Maravilhas”. Rejeitada pelos colegas na escola e não conseguindo realizar seu sonho, a menina começa a confundir suas fantasias com a realidade.

FICHAS TÉCNICAS

• Título original:Alice in Wonderland
• Gênero:Aventura
• Duração:01 hs 48 min
• Ano de lançamento:2010
• Site oficial:http://disney.go.com/disneypictures/aliceinwonderland/
• Estúdio:Walt Disney Pictures / Tim Burton Productions / Roth Films / Team Todd / The Zanuck Company
• Distribuidora:Buena Vista International
• Direção: Tim Burton
• Roteiro:Linda Woolverton, baseado em romance de Lewis Carroll
• Produção:Tim Burton, Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd e Richard D. Zanuck
• Música:Danny Elfman
• Fotografia:Dariusz Wolski
• Direção de arte:Tim Browning, Todd Cherniawsky, Andrew L. Jones, Mike Stassi e Christina Ann Wilson
• Figurino:Colleen Atwood
• Edição:Chris Lebenzon
• Efeitos especiais:Sony Pictures Imageworks / Svengali Visual Effects / Plowman Craven & Associates / CafeFX / Matte World Digital


• Título original:Alice in Wonderland
• Gênero:Animação
• Duração:01 hs 15 min
• Ano de lançamento:1951
• Estúdio:Walt Disney Productions
• Distribuidora:RKO Radio Pictures
• Direção: Clyde Geronimi , Wilfred Jackson , Hamilton Luske
• Roteiro:Winston Hibler, Ted Sears, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Milt Banta, William Cottrell, Dick Kelsey, Joe Grant, Dick Huerner, Del Connell, Tom Oreb e John Walbridge, baseado em livros de Lewis Carroll
• Produção:Walt Disney
• Música:Oliver Wallace
• Edição:Lloyd L. Richardson


• Título original:Alice in Wonderland
• Cinema mudo
• Duração:12 min
• Ano de lançamento:1903
• Restauração: BFI National Archive com apoio de The Headley Trust and The Pilgrim Trust.
• Direção: Cecil Hepworth and Percy Stow
• Música: : 'Jill in the Box', composição e execução de Wendy Hiscocks
• Link para youtube: http://www.youtube.com/watch?v=zeIXfdogJbA


• Título original: Alice's Adventures in Wonderland,
• Gênero:literatura nonsense ou surrealismo
• Ano de lançamento:1865
• Autor: Charles Lutwidge Dodgson, sob o pseudônimo de Lewis Carroll

quinta-feira, 1 de julho de 2010

The Broken
(The Broken, 2008)
Suspense - 88 min.

Direção: Sean Ellis
Roteiro: Sean Ellis

Com: Lena Headey, Melvil Poupaud, Richard Jenkins

The Broken é um pequeno, mas razoavelmente interessante suspense sobrenatural inglês (com grana da francesa Gaumont) que pretende em pouco mais de oitenta minutos contar uma tradicional - e pouco imaginativa - história de horror nos moldes das antigas produções setentistas, onde o clima e a tensão eram resultado de elementos estéticos e artísticos a cargo do diretor e equipe.

Pois bem, The Broken aborda um elemento tradicional em algumas narrativas fantásticas: o gêmeo do mal, ou alguma espécie de entidade que "rouba" a identidade de outro. O condutor dessa história é a personagem de Lena Headey (a radiologista Gina McVey) que (o filme não explica) envolve-se nessa trama rocambolesca e sobrenatural sobre trocas de identidade.


O filme escolhe como condutor do desconhecido um elemento bastante banal e comum em todas as casas mundo afora: o espelho. Isso causa - propositalmente imagino - uma segunda discussão estilística: o uso do espelho como forma de reflexo da maldade inerente ao homem. Ao apresentar o objeto quebrado (várias vezes durante o filme aliás), ele parece dizer que ao se quebrar o espelho libera para o mundo o nosso lado negro. A direção de Sean Ellis usa e abusa do uso dos espelhos por toda a projeção, o que é inicialmente um bom exercício de estilo, mas que com o tempo torna-se enfadonho e incômodo.

Porém Ellis, apesar do excesso com seu fetiche por espelhos, apresenta um trabalho bastante consistente nas seqüências de suspense e tensão. Em especial atente-se para uma em que a personagem de Headey está numa banheira. Nela fica exemplificado o que Ellis faz de melhor. Câmera bem posicionada, fotografia que auxilia a idéia do roteiro (em vez de tentar sobrepujá-la), uma atuação sutil da atriz, edição que favorece a tensão e trilha sonora na medida. Se Ellis conseguisse manter esse nível durante todos os mais de oitenta minutos, teríamos um excelente trabalho.


Os problemas são os que quase sempre derrubam 9 entre 10 produções que se situam no mundo do fantástico, misterioso e afins: o roteiro. Como disse acima a trama é rocambolesca, com furos constantes (que os mais atentos vão "pegar" fácil) e dotada de um final surpresa - nem tão surpresa assim, já que faltou competência a Ellis (também roteirista) para não escancarar suas pistas - que honestamente confundiu esse que escreve. Não me considero nenhum gênio, mas não sou nenhum acéfalo, por isso precisei rever certos trechos do filme uma segunda vez para tentar entender o que o diretor propôs. Ao rever ficaram claro alguns furos (outros).

A parte técnica de Broken é muito boa. Além de Ellis ter a "manha" nas seqüências de suspense, ele teve inteligência para não querer inventar demais quanto à edição e principalmente fotografia. A edição de Scott Thomas se não é um primor de originalidade, pelos menos não ofende os puristas do suspense clássico e não se rendeu ao "piscou-perdeu" que tanto irrita aos não criados pela MTV. Já a fotografia (a cargo de Angus Hudson, que curiosamente é listado como "operador de câmera") é aquela que todo mundo conhece de "n" outros filmes de suspense. Acinzentada e gélida, transmitindo lugubridade, solidão, angústia e desesperança. Funcional apesar de nada original.


Funcional também é a trilha de Guy Farley que é incidental e tem função de amplificador do que Ellis quer mostrar em tela.

Ellis é "novato" e por isso merece um crédito por apresentar boa condução da ação, mas perdeu uma grande oportunidade de transformar Broken em algo mais que mediano. Há primeira meia hora é bastante interessante, mas o desenrolar é tão confuso e sem sal (o que é o personagem de Melvil Poupaud ?) que o espectador sente-se cansado mesmo vendo pouco menos de noventa minutos de ação.