sexta-feira, 27 de julho de 2012

Além da Liberdade


Além da Liberdade
(The Lady, 2011)
Drama/Romance - 132 min.

Direção: Luc Besson
Roteiro: Rebecca Frayn

Com: Michelle Yeoh, David Thewlis

Em minha infinita ignorância, tomei conhecimento da historia de Aung San Suu Kyi apenas há dois anos, quando assisti ao excelente documentário Burma VJ (leia a crítica aqui) que em determinado momento apresentava e contava um pouco sobre a historia da personagem desse novo filme do diretor francês Luc Besson.

Suu Kyi (Michelle Yeoh) é uma ativista política, filha de Aung San considerado um dos principais nomes da política de seu país, Birmânia. A primeira cena do filme mostra a pequena Suu ouvindo uma historia folclórica de seu pai, e ele, por sua vez, é assassinado por seus rivais na cena seguinte. Besson usa essa cena para apresentar a dificuldade que a política do país enfrenta e para dizer que Aung San era um sonhador, um líder que lutava pela democracia e a liberdade no país. Esses eventos acontecem em 1947 e o filme pula diretamente para 1997, quando Michael Aris descobre que tem um câncer em estado grave e que tem pouco tempo de vida, o que o faz se recordar de eventos de sua vida com sua esposa, a não tão pequena Suu.

O que o filme não mostra são os eventos históricos que acontecem entre 1947 e 1988, data do primeiro dos flashbacks de Aris. Durante esse período, Suu e sua mãe Khin Kyi, que depois da morte do marido tornou-se uma figura influente na política do país, partiram da Birmânia. A mãe de Suu foi embaixatriz na Índia e Nepal em 1960, onde ela foi educada. Suu tem dois irmãos, um deles ainda na Birmânia, morreu ao se afogar em um lago, e o outro - mais velho - emigrou para os Estados Unidos antes da família se mudar para a Índia. Depois de morar com a família de uma cantora pop birmanesa em Nova Iorque e de ter mantido um relacionamento com um estudante do Paquistão, Suu trabalhou nas Nações Unidas, onde conheceu seu marido, Michael Aris, que já era um historiador reconhecido da historia do Tibet. Eles se casaram, tiveram dois filhos e ela continuou sua carreira, conseguindo títulos nas universidades de Londres (PHD na escola de estudos asiáticos e africanos).


Quando a historia - no filme - começa ela é a dedicada esposa do professor Michael Aris (David Thewlis) e recebe a notícia de que sua mãe está morrendo em seu país natal. Decide visitá-la e permanecer a seu lado em seus últimos dias de vida. Durante sua estadia testemunha a violência dos militares que tomam conta do país e vista como símbolo de um passado mais justo (graças ao seu pai evidentemente), é aos poucos cooptada para a causa. Besson não está interessado especificamente na causa e na luta, por isso - de maneira infeliz na minha visão - ignora os meandros políticos da situação.

Essa visão maniqueísta fica clara quando o foco está nos militares, vistos aqui como a personificação do mal. Longe de mim tentar "aliviar a barra" dos medíocres governantes do país, mas Besson pesa a mão na representação, tornando enfadonho o acúmulo de pequenas maldades que - em teoria - deveriam justificar os motivos do general (e de sua equipe) ser tão odiado. Além de sempre mostrados em um ambiente mais escuro e com a câmera sempre mais próxima do que de qualquer outro personagem, o que amplia a sensação de claustrofobia e de desconforto presente no ambiente, Besson inclui algumas sequências quase gratuitas de maldades somente para nos esfregar na cara a ideia de que eles são muito, muito maus.

Por outro lado, o diretor acerta na condução da historia que efetivamente ele quer contar: o romance complexo e difícil entre Suu e Aris. Sem apelar para o melodrama, Besson parece intrigado na vida daqueles dois que desde o final dos anos 80, até a morte de Aris em 99, se viram apenas cinco vezes, e mesmo assim continuaram apaixonados um pelo outro. Talvez falte um pouco de conflito, em especial vindo do personagem de David Thewlis, que aceita muito fácil a ideia da separação forçada de sua mulher.


Ancorado na sensação épica - sem fim - Besson recheia seu filme de planos abertos para ilustrar a atmosfera exótica da Birmânia enquanto preenche os espaços com uma trilha sonora genérica "asiática", sem nenhuma personalidade, apesar de bem realizada.

Michelle Yeoh tem uma boa atuação como a revolucionária e apaixonada Suu. Vista como uma seguidora dos métodos de Gandhi (é vista inclusive lendo a respeito) é o alter-ego da sabedoria oriental, que já era perceptível em seu pai. Se os primeiros quarenta minutos do filme são arrastados e pouco interessantes, quando o impacto emocional de sua revolta no país começam a ser percebidos pelas autoridades, o filme ganha em dramaticidade e força. Contida em sua alegria e em sua dor, Yeoh tem um trabalho inteligente e que se apóia na retidão de sua personagem, que parece nunca esmorecer, com a exceção de uma cena, que Besson é respeitoso em não mostrar com detalhes, como se desse espaço para aquela mulher sofrer em paz.

Thewlis tem uma tripla jornada. Vive o empolgado e feliz Michael do passado do filme, um homem apaixonado, honesto e seguro. Um verdadeiro companheiro, que sabe deixar sua mulher em foco sem se importar em manter-se nas sombras. Talvez a falta de conflito já especificada nessa crítica dê essa impressão de que Michael seja um sujeito tão compreensivo. Thewlis também vive o resignado e doente Michael "do presente", que está convencido de que dificilmente conseguirá rever sua esposa antes de morrer. Thewlis ainda tem outro pequeno papel, o de seu irmão gêmeo, que tem a personalidade, vestuário e modo de agir diferente do irmão.


Apesar de contido no melodrama, o diretor dá algumas escorregadas pontuais. Em determinado momento, por exemplo, ele mostra diversos personagens oferecendo comida a Suu, que se recusa a se alimentar. O diretor repete a "piada", a cada personagem que tenta em vão fazê-la comer. Besson ignora um pouco a questão política posterior ao falecimento de Michael (e, por favor, não me venham com essa de "isso é um spoiler" porque essa é uma biografia e os fatos estão aí para quem quiser pesquisá-los) que é tão - ou mais - interessante do que a vida da personagem até então.

Mas como disse, não é o foco. Besson fez aqui uma homenagem a Suu, por um viés "humano", apostando na sua historia de amor. Não é um erro, e o filme é emocionante em alguns momentos, mas diante da historia real, seria bom termos visto mais da real importância da personagem para seu país e o mundo.

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